
Somos 4,3 mil
#113 – São Paulo, 4 de dezembro de 2025
Uma de minhas mãos segurando firme a outra
Chiques e corajosas
hortifruti.org
“my one hand holding tight/ my other hand;
come celebrate/ with me that everyday/
something has tried to kill me/ and has failed.”
(Lucille Clifton)
:: EDITORIAL ::
Na semana passada, chegamos à marca de 4,3 mil assinantes. São 4,3 mil almas que eventualmente terão de aumentar a dose dos psicotrópicos, dobrar a frequência semanal da terapia ou abraçar a completa e descarada loucura. Vamos repetir: 4,3 mil assinantes! A meta é de 1 milhão. Ou melhor: a meta é a de não sermos acusados de exercício ilegal da medicina. Se conseguirmos passar mais uns meses sem sermos processados, ainda melhor.
Lembrando que Natal é tempo de renascer, de renovar a esperança e de concretizar uma assinatura paga a este periódico. Venha você também se juntar aos 23 senhores e senhoras que nos ajudam a custear a sertralina. A meta é de 1 milhão. Basta escolher um modelo de assinatura no Substack:
E agora para as coisas de fato importantes. Nos últimos tempos, estamos lidando com uma condição extremamente inquietante, um cenário em que a criança começa a falar no momento em que põe os pés em casa e só para de falar quando fatalmente dorme.
A mesma coisa ocorre de manhã: a criança acorda já falando, ainda que sejam excertos amolengados de histórias não muito bem estabelecidas, e vai ganhando ímpeto narrativo conforme o dia avança, numa explosão de monstros aquáticos, alienígenas, princesas, nenês, bruxas, porcos-espinhos —alguns com suas respectivas músicas-tema —, de modo que o que nos resta a fazer é prestar a máxima atenção ao enredo, pois pode muito bem chegar sem aviso para nos testar uma questão sobre a pertinência de uma árvore de Natal de mexericas com uma estrela de carambola no topo.
Para além dessas dificuldades, estivemos nas últimas semanas em uma missão jornalística secreta que nos obrigou a acordar muito cedo e consequentemente drenou toda nossa energia de viver.
Mas estamos de volta e iremos publicar mais um ou dois boletins especiais antes do fim do ano. Pela paciência, obrigada.
:: VIÚVA NEGRA ::
Sasha Bonét, The Waterbearers
Betty Jean tornou-se mãe aos dezessete anos e, quando o Reverendo lhe pediu que fugisse com ele para o Mississippi, ela recusou. Sentia-se jovem demais para ser uma esposa. Para ser possuída. No caso de Betty Jean, essa recusa se tornaria rotineira. Seus familiares a chamavam de “Viúva Negra” por atrair homens, fazê-los se apaixonar e ter filhos, apenas para desaparecer e deixá-los destruídos, definhando. Muitos desses homens se tornaram pastores, como se, depois que Betty terminasse de usá-los, só Deus lhes restasse.
[Betty Jean became a mother at seventeen, and when Reverend asked her to run away with him to Mississippi, she refused. She felt she was too young to be a wife. To be possessed. For Betty Jean, such refusal would become practice. Her family members referred to her as the “Black Widow,”enticing men to fall in love and have children, only to disappear and leave the man broken, withered. Many of these men went on to be preachers, as if once Betty was finished with them, only God could keep them.]
:: COMPETIÇÃO DE MASSAGEM ::
Sarah Larson, “In the World of Competitive Massage”
“Você ouviu falar da mulher que, num ano desses, acabou coberta de chocolate?”, ela sussurrou.
[“Did you hear about the woman one year who ended up covered in chocolate?” she whispered.]
:: COCÔ DE CABRA ::
Rivka Galchen, “The Radical Development…”
Dioscórides de Anazarbo, um médico grego do século I, recomendava tratar a dor no quadril com excrementos de cabra montanhesa em lã embebida em óleo; para fins de anestesia, sugeria raiz de mandrágora fervida ou pedra de Mênfis; e para enxaquecas, unguento de rosas aplicado nas têmporas e na testa. Plínio relatou o uso de um dente de toupeira como alívio para dor de dente em humanos. Cerca de mil e oitocentos anos depois, Nietzsche tratava suas enxaquecas com sanguessugas aplicadas no ouvido.
[Dioscorides of Anazarbus, a first-century Greek physician, recommended treating hip pain with mountain-goat droppings on oil-soaked wool; for anesthesia, he suggested boiled mandrake root or Memphitic stone, and for migraines an unguent of roses, applied to the temples and forehead. Pliny reported the use of a mole’s tooth as an aid for human toothache. Some eighteen hundred years later, Nietzsche had his migraines treated with leeches applied to his ears.]
:: CAVAR UM CAMINHO ::
Sophie Elmhirst, A marriage at sea
O suicídio era apenas uma ideia, um pensamento. Mas, como todos os seus pensamentos, quanto mais pensava nele, mais fácil era pensar nele novamente. O pensamento retornava; cavava um caminho.
[Suicide was only ever an idea, a thought. But like all his thoughts, the more he thought it, the easier it was to think it again. The thought recurred; it dug a path.]
:: GOLFINHOS E CAVALOS ::
John Donvan e Caren Zucker, Outra sintonia
Na África do Sul, aplicavam nas crianças enemas com água sanitária diluída para livrar o corpo de espíritos malignos; em outro lugar, usava-se o mesmo método para matar a “bactéria” causada pelo autismo. Os pais se inscreviam na “terapia do abraço”, promovida por uma psiquiatra de Nova York chamada Martha Welch e endossada por um ornitólogo premiado com o Nobel. Consistia em fazer as mães abraçarem os filhos com toda a força ao mesmo tempo que gritavam com eles até que se acalmassem, coisa considerada como o começo da cura. Na França, pais tentaram a “terapia de packing”, que consistia em embrulhar fortemente a criança em lençóis úmidos e refrigerados, como um casulo, deixando só a cabeça de fora. Outras abordagens envolviam regimes de megavitaminas, dietas especiais e exposição a golfinhos e cavalos.
:: ESTAR CHIQUE ::
Lyz Lenz, Belabored
Mas eu tenho um adesivo de princesa colado na sola do meu sapato. O vestido que estou usando foi escolhido por minha filha de quatro anos, que me ouviu dizendo a meu marido que estava nervosa com a perspectiva de sair. Ela desceu as escadas correndo, arrastando um vestido de tricô preto e branco e um colar. “Estar chique vai te ajudar a ser corajosa”, ela me disse. Então eu me troquei.
[But I have a Princess sticker stuck to the bottom of my shoe. The dress I am wearing was chosen by my four-year-old, who heard me tell my husband I was nervous to leave. She came tramping down the stairs dragging a black-and-white knit dress and a necklace. “Being fancy will help you be brave,” she told me. So, I changed.]
:: POETAS ::
Ben Taub, “Russia’s Espionage War in the Arctic”
Berg foi levado para uma cela de isolamento na prisão de Lefortovo, o notório centro de detenção russo para prisioneiros políticos, críticos, poetas e espiões.
[Berg was taken to an isolation cell in Lefortovo Prison, Russia’s notorious detention center for political prisoners, critics, poets, and spies.]
:: MAPA ::
Tim Berners-Lee, This Is For Everyone
Por essa época, esbocei um mapa da web, inspirado no mapa da Terra Média de J. R. R. Tolkien. O alegre riacho saía do Condado da Rede Mundial de Computadores e chegava ao tranquilo Mar da Interoperabilidade. Ao sul, porém, cercado pelas Planícies Áridas Devastadas, os Montes Patenteados e o Desfiladeiro Proprietário, erguia-se o sinistro e anagramático Tor de Cism. Se você desse um zoom, veria que o olho de Sauron é, na verdade, o “e” do logotipo do Internet Explorer. O mapa está pendurado até hoje na porta do meu escritório no MIT.
[Around this time, I drafted a map of the web, inspired by J. R. R. Tolkien’s map of Middle Earth. The happy stream led from the shire of the World Wide Web to the tranquil Sea of Interoperability. To the south, however, surrounded by the Wasted Arid Plains, the Patent Peaks and Proprietary Pass, loomed the sinister, anagrammatic Tor of Cism. If you zoomed in, you would see that the eye of Sauron is in fact the ‘e’ on the Internet Explorer logo. The map still hangs on the door to my MIT office today.]

:: NOVECENTOS DIAS ::
Sasha Bonét, The Waterbearers
Foi exatamente o que ocorreu com o fim da escravidão, que o general Granger anunciou aos negros em Galveston, Texas, dois anos após a promulgação da Proclamação de Emancipação do Presidente Lincoln, em 1863. Durante novecentos dias, os negros trabalharam sob o impiedoso sol do Texas para os brancos texanos, sem saber que haviam sido legalmente libertados.
[Just as with the end of slavery, which General Granger announced to Black folks in Galveston, Texas, two years after the enforcement of President Lincoln’s Emancipation Proclamation of 1863. For nine hundred days, Black people labored under the merciless Texas sun for Texas White folks, unaware that they had been legally freed.]
:: GATOS E FAXINEIRAS ::
Lucia Berlin, A Manual for Cleaning Women: Selected Stories
As vozes das mulheres sempre sobem duas oitavas quando falam com faxineiras ou gatos.
[Women’s voices always rise two octaves when they talk to cleaning women or cats.]
:: OITOCENTOS LIVROS ::
Philip Kendall, “Man searching for the meaning of life…”
Um jovem de Nanjing, na China, foi preso após roubar mais de 800 livros de ciências sociais, história e poesia de uma livraria da cidade. Ao ser interrogado pela polícia, o jovem afirmou que estava procurando “o sentido da vida” nas páginas dos livros.
[A young man from Nanjing, China, has been arrested after stealing more than 800 social science textbooks, history compendiums and poetry books from a book shop in the town. When questioned by police, the young man maintained that he was searching for ‘the meaning of life’ within the books’ pages.]
:: OLÁ, 1487 ::
John Donvan e Caren Zucker, Outra sintonia
Ele também tinha na cabeça a lista de todas as pessoas da cidade e dos respectivos números —os quais ele lhes havia atribuído pessoalmente. Por exemplo, Janelle Brown era primeiranista quando Donald, então no último ano, a abordou. Nunca tinham conversado. “Ahn, ahn… Janelle Brown, de hoje em diante o seu número é 1487”, anunciou, então deu meia-volta e foi embora. Quando tornou a se encontrar com Janelle no corredor, dirigiu-se a ela, mas dessa vez chamou-a não pelo nome, e sim pelo número. “Ahn, olá, 1487!”E se afastou.
:: AS FREIRAS DO ABOLICIONISMO PENAL ::
Lawrence Wright, “The Nuns Trying to Save the Women…”
Uma vez por semana, elas saem do convento para atividades recreativas — futebol, basquete, natação — tudo isso usando seus hábitos, inclusive na piscina.
[Once a week, they leave the convent for recreation—soccer, basketball, swimming—all accomplished while wearing habits, even in the pool.]
:: ATLETISMO CIRCENSE ::
Jacqueline Nesi, “The Man Who Ran 71 Miles While Juggling”
Em uma entrevista de 2015, que li na íntegra, ele é questionado sobre como descobriu que a corrida de malabarismo era o seu esporte. Ele responde: “Assim que percebi que não conseguiria entrar na NHL [Liga Nacional de Hóquei], olhei para o meu exemplar surrado do Guinness Book of World Records e pensei: ‘Existem dezenas de milhares de recordes ali. Em algum lugar, deve haver algo em que eu possa ser o melhor. Só preciso de uma coisa.’
Um dia, folheando o livro, que era como uma Bíblia para mim na época, me deparei com o recorde da maratona de corrida de malabarismo, e de repente os anjos desceram do céu e me avisaram que o juggling era a minha verdadeira vocação. Disseram-me que um dia eu seria o maior atleta da categoria que o mundo já viu. E naquele momento, eu soube que a minha vocação era correr longas distâncias enquanto lançava objetos para o alto.”
[In a 2015 interview, which I read in its entirety, he is asked how he realized joggling was his sport. He says, “Once I realized that I wasn’t going to make the NHL, I looked at my tattered copy of the Guinness Book of World Records and thought, “There are tens of thousands of records in there. Somewhere, there must be something that I can be the best at. I just need one thing.” One day I was flipping through the book, which was a sort of Bible to me at the time, and came across the record for the fastest “joggling” marathon, and all at once the angels flew down from above and advised me that joggling was my true calling. They told me that one day I would be the greatest joggler the world has ever seen. And at that moment, I knew my life’s calling was to run long distances while tossing objects in the air.”]

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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)
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