“A Máquina de Goldberg” – Folha de S.Paulo
Posted: 28th novembro 2012 by Vanessa Barbara in ClippingTags: A Máquina de Goldberg, Fido Nesti
Em Cardiff com o Doutor
Posted: 26th novembro 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TVTags: Cardiff, Doctor Who, Steven Moffat, traumas de infância, TV Cultura
Folha de S.Paulo – Ilustrada
26 de novembro de 2012
por Vanessa Barbara
À beira da baía de Cardiff, no Reino Unido, alguém estacionou uma cabine azul de polícia em cima de um gigantesco pedestal. Foi certamente um Senhor do Tempo com pressa para entrar na exposição interativa Doctor Who Experience, aberta na cidade desde julho.
O ingresso custa 13 libras (42 reais). Dá direito a visitar o museu (com réplicas de monstros, roupas e cenários) e participar de um episódio interativo da série de tevê “Doctor Who”, escrito por Steven Moffat.
No início da aventura, o grupo de quinze pessoas (adultos e crianças) se reúne diante de um telão para assistir a uma história com o protagonista da série, um viajante no tempo conhecido como “Doutor”.
Há uma estranha fenda na tela.
Após alguns minutos, tudo escurece, a fenda se abre e o Doutor (protagonizado por Matt Smith) convida os visitantes a entrarem no filme. Uma dupla de nerds com camisetas temáticas solta gritinhos empolgados e uma menina de 4 anos desata a chorar.
A imagem do Doutor aparece de novo; ele está preso e precisa ser resgatado. Examinando os visitantes com curiosidade, conclui que pertencemos a uma espécie que já nasce com as mãos acopladas a sacolas: somos os Compradores.
“Prestem atenção, Compradores, as coisas podem ficar complicadas”, diz o Doutor. “Em breve vou começar a dar instruções. Pode ser que eu use as palavras ‘stress’, ‘perigo terrível’ e ‘últimos momentos’”, afirma. “Provavelmente estarei exagerando.”
Um facho de luz ilumina o canto da sala onde há uma cabine de polícia, a TARDIS, cuja porta se abre. A dupla de nerds se adianta às crianças e entra num segundo cenário, uma réplica em tamanho real do interior da nave.
“Viu? É maior por dentro. Transferência interdimensional. É totalmente seguro, não se preocupe – a não ser que você seja careca. Nesse caso, pode virar um frango gigante.”
Cada um assume um controle com luzes piscantes. O chão treme. Estamos indo resgatar o Doutor.
A aventura interativa gravita entre o tolo e o empolgante. Saímos da TARDIS e passamos por um corredor repleto de anjos chorões (“Se piscar, você morre”). Na sala seguinte, uma voz anasalada inconfundível: são os Daleks.
Os vilões de lata escaneiam os Compradores e gritam: “Exterminar! Exterminar!”.
A despeito do perigo, todos saem ilesos para conferir o museu e comprar chaveiros – menos a inglesinha de 4 anos, que não parou de chorar e terá muitos traumas futuros.
Toda a cidade de uma só vez
Posted: 20th novembro 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. PauloTags: Feriadão, Horto Florestal, Parque Estadual da Cantareira
Pão com queijo no alto de um rochedo é a sugestão do dia
Folha de S.Paulo – Cotidiano
20 de novembro de 2012
VANESSA BARBARA
Se o tempo finalmente abrir, a sugestão para hoje é empacotar um lanche, pegar um cajado e sair para passear no Parque Estadual Alfredo Löfgren, o Horto Florestal, na Zona Norte da cidade (rua do Horto, 931). Ele funciona diariamente das 6h às 18h e tem entrada franca.
Além do lago com patos e gansos, há bugios, biguás, esquilos e tucanos em meio à frondosa quantidade de árvores exóticas (eucalipto, pinheiro-do-brejo) e nativas (pau-brasil, carvalho-nacional e jatobá).
O local conta com pista de cooper, playground, equipamentos de ginástica, bicas de água potável e o Palácio de Verão do Governo do Estado. Ao lado do Museu Florestal Octávio Vecchi (o Museu da Madeira) encontra-se o marco do Trópico de Capricórnio, que corta a região.
Saindo do parque e seguindo pela rua do Horto, o intrépido peregrino dá de cara com o Parque Estadual da Cantareira – Núcleo Pedra Grande (rua do Horto, 1799), parte de uma das maiores florestas urbanas do mundo. O complexo de Mata Atlântica é formado por mais três núcleos com trilhas para caminhada: Águas Claras, Engordador e Cabuçu.
Todos abrem aos sábados, domingos e feriados, exceto em dias de chuva, das 8h às 17h (último horário de entrada às 15h), e custam R$ 9.
O núcleo mais próximo do Horto tem um atrativo especial: a Trilha da Pedra Grande, com 9,6 km de extensão (ida e volta), que vai parar num mirante de granito, a 1.010 metros de altitude, de onde se tem uma vista panorâmica da cidade de norte a sul e trechos da Serra do Mar.
Um pouco mais à frente, a trilha dá no pacato Lago das Carpas.
O parque não tem lanchonete, de modo que é recomendável levar seu próprio pão com queijo, refrigerante e bolo com faquinha para coroar a jornada.
Outros caminhos mais curtos no núcleo Pedra Grande são a Trilha da Bica (1,5 km) e a Trilha das Figueiras (1,2 km), ambas circulares e de mata fechada, num clima úmido e tranquilo.
É bom se apressar, pois em breve o Rodoanel Norte promete cravar a área de túneis e viadutos para a circulação de tráfego pesado.
Gol de placa da HBO
Posted: 19th novembro 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TVTags: (fdp), Eucir de Souza, HBO, Prodigo Films, séries de TV
Folha de S.Paulo – Ilustrada
19 de novembro de 2012

VANESSA BARBARA
Terminou ontem a primeira temporada de “(fdp)”, série brasileira produzida pela Prodigo Films e exibida pela HBO. (A reprise será hoje às 20h30 na HBO2 e terça às 18h30 na HBO.)
Nela, Juarez é um pacato juiz de futebol que ganha a chance de apitar a Libertadores da América (se não quiser saber o desfecho, pule para o quinto parágrafo). Retratada no episódio, a partida final entre um time argentino e um paraguaio termina magistralmente com um gol do árbitro – nos últimos instantes, a bola bate no rosto dele e entra no ângulo.
A ironia: Juarez havia recebido uma proposta de suborno para influenciar o resultado em favor dos argentinos, o que acaba acontecendo de forma involuntária.“Vão falar muito de você no Paraguai hoje”, comentou um personagem à mãe do juiz.
Foi um belo final para uma série que correu bem de uma ponta a outra do campo, como um árbitro trotando com o apito na mão.
Finamente dirigida e fotografada, “(fdp)” estreou em agosto como parte dos esforços da HBO para atender à cota mínima de conteúdo nacional na tevê paga. Com meia hora de duração, os episódios são bem escritos, sobretudo nos trechos de partida.
Começam sempre com um sonho de Juarez – no piloto, ele tem devaneios de que está apitando a final da Copa do Mundo e é ovacionado pelos jogadores, após “uma partida dramática, com muita violência, expulsões e lances difíceis”, segundo o locutor. Como só poderia ocorrer num sonho, o árbitro sai carregado por uma multidão satisfeita.
No dia a dia, Juarez sofre pressões do chefe e da imprensa. Após transmitir uma doença venérea à esposa, é expulso de casa e perde a guarda do filho.
No final de cada um dos treze episódios da temporada, ele é xingado impiedosamente com todas as letras do palavrão que dá nome à série.
O roteiro é de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, com base em argumento de Adriano Civita e Giuliano Cedroni.
Os atores são excelentes, com destaque para o protagonista Eucir de Souza, e passam ao largo daquela triste entonação de telenovela.
Os momentos mais engraçados ocorrem durante a mesa-redonda pós-jogo, como, por exemplo, o do merchandising de uma empresa de lentes de contato. Ao vivo, o apresentador tenta submeter Juarez a um teste de visão para entender por que ele deixou passar um gol de mão.
“Consigo ler, sim. É I de imbecil, P de piranha…”, declara o juiz, revoltado. E sai batendo o pé.
Peixe ao molho de tucano
Posted: 19th novembro 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. PauloTags: Aquário de São Paulo, Feriadão, Pescado, quelônios
Nos dias de chuva, o aquário é um bom substituto ao jardim zoológico
Folha de S.Paulo – Cotidiano
19 de novembro de 2012
VANESSA BARBARA
Um dos locais mais interessantes da cidade é o Aquário de São Paulo (Rua Huet Bacelar, 407 – Ipiranga). A 600 metros da estação de metrô Santos–Imigrantes, ele abre todos os dias das 9h às 18h, inclusive domingos e feriados.
A entrada custa 40 reais, mas às segundas-feiras cai para 25. É o maior aquário da América Latina, com 9 mil metros quadrados e 300 espécies nadando em 2 milhões de litros de água.
Na ala das florestas brasileiras, além de uma variedade multicolorida de peixes, há dois filhotes albinos de jacaré que dividem espaço com folgados cágados de água doce. Dá pra passar horas observando a interação entre os animais: as tartarugas pegando carona nas costas dos colegas crocodilianos, tirando comida da boca deles, sendo, enfim, espaçosas e inconvenientes.
(Segundo os biólogos do local, as espécies podem conviver no mesmo espaço porque são alimentadas diariamente, portanto não há risco de predação.)
A área de oceanário é impressionante, com uma réplica de navio naufragado cercada por tubarões e arraias. Os visitantes enxergam os animais passando pelo vidro sobre suas cabeças: são sete exemplares de tubarões-lixa brancos e um tubarão-mangona chamado Pancho que não para nunca de nadar, com seus dentes expostos e a aparência de poucos amigos.
Há também um peixe-boi de 120 quilos, gordo e bonachão, que pode ser apreciado do alto de uma ponte, um grupo de pinguins-de-magalhães e um lobo- marinho subantártico, além de macacos, morcegos, tucanos, lontras, dois bichos-preguiça e dois tamanduás.
Nos dias de chuva, o aquário é um bom substituto ao zoológico, com seus recintos fechados e relativamente tranquilos.
Os mais afeitos à ironia podem emendar a visita com uma refeição no bar e restaurante Pescado (av. Engenheiro Caetano Álvares, 5364 – Mandaqui, seg. a dom., das 9h à 0h), um dos meus preferidos para peixes e frutos do mar.
O salão é amplo e simples, com atendimento informal e bons preços. A moqueca de peixe na telha vem acompanhada de pirão e arroz e custa 108,80 reais. A caldeirada com frutos do mar sai por 104,60. Ambos servem de 3 a 4 pessoas.
Canto gregoriano com arte sacra e bolinhos
Posted: 18th novembro 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. PauloTags: As noviças, Feriadão, Mosteiro da Luz, Mosteiro de São Bento
Quatro opções de experiências transcendentais para este domingo
Folha de S.Paulo – Cotidiano
18 de novembro de 2012
VANESSA BARBARA
Um clássico programa dominical é ir ao Mosteiro de São Bento assistir a missa das 10h, com órgão e canto gregoriano. Na loja anexa à basílica são vendidos caríssimos bolos, pães, geleias e biscoitos feitos pelos próprios monges a partir de receitas imemoriais, guardadas no arquivo da abadia. (O preço médio dos bolos é de 50 reais.)
Uma alternativa mais franciscana é assistir à missa das 10h30 no Mosteiro da Luz, onde são vendidos pães a 5 reais e biscoitos de sequilhos confeccionados pelas freiras reclusas. A igreja é uma importante construção colonial do século XVIII, com seu intrincado altar barroco em tons claros e dourados.
Após o serviço religioso, uma boa ideia é visitar o Museu de Arte Sacra que fica ao lado e funciona de terça a domingo, inclusive feriados, das 10h às 18h. A entrada custa 6 reais e é gratuita para os idosos.
No período da tarde, dando prosseguimento à romaria, recomenda-se a visita a uma casa de chás em Moema, aberta das 15h às 22h30, que serve um vasto café colonial ao preço fixo de 39 reais.
Chama-se “As Noviças” (Alameda dos Aicás, 1563) e tem um ambiente de convento, com canto gregoriano e música sacra ao fundo. Circulando com saias compridas e sandálias de dedo, moças trazem sem parar mais de 60 opções de iguarias, acompanhadas de chás, café ou chocolate quente.
Não pergunte a que ordem religiosa elas pertencem, pois a resposta é indigesta: “Nenhuma específica… Quer dizer, nós não somos exatamente freiras”, explicou uma das garçonetes, um pouco envergonhada.
O ambiente pode ser artificial, mas os quitutes são autênticos: para começar, pães quentinhos com três tipos de geleias, queijo fresco, manteiga e mel. Em seguida, 14 opções de salgados como folhado de ricota com uva-passa, empadinha de palmito, quiche de escarola gratinado, rissole de camarão, torta de frango com catupiry e bolinho de bacalhau. Com direito a repetir à vontade.
Depois é a vez dos doces: quindim, strudel de maçã, manjar branco com calda de ameixa, bolo floresta negra, torta de limão, bolo mousse de chocolate. É quando a conversão se completa.
Basquete, pebolim e oficina de Qi Gong
Posted: 17th novembro 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. PauloTags: Feriadão, Futebol de botão, sesc
As atividades são gratuitas para quem tem carteirinha do Sesc
Folha de S.Paulo – Cotidiano
17 de novembro de 2012
VANESSA BARBARA
Há duas instituições paulistanas que possuem o meu afeto amplo e irrestrito: a linha amarela do metrô, que interliga a estação da Luz ao Butantã em quinze minutos, e o Sesc (Serviço Social do Comércio), com suas dezessete unidades na Grande São Paulo, onde é possível cantar, jogar futsal e praticar pilates na mesma tarde, a preços bem razoáveis.
Para a maioria das atividades é preciso fazer um cartão de matrícula, que fica pronto na hora, na secretaria de qualquer unidade (inclusive aos sábados). Trabalhadores do ramo de comércio de bens e serviços não pagam. Os usuários comuns desembolsam 57 reais por ano.
Uma das sugestões para este sábado é participar das recreações esportivas mistas: as opções são handebol (11h no Sesc Vila Mariana), basquete (10h no Ipiranga e 10h30 na Consolação) ou vôlei (12h30 na Consolação, às 15h no Bom Retiro e às 15h30 em Santana).
As mesas de pingue-pongue e os tabuleiros de xadrez ficam à disposição durante o dia, assim como as piscinas. Na unidade de São Caetano, vá de pebolim.
Nesse mesmo local, das 10 às 13h, quem se interessa por futebol de botão pode contar com o empréstimo de materiais oficiais e o apoio da União dos Botonistas (UBO).
Já o Sesc Consolação montou uma programação de atividades circenses para o feriado prolongado: hoje e terça haverá aulas de mágica às 12h e às 14h, além de oficinas de malabarismo, arame e perna de pau a partir do meio-dia. Esta última também acontecerá na segunda.
O Sesc Itaquera oferecerá uma aula aberta de Qi Gong às 14h, e o Sesc Belenzinho, exercícios de dança para melhorar a postura, às 11h. Senhas serão distribuídas meia hora antes para uma aula de dança afro no Sesc Pompeia, que começa às 15h, e é preciso se inscrever antes para uma oficina de colar senegalês, às 13h no Sesc Interlagos.
Hoje e amanhã, no Sesc Pinheiros, às 14h, haverá demonstrações da Sociedade Brasileira de Tai Chi Chuan.
Todas essas atividades são gratuitas. Recomenda-se confirmar o evento por telefone (a lista completa está em www.sescsp.org.br) e apanhar o guia de programação do mês para estudar outras combinações excêntricas.
No Carnaval da labirintite, apenas sorvete e cinema
Posted: 15th novembro 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. PauloTags: Feriadão, labirintite, República
É uma das melhores coisas para se fazer num feriado
Folha de S.Paulo – Cotidiano
15 de novembro de 2012
VANESSA BARBARA
COLUNISTA DA FOLHA
Houve um ano em que tive uma crise de labirintite em plena sexta-feira de Carnaval – todo mundo pegando a estrada e fazendo planos enquanto eu tomava Buscopan Composto e ia dormir às 9 da noite.
Impossibilitada de viajar e de me entregar a atividades mais vigorosas como nadar, sapatear e andar de bicicleta, arquitetei um feriado só de cinema e sorvete, que cumpri à risca.
É uma das melhores coisas para se fazer em São Paulo quando quase todo mundo vai embora: nos próximos dias, os cinemas estarão mais tranquilos e as ruas, desertas.
Uma das sugestões é reeditar corajosamente a 36ª Mostra, que terminou há duas semanas e tem alguns de seus destaques no circuito: os dois melhores são “Um Alguém Apaixonado”, do iraniano Abbas Kiarostami, que estreou nesta semana no Reserva Cultural, e “Frankenweenie”, animação de Tim Burton que fechou a Mostra e está em exibição em mais de 30 cinemas.
Há também o polêmico “Laurence Anyways”, sobre um sujeito que anuncia à namorada que pretende mudar de sexo, e “Era Uma Vez Eu, Verônica”, do pernambucano Marcelo Gomes.
Na esfera hollywoodiana, as indicações são “Argo”, drama de Ben Affleck com o protagonista da série “Breaking Bad”, e “007: Operação Skyfall”, um dos melhores filmes da franquia desde que Sean Connery aposentou suas ventosas de escalada e seu snorkel com gaivota acoplada.
COCHILO CARO
Muitos desses títulos podem ser vistos em grande estilo numa das 18 salas de cinema de luxo dos shoppings Cidade Jardim, Tamboré, Vila Olímpia, Pátio Paulista, Iguatemi Alphaville e JK Iguatemi. Lá, as poltronas são reclináveis, com apoio para os pés, e há serviço de garçom dentro da sala.
Pode-se assistir a um “blockbuster” tomando champanhe e degustando canapés de salmão, ou, na eventualidade de um cochilo, será a soneca mais cara da sua vida: o preço médio dos ingressos é de R$ 50.
Se o orçamento estiver apertado e o sofá, irresistível, o jeito é dirigir-se a uma das melhores videolocadoras da cidade, a HM Home Vídeo (praça Vilaboim, 20, e rua Marquês de Itu, 1.018), onde o Átila e a Magali podem dar uma indicação de filme por dia, até a labirintite passar.
Pipoca com camarão
Posted: 12th novembro 2012 by Vanessa Barbara in esquinas, Reportagens, Revista piauíTags: cinemas de luxo, coquetel de camarão, milk shake de crustáceos
O lado indigesto dos cinemas de luxo em São Paulo
Revista piauí n. 74
Novembro de 2012
por Vanessa Barbara
O trailer de Amanhecer – Parte 2 estava no final quando dois garçons galgaram os degraus da sala de cinema com uma garrafa de vinho Chakana Malbec e uma cumbuca de cristal confeccionada pela artista Rossana Gobbi. Dentro dela, seis camarões de Fortaleza “cozidos à perfeição”, acompanhados de três tipos de molho: lemon pepper, teriyaky e blue cheese.
A cena é corriqueira no Cinépolis vip do Shopping JK Iguatemi, inaugurado há quatro meses na zona sul de São Paulo. O novo complexo de cinemas tem oito salas com os ingressos mais caros da cidade: 72,30 reais para assistir a um filme em tecnologia 4D (com cheiros e movimentos), 42,50 reais na sala com tela Imax e 53,30 reais para usufruir uma experiência diferenciada em uma das seis salas de luxo.
Nesses recintos, há em média 80 poltronas por sala, contra as 148 de um cinema padrão como o Cinépolis Mais Largo 13. No Box Cinépolis Itaquera, a vertente mais popular do grupo, a média de poltronas é de 297 por sala, e os ingressos custam 17,50 reais.
Nas salas vip do JK Iguatemi, assim como nas do shopping Iguatemi Alphaville, inaugurado em abril do ano passado, as poltronas são de couro italiano e possuem sistema elétrico de reclinação de quase 180 graus. Com 55 centímetros de largura, estão entre as maiores do circuito e foram premiadas pelo jornal O Estado de São Paulo no 8o Oscar das salas de cinema. O braço é almofadado, retrátil e tem cerca de 11 centímetros de largura. Há um vasto corredor de distância entre os assentos.
Ao contrário do que se poderia supor, Eike Batista não estava por lá. O vinho havia sido requisitado por duas velhinhas na fileira C, que analisaram detidamente o menu de bebidas, acionaram um botão ao lado da cadeira e interagiram com um sorridente garçom de nome Felipe, a quem pediram meia garrafa de um Malbec argentino, a 39 reais. Ele anotou o pedido num smartphone, solicitou o pagamento através de uma máquina de cartão de crédito e, minutos depois, trouxe a bebida. Pés para cima, as duas bebericaram o líquido de um “destacado aroma de frutas vermelhas com sutis toques de especiarias e flores secas, e taninos aveludados, de intenso final” enquanto assistiam ao filme francês Intocáveis.
Há um abajur entre as duplas de poltronas para facilitar a leitura do menu, repleto de descrições adjetivadas dos drinques servidos no local, e uma mesinha de vidro onde os garçons pousaram ruidosamente meu coquetel de camarão (30 reais) – que não era um milk shake de crustáceos, como eu pensava.
A experiência de assistir a um filme enquanto mergulha um camarão em molho de queijo é perturbadora. A começar pelo cheiro de peixe, que impregna o local e não é dissipado nem com o afastamento da mesinha retrátil para longe do campo de visão.
O odor permanece nos dedos mesmo após a utilização de um guardanapo extragrande, possivelmente o maior do circuito, e um lenço refrescante desodorizante. A questão da higiene fica ainda mais difícil por conta de meu outro pedido: um saco de pipoca com azeite trufado (13,50 reais).
A carta de pipocas gourmet oferece sete opções: light, parmesão, caramelo, ervas finas, chocolate belga, Romeu e Julieta e pimenta com limão. Como complemento, sugere-se “harmonizar a leveza dos melhores azeites em sua pipoca”, pagando um adicional de 8 reais por um pote com azeite de trufas, manjericão, azeitonas pretas ou limão. O espectador é que deve entornar o recipiente na pipoca, tomando o cuidado para não derramar o óleo no próprio colo ou, pior, nas poltronas de couro italiano.
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São Paulo é a cidade com a maior oferta de cinemas de luxo no Brasil (também chamados de vip, prime, platinum, premium, premier ou splendor): ao todo, são dezoito salas. Aberto em 2008, o pioneiro foi o Bradesco Prime (da rede Cinemark), no Shopping Cidade Jardim, que conta com um lounge “privado” e “descontraído”, além de cardápio assinado pela chef Morena Leite. Lá se pode assistir a um blockbuster degustando canudinhos de pato e roll de bacalhau. O sucesso foi tamanho que hoje são cinco salas do grupo, uma no Shopping Tamboré.
Há também duas salas Platinum no Shopping Vila Olímpia (rede Kinoplex), duas Splendor no Shopping Pátio Paulista (rede Playarte) e três vips no Shopping Iguatemi Alphaville (rede Cinépolis), junto com as novas seis do JK Iguatemi.
A Cinépolis afirma ser a criadora do conceito de cinema de luxo, tendo inaugurado as primeiras salas na Cidade do México em 1999. Hoje possui 140 em operação pelo mundo, sobretudo em países pobres com acentuada desigualdade de renda (México, Guatemala, Panamá).
Durante a sessão de Intocáveis, praticamente lotada, quase todas as mesas estavam ocupadas por taças de vinho com taninos estruturados e elegantes (de 23 a 38 reais). Alguns tomavam coquetéis de vodca Grey Goose, criados pelo mixologista Pablo Moya, ou cervejas premium como a Erdinger (26 reais) e a La Trappe (70 reais).
Nas fileiras da frente, talvez para demonstrar o quanto estava à vontade nesta vida de opulência, um homem de terno esticou os pés na poltrona e tirou os sapatos.
“Eu me senti na classe executiva da Delta. Só faltaram aeromoças me chamando de Mr. Santos”, declarou o advogado Fernando Gherardini Santos, que foi ao Iguatemi Alphaville para ver um filme tomando prosecco italiano e comendo canapés de salmão.
Também o ilustrador da piauí, Andrés Sandoval, foi visto numa sessão de Tropicália com um Campari na mão.
Adepta do jornalismo participativo, a repórter experimentou um mini-hambúrguer de picanha com picles e um mini-hot dog com batatas sorriso, só para se arrepender logo em seguida. Não chegou a pedir o boat de sushis e nem o crepe de manga. Já a pipoca com azeite trufado tinha gosto de óleo queimado e contribuiu para a azia pós-filme.
Resta imaginar como ficaria a digestão dos espectadores na sala 4DX, onde há superventiladores, luzes estroboscópicas, fumaça, aromas e borbulhas sincronizados ao filme, além de um sistema eletrônico de movimentos nas poltronas para simular vibração, queda, trepidação, balanço, aceleração e frenagem. “É que nem ver filme em um touro mecânico”, resumiu um popular no site FourSquare.



