Brazil, the outlaw’s paradise

Posted: 10th fevereiro 2015 by Vanessa Barbara in New York Times, Reportagens
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The International New York Times
Feb. 5, 2015

by Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

SÃO PAULO, Brazil — A long-established piece of wisdom in Hollywood says that if you have robbed a bank or sold war secrets to the enemy, or even if you’ve just embezzled some company funds, then you should pack your stuff and move to Brazil.

According to my brief detective work, perhaps the first film to reference the peculiar attraction that Brazil holds for international runaways was “The Lavender Hill Mob,” a 1951 British comedy starring Alec Guinness. His character steals one million pounds in gold from the Bank of England, melts the bars into miniature Eiffel Towers and comes “straight on to Rio de Janeiro. Gay, sprightly, land of mirth and social ease.”

A year later, the Hollywood drama “5 Fingers” presented an ambitious British Embassy valet who decides to sell secrets to the Nazis. James Mason’s character intends to collect 200,000 pounds in 12 weeks, and then dash into “a new life. A new name.” Alongside his partner, a ruined countess portrayed by Danielle Darrieux, he plans to escape “the wars, the intrigues, fears,” and to become like the elegant man he once saw on the balcony of a Brazilian villa, high in the mountainside above the harbor. “He seemed close enough to touch, and yet he was beyond the reach of anyone.”

It’s not surprising that so many fictional stories revolve around characters fleeing here to escape the law. Today Brazil does have an extradition treaty with the United States, but it has been in effect only since 1964. We had no similar treaty with Britain until 1997, thus allowing Ronald Biggs — who had a role in the Great Train Robbery of 1963 and escaped from a London prison in 1965 — to live here in freedom for decades.

As Tom Hanks’s character puts it in “The Money Pit” (1986): “Don’t they have any laws in Brazil? Don’t they have any police?” Then there’s the con artist, in “Hot Millions” (1968), who enters the country with a bag full of money. When he gets to customs, he opens the bag and says exactly what it contains — “money” — to which the officer just answers: “Enjoy your stay in Brazil.”

According to “The Foreign Eye,” a 2006 documentary by Lúcia Murat, more than 40 non-Brazilian movies involve outlaws expressing a desire to flee to Brazil. Yet only a few of them succeed. Perhaps the most famous example is Mel Brooks’s “The Producers” (1968), in which Max Bialystock and his accountant, Leo Bloom, plan to take their million dollars and fly to Rio, but end up in prison instead.

If, over the years, these characters don’t look to Brazil because of its disreputable loose laws or reputation as a sunny paradise, they come searching for adventure in a “primitive” land, full of unknown dangers. They might refer to South America as if it were a single country, and mix up Brazil and Mexico. In “The Blood of Fu Manchu” (1968), the diabolical mastermind Fu Manchu (played by Christopher Lee) ensconced himself in the Brazilian jungle and planned to use an ancient Incan poison in his evil plot to conquer the world. (Never mind that the Inca Empire was located in modern-day Peru.)

That same year, a sophisticated, handsome Thomas Crown (Steve McQueen) gave a hint to Vicki Anderson (Faye Dunaway) about his final destination in “The Thomas Crown Affair”: “Samba, Sugarloaf, Jungle, Piranha.”

Little do they know.

When it comes to stereotypes, Brazil is above all an exotic, tropical wilderness full of beautiful women wearing small bikinis. Many outlaws dream about ending their lives on Copacabana Beach drinking piña coladas, just like the protagonist of “Max Dugan Returns” (1983). In Brazil’s vast runaway filmography, Michael Keaton dances a samba after defrauding the lottery (“The Squeeze,” 1987), Eric Idle and Robbie Coltrane disguise themselves as nuns to retire from their gangster jobs (“Nuns on the Run,” 1990), Val Kilmer and Kim Basinger flee here with $3 million (“The Real McCoy,” 1993), and Kerry Fox buys a one-way ticket to Brazil after leaving her best friends to die (“Shallow Grave,” 1994).

For years, these paradise clichés remained remarkably consistent. Less than a decade ago, we had Philip Seymour Hoffman robbing from his own parents to fund his escape to Rio with his wife (“Before the Devil Knows You’re Dead,” 2007), while the Hulk hides from the United States military in a Brazilian favela (“The Incredible Hulk,” 2008). A little later, Johnny Depp, as John Dillinger, planned to grab a plane to Caracas and then to Rio, “for some fun in the sun” (“Public Enemies,” 2009).

The most recent movie in this lineage is “Fast Five” (2011). It shows Vin Diesel’s character escaping from prison and then going to Rio in order to steal $100 million from a corrupt businessman.

But this time, the image of Brazil has changed. It is depicted as a land of armed drug traffickers and easy women. Oddly, lots of people speak Spanish. One character says that everybody in Rio can be bought; another one calls the place a “hellhole.”

From heaven to hell in just a few frames.


Vanessa Barbara is a columnist for the Brazilian newspaper O Estado de São Paulo and the editor of the literary website A Hortaliça.

Enciclopédia das ruas

Posted: 9th fevereiro 2015 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
9 de fevereiro de 2015

por Vanessa Barbara

Tem o Alexandre, que é socorrista e já foi detido pela polícia enquanto estancava o sangue de um rapaz atingido por estilhaços de bomba de efeito moral. Ele é natural de Bauru e possui um jabuti chamado Tango. (Caso um dia descubra que o quelônio é fêmea, pretende mudar para “Rumba”.)

Tem o Manoel, que trabalha com terraplenagem, é católico e membro do grupo de Observadores Legais. Vestidos com um colete amarelo, eles acompanham e registram a ação dos policiais durante as passeatas. Manoel afirma que fez três faculdades e só não fez a quarta “porque acabou o cimento”.

Tem o Igor, advogado que às vezes leva o cachorro Carlos à missa, sofre de astigmatismo e alega veementemente que a gata Theodora esconde as meias dele.

Tem a Vânia, que possui uma dezena de cães em casa e apareceu uma vez no Jornal Nacional protegendo os policiais de pedradas. E o Pierre, que usa joelheiras, lê Brecht, gosta de astronomia e entra em discussões longuíssimas sobre política e participação popular.

E o Vitinho, de 21 anos, que foi atingido por uma bomba de efeito moral em setembro de 2013 e perdeu a visão do olho direito, mas continua nas ruas. Ele costuma compor a frente do ato e anda por aí de tapa-olho, assim como o fotógrafo Sérgio Silva, que perdeu a visão do olho esquerdo após ser ferido por uma bala de borracha em junho de 2013.

E o Vinícius, estudante de química que distribui livros para moradores de rua e perdeu quatro dentes após ser surrado numa manifestação em janeiro do ano passado.

Tem também o Donato, jornalista, corintiano, que eu não conseguiria reconhecer na rua sem o capacete. No time dos fotógrafos também podemos citar o Adorno, que me ensinou a consertar um pino solto da máscara de gás, e o Eli, um gigante que usa máscara, capacete, óculos e uma sólida couraça. (É a ele que uma repórter da revista Vice se referiu ao escrever que, em meio a uma nuvem de gás, “um maluco passou correndo por mim com uma armadura preta, tirando foto enlouquecidamente”.)

Outro que está sempre nas ruas é o Pablo, professor da USP que gosta de doce de leite e tem um filho de 8 anos. E o padre Júlio, de 66 anos, que às vezes participa do cordão da frente e já foi ferido na perna por uma bala de borracha.

E a minha mãe, uma revisora de 61 anos, 1,49m de altura e 43kg que carrega nos atos uma bolsa repleta de gaze, soro fisiológico e leite de magnésia, materiais notoriamente utilizados para fabricar coquetéis Molotov.

São esses alguns dos “vândalos” e “vagabundos” que participam das manifestações pela redução da tarifa em São Paulo.

“Mete bala”, gritou um senhor da janela do prédio.

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O Estado de São Paulo – Caderno 2
2 de fevereiro de 2015

por Vanessa Barbara

Minha tartaruga está resfriada.

Pouco antes do Natal, um dos meus três cágados de água doce – tigres d’água brasileiros – começou a apresentar sinais de apatia, levando-me a crer que se tratava de uma típica melancolia do tempo de festas.

Entre o Natal e o Réveillon, o “tartarugo” Napoleão me pareceu mais animado, porém logo em seguida parou de comer. Mais uma vez, pensei em promessa de Ano-Novo, talvez uma dieta radical de desintoxicação para corrigir os excessos de 2014. Vários dias se passaram.

No momento em que ele dispensou uma ração especial de camarão, anchovas e ovas de formiga, uma espécie de bife à parmegiana dos quelônios, chamei imediatamente o veterinário. Ele pediu uma radiografia da cavidade celomática do pequeno réptil, coisa que eu jamais imaginei ser possível.

(Há clínicas especializadas nesse tipo de exame diagnóstico, bastando que a tartaruga fique quieta e não tente morder o técnico.)

Foi como descobrimos que Napoleão estava com pneumonia, uma das doenças mais comuns (e fatais) nesse tipo de animal. O corajoso cascudo foi internado na casa do veterinário e por lá ficará durante catorze dias – na companhia de um porco-espinho e de um coelho em reabilitação pós-operatória –, onde tomará duas injeções de antibióticos por dia e fará nebulizações com medicamentos. Também estão previstos banhos periódicos com chá de camomila.

É evidente que, em casa, estão todos apreensivos quanto à recuperação do quelídeo, que ademais sempre foi muito pensativo e taciturno. Também sofria de insônia e passava madrugadas em claro, cheirando o fundo do aquaterrário com um ar solitário. Fora isso, Napoleão nunca ficou doente e, aos cinco anos de idade, pesa 750 portentosos gramas.

Não é só a família que se preocupa com o estado de saúde da tartaruga, mas também completos desconhecidos já manifestaram curiosidade a respeito, abordando-me em confraternizações e protestos. O constrangedor é que, diante de uma questão singela como: “Sua tartaruga está melhor?”, eu costumo agir tal qual uma mãe de recém-nascido e realmente respondo quais são as minhas aflições e expectativas quanto à recuperação do pequenino. Inclusive para pessoas que eu nem sequer conheço. E mostro as chapas de raio-X e as fotos mais recentes do quelônio descansando sobre a bancada da clínica.

A uma plateia atônita, calada e prisioneira das minhas narrativas sem clímax, explico que Napoleão tentou morder vigorosamente o estetoscópio e o dedo do doutor, o que é um bom sinal.

As pessoas costumam assentir, afastando-se progressivamente de mim.

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Atualização de última hora: O coelho recebeu alta hospitalar e está bem, mas o porco-espinho faleceu, bem como uma chinchila idosa que fez companhia a Napoleão em sua primeira noite de internação. Ela morreu por intoxicação de fumaça de churrasco.

Bom dia pra quem?

Posted: 26th janeiro 2015 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
26 de janeiro de 2015

por Vanessa Barbara

Poucas coisas me parecem tão misteriosas quanto a transição entre boa tarde e boa noite. É de se espantar que os primeiros criadores das línguas humanas tenham insistido em manter esse dilema para todas as gerações vindouras.

Em tempos de horário de verão, a trama se complica. Se ainda não escureceu, podemos chamar de noite? A partir de que horas “boa tarde” vira “boa noite”? Talvez seja às seis em ponto, às seis e um, ou quem sabe exista um protocolo oficial baseado no azimute do Sol e na amplitude ortiva vezes o fuso horário menos oito – protocolo vastamente conhecido pelos nossos barbeiros e taxistas, com quem nunca se deve discutir.

Para o resto de nós, o drama é cotidiano. Conheço um amigo que, pouco depois do meio-dia, resolveu falar “boa tarde” para o porteiro. “Ele me deu bom dia”, contou, de forma dramática. “Repeti ‘bom dia’, claro, ele parecia mais decidido do que eu.”

Entendo perfeitamente. É sempre constrangedor ser corrigido em nossas saudações cotidianas, sobretudo quando são sete da noite e você diz “bom dia!” para o psiquiatra. (Provavelmente ele fará algumas anotações a respeito.)

Uma das saídas é afirmar, de forma singela: “Aposto que um monte de gente já te deu bom dia hoje, eu já estou dando bom dia para amanhã, para garantir”. Ou a clássica: “É bom dia porque eu não almocei ainda, né?”.

Depois da meia-noite, então, o cenário vira terra de ninguém. Faz-se igualmente aceitável proferir “bom dia” ou “boa noite”, sendo, porém, questionável a escolha de “boa tarde”, ainda que em nome da autonomia dos seres e da defesa das liberdades individuais.

(Lembrança aleatória: certa vez, quando eu tinha uns 12 anos, uma bola de futebol desceu a ladeira e foi interceptada por uma senhora, que a devolveu. Como forma de agradecimento, um dos meninos exclamou: “Muito obrigado! E tenha uma boa vida”.)

Como se vê, a questão é espinhosa. Muito pode ser dito em defesa dos atendentes de telemarketing, que, do interior de suas P.A.s (posições de atendimento), não conseguem enxergar o mundo lá fora e, portanto, estão autorizados a escolher o período que lhes convêm. (A esse respeito, muitos garantem que o trabalho é tão massacrante que, em casa, continuam atendendo ao telefone da seguinte forma: “Santana Laboratórios, Sheila, bom dia”.)

Pessoas mais inseguras optam pelo “olá” ou por um aceno de cabeça. Outras se recusam a participar desse jogo doentio. Lembro de uma amiga que, às seis da manhã de um dia frio, recebeu bom dia de outrem e respondeu, furiosa: “Bom dia pra quem?”.

Hard times

Posted: 22nd janeiro 2015 by Vanessa Barbara in Sem categoria
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Moral Reasoning 22: Justice with Michael Sandel

O Estado de São Paulo – Caderno 2
19 de janeiro de 2015

por Vanessa Barbara

Andei assistindo aos episódios de “Justice” com o fervor de quem acompanha “Lost”.

Trata-se de uma série de 12 aulas ministradas em Harvard pelo filósofo político Michael Sandel, disponíveis com legenda no canal de YouTube da UnivespTV. O curso aborda as principais doutrinas éticas defendidas ao longo da história, como o utilitarismo de Bentham e Mill (preocupado em proporcionar o máximo de felicidade para o maior número de pessoas), o libertarismo de Locke (defensor do livre mercado) e o imperativo categórico de Kant (focado nos direitos humanos e na dignidade intrínseca dos indivíduos).

Há ação e suspense nas aulas de Sandel, que explica os conceitos a partir de dilemas éticos discutidos pelos alunos. Entre um episódio e outro, eu me desesperava: “Meu Deus! Como é que os filósofos vão responder ao utilitarismo?” ou: “Será que o rapaz pró-meritocracia com relógio de ouro vai aparecer no próximo?”. Passei madrugadas torcendo para Rawls e discordando veementemente de Aristóteles, aquele pateta que prega a distribuição de flautas só para quem sabe tocar bem. Fiquei sem resposta em alguns momentos, revi meus conceitos e, mais importante, consegui fugir dos spoilers.

Sandel submete à argumentação dos alunos uma profusão de casos bizarros, como o clássico dilema do vagão desgovernado.

Nele, você é maquinista de um trem sem freios. No fim da linha, há cinco operários que você fatalmente irá atingir e matar. A única opção é desviar para uma bifurcação onde há apenas um trabalhador nos trilhos. Você: a) decide desviar e matar apenas um operário, b) mantém o curso e mata os cinco.

Adotando a lógica utilitarista, a maioria escolhe desviar o curso. Mais eis que o professor acrescenta outra camada ao problema: imagine que você está no alto de uma ponte e pode parar o trem jogando algo pesado nos trilhos. Por coincidência, há um homem obeso ao seu lado.

Mesmo os utilitaristas mais ferrenhos hesitam em empurrar o homem sob essas novas circunstâncias, ainda que, olhando friamente, o caso também envolva o sacrifício de um indivíduo em prol da maioria. Para piorar, Sandel introduz uma nova variável: e se o gordo fosse o responsável pela sabotagem dos freios?

(Não perca o próximo capítulo.)

Sandel pretende colocar à prova nossas convicções diante de casos concretos, ainda que extravagantes, fazendo-nos reformular ou elaborar melhor nossas concepções.

“O objetivo deste curso é despertar a inquietude da razão e ver até onde ela pode nos levar”, diz o professor. “E se essa inquietude permanecer e continuar incomodando nos dias e anos vindouros, então nós, juntos, conseguimos alcançar algo que não é nada pequeno.”

A série é ideal para alternar com “Cavaleiros do Zodíaco”.

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O Estado de S. Paulo – Caderno 2
12 de janeiro de 2015

por Vanessa Barbara

Em 25 de agosto de 1959, uma semana após o lançamento de “Kind of Blue”, o trompetista Miles Davis foi surrado e detido pela polícia de Nova York.

Ele fumava um cigarro do lado de fora do clube Birdland, após tocar um set de músicas transmitido ao vivo pela emissora de rádio das Forças Armadas. Foi quando um policial (branco) o abordou e ordenou que circulasse. O músico respondeu: “Por quê? Eu trabalho aqui. É o meu nome ali no letreiro, Miles Davis”. O policial disse: “Não interessa, eu falei para você sair daqui. Se não for embora, vou prendê-lo.”

Davis não se moveu e encarou o oficial com um olhar desafiador, enquanto outros dois policiais se aproximavam. Recebeu voz de prisão e, sem haver oferecido resistência, foi golpeado no estômago e na cabeça, diante de dezenas de testemunhas atônitas que saíram do clube após ouvir a confusão. Aos gritos, elas pediam que parassem.

O escândalo foi tamanho que membros da Hodges-Robbins Orchestra, que ensaiavam do outro lado da rua, viraram os microfones para a janela e captaram os policiais xingando Davis de “nigger”.

Sangrando, o trompetista foi conduzido ao 54o. Distrito. Na delegacia, os policiais continuaram com as provocações, esperando que ele reagisse.

Miles Davis foi indiciado por conduta desordeira e agressão, e posteriormente inocentado. Teve sua licença de músico cassada por vários meses e tomou cinco pontos na cabeça. Em sua autobiografia, ele conta que o incidente o tornou de novo amargo e cínico, bem quando ele enxergava mudanças positivas na luta pelos direitos civis. “Mas então fui cercado mais uma vez pelos brancos e aprendi que, quando isso acontece, se você é negro, não há justiça. Nenhuma justiça.”

Cinquenta e cinco anos depois, pouca coisa mudou. Nos últimos meses os americanos voltaram às ruas para protestar contra a violência policial dirigida aos negros, que continuam sendo tratados com truculência. Segundo a ProPublica, em comparação aos brancos, os negros nos Estados Unidos têm 21 vezes mais chances de serem mortos pelas forças de segurança.

Já no estado de São Paulo, de acordo com uma pesquisa da Ufscar, 61% das vítimas da polícia são negras, 97% são homens e 77% têm de 15 a 29 anos. No Brasil, um jovem negro tem um risco 2,5 vezes maior de ser vítima de homicídio.

Em um show de stand-up, o comediante Chris Rock resumiu bem a situação: “Saí da barriga da minha mãe; a partir daí, tudo o que acontecia no raio de três quarteirões, eu era suspeito”, declarou. “Quando passo na rua, as mulheres já deixam preparado o spray de pimenta, todo mundo esconde as chaves, tranca a porta dos carros, faz posturas de caratê. Eu levanto o olhar e há uma porção de senhorinhas brancas ao telefone – elas irão discar 911 e simplesmente esperar que eu faça alguma coisa.”

“Eu nasci suspeito”, costuma dizer Chris Rock.

Policial: “Todo mundo tem que pagar”

Posted: 10th janeiro 2015 by Vanessa Barbara in O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Metrópole
10 de janeiro de 2014

por Vanessa Barbara
Colunista do Estado

Estávamos na rabeira da manifestação contra o aumento da tarifa, que reuniu cerca de 5 mil pessoas em São Paulo. Depois de sair do Teatro Municipal, o protesto seguiu pela rua da Consolação rumo à Paulista. Na altura do cemitério, começamos a ouvir bombas sendo arremessadas lá na frente, e muita fumaça. Boa parte dos manifestantes correu desesperada para as ruas laterais, a fim de fugir do gás. A turma do fundo continuou parada, segurando uma faixa comprida.

Havia um cordão de policiais bem atrás de nós, fortemente armados, que se colocaram a postos. Levantei as mãos diante deles e disse que ninguém estava fazendo nada ali – o grupo que restou naquele trecho era composto basicamente por pessoas caminhando. Pedi calma. Ainda assim, eles atiraram bombas de gás contra nós. Enquanto fugíamos pela calçada, um policial mirou e lançou duas granadas de gás aos nossos pés – entre os presentes, uma senhora de 60 anos que por acaso é minha mãe.

Também atiraram uma bala de borracha no cotovelo de uma socorrista e três bombas em um homem de muletas que tinha uma perna só. (Não estou brincando.)

Enquanto corríamos pelas ruas laterais, víamos tênis e chinelos pelo caminho – deixados para trás pela multidão em fuga. Vi muros pichados, lixos pegando fogo e uma vidraça de banco quebrada. Mais de 50 pessoas foram detidas e pelo menos 6 feridas, segundo os socorristas do GAPP (Grupo de Apoio ao Protesto Popular).

Um policial justificou a ação da tropa dizendo que “infelizmente meia dúzia de vagabundos começa a quebrar e aí todo mundo tem que pagar”.

Incluindo manifestantes pacíficos, socorristas, jornalistas, idosas e deficientes físicos que em nenhum momento representaram um perigo para as forças da ordem.

Extraordinários

Posted: 5th janeiro 2015 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
5 de janeiro de 2015

por Vanessa Barbara

Conheço um sujeito que ficou temporariamente cego de tanto comer.

O episódio ocorreu há mais de uma década na Cantina e Pizzaria Gordeixos, em Juiz de Fora. A vítima confessa ter se locupletado de massas e pizzas do sistema de rodízio, conversando e mastigando animadamente em vezes alternadas, sem atentar para o perigo que estava por vir.

A cegueira durou cerca de um minuto e foi apavorante. (Ele nega ter solicitado ajuda para continuar a comer sem enxergar.)

Encontrei uma possível explicação para o fenômeno num livro sobre stress (“Why Zebras Don’t Get Ulcers”, do neuroendocrinologista americano Robert M. Sapolsky), no qual se diz que um organismo incapaz de secretar quantidades suficientes de insulina pode favorecer o acúmulo de glucose e ácidos graxos na corrente sanguínea. Isso resultaria em arteriosclerose, falência dos rins e cegueira temporária.

É claro que tal explicação é forçada e não deve sequer fazer sentido. Mas foi uma forma que arrumei para tentar entender os fenômenos fora do comum que me vêm ao conhecimento com frequência cada vez mais alarmante, como esta história contada pelo próprio protagonista do incidente acima:

“Conhecemos um cara que foi perseguido por um tiranossauro na estrada entre Piau e Coronel Pacheco. Ele afirma que só sobreviveu porque seu Chevette estava revisado.”

Aparentemente, os mineiros têm uma propensão extraordinária para protagonizar histórias bizarras. Outro juiz-forano me contou, com riqueza de detalhes, qual era a sensação de ter uma mosca incrustada no olho direito. Ele afirma que estava descendo uma ladeira quando o inseto alado chocou-se contra sua córnea, permanecendo no local até que ele chegou em casa e olhou-se no espelho. A mosca continuava alojada em um canto do olho e teve de ser retirada com cuidado. Cogita-se que uma das asas tenha migrado permanentemente para o cérebro, o que explicaria grande parte de seu comportamento recente.

Foi outro mineiro que me falou de um sujeito que engessou o braço com uma semente dentro, e que, na retirada do gesso, havia uma planta germinando em seu interior.

Conta-se também de uma moça que confundiu areia com pó para cappuccino e tomou uma xícara inteira do que ela suspeitou ser “um café muito ruim”. E de um indivíduo que possuía uma tarântula de estimação e era famoso por andar na beira do Paraibuna tentando catar baratas para a Gorgon. “Eventualmente ele teve notícia de um outro sujeito com uma tarântula, a Pandora, e combinaram de fazer o fantástico encontro de aranhas da Zona da Mata”, conta um professor de filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora (fonte fidedigna, portanto). “Os eventos eram levados muito a sério, já que os animais só tinham essa rara oportunidade para socializar com um membro da mesma espécie.”

Meu voto para 2015: mais mineiros e menos explicações.

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O Cruzeiro do Sul, a Nebulosa Carina e a Via Láctea, vistos do Quênia. Créditos: Babak Tafreshi / National Geographic Society, via Corbis

 

 

 

 

 

The New York Times
28 de dezembro de 2014

Por Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brasil — Meses atrás viajei para Fernando de Noronha, uma ilha na costa nordeste do Brasil, apenas quatro graus ao sul do Equador. No caminho para o restaurante, notei algo estranho no céu noturno: era Ursa Major, uma constelação que os americanos chamam de Big Dipper [algo como “Colherona”] e os britânicos de Plough [“Arado”].

A Big Dipper, comum no norte, é raramente vista no Hemisfério Sul, embora um amigo jure ter avistado a constelação uma vez, do alto de uma montanha em São Paulo. De acordo com ele, estava colada ao horizonte.

Tenho inveja de quem possui a Big Dipper. Também tenho ressentimento daqueles que podem ver a aurora boreal, fenômeno que testemunhei recentemente numa viagem a Islândia.

Mas é só.

O astrônomo neerlando-americano Bart Bok costumava dizer que “o Hemisfério Sul possui todas as coisas boas”. Ele provavelmente se referia ao fato de que temos “os dois melhores aglomerados globulares, as maiores e mais brilhantes galáxias exteriores visíveis a olho nu, a maior nebulosa difusa, a maior nebulosa escura e uma Via Láctea brilhante o suficiente para produzir sombras em certas épocas do ano, a partir de nosso céu escuro e límpido”, nas palavras do jornalista Luke Dodd.

Aqui a porção central da Via Láctea está muitas vezes posicionada exatamente no alto do céu, visível de um horizonte a outro como uma ferida aberta e brilhante. Também temos uma vista exclusiva de duas galáxias vizinhas à nossa, a Pequena e a Grande Nuvem de Magalhães. Ambas têm a declinação — medida astronômica que designa a distância do equador celeste — de quase 70 graus sul e são circumpolares, o que significa basicamente que são visíveis apenas nessa metade do planeta. (Um viva ao Terceiro Mundo!)

É verdade que, assim como a Ursa Major, os habitantes do norte têm para si a constelação Cassiopeia e Vega, a quinta estrela mais brilhante do céu noturno. Vega foi usada como base para a escala de magnitude aparente, que mede o brilho das estrelas, e para calibrar telescópios.

Ainda assim, o Hemisfério Sul detém as três estrelas mais brilhantes do céu noturno: Sirius, Canopus e Alpha Centauri. Canopus pertence à constelação Carina, notória por dois motivos: a Nebulosa Carina, quatro vezes maior e mais brilhante do que a Nebulosa de Orion, e o sistema estelar Eta Carinae, que irá explodir como supernova ou hipernova em algum momento entre hoje e os próximos mil anos. (Um cientista falou à BBC que a explosão poderá ser tão intensa a ponto de ser vista durante o dia, e de permitir a leitura de um livro com seu brilho durante a noite.) Alpha Centauri e Beta Centauri, esta última a décima-primeira estrela mais brilhante, são chamadas de “Guardiãs da Cruz”, pois apontam para a constelação Crux (popularmente conhecida como Cruzeiro do Sul). Crux é a menor das 88 constelações, mas uma das mais distintivas. É visível em praticamente qualquer época do ano em todo o Hemisfério Sul.

Junto à borda leste de Crux se localiza a Nebulosa do Saco de Carvão, um trecho profundamente escuro onde nascem estrelas. Nas proximidades do Saco de Carvão pode-se enxergar a Caixinha de Joias, um aglomerado de aproximadamente cem estrelas vermelhas, brancas e azuis, visíveis com a ajuda de binóculos. Há também Omega Centauri, o maior e mais brilhante aglomerado globular, com suas estrelas nas cores topázio, laranja e vermelho.

Constelações como Sagittarius e Scorpius são vislumbradas com grande facilidade no Hemisfério Sul; esta última se localiza no centro da Via Láctea, bem no alto do céu de São Paulo. É possível identificar o escorpião do aguilhão às quelíceras, incluindo a supergigante vermelha Antares, localizada no coração do animal.

Neville H. Fletcher, hoje professor emérito da Australian National University, disse certa vez: “No campo da astronomia costuma-se observar — geralmente são invejosos habitantes do norte — que Deus, ao criar o universo, localizou perversamente as regiões mais interessantes da galáxia no Hemisfério Sul, mas todos os astrônomos no Norte”. Como resultado, pode ser mais difícil identificar daqui as formas pelas quais as constelações foram originalmente nomeadas.

Um exemplo clássico: Orion, o caçador, não está orgulhosamente de pé, mas dando uma estrela. Também o corajoso leão da constelação Leo parece mais uma tartaruga de ponta-cabeça. Ou talvez uma lâmpada mágica. Os irmãos de Gemini estão em queda livre. Boötes, o trabalhador com arado, e o cão de Canis Major estão ambos tropeçando. De modo que mais criatividade é exigida de nós, sul-americanos, africanos, australianos, neozelandeses e outros sortudos habitantes do Hemisfério Sul.

Há uma citação atribuída a Bart Bok, que nos anos 50 deixou Harvard pela Austrália e às vezes dava palestras a membros da Royal Astronomical Society, de Londres, que resume bem a questão: “Cavalheiros, vocês vivem sob o lado errado do céu!”.

 


Colunista do jornal brasileiro O Estado de São Paulo, editora do site literário A Hortaliça e colunista de opinião do NYT.

Este texto foi publicado em inglês no The New York Times do dia 29 de dezembro de 2014. Tradução da autora.