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O Cruzeiro do Sul, a Nebulosa Carina e a Via Láctea, vistos do Quênia. Créditos: Babak Tafreshi / National Geographic Society, via Corbis

 

 

 

 

 

The New York Times
28 de dezembro de 2014

Por Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brasil — Meses atrás viajei para Fernando de Noronha, uma ilha na costa nordeste do Brasil, apenas quatro graus ao sul do Equador. No caminho para o restaurante, notei algo estranho no céu noturno: era Ursa Major, uma constelação que os americanos chamam de Big Dipper [algo como “Colherona”] e os britânicos de Plough [“Arado”].

A Big Dipper, comum no norte, é raramente vista no Hemisfério Sul, embora um amigo jure ter avistado a constelação uma vez, do alto de uma montanha em São Paulo. De acordo com ele, estava colada ao horizonte.

Tenho inveja de quem possui a Big Dipper. Também tenho ressentimento daqueles que podem ver a aurora boreal, fenômeno que testemunhei recentemente numa viagem a Islândia.

Mas é só.

O astrônomo neerlando-americano Bart Bok costumava dizer que “o Hemisfério Sul possui todas as coisas boas”. Ele provavelmente se referia ao fato de que temos “os dois melhores aglomerados globulares, as maiores e mais brilhantes galáxias exteriores visíveis a olho nu, a maior nebulosa difusa, a maior nebulosa escura e uma Via Láctea brilhante o suficiente para produzir sombras em certas épocas do ano, a partir de nosso céu escuro e límpido”, nas palavras do jornalista Luke Dodd.

Aqui a porção central da Via Láctea está muitas vezes posicionada exatamente no alto do céu, visível de um horizonte a outro como uma ferida aberta e brilhante. Também temos uma vista exclusiva de duas galáxias vizinhas à nossa, a Pequena e a Grande Nuvem de Magalhães. Ambas têm a declinação — medida astronômica que designa a distância do equador celeste — de quase 70 graus sul e são circumpolares, o que significa basicamente que são visíveis apenas nessa metade do planeta. (Um viva ao Terceiro Mundo!)

É verdade que, assim como a Ursa Major, os habitantes do norte têm para si a constelação Cassiopeia e Vega, a quinta estrela mais brilhante do céu noturno. Vega foi usada como base para a escala de magnitude aparente, que mede o brilho das estrelas, e para calibrar telescópios.

Ainda assim, o Hemisfério Sul detém as três estrelas mais brilhantes do céu noturno: Sirius, Canopus e Alpha Centauri. Canopus pertence à constelação Carina, notória por dois motivos: a Nebulosa Carina, quatro vezes maior e mais brilhante do que a Nebulosa de Orion, e o sistema estelar Eta Carinae, que irá explodir como supernova ou hipernova em algum momento entre hoje e os próximos mil anos. (Um cientista falou à BBC que a explosão poderá ser tão intensa a ponto de ser vista durante o dia, e de permitir a leitura de um livro com seu brilho durante a noite.) Alpha Centauri e Beta Centauri, esta última a décima-primeira estrela mais brilhante, são chamadas de “Guardiãs da Cruz”, pois apontam para a constelação Crux (popularmente conhecida como Cruzeiro do Sul). Crux é a menor das 88 constelações, mas uma das mais distintivas. É visível em praticamente qualquer época do ano em todo o Hemisfério Sul.

Junto à borda leste de Crux se localiza a Nebulosa do Saco de Carvão, um trecho profundamente escuro onde nascem estrelas. Nas proximidades do Saco de Carvão pode-se enxergar a Caixinha de Joias, um aglomerado de aproximadamente cem estrelas vermelhas, brancas e azuis, visíveis com a ajuda de binóculos. Há também Omega Centauri, o maior e mais brilhante aglomerado globular, com suas estrelas nas cores topázio, laranja e vermelho.

Constelações como Sagittarius e Scorpius são vislumbradas com grande facilidade no Hemisfério Sul; esta última se localiza no centro da Via Láctea, bem no alto do céu de São Paulo. É possível identificar o escorpião do aguilhão às quelíceras, incluindo a supergigante vermelha Antares, localizada no coração do animal.

Neville H. Fletcher, hoje professor emérito da Australian National University, disse certa vez: “No campo da astronomia costuma-se observar — geralmente são invejosos habitantes do norte — que Deus, ao criar o universo, localizou perversamente as regiões mais interessantes da galáxia no Hemisfério Sul, mas todos os astrônomos no Norte”. Como resultado, pode ser mais difícil identificar daqui as formas pelas quais as constelações foram originalmente nomeadas.

Um exemplo clássico: Orion, o caçador, não está orgulhosamente de pé, mas dando uma estrela. Também o corajoso leão da constelação Leo parece mais uma tartaruga de ponta-cabeça. Ou talvez uma lâmpada mágica. Os irmãos de Gemini estão em queda livre. Boötes, o trabalhador com arado, e o cão de Canis Major estão ambos tropeçando. De modo que mais criatividade é exigida de nós, sul-americanos, africanos, australianos, neozelandeses e outros sortudos habitantes do Hemisfério Sul.

Há uma citação atribuída a Bart Bok, que nos anos 50 deixou Harvard pela Austrália e às vezes dava palestras a membros da Royal Astronomical Society, de Londres, que resume bem a questão: “Cavalheiros, vocês vivem sob o lado errado do céu!”.

 


Colunista do jornal brasileiro O Estado de São Paulo, editora do site literário A Hortaliça e colunista de opinião do NYT.

Este texto foi publicado em inglês no The New York Times do dia 29 de dezembro de 2014. Tradução da autora.

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The Southern Cross, Milky Way, Large Magellanic Cloud and Carina Nebula, viewed from Kenya. Credit: Babak Tafreshi/National Geographic Society, via Corbis

 

Stargazing is better on the Southern Hemisphere

The New York Times
28 December 2014

by Vanessa Barbara
Contributing op-ed writer

SÃO PAULO, Brazil — EARLIER this year, I visited Fernando de Noronha, an island off the northeastern coast of Brazil, only four degrees south of the Equator. When I was walking to a restaurant, I noticed something strange in the night sky: It was Ursa Major, the constellation that Americans call the Big Dipper and the British call the Plough.

The Big Dipper, commonplace in the north, is rarely seen in the Southern Hemisphere, though a friend of mine swears he saw it once from the top of a mountain in São Paulo. According to him, it was just above the horizon.

I’m jealous of those who have the Big Dipper. I also envy those who get to see the Northern Lights, which I saw recently during a trip to Iceland.

But that’s all.

The Dutch-American astronomer Bart Bok used to say: “The Southern Hemisphere holds all the good stuff.” He was probably referring to the fact that we have “the two best globular clusters, the largest and brightest naked-eye external galaxies, the largest diffuse nebula, the largest dark nebula and a Milky Way bright enough under our dark transparent skies to cast shadows during certain times of the year,” in the words of the journalist Luke Dodd.

Here the central parts of the Milky Way are at times directly overhead, visible from horizon to horizon, like an open, brilliant bruise. Here we also have an exclusive look at two of our neighboring galaxies, the Small and Large Magellanic Clouds. They both have a declination — the astronomical measurement of the distance from the celestial equator — of close to 70 degrees south and are circumpolar, which means that they are mostly visible only from this half of the planet. (A high-five to the third world!)

It is true that, as well as Ursa Major, northerners have the constellation Cassiopeia and Vega, the fifth-brightest star in the night sky. Vega has been used as the baseline for the apparent magnitude scale, which describes the brightness of stars, and to calibrate telescopes.

Yet the Southern Hemisphere claims the three brightest stars of the night sky: Sirius, Canopus and Alpha Centauri. Canopus belongs to the Carina constellation, notorious for two things: the Carina Nebula, four times as large and even brighter than the famous Orion Nebula, and the star system Eta Carinae, which is expected to burst as a supernova or hypernova sometime in the next thousand years. (A scientist told the BBC that the explosion would be so bright that you would see it during the day, and you could even read a book by its light at night.) Alpha Centauri and Beta Centauri, the 11th-brightest star, are called “The Pointers,” as they form a line in the sky to the constellation Crux (the Southern Cross). Crux is the smallest of all 88 constellations but one of the most distinctive. It is visible at practically any time of the year in all of the Southern Hemisphere.

Along the eastern edge of Crux is the Coalsack Nebula, a deep dark patch where stars are born. Near the Coalsack is the Jewel Box, a cluster of roughly 100 stars colored red, white and blue, and visible with a pair of binoculars. There’s also Omega Centauri, the largest and brightest globular cluster in the sky, with its topaz, orange and red stars.

Constellations like Sagittarius and Scorpius are best seen in the Southern Hemisphere; the latter lies within the center of the Milky Way, high in São Paulo’s sky. It is possible to see the scorpion from its sting to its claws, including the red supergiant star Antares at its heart.

Professor Neville H. Fletcher, now an emeritus professor at Australian National University, once said: “In astronomy circles it is often remarked — mostly by envious northerners — that God, in creating the universe, perversely located all the most interesting regions of our galaxy in the Southern Hemisphere, but all the astronomers in the north.” As a result, it can be more difficult down here to pick out the shapes for which the constellations were originally named.

The classic example: Orion, the hunter, is not proudly standing on his feet, but rather doing a cartwheel. Also, the brave lion from the constellation Leo looks more like an upside-down turtle. Or maybe a magical lamp. The twins of Gemini are falling to the ground. Boötes, the plowman, and the dog from Canis Major are both tripping. So more creativity is required of us South Americans, Africans, Australians, New Zealanders and other lucky inhabitants of the Southern Hemisphere.

There’s a quote attributed to Mr. Bok, who left Harvard in the ’50s for Australia but often lectured to members of the Royal Astronomical Society in London, that sums it up nicely: “Gentlemen, you live under the wrong half of the sky!”

O Estado de S. Paulo – Caderno 2
29 de dezembro de 2014

por Vanessa Barbara

Cabe frisar que o objetivo desta crônica não é gabar-se da genialidade de minha família e amigos, tampouco acabrunhar os leitores que porventura não compreenderem o escopo e a grandiosidade dessas maravilhas inventivas que irei aqui descrever.

Meu único intuito é presentear a humanidade com ideias revolucionárias que irão proporcionar-lhes conforto, praticidade e talvez a paz mundial, não nesta ordem, mas com razoáveis chances de sucesso. Se não estiverem sentados, por favor tomem seus assentos para evitar síncopes emocionais.

A primeira invenção foi desenvolvida pelo meu irmão Marcos, autor de “Anão vestido de palhaço mata oito” (editora Rocco). Ele é idealizador de um produto chamado Marcondas, o micro-ondas que gela. Trata-se de um segredo industrial que dispensa maiores detalhes.

Ainda no âmbito doméstico – “Antes de iniciares a tarefa de mudar o mundo, dê três voltas dentro de sua casa” –, temos aqui outra invenção de um membro da família. Ele nos deu a graça de apresentar-nos o Gigio Home Chicken Roaster, um produto de design clean, com uma porta de vidro (pense num climatizador de vinhos), que traz para o conforto de sua casa as TVs de frango assado das padarias. Aos donos de cães, a oportunidade adicional de fornecer entretenimento hipnótico e exclusivo ao elemento canino. O slogan: “Diversão para o seu pet, nutrição para a sua família”.

De minha própria e genial lavra temos algo que vai abalar o turismo tal qual o conhecemos: trata-se do Marcúnico, o bilhete único europeu. (O nome surgiu da certeza de que o meu irmão irá fatalmente apoderar-se dos royalties, então já vamos facilitar e botar tudo em seu nome.)

O Marcúnico (Le Marcunique, Mark-o-nic, Il Marconico, Das Markeinzige) é um bilhete de transporte compatível com todas as capitais europeias, incluindo Bratislava, Nicósia e Tbilisi. O turista adquire seu Marcúnico e o carrega em euros; daí pra frente, não precisa mais se preocupar em descobrir quais as tarifas e como funciona o sistema de transporte público da cidade onde se encontra. Basta encostar seu Marcúnico nas catracas de ônibus ou trens e debitar a quantia equivalente a uma passagem. (Alguns invejosos observaram que “isso já existe e se chama cartão de crédito”, mas não vamos nos deixar abalar pelo derrotismo daqueles que não creem.)

O comercial do Marcúnico mostraria um mochileiro com ar exploratório (trilha sonora do The Doors) andando por uma rua europeia, enquanto portas automáticas se abrem conforme ele passa.

Já a franquia “Sorvetes Que Parecem Perucas” foi criada em parceria com meu amigo Paulo e pretende aniquilar o conceito de bola de sorvete, transmutando-a em topetes, black power e moicanos. E o restaurante por quilo “Coma o Quanto Quiser em Sete Minutos” é exatamente o que diz ser.

Acho que já basta de ideias novas para 2015.

Gente de bem

Posted: 22nd dezembro 2014 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
22 de dezembro de 2014

por Vanessa Barbara

Quinta-feira passada, em Santa Cecília, um rapaz de cerca de 30 anos, descalço e de bermuda, subiu no teto de um ônibus da linha Lapa 875T. O veículo parou, e outro ônibus colou atrás. O rapaz prontamente fez uso do engavetamento, saltando para o o teto do coletivo seguinte, um Aclimação 508L. Lá do alto, passou a gritar e a interagir com as pessoas na rua, num provável surto psiquiátrico. Transeuntes berraram para que ele pagasse a passagem em vez de ficar pegando carona, e o chamaram de folgado e vagabundo. Rapidamente formou-se uma aglomeração de pessoas filmando com os celulares. A certa altura, ele tirou a roupa e correu pelado, depois tornou a se vestir. Deitou no teto do ônibus e ficou falando coisas aleatórias.

As pessoas ao redor continuaram a xingá-lo. Formaram uma rodinha e pediram que descesse, pois assim poderiam enchê-lo de porrada. Uns caras prometeram trazer uns paus e uma mulher tentou dar uma vassourada no rapaz. Um senhor quase conseguiu puxá-lo pelo pé com violência. A galera do linchamento aumentou; defendiam os direitos de circulação dos trabalhadores de bem e prometiam surrá-lo. (O trânsito já estava liberado e os passageiros do ônibus passaram para o de trás, se é que isso importa.)

Uma moça interveio e disse que não deixaria ninguém machucar o rapaz. A turba passou a gritar com ela, dizendo que defendia “coisas erradas”, ao que ela respondeu que ninguém ali tinha o direito de bater em ninguém, que a polícia já havia sido acionada e que o rapaz devia estar doente. Foi quando um jovem apareceu e disse que conhecia o sujeito. “Mora no meu prédio, é pai de família e advogado. Ele vai trabalhar todo dia de manhã, de terno. Tentei falar com ele, mas olhou para mim e não me reconheceu.”

A turba recuou. Tentaram imaginar o rapaz surtado de terno, gente de bem, trabalhador, pai de família.

A polícia chegou quando o episódio já se arrastava havia vinte minutos. A multidão aplaudiu, e alguns sugeriram que era para “descer o cacete”. Enquanto os policiais estudavam o que fazer, o rapaz fez menção de pular de cabeça. Ouvi gritos de: “Pula! Pula!”. A polícia arrumou uma escada e encostou na parte traseira do ônibus. Numa demonstração de calma e sangue-frio, o comandante subiu de mansinho, sem que o rapaz percebesse.

Enquanto ele gritava e ameaçava pular, o policial o agarrou por trás e o imobilizou. Foram necessários mais dois soldados para contê-lo. Eles o algemaram, desceram-no até a rua e o colocaram na viatura.

Foi quando reparei num senhor que havia chegado há pouco. Era o pai do rapaz – paralisado e confuso. Disse que nunca tinha visto o filho naquele estado, que ele não tinha histórico psiquiátrico. Uma vizinha, gentil, telefonou para a mãe do rapaz e informou que estavam todos indo para a Santa Casa.

(Atrás de nós, um sujeito falou que esperava que o rapaz apanhasse muito na viatura.)

Um Feliz Natal para toda a gente de bem.

O Estado de S. Paulo – Caderno 2
15 de dezembro de 2014

por Vanessa Barbara

No início do livro “Information Doesn’t Want to be Free”, o escritor Cory Doctorow avisa: “Mesmo se eu estiver errado, prometo estar errado de uma forma interessante e bem informada”.

A obra, lançada em novembro, foi citada há duas semanas pela colunista do Estadão Lúcia Guimarães, que expôs uma das ideias principais do autor: quanto mais as editoras restringem o conteúdo das obras com a tecnologia DRM, mais as plataformas de venda controlam o mercado editorial. Sempre que alguém põe um cadeado em algo que lhe pertence e esconde a chave, esse cadeado não está lá para o seu benefício. Tais barreiras não almejam proteger os direitos autorais, mas os direitos dos intermediários.

Na introdução do livro, a cantora e compositora americana Amanda Palmer argumenta que bloquear conteúdo na internet faz tanto sentido quanto obrigar artistas de rua a usar mordaças, até que um transeunte interessado feche contrato com um intermediário que tenha permissão para liberar o artista por alguns minutos, após os quais ele volta a ser amordaçado. Dessa forma, o controle é retirado das mãos dos criadores e do público e é cedido completamente a terceiros.

Como escritor de ficção científica, Cory Doctorow entende que passamos a viver em um novo mundo, no qual as regras mudaram de forma permanente. Nunca foi tão fácil copiar filmes, livros, fotografias e compartilhá-los na rede. Nenhum bloqueio eletrônico poderá mudar isso – quanto mais mecanismos de limitação forem inventados, mais fortes serão os esforços para quebrá-los. As travas de proteção dos livros não são apenas tentativas desesperadas de regular o mercado, mas também um retrocesso: sob essa lógica, não poderiam existir bibliotecas nem a possibilidade de comprar um livro e emprestá-lo para outras pessoas.

Doctorow defende uma política regulatória que faça distinção entre a atividade de distribuição em escala industrial e as manifestações culturais. Diz que só é possível regular de forma justa o mercado se o fizermos sem pensar apenas no lucro das editoras e grandes estúdios. É essencial ampliar o acesso à informação e assegurar que os benefícios se estendam a todos, o que apenas acontecerá se a infraestrutura for livre e equânime.

A mesma posição é defendida pelo professor de direito Lawrence Lessig, idealizador do Creative Commons, um sistema de copyright alternativo que dá mais liberdade aos criadores para distribuir suas obras. Ele alega que a Constituição americana pensou o copyright tradicional “para promover o progresso da ciência e das artes úteis”, ou seja, tudo o que serviria a outros propósitos não se encaixaria na lei.

Diante desse novo cenário, resta dar ouvidos a um autor de histórias de ficção científica: daqui pra frente, tudo aquilo que for feito para manter os privilégios de um setor distributivo e trancar para fora a grande maioria está fadado a fracassar.

Anedotas de passagem

Posted: 9th dezembro 2014 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
8 de dezembro de 2014

por Vanessa Barbara

Outro dia ouvi uma história bizarra do motorista do 118C que eu não sei se é verdadeira, mas achei que devia compartilhar com os senhores:
Tinha um rapaz sentado no banco preferencial, aí uma galera que estava ao redor começou a criticá-lo porque havia uma idosa de pé. Alguém chamou o cara de folgado. Aí o sujeito desatarraxou a prótese da perna, levantou do assento e bradou: “Agora a senhora por favor segura a minha perna”.

*

Diálogo aleatório
Motorista: “Se eu tivesse dinheiro, eu compraria um guincho”.
Cobrador: “Sabe o que a gente devia fazer? Comprar uns duzentos bondinhos. Andar a 10 quilômetros por hora seria muito legal”.
(O espírito empreendedor desses dois mandaquienses passou de guincho a pizzaria e a loja de lençóis em apenas dez minutos.)

*

Passageira: “Este ônibus passa na Inajar de Souza?”
Cobrador (com ares filosóficos): “Olha, pode passar, pode não passar… A gente nunca sabe o futuro, não é?”

*

Em Fernando de Noronha, a passagem de ônibus custa 3 reais – como em São Paulo. Há somente uma linha com a gigantesca frota de dois micro-ônibus que vão e vêm do Porto até a praia do Sueste, num total de 7 quilômetros percorridos. Ao contrário do que se imagina, esse preço vale para todos – não há bilhete com desconto para os moradores da ilha.

Como, ainda por cima, o coletivo só passa de meia em meia hora, os nativos às vezes optam por pegar carona com os amigos ou nas caminhonetes de transporte gratuito de dois restaurantes localizados na Vila do Boldró.

Na eventualidade de uma carona, todo mundo que está no ponto é convidado a subir na boleia, instaurando-se uma oportunidade valiosa de socialização. Foi na traseira de uma dessas caminhonetes que um noronhense de 64 anos me contou que os hospitais da ilha não fazem partos – todas as mulheres grávidas têm que ir para o Recife ao completar seis ou oito meses de gestação. Outro rapaz me confidenciou o boato da vez: de que o cachê pago aos integrantes da Banda Calypso por um show na ilha, no réveillon de 2013, teria saído da verba destinada a uma escola local.

Apesar de haver apenas duas vans, os motoristas nunca eram os mesmos. Em Sueste, encontrei um sujeito que estava aprendendo a lidar com as marchas do veículo, tomando lições de um amigo com o ar de quem havia se voluntariado para a tarefa.

*

Comentário de uma passageira: “Se o Marcos comer meu miojo de tomate, eu mato ele”.

*

(Colaboração do leitor Bruno Scomparin)
Frase ouvida de uma jovem, em um ônibus de Fortaleza: “Como assim, você não sabe o que é anacoluto?!”.

Ninguém

Posted: 5th dezembro 2014 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários

The International New York Times
4 de dezembro de 2014

Por Vanessa Barbara

No mês passado, mais de 142 mil brasileiros assinaram uma petição no site da Casa Branca. Eles cobram um posicionamento de Barack Obama quanto ao “avanço do comunismo bolivariano promovido pela administração de Dilma Rousseff”.

Ela acaba de ser reeleita com uma margem estreita de votos: 51,4% contra 48,5% para o candidato mais conservador, Aécio Neves. Os signatários da petição alegam que a eleição não foi completamente democrática, pois as urnas eletrônicas não seriam confiáveis. Eles também afirmam que os pobres votaram em Dilma apenas porque são altamente dependentes dos programas sociais do governo, como o Bolsa Família, um subsídio mensal criado para reduzir os índices de pobreza. Aqueles que exigem a intervenção de Obama temem que nosso país se torne uma nova Venezuela, e se consideram “os defensores da democracia e da liberdade no Brasil”, a despeito de um pequeno detalhe: alguns querem a ditadura militar de volta.

De acordo com uma pesquisa recente do Datafolha, em comparação ao ano passado, mais brasileiros se identificam com ideais de direita, como a diminuição das restrições para porte de arma. Embora 58% acreditem que a pobreza está ligada à falta de oportunidades, 37% insistem que a preguiça é a principal raiz do problema. Esse foi um ponto crucial do debate na última eleição: um lado defendia a meritocracia e a redução dos subsídios do governo; o outro, mais investimentos para diminuir a desigualdade.

A nova direita argumenta que o governo do PT é corrupto, em referência a uma série de escândalos de suborno e compra de votos ocorridos na última década. Por esse motivo pedem pelo impeachment de Dilma. Ela seria substituída pelo vice Michel Temer, de um partido de centro-direita chamado PMDB.

Há quem defenda que é preciso depor à força esse governo corrupto. Embora a ideia seja eventualmente devolver o poder aos civis e convocar novas eleições, essas pessoas falam nostalgicamente sobre a época da ditadura, quando, nas palavras de um deputado federal, “não se ensinava sobre homofobia e sexo seguro, se ensinava português e matemática”.

Ambos os grupos pró-impeachment organizaram protestos em São Paulo. Em 1 de novembro, 1,2 mil pessoas se reuniram no Masp; mais de 5 mil compareceram no segundo protesto, duas semanas depois. O mais recente, ocorrido no sábado passado, atraiu 500 manifestantes.

A corrupção não é o principal motivo de preocupação do grupo. Assim como nos anos 60, nossas classes média e alta temem a ameaça comunista. Alguns dizem que esta é a mesma atmosfera que levou ao golpe militar de março de 1964, quando um presidente de esquerda foi tachado de socialista, deposto e substituído por uma ditadura militar que durou mais de vinte anos.

Em uma das marchas, os participantes entoaram fanaticamente o Hino Nacional, alegando representar o único patriotismo de verdade. Havia até neonazistas no meio, e um skinhead portando um soco inglês. Transeuntes desavisados eram hostilizados só por vestirem roupas vermelhas. Um deles, um advogado de 33 anos, vestia uma camiseta com os rostos de Marx, Lênin, Fidel, Mao e Stálin bebendo alegremente. Alguém lhe gritou, de forma um tanto quanto nonsense: “Você está num país livre, vai pra Cuba”.

Em outro incidente, um político do PCB estava num bar usando uma camiseta com a foice e o martelo estampadas quando o protesto passou. Um homem começou a xingá-lo e perguntou se ele tinha recebido um sanduíche de mortadela do governo. “Paga um lanchinho de mortadela que ele já passa para o lado de cá”, disse o homem sarcasticamente, chamando o político de “comedor de mortadela”. (No Brasil, a mortadela é considerada uma comida de pobre.) Outro homem gritou: “Dá o seu apartamento pra mim, cara! Você não quer dividir as coisas?”.

A verdade é que o PT de Dilma está no poder há mais de onze anos e até agora falhou em estabelecer um mero vislumbre da temida ditadura do proletariado. Pelo contrário: o partido, outrora radical, tem se tornado cada vez mais centrista, adotando muitas das práticas de seus rivais neoliberais. Empregou políticas econômicas ortodoxas para manter a estabilidade do mercado; não chegou a estatizar coisa alguma e inclusive favoreceu a privatização e concessão de portos, estradas e aeroportos; entre os ministros nomeados para o ano que vem há uma lobista do agronegócio e inimiga dos ambientalistas, Katia Abreu, na pasta da Agricultura, e um banqueiro conservador, Joaquim Levy, no Ministério da Fazenda. Este ano, o lucro dos bancos privados aumentou 26,9%. De acordo com o ranking “Top 1.000 World Banks”, o Brasil está em sétimo lugar em lucros bancários.

Sendo assim, seria mais seguro acusar Dilma de centrista, em vez de bolchevique.

Apesar disso, muitos ainda temem o bicho-papão comunista e estão dispostos a tomar providências, seja participando de protestos de rua, recorrendo às Forças Armadas, organizando petições aos Estados Unidos ou mesmo mudando de país. “O povo brasileiro está descrente”, disse um ator durante um evento meses atrás. “Todos os dias eu vejo gente querendo se mudar para Miami.”

Se Obama não vai até eles, eles irão até Obama.


Este texto foi publicado em inglês no International New York Times do dia 4 de dezembro de 2014. Tradução da autora.

The International New York Times
Dec 4th, 2014

by Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

SÃO PAULO, Brazil — Last month, more than 142,000 Brazilians signed a petition on the White House website. They asked President Obama to take a stand against the “Bolivarian Communist expansion in Brazil promoted by the administration of Dilma Rousseff.”

She had just been re-elected president by a narrow margin: 51.4 percent against 48.5 percent for the more conservative candidate, Aécio Neves. The petitioners claim that the election wasn’t fully democratic, since electronic voting machines aren’t reliable. They also say that poor people voted for Ms. Rousseff only because of their heavy dependence on social welfare programs, such as Bolsa Família, a monthly family allowance designed to reduce poverty. Those who demand Mr. Obama’s intervention fear that our country will soon become a new Venezuela and call themselves “the promoters of democracy and freedom in Brazil” though, in a slight contradiction, some of them want the military dictatorship back.

According to a recent poll by Datafolha, more Brazilians identify with right-wing ideas, like looser gun restrictions, than they did last year. Although 58 percent of Brazilians believe that poverty relates to a lack of opportunities, 37 percent insist that laziness is the main cause of it. This was a major point of debate during the election: One side argued for meritocracy and less government aid; the other, for more public spending to reduce inequality.

The new right wing is now arguing that Ms. Rousseff’s government is corrupt, pointing to a number of vote-buying and bribery scandals over the last decade. As a result, some call for Ms. Rousseff’s impeachment. She would then be replaced by Vice President Michel Temer, from a center-right party called PMDB (Brazilian Democratic Movement Party).

Others say we need to remove our corrupt government by force. Although the idea is eventually to hand the power back to civilians and hold a new election, they talk nostalgically about the military period, when schools “didn’t teach about homophobia and safe sex, they taught Portuguese and math,” as one congressman said.

Both groups have organized street rallies in São Paulo. On Nov. 1, 2,500 people gathered, and 5,000 showed up for a second rally two weeks later. The most recent, last weekend, had only about 500.

Corruption is not what the right wing fears most. Just as in the ’60s, the Brazilian middle and upper classes are intensely afraid of the Communist threat. Some say this was the same atmosphere that led to the military coup in March 1964, when a left-wing president was labeled a Socialist, deposed and replaced by a military dictatorship that lasted more than 20 years.

At one rally, people fanatically chanted the national anthem, calling themselves the only true patriots. There were even some neo-Nazis in the mix, and a skinhead with brass knuckles. Unwary passers-by were yelled at just for wearing red clothes. One bystander, a 33-year-old lawyer, had a T-shirt that portrayed Marx, Lenin, Castro, Mao and Stalin merrily drinking. Someone told him, rather nonsensically, “You’re in a free country, go to Cuba.”

In another incident, a politician from the Brazilian Communist Party stood in a bar wearing a hammer and sickle T-shirt when the rally passed by. A man started shouting to him and asked if he had a mortadella sandwich from the government. “Just give him a mortadella sandwich and he will turn to our side,” said the man sarcastically, calling the politician a “mortadella-eater.” (In Brazil, mortadella is regarded as a poor man’s food.) Another one yelled: “Give me your apartment! Don’t you want to share things?”

The truth is that Ms. Rousseff’s Workers Party has been in power for more than 11 years and has so far failed to establish even a hint of the dreaded dictatorship of the proletariat. On the contrary: The once radical party has come to look increasingly centrist, adopting many of the practices of its neoliberal rivals. It has employed orthodox economic policies in order to maintain market stability; it hasn’t nationalized any assets but rather favored the privatization of ports, highways and airports; and Ms. Rousseff’s new ministers include an ally of agribusiness and nemesis of environmentalists, Katia Abreu, as agriculture minister, and a fiscally conservative banker, Joaquim Levy, as finance minister. This year, the profits of Brazilian private banks increased 26.9 percent. According to the “Top 1,000 World Banks” survey, Brazil is ranked seventh in banking profits.

So it’s safer to say that Ms. Rousseff is more of a centrist than a Bolshevik.

In spite of that, lots of people keep on fearing the Communist boogeymen and are ready to take action on this matter, either through street rallies, pleas to the army, petitions to the United States or even by moving out of the country. “Brazilian people are feeling hopeless,” said an actor at an event a while ago. “Every day I see people wanting to move to Miami.”

If Mr. Obama won’t come to them, they will go to Mr. Obama.


O Estado de S. Paulo – Caderno 2
1 de dezembro de 2014

por Vanessa Barbara

Na semana passada, a Companhia do Metropolitano de São Paulo vetou a propaganda do livro “Mascarados” (Geração Editorial), escrito pela pesquisadora da Unifesp Esther Solano e pelos jornalistas Bruno Paes Manso e Willian Novaes. A obra faz uma análise crítica das origens e motivações da tática black bloc no Brasil.

O departamento de vendas do Metrô barrou o anúncio sob o argumento de que o livro poderia “incitar a violência”.

A recusa se apoiou no Regulamento para Exploração de Mídias em Áreas e Equipamentos de Propriedade da companhia, que proíbe a veiculação de mensagens publicitárias “que infrinjam a legislação vigente, atentem contra a moral e os bons costumes […] ou que possam suscitar comportamentos inadequados”.

O problema é que não se trata de um libelo em favor dos black blocs, mas de uma obra analítica alicerçada em entrevistas e em uma extensa pesquisa de campo realizada por uma socióloga. Segue a tradição do livro “Black Blocs” (Veneta), do cientista político canadense Francis Dupuis-Déri, considerado um dos primeiros estudos sérios sobre o assunto.

Em “Mascarados”, Solano diz que o objetivo do livro é justamente se contrapor a uma sociedade que não escuta e prefere reproduzir estereótipos, deixando-se arrastar pelo argumento fácil, a intolerância, a histeria e a trivialidade. “Um dos erros mais grotescos de nossa sociedade é proclamar que o outro não tem nada a dizer”, escreve Solano, que, aliás, afirmou que pessoalmente não concorda com a tática. Mas isso não a impede de refletir sobre o tema.

Ao longo do livro, a pesquisadora se mostra preocupada com a falta de diálogo entre os diversos atores das manifestações populares (mídia, policiais, políticos, manifestantes). “Se o sujeito não participa de meu modo de vida”, ela declara, reproduzindo um pensamento corrente, a saída é “esvaziá-lo de conteúdo, como se fosse um robô que, no caso do black bloc, só sabe depredar, e no caso da Polícia Militar, só sabe bater.” Sua principal preocupação é ouvir sem preconceitos, tentar compreender outros pontos de vista e, dessa forma, enriquecer o debate.

O canadense Dupuis-Déri, que esteve recentemente em São Paulo para um debate na Bienal Internacional do Livro, também defende a importância de examinar a sério as ideias e a lógica dos black blocs, em vez de associá-los de forma indiscriminada à baderna e à irracionalidade destruidora. “Dizer que eles são jovens meramente apolíticos e irracionais é, na melhor das hipóteses, preguiça intelectual e, na pior, uma mentira política”, afirmou.

Curioso é que um livro desses, que convida ao diálogo e à exposição de pontos de vista divergentes à maioria, seja julgado e censurado de antemão – como se a própria obra antecipasse o preconceito de quem se recusa a abri-la.

Não percebem que, nas palavras de Solano, “impor um padrão imutável de entender a vida é mais uma forma de violência”.