No domingo, o Brasil vai eleger um novo presidente. Espantosamente, Flávio Bolsonaro, um político de direita que apoia o regime militar e tem uma lista enorme de escândalos em seu nome, está na frente de Lula.
Zeteo UK
21 de outubro de 2026
por Vanessa Barbara
(tradução da autora)

No ano passado, o senador Flávio Bolsonaro disse, em uma entrevista, que o próximo presidente do Brasil teria de se comprometer a dar um indulto a seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar por uma tentativa de golpe em 2022. E mais: quando o STF julgasse o indulto inconstitucional, como inevitavelmente aconteceria, ele disse que o presidente teria de levar a medida adiante de qualquer maneira, mesmo que fosse preciso interferir no Judiciário com o “uso da força”.
Bem, parece que isso provavelmente irá acontecer: o próprio Flávio Bolsonaro é, no momento, o favorito para o segundo turno da eleição presidencial, no dia 25 de outubro.
Filho mais velho de Jair Bolsonaro, Flávio se tornou deputado estadual em 2003, aos 21 anos, e mais tarde ganhou uma cadeira no Senado. Seus irmãos, Eduardo e Carlos, também são políticos. O pai deles entrou para a política brasileira em 1989 e cumpriu sete mandatos como deputado federal, período no qual, conforme a revista The Economist, foi “um congressista obscuro cujo principal talento era ofender os outros”. A revista também descreveu o futuro presidente como sendo “anti-gay, pró-armas e apologista de ditadores que torturaram e mataram brasileiros entre 1964 e 1985”.
Aparentemente, Flávio é ainda mais execrável.
Aos 19 anos, ele já tinha um cargo de assessor de 40 horas por semana na Câmara dos Deputados, em Brasília, apesar de frequentar uma faculdade de direito em período integral e fazer um estágio duas vezes por semana no Rio de Janeiro – a 934 quilômetros de distância. Mais tarde, como deputado estadual, foi acusado de embolsar parte do salário de seus assessores em um esquema de rachadinha. Ele contratou um batalhão de assessores parlamentares, incluindo seu avô, nove parentes de sua então madrasta e alguns empregados domésticos de seu pai. (Os casos foram arquivados depois que as evidências foram anuladas pelos tribunais.)
Há uma lista enorme de escândalos ligados ao seu nome, o que torna bem difícil eleger o mais ultrajante. Ele é dono de uma mansão de 6,2 milhões de reais em Brasília que pagou em sete parcelas, fato que desencadeou uma investigação sobre a transação. Meses atrás, a polícia federal apreendeu planilhas que ligavam políticos regionais a organizações criminosas (como a facção Comando Vermelho) e implicavam uma rede de aliados políticos de Flávio, incluindo o ex-governador Cláudio Castro e o ex-presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar.
Flávio está atualmente sob investigação por corrupção, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal por ter recebido 61 milhões de reais de Daniel Vorcaro, um banqueiro no centro de um gigantesco escândalo de corrupção. A princípio, ele negou sequer conhecer o banqueiro, mas depois descreveu a transação como um “financiamento privado” para produzir um filme sobre seu pai.
E isso não é o pior. Durante anos, Flávio Bolsonaro empregou a esposa e a mãe de Adriano da Nóbrega, um ex-capitão do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) que se tornou chefe de milícia e de uma gangue de matadores de aluguel conhecida como “Escritório do Crime”. Nóbrega era considerado o matador de aluguel mais temido do Rio. Em 2003, quando Nóbrega ainda não havia sido expulso da polícia, Flávio o homenageou na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) com uma moção de louvor, elogiando seu “excepcional comportamento” e sua “dedicação, brilhantismo e galhardia” no exercício da função policial. Dois anos depois, Flávio lhe concedeu a Medalha Tiradentes, a mais alta condecoração da Alerj. Ambos, pai e filho, tiveram de se deslocar até a prisão para entregar o prêmio, já que Nóbrega estava preso sob a acusação de assassinar um homem que havia denunciado seu batalhão policial por tortura e extorsão.
Do outro lado na corrida presidencial está Luiz Inácio Lula da Silva, um dos políticos mais proeminentes da história da América Latina – um político de centro-esquerda e ex-metalúrgico que governou o país por três mandatos não consecutivos. Entre 2018 e 2019, Lula passou 580 dias preso em um caso de corrupção que envolvia um apartamento triplex na cidade do Guarujá. (Nenhuma ligação com matadores de aluguel, até onde se sabe.) Sua condenação foi posteriormente anulada por questões de jurisdição. Então ele foi libertado e eleito presidente novamente em 2022.

Lula está comprometido com a democracia e não tem nenhuma intenção de devolver o país ao controle dos militares. Não há registros públicos dele dizendo que “não se pode, simplesmente, estigmatizar as milícias” ou se referindo a elas como um “novo tipo de policiamento” – como Flávio disse há duas décadas na Alerj. Até onde sabemos, Lula nunca empregou parentes de milicianos em seu gabinete.
E ainda assim, uma pesquisa recente deu a Flávio Bolsonaro 51% dos votos, contra 49% de Lula. Eu me lembrei imediatamente de uma citação famosa do escritor americano David Sedaris, que, em 2008, imaginou um comissário de bordo perguntando: “Posso lhe oferecer o frango? Ou prefere um prato de merda com pedaços de vidro dentro?” O escritor comenta: “Estar indeciso nessa eleição é pausar por um instante e então perguntar como o frango foi preparado.”
Tenho a impressão de que muitos brasileiros querem uma mudança de governo – qualquer mudança. Não importa se Jair Bolsonaro (o pai) fez um governo catastrófico quatro anos atrás e então tentou se manter no poder planejando assassinatos políticos e um golpe militar. Algumas pessoas realmente veem Flávio como um homem conservador, honesto e decente, apesar de todas as evidências em contrário. Elas chamam Lula de “ladrão”, apesar de, após quatro décadas na política, tudo o que se pode apresentar contra ele é um apartamento no Guarujá supostamente ligado ao recebimento de propina.
Para piorar a situação, o presidente dos EUA, Donald Trump, está tentando jogar todo o seu peso político para apoiar a família Bolsonaro no segundo turno. Ele sabe que, caso Flávio vença, os interesses nacionais do Brasil ficarão subordinados à agenda de Washington, em detrimento da nossa soberania.
O fato é que, desta vez, os brasileiros estão inclinados a apoiar a chapa conservadora, com a classe média servindo como fiel da balança. Seduzidos por mitos individualistas e meritocráticos, eles nutrem um ressentimento profundo contra os auxílios estatais que Lula destinou a grupos marginalizados. Eles almejam pertencer às classes altas, aspirando ao sucesso financeiro e à maior proteção contra a criminalidade cotidiana. A democracia é um bônus bem-vindo, mas, se for preciso descartá-la, que assim seja.
No fim das contas, parece que a maioria dos brasileiros realmente não se importa com o que terá que comer — contanto que não seja frango.

