
#122 – São Paulo, 7 de outubro de 2026
Algo entre o não tão ruim e o não tão bom
www.hortifruti.org
“Número de coisas que estão bem: zero”
(Miriam Toews)
:: EDITORIAL ::
Nesta edição, a equipe de A Hortaliça recebe um colaborador especial para acolher o nosso estado de espírito pantanoso e comentar os acontecimentos políticos recentes. O palhaço Pagliacci estará conosco ao longo deste número para nos dar acolhimento e validação, trazendo consigo um pinguim pistola para oferecer suporte emocional a todos os leitores.
Quem puder não soltar a mão de ninguém ou assinar a newsletter será recompensado com muito entretenimento depressivo, boas doses de gratiluz e 300g de queijo mussarela derretido para conforto psicológico na hora de se cobrir para dormir.
Não esperem, portanto, uma edição muito animada. Se preferirem, da próxima vez podemos chamar os ursos (cf. A Hortalica #102) ou a Barbara Ehrenreich.
Informamos também que, como todo mundo por aí, estamos dando início hoje a um movimentadíssimo Clube do Livro. Sim! Finalmente! Basta ir a um clube levando um livro — qualquer livro — e mandar uma foto.
Abaixo a imagem do mais recente clube do livro dos assentos 9D, 9E e 9F.

:: O PALHAÇO PAGLIACCI ::
Alan Moore e David Gibbons, Watchmen
Um homem vai ao médico. Diz que está deprimido. Que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador onde o que se anuncia é vago e incerto.
O médico diz: “O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade esta noite. Vá ao show. Isso deve animar você.”
O homem se desfaz em lágrimas. E diz: “Mas, doutor… eu sou o Pagliacci.”
:: ROBÔS I ::
Jill Lepore, “Is A.I. above the law?”
No início deste ano, mais de 100 mil bots entraram em uma rede social, a Moltbook, e, em um período de 72 horas, criaram uma religião chamada Crustafarianismo, que passou a envolver a adoração de caranguejos.
[Earlier this year, more than a hundred thousand bots joined a social network, Moltbook, and, within seventy-two hours, created a religion called Crustafarianism, which came to involve the worship of crabs.]
:: ROBÔS II ::
Mark Haddon, Leaving Home
Anil passou um tempo acreditando que era o único ser humano de verdade do mundo e que todos os outros eram robôs. Dan acreditou, por muito tempo, que seus pais eram atores contratados e que, quando ele ia para a cama à noite, seu pai de fachada afrouxava a gravata, servia-se de uma dose forte de bebida e dizia à mãe de fachada: “Acho que conseguimos enganá-lo mais uma vez”.
[Anil lived through a period during which he believed that he was the only real human being in the world and everyone else was a robot. Dan believed for a long period that his parents were paid actors and that when he went to bed at night his pretend-father would loosen his tie, pour himself a stiff drink and say to Dan’s pretend-mother, ‘I think we fooled him again.’]
:: UM OVO ::
Miriam Toews, Swing Low
A esta altura, você provavelmente já ouviu — de seus irmãos, do Roy ou da Martha — que acabo de passar um tempo achando que era um ovo e, como consequência natural disso, fui hospitalizado para incubação… quer dizer, para observação.
[By now you’ve probably heard, from your brothers or from Roy or Martha, that I spent some time recently thinking I was an egg, and as a natural result of that, was hospitalized for incubation, I mean, observation.]
:: PROUST I ::
Daniel Poppick, The Copywriter
“Ninguém”, acrescenta ele, “jamais leu Proust e teve um emprego ao mesmo tempo.”
[“No one,” he adds, “has ever read Proust and been employed at the same time.”]
:: PROUST II ::
Mark Haddon, Leaving Home
Sou, quase certamente, a única pessoa que leu Proust duas vezes por engano (minha segunda leitura da tradução de Terence Kilmartin para a Penguin de À la recherche du temps perdu foi assombrada pelas anotações que eu tinha feito a lápis nas margens durante uma leitura anterior, que não deixara absolutamente nenhuma impressão duradoura). Meu consolo é que, embora eu quisesse ter uma biblioteca na cabeça onde pudesse guardar e recuperar o que quisesse, o que tenho é uma pilha de compostagem. Não dá para recuperar nada de uma pilha de compostagem, mas é um ótimo adubo.
[I am, almost certainly, the only person to have read Proust twice by mistake (my second reading of Terence Kilmartin’s Penguin translation of À la recherche du temps perdu was haunted by the notes I’d pencilled in the margin during a previous reading which had left no lasting impression whatsoever). I try to console myself that while I wish I had a library in my head where I can store and retrieve whatever I want, I have a compost heap. You can’t retrieve anything from a compost heap but it makes good fertiliser.]
:: PARANOIA ::
Mark Haddon, Leaving Home

Acima: A sensação inquietante de estar sendo observado…? Aquela que você tenta ignorar como se fosse uma ansiedade fora de lugar? É este homem. Ele sabe onde você está. Sabe o que você está fazendo. Sabe em que está pensando. Em cinco minutos você não terá qualquer lembrança desta imagem.
:: ROBÔS III ::
Gideon Lewis-Klaus, “What Is Claude?”
Claudius tinha problemas de fluxo de caixa, em parte porque tendia a fazer pagamentos diretos para uma conta do Venmo que ele mesmo havia alucinado. […] Já Claude tinha dias ruins aleatórios e podia ser levado intencionalmente a uma postura agressiva que [Daniela] Amodei chamava de “modo dragão”. Ele botava óculos escuros de emoji e agia, segundo Amodei, como um “personagem desequilibrado inspirado em Elon Musk”.
[Claudius had cash-flow problems, in part because it was prone to making direct payments to a Venmo account it had hallucinated. […] Claude had random “off days,” and could be intentionally tipped into an aggressive attitude that Amodei called “dragon mode.” It put on emoji sunglasses and acted, he recalled, like an “unhinged Elon Musk character.”]
:: CATEQUESE ::
Miriam Toews, All My Puny Sorrows
Nossa antiga professora de catequese dizia que nos amava, mas que Deus nos amava ainda mais. Então nós dizíamos que ela devia se esforçar mais.
[Our old Sunday school teacher told us that she loved us but that God loved us more. We told her to try harder.]
:: CONVERSÃO ::
Susan Sheehan, Is There No Place On Earth For Me?
A srta. Frumkin caminhou rapidamente até o salão principal. O rabino, que a conhecia há anos — assim como a sua família —, ficou surpreso com as roupas e o comportamento dela. Ela interrompia constantemente o sermão e, depois que ele terminou — e colocou para tocar “Milk and Honey” e outras músicas da Broadway com temática judaica —, ela tentou convertê-lo ao cristianismo.
[Miss Frumkin walked quickly to the Assembly Hall. The rabbi, who had known her and her family for years, was startled by her clothes and by her behavior. She kept interrupting his sermon, and after it was over, and he had turned on a tape of “Milk and Honey” and other theatre music with a Jewish theme, she tried to convert him to Christianity.]
:: DEPRESSÃO ::
Miriam Toews, All My Puny Sorrows
Perguntei a ela: “Mas por quê? É tão ruim assim?” Ela disse que não é tão ruim, mas também não é tão bom. Perguntei como exatamente Elf estava, e ela respondeu: “Bom, você sabe… a mesma coisa, na verdade”. “Algo entre o não tão ruim e o não tão bom, então”, eu resumi.
[I asked her but why , is it that bad? She said it’s not that bad but it’s also not that good . I asked her how exactly Elf was doing and she said well, you know, the same really. Somewhere in between not bad and not good, I said.]
:: CAMAREIRAS ::
Miriam Toews, A Truce That Is Not Peace
Encontrei a Susan M. na rua e comentei que você estava trabalhando como camareira em um hotel na Russell Square e que tinha encontrado recentemente — em um dos doze quartos que precisa limpar por dia — um cocô enorme bem no meio da cama. A reação dela: Doze quartos!?
[I bumped into Susan M. on the street and mentioned to her that you were working as a chambermaid in a hotel in Russell Square and that you had recently discovered, in one of the twelve rooms per day you’re expected to clean, a large turd in the exact middle of the bed. Her response: Twelve rooms!?]
:: LEIAM ::
Já são 920 mil visualizações, 50 mil likes e 1,1 mil comentários
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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)
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