Medusa com a cabeça de Perseu, de Luciano Garbati

#118 – São Paulo, 6 de maio de 2026
Sou eu, a Márcia
hortifruti.org

“Os homens deviam se sentir gratos porque as mulheres
só querem direitos iguais, e não vingança”
(meme de internet)


:: EDITORIAL ::

Nesta edição, convidamos cinco especialistas para discutir o tema “O feminismo foi longe demais?”

Curiosamente, os cinco são homens brancos héteros e todos concordam que a resposta é sim, com diferentes graus de entusiasmo. Um dos nossos convidados está percorrendo o país em turnê de divulgação de seu novo livro Cala a Boca Não Morreu — Uma Reflexão Sobre as Masculinidades em Risco, e irá debater com os outros quatro sobre o apagamento de vozes genuinamente qualificadas e a necessidade de recolocar os mudos em seu lugar.

Ele é professor de Literatura Comparada na Universidade de Califórnia, Berkeley, bolsista do ICFJ Knight Fellowship e colunista do Jornal A Manhã, onde assina artigos sobre cultura e política. Os outros quatro também.

No bate-papo, também serão discutidos temas de interesse geral como a cultura do cancelamento, o perigo dos ultraprocessados, a criação neurocompatível e a influência danosa das telas para o desenvolvimento emocional das próximas gerações. Um dos convidados irá declamar um poema de sua autoria.

Este podcast conta com o apoio da Fundação Pinheiro-Pugliesi e do conglomerado empresarial Ao Cubo.


:: TEMPO ::
Megan K. Stack, Women’s Work

Ainda assim, não me passa despercebido o fato de que paguei com meu tempo. Persiste a expectativa de que os homens paguem com dinheiro. Mas, quando se trata de tempo, quase sempre é a mulher quem paga.

[Still it does not escape my attention that I paid in time. There is a lingering expectation that men will pay in money. But when it comes to time, it is almost always the woman who pays.]


:: ESTÁ TUDO BEM ::
Lucy Jones, Matrescência

Está indo bem. Está tudo bem. O bebê está muito bem. Sim, está mamando bem. Está tudo bem. A falta de sono vai bem. Os pensamentos de morte vão bem. Estamos tão bem! Eles são tão fofos e só são pequenos assim uma vez, então está tudo bem. A melhor coisa que já me aconteceu.


:: GÊNIOS MASCULINOS ::
Jennifer Habel e Chris Bachelder, Dayswork

Os manuscritos praticamente ilegíveis dos gênios masculinos:

Um dos editores de Victor Hugo comparou sua escrita a um “campo de batalha em uma folha de papel”.
Um dos manuscritos de Balzac teria levado um tipógrafo à loucura.
Quanto a Robert Louis Stevenson, “nenhum impressor jamais conseguiu decifrar o que ele havia escrito”.

[The nearly illegible manuscripts of male geniuses: One of Victor Hugo’s publishers likened his writing to a “battlefield on a piece of paper.” One of Balzac’s manuscripts allegedly drove a typesetter to insanity. As for Robert Louis Stevenson, “No printer ever could make out what he had written.”]


:: DICA DE PODCAST ::

Focus: Adults in the Room, um podcast de jornalismo investigativo sobre um professor da Garfield High School, em Seattle, que cometeu suicídio em 1999 após denúncias de abuso sexual. A série valida as acusações feitas por estudantes à época, revela outros casos de natureza semelhante e expõe uma cultura institucional negligente, em que proteger a reputação dos professores era mais importante do que garantir a integridade dos alunos.


:: CORTADOR DE UNHAS ::
Annie Ernaux, Exteriors

Ele embarcou em Achères-Ville; tinha 20 ou 25 anos. Acomodou-se em dois assentos, com as pernas bem abertas. Do bolso, tirou um cortador de unhas e passou a usá-lo, contemplando a beleza obtida após aparar cada dedo, estendendo a mão à frente. Os passageiros ao redor fingiam não notar. Claramente, era a primeira vez que ele tinha um cortador de unhas. Insolentemente feliz. Ninguém podia estragar sua felicidade – a felicidade de um homem sem modos, ou assim pareciam sugerir as expressões daqueles ao seu redor.

[He got on at Achères-Ville, twenty, maybe twenty-five years old. He settled across two seats, his legs stretched out, sideways. From his pocket he extracts a pair of nail clippers and uses them, contemplating the beauty obtained after treating each finger, extending his hand in front of him. The passengers around him pretend not to notice. Clearly, it’s the first time he has owned a pair of nail clippers. Insolently happy. Nobody can mar his happiness-the happiness of a man with bad manners, or so the expressions of those around him would seem to suggest.]


:: BICICLETAS vs. BEBÊS ::
Lucy Jones, Matrescência

Na Inglaterra, é mais fácil viajar com uma bicicleta do que com um bebê. Uma certa companhia ferroviária tem um espaço exclusivo para quatro bicicletas ou duas tandens, que os ciclistas podem reservar com antecedência. As tandens têm mais direitos nos trens do que os jovens seres humanos. Não raro, vemos mães recentes sentadas no chão imundo com suas crianças pequenas.

A bicicleta torna as mulheres cruéis?


:: DESTRUIDORAS DE EMBRIÕES ::
Los Angeles Herald, June 13, 1897

Outra teoria que tem sido seriamente considerada é a de que [a insanidade] seja o resultado da intensa euforia provocada pelo pedalar veloz sobre o sistema nervoso.

As ciclistas francesas pedalam em ritmo acelerado. Todas elas são destruidoras de embriões em potencial, muito mais do que suas irmãs de outros países. Sendo este o caso, sugere-se que a prática desse exercício frenético entre as mulheres possa causar uma nova forma de insanidade, correspondente àquela que aflige as infelizes mulheres francesas.

[The other theory advanced as to the cause which has been seriously considered is that it is the result of the effect upon the nervous system of the intense exhilaration rapid riding brings about. French wheelwomen ride at a high pace. They are all embryo scorchers, much more so than their sisters in other countries. This being the case, it is suggested that the practice of scorching by women is likely to bring about a new form of insanity corresponding to that which afflicts the unfortunate French women.]


:: É POSSÍVEL ::
Virginia Woolf, Um teto todo seu

É possível que o professor, ao insistir de forma tão enfática na inferioridade das mulheres, não estivesse preocupado com a inferioridade delas, mas com sua própria superioridade.


:: VIRANDO CIDADES ::
Thorkild Hansen, Arabia Felix: The Danish Expedition of 1761-1767

Enquanto trabalhava nessa tarefa, ele inesperadamente se viu em uma situação difícil. Um pequeno ponto elevado perto da Coluna de Pompeu havia se mostrado um local adequado para observações, pois oferecia uma vista de grande parte da antiga muralha da cidade. Enquanto Niebuhr trabalhava com seus instrumentos, uma multidão rapidamente se reuniu ao seu redor: “Um dos presentes, um comerciante turco, notou que eu havia apontado meu astrolábio para a cidade. Ele estava tão curioso que insistiu em olhar pelo visor do instrumento e ficou bastante inquieto ao ver uma torre de cabeça para baixo. Isso deu origem a um boato de que eu havia vindo a Alexandria para virar a cidade inteira de cabeça para baixo.”

[While engaged on this work, he unexpectedly found himself in a difficult situation. A bit of high ground near Pompey’s Pillar had proved to be a suitable place for taking bearings because it commanded a view of a large part of the old city wall. While Niebuhr was working with his instruments, a crowd quickly gathered round him: “One of those present, a Turkish merchant, noticed that I had directed my astrolabe towards the town. He was so curious that he insisted on looking through the instrument’s viewfinder, and was rather disquieted when he saw a tower standing upside down . This gave rise to a rumour that I had come to Alexandria to overturn the whole city and stand it on its head.”]


:: EXCEPCIONAIS ::
Betty Friedan, The Feminine Mystique

Talvez as mulheres que se destacaram como “excepcionais” não se identifiquem realmente com as demais mulheres. Para elas, existem três classes de pessoas: homens, outras mulheres e elas mesmas; seu próprio status como mulheres excepcionais depende de manter outras mulheres em silêncio e de não perturbar a ordem estabelecida.

[Perhaps women who have made it as “exceptional” women don’t really identify with other women. For them, there are three classes of people: men, other women, and themselves; their very status as exceptional women depends on keeping other women quiet, and not rocking the boat.]


:: CANÁRIOS ::
Thorkild Hansen, Arabia Felix

Além dessa dissertação, ele [Christian Carl Kramer] escreveu um único livro, publicado em 1759. Nada sabemos sobre seu conteúdo, nem nos sentimos muito tentados a estudá-lo mais a fundo. […] Seu título basta: Canários e seus Cuidados.

[Apart from this dissertation, his authorship is limited to a single book, published in 1759. We know nothing of its contents, nor are we greatly tempted to study it more closely— as we are, for example, Forsskål’s work on the freedom of the press. Its title is sufficient. It was called Canaries and Their Care.]


:: BOLA DE BOLICHE ::
Jennifer Habel e Chris Bachelder, Dayswork

[…] Que Melville comprava livros quando não tinha dinheiro e quando estava morrendo, que comprava livros que ele próprio queria ler e os dava de presente a membros da família.

Que Lizzie provavelmente não queria ganhar Passeios Pela Cidade e Arredores de Jerusalém como presente de Natal em 1870.

[That Melville bought books when he was broke and when he was dying, that he bought books as gifts for family members that he wanted for himself. That Lizzie probably didn’t want Walks About the City and Environs of Jerusalem for Christmas 1870.]


:: NÃO HÁ COMO SABER ::
Annie Ernaux, Exteriors

No jornal Libération, o historiador Jacques Le Goff comentou: “O metrô é uma verdadeira curiosidade”. Será que as pessoas que o utilizam diariamente teriam a mesma opinião sobre o Collège de France? Não há como saber.

[In the newspaper Liberation, the historian Jacques Le Goff remarked: “The subway is quite a curiosity.” Would the people who commute every day feel the same way about the College de France? There is no way of knowing.]

“Querido duende: sou eu, a Márcia. Eu quero que você desenfeitice o meu paciente, por favor.”

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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)

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