Definition of “Betrayal”

Posted: 23rd janeiro 2013 by Vanessa Barbara in Ficção
Tags: ,

Londres, 23 de janeiro de 2013
Blog da revista Granta

http://www.granta.com/New-Writing/Brazilian-Writers-Define-Betrayal

Betrayal is not when your husband spends a few nights with a girl you know, nor when he returns home and you ask happily if it was fun (‘yes’, he said, ‘very much’). Betrayal is when he talks about it to a bunch of his friends, including some of your closest, and everyone knows the details while you spend forty-two days trying so hard to find out what the hell is going on. Betrayal is when the one who is supposed to protect you decides to hurt you and there’s no one left to speak in your defence. It’s when men are brave enough to brag about their acts to one another, but no boldness is left to speak frankly to their wives. Even when we beg. Betrayal is when you left home to live on your own and within two weeks he’s sleeping with other women in the bed you bought together – your picture still hanging on the wall, smiling blankly at your substitute.

Órfãos de séries

Posted: 21st janeiro 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
Tags: , ,

Folha de S.Paulo – Ilustrada
21 de janeiro de 2013

por Vanessa Barbara

Pouco antes de “Lost” acabar, uma amiga me confidenciou: “Não sei o que vai ser da minha vida depois de maio”.530711_401488553279085_1372925722_n

O vazio deixado pelo fim de séries de TV é um fenômeno psicológico ainda pouco estudado. Devastado, o paciente apresenta sintomas de abstinência, delirium tremens e uma sensação de perda impossível de ser preenchida por reprises.

Entre as séries que mais deixaram órfãos ao longo da história estão: “Arquivo-X”, “Família Soprano”, “24 Horas”, “A Sete Palmos” e “Friends”. Segundo pesquisa da Ohio State University, os fãs que desenvolvem maior ligação com os personagens são os que mais sofrem.

O estudo, conduzido pela pesquisadora Emily Moyer-Gusi, apelidou o fenômeno de “Efeito Seinfeld”, a partir da sitcom que terminou em 1998. Há alguns aspectos do relacionamento com personagens fictícios que são comparáveis a relacionamentos reais. Por isso, quem assiste televisão para não se sentir só é quem fica mais aflito com o término de um programa.

Uma das dimensões mais traumáticas desse tipo de luto é o fim da expectativa das terças-feiras, como no caso de “Lost”. Antes os fãs passavam a madrugada aguardando o novo episódio aparecer na rede, baixavam sem demora e assistiam o quanto antes. Depois, nem aulas de sapateado ou partidas de gamão fizeram desaparecer a angústia da perda.

A dimensão do vazio pode ser medida pela quantidade de cópias que a atração acaba inspirando. Para substituir “Lost”, muitas novidades surgiram no mercado, sem o mesmo sucesso: “Fringe”, “Flash Foward”, “The Event”. No lugar de “Friends”, “The Big Bang Theory” e “How I Met Your Mother”. 

Recentemente fiquei órfã de “House” e adiei ao máximo a exibição dos últimos episódios de “Monk”, num caso típico de negação. A mera ausência de três séries em recesso já me causa imenso pesar: “Doctor Who” (que volta em abril), “Breaking Bad” (julho) e “Sherlock” (só no Natal).

Depois da negação, vem a raiva e a indignação: por que justo “Prison Break”? Então, segue a depressão, quando se fica zapeando no sofá, sem rumo. A fase seguinte é a da negociação ou barganha: entrar nos fóruns e promover abaixo-assinados pela volta da série; assistir a reprises e comprar a caixa com todas as temporadas.

É quando surge a aceitação: não tem mais jeito. O melhor é começar a se divertir com “Lei e Ordem: Especial Vítimas de Séries Finadas”. 

Os sobreviventes

Posted: 21st janeiro 2013 by Vanessa Barbara in Blog da Cia. das Letras, Crônicas
Tags: ,

Michael Maslin/New Yorker

Blog da Companhia das Letras
21 de janeiro de 2013

por Vanessa Barbara

 

Todo mundo tem suas fases literárias. Nos últimos tempos, passei por uma época só de histórias policiais, outra de romances longos demais, uma de livros psiquiatricamente relacionados, outra de não ficção e uma dedicada ao Ian McEwan. Até que fui cair, sabe-se lá como, na fase do luto. Mais especificamente: relatos de viúvos.

O prelúdio foi Luto e melancolia, de Sigmund Freud, e Sobre a morte e o morrer, de Elisabeth Kübler-Ross, que já citei por aqui. Depois vieram os livros autobiográficos, especialmente prolíficos na última década, com a descrição de longos casamentos que se romperam após a morte de um dos cônjuges. É a chamada “literatura do luto”.

São textos doloridos, pesados, carregados de memória e perda. Há uma beleza crua na tentativa de retratar o que significou aquele relacionamento, indo e voltando no tempo, repensando as memórias de acordo com o vazio do presente. São livros geralmente redigidos em poucos meses, no ano posterior à morte do cônjuge, verdadeiras tentativas de exercer o que Kübler-Ross descreve como uma etapa essencial ao processo de luto: contar sua história vezes sem conta, em detalhes. “É preciso desabafar. O luto deve ser testemunhado a fim de ser curado.”

O primeiro ano sozinho contém muitos pontos críticos — a escritora Joan Didion pensava com frequência no que o casal estava fazendo naquele dia no ano anterior, até que a morte completou 366 dias e ela só conseguia pensar que àquela hora, no ano anterior, o marido já estava morto. É preciso aprender, por exemplo, a voltar para uma casa silenciosa e a dormir sozinho numa cama grande. Aprender a evitar o que Joyce Carol Oates chama de “ralos emocionais” — lugares carregados de memória.

Os livros listados a seguir são tentativas públicas de compreender a perda, desafiando uma sociedade na qual se espera que os viúvos sofram em silêncio, na qual ser “forte” é a norma. É como se os autores procurassem ceder ao luto a fim de poder lidar com ele. Muitos são, a um só tempo, tristes e belos, pesados e esperançosos. (Vamos esperar que a minha próxima fase seja mais animada, talvez alguma coisa com viajantes no tempo e animais falantes.)

 

– O ano do pensamento mágico, de Joan Didion (Nova Fronteira, 2006): Neste clássico da literatura do luto, a jornalista americana aborda o período que sucedeu à morte súbita de seu marido, o roteirista de cinema John Gregory Dunne. Ele sofreu uma parada cardíaca no apartamento do casal, enquanto esperava o jantar. Da noite para o dia, Didion se vê obrigada a lidar com a perda de seu companheiro nos últimos 40 anos enquanto se dedica a cuidar da filha única, Quintana, gravemente hospitalizada por conta de uma pneumonia.

A autora fala de suas reações irracionais ao lidar com a morte, uma espécie de desarranjo mental provocado pela dor do luto: recusou-se a doar os sapatos do marido porque pensou que, quando John “voltasse”, iria precisar deles. Usou a mesma lógica ao recusar-se a doar seus órgãos, que lhe seriam igualmente necessários. Chegou a imaginar se a morte também teria ocorrido em Los Angeles, onde o fuso horário era diferente e ainda não havia chegado a hora. Embora externamente se comportasse bem e parecesse forte, que é afinal o que se espera de uma viúva — que não demonstre sua dor —, Didion era dominada pelo pensamento de que a morte do marido era reversível. Cedendo a essas emoções, ela se lança a um relato pormenorizado dos dias que precederam e sucederam o fato, tentando expurgá-los e compreendê-los. “John estava falando, aí então não estava mais”, conta.

Ela também incorpora pesquisas médicas sobre a doença do marido e lê tudo o que pode sobre luto. “Em tempos difíceis, aprendi a ler, estudar e destrinchar as coisas. Informação é controle. Considerando-se que o luto é uma das emoções humanas mais universais, sua literatura me pareceu notavelmente esparsa.”

Algumas edições deste livro terminam com excertos de Noites azuis (Nova Fronteira, 2011), em que Didion fala da morte da filha, ocorrida um ano e meio depois.

– Carta a D.: História de um amor, de André Gorz (CosacNaify, 2008, escrito em 2006):Curto relato autobiográfico do filósofo francês André Gorz sobre seu relacionamento de quase 60 anos com Dorine Keir, vítima de um erro médico que lhe provocou uma doença crônica e dolorosa. Um dos mais tristes da lista, não só por seu desfecho, mas pelo teor arrependido de Gorz, que afirma ter sido injusto com Dorine.

“Preciso reconstituir a história do nosso amor para apreender todo o seu significado. Ela foi o que permitiu que nos tornássemos o que somos; um pelo outro, um para o outro. Eu lhe escrevo para entender o que vivi, o que vivemos juntos.”

– Sobre Alice, de Calvin Trillin (Globo, 2007): Leve e curto, este livro de 93 páginas é uma homenagem do escritor da revista New Yorker à esposa Alice, com quem foi casado durante 36 anos e que morreu após complicações de um longo tratamento de câncer de pulmão. A esposa era tema constante de suas crônicas, e é assim que ele conduz este livro: como uma grande crônica de sua vida em comum.

Conta como ambos se conheceram numa festa de uma revista decadente, que existia “apenas para que todo mundo se casasse, projeto que exigiu festas cada vez maiores”. Lembra que Alice era sua principal e melhor leitora, a pessoa que ele queria impressionar. “Escrevi este livro para Alice. Na verdade, escrevi tudo para Alice.” “Educadora, escritora e musa” (conforme o obituário do New York Times), mãe de duas meninas, com grande sede de viver e cuidar das pessoas, era ela quem lhe explicava palavras como “heurística” e o enredo de filmes estrangeiros que acabaram de ver. Possuía uma teoria louca sobre impostos e a Lei de Fluxo de Caixa Compensatório, segundo a qual todo valor não gasto com luxos pelos quais você não pode pagar equivale a um lucro inesperado.

Nas palavras da amiga Nora Ephron, Alice passava o tempo todo cuidando dos outros — essas pessoas sob sua proteção eram “qualquer um que ela amasse, ou de quem gostasse, ou conhecesse, ou conhecesse alguém que conhecesse, ou que nunca tivesse visto antes na vida, mas tivesse ficado conhecendo depois que a pessoa achou o telefone na lista e ligou”.

O livro não é pesado e fala sobre a vida de Alice, não sobre sua morte. É um dos mais alegres desta lista.

– A widow’s story, de Joyce Carol Oates (Ecco, 2011): Após um casamento de “47 anos e 25 dias”, a escritora Joyce Carol Oates perdeu o marido, o editor Raymond Smith, devido a complicações cardíacas decorrentes de uma pneumonia. Absolutamente devastada, ela decide escrever este livro de 432 páginas e 86 capítulos sobre a internação, os dias que antecederam a perda e o que veio depois.

Ela fala do instante em que instintivamente se descobre, a partir das evidências mais irrelevantes, que algo está errado. Repisa infinitas vezes esse momento, o primeiro de uma série de eventos que culminarão na maior tragédia de sua vida. Descreve seu processo de luto — demorado e aparentemente interminável — como um chão repleto de serragem áspera por onde você precisa andar. “Pense em espelhos manchados em banheiros públicos. Pense em porta-toalhas quebrados quando não há nada em que enxugar as mãos exceto toalhas usadas e encharcadas.”

Em sua solidão, ela compara os viúvos a paraplégicos observando os outros dançarem, não com inveja, mas com uma espécie de descrença. Por vezes, é autodepreciativa e diz coisas como: “Agorafobia! Fiquei pensando: isso é algo que eu também devia tentar.” Ou: “Se alguém te pergunta: Como vai?, não se deve responder: Cada vez mais suicida. E você?”

J.C.O., a escritora de mais de 57 romances e novelas, deu lugar a Joyce Smith, a viúva. Até que, um dia, enquanto limpava os armários, encontrou um par de brincos que perdera. “Perdi o significado de viver e o amor de minha vida, mas ainda posso encontrar pequenos tesouros no lixo”. Há dois anos ela secasou novamente, desta vez com um neurocientista sem nada em comum com o meio literário.

– A grief observed, de C. S. Lewis (1960): É a resposta literária de C. S. Lewis à morte da esposa, Joy Davidman, que sofria de um câncer até então em remissão. Para o escritor britânico, o luto é como estar levemente bêbado. “Há uma espécie de lençol invisível entre o mundo e eu”, descreve. Ele mantém um diário nos meses seguintes à morte da mulher e descreve singelamente sua indignação religiosa e raiva de Deus, admitindo o quanto a perda abalou sua fé: justamente quando ele precisava de ajuda, sentiu a porta bater em sua cara, e um som de tranca e dupla tranca lá dentro. Porém, “aos poucos passei a sentir que a porta não estava mais fechada e aferrolhada. Será que foi minha necessidade frenética que a fechou na minha cara? Quando nada há em sua alma exceto um grito de socorro, talvez seja o exato momento em que Deus não o pode atender: você é como o homem que se afoga e que não pode ser ajudado por tanto se debater.”

Para o escritor, parte da tristeza é a própria sombra da tristeza, pois o enlutado não só sofre como não consegue parar de pensar no fato de que está sofrendo. “Não só vivo cada interminável dia em aflição, mas vivo cada dia pensando em viver cada dia em aflição. Será que estas anotações apenas agravam o processo?”, pergunta. Mas logo conclui: “Ao escrever, procuro me distanciar do ocorrido.”

Similar ao suspense ou à espera, o luto dá à vida uma sensação permanentemente provisória. É impossível ficar tranquilo. Até então, o viúvo tem pouco tempo; a partir dali, não há nada senão tempo. Um tempo quase que puro, uma sucessão vazia de eventos.

Por fim, o autor parece aceitar a perda e chega a redefinir sua fé e amor de forma positiva, argumentando que o luto extremado o mantinha distante da esposa. “Apenas nos momentos em que me sinto menos aflito é que ela surge em minha mente em sua realidade total”, conclui.

– The Best Day the Worst Day: Life with Jane Kenyon, de Donald Hall (Mariner, 2006):Neste livro, o poeta Donald Hall alterna memórias de seu casamento de 23 anos a relatos da leucemia da esposa, a também poeta Jane Kenyon. Pouco fala de seu luto, concentrando-se apenas nas lembranças.

Ambos passaram décadas vivendo e trabalhando juntos, isolados numa fazenda no interior com seus gatos e cachorros. Jogavam pingue-pongue diariamente, liam em voz alta um para o outro e ouviam música. De vez em quando, viajavam e organizavam leituras conjuntas em universidades. Jane sofria de depressão crônica e transtorno bipolar — escreveu um poema sobre o assunto, “Having it out with melancholy” — e Donald lidava diligentemente com suas recaídas periódicas. Poucos anos antes da doença da esposa, ele mesmo teve um câncer de cólon e quase morreu.

Jane era dezenove anos mais jovem que o marido. Quando acabara de completar 47 anos, foi diagnosticada com uma leucemia de um tipo raro e geneticamente recorrente. No intervalo de quinze meses, passou por dolorosas sessões intensivas de quimioterapia, sofreu um transplante de medula óssea e estava se recuperando aos poucos quando a leucemia reincidiu. Não havia mais nada a fazer.

Nesse período, a mãe de Donald e a mãe de Jane faleceram (a primeira de insuficiência cardíaca, a segunda de um fulminante câncer de pulmão, poucos meses antes da filha). Após os exames confirmarem o retorno da leucemia, Jane parou de tomar remédios e morreu num intervalo de onze dias — usou esse período para planejar o próprio funeral, escrever seu obituário e revisar um derradeiro livro de poemas. Passou as últimas noites conversando com Donald sobre as coisas mais importantes da vida: as tardes de verão no lago, as partidas de pingue-pongue, as leituras de Henry James em voz alta, as excursões de carro a Connecticut enquanto ouviam audiobooks de T. S. Eliot e Geoffrey Hill, e as duas décadas escrevendo poesia juntos.

– Say her name, de Francisco Goldman (Grove Press, 2011): O livro mais bonito da lista é também o mais recente: fala sobre Aura Estrada, jovem escritora mexicana que se casou com o jornalista Francisco Goldman e faleceu poucos anos depois, após ser atingida por uma onda na praia. O livro de memórias de Goldman conta histórias divertidas, destrincha o passado da esposa, interroga seus parentes e dá uma perfeita noção da personagem, de modo que, ao final do livro, conhecemos Aura em profundidade. Como um bom jornalista, Goldman estuda sobre ondas e vento e tenta entender como o acidente pôde ocorrer.

O livro começa com um poema de Frank O’Hara: “I wouldn’t want to be faster/ or greener than now if you were with me O you/ Were the best of all my days”. Diz que a solidão do enlutado é impenetrável pois a sociedade parece incapaz de acomodar tamanha dor. Conta que não consegue mais viajar. “O mundo, não só Paris, é idiota e odioso demais para se percorrer sozinho.”

Há trechos curiosos e bastante representativos daquilo que Joan Didion descreve como o desarranjo mental do viúvo. “No assento à minha frente sentou um garoto vestido de Homem-Aranha, viajando com os pais. Eu devia me vestir assim, pensei. Talvez amanhã eu me vista assim. Por um instante, me pareceu tão plausível e até razoável que amanhã eu pudesse me vestir de Homem-Aranha que fiquei com um pouco de medo.”

Além disso, Goldman vai elucidando pequenos mistérios ao longo da narrativa, como, por exemplo, o motivo da separação dos pais de Aura. É um livro que desliza facilmente, feito um romance de ficção.

“O choque abriu uma ferida em mim e uma espécie de buraco em minha cabeça, as memórias começaram a jorrar como se fossem sangue. Ao mesmo tempo, sentia a necessidade de investigar tudo o que havia ao redor dela, para capturá-la e, ao mesmo tempo, deixá-la partir.”


 

Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. É autora da graphic novel A máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia., 2012, em parceria com Fido Nesti), O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo(Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e do infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista daFolha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
Site – Facebook

A calopsita contra-ataca

Posted: 14th janeiro 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
Tags: , , ,

Folha de S.Paulo – Ilustrada
14 de janeiro de 2013

por Vanessa Barbara

Muitos leitores escreveram para comentar a coluna “Crimes contra a audiência” (Ilustrada, 10/12/2012).

Marcelo Avelar de Mello diz que o descaso da Globosat com a série “Code 37” foi o mesmo com relação à premiada “Downton Abbey”. Durante a primeira temporada, os episódios eram repetidos aleatoriamente e exibidos fora de ordem.

Desde que houve a mudança de nome do canal para +Globosat, não se teve mais notícia da atração. “Como não existe site, ficamos sem saber de nada”, reclama. Ainda assim, as propagandas continuavam prometendo a segunda temporada para novembro.

A leitora Maria Cecilia Porto Venturini esperou dois sábados à toa. “Sem explicação, o canal começou a exibir uma outra série, e creio que nem era o início”, alega.

No fim de novembro, “Downton Abbey” foi transferida para o canal GNT, e, em abril, será retomada desde o primeiro episódio.

“A Globosat não tem o mínimo respeito pelo telespectador e fazem o que querem sem avisar ninguém”, escreve Maria Conceição Ciorlia, que acompanhava uma série escandinava de suspense chamada “The Bridge”. Assistiu a todos os capítulos, que passavam às segundas às 22h. “Pois não é que, no último episódio, eu toda entusiasmada para saber o desfecho, eles colocam no ar um tal de Festival de Cinema, com direito a comentários pós-cerimônia?”. A série só foi ao ar por volta da meia-noite.

Fã do “Late Show with David Letterman”, Sebastião Costa possui uma caneca e um moletom da atração. Ele gravava o programa no GNT, até que a emissora suspendeu a atração – que migrou para a Record News e de lá também evaporou.

Já o leitor Paulo Schwarz era espectador assíduo de “Code 37” e nos escreveu para contar o final. Ele conseguiu localizar o último episódio através da busca de programas da Sky.

Acompanhar séries pela TV a cabo brasileira é uma tarefa inglória. Alfredo Couto diz que é comum as legendas desaparecerem do nada e episódios serem reprisados sem pudor. Há casos em que a programação não confere com a prevista, isso sem falar no abuso de comerciais.

Ele presume que as próprias emissoras “não devem acompanhar o que transmitem, nem o que está acontecendo com a transmissão, como se colocassem no automático e deixassem rolar”.

Ganha força a teoria da calopsita (Ilustrada, 13/03/2011), pobre animal solitário que passa as tardes no estúdio de transmissão e põe a fita pra rodar no primeiro dia de cada mês.

Mandingas de sofá

Posted: 8th janeiro 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
Tags: , ,

Folha de S.Paulo – Ilustrada
7 de janeiro de 2013

por Vanessa Barbara

393146_394896490604958_1657056971_nPoucos sabem, mas o Corinthians foi campeão mundial graças ao meu pai. É que, no meio do jogo, ele viu que estava com a bermuda do avesso. Levantou-se do sofá para tomar providências, mas naquele momento o time alvinegro se lançou ao ataque, o que foi claramente um sinal.

Com o sangue-frio de quem cumpre um dever, meu pai não só manteve o lado errado da bermuda como se sentou no chão, num canto da sala conhecido como “o lugarzinho da sorte”.

Ele profetizou: “O Corinthians vai marcar daqui a cinco minutos. Emerson, no contra-ataque”. Passados 24 minutos, Paolo Guerrero abriu o placar com um gol de cabeça. “Não falei?”

Em outra ocasião, a Seleção brasileira venceu uma partida só porque, após o primeiro tento, meu pai passou 42 minutos de pé, com um dos chinelos calçado e o outro largado no meio da sala, no local exato em que estava quando se deu o lance.

Quando o adversário ataca, não há quem deixe de fazer uma mandinga na frente da tevê, gritando “xô!” três vezes e berrando ordens para o zagueiro. Se a pressão continua, é hora de mudar de canal. Alguns falam diretamente ao juiz ou gritam com o técnico, cientes de sua influência numa partida que está ocorrendo a 18 mil quilômetros de distância.

Há quem vista a mesma roupa durante todo o campeonato e só aceite assistir ao jogo numa determinada emissora, com a televisão no “mudo”. A rotina doméstica tem de ser a mesma das vitórias anteriores. Em certas ocasiões, é preciso manter os dedos cruzados por trás das costas durante toda a duração da peleja, por mais que se tenha cãibra quando o jogo vai para a prorrogação.

Ninguém pode passar na frente do aparelho durante uma cobrança de falta. Tapar os olhos nos piores momentos costuma ser uma uruca eficaz para minar a autoconfiança dos rivais. Sem dúvida, há fluidos supersticiosos que emanam do espectador dedicado, adentram a tevê por mística osmose e influem no andamento da partida, por mecanismos que todo barbeiro compreende.

Na decisão por pênaltis da Copa de 1994, o Brasil ganhou porque meu pai estava escondido na lavanderia, ouvidos tampados. Muita gente se recusa terminantemente a assistir cobranças de pênaltis, por razões nervosas e por medo de influenciar o momento crucial com algum pensamento indevido.

Tudo isso apesar do ditado: “Se macumba desse certo, o campeonato baiano terminava sempre empatado”.

Saúde pra dar e vender

Posted: 1st janeiro 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
Tags: , , ,


Folha de S.Paulo – Ilustrada

31 de dezembro de 2012

por Vanessa Barbara

Roteiro automático para os telejornais de hoje: começamos com a apresentadora entre empolgada e surpresa, entoando: “Já é Ano Novo na Austrália”. Surgem imagens da Ópera de Sidney e do espetáculo de fogos de artifício.

agui_il137menor

Depois de algumas frases sobre a comemoração nas ruas da Oceania e flashes de nativos espocando champanhe, entra uma matéria sobre a Corrida de São Silvestre e o cotidiano de treinos de um queniano na cidade. Direto do Parque do Ibirapuera, o repórter convence a pobre vítima a dizer: “Feliz Ano Novo” em português, o que faz a âncora sorrir.

Há uma notícia sobre calamidades climáticas em um país distante, que é prontamente equilibrada com uma matéria sobre como decorar sua mesa para o Réveillon.

Se o programa é no dia seguinte, lá se vão cenas do primeiro bebê do ano e as previsões de um vidente para 2013. “Alguém importante vai morrer”, ele garante. A apresentadora assume um ar sorumbático.

Outro clichê doloroso é o Show da Virada, na Globo, com a presença de bandas que você achava que não existiam desde a década de 90. Este ano, teremos Claudia Leitte, Zezé di Camargo & Luciano, Skank, Paula Fernandes, Aviões do Forró, Sorriso Maroto, Thiaguinho, Latino, Banda Eva, Chiclete Com Banana e Raça Negra.

Saber que o especial é gravado com um mês de antecedência (este ano foi em 27 de novembro) dá sentido àquela euforia excessiva e artificial. Todo mundo de branco, pulando e gritando, em comemoração a uma prosaica quinta-feira à noite.

O mesmo acontece antes da contagem regressiva: dá pra imaginar o produtor contando à distância e pedindo para repetirem porque o público não vibrou o suficiente, ou uma atriz estava com couve no dente. Vamos lá, é 2013 de novo: dez, nove, oito…

E todos entoam aquela canção desejando “muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender” – que, aliás, não faz sentido, pois não dá pra sair por aí doando ou comercializando vigor e robustez física, a menos que você esteja disposto a ceder um de seus rins.

Ontem, o “Fantástico” exibiu “imagens emocionantes” de brasileiros no momento em que receberam suas melhores notícias do ano, como a alta do hospital, a confirmação da gravidez ou a aprovação num novo emprego. 

Tudo minuciosamente fabricado para fazer o espectador se emocionar.

Ou o contrário: ele enfim se cansa das mesmas coisas, desliga a tevê e vai passar mais tempo com a família. 

Feliz Natal aos leitores desta horta

Posted: 24th dezembro 2012 by Vanessa Barbara in Sem categoria

Clichês natalinos

Posted: 24th dezembro 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
Tags: , , ,

Folha de S.Paulo – Ilustrada
24 de dezembro de 2012

por Vanessa Barbara

“Papai Noel existe mesmo e mora lá”, garante uma propaganda imemorial de shopping center que todo fim de ano volta para nos assombrar.

Tempo de festas é, afinal, época de suprimir o bom senso e despejar todo tipo de sentimentalismo no espectador, que, paralisado por um espírito de congraçamento universal, sente que é impossível reagir.

Então ligamos a tevê e temos de encarar celebridades de branco com um sorriso angelical e taça de champanhe na mão, entoando: “Hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa, é de quem quiser”, vinheta no ar desde 1971. Atores e jornalistas se abraçam, fazendo coraçãozinho com as mãos e acenando para as câmeras.

Muitos programas de auditório promovem especiais de Natal, que consistem basicamente em apresentadores vestindo gorrinhos e uma quantidade maior de frases edificantes.

Anteontem o “TV Xuxa” trouxe mensagens de amor e esperança do padre Marcelo, e depois, no telão, famosos dedicaram suas saudações de Natal ao som do grupo Roupa Nova.

O “Caldeirão do Huck” foi distribuir presentes no bairro Jardim Papai Noel, em São Paulo, numa “divertida e emocionante história”. Já o “Aventuras do Didi” contou a lenda de um camponês humilde contagiado pelo espírito das festas.

As expressões mais repetidas são: “é tempo de celebrar” e “acredite na magia do Natal”. Há uma avalanche de histórias de superação, solidariedade, famílias reconciliadas, amigo secreto dos famosos, milagres de Natal, sinos bimbalhando, crianças pobres sorrindo, coros de meninos vestidos de anjos e gente que deixou para comprar os presentes na última hora.

Alguma modelo-e-atriz dá uma entrevista sobre o verdadeiro significado da data.

Na tarde do dia 25, o filme mais exibido é “Esqueceram de Mim”, mas lembro de uma sequência de anos com o “Príncipe do Egito” na telinha. À noite, o especial do Roberto Carlos se repetindo há 38 anos na Rede Globo com as músicas de sempre e os convidados da vez.

Para fugir do lugar-comum, a Warner irá veicular uma maratona do seriado “The Big Bang Theory”, enquanto a Universal optou por “Grimm”.

Já o Discovery Home & Health foi além: na virada do dia 24 para o dia 25, exibirá um episódio da série “Complexado” especial sobre pés. “Neste programa: hérnia, problemas com piercing, gengivite, furúnculo, dermatite, linfedema, calos, hidrocele, psoríase das unhas e acne.”

… E um próspero Ano Novo para vocês.

Explodir coisas

Posted: 17th dezembro 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
Tags: , , ,

Folha de S.Paulo – Ilustrada
17 de dezembro de 2012

por Vanessa Barbara

380679_384698924958048_955309248_n

Adam Savage, 45 anos, e Jamie Hyneman, 56, têm o emprego dos sonhos de qualquer moleque: são pagos para fazer experiências esdrúxulas com derretimento, destruição aleatória e explosão.

Eles são os principais apresentadores de “MythBusters: Caçadores de Mitos”, um dos programas mais legais de todos os tempos, que a TV Cultura exibe de segunda a sexta às 19h30, e o Discovery às 10h e 16h.

Na atração – que em janeiro completa dez anos –, eles usam métodos científicos para testar a validade de mitos, lendas urbanas, provérbios, cenas de filmes e vídeos da internet.

Nenhum dos dois tem formação específica, só uma vasta experiência prática em profissões incomuns – Jamie é formado em linguística russa e foi instrutor de mergulho, especialista em sobrevivência na selva, capitão de navio, domador de animais e maquinista. Adam foi animador, designer gráfico e carpinteiro.

Ambos trabalharam com efeitos especiais no cinema e utilizam esse conhecimento empírico para desbancar ou confirmar os mitos.

Eles já testaram se as torradas costumam cair mais vezes com a manteiga para baixo (mito detonado), se os peitos de silicone podem explodir em altas altitudes (detonado), se é tão rápido nadar em água quanto numa piscina de xarope (plausível), se é preferível correr a andar na chuva para se molhar menos (confirmado), se conversar com as plantas pode ajudá-las a crescer (plausível), se é possível sobreviver a uma queda de elevador saltando no último momento (detonado) e se a mistura de manga com leite é letal (detonado).

Primeiro um narrador sarcástico apresenta o mito com a ajuda de cenas pitorescas. Então Adam e Jamie tentam replicar as exatas condições do boato para comprovar se ele pode ocorrer. Em caso de fracasso, vão expandindo as circunstâncias até ocorrer o resultado esperado. É quando “o teste vira apenas uma desculpa para explodir coisas”, diz o narrador.

Há sempre um componente científico na equação. Para testar o mito da torrada que cai com a manteiga para baixo, eles construíram uma máquina de arremessar torradas, levando a tolice ao extremo.

Não só provaram empiricamente que é possível polir cocô “esfregando-o em círculos para achatar o material aquoso já presente no excremento”, como compraram uma máquina para medir o brilho.

“Temos um robô na água, ele está recheado de atum e é só um dia normal aqui nos Caçadores de Mitos”, diz Adam.

Crimes contra a audiência

Posted: 10th dezembro 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
Tags: , , ,

Folha de S.Paulo – Ilustrada
10 de dezembro de 2012

por Vanessa Barbara

“Code 37” é uma série policial belga, falada em holandês, que mostra o cotidiano de um esquadrão especializado em contravenções do artigo 37 do Código Penal belga: crimes sexuais.

São investigações de estupro, pedofilia, violência doméstica, abuso sexual, incesto, prostituição, pornografia infantil, corrupção de menores e todo tipo de desvios patológicos que se pode imaginar, em episódios recomendados para maiores de 14 anos. Um dos últimos recebeu pela primeira vez a tarja de censura 16 anos, por exibir “violência, atos criminosos e linguagem imprópria”.

O conteúdo é pesado até para adultos, com cenas explícitas banhadas em sangue que às vezes requerem desintoxicação posterior. (Recomenda-se assistir ao desenho “Tintim” na sequência, mantendo a coerência patriótica.)

A protagonista é a inspetora-chefe Hannah Maes, da polícia de Ghent, uma excêntrica e obstinada agente em meio a um departamento machista. No decorrer dos casos, ela procura desvendar um mistério pessoal que culminou no estupro e assassinato da mãe, e que talvez implique no envolvimento do pai e do meio-irmão.

Lançada em 2009, a série tem boa qualidade, grandes atuações e roteiros acima da média. Fez muito sucesso em seu país natal, onde está na terceira temporada e virou filme.

No Brasil, infelizmente, contamos apenas com a sorte e o pensamento positivo.

O canal Globosat HD começou a exibir “Code 37” em maio, aos sábados à noite. Em setembro, mudou de nome para +Globosat e comprometeu-se com a segunda temporada, veiculada aos domingos.

Na grade, os episódios eram incorretamente identificados como sendo da temporada inicial, o que provocou certa confusão nos que começaram a acompanhar desse ponto – eu mesma assisti o primeiro episódio do segundo ano julgando se tratar do piloto da série.

Então, no mês seguinte, a emissora simplesmente parou de passar certos episódios e os substituiu por documentários de viagem, sem qualquer aviso, mantendo o descritivo da série naquele horário. O penúltimo episódio foi exibido, mas justamente o desfecho (prometido para 25 de novembro) foi trocado pela transmissão ao vivo de um rodeio.

O espectador não tem como obter informações da emissora, pois não há site oficial. Ao que tudo indica, a terceira temporada não será veiculada por aqui – ou, se for, poderá ser substituída aleatoriamente por um especial sobre vida selvagem.