Em defesa da pasteurização
#108 – São Paulo, 8 de julho de 2025
Não é permitido embolsar o açúcar
Edição especial pindaíba
hortifruti.org
“Eu não posso entrar na Geórgia porque eu nunca saí da Geórgia”
(Paulo Henrique Martins, sobre vistos e passaportes)
“Quando eu quero lembrar quem sou, eu leio A Hortaliça”
(leitor anônimo)
:: EDITORIAL :
(A pedido de nosso Departamento Jurídico)
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:: CAFÉ COM MOSCA ::
George Orwell, Na pior em Paris e Londres
Você se perdeu e foi dar num bairro respeitável, e vê um amigo próspero que se aproxima. Para evitá-lo, você se esconde no café mais próximo. Lá dentro, precisa comprar alguma coisa, então gasta seus últimos cinquenta cêntimos num copo de café com uma mosca morta dentro.
:: TRILHA SONORA ::
Linda Tirado, Hand to Mouth
Ser pobre é como estar sempre sendo seguido por violinos tocando uma trilha sonora de tensão.
[Being poor is something like always being followed around by violins making “tense” movie music.]
:: A SITUATION ::
Barbara Ehrenreich, Nickel and Dimed
Neste caso, o “lar” não é um lugar de descanso; é mais parecido com o que se conhece no jargão militar como uma “situação”.
[Home in this instance is not a restful place; it’s more like what is known in the military as a “situation.”]
:: BEBER ÁGUA SANITÁRIA ::
Daniel Immerwahr, “The Revolt Against Expertise”
Os liberais defendem a ciência. Já o Partido Republicano defende beber água sanitária, surtar com pedófilos satanistas e culpar lasers espaciais judeus por incêndios florestais.
[Liberals stand for science. The G.O.P. stands for drinking bleach, freaking out about Satanist pedophiles, and blaming wildfires on Jewish space laser.]
:: AQUI NÃO ::
Elizabeth Kolbert, “How Captain James Cook…”
Em 2019, no duzentésimo quinquagésimo aniversário do desembarque de Cook na Nova Zelândia, uma réplica de seu navio fez uma turnê oficial pelo país. Segundo o governo neozelandês, a turnê tinha como objetivo oferecer uma oportunidade para refletir sobre a história complexa da nação. Alguns grupos Maori proibiram o navio de atracar em seus portos, alegando que já haviam refletido o suficiente.
[In 2019, the two-hundred-and-fiftieth anniversary of Cook’s landing in New Zealand, a replica of the ship he’d sailed made an official tour around the country. According to New Zealand’s government, the tour was intended as an opportunity to reflect on the nation’s complex history. Some Māori groups banned the boat from their docks, on the ground that they’d already reflected enough.]
:: DEPRESSÃO ::
Gary Gulman, The Great Depresh
Psiquiatra: “Quer saber? Vamos tentar remédios que rimem!”
[Psychiatrist: “Let’s just try drugs that rhyme!”]
:: PREFIRO AS COUVES-FLORES ::
Virginia Woolf, Mrs. Dalloway
[…] até que Peter Walsh disse: “Meditando entre os legumes?” — foi isso? — “Prefiro homens a couves-flores” — foi isso? — Ele deve ter dito isso num café da manhã, numa manhã em que ela tinha saído para o terraço.
[until Peter Walsh said: “Musing among the vegetables?” – was that it? – “I prefer men to cauliflowers” – was that it? – He must have said it at breakfast one morning when she had gone out on to the terrace.]

:: SUJOS ::
George Orwell, Na pior em Paris e Londres
Esfregávamos as mesas e sempre políamos os utensílios de metal, pois recebíamos ordens para fazer isso; mas não recebíamos ordens para ser genuinamente limpos e, de qualquer modo, não tínhamos tempo para isso. Estávamos apenas cumprindo nossas obrigações; e como nosso primeiro dever era ser pontual, economizávamos tempo sendo sujos.
:: TRUMP ::
Daniel Immerwahr, “The Revolt Against Expertise”
Vacinas, 11 de Setembro, redes 5G, pasteurização, flúor, AIDS, vazamentos de laboratório, fraude eleitoral, assassinatos — “ele é maluco em muitas frentes”, concluiu o conselho editorial do New York Post.
[Vaccines, 9/11, 5G networks, pasteurization, fluoride, AIDS, lab leaks, electoral theft, assassinations—“he’s nuts on a lot of fronts,” the New York Post’s editorial board concluded.]
:: PROIBIDO ::
George Orwell, Na pior em Paris e Londres
Na parede, ao lado de meu assento [em um café em Tower Hill], um aviso dizia: “Não é permitido embolsar o açúcar”.
:: MULHERES QUE GRITAM ::
Saskia Vogel, “A Woman Screaming”
Há muito tempo, consegui me desvencilhar de um relacionamento abusivo — emocionalmente e, em algumas ocasiões, fisicamente. Isto é, consegui me desvencilhar do relacionamento. O homem ainda me assombra.
Ele se manifesta na maneira como eu me encolho se alguém se move para me tocar, se não aceita um “não” como resposta, nos sonhos recorrentes em que ele aparece calmo e cruel, com todo o controle nas mãos. Sou apenas uma mulher gritando, desejando que as pessoas ao nosso redor percebam a complexidade da situação — mas, em vez disso, acham que eu é que estou errada: perturbando a paz, difamando um homem, agindo como uma “louca”. Nos meus sonhos, minha voz vira ruído. Depois, se rompe. Eu perco a capacidade de falar.
[A long time ago I managed to disentangle myself from an emotionally and on occasion physically abusive relationship. That is to stay, I managed to disentangle myself from the relationship. The man haunts me still, in the way I might flinch if you move to touch me, if you don’t take no for an answer, in recurring dreams where he is calm and cruel, holding all the cards. I am just a woman screaming, wishing the people around us would see the nuance of the situation, but instead they think I am the one doing wrong: disturbing the peace, slandering a man, acting ʻcrazy’. In my dreams, my voice becomes noise, then breaks. I lose my ability to speak.]
:: O GRANDE DESESPERO ::
Virginie Despentes, King Kong Theory
Porque até o grande desespero tem gênero. O que nós praticamos é uma queixa lamuriosa.
[Because great despair has a gender, too. What we practise is plaintive complaining.]
:: MANDAQUI ::
Julian Barnes, Love, etc.
Até o carteiro se perde quando vem aqui. De vez em quando é possível vislumbrar um ônibus — isso se algum morador descontente conseguir sequestrar um à mão armada e obrigá-lo a prestar um serviço de utilidade pública.
[Even the postman gets lost coming out here. Occasionally you might see a bus, if some disgruntled local manages to hijack one at gunpoint and make it perform a useful social service.]
:: NAVIO ATRAVÉS DO TEMPO ::
Alan Burdick, “The Secret Life of Time”
À medida que fui crescendo no papel de pai, às vezes sentia como se estivesse desmontando um navio para usar suas tábuas na construção de um navio para outra pessoa. Eu estava construindo um navio através do tempo, feito do meu próprio tempo.
[As I grew into the role of parent, I sometimes felt as if I were taking apart a ship and using the planks to build a ship for someone else. I was building a ship across time, out of my time.]
:: SÓ LÁGRIMAS ::
Janet Groth, The Receptionist
Alguém que chora com tanta facilidade como você é, na verdade, uma pessoa bem durona. Não abre mão de nada — só das lágrimas.
[“Anyone who cries as easily as you do is pretty tough. You don’t give an inch; you give only tears.”]
:: PIADA SOVIÉTICA ::
Alexei Navalny, “Prison Diaries”
[Piada dos tempos soviéticos, recontada por Navalny.]
Um menino sai para passear no pátio de seu condomínio. Garotos jogando futebol o convidam para jogar também. O menino é mais caseiro, mas fica interessado e corre para se juntar a eles. Em certo momento, ele consegue chutar a bola com força — mas, infelizmente, ela quebra a janela do porão onde mora o zelador. Como era de se esperar, o zelador aparece. Está por fazer a barba, usa um chapéu de pele e um casaco acolchoado, e claramente ainda sofre de uma ressaca. Furioso, ele encara o menino antes de avançar em sua direção.
O menino foge o mais rápido que consegue, pensando: “Pra que eu fui me meter nisso? Afinal, sou um garoto tranquilo, de ficar em casa. Gosto de ler. Por que fui jogar futebol com os outros? Por que estou fugindo agora desse zelador assustador, quando podia estar deitado no sofá lendo um livro do meu escritor americano favorito, Hemingway?”
Enquanto isso, Hemingway está recostado numa espreguiçadeira em Cuba, com um copo de rum na mão, pensando: “Deus, estou cansado desse rum e de Cuba. Toda essa dança, esse barulho, esse mar. Droga, sou um cara inteligente. O que estou fazendo aqui, em vez de estar em Paris discutindo existencialismo com meu colega Jean-Paul Sartre tomando um copo de Calvados?”
Enquanto isso, Jean-Paul Sartre, bebendo seu Calvados, observa a cena à sua frente e pensa: “Como eu odeio Paris. Não suporto ver esses bulevares. Estou exausto desses estudantes em êxtase com suas revoluções. Por que tenho que estar aqui, se tudo o que eu queria era estar em Moscou, tendo diálogos fascinantes com meu amigo Andrei Platonov, o grande escritor russo?”
Enquanto isso, em Moscou, Platonov atravessa correndo um pátio coberto de neve, pensando: “Se eu pegar esse moleque desgraçado, eu mato”.

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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)
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