A arte feminina de quebrar tudo

Dinah Craik’s Hidden Mother Portrait, 1863


#116 – São Paulo, 9 de março de 2026
Especial Matrescência
Cansaço, pele pálida e cabelo oleoso
hortifruti.org

“Mãe é uma mulher que ficou louca”
(Miguel Sokol)

:: EDITORIAL ::

Está chegando às livrarias no dia 9 de março um verdadeiro tratado sobre esse assunto complicado que é procriar, parir e então se ver irremediavelmente transformada em um legume para o resto da vida.

O que muda aí é o tipo de legume.

(Mulheres transformadas em inhames, por exemplo, são relativamente sortudas.)

Mas me afastei um pouco do cerne da questão. Matrescência é um livro de não ficção escrito pela jornalista científica britânica Lucy Jones e traduzido por esta vossa humilde criada. Está sendo publicado pela editora Fósforo. É grande e ficou especialmente caprichado, sobretudo na parte bibliográfica e nas notas de rodapé.

Leiam, divulguem, emprestem e usem como peso para fixar a cola nos brinquedos.

Matrescência: Sobre a metamorfose da gravidez, do parto e da maternidade
Lucy Jones
Trad.: Vanessa Barbara
Editora Fósforo
384 páginas (!)
R$ 114,90


:: BABY JESUS ::

Lucy Jones, Matrescência

Essas ideias bizarras eram herança da teoria da “imaginação materna”, que prevaleceu entre os séculos XVI e XVIII. Os médicos acreditavam que as mulheres grávidas podiam transformar, com suas mentes, o feto em crescimento, e portanto os distúrbios congênitos eram culpa da mãe. Se ela se assustasse com um sapo, por exemplo, a criança poderia acabar com os pés palmados. Ou se ela passasse muito tempo olhando para uma imagem de Jesus, o bebê poderia nascer com uma barba.


:: ANESTESIA DE MORAES::
Lucy Jones, Matrescência

Quando James Young Simpson, professor de obstetrícia em Edinburgo e criador do modelo de fórceps utilizado até hoje, ofereceu essa opção a uma paciente chamada sra. Carstairs, ela ficou tão grata que batizou a filha de “Anestesia”.


:: PORÉM ::
Lucy Jones, Matrescência

Nem todos estavam satisfeitos com essas iniciativas para minimizar a dor das mulheres no parto. O apelo inicial de Simpson para empregar analgésicos “de acordo com todos os princípios da verdadeira humanidade”, em 1847, foi contestado por padres e médicos por razões religiosas e morais: em Gênesis, Deus amaldiçoa Eva por comer a maçã, e seu castigo é que o parto deveria doer – “Multiplicarei as dores de tuas gravidezes, na dor darás à luz filhos”. (O castigo de Adão era lidar com espinhos e cardos, o que me parece um pouco injusto.)


:: ENTES QUERIDOS IDOSOS ::
Lyz Lenz, Belabored

Dessa vez, eu me permiti comer mais do que nunca. Deixei meu corpo ditar sua relação com o mundo físico. Vi meu corpo se expandir, vi minha pele esticar. Muitas vezes sonhava que as pessoas vinham até mim e me ofereciam pratos de comida, seus animais de estimação, seus entes queridos idosos, e eu os enfiava delicadamente em minha boca.

[This time I let myself eat, like I never had before. I let my body dictate its relationship with the physical world. I saw myself expand, saw my skin stretch. I’d often dream that people came to me and offered me plates of food, their pets, their aging loved ones, and I’d gently draw them all into my mouth.]


:: PRIMEIRA MULHER EM MARTE ::
Abigail Tucker, Mom Genes

E, no entanto, como filha de uma mãe que, cerca de quatro décadas após meu nascimento, ainda me segue até os estábulos frios das ovelhas, e como mãe de uma filha que atualmente deseja ser a “primeira mulher em Marte”, mas também ter 22 filhos, tenho muitas perguntas sobre essa jornada feminina compartilhada e sobre os lugares aonde as mulheres vão sem saber.

[And yet, as the daughter of a mother who—some four decades after my birth—will still tail me into wintery sheep barns, and as the mother of a daughter who presently aims to be the “first girl on Mars” but also to have twenty-two children, I have many questions about this shared female journey, and the places that women unknowingly go.]


:: HIPNOPARTO ::
Lucy Jones, Matrescência

Em um dado momento, parecia que o bebê poderia rasgar o meu períneo, então rapidamente me moveram para outra posição. Nas horas seguintes, fui colocada em várias posições para aproveitar a força da gravidade: de quatro, em uma espécie de pose de cadeira, de joelhos e, por fim, deitada de lado com uma perna no ombro da parteira, porque, àquela altura, eu já não conseguia me sustentar. Estava no meu estado mais feral e primitivo. Queria queimar a indústria do hipnoparto até não sobrar mais nada.


:: A DOR ::
Olga Ravn, My Work

Mas a crença de que falar abertamente sobre a dor da maternidade prejudicaria a criança, e a própria mãe, é uma mentira. E eu não quero mais ter medo disso.

[But the belief that it would hurt the child, and the mother herself, to openly speak about the pain of motherhood is a lie. And I don’t want to be afraid of it any longer.]


:: AMAMENTAÇÃO ::
Lucy Jones, Matrescência

Baixei um livro, publicado pela La Leche League, chamado The Womanly Art of Breastfeeding [A arte feminina de amamentar]. A capa mostrava uma bela mulher de longos cabelos ruivos cacheados e soltos, envolta em um lençol branco. “Este livro irá me ensinar a arte feminina”, pensei. “Amamentar não te dá pontos extras. É apenas a forma normal de criar um bebê”, eu li.


:: ADENDO ::

Eu também li The Womanly Art of Breastfeeding inteirinho e não cheguei a entender grande coisa sobre a tal arte feminina.


:: PROFUNDO DESPREZO ::
Emily Van Duyne, Loving Sylvia Plath

Em seu testamento, Assia Wevill foi bem direta: “A Ted Hughes, o pai dela”, escreveu, “deixo minha ausência, sem dúvida bem-vinda, e meu profundo desprezo.”

[In her will, Assia Wevill made no bones: “To Ted Hughes, their father,” she wrote, “I leave my no doubt welcome absence and my bitter contempt.”]


:: PANÇA BALOUÇANTE ::
Lucy Jones, Matrescência

As reportagens nunca diziam: “Rowena ostenta seu abdome super rechonchudo apenas dois meses depois de dar à luz seu bebê”, ou: “Gia flexionou sua pança balouçante”, ou: “Ao sair de casa, Poppy fez questão de que todos olhassem para sua barriga flácida e cheia de estrias em um sutiã Balenciaga, exibindo sinais profundos de cansaço, a pele pálida e o cabelo perfeitamente oleoso”.


:: NEVOEIRO ::
Yvonne Perrin, The First Seven Years: A Record Book for Mother & Child

Ele […] deve dormir ao ar livre o dia todo, no inverno e no verão. A única condição climática realmente inadequada para o bebê é o nevoeiro.


:: EMOÇÕES DESCONTROLADAS ::
Lucy Jones, Matrescência

Publicado em 1894, The Care and Feeding of Children [Cuidado e alimentação infantis], do pediatra Luther Emmett Holt, foi um best-seller. “Nunca se deve brincar com bebês menores de seis meses; quanto menos isso acontecer, em qualquer época, melhor para eles”, escreveu. Outras regras incluíam não sair de casa com o bebê pelos primeiros três meses, assim como um aviso de que “emoções descontroladas, tristeza, excitação, medo e paixão podem fazer o leite cair mal à criança”.


:: GRAVIDEZ ::
Abigail Tucker, Mom Genes

Durante a gravidez, todo o nosso corpo passa por mudanças. Nossas pintas podem escurecer e nossa voz pode ficar mais grave (como aconteceu com Kristen Bell grávida durante as gravações de Frozen — parece que a famosa trilha sonora poderia ter sido ainda mais estridente em alguns trechos). Nossos narizes alargam, nossos arcos plantares se achatam e nossas unhas dos pés caem. Nosso cabelo pode mudar de cor ou ficar cacheado. Podemos arrotar como se tivéssemos engolido uma bomba-relógio. Nosso fígado pode liberar bile, provocando uma coceira insuportável. E nos tornamos comprovadamente mais apetitosas para os mosquitos devido ao aumento da temperatura corporal e da produção de dióxido de carbono.

[In pregnancy our entire physical selves are in flux. Our moles may darken, our voices drop an octave (as a pregnant Kristen Bell’s did while recording Frozen—it seems that the notorious soundtrack could have been still shriller in places). Our noses widen, our arches flatten, and our toenails fall off. Our hair can change color or gain curl. We may burp as if we’ve swallowed a bomb cyclone. Our livers may leak bile, causing us to itch like the dickens. And we become demonstrably more delicious to mosquitoes because of our increased body temperature and carbon dioxide output.]


:: ULTRASSÔNICO ::
Abigail Tucker, Mom Genes

Um estudo com roedores revelou que as mães ratas precisam guinchar de modo ultrassônico para que os pais ajudem a cuidar dos filhotes.

[A rodent study revealed that mice moms must ultrasonically squeak at mice dads in order to get them to pitch in with childcare.)]

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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)

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