Onze coups de coeur littéraires
Posted: 25th outubro 2015 by Vanessa Barbara in ClippingTags: Les Nuits de Laitue, Noites de Alface, Zulma
La faute des voisins (clipping)
Posted: 25th outubro 2015 by Vanessa Barbara in ClippingTags: Les Nuits de Laitue, Noites de Alface, Zulma
Les Nuits de Laitue (clipping)
Posted: 25th outubro 2015 by Vanessa Barbara in ClippingTags: Les Nuits de Laitue, Noites de Alface, Zulma
Les Nuits de Laitue (clipping)
Posted: 25th outubro 2015 by Vanessa Barbara in ClippingTags: Les Nuits de Laitue, Noites de Alface, Zulma
Des pages et des îles (France)
26 Septembre 2015
Les Nuits de Laitue (clipping)
Posted: 25th outubro 2015 by Vanessa Barbara in ClippingTags: Les Nuits de Laitue, Noites de Alface, Zulma
Les Nuits de Laitue (clipping)
Posted: 25th outubro 2015 by Vanessa Barbara in ClippingTags: Les Nuits de Laitue, Noites de Alface, Zulma
La lunga notte del signor Otto (clipping)
Posted: 24th outubro 2015 by Vanessa Barbara in ClippingTags: Garzanti, La lunga notte del signor Otto, Noites de Alface
Estranhos se afogando
Posted: 20th outubro 2015 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São PauloTags: Larissa MacFarquhar, New Yorker
O Estado de São Paulo – Caderno 2
19 de outubro de 2015
por Vanessa Barbara
Enquanto você está aí lendo o jornal, Aaron Pitkin dedica todas as horas de sua vida tentando mitigar o sofrimento das galinhas. Enquanto você vai a uma confeitaria chique e gasta doze reais num brigadeiro gourmet, Julia Wise doa o salário inteiro para instituições de caridade. Também a enfermeira Dorothy Granada decidiu largar uma vida de classe média para enfrentar uma guerra civil e cuidar de mulheres pobres na Nicarágua. E Paul Wagner achou que ter dois rins era uma extravagância, portanto doou um deles para um desconhecido.
Lançado há pouco mais de duas semanas, Strangers Drowning é um livro de não ficção sobre pessoas que resolvem devotar suas vidas a ajudar os outros. A obra, escrita por uma jornalista da New Yorker, Larissa MacFarquhar, apresenta uma série de perfis sobre esses notáveis indivíduos que seguem diretrizes éticas muito rígidas e extremas estabelecidas por eles mesmos, na esperança de tornar melhor o mundo onde vivem.
Não é, porém, um livro sobre a vida de santos. Naquilo que é uma de suas principais qualidades, junto com o dom de contar histórias, MacFarquhar cuida para que haja complexidade nos relatos, expondo tanto os feitos heroicos de seus personagens quanto seus momentos de fraqueza; abordando os dilemas que eles enfrentam, as contradições de suas ideias e o preço que eles têm de pagar. Alguns fazem boas ações em detrimento do bem-estar de seus próprios familiares, como o indiano que abriu um leprosário e levou a esposa e os filhos, ainda bebês, para uma região remota e perigosa. Não há respostas fáceis.
O título se refere a um ensaio do filósofo utilitarista Peter Singer, que afirma que a maioria de nós, ao se deparar com uma criança se afogando, correria para salvá-la. Que diferença faz, então, se essa criança não estiver na nossa frente, mas em outra parte do mundo?
A história mais impressionante é a de Hector e Sue Badeau, um casal que adotou vinte crianças, muitas delas com deficiências graves e doenças terminais. No meio da narrativa, a autora enumera os resultados: três filhos morreram, dois foram presos e nove engravidaram muito jovens. O leitor pode considerar que o casal fracassou na empreitada, mas MacFarquhar pondera: o que seria dessas crianças se não tivessem um lar? Além disso, a maioria hoje está bem empregada e feliz, e todo ano há uma tonelada de aniversários, casamentos e batizados dos netos e dos bisnetos.
Em nenhum momento, o livro se presta a dar lições de moral; limita-se a narrar as histórias. Em certo trecho, ela cita uma frase do ensaísta James Baldwin que se aplicaria ao seu próprio livro: “Apenas nessa rede de ambiguidade e paradoxo, nessa fome, perigo e escuridão é que podemos nos encontrar. […] Esse poder de revelação é a missão do escritor, uma jornada rumo a uma realidade mais vasta que deve tomar precedência sobre quaisquer outras pretensões.”
Coxinhas vs. Petralhas
Posted: 15th outubro 2015 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São PauloTags: ódio, Relatos Selvagens
O Estado de São Paulo – Caderno 2
12 de outubro de 2015
por Vanessa Barbara
Outro dia, minha mãe foi levar comida para os moradores de rua que vivem aqui no bairro. Estava conversando com eles quando passou um carro bem devagarzinho e o motorista gritou, enfurecido: “Leva pra casa!”.
Parece que expressar o ódio agora é moda. Qualquer cidadão pacato, homem de família e cumpridor das leis pode virar bicho quando vê algo de que discorda: tenta atropelar um ciclista só por estar na ciclovia que ele desaprova, diz que tinham que ter matado todo mundo em 1968, invade velórios só para ofender, deseja que a presidente morra de câncer e faz votos de que a família da cronista seja esquartejada.
Nada contra discordar de quem pensa diferente e dialogar de forma respeitosa, o problema é quando vem o desprezo. Em seguida, o ódio – instantâneo e avassalador, desses que acabam por botar fogo em índio, atirar em haitianos e agredir homossexuais com lâmpadas.
As redes sociais viraram um campo de batalha aberto, com parentes cuspindo uns nos outros e ameaças de morte pipocando às claras. Como se a simples existência da diferença fosse uma ameaça suficiente para decidirmos aniquilá-la.
Lembrei de um dos segmentos do filme argentino “Relatos Selvagens”, no qual um homem com um automóvel blindado tenta ultrapassar o motorista de um carro velho na estrada. Este, por algum motivo, decide impedir a passagem.
Quando o cara do blindado por fim ultrapassa, grita pesados insultos enquanto acelera. Só que, mais à frente, o pneu fura e ele é obrigado a parar. O motorista de trás o alcança. Desafia o homem a repetir os xingamentos. O rico se tranca no carro e tenta chamar a polícia.
Começa ali uma briga surreal em que o insultado defeca no para-brisas do outro e tenta destroçar o vidro com uma chave de roda. O mais abonado decide jogar o carro do rival num barranco e depois tenta atropelá-lo. Por fim, seu carro também cai na vala e ele fica preso. O outro entra pelo porta-malas com um pé-de-cabra e é recebido a golpes de extintor de incêndio. O motorista do blindado tenta escapar e se enforca no cinto de segurança. Os dois carros explodem.
Trata-se de uma fábula que se encaixa com perfeição no Brasil de hoje, e é onde iremos parar se continuarmos chamando uns aos outros de escória, vagabundo e corja.
São muitos os sinais de que perdemos o controle e a empatia; basta entrar nos comentários dos sites de notícias. Em uma matéria sobre o papa, alguém vituperou contra o MST. Em outra sobre a medalha Fields, alguém falou em ditadura bolivariana. Em uma notícia sobre o assassinato de um policial, enumeram casos de violência da PM; em outra sobre a execução de um garoto negro, enumeram casos de mortes de policiais. Vejo pessoas comemorando execuções, desdenhando do sofrimento alheio, maltratando, insultando e formando grupos de linchamento.
Vamos todos acabar carbonizados, puxando o cabelo uns dos outros.
Nos tempos do mimeógrafo
Posted: 6th outubro 2015 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São PauloTags: bandeirantismo, escotismo, Núcleo Bandeirante Acauã
O Estado de S. Paulo – Caderno 2
5 de outubro de 2015
por Vanessa Barbara
No próximo dia 10 de outubro, o Núcleo Bandeirante Acauã vai completar 50 anos de existência. Ainda que a data não tenha nenhuma importância no esquema cósmico das coisas e tampouco esteja propensa a aparecer em destaque no jornal A Gazeta da Zona Norte ou, vá lá, no informativo bimestral O Saresteiro, não há como negar sua relevância para esta pessoa que já foi muito pequena e usou saia azul-marinho com lenço colorido.
Fui bandeirante por mais de uma década, dos 7 aos 19 anos, e é provavelmente uma das coisas que mais me influenciou nesta vida, junto com a literatura, o vôlei e o YouTube. O bandeirantismo me ensinou a pensar fora da caixa, e com essa caixa montei foguetes, palácios, pirâmides e forrei o chão das barracas para passar menos frio. Aprendi a enxergar as coisas usando a lógica dos jogos, montando quebra-cabeças e encontrando pistas, achando graça em tudo e inventando outros mundos – um pouco como uma literatura aplicada que você pode dividir com os amigos.
No Acauã, passei por todos os ramos e depois virei coordenadora. Tirei quase todos os distintivos e especialidades do livro, de “técnicas de campo” a “salvamento de fogo”, passando por “jornalismo”, “cozinha”, “fotografia”, “observação de animais”, “esportes”, “costura”, “cortesia”, “datilografia”, “primeiros socorros” e “higiene infantil”.
Aprendi a manejar pirógrafos, mimeógrafos, bússolas, marretas e extintores de incêndio; descobri como se constroem fossas e se montam mesas de bambu; como acender lampiões e como se orientar pelas estrelas. Me ensinaram a fazer reanimação cardiorrespiratória, a tratar queimaduras e a improvisar tipoias. Decorei músicas excêntricas; participei de um número infinito de peças de teatro; paguei mico publicamente em ocasiões variadas; joguei xadrez com deficientes visuais; aprendi nós e o Código Morse; fui imbatível na travessia de rios em cima de cordas. Quase tirei brevê de radioamador. Planejei gritos de guerra, jogos noturnos, cerimoniais e esquetes; montei fogueiras; chafurdei na lama; aprendi a hastear bandeiras e a assar pão de caçador. Trabalhei em asilos e centros de proteção animal. Plantei árvores. Presenciei explosões de bujões e tomei banho de caneca.
A despeito de possuir uma origem militar, o bandeirantismo tinha seu lado progressista: falava de ecologia e sustentabilidade numa época em que quase ninguém se importava com isso, incentivava o debate, acolhia a diversidade e valorizava a independência dos pequenos. O Acauã era ainda mais notável nesse aspecto, sendo um grupo bastante heterogêneo que vivia acampando com os escoteiros e ganhando medalhas de recolhimento de lixo em parques. (A propósito: hoje não há grandes diferenças entre escotismo e bandeirantismo; ambos são mistos e possuem valores parecidos.)
Talvez os 50 anos do meu velho grupo não rendam uma notícia de jornal, mas podemos dizer que, no fim das contas, renderam uma cronista.










