A fila do xixi tem que andar


#114 – São Paulo, 9 de janeiro de 2026
Especial podcasts
Aceitamos pix e molho para tacos
hortifruti.org

“A gente claramente perdeu o controle do arco narrativo”
(Pedro Daltro e Cristiano Botafogo)

Levanta-se a hipótese de que ele seja burro”
(idem, sobre o general Augusto Heleno)


:: EDITORIAL ::

Nada como escutar um podcast para impedir o córtex pré-frontal medial de cavar valas macabras no cerne da consciência humana enquanto o corpo físico se ocupa em limpar o sifão da pia. É realmente uma ocupação antidepressiva exemplar, um verdadeiro escudo acústico contra a ruminação. Uma ótima ideia para começar o ano.

Aqui vão alguns de nossos podcasts favoritos.


:: ACONTECE ::
Oliver Sacks, Alucinações musicais

Muitas de nossas associações musicais são verbais, e às vezes absurdas. Esta semana do Natal, quando comi salmão defumado (que adoro), ouvi na mente o verso “O come, let us adore Him”. E agora, para mim, o hino ficou associado ao salmão.


:: PAGO POR SUBSTANTIVO ::

Michael Hobbes e Peter Shamshiri
If Books Could Kill

Ele é pago por substantivo?
[Is he paid by the noun?]
(Michael, sobre um livro que eu não lembro qual era)

É, realmente parece que ele está só sentando e digitando sem ler nada.
[Yeah it really feels that he’s just sitting down and typing and not reading it.]

Vou só ficar aqui lendo um outro livro enquanto você fala.
[I’ll just be sitting here reading a different book while you talk.]


:: PRESOS ::

Pedro Daltro e Cristiano Botafogo
Medo e Delírio em Brasília

Um tá preso de fato e o outro tá preso na própria loucura.

(Sobre Daniel Silveira e Marcos do Val)


:: MERITOCRACIA DA SAÚDE ::
Michael Hobbes e Aubrey Gordon
Maintenance Phase

Ele acha que mudanças no estilo de vida podem curar toda e qualquer doença. [He thinks that lifestyle can cure every single illness] (Michael)

É isso que você pensa quando tem uma saúde relativamente boa, quando sempre teve acesso a cuidados médicos e quando lhe ensinaram que saúde é uma meritocracia. E que você colhe o que planta, o que não é verdade para quase nada nesta vida. [Which is what you think when you have relatively good health, when your healthcare has always been provided to you, and when you’ve been taught that health is a meritocracy. And you get out of it what you put into it, which is not true of almost anything in this life.] (Aubrey)

[…] Confundir a percepção que as pessoas têm da sua saúde com o seu caráter, moralidade e valor enquanto seres humanos. [Muddling up people’s perceived health with their carachter and morality and worth as people.]


:: MERITOCRACIA DA SAÚDE – PT. 2 ::
Michael Hobbes e Aubrey Gordon
Maintenance Phase

É claro que nossos estilos de vida afetam nossa saúde, há uma certa dose de verdade nisso. Mas acredito que a adoção dessa ideia, especialmente pela indústria, acaba introduzindo o que os pesquisadores chamam de ‘paradigma do risco associado ao estilo de vida’. O fato de o estilo de vida influenciar o risco de doenças é bastante inquestionável, mas, com o tempo, a ideia passou a ser vista como a única coisa que afeta esse risco. Chegamos, então, à conclusão oposta: que todos que adoecem devem ter feito algo para merecê-lo.

[Of course our lifestyles affect our health, there is truth at the heart of this. But I think the adoption of this and specially the takeup of this by industry ends up smuggling in what the researchers call “the lifestyle-risk paradigm”. The fact that your lifestyle affects your risk for disease is pretty unobjectionable but eventually it became that your lifestyle is the only thing that affects your risk for disease. We then get the reverse understanding that well, then, everybody who is sick must have done something to deserve it.] (Michael)

Tudo isso parte da premissa — e ao mesmo tempo reforça — a ideia de que, mais uma vez, pessoas magras e sem deficiência estão fazendo as coisas “certas”, e que quaisquer custos assumidos por um empregador são culpa das pessoas gordas e das pessoas com deficiência.

[All of this is both predicated on and reinforcing the idea that, again, thin people and non-disabled people are doing right things and that any costs that an employer shoulders are the fault of fat people and disabled people.]


:: INCENTIVAR ::

Zawn Villines
Liberating Motherhood, “The shock of motherhood in a patriarchy

Meu marido realmente espera incentivar o lesbianismo [em nossas filhas].

[My husband is really hoping to encourage lesbianism.]


:: AS DEZ MAIS DO CÓRTEX ::
Oliver Sacks, O homem que confundiu sua mulher com um chapéu

W. Penfield impressionou-se com a frequência dos ataques musicais e deixou muitos exemplos fascinantes e quase sempre engraçados, uma incidência de 3% nos mais de 500 pacientes com epilepsia do lobo temporal que ele estudou. […]

Em cada caso, a música era fixa e estereotipada. A mesma melodia era ouvida repetidamente, fosse no decorrer de ataques espontâneos, fosse mediante estimulação elétrica do córtex propenso a ataques. Portanto, essas melodias não eram populares só no rádio, mas igualmente populares como ataques alucinatórios; elas eram, por assim dizer, “As dez mais do córtex”.


:: RESPONSABILIZAÇÃO ::
Michael Hobbes e Peter Shamshiri
If Books Could Kill

Isso refletia uma espécie de responsabilização de baixo para cima, que eles se sentiam impotentes para disciplinar.

[It reflected a sort of bottom-up accountability that they felt powerless to discipline] (Peter, sobre a “cultura do cancelamento”)

Esse medo entre os membros da maioria — pessoas que surtam com a escolha das palavras, “nem dá mais para dizer isso” —, em vez de pensarem em como a aceitação afetaria os membros da minoria, pensam em como a aceitação afetaria os membros da maioria.

[This fear among members of the majority – people who freak out about word choice, “you can’t even say this anymore” – instead of thinking about how acceptance would affect members of the minority, they think about how acceptance would affect members of the majority.]


:: ENTROPIA ::
Sarah Marshall
You’re Wrong About, “The Auralyn

[…] viver com depressão crônica ou algo parecido. Significa que você não pode simplesmente se deitar e deixar acontecer, porque o que está acontecendo, e cada pequena coisa que você faz, cada gato que você desenha… Na verdade, você está lutando bravamente contra essa entropia em que está vivendo.

[[…] living with long-term depression or something like that. It just contains you can’t lie back and let it happen to you because it’s what’s happening and that every little thing you do and every cat that you draw is… actually, you’re very bravely fighting against this entropy that you’re living in.]

Me vê 50 reais em picolé?

:: MEDIOCRIDADES ::
Michael Hobbes
If Books Could KillThe Identity Trap

[…] Todas essas mediocridades que acabam prosperando porque dizem às pessoas no poder o que elas querem ouvir.

[All these mediocrities that are allowed to flourish because they’re telling people in power what they want to hear]


:: MOSQUITO ::
Tom Rachman, The Imperfectionists

[…] um pequeno tocador de áudio que colocaríamos no quarto dele e que reproduziria um loop infinito do zumbido de um mosquito. Mas o aparelho só se ativaria no escuro, então, toda vez que ele apagava as luzes, o zumbido começava. Aí ele acendia as luzes para procurar o mosquito e ele não estava lá. E assim por diante, até que camisas de força fossem necessárias.

[… a little audio player that we’d stick in his bedroom and that would play an endless loop of a mosquito whining. But it would only activate in darkness, so every time he turned off the lights the whining would start. Then he’d turn on the lights to hunt for it and the mosquito wouldn’t be there. And so on and so on, until straitjackets were required.’]


:: LUTA ::
Pedro Daltro e Cristiano Botafogo
Medo e Delírio em Brasília

São 34 minutos de luta contra as próprias palavras.

(Sobre a entrevista do Jair Renan com o Léo Dias)


:: VOLTAR NO TEMPO ::
Michael Hobbes e Peter Shamshiri
If Books Could KillThe Secret

Eu daria tudo o que tenho para poder voltar no tempo e ler isso para o Karl Marx.

[I would give up everything I own to be able to go back in time and read that to Karl Marx.]


:: ACONTECE ::
Oliver Sacks, Alucinações musicais

“E de súbito”, Llinás conclui, “ouvimos uma música na cabeça ou, aparentemente vindo do nada, surge-nos uma forte vontade de jogar tênis. Isso às vezes simplesmente nos acontece.”


:: OUTROS PODCASTS ::

Outros podcasts que recomendamos:

Rádio Novelo Apresenta
Foro de Teresina
, revista piauí
Só no Brasil, de Pedro Duarte e Victor Camejo
Noites Gregas, de Cláudio Moreno
This American Life
A Hora
, de Thais Bilenky e José Roberto de Toledo
Calma Urgente
Science Vs.,
 de Wendy Zukerman
The Burnt Toast
, de Virginia Sole-Smith
Nathalie Haynes Stands Up For The Classics
Can I Have Another Snack
, de Laura Thomas
Xadrez Verbal, de Matias Pinto e Filipe Figueiredo

Audiosséries:

The Retrievals, de Susan Burton
Silenciadas, de Cristina Fibe
O Chá Revelação, de Chico Felitti
Avestruz Master
Shell Game
, de Evan Ratliff
Not a Very Good Murderer
, de Ronan Farrow
vinte mil léguas, de Sofia Nestrovski e Leda Cartum


:: MOLHO PARA TACOS ::
Kelly and Zack Weinersmith, A City on Mars

Aparentemente, o ambiente espacial também faz com que a comida tenha um sabor menos intenso. Isso pode ser resultado da mudança de fluidos corporais, que cria uma pressão nos seios nasais semelhante à de um resfriado, ou pode ser que, na ausência de gravidade, os cheiros não cheguem ao nariz, ou ainda pode ser algo relacionado à atmosfera artificial. Seja qual for o motivo, os astronautas frequentemente cobiçam os condimentos picantes, como sal, pimenta, Tabasco e maionese. E, claro, molho para tacos.

O molho para tacos, salgado e saboroso, é tão apreciado pelos astronautas que, por cerca de uma semana em 1991, tornou-se a primeira moeda específica do espaço sideral. No voo do ônibus espacial STS-40, o molho para tacos era usado em tudo. O piloto Sid Gutierrez lembrou: “Embora eu mesmo não tenha feito isso, observei meus colegas de tripulação colocando molho para tacos em cereais Rice Krispies pela manhã”.

Por volta do oitavo dia, o comandante da STS-40, Bryan O’Connor, percebeu que o consumo de molho para tacos pela tripulação logo ultrapassaria o estoque disponível. Segundo Gutierrez, o comandante “confiscou todo o molho para tacos restante e o dividiu igualmente entre os membros da tripulação. A partir daí, o molho para tacos tornou-se a moeda de troca. Por exemplo, se fosse a sua vez de limpar a latrina, você podia pagar a alguém com um ou dois molhos para tacos para fazer isso por você.”

[The environment of space also reportedly makes food taste less flavorful. This may be a result of the fluid shift creating sinus pressure similar to a cold, or it may be that in zero gravity smells don’t waft up into your nose, or it may be something about the artificial atmosphere. Whatever the reason, astronauts often lust for piquant condiments, such as salt, pepper, Tabasco, and mayonnaise. And, of course, taco sauce. Salty, zesty taco sauce is so beloved by astronauts that for about a week in 1991 it became the first form of currency specific to outer space. On shuttle flight STS-40, taco sauce went on everything. Pilot Sid Gutierrez recalled, “Although I didn’t do it myself, I observed crewmates putting taco sauce on Rice Krispies in the morning.” Around day 8, STS-40’s Commander Bryan O’Connor realized the crew’s rate of taco sauce consumption would soon outstrip the taco sauce supply. According to Gutierrez, the commander “secured all the remaining taco sauce and divided it equally among the crew members. Thereafter taco sauce became the medium of exchange. For example, if it was your turn to clean the latrine, you could pay someone a taco sauce or two to do it for you.]

Meu peso em gelinho

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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)

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