Os brasileiros e a nostalgia da ameaça comunista (tradução)
Posted: 3rd dezembro 2014 by Vanessa Barbara in TraduçõesTags: Dilma Rousseff, direita, ditadura militar, impeachment, mortadela
The International New York Times
4 de dezembro de 2014
Por Vanessa Barbara
No mês passado, mais de 142 mil brasileiros assinaram uma petição no site da Casa Branca. Eles cobram um posicionamento de Barack Obama quanto ao “avanço do comunismo bolivariano promovido pela administração de Dilma Rousseff”.
Ela acaba de ser reeleita com uma margem estreita de votos: 51,4% contra 48,5% para o candidato mais conservador, Aécio Neves. Os signatários da petição alegam que a eleição não foi completamente democrática, pois as urnas eletrônicas não seriam confiáveis. Eles também afirmam que os pobres votaram em Dilma apenas porque são altamente dependentes dos programas sociais do governo, como o Bolsa Família, um subsídio mensal criado para reduzir os índices de pobreza. Aqueles que exigem a intervenção de Obama temem que nosso país se torne uma nova Venezuela, e se consideram “os defensores da democracia e da liberdade no Brasil”, a despeito de um pequeno detalhe: alguns querem a ditadura militar de volta.
De acordo com uma pesquisa recente do Datafolha, em comparação ao ano passado, mais brasileiros se identificam com ideais de direita, como a diminuição das restrições para porte de arma. Embora 58% acreditem que a pobreza está ligada à falta de oportunidades, 37% insistem que a preguiça é a principal raiz do problema. Esse foi um ponto crucial do debate na última eleição: um lado defendia a meritocracia e a redução dos subsídios do governo; o outro, mais investimentos para diminuir a desigualdade.
A nova direita argumenta que o governo do PT é corrupto, em referência a uma série de escândalos de suborno e compra de votos ocorridos na última década. Por esse motivo pedem pelo impeachment de Dilma. Ela seria substituída pelo vice Michel Temer, de um partido de centro-direita chamado PMDB.
Há quem defenda que é preciso depor à força esse governo corrupto. Embora a ideia seja eventualmente devolver o poder aos civis e convocar novas eleições, essas pessoas falam nostalgicamente sobre a época da ditadura, quando, nas palavras de um deputado federal, “não se ensinava sobre homofobia e sexo seguro, se ensinava português e matemática”.
Ambos os grupos pró-impeachment organizaram protestos em São Paulo. Em 1 de novembro, 1,2 mil pessoas se reuniram no Masp; mais de 5 mil compareceram no segundo protesto, duas semanas depois. O mais recente, ocorrido no sábado passado, atraiu 500 manifestantes.
A corrupção não é o principal motivo de preocupação do grupo. Assim como nos anos 60, nossas classes média e alta temem a ameaça comunista. Alguns dizem que esta é a mesma atmosfera que levou ao golpe militar de março de 1964, quando um presidente de esquerda foi tachado de socialista, deposto e substituído por uma ditadura militar que durou mais de vinte anos.
Em uma das marchas, os participantes entoaram fanaticamente o Hino Nacional, alegando representar o único patriotismo de verdade. Havia até neonazistas no meio, e um skinhead portando um soco inglês. Transeuntes desavisados eram hostilizados só por vestirem roupas vermelhas. Um deles, um advogado de 33 anos, vestia uma camiseta com os rostos de Marx, Lênin, Fidel, Mao e Stálin bebendo alegremente. Alguém lhe gritou, de forma um tanto quanto nonsense: “Você está num país livre, vai pra Cuba”.
Em outro incidente, um político do PCB estava num bar usando uma camiseta com a foice e o martelo estampadas quando o protesto passou. Um homem começou a xingá-lo e perguntou se ele tinha recebido um sanduíche de mortadela do governo. “Paga um lanchinho de mortadela que ele já passa para o lado de cá”, disse o homem sarcasticamente, chamando o político de “comedor de mortadela”. (No Brasil, a mortadela é considerada uma comida de pobre.) Outro homem gritou: “Dá o seu apartamento pra mim, cara! Você não quer dividir as coisas?”.
A verdade é que o PT de Dilma está no poder há mais de onze anos e até agora falhou em estabelecer um mero vislumbre da temida ditadura do proletariado. Pelo contrário: o partido, outrora radical, tem se tornado cada vez mais centrista, adotando muitas das práticas de seus rivais neoliberais. Empregou políticas econômicas ortodoxas para manter a estabilidade do mercado; não chegou a estatizar coisa alguma e inclusive favoreceu a privatização e concessão de portos, estradas e aeroportos; entre os ministros nomeados para o ano que vem há uma lobista do agronegócio e inimiga dos ambientalistas, Katia Abreu, na pasta da Agricultura, e um banqueiro conservador, Joaquim Levy, no Ministério da Fazenda. Este ano, o lucro dos bancos privados aumentou 26,9%. De acordo com o ranking “Top 1.000 World Banks”, o Brasil está em sétimo lugar em lucros bancários.
Sendo assim, seria mais seguro acusar Dilma de centrista, em vez de bolchevique.
Apesar disso, muitos ainda temem o bicho-papão comunista e estão dispostos a tomar providências, seja participando de protestos de rua, recorrendo às Forças Armadas, organizando petições aos Estados Unidos ou mesmo mudando de país. “O povo brasileiro está descrente”, disse um ator durante um evento meses atrás. “Todos os dias eu vejo gente querendo se mudar para Miami.”
Se Obama não vai até eles, eles irão até Obama.
Este texto foi publicado em inglês no International New York Times do dia 4 de dezembro de 2014. Tradução da autora.
Brazil’s Red-Scare nostalgia
Posted: 3rd dezembro 2014 by Vanessa Barbara in New York Times, ReportagensTags: Dilma Rousseff, impeachment, military dictatorship, mortadella, right wing
The International New York Times
Dec 4th, 2014
by Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer
SÃO PAULO, Brazil — Last month, more than 142,000 Brazilians signed a petition on the White House website. They asked President Obama to take a stand against the “Bolivarian Communist expansion in Brazil promoted by the administration of Dilma Rousseff.”
She had just been re-elected president by a narrow margin: 51.4 percent against 48.5 percent for the more conservative candidate, Aécio Neves. The petitioners claim that the election wasn’t fully democratic, since electronic voting machines aren’t reliable. They also say that poor people voted for Ms. Rousseff only because of their heavy dependence on social welfare programs, such as Bolsa Família, a monthly family allowance designed to reduce poverty. Those who demand Mr. Obama’s intervention fear that our country will soon become a new Venezuela and call themselves “the promoters of democracy and freedom in Brazil” though, in a slight contradiction, some of them want the military dictatorship back.
According to a recent poll by Datafolha, more Brazilians identify with right-wing ideas, like looser gun restrictions, than they did last year. Although 58 percent of Brazilians believe that poverty relates to a lack of opportunities, 37 percent insist that laziness is the main cause of it. This was a major point of debate during the election: One side argued for meritocracy and less government aid; the other, for more public spending to reduce inequality.
The new right wing is now arguing that Ms. Rousseff’s government is corrupt, pointing to a number of vote-buying and bribery scandals over the last decade. As a result, some call for Ms. Rousseff’s impeachment. She would then be replaced by Vice President Michel Temer, from a center-right party called PMDB (Brazilian Democratic Movement Party).
Others say we need to remove our corrupt government by force. Although the idea is eventually to hand the power back to civilians and hold a new election, they talk nostalgically about the military period, when schools “didn’t teach about homophobia and safe sex, they taught Portuguese and math,” as one congressman said.
Both groups have organized street rallies in São Paulo. On Nov. 1, 2,500 people gathered, and 5,000 showed up for a second rally two weeks later. The most recent, last weekend, had only about 500.
Corruption is not what the right wing fears most. Just as in the ’60s, the Brazilian middle and upper classes are intensely afraid of the Communist threat. Some say this was the same atmosphere that led to the military coup in March 1964, when a left-wing president was labeled a Socialist, deposed and replaced by a military dictatorship that lasted more than 20 years.
At one rally, people fanatically chanted the national anthem, calling themselves the only true patriots. There were even some neo-Nazis in the mix, and a skinhead with brass knuckles. Unwary passers-by were yelled at just for wearing red clothes. One bystander, a 33-year-old lawyer, had a T-shirt that portrayed Marx, Lenin, Castro, Mao and Stalin merrily drinking. Someone told him, rather nonsensically, “You’re in a free country, go to Cuba.”
In another incident, a politician from the Brazilian Communist Party stood in a bar wearing a hammer and sickle T-shirt when the rally passed by. A man started shouting to him and asked if he had a mortadella sandwich from the government. “Just give him a mortadella sandwich and he will turn to our side,” said the man sarcastically, calling the politician a “mortadella-eater.” (In Brazil, mortadella is regarded as a poor man’s food.) Another one yelled: “Give me your apartment! Don’t you want to share things?”
The truth is that Ms. Rousseff’s Workers Party has been in power for more than 11 years and has so far failed to establish even a hint of the dreaded dictatorship of the proletariat. On the contrary: The once radical party has come to look increasingly centrist, adopting many of the practices of its neoliberal rivals. It has employed orthodox economic policies in order to maintain market stability; it hasn’t nationalized any assets but rather favored the privatization of ports, highways and airports; and Ms. Rousseff’s new ministers include an ally of agribusiness and nemesis of environmentalists, Katia Abreu, as agriculture minister, and a fiscally conservative banker, Joaquim Levy, as finance minister. This year, the profits of Brazilian private banks increased 26.9 percent. According to the “Top 1,000 World Banks” survey, Brazil is ranked seventh in banking profits.
So it’s safer to say that Ms. Rousseff is more of a centrist than a Bolshevik.
In spite of that, lots of people keep on fearing the Communist boogeymen and are ready to take action on this matter, either through street rallies, pleas to the army, petitions to the United States or even by moving out of the country. “Brazilian people are feeling hopeless,” said an actor at an event a while ago. “Every day I see people wanting to move to Miami.”
If Mr. Obama won’t come to them, they will go to Mr. Obama.
Literatura incendiária
Posted: 1st dezembro 2014 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São PauloTags: Black blocs, Bruno Paes Manso, Esther Solano, Francis Dupuis-Déri, geração editorial, metrô, Veneta, Willian Novaes
O Estado de S. Paulo – Caderno 2
1 de dezembro de 2014
por Vanessa Barbara
Na semana passada, a Companhia do Metropolitano de São Paulo vetou a propaganda do livro “Mascarados” (Geração Editorial), escrito pela pesquisadora da Unifesp Esther Solano e pelos jornalistas Bruno Paes Manso e Willian Novaes. A obra faz uma análise crítica das origens e motivações da tática black bloc no Brasil.
O departamento de vendas do Metrô barrou o anúncio sob o argumento de que o livro poderia “incitar a violência”.
A recusa se apoiou no Regulamento para Exploração de Mídias em Áreas e Equipamentos de Propriedade da companhia, que proíbe a veiculação de mensagens publicitárias “que infrinjam a legislação vigente, atentem contra a moral e os bons costumes […] ou que possam suscitar comportamentos inadequados”.
O problema é que não se trata de um libelo em favor dos black blocs, mas de uma obra analítica alicerçada em entrevistas e em uma extensa pesquisa de campo realizada por uma socióloga. Segue a tradição do livro “Black Blocs” (Veneta), do cientista político canadense Francis Dupuis-Déri, considerado um dos primeiros estudos sérios sobre o assunto.
Em “Mascarados”, Solano diz que o objetivo do livro é justamente se contrapor a uma sociedade que não escuta e prefere reproduzir estereótipos, deixando-se arrastar pelo argumento fácil, a intolerância, a histeria e a trivialidade. “Um dos erros mais grotescos de nossa sociedade é proclamar que o outro não tem nada a dizer”, escreve Solano, que, aliás, afirmou que pessoalmente não concorda com a tática. Mas isso não a impede de refletir sobre o tema.
Ao longo do livro, a pesquisadora se mostra preocupada com a falta de diálogo entre os diversos atores das manifestações populares (mídia, policiais, políticos, manifestantes). “Se o sujeito não participa de meu modo de vida”, ela declara, reproduzindo um pensamento corrente, a saída é “esvaziá-lo de conteúdo, como se fosse um robô que, no caso do black bloc, só sabe depredar, e no caso da Polícia Militar, só sabe bater.” Sua principal preocupação é ouvir sem preconceitos, tentar compreender outros pontos de vista e, dessa forma, enriquecer o debate.
O canadense Dupuis-Déri, que esteve recentemente em São Paulo para um debate na Bienal Internacional do Livro, também defende a importância de examinar a sério as ideias e a lógica dos black blocs, em vez de associá-los de forma indiscriminada à baderna e à irracionalidade destruidora. “Dizer que eles são jovens meramente apolíticos e irracionais é, na melhor das hipóteses, preguiça intelectual e, na pior, uma mentira política”, afirmou.
Curioso é que um livro desses, que convida ao diálogo e à exposição de pontos de vista divergentes à maioria, seja julgado e censurado de antemão – como se a própria obra antecipasse o preconceito de quem se recusa a abri-la.
Não percebem que, nas palavras de Solano, “impor um padrão imutável de entender a vida é mais uma forma de violência”.
vmbarbara@riseup.net
Chave PGP
Vozes cheias de dinheiro
Posted: 17th novembro 2014 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São PauloTags: Banco Imobiliário, Fitzgerald, meritocracia, O Grande Gatsby, Paul Piff, ricos
O Estado de São Paulo – Caderno 2
17 de novembro de 2014
por Vanessa Barbara
Existem muitos estudos científicos relevantes na academia, como aquele que usou o magnetismo para levitar um sapo e um outro que estudou os índices de fricção entre sapatos e cascas de banana – ambos ganharam o IgNobel –, mas meu preferido foi conduzido pelo psicólogo social Paul Piff, da Universidade da Califórnia, em meados de 2012. Gerou uma das palestras mais populares do circuito TED: “Does money make you mean?” [O dinheiro te torna mau?].
Piff projetou uma partida manipulada de Banco Imobiliário em que certos jogadores, escolhidos aleatoriamente, começavam com uma série de vantagens: o dobro do dinheiro inicial, jogar dois dados em vez de um só e a certeza de ganhar duzentos dinheiros ao passar pelo ponto de partida (em vez de cem).
Por meio de câmeras ocultas, Piff notou que os jogadores “ricos” se tornavam cada vez mais agressivos e ostentatórios, e menos sensíveis à condição do oponente depauperado. Pior: após o término da partida, chegavam a atribuir a vitória a suas habilidades pessoais, mesmo sabendo que o jogo havia sido manipulado desde o início para que eles tivessem mais oportunidades de ganhar.
O objetivo do experimento era mostrar como a mente processa o conceito de vantagem numa sociedade hierárquica como a nossa – na qual poucos têm acesso à maioria dos recursos e por isso tendem a perpetuar seus privilégios.
Em cerca de trinta estudos conduzidos ao longo de sete anos, Piff e sua equipe mostraram que os mais pobres costumam ser mais generosos com desconhecidos e que os mais ricos são três ou quatro vezes mais propensos a trapacear. Motoristas de carros chiques estariam mais inclinados a infringir leis de trânsito e a desrespeitar pedestres, talvez numa tentativa de proteger seu patrimônio. Ricos mentiriam mais em negociações e aprovariam condutas de trabalho antiéticas. Piff chegou a comprovar que, na comparação, os mais abastados tendem a literalmente tirar mais doces de crianças, surrupiando guloseimas de uma jarra.
A principal conclusão da pesquisa é: conforme cresce a riqueza material de um indivíduo, seus sentimentos de compaixão e empatia diminuem, ao passo que aumenta seu egoísmo. Quanto mais rico, mais merecedor dessa riqueza você se sente. Piff fala em uma “ideologia de interesse próprio” e de pessoas que se colocam acima das demais, considerando ética a busca de sucesso pessoal mesmo em detrimento dos outros.
Em certos círculos, os achados de Piff foram considerados – desculpem! – pífios, sobretudo por atenderem a uma agenda esquerdista; no entanto, a arrogância com que alguns dos detratores se expressaram serviu para confirmar a premissa.
É algo que F. Scott Fitzgerald já havia notado em O Grande Gatsby, quando falou em vozes cheias de dinheiro e pessoas que esmagavam “coisas e criaturas e depois se protegiam atrás da riqueza ou de sua vasta falta de consideração”.
Histórias de perder
Posted: 10th novembro 2014 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São PauloO Estado de São Paulo – Caderno 2
10 de novembro de 2014
por Vanessa Barbara
Semana passada fiquei me gabando das coisas que consegui encontrar nesta vida, numa comprovação empírica de que “vergonha na cara” não constava da lista, e falhei em informar todas as coisas que acabei perdendo.
Uma pasta de dente em miniatura sabor hortelã, durante uma viagem a Porto Alegre em 2003. Uma toalhinha de rosto azul num acampamento em 1991. Uma meia. Um comprimido de zolpidem. Uma bolinha transparente de futebol de botão. Algumas lentes de contato. As chaves de casa – mas estavam dentro da cestinha da bicicleta, o que eu só descobri depois de trocar todas as fechaduras.
Lá se vão quase dez anos e não me lembro de onde vem a frase: “Não quero morrer em Cordeirópolis”, que, por alguma razão, está anotada à margem de um caderno de francês. Com a minha letra.
Outra coisa que jamais consegui confirmar é uma história que alguém me contou sobre um casal que, a título de experimento, ocultou do filho a palavra “maçã” até que ele tivesse uns seis anos de idade.
Ou a identidade do escritor famoso que se divertia com os amigos dublando programas de tevê enfadonhos – sua única regra era que todos os personagens discorressem sobre pastéis.
Se é verdade que a timidez me dotou de inúmeras qualidades detetivescas, também foi responsável pela minha incapacidade de descer de um carro durante um congestionamento, num dia comum, e entrevistar um cidadão que, diante de semáforos quebrados, resolveu ele mesmo coordenar o trânsito. Chaves na mão, o mambembe controlador de tráfego se postou num dos cruzamentos da avenida Brasil e organizou o fluxo de automóveis como um maestro. Nunca fiquei sabendo qual era a sua história.
Também não pude apurar com esmero a saga de amor e ódio por trás de uma colisão de embarcações numas férias de janeiro em Ilha Grande; conta-se que o barco de um rapaz bateu em cheio na escuna do próprio sogro, com quem mantinha uma inimizade histórica. A fofoca alastrou-se por telefone entre os donos das pousadas e foi crescendo com o passar dos dias. Um esfaqueamento em pleno convés não estava mais fora de questão.
Também foram inúmeras as reportagens que deixei de fazer, por motivos diversos. Na mais antológica delas, propus-me a tecer uma comparação entre a Casa do Saber e a Casa das Cuecas. O trabalho se mostrou muito acima das minhas capacidades e acabei fracassando por pura falta de ambição.
Já perdi muitas partidas de vôlei, duas tartarugas, meia dúzia de sinônimos, alguns entes queridos e a vontade de andar de patins.
Agora faço questão de perder o fio da meada.
(Há algo de nobre em perder alguma coisa e simplesmente parar de buscá-la.)
Histórias de encontrar
Posted: 3rd novembro 2014 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São PauloO Estado de São Paulo – Caderno 2
3 de novembro de 2014
por Vanesa Barbara
Certa vez achei na rua um cartão de crédito e uma carteirinha de plano de saúde. Diante da má vontade do banco e da seguradora, e também do sistema de achados e perdidos dos Correios, consegui localizar o proprietário após algumas horas de pesquisa no Google – era um nome comum –, cruzando dados sobre a empresa onde ele trabalhava e sua data de nascimento, e chegando por fim a um endereço de e-mail anotado no rodapé de um artigo acadêmico sobre engenharia química.
Pedi que o dono fosse buscar os documentos na portaria do meu prédio e ganhei de presente uma caixa de chocolates, mas isso só depois que ele se certificou de que eu não era uma maníaca chantagista nem havia utilizado seu nefrologista favorito.
Outro dia me pediram para checar uma citação à entrada do Museu Picasso de Lucerna, hoje Rosengart Collection: “Não digo nada além do que não disse”, do poeta espanhol Rafael Alberti. Depois de dar em becos sem saída, consegui uma confirmação do próprio curador.
Também sou boa em localizar CEPs de endereços pela metade usando apenas um lápis e um computador conectado à internet (o lápis é para coçar o ouvido) e notabilizei-me pela rapidez com que encontro “um filme dos anos 70 que começa com um morticínio numa repartição e o mocinho da história voltando do almoço”. (Os Três Dias do Condor, com Robert Redford.)
Além disso, passei boa parte da minha vida acadêmica – em todo caso, curta – tentando localizar um jornalista de nome Alexandre, entre uma porção de homônimos, só para saber se havia balões na inauguração do Terminal Rodoviário do Tietê.
Ninguém neste hemisfério tem tanta intimidade com pesquisas em microfilme.
Sou uma espécie de detetive das causas impossíveis, uma detectora de averiguações improváveis, e em sua maioria levemente inúteis. Talvez por ser tímida, descobri muito cedo que havia inúmeras formas de se chegar a uma informação, e é também por isso que sou conhecida pelo furor na redação de e-mails, pela insistência em preencher formulários eletrônicos, por fuçar nos códigos-fonte dos sites em busca de dados ocultos que eu poderia conseguir com um simples telefonema, e pela disposição incansável de quem inclui algo numa lista e só tira de lá quando o problema é resolvido ou um dos envolvidos bate as botas – não necessariamente em episódios relacionados.
Com poucos, porém certeiros, cliques de mouse, descobri onde comprar chá de alface, como faz para pular mais alto, o que significam cores diferentes de xixi e qual é a história oculta dos pisos de caquinhos paulistanos. Numa louca incursão por estatísticas sobre leitura na América Latina, achei um erro numa matéria do New York Times (e não era minha).
Só não consegui ainda encontrar o Daniel de cabelo encaracolado que era bom em matemática e estudou comigo no Marillac em 1993.
Cara de Hambúrguer para o Congresso (tradução)
Posted: 31st outubro 2014 by Vanessa Barbara in TraduçõesTags: Brasil, Cara de Hamburguer, eleições
The International New York Times
30 de outubro de 2014
Por Vanessa Barbara
São Paulo, Brasil – Foi uma eleição bastante típica no Brasil. Jesus e Osama bin Laden concorreram ao cargo de deputado, bem como Barack Obama, Bob Marley, Papai Noel e o Battman (com dois Ts). O autointitulado “Cara de Hamburguer” infelizmente não foi eleito, tampouco uma candidata de nome “Deputada”. (Quando os resultados foram divulgados, ela não obteve nenhum voto – nem o dela mesma.) Mas um famoso palhaço chamado Tiririca obteve seu segundo mandato na Câmara, depois de estrelar uma campanha de TV bem excêntrica.
No ano que vem, 35% dos nossos deputados estaduais serão milionários.
Em São Paulo, que está se provando um lugar mais conservador do que o resto do país, o número de deputados federais da Bancada da Bala vai crescer 30%. São em geral ex-policiais militares com uma postura de direita e um discurso beligerante; eles defendem a redução da maioridade penal (atualmente de 18 anos), o aumento da repressão da polícia e são contrários a quaisquer leis de desarmamento. Seus lemas são: “Bandido bom é bandido morto” e “Direitos humanos para humanos direitos”.
O segundo deputado estadual mais eleito no meu estado é um ex-policial evangélico que recentemente publicou seu próprio gibi. Em 32 páginas, ele descreve “duas ocorrências policiais inéditas”. Numa delas, um anjo aparentemente vem em seu auxílio durante uma perseguição a dois fugitivos. (Na vida real, porém, três suspeitos foram mortos pela polícia.) Após as eleições, ele defendeu o separatismo dos estados mais ricos daqueles mais pobres que “preferem a esmola do que o trabalho”.
São assim, portanto, as eleições no Brasil: pessoas esquisitas, memes divertidos, forte influência da religião e múltiplas reviravoltas. Cinquenta e três dias antes do primeiro turno, Eduardo Campos, um dos três principais candidatos a Presidência, faleceu num acidente aéreo. Seu substituto, representando o Partido Socialista Brasileiro (um partido de centro-esquerda) foi Marina Silva, uma ambientalista evangélica que subitamente atraiu uma grande quantidade de votos. As pesquisas foram à loucura com sua ascensão. Todos pensaram que ela terminaria numa disputa com a atual presidenta Dilma Rousseff – ou mesmo que ela ganharia as eleições.
No fim das contas, todos estavam errados. O que tivemos no segundo turno foi a velha briga entre o Partido dos Trabalhadores (PT), de orientação centro-esquerda a esquerda, e o centrista Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), exatamente como vinha acontecendo desde 2002.
O segundo turno foi absolutamente selvagem. Dilma, do PT, e seu adversário, Aécio Neves, trocaram insultos e acusações. Na sexta-feira passada, Aécio disse que a presente campanha entraria para a história como “a mais sórdida das campanhas eleitorais do nosso sistema democrático”. Em um único debate, ele acusou Dilma de ser mentirosa 36 vezes, enquanto ela retribuiu o insulto 32 vezes. Aécio declarou que o governo atual era um “mar de lama”. Dilma chamou Aécio de “abominável”. Numa propaganda na TV, ela declarou que o rival tem “mostrado dificuldade em respeitar as mulheres”. Também o acusou de contratar para o governo uma irmã, um tio, três primos e três primas.
Na semana passada, Luiz Inácio Lula da Silva, ex-Presidente do Brasil e um dos membros mais proeminentes do PT, declarou que Aécio estava atacando seu partido “como os nazistas no tempo da 2ª Guerra Mundial”, ao passo que Aécio comparou João Santana, marqueteiro de Dilma, a Joseph Goebbels, ministro de propaganda de Hitler.
Por três semanas, as pessoas brigaram nas ruas e na internet. Após os debates, gritavam obscenidades pela janela. Amizades foram rompidas; casais se separaram. No Twitter, uma mulher sugeriu aos amigos que combinassem alguma coisa para o Natal, já que praticamente não possuía mais família.
Três dias antes do segundo turno, a revista semanal Veja publicou com antecedência uma nova edição. Baseando-se no testemunho de um doleiro, a publicação alegou que a presidenta e seu predecessor estavam cientes de um caso de corrupção na Petrobras. No mesmo dia, a Suprema Corte rejeitou um pedido do PT para banir a circulação de Veja, mas proibiu que a revista fizesse publicidade da edição, considerada propaganda ilegal. Dilma também ganhou direito de resposta. De acordo com ela, a revista cometeu um ato de “terrorismo eleitoral”. Enquanto isso, a sede de Veja foi grafitada com as palavras “Veja mente” e “lixo midiático”.
É disso que estou falando: uma boa e típica eleição. Na véspera do pleito, as pesquisas apontavam um empate técnico. No domingo, as pessoas deixaram suas casas para votar – já que o ato é obrigatório – e para tirar selfies diante da cabine eleitoral. Alguém decidiu botar fogo numa urna eletrônica; outro colou uma das teclas a fim de obstruir os votos contrários.
Por fim, no domingo à noite, Dilma Rousseff foi reeleita por uma margem estreita: 51,6% contra 48,6%.
Essa coisa de democracia é muito cansativa.
Este texto foi publicado em inglês no International New York Times do dia 31 de outubro de 2014. Tradução da autora.


