
#120 – São Paulo, 4 de julho de 2026
Encantados com os flamingos
hortifruti.org
“Agradeço à minha família pela paciência enquanto eu escrevia cinco livros em cinco anos. Não foi saudável e prometo que não farei isso de novo.”
(Simon Kuper)
:: EDITORIAL ::
Ainda não é nem dia 5 e já estamos destroçados. Nas férias com crianças, não há pausa para hidratação, os juízes foram embora e as nossas tardes são reencenações deste vídeo com três jogadores profissionais driblando cem criancinhas japonesas. “After review, number 10, Brazil, closed her eyes, decision is red card!”
Esta edição foi o que deu para fazer.
:: EXAUSTÃO ::
Simon Kuper, World Cup Fever
Um amigo em Tóquio me disse que eu conheci mais do Japão em um mês do que muitos japoneses conhecem em toda a vida. Logo eu estava tão visivelmente exausto que, quando um colega me viu no centro de imprensa, veio até mim e mediu meu pulso.
[One friend in Tokyo told me that I visited more of Japan in a month than many Japanese do in a lifetime. I was soon so visibly shattered that when one colleague saw me in a media centre, he came up and took my pulse.]
:: INJUSTIÇA ::
Margaret Atwood, Cat’s Eye
Fui injusta com ele, é claro, mas onde eu teria ido parar sem essa injustiça? Estaria subjugada, presa ao jugo. As mulheres jovens precisam dessa injustiça; é uma de suas poucas formas de defesa. Precisam da sua dureza, precisam da sua ignorância. Caminham no escuro, à beira de penhascos altos, cantarolando baixinho, julgando-se invulneráveis.
[I was unfair to him, of course, but where would I have been without unfairness? In thrall, in harness. Young women need unfairness, it’s one of their few defences. They need their callousness, they need their ignorance. They walk in the dark, along the edges of high cliffs, humming to themselves, thinking themselves invulnerable.]
:: CHECAGEM ::
Chris Bachelder e Jennifer Habel, Dayswork
Verificação de fatos: um gavião poderia realmente agarrar e levar embora seu cachorro minúsculo? Não, segundo um escritor freelancer especializado em temas naturais, que não recomenda prender pesos pequenos ao seu cachorro.
[Fact check: Could a hawk actually fly away with your tiny dog? No, according to the freelance nature writer, who does not recommend attaching small weights to your dog.]
:: ALELUIA ::
Gabriel Thompson, Working in the shadows
Para Pilgrim, ser um gigante da indústria avícola não é apenas um trabalho — é sua vocação. “Não há dúvida de que Deus queria que eu fosse um exemplo de empresário cristão”, disse ele a um repórter, e sua religiosidade transparece em muitas áreas que parecem bastante seculares. “Quero agradecer a Jesus Cristo pelo nosso novo avião Hawker 800 XP”, escreveu ele no boletim informativo da empresa, após adquirir um segundo jato corporativo por 12 milhões de dólares em 1999. “Uma nova Bíblia foi colocada no avião, em agradecimento a Jesus”, continuou. “Agora operamos ambas as aeronaves em nome de nossa empresa, que sempre louva a Jesus.”
[For Pilgrim, being a titan in the poultry industry isn’t just a job— it’s his calling. “There’s no doubt that God wanted me to exemplify being a Christian businessman,” he told one reporter , and his religiosity seeps into many areas that appear quite secular. “I want to thank Jesus Christ for our new Hawker 800 XP airplane,” he wrote in the company newsletter after purchasing a second corporate jet for $ 12 million in 1999. “Another Bible has been added to the new airplane, thanking Jesus,” he continued. “We are now operating both airplanes for our company which always praises Jesus.”]
:: FLAMINGOS ::
Lauren Collins, “Signed, sealed, delivered”
Em 1890, o futuro estadista britânico Neville Chamberlain visitou a ilha com seu irmão para avaliar se ela seria adequada à implantação de uma plantação de sisal. Este último ficou “encantado com os flamingos”, mas os Chamberlain acabaram desistindo do projeto.
[In 1890, the future British statesman Neville Chamberlain visited the island with his brother to see if it would make a good sisal plantation. The latter was “in ecstasies over the flamingoes,” but the Chamberlains ultimately abandoned the project.]
:: TROFÉUS ::
Simon Kuper, World Cup Fever
Na primeira final da Copa do Mundo, o Uruguai venceu a Argentina por 4 a 2. Em seguida, os uruguaios correram em volta do gramado com um troféu próprio, aparentemente de prata — possivelmente um prêmio conquistado em alguma outra competição.
[In the first World Cup final, Uruguay beat Argentina 4-2. Afterwards the Uruguayans ran around the pitch waving their own trophy, apparently made of silver – possibly a prize won in some other competition.]

:: MAIS TROFÉUS ::
Simon Kuper, World Cup Fever
Os companheiros de time carregaram seu pequeno capitão pelo campo enquanto ele acenava à torcida e beijava a taça. Uma foto dele erguendo o troféu acima da cabeça alcançou o recorde de 74 milhões de curtidas no Instagram. (O recorde anterior pertencia a uma foto de um ovo.)
Em meio à euforia, dois dirigentes da FIFA se aproximaram de Di María, que comemorava com um troféu diferente, e o instruíram a não deixar mais ninguém tocar nele. Di María ficou confuso. “O que é aquilo, então?”, perguntou, apontando para a taça de Messi.
A taça de Messi era falsa, lançada ao gramado por torcedores argentinos. Di María é que estava segurando a verdadeira.
[Teammates carried their little captain around the field as he waved and kissed the cup. A photograph of him holding it above his head garnered a record seventy-four million likes on Instagram. (The site’s previous record had been held by a photo of an egg.) Amid the frenzy, two FIFA officials went up to Di María, who was celebrating with a different trophy, and told him not to let anyone else touch it. Di María was baffled. ‘What’s that then?’ he asked, pointing at Messi’s cup. Messi’s was a fake, thrown onto the field by Argentinian fans. Di María was holding the real thing.]
:: UMA PENA ::
Weike Wang, “The Dreamdrive”
“E ontem, teve alguma galinha?”, perguntou o psicólogo durante uma sessão. O homem verificou naquela noite e na seguinte — conferiu durante sete noites seguidas —, apenas para relatar que não havia galinhas psicodélicas atravessando a estrada. “Uma pena”, disse o psicólogo, fazendo uma anotação.
[The psychologist was a willing accomplice, even curious. “There ever any chickens?” he’d asked during one session. The man checked that night and the night after, seven nights in a row he checked, only to report back that there were no psychedelic chickens crossing the road. “A shame,” the psychologist said, making a note.]
:: LITERATURA ::
Chris Bachelder e Jennifer Habel, Dayswork
Três anos após a publicação de Clarel, Melville autorizou, a pedido de seu editor, a venda de 224 exemplares a uma fábrica de papel para serem transformados em polpa — esses exemplares não vendidos, de uma tiragem original de 350, vinham ocupando um espaço valioso no depósito.
[Three years after Clarel’s publication, Melville authorized, at his publisher’s request, the sale of two hundred and twenty-four copies to a paper mill for pulping—These unsold copies, from an original print run of three hundred and fifty, had been taking up valuable office space.]
:: A TRISTEZA DO CACHORRO ::
Claudio Galperin, O avesso dos dias
Eu não acredito que Deus esteja morto. Eu tampouco acredito que Deus esteja vivo. Eu acredito na tristeza do meu cachorro, que de uns tempos pra cá deu para emagrecer junto comigo.
:: CONVERSAS COM NEVE ::
Weike Wang, “The Dreamdrive”
Assim eram as coisas, até que o homem mencionou, casualmente — mais como um pano de fundo —, que, durante sua viagem onírica, havia conversado com a neve. O psicólogo inclinou-se para a frente e perguntou se ele se referia à neve que caía do céu, e não a um acúmulo no chão na forma de um boneco de neve musculoso ou de uma boneca de neve voluptuosa. O homem esclareceu que estava falando de flocos de neve.
[This was the nature of things, until the man mentioned, offhandedly, more as a setting detail, that, in the dreamdrive, he talked to snow. The psychologist leaned forward and clarified that the man meant snow from the sky, and not a ground-level accumulation in the form of a buff snow guy or a voluptuous snow gal. The man clarified that he meant snowflakes.]
:: RETROSPECTIVA ::
Cesar Aira, Eu era uma mulher casada
Na viagem, que me parecia eterna, não tinha outro remédio senão pensar. Fazia um balanço das minhas dores. Lembrava da última, da antepenúltima, remontava à primeira, mas não a encontrava, sempre havia uma anterior.
:: ONDAS DE SOFÁ ::
Weike Wang, “The Dreamdrive”
Já que os rádios são frequentemente encontrados nos mesmos cômodos que os sofás, o homem perguntou a que velocidade as ondas de sofá se propagavam. Na velocidade do som ou da luz? O neurologista mais competente respondeu: som, com certeza. As ondas de sofá viajam à velocidade do som.
[Since radios are often found in the same rooms as sofas, the man asked at what speed sofa waves travelled. Sound or light? The better neurologist said sound, for sure. Sofa waves travel at the speed of sound.]
:: VIETNÃ ::
Wislawa Szymborska, Poemas
(tradução de Regina Przybycien)
Mulher, como você se chama? – Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem? – Não sei.
Para que cavou uma toca na terra? – Não sei.
Desde quando está aqui escondida? – Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? – Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? – Não sei.
De que lado você está? – Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. – Não sei.
Tua aldeia ainda existe? – Não sei.
Esses são teus filhos? – São.

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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)
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