#111 – São Paulo, 7 de outubro de 2025
Todas as partes mortalmente venenosas
Especial checadores
hortifruti.org
“Deus abençoe sua pequena alma! […]
Ela ficará tão doente quanto quiser!”
(Charlotte Perkins Gilman)
:: EDITORIAL ::
Sem querer atrapalhar a viagem dos senhores, estamos aqui singelamente pedindo mais assinaturas e/ou doações para este humilde Substack, que anda meio mal das pernas. Recusamo-nos terminantemente a publicar conteúdo fechado porque somos antigos e ainda acreditamos nessas coisas de internet livre, código aberto, fim da escala 6×1 e tarifa zero. Mas se até o fim do ano não conseguirmos mais colaborações, seremos obrigados a suspender novamente A Hortaliça.
(Mentira, provavelmente vamos continuar para sempre porque é um ótimo jeito de desovar as citações aleatórias de nossas leituras cotidianas, ainda que o esquema no tablet seja muito mais complicado do que no Kindle, mas a vida não é panqueca e agora contamos com a ajuda de um programador exclusivo em tempo integral para suprir nossas demandas mais idiotas — estou falando de vocês, DeepSeek e ChatGPT —, de modo que esse ultimato não faz nenhum sentido, mas nos fez lembrar desse outro meme que vamos colar aqui —

Continuem ameaçando as testemunhas e avise-as para não mexerem com vocês; e ainda assim, com a faca na mão, peçam contribuições voluntárias sempre que for necessário.
Esta é uma edição dedicada aos checadores do Brasil e a todas as pessoas de nome Brayan. Se você gosta do nosso trabalho, puder e quiser ajudar, escolha um plano de assinatura no Substack ou deposite moedas de ouro para a chave pix vmbarbara@yahoo.com.
:: SEM GARANTIA ::
Tad Friend, “How to Live Forever…”
A anuidade [da clínica Fountain Life] custa US$ 21.500, e mais cerca de US$ 5.000 para suplementos e exames adicionais. Isso não é ruim, pelo menos em comparação a outros planos do mesmo tipo: o pacote Super Humano da Extension Health custa dez vezes mais, e a superhumanidade não é garantida.
[Annual membership is $21,500, plus about $5,000 for supplements and additional tests. This isn’t bad, as such plans go: the Superhuman package at Extension Health costs ten times as much, and superhumanity is not guaranteed.]
:: ERRADO NÃO ESTAVA ::
Andrew Solomon, Um crime de solidão
Crisipo de Cnido, um dos seguidores de Hipócrates, achava que a resposta para a depressão estava no consumo de mais couve-flor.
:: POMBO ::
Natalie Haynes, Divine Might
Não há nada que impeça você de brigar com as Musas, mas pode acabar se transformando em um pombo se fizer isso.
[There’s nothing to stop you picking a fight with the Muses, but you may find yourself changed into a magpie if you do.]
:: DIA NACIONAL DO BRAYAN ::
Genevieve Glatsky, The World Newsletter (NYT)
Na gíria colombiana, o nome Brayan é frequentemente usado para se referir a um delinquente desajeitado e pobre. A atenção ao uso desse estereótipo ganhou as redes sociais no mês passado, depois que o presidente colombiano, Gustavo Petro, sempre propenso a gafes, classificou as pessoas de nome Brayan de “homens vampiros” que deixam as mulheres “grávidas e abandonadas”.
Os Brayans do país — uma população de mais de 165 mil pessoas, segundo o registro nacional — não ficaram nada felizes. Em um vídeo, um influenciador chamado Brayan Mantilla convocou alguns de seus colegas Brayans para um Dia Nacional do Brayan.
[…] “Durante anos, fomos injustamente discriminados, transformados em memes e privados do direito de sermos levados a sério em nossas vidas profissionais e pessoais”, disse Mantilla em um vídeo. “Não podemos carregar a culpa do nome que nossos pais nos deram.”
[In Colombian slang, the first name Brayan is often used to refer to a reckless, low-income delinquent. Attention to the use of this stereotype was all over social media last month after Colombia’s gaffe-prone president, Gustavo Petro, called men named Brayan “vampire men” who leave women “pregnant and abandoned.” The country’s Brayans — a population more than 165,000 strong according to the national registry — were not pleased. An influencer named Brayan Mantilla rallied some of his fellow Brayans in a video calling for a National Brayan Day. […] “For years we have been unfairly singled out, turned into memes and denied the right to be taken seriously in our professional and personal lives,” Mantilla said in a video. “We are not to blame for the name our parents gave us.”]
:: MORTALMENTE ::
Laura Anderson, em Andrew Solomon, Um crime de solidão
Hoje meu namorado me arrastou para o Jardim Botânico. Na descrição de uma das árvores, uma placa dizia: “todas as partes mortalmente venenosas”.
:: LAVAR ROUPA ::
Lauren Collins, “Inside Uniqlo’s Quest For Global Dominance”
Os consumidores de Nova York abraçaram a Uniqlo. Um sujeito do setor financeiro comprava camisetas, meias e roupas íntimas com tanta frequência que os funcionários ficaram se perguntando se ele tinha simplesmente parado de lavar roupa.
[New York shoppers embraced Uniqlo. One finance guy bought T-shirts, socks, and underwear so regularly that staff wondered whether he had just stopped doing laundry.]
:: POSITIVIDADE FETAL ::
Lyz Lenz, Belabored
A ciência leva facilmente à superstição. Hoje, existe um próspero mercado contemporâneo de produtos para promover a positividade fetal e proteger seu bebê das influências perversas do mundo. O Bellybuds, um sistema de som de US$ 49,99 para bebês ainda não nascidos, anuncia sua capacidade de causar uma impressão materna positiva ao transmitir o som para o útero através da barriga. A empresa concorrente Babypod argumenta que as mães precisam inserir um alto-falante em forma de tampão na vagina para garantir que a música chegue ao bebê.
[The science leads easily to superstition. Today, a thriving contemporary market of goods exists to promote fetal positivity and protect your baby from the wicked influences of the world. Bellybuds, a $ 49.99 sound system for your unborn baby, advertises its ability to make a positive maternal impression by transmitting sound into the womb through the belly. Rival company Babypod argues that mothers need to insert a tampon-like speaker in their vagina to be sure the music reaches the baby.]
:: FAZER NADA ::
Jerome Groopman, Your Medical Mind
No início da década de 1980, já havia uma escola de pensamento clínico que defendia que a maioria dos casos de dor nas costas não tinha uma causa anatômica clara e que poderíamos nos recuperar basicamente sem fazer nada.
[In the early 1980s, there was already a school of clinical thought that most cases of back pain lacked a clear anatomical cause and that we can return to health by essentially doing nothing.]

:: CAFETERIA OK ::
O leitor Marcos Faria nos escreveu para informar que a Lanchonete Boazinha é concorrente da Cafeteria Ok (anexa ao Hotel Ok).
“Uma amiga ficou hospedada nele uma vez, disse que é ok.”
:: RETRATO DO XÁ ::
Daniel Immerwahr, “The Iranian Revolution Almost Didn’t Happen”
Na verdade, o poder do Xá parecia estar se fortalecendo. Em 1975, ele aboliu os dois partidos políticos permitidos no Irã e estabeleceu um único partido em seu lugar, ao qual todos os adultos eram obrigados a se filiar. Todos os prédios públicos e muitas casas exibiam o retrato do Xá. Era impossível atirar uma pedra sem acertar um retrato, dizia a piada — embora você fosse preso se o fizesse.
[If anything, the Shah’s grip appeared to be strengthening. In 1975, he abolished Iran’s two permitted political parties and established a single one in their place, which every adult was required to join. All public buildings and many homes displayed the Shah’s portrait. You couldn’t throw a stone without hitting one, the joke went—though you’d be arrested if you did.]
:: A HORTALIÇA PRODUÇÕES ::
Alex Barasch, “A24’s Empire of Auteurs”
Reichardt fala com carinho de seus tempos de A24. “Pensei em um filme sobre um cara roubando leite e outro sobre um pássaro ferido e um ceramista”, disse ela. “Eles toparam!”.
[Reichardt speaks fondly of her A24 era. “I had a film about a guy stealing milk and another one about a hurt bird and a ceramicist,” she said. “They were up for it!”]
:: CHECADORES ::
Zach Helfand, “The History of The New Yorker’s Vaunted Fact-Checking Dept.”
Há uma década, Calvin Tomkins escreveu sobre um artista que disse que se casaria em 21 de junho, solstício de verão. O checador, David Kortava, ligou para o artista, deu-lhe os parabéns e avisou que o solstício cairia no dia 20 daquele ano. O artista mudou a data do casamento.
[A decade ago, Calvin Tomkins wrote about an artist who said he was getting married on June 21st, the summer solstice. The checker, David Kortava, called the artist, congratulated him, and alerted him that the solstice would be on the twentieth that year. The artist moved the wedding date.]
:: A BALEIA OU O HOMEM ::
Zach Helfand, “The History of The New Yorker’s…”
O que [Harold] Ross transmitiu aos checadores foi a ideia de que era importante entender o mundo em toda a sua estranheza. E também: uma disposição para admitir a ignorância. Certa vez, ele meteu a cabeça na sala dos checadores e perguntou: “Moby Dick é a baleia ou o homem?”.
[What Ross gave to the checkers was the idea that it mattered to understand the world in all its weirdness. Also: a willingness to admit ignorance. He once popped his head into the checkers’ room and asked, “Is Moby Dick the whale or the man?”]
:: CHECADORES – III ::
Zach Helfand, “The History of The New Yorker’s…”
Certa vez, Zadie Smith recebeu uma ligação perguntando se, anos antes, na festa de aniversário de Ian McEwan, uma borboleta pousou em seu joelho. Quando um artigo de Tad Friend descreveu o cantor Art Garfunkel agitando os braços, o checador pediu a Garfunkel que confirmasse se tinha dois braços.
[Zadie Smith once received a call regarding whether, years earlier, at Ian McEwan’s birthday party, a butterfly landed on her knee. When a Talk piece by Tad Friend described the singer Art Garfunkel waving his arms around, the checker asked Garfunkel to confirm that he had two arms.]
:: A ÚLTIMA, EU PROMETO ::
Zach Helfand, “The History of The New Yorker’s…”
Assim como robôs de atendimento ao cliente ou diretores de RH, checadores e redatores ficam rodeando os assuntos. Eles executam uma delicada dança linguística. Durante um impasse exaustivo sobre um detalhe menor, o redator pode dizer: “Acho que está bom”, o que significa: “Sei que não está exatamente correto, mas você está sendo um pedante”. O revisor pode responder: “Isso não vai me tirar o sono”, o que significa: “Você é um bárbaro, mas é o seu nome na matéria”.
[Like customer-service bots, or H.R. directors, checkers and writers talk around things. They perform a delicate linguistic dance. At an exhausting stalemate on a minor point, the writer might say, “I think it’s O.K.,” which means “I know it’s not exactly correct, but you’re being a prig.” The checker might respond, “It won’t keep me up at night,” which means “You’re a barbarian, but it’s your name on the piece.]
:: LAGOSTA GIGANTE ::
Jenny Offill, Dept. of Speculation
Sempre que a esposa tem vontade de usar drogas, ela pensa em Sartre. Uma viagem ruim e então uma lagosta gigante o perseguiu pelo resto de seus dias.
[Whenever the wife wants to do drugs, she thinks about Sartre. One bad trip and then a giant lobster followed him around for the rest of his days.]

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Agradecimentos: Esta edição foi possível graças a 19 aguerridos assinantes.
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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)
::: hortifruti.org :::
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