
#119 – São Paulo, 1 de junho de 2026
Um cão jogando xadrez
hortifruti.org
“Na Rússia, a seleção se divertia assistindo repetidamente ao vídeo do atacante Michy Batshuayi comemorando um gol – ele chutou a bola na trave e acertou a própria cara”
(Simon Kuper)
:: EDITORIAL ::
O cobrador ergueu o celular para transmitir a convocação da seleção brasileira aos passageiros da parte de trás do 971-A. Ele foi anunciando os nomes em voz alta, em tempo real, aos que não estavam ouvindo.
”Atacantes. Endrick!”, ele repetia, e ouvíamos um burburinho na sequência.
Houve inquietação com a escalação dos goleiros, vocalizada sobretudo pelo rapaz de camiseta branca. Mas o cobrador ficou satisfeito com a convocação do Neymar. “Cê loco!”, ele comentou, “vamo que vamo!”.
Até o momento em que desci, o rapaz de camiseta branca continuava preocupado.
:: OLHA A LARANJA DOCINHA ::
O post acima teve 1,5 milhão de visualizações no Instagram. Deixamos aqui a dica de compra desta humilde coletânea:
O Louco de Palestra (Companhia das Letras, 2014)
Coletânea de crônicas | 200 páginas
R$ 29,42 para o Kindle | R$ 36,78 em papel

:: É PIOR ::
Nelson Rodrigues, À sombra das chuteiras imortais
[Brasil 2×0 União Soviética, 15 de junho de 1958]
Cada gol de Vavá era um hino nacional. Na defesa, Bellini chutava até a bola. E quando, no segundo tempo, Garrincha resolveu caprichar no baile, foi um carnaval sublime. A coisa virou show de Grande Otelo. E tem razão um amigo que, ouvindo o rádio, ao meu lado, sopra-me: “Isso que o Garrincha está fazendo é pior do que xingar a mãe!”
:: MORTALIDADE DA COPA ::
Simon Kuper, World Cup Fever
Uma meta-análise de 2020, conduzida pelo acadêmico chinês Huajan Wang, descobriu que a mortalidade aumentava em 19% nos países que perdiam uma partida em um grande torneio internacional. Por outro lado, vencer um jogo reduzia a mortalidade nacional em 12%. Se extrapolarmos os danos a todos os países participantes, é provável que, em média, a Copa do Mundo cause mais mortes do que gols.
[A meta-analysis in 2020 led by the Chinese scholar Huajan Wang found that mortality rises 19 per cent in a country that loses a match at a major international tournament. Conversely, winning a game reduced national mortality by 12 per cent. If you extrapolate the damage across all the participating countries, it seems likely that the average World Cup causes more deaths than goals.]
:: MESMA REALIDADE ::
Zadie Smith, Dead and Alive: Essays
Adultos e crianças caminhando e/ou sentados em um espaço público, todos eles, nominalmente, na mesma realidade, no mesmo instante? Acho que não há mais nenhum lugar na Terra onde isso esteja acontecendo. E eu sinto falta disso! Dessa versão da vida em comum — sinto muita falta disso.
[Adults and children walking and/ or sitting in a public space, every single one of them nominally in the same reality at the same moment? I don’t think there’s a place left on earth where that is occurring. And I miss it! That version of the common life – I miss it.]
:: SEM NENHUM CONTEXTO ::
Simon Kuper, World Cup Fever
Normalmente, eu ficava acordado até as 2 da manhã escrevendo uma coluna enquanto assistia aos gols do dia na TV japonesa — um espetáculo vertiginoso. Os produtores japoneses cortavam os passes que antecediam os gols por considerá-los irrelevantes, então você via uma sucessão interminável de bolas entrando na rede sem nenhum contexto. Era muito mais divertido do que futebol.
[I’d typically sit up till 2 a.m. writing a column while simultaneously watching the day’s goals on Japanese TV – a dizzying spectacle. The Japanese producers cut out the passes leading up to the goals as irrelevant, so you’d see an endless succession of balls flying into the net without any context. It was much more fun than football.]
:: PEIXE E SAPATOS ::
Simon Kuper, World Cup Fever
Chegou a vez da Bafana. Sediando a Copa Africana de Nações, a seleção chegou à final contra a Tunísia. Cerca de 130 mil pessoas lotaram o Estádio FNB, a “Cidade do Futebol”, construído para 85 mil pessoas. Elas agitavam peixes e gritavam “Feeeesh!” para o zagueiro branco Mark Fish (que não precisava de apelido) e “Shoes!” para o habilidoso meio-campista “Shoes” Moshoeu. Alguns torcedores homenageavam os dois jogadores ao mesmo tempo, agitando sapatos presos a varas de pesca.
[…It was the Bafana’s turn. Hosting football’s African Nations Cup , they reached the final against Tunisia. About 130,000 people crammed into FNB Stadium, ‘Soccer City’, which had been built for 85,000. They waved fish and yelled ‘Feeeesh!’ for white defender Mark Fish (who didn’t need a nickname) and ‘Shoes!’ for tricky midfielder ‘Shoes’ Moshoeu. Some fans honoured both players at once, by waving shoes attached to fishing rods.]
:: VOMBATES ::
Olga Khazan, Me, But Better
Um ser humano adulto mal consegue correr mais rápido do que um vombate.
[An adult human can barely outrun a wombat.]
:: FIGURINHAS ::
Simon Kuper, World Cup Fever
Mario Balotelli marcou o gol da vitória da Itália de cabeça. Depois, ele postou no Facebook uma foto da página da seleção italiana no álbum da Panini: ele havia preenchido todos os 14 espaços reservados para seus companheiros de equipe com figurinhas dele mesmo.
[Mario Balotelli headed Italy’s winning goal. Afterwards, he posted a picture on Facebook of the Italian pages of the Panini World Cup album: he had filled all fourteen spaces allotted to his teammates with stickers of himself.]

:: CACHORRO JOGANDO XADREZ ::
Simon Kuper, World Cup Fever
Quase tudo na história da Inglaterra em Copas do Mundo desencoraja o otimismo. Felizmente, porém, eles haviam chegado à sua primeira semifinal de Copa do Mundo desde 1990 jogando um futebol europeu baseado na troca de passes. Não foi nada muito brilhante, mas, como um cachorro jogando xadrez, já era suficientemente notável que isso pudesse ser feito.
[Almost everything in England’s World Cup history discourages optimism. Cheeringly, though, they had reached their first World Cup semi since 1990 playing European passing football. It wasn’t done brilliantly, but, like a dog playing chess, it was remarkable to see it done at all.]
:: BONSUCESSO ::
Nelson Rodrigues, À sombra das chuteiras imortais
A Inglaterra foi um Bonsucesso. Dirão que estou fazendo um exagero caricatural. Mas, se o Bonsucesso tivesse assassinado a pauladas Maria Stuart, se jogasse à sombra de lord Nelson, lady Hamilton e Dunquerque, e se morasse no palácio de Buckingham — o Bonsucesso faria mais que os ingleses.
:: COSTA DO MARFIM ::
Simon Kuper, World Cup Fever
Fui ao jogo com um amigo britânico que vai a todas as Copas do Mundo. Ele sempre se inscreve como torcedor de uma seleção que não vai levar muitos torcedores, pois é a maneira mais fácil de conseguir ingressos. Em 2006, ele era torcedor oficial da Costa do Marfim. Ao chegarmos ao estádio, notamos um grande número de torcedores brancos da Costa do Marfim.
[I travelled to the game with a British friend who goes to every World Cup. He always registers as a supporter of a team that won’t bring many supporters, because it’s the easiest way to get tickets. In 2006 he was an official Ivory Coast supporter. Arriving at the stadium, we noticed large numbers of white Ivory Coast fans.]
:: BIBLIOGRAFIA ::
Aproveitamos para indicar uma dupla de crônicas que publicamos no Uol Esporte sobre a história das Copas do Mundo, em 2018. Ficamos com os mundiais de 1954 e 1982.
“Brasil é campeão no arranca-toco” (1954)
“Nascida sob o signo de Sócrates” (1982)
:: O INGLÊS ::
Nelson Rodrigues, À sombra das chuteiras imortais
[Na Copa de 1958]
O brasileiro sempre se achou um cafajeste irremediável e invejava o inglês. Hoje, com a nossa impecabilíssima linha disciplinar no Mundial, verificamos o seguinte: o verdadeiro inglês, o único inglês, é o brasileiro.
:: MAURO SHAMPOO ::
Stephen Pile, The Ultimate Book of Heroic Failures
Universalmente aclamado como o pior time profissional que já pisou na face da Terra, o Ibis de Recife, no Brasil, ficou 3 anos e 11 meses sem vencer uma partida. “Foi um grande privilégio ter essa reputação. É melhor do que jogar no melhor time do mundo”, disse o capitão, o lendário Mauro Shampoo, considerado o pior jogador de futebol do Brasil. “Tínhamos até uma torcida organizada em Portugal. Quando começamos a ganhar, eles nos mandaram telegramas furiosos.”
Peça fundamental do ataque do Ibis, o craque marcou apenas um gol em dez anos, mas, fora isso, seu currículo era imaculado. Sua habilidade peculiar e recorrente consistia em jogar-se sobre a bola quando não havia nenhum outro jogador por perto. “Por ser um jogador tão ruim”, disse sua filha, “ele ficou famoso. E agora está aí.”
Ele é o tema de um sensível documentário chamado Mauro Shampoo: Jogador de Futebol, Cabeleireiro, Homem. É assim que ele geralmente atende o telefone em seu salão, cujas paredes estão cobertas de lembranças de sua esplêndida carreira. Até hoje, o sr. Shampoo, que deu aos filhos os nomes de Creme Rinse e Xampuzinho, mantém o corte de cabelo permanente à la Kevin Keegan dos anos 70, muito tempo depois de Kevin ter decidido que não era a melhor opção.
No salão, ele é imediatamente reconhecível porque passa o mês de dezembro vestido com uma fantasia de Papai Noel pouco convincente. No resto do ano, ele usa seu uniforme de futebol do Ibis, incluindo as chuteiras, para que, entre um corte e outro, possa demonstrar seu célebre domínio de bola e tranquilizar os clientes, garantindo que não perdeu nada de sua habilidade.
[Universally acclaimed as the worst professional team ever to have played upon the face of this planet, Ibis of Recife in Brazil did not win a game for three years and eleven months. ‘It was a great privilege to have that reputation. It’s better than playing for the world’s best team,’ said their captain, the legendary Mauro Shampoo, who has been hailed as Brazil’s worst footballer. ‘We even had a fan club in Portugal. When we started to win they sent us angry telegrams.’ A key part of the Ibis strike force, the great man scored one goal in ten years, but his record was otherwise unblemished. His unique and recurrent ability was to fall over the ball when there was no other player near him. ‘Because he is such a terrible player,’ his daughter said, ‘he became famous. And now he’s out there.’ He is the subject of a sensitive documentary film called Mauro Shampoo: Footballer, Hairdresser, Man. This is how he habitually answers the telephone at his salon, where the walls are covered with memorabilia from his splendid career. To this day Sr Shampoo, who called his children Cream Rinse and Shampoozinho, has persisted with his Kevin Keegan 1970s permed haircut long after Kevin decided it was the wrong direction. In the salon he is immediately recognisable because he spends the month of December dressed in an unconvincing Father Christmas suit. The rest of the year he wears his Ibis football kit, including studs, so that between haircuts he can give demonstrations of his celebrated ball control to reassure customers that he has lost none of his old touch.]

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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)
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