“Servindo mais ou menos para servir de vez em quando”


Evidência de que não somos idiotas

#110 – São Paulo, 3 de setembro de 2025
Ser mãe é um calo
Contém: 29 mil sapinhos de borracha
hortifruti.org

“Esqueça a gramática e pense em batatas”
(Gertrude Stein)

:: EDITORIAL :

Eu contei pra vocês que, uns tempos atrás, no Rio, compareci a um protesto de boxeadores no Forte de Copacabana, mas acabou que não teve protesto nenhum porque era o mês errado?

Por hoje é só isso mesmo.

Obrigada.


:: POR MOTIVOS DE TIMIDEZ ::

Daniel Alarcón, “The Argentinian Comic Strip…

Quino era um menino tímido e quieto, características que o acompanhariam até a idade adulta. (Durante anos, ele pendurou uma placa em seu estúdio alertando os jornalistas para manterem a distância: “Por motivos de timidez, nenhuma reportagem de qualquer tipo será aceita.”)

[Quino was a timid, quiet boy, traits that would follow him into adulthood. (For years, he hung a sign in his studio warning journalists to stay away: “Due to Shyness, No Reporting of Any Kind Will Be Accepted.”)]


:: PAULISTA NA CONSOLAÇÃO ::
Gay Talese, A Town Without Time

Em Nova York, a Loja de Lingerie da Quinta Avenida fica na Avenida Madison, a Pet Shop da Madison fica na Avenida Lexington, a Floricultura da Park Avenue fica na Avenida Madison e a Lavanderia Lexington fica na Terceira Avenida. Nova York abriga 120 penhoristas, e é onde o irmão do Bispo Sheen, Dr. Sheen, divide o consultório com um certo Dr. Bishop.

[In New York the Fifth Avenue Lingerie Shop is on Madison Avenue, the Madison Pet Shop is on Lexington Avenue, the Park Avenue Florist is on Madison Avenue, and the Lexington Hand Laundry is on Third Avenue. New York is the home of 120 pawbrokers, and it is where Bishop Sheen’s brother, Dr. Sheen, shares an office with one Dr. Bishop.]


:: DEFINIÇÃO ::
Gay Talese, A Writer’s Life

Escrever é muitas vezes como dirigir um caminhão à noite sem faróis, perder-se na estrada e passar uma década metido num fosso.

[Writing is often like driving a truck at night without headlights, losing your way along the road, and spending a decade in a ditch.]


:: ROBALO LISTRADO ::
Anna Russell, “The Joy of Cooking

Certa vez, ela serviu a Picasso um robalo listrado pochê, decorado com um elaborado desenho de ovos cozidos peneirados e maionese vermelha, só para o artista sugerir que o prato seria mais adequado a Matisse.

[Once, she served Picasso a poached striped bass decorated with an elaborate design of sieved hard-boiled eggs and red mayonnaise, only to have the artist suggest that the dish would be better suited to Matisse.]


:: FALHA PERSA ::
Leslie Jamison, “The Pain of Perfectionism

A chamada “falha persa” refere-se à maneira como os tradicionais tecelões de tapetes persas incluíam deliberadamente uma falha em seus tapetes para reconhecer que somente Deus era perfeito.

[The so-called “Persian flaw” refers to the way traditional Persian-carpet weavers would deliberately include a flaw in their rugs to acknowledge that only God was perfect.]


:: EVIDÊNCIAS ::
Leslie Jamison, “Why everyone feels like they’re faking it

[…] uma mulher que twittou sobre como lidar com a síndrome do impostor criando um arquivo em seu computador chamado “evidências de que eu não sou idiota”.

[… a woman who tweeted about reckoning with impostor feelings by creating a file on her computer called “evidence I’m not an idiot”.]


:: FUNCIONÁRIA – FAXINEIRA – ESCRAVA ::

S. C. Cornell, “So You Want to Be a Genius

Albert Einstein disse certa vez à prima, que também era sua amante, que tratava a esposa, Mileva Maric, “como uma funcionária que não posso demitir”. Vários anos antes de publicar sua teoria geral da relatividade, ele escreveu uma carta a Maric:

Você irá garantir:
que minhas roupas e a roupa de cama sejam mantidas em boas condições;
que eu receba três refeições regularmente em meu quarto […]
Você não irá esperar nenhuma intimidade da minha parte, nem irá me repreender de forma alguma;
Você irá parar de falar comigo se eu pedir.

[Albert Einstein once told his cousin, who was also his mistress, that he treated his wife, Mileva Maric, “as an employee whom I cannot fire.” Several years before he published his general theory of relativity, he wrote a letter to Maric: You will make sure: that my clothes and laundry are kept in good order; that I will receive my three meals regularly in my room […] You will not expect any intimacy from me, nor will you reproach me in any way; You will stop talking to me if I request it.]


:: INTERVALO ::



:: PIJAMA DIURNO ::
Patricia Marx, “The Slob-Chic Style…

“Muitos dias, eu só troco o pijama de dormir pelo pijama de ficar acordada”, me disse Anna del Gaizo, escritora em Los Angeles.

[“Many days, I’ll change out of my sleeping pajamas into my awake pajamas,” Anna del Gaizo, a writer in Los Angeles, told me.]


:: PADRÃO ::
Rebecca Solnit, Men Explain Things to Me

Acho que entenderíamos ainda melhor a misoginia e a violência contra as mulheres se olhássemos para o abuso de poder como um todo, em vez de tratar a violência doméstica separadamente do estupro, do assassinato, do assédio e da intimidação — seja online, em casa, no trabalho ou nas ruas; quando os vemos em conjunto, o padrão fica claro.

[I think we would understand misogyny and violence against women even better if we looked at the abuse of power as a whole rather than treating domestic violence separately from rape and murder and harrassment and intimidation, online and at home and in the workplace and in the streets; seen together, the pattern is clear.]


:: PESO DA RAIVA ::
Lilly Dancyger, Burn It Down

Tive meu primeiro contato com a palestra principal de Audre Lorde, de 1981, na Conferência da Associação Nacional de Estudos sobre Mulheres, na qual ela declara que sua resposta ao racismo é a raiva — e que ninguém se beneficia por ter medo do peso dessa raiva.

[I first encountered Audre Lorde’s 1981 keynote presentation at the National Women’s Studies Association Conference in which she declares that her response to racism is anger, and that no one is served by being afraid of the weight of anger.]


:: PATINHOS DE BORRACHA ::

Kathryn Schulz, “When Shipping Containers Sink…

Em 1990, quando um navio porta-contêineres com destino aos Estados Unidos perdeu dezenas de milhares de tênis da Nike no mar, cada um com um número de série, o oceanógrafo Curtis Ebbesmeyer pediu a catadores de praia do mundo todo que relatassem qualquer um que tivesse sido levado à praia. (Ao lado do ex-jornalista da BBC Mario Cacciottolo, Ebbesmeyer colaborou com Tracey Williams em Adrift.) Acontece que os tênis da Nike toleram bem a água salgada e flutuam praticamente até o oceano acabar — embora, como os dois tênis de um par se orientam de forma diferente com o vento, uma praia pode estar repleta de tênis do lado direito, enquanto outra está coberta de tênis do lado esquerdo. Ebbesmeyer usou a localização relatada dos tênis para ser pioneiro em um campo que ele chama de flotsametrics: o estudo das correntes oceânicas com base nos padrões de deriva de objetos que vão ao mar. Nas últimas três décadas, ele estudou tudo, desde o incidente da Lego até a perda de um contêiner em 1992, envolvendo quase 29 mil brinquedos de banho vendidos sob o nome Friendly Floatees, desde os clássicos patinhos amarelos até sapos verdes, um dos quais levou 26 anos para aparecer na praia.

[In 1990, when a container ship headed from Korea to the United States lost tens of thousands of Nike athletic shoes overboard, each one bearing a serial number, an oceanographer, Curtis Ebbesmeyer, asked beachcombers all over the world to report any that washed ashore. (Alongside the former BBC journalist Mario Cacciottolo, Ebbesmeyer collaborated with Tracey Williams on “Adrift.”) As it turns out, Nikes tolerate salt water well and will float pretty much until they run out of ocean—although, since the two shoes in a pair orient differently in the wind, one beach might be strewn with right sneakers while another is covered in left ones. Ebbesmeyer used the reported location of the shoes to pioneer a field that he calls “flotsametrics”: the study of ocean currents based on the drift patterns of objects that go overboard. In the past three decades, he has studied everything from the Lego incident to a 1992 container loss involving almost twenty-nine thousand plastic bath toys sold under the name Friendly Floatees, from classic yellow duckies to green frogs, one of which took twenty-six years to wash ashore.]


:: EXTROVERSÃO ::
Olga Khazan, Me, But Better

Eu me peguei dizendo frases insossas e forçadas como “Você sente falta do clima do Vietnã?” ou “Eu gosto de fazer pão, mas pode ser bem complicado”, como se eu estivesse executando uma entrega secreta da CIA.

[I found myself saying bland, stilted phrases like “Do you miss the weather in Vietnam?”or “I do enjoy baking, but it can be quite complicated,” like I was performing a CIA dead drop.]


:: GRAÇA ::
Rufi Thorpe, Margo’s Got Money Troubles

Eu dei risada. Era incrível como você podia estar tão deprimido e, mesmo assim, achar as coisas engraçadas. Na verdade, as coisas pareciam até mais engraçadas.

[I laughed. It was amazing how depressed you could get and still find things funny. In fact, things seemed even funnier.]


:: SER MÃE É UM CALO ::
Heather Armstrong, It Sucked and Then I Cried

As coisas estavam melhorando apenas no sentido de que eu estava me acostumando a viver daquele jeito. A maternidade estava transformando meu corpo inteiro em um calo gigante.

[Things were getting better only in the sense that I was becoming used to living this way. Parenthood was turning my whole body into one giant callus.]

:: AGRADECIMENTO ::
Vincent Bevins, If We Burn

Eu não ficaria nada surpreso se descobrisse, em algum momento, que uma ou mais pessoas na longa lista acima não são quem dizem ser. Portanto, quero agradecer às inúmeras agências de inteligência e segurança do mundo por seu trabalho árduo. O homem que me seguiu por Moscou, em particular, me fez sentir muito especial.

[I would be extremely unsurprised to find out, somewhere down the road, that one or more people on the long list above are not who they claim to be. So, I want to thank the world’s myriad intelligence and security agencies for all their hard work. The man who followed me around Moscow in particular made me feel very special.]

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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)

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