
#115 – São Paulo, 6 de fevereiro de 2026
Especial dentistas
hortifruti.org
“Até capturarmos esta tartaruga/
a outra já fugiu.”
(Rafael Mantovani)
:: EDITORIAL ::
Nesta edição, juntamos dois temas palpitantes que jamais foram abordados em conjunto: carnaval e dentistas.
Somos assim audaciosos — ou preguiçosos demais para buscar a necessária congruência.
Fica a dica para as escolas de samba que, em 2027, poderão usar o samba-enredo “Da Gengiva ao Implante: O Cuidado Bucal Vira Carnaval” ou “Com Dentadura ou Natural, Nosso Samba é Imortal”.
Para mais contexto, leiam a análise: “No quesito piada infame, nota da madrugada é 10”. E divirtam-se.
:: CARNAVAL ::
Mulher no metrô:
“…Aí me falaram que eu já era a quarta pessoa que ficava com ele e ainda era 6 da tarde! [pausa] Ou seja, o cara acordou cedo.”
:: CIDADE DOS MOLARES ::
Burkhard Bilger, “Mexico’s Molar City…”
Segundo Roberto Díaz e Paula Hahn, administradores de um site de turismo médico chamado Border CRxing, a cidade de Los Algodones tem a maior concentração per capita de dentistas do mundo: bem mais de mil em uma população de 5.500 habitantes. É conhecida como a Cidade dos Molares.
[According to Roberto Díaz and Paula Hahn, who run a website about medical tourism called Border CRxing, Los Algodones now has the highest per-capita concentration of dentists in the world: well over a thousand in a population of fifty-five hundred. It’s known as Molar City.]
:: RATOS EM CARTOLAS ::
Guimarães Rosa, Ave, palavra
Zôo (Jardin des Plantes)
Tartarugas, nas lajes: estouvam-se, remexendo-se, que nem ratos debaixo de cartolas.
:: 750 CONVIDADOS E 3 ELEFANTES ::
Janet Flanner, Paris era ontem
Em Versalhes [em 1939], lady Mandl deu um baile de época para 750 convidados e três elefantes, sendo que todos os três se recusaram a ser montados, entre outros, pela princesa de Kapurthala.
:: ASPECTO DE FRANGO ::
Nikolai Gogol, Taras Bulba
O dono da casa, depois de ter bebido um pequeno copo de uma misteriosa infusão, despiu o cafetã e, ficando de ceroulas e pantufas, adquiriu o aspecto de um frango. Depois foi deitar-se com a mulher em algo que parecia um armário. Dois rapazolas deitaram-se no chão, defronte do armário, parecendo simples cachorros.
:: CHAVE NO PRATO ::
Yasemin Saplakoglu, “At the Mysterious Boundary…”
Na mesma época em que Loomis realizava experimentos com eletroencefalograma (EEG) em sua mansão, o artista surrealista [Dalí] fazia experiências com suas próprias transições para o sono. Como descreveu em seu livro de 1948, 50 Secrets of Magic Craftsmanship [50 segredos mágicos da pintura], ele se sentava em uma “poltrona esquelética, de preferência de estilo espanhol”, enquanto segurava frouxamente uma chave pesada sobre um prato virado para baixo no chão. À medida que adormecia, suas mãos relaxavam — e eventualmente a chave caía por entre seus dedos. O estalo repentino da chave ao bater no prato o despertava. Convencido de que acordar durante essa fase revigorava seu ser psíquico e impulsionava a criatividade, Dalí então se sentava e começava a pintar.
[Around the time that Loomis was conducting EEG experiments in his mansion, the surrealist artist was experimenting with his own transitions into sleep. As he described it in his 1948 book 50 Secrets of Magic Craftsmanship, he would sit in a “bony armchair, preferably of Spanish style,” while loosely holding a heavy key in one palm above an upside-down plate on the floor. As he drifted off, his hands would slacken — and eventually the key would fall through his fingers. The sudden clack of the key hitting the plate would wake him. Convinced that being aroused during this period revived his psychic being and boosted creativity, Dalí would then sit down and start painting.]

:: PELO NARIZ ::
Burkhard Bilger, “Mexico’s Molar City…”
Quando Luís XIV teve um dente extraído em Versalhes, o dentista puxou sua mandíbula com tanto zelo que abriu um buraco no palato, alcançando a passagem nasal. Por um tempo depois disso, qualquer líquido que o rei bebesse jorrava pelo seu nariz. Para estancar o sangramento, o cirurgião teve que cauterizar o buraco com um ferro em brasa.
[When Louis XIV had a tooth pulled at Versailles, his dentist yanked at his jaw with such zeal that he tore a hole through the palate and into the nasal passage. For a while after that, any liquid that the King drank would come spraying out of his nose. To plug it closed, his surgeon had to cauterize the hole with a red-hot iron.]
:: A FACILIDADE ::
Gay Talese, A Writer’s Life
Passo o dia todo sozinho, produzindo prosa com a facilidade de um paciente expelindo pedras nos rins, e por isso à noite prefiro jantar fora […].
[I am alone all day, producing prose with the ease of a patient passing kidney stones, and so at night I prefer to dine out…]
:: CINCO MILHÕES ::
Evan Osnos, “Donald Trump’s Politics of Plunder”
Até mesmo os praticantes mais experientes do toma-lá-dá-cá de Washington ficaram espantados com as novas regras para a compra de influência. Em dezembro, um assento em um jantar coletivo em Mar-a-Lago podia ser garantido com uma contribuição de um milhão de dólares para a MAGA Inc., um super PAC que funciona como caixa de campanha para as eleições de meio de mandato. Mais recentemente, conversas individuais com o presidente passaram a estar disponíveis por cinco milhões de dólares.
[Even seasoned practitioners of Washington pay-to-play have been startled by the new rules for buying influence. In December, a seat at a group dinner at Mar-a-Lago could be had for a million-dollar contribution to MAGA Inc., a super PAC that serves as a war chest for the midterms. More recently, one-on-one conversations with the President have become available for five million.]
:: LET DEATH COME ::
Matthew Crawford, The World Beyond Your Head
Acho que […] esse tipo de passividade é uma libertação da necessidade de controle. Como autônomo, não tenho a rotina de um emprego fixo, então o arranjo de cada hora é uma questão de escolha, uma oportunidade de reflexão e avaliação. Às vezes, eu só quero ficar onde estou e assistir Dateline, porque é o que vem a seguir. Deixe a morte me levar.
[I think because the passivity of it is a release from the need for control. As someone who is self-employed, I don’t have the jig of a regular job, so the disposition of every hour is a matter of choice, an occasion for reflection and evaluation. Sometimes I just want to stay where I am and watch Dateline, because that’s what’s next. Let death come.]
:: NÃO É CERTO ::
Norah Vincent, Voluntary Madness
Não é certo estar num quarto tão pequeno quando se está perdendo a cabeça.
[It’s not right to be in such a small room when you’re losing your mind.]
:: INSALUBRIDADE ::
Burkhard Bilger, “Mexico’s Molar City…”
Em 2020, uma pesquisa realizada pela Faculdade de Odontologia da Universidade de Nova York revelou que três quartos dos dentistas admitiram ter sido atacados verbalmente por um paciente, e quase metade havia sofrido agressão física. Os estudantes de odontologia foram ainda mais maltratados: 86% deles haviam sofrido abuso verbal no ano anterior.
[In 2020, in a survey by the New York University College of Dentistry, three-quarters of dentists reported that they’d been verbally attacked by a patient, and nearly half had been physically assaulted. Dental students were treated even worse: eighty-six per cent had been verbally abused in the previous year.]
:: METRÔ ::
Jack London, The People of the Abyss
Estávamos tão apertados que vários homens aproveitaram a oportunidade e adormeceram profundamente em pé.
[So tightly were we packed, that a number of the men took advantage of the opportunity and went soundly asleep standing up.]
:: DONOS DA ÁGUA ::
W. David Marx, Status and Culture
A socióloga Ashley Mears, que pesquisou os escalões superiores do circuito global de festas em Nova York, Miami, Ibiza e Saint-Tropez, descobriu que “os esbanjadores mais duvidosos eram os não ocidentais, como russos, árabes e ‘asiáticos loucos de ricos’, ou caras que ‘são donos de toda a água da Sérvia’”.
[The sociologist Ashley Mears, who researched the top echelons of the global party circuit in New York, Miami, Ibiza, and Saint-Tropez, found that “the most dubious of big spenders were non-Westerners, like Russian, Arab, and ‘crazy rich Asian’ spenders” or guys who “own all the water in Serbia.”]
:: INSALUBRIDADE – PT. 2 ::
Burkhard Bilger, “Mexico’s Molar City…”
Dois anos depois, em Nova Orleans, uma mulher de 55 anos foi acusada de esfaquear seu dentista no olho.
[Two years later, in New Orleans, a fifty-five-year-old woman was accused of stabbing her dentist in the eye.]
:: BEREZNA – BERIA – BERING ::
Masha Gessen, The Future is History
Maya pegou um volume da Grande Enciclopédia Soviética, um tomo encadernado em tecido azul-escuro. Era o volume cinco, que começava e terminava com palavras completamente incompreensíveis: “Berezna” e “Botokudy”. Maya abriu o livro e deparou-se com um retrato de página inteira de um homem de meia-idade, quase careca, com rosto redondo, lábios finos e óculos de pincenê com lentes redondas sem aro.
Era Lavrentiy Beria, descrito no artigo de quatro páginas que acompanhava o retrato como “um dos líderes mais destacados do Partido Comunista Soviético Bolchevique e do Estado soviético, um aluno leal e camarada de J. V. Stálin”, e assim por diante. Não era o avô de Arutyunyan — era o principal executor de Stálin. Depois que o próprio Beria foi executado, os assinantes da Grande Enciclopédia Soviética receberam uma carta que Maya agora lhe mostrava: a editora estatal acadêmica da Grande Enciclopédia Soviética recomenda que as páginas 21, 22, 23 e 24, bem como o retrato anexado entre as páginas 22 e 23, sejam removidos e substituídos por novas páginas, anexas a esta carta. Use tesoura ou lâmina de barbear para remover as páginas mencionadas, tomando cuidado para preservar as margens internas onde as novas páginas serão coladas.
As páginas de substituição continham um artigo sobre o Estreito de Bering.
[Maya got out a volume of the Great Soviet Encyclopedia, a tome in blue-black cloth. This was volume five, which began and ended with perfectly incomprehensible words: “Berezna” and “Botokudy.” Maya opened the book to a full-page portrait of a middle-aged, mostly bald man with a round face, perfectly thin lips, and a pince-nez with round rimless lenses. This was Lavrentiy Beria, whom the accompanying four-page article described as “one of the most outstanding leaders of the All-Soviet Communist Party of Bolsheviks and of the Soviet state, a loyal student and comrade of J. V. Stalin,” and so forth. This was not Arutyunyan’s grandfather—this was Stalin’s chief executioner. After he himself was executed, subscribers to the Great Soviet Encyclopedia received a letter that Maya was now showing her: The state scholarly publishing house of the Great Soviet Encyclopedia recommends that pages 21, 22, 23, and 24, as well as the portrait bound in between pages 22 and 23, be removed and replaced with new pages, enclosed with this letter. Use scissors or a razor blade to remove the above-mentioned pages, taking care to retain inner margins to which new pages are to be glued. The replacement pages contained an article on the Bering Strait.]
:: OBRA- PRIMA ::
Este álbum é uma obra-prima.
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Agradecimentos: Adriano Bastos, Arthur Tertuliano, Gigio, minha mãe. Esta edição foi possível graças a 27 aguerridos assinantes e uma dúzia de doadores esporádicos.
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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)
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