
#123 – São Paulo, 6 de novembro de 2026
Onde nascem os abacates e as histórias de ficção
www.hortifruti.org
“Mamãe, o que você gostaria de ser se você vivesse?”
(Mafalda, Quino)
:: EDITORIAL ::
Gostaríamos que os leitores apreciassem o fato de que esta edição não contém uma única citação de Barbara Ehrenreich, de Miriam Toews ou de Dayswork — e tentassem imaginar o quanto nos custou deixar de fora informações absurdas sobre o Hinman Collator. Prometemos fazê-lo na próxima oportunidade.
No mais, passamos o período exultantes com as notícias eleitorais e ocupados com a confecção de um cérebro comestível para a lancheira de Halloween da criança. Mais informações no próximo Mês em Batata.
Também urge informar que acrescentamos recentemente à nossa habitual agenda de leituras uma série de infanto-juvenis escolhidos pela Batata (obrigada, editora Biruta!), de modo que, ocasionalmente, esta newsletter sofrerá infiltrações desse nobre tipo de literatura. Reclamações podem ser encaminhadas à redação, que responderá aos e-mails raivosos com um meme aleatório de nossa preferência.
:: ADENDO ::
O octogésimo quinto artigo nesse jornaleco


:: O PESSOAL ::
Sophie Calle, Histórias reais
Uma vez, participei de uma exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York. Minha mãe foi à vernissage. Quando encontrou as minhas obras entre as de Hopper e Magritte, ela ficou espantada e, sem maldade nenhuma, exclamou: “Você enganou bem o pessoal!”
:: NADA ::
Andrea Bajani, “Constellation”
Esse talvez tenha sido um dos mal-entendidos fundamentais entre eles: ele queria que ela não fosse nada para que ele pudesse ser algo; ela queria não ser nada porque não ser nada era, pelo menos, alguma coisa.
[That may have been one of the fundamental misunderstandings between them: he wanted her to be nothing so that he could be something; she wanted to be nothing because being nothing was, at least, something.]
:: NÓS TENTAMOS ::
Jill Lepore, “Is A.I. Above the Law?”
“Precisamos controlar os agentes de IA agora”, insistiu meu colega Jonathan Zittrain, um dos fundadores do Berkman Klein Center, na revista The Atlantic em 2024, soando mais um alerta. Agora ele está escrevendo um livro cujo título provisório chegou a ser, em certo momento: Bem, Nós Tentamos.
[“We Need to Control A.I. Agents Now,” my colleague Jonathan Zittrain, a founder of the Berkman Klein Center, insisted in The Atlantic, in 2024, sounding another alarm. Now he’s writing a book whose working title was, at one point, “Well, We Tried.”]
:: ABACATES ::
Laura Erber e Herbet Loureiro, O método de Pepe Chevette
Os seus pensamentos sobrevoaram a sala de aula como passarinhos agitados e escaparam pela janela em direção ao lugar onde nascem os abacates e as histórias de ficção.
:: UMA OPÇÃO ::
Jane Lazarre, The Mother Knot
Em uma certa ilha do Pacífico, as mulheres golpeiam a si mesmas com gravetos afiados durante o trabalho de parto — talvez um exercício físico mais interessante do que respirar como uma cadela no cio. Mas, em ambos os casos, a premissa é a mesma: quanto mais você conseguir pensar em outra coisa, mais será capaz de suportar o horror que se passa em seu útero.
[In one Pacific Island culture, the women beat themselves with sharp sticks during labor, perhaps a more diverting physical exercise than breathing like a dog in heat. But in both cases, the assumption is the same: the more you can manage to think of something else, the more you will be able to endure the horror going on in your uterus.]
:: O SINAL ::
Jordan Salama, “The First Social Network”
Soube, por meio da Rádio Nacional LRA9 (uma emissora situada na cidade montanhosa de Esquel), da existência de um morro apelidado de “La Señal” (O Sinal), onde é possível captar um sinal de celular para enviar ou responder mensagens recebidas pelo rádio. No norte da Argentina, há relatos de pessoas que, por meio de mensagens de rádio, pediam a seus familiares que utilizassem um sistema improvisado de roldanas para içar seus aparelhos — acomodados dentro de latas — até o topo de árvores, a fim de obter sinal suficiente para que uma mensagem de texto fosse enviada.
[I learned from LRA9 Radio Nacional, a station in the southern mountain town of Esquel, of a local hilltop nicknamed La Señal—the Signal—where people know that they can catch cellphone reception in order to submit, or respond to, radio messages. In northern Argentina, people sent radio messages asking their relatives to use an improvised pulley system to hoist their phones, in tin cans, to the tops of trees, in order to get enough wireless connection for a text to go through.]

:: ALBATROZES E PINGUINS ::
Bruce Chatwin, In Patagonia
Albatrozes e pinguins são as últimas aves que eu gostaria de matar.
[Albatrosses and penguins are the last birds I’d want to murder.]
:: HORA DE PARAR ::
Jacqueline Nesi, “What The Heck is Happening…”
23 a 25 de setembro: Cúpula EUA/China em Washington. O presidente chinês, Xi Jinping, visitou Washington e houve algumas conversas (embora pouco promissoras) sobre a segurança da IA. Realizou-se um jantar oficial com a presença de Sam Altman, Elon Musk e Jensen Huang. O New York Times também relata que eles comeram “robalo com crosta de gergelim e baby bok choy crocante”. E, nesse momento, decidi que era hora de parar de ler as notícias.
[September 23-25: US-China Summit in Washington. Chinese President Xi Jinping visited Washington, and some talk (though little progress) about AI safety took place. A state dinner was held, with Sam Altman, Elon Musk, and Jensen Huang in attendance. The New York Times also reports that they ate “sesame-crusted sea bass and crisp baby bok choy.” And at this point, I decided it was time to stop reading the news.]
:: DECISÕES ::
Sophie Calle, Histórias reais
Sempre gostei que decidissem as coisas por mim. Eu e B. tínhamos uma regra: nos dias pares, ele tomava as decisões, nos dias ímpares, era eu. Quando ele foi embora para os Estados Unidos, me deu de presente um dado para substituí-lo.
:: ENGENHARIA DE TESTES ::
Gideon Lewis-Kraus, “How Test Engineers Decide…”
A engenharia de testes pode parecer um assunto árido, mas acaba sendo um excelente ponto de partida para anedotas de alta qualidade. […] O setor de testes, ressalta Davies, é pautado, do início ao fim, por uma série de concessões e equilíbrios. Embora alguns produtos que chegaram ao mercado fossem desnecessariamente perigosos — não havia, por exemplo, qualquer motivo para que o Little Lady Hot Stove [Forninho para meninas], um brinquedo do pós-guerra, pudesse atingir 600 graus, ou para que kits científicos da mesma época contivessem urânio de verdade —, outros produtos simplesmente não cumprem sua função se não forem capazes de causar algum dano.
[Test engineering might sound like a dry subject, but it turns out to be a terrific vector for the delivery of high-quality anecdotes. The testing industry, Davies emphasizes, consists of trade-offs all the way down. Although some products that made it to market were needlessly dangerous—there was never a reason for the Little Lady Hot Stove, a postwar toy, to be able to reach six hundred degrees, or for contemporaneous science kits to include actual uranium—other products aren’t useful if they can’t hurt you.]
:: EM VACAS ::
Sam Knight, “The World Cup According to…”
Sua fortuna já foi estimada em 122.233 vacas.
[His fortune was once estimated to be worth 122,233 cows.]
:: PROVAVELMENTE ::
Emma Cline, “The Blight”
Qual a temperatura ideal para uma sauna? Ele não sabia, pois o artigo informava a temperatura em graus Celsius e, segundo seus cálculos mentais, o resultado era 392 graus Fahrenheit — o que ele sabia que… provavelmente… não estava correto.
[What was the correct sauna temperature? He didn’t know, because the article had reported the temperature in Celsius and, according to his mental calculations, it came out to three hundred and ninety-two degrees Fahrenheit, which he knew was … probably … not correct.]
:: CONDE MAGNÍFICO DE HABSBURGO ::
Margaret MacMillan, Paris 1919
O último imperador [dos Habsburgos], um jovem amável e doentio chamado Karl, deixou serenamente o trono em 1918, mas reteve seus títulos, produtos de tantos matrimônios, barganhas e conquistas: imperador da Áustria, rei da Hungria, da Boêmia, da Dalmácia, da Croácia, da Eslovênia, da Lodomeria, da Galícia e da Ilíria; arquiduque da Áustria, grão-duque da Toscana e da Cracóvia, duque da Lothríngia, de Salzburgo, Styria, Caríntia, Carniola e Bukovina, grão-duque da Transilvânia, Margrave da Morávia, duque da Alta e da Baixa Silésia, de Módena, de Parma, de Piacenza e Guastella, de Auschwitz e Sator, de Teschen, Friaul, Ragusa e Zara, conde Magnífico de Habsburgo e Tirol, e por aí seguia. Fora-se tudo água abaixo, e ele deixaria este mundo mansamente em 1922, quando morreu de gripe, na Madeira.”

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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)
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