Basquete, pebolim e oficina de Qi Gong

Posted: 17th novembro 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo
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As atividades são gratuitas para quem tem carteirinha do Sesc

Folha de S.Paulo – Cotidiano
17 de novembro de 2012

VANESSA BARBARA         

Há duas instituições paulistanas que possuem o meu afeto amplo e irrestrito: a linha amarela do metrô, que interliga a estação da Luz ao Butantã em quinze minutos, e o Sesc (Serviço Social do Comércio), com suas dezessete unidades na Grande São Paulo, onde é possível cantar, jogar futsal e praticar pilates na mesma tarde, a preços bem razoáveis.

Para a maioria das atividades é preciso fazer um cartão de matrícula, que fica pronto na hora, na secretaria de qualquer unidade (inclusive aos sábados). Trabalhadores do ramo de comércio de bens e serviços não pagam. Os usuários comuns desembolsam 57 reais por ano.

Uma das sugestões para este sábado é participar das recreações esportivas mistas: as opções são handebol (11h no Sesc Vila Mariana), basquete (10h no Ipiranga e 10h30 na Consolação) ou vôlei (12h30 na Consolação, às 15h no Bom Retiro e às 15h30 em Santana).

As mesas de pingue-pongue e os tabuleiros de xadrez ficam à disposição durante o dia, assim como as piscinas. Na unidade de São Caetano, vá de pebolim.

Nesse mesmo local, das 10 às 13h, quem se interessa por futebol de botão pode contar com o empréstimo de materiais oficiais e o apoio da União dos Botonistas (UBO).

Já o Sesc Consolação montou uma programação de atividades circenses para o feriado prolongado: hoje e terça haverá aulas de mágica às 12h e às 14h, além de oficinas de malabarismo, arame e perna de pau a partir do meio-dia. Esta última também acontecerá na segunda.

O Sesc Itaquera oferecerá uma aula aberta de Qi Gong às 14h, e o Sesc Belenzinho, exercícios de dança para melhorar a postura, às 11h. Senhas serão distribuídas meia hora antes para uma aula de dança afro no Sesc Pompeia, que começa às 15h, e é preciso se inscrever antes para uma oficina de colar senegalês, às 13h no Sesc Interlagos.

Hoje e amanhã, no Sesc Pinheiros, às 14h, haverá demonstrações da Sociedade Brasileira de Tai Chi Chuan.

Todas essas atividades são gratuitas. Recomenda-se confirmar o evento por telefone (a lista completa está em www.sescsp.org.br) e apanhar o guia de programação do mês para estudar outras combinações excêntricas.

The Clock é uma boa opção para as noites de sexta e sábado

Folha de S.Paulo – Cotidiano
16 de novembro de 2012

VANESSA BARBARA

Em época de feriado, não só as ruas da cidade ficam mais vazias, favorecendo a circulação de veículos e pedestres, como também as pistas de dança, incentivando a execução de passos mais ousados e expansivos.

Um bom local para as noites de sexta e sábado é The Clock Rock Bar, especializado em rock dos anos 50 e 60 (r. Turiassu, 806, Perdizes, das 21h até as 4h). O diferencial é que, por volta das 22h30, há uma aula gratuita de dança para iniciantes.

Por 40 minutos, mesmo quem não sabe diferenciar a esquerda da direita pode se juntar ao grupo e aprender os passos básicos do rockabilly, que se dança a dois.

Durante a aula, ensina-se o “giro simples”, o “abraço” e o “passeio”, entre outros. “O Coca-Cola é o passo mais sociável do rockabilly”, diz o instrutor. “Com uma das mãos, o líder consegue ficar girando facilmente seu par enquanto cumprimenta alguém que não vê há anos, conversa com um conhecido, toma uma Coca-Cola”, explica, numa demonstração prática com uma das garçonetes.

A graça é que dá pra ficar no balcão bebendo e fazendo crítica de dança (“Aquele veio do tango”, “Olha o cara que tropeçou em si mesmo”) ou entrar na pista para apavorar.

Após a aula, o espaço é ocupado por alunos dos cursos promovidos pelo estabelecimento, gente que dança há anos e que é instruída a nunca recusar um convite.

A casa possui uma rígida política contra passos aéreos, e é comum ver o gerente Maurício Martins reprovando as duplas mais imprudentes. O proprietário, Giuliano Garbi, circula levando cutucadas dos clientes e ostentando seu portentoso topete.

Hoje, a banda residente será a novata Bob Show e, amanhã, a veterana Alex Valenzi & The Hideaway Cats. Ambas tocam clássicos de Elvis Presley, Johnny Cash e Beatles.

Há momentos em que os frequentadores menos sóbrios se lançam a uma dança coreografada em linha, mas o ponto alto da noite é o barman que cospe fogo no ritmo de “Great Balls of Fire”.

É uma das melhores coisas para se fazer num feriado

Folha de S.Paulo – Cotidiano
15 de novembro de 2012

VANESSA BARBARA
COLUNISTA DA FOLHA

Houve um ano em que tive uma crise de labirintite em plena sexta-feira de Carnaval – todo mundo pegando a estrada e fazendo planos enquanto eu tomava Buscopan Composto e ia dormir às 9 da noite.

Impossibilitada de viajar e de me entregar a atividades mais vigorosas como nadar, sapatear e andar de bicicleta, arquitetei um feriado só de cinema e sorvete, que cumpri à risca.

É uma das melhores coisas para se fazer em São Paulo quando quase todo mundo vai embora: nos próximos dias, os cinemas estarão mais tranquilos e as ruas, desertas.

Uma das sugestões é reeditar corajosamente a 36ª Mostra, que terminou há duas semanas e tem alguns de seus destaques no circuito: os dois melhores são “Um Alguém Apaixonado”, do iraniano Abbas Kiarostami, que estreou nesta semana no Reserva Cultural, e “Frankenweenie”, animação de Tim Burton que fechou a Mostra e está em exibição em mais de 30 cinemas.

Há também o polêmico “Laurence Anyways”, sobre um sujeito que anuncia à namorada que pretende mudar de sexo, e “Era Uma Vez Eu, Verônica”, do pernambucano Marcelo Gomes.

Na esfera hollywoodiana, as indicações são “Argo”, drama de Ben Affleck com o protagonista da série “Breaking Bad”, e “007: Operação Skyfall”, um dos melhores filmes da franquia desde que Sean Connery aposentou suas ventosas de escalada e seu snorkel com gaivota acoplada.

COCHILO CARO

Muitos desses títulos podem ser vistos em grande estilo numa das 18 salas de cinema de luxo dos shoppings Cidade Jardim, Tamboré, Vila Olímpia, Pátio Paulista, Iguatemi Alphaville e JK Iguatemi. Lá, as poltronas são reclináveis, com apoio para os pés, e há serviço de garçom dentro da sala.

Pode-se assistir a um “blockbuster” tomando champanhe e degustando canapés de salmão, ou, na eventualidade de um cochilo, será a soneca mais cara da sua vida: o preço médio dos ingressos é de R$ 50.

Se o orçamento estiver apertado e o sofá, irresistível, o jeito é dirigir-se a uma das melhores videolocadoras da cidade, a HM Home Vídeo (praça Vilaboim, 20, e rua Marquês de Itu, 1.018), onde o Átila e a Magali podem dar uma indicação de filme por dia, até a labirintite passar.

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O lado indigesto dos cinemas de luxo em São Paulo

Revista piauí n. 74
Novembro de 2012

por Vanessa Barbara

O trailer de Amanhecer – Parte 2 estava no final quando dois garçons galgaram os degraus da sala de cinema com uma garrafa de vinho Chakana Malbec e uma cumbuca de cristal confeccionada pela artista Rossana Gobbi. Dentro dela, seis camarões de Fortaleza “cozidos à perfeição”, acompanhados de três tipos de molho: lemon pepper, teriyaky e blue cheese.

A cena é corriqueira no Cinépolis vip do Shopping JK Iguatemi, inaugurado há quatro meses na zona sul de São Paulo. O novo complexo de cinemas tem oito salas com os ingressos mais caros da cidade: 72,30 reais para assistir a um filme em tecnologia 4D (com cheiros e movimentos), 42,50 reais na sala com tela Imax e 53,30 reais para usufruir uma experiência diferenciada em uma das seis salas de luxo.

Nesses recintos, há em média 80 poltronas por sala, contra as 148 de um cinema padrão como o Cinépolis Mais Largo 13. No Box Cinépolis Itaquera, a vertente mais popular do grupo, a média de poltronas é de 297 por sala, e os ingressos custam 17,50 reais.

Nas salas vip do JK Iguatemi, assim como nas do shopping Iguatemi Alphaville, inaugurado em abril do ano passado, as poltronas são de couro italiano e possuem sistema elétrico de reclinação de quase 180 graus. Com 55 centímetros de largura, estão entre as maiores do circuito e foram premiadas pelo jornal O Estado de São Paulo no 8o Oscar das salas de cinema. O braço é almofadado, retrátil e tem cerca de 11 centímetros de largura. Há um vasto corredor de distância entre os assentos.

Ao contrário do que se poderia supor, Eike Batista não estava por lá. O vinho havia sido requisitado por duas velhinhas na fileira C, que analisaram detidamente o menu de bebidas, acionaram um botão ao lado da cadeira e interagiram com um sorridente garçom de nome Felipe, a quem pediram meia garrafa de um Malbec argentino, a 39 reais. Ele anotou o pedido num smartphone, solicitou o pagamento através de uma máquina de cartão de crédito e, minutos depois, trouxe a bebida. Pés para cima, as duas bebericaram o líquido de um “destacado aroma de frutas vermelhas com sutis toques de especiarias e flores secas, e taninos aveludados, de intenso final” enquanto assistiam ao filme francês Intocáveis.

Há um abajur entre as duplas de poltronas para facilitar a leitura do menu, repleto de descrições adjetivadas dos drinques servidos no local, e uma mesinha de vidro onde os garçons pousaram ruidosamente meu coquetel de camarão (30 reais) – que não era um milk shake de crustáceos, como eu pensava.

A experiência de assistir a um filme enquanto mergulha um camarão em molho de queijo é perturbadora. A começar pelo cheiro de peixe, que impregna o local e não é dissipado nem com o afastamento da mesinha retrátil para longe do campo de visão.

O odor permanece nos dedos mesmo após a utilização de um guardanapo extragrande, possivelmente o maior do circuito, e um lenço refrescante desodorizante. A questão da higiene fica ainda mais difícil por conta de meu outro pedido: um saco de  pipoca com azeite trufado (13,50 reais).

A carta de pipocas gourmet oferece sete opções: light, parmesão, caramelo, ervas finas, chocolate belga, Romeu e Julieta e pimenta com limão. Como complemento, sugere-se “harmonizar  a leveza dos melhores azeites em sua pipoca”, pagando um adicional de 8 reais por um pote com azeite de trufas, manjericão, azeitonas pretas ou limão. O espectador é que deve entornar o recipiente na pipoca, tomando o cuidado para não derramar o óleo no próprio colo ou, pior, nas poltronas de couro italiano.

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São Paulo é a cidade com a maior oferta de cinemas de luxo no Brasil (também chamados de vip, prime, platinum, premium, premier ou splendor): ao todo, são dezoito salas. Aberto em 2008, o pioneiro foi o Bradesco Prime (da rede Cinemark), no Shopping Cidade Jardim, que conta com um lounge “privado” e “descontraído”, além de cardápio assinado pela chef Morena Leite. Lá se pode assistir a um blockbuster degustando canudinhos de pato e roll de bacalhau. O sucesso foi tamanho que hoje são cinco salas do grupo, uma no Shopping Tamboré.

Há também duas salas Platinum no Shopping Vila Olímpia (rede Kinoplex), duas Splendor no Shopping Pátio Paulista (rede Playarte) e três vips no Shopping Iguatemi Alphaville (rede Cinépolis), junto com as novas seis do JK Iguatemi.

A Cinépolis afirma ser a criadora do conceito de cinema de luxo, tendo inaugurado as primeiras salas na Cidade do México em 1999. Hoje possui 140 em operação pelo mundo, sobretudo em países pobres com acentuada desigualdade de renda (México, Guatemala, Panamá).

Durante a sessão de Intocáveis, praticamente lotada, quase todas as mesas estavam ocupadas por taças de vinho com taninos estruturados e elegantes (de 23 a 38 reais). Alguns tomavam coquetéis de vodca Grey Goose, criados pelo mixologista Pablo Moya, ou cervejas premium como a Erdinger (26 reais) e a La Trappe (70 reais).

Nas fileiras da frente, talvez para demonstrar o quanto estava à vontade nesta vida de opulência, um homem de terno esticou os pés na poltrona e tirou os sapatos.

“Eu me senti na classe executiva da Delta. Só faltaram aeromoças me chamando de Mr. Santos”, declarou o advogado Fernando Gherardini Santos, que foi ao Iguatemi Alphaville para ver um filme tomando prosecco italiano e comendo canapés de salmão.

Também o ilustrador da piauí, Andrés Sandoval, foi visto numa sessão de Tropicália com um Campari na mão.

Adepta do jornalismo participativo, a repórter experimentou um mini-hambúrguer de picanha com picles e um mini-hot dog com batatas sorriso, só para se arrepender logo em seguida. Não chegou a pedir o boat de sushis e nem o crepe de manga. Já a pipoca com azeite trufado tinha gosto de óleo queimado e contribuiu para a azia pós-filme.

Resta imaginar como ficaria a digestão dos espectadores na sala 4DX, onde há superventiladores, luzes estroboscópicas, fumaça, aromas e borbulhas sincronizados ao filme, além de um sistema eletrônico de movimentos nas poltronas para simular vibração, queda, trepidação, balanço, aceleração e frenagem. “É que nem ver filme em um touro mecânico”, resumiu um popular no site FourSquare.

Contemplando árvores

Posted: 12th novembro 2012 by Vanessa Barbara in Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S.Paulo – Ilustrada
12 de novembro de 2012

por Vanessa Barbara

Num ensaio intitulado “Encontre-me em St. Louis”, o escritor Jonathan Franzen conta sua experiência com a gravação de cenas para o programa de Oprah Winfrey.

Em 2001, seu romance “As Correções” foi escolhido para o clube de leitura mantido pela apresentadora mais popular dos EUA. (Em geral, as obras indicadas tinham um acréscimo de vendas de 500 mil exemplares.)

Em meio ao tour de lançamento do livro, Franzen gravou imagens para ilustrar a entrevista que daria pouco depois.

Embora o autor tivesse deixado St. Louis há 24 anos e se tornado um nova-iorquino convicto, os responsáveis pelo programa pediram que as gravações fossem lá.

“Compreendia que em televisão o fundamental eram as imagens, quanto mais simples e vívidas, melhor. Se os produtores queriam que eu fosse um cara do Meio-Oeste, então iria tentar ser um cara do Meio-Oeste.”

Assim, sob a orientação de uma equipe de TV, fingiu chegar à cidade e reexaminar suas raízes. Da janela do carro, repetiu uma série de tomadas em que aparentava curiosidade ou nostalgia, olhando em volta com falsa expectativa.

Insistiram que Franzen filmasse no interior da casa onde cresceu, mas ele se recusou: “Desculpe, mas eu realmente não quero”.

Ainda assim, para rebuliço geral, mostrou a árvore onde as cinzas de seus pais foram depositadas. “Por mais de meia hora a árvore e eu fomos filmados de vários ângulos. Eu caminho lentamente em direção à árvore, fico de pé contemplativamente ao lado dela”, conta. Mas Franzen não estava “conseguindo dramaticidade”.

Um dos produtores lhe deu as indicações: “Você está elevando o olhar em direção à árvore. Você está pensando em seu pai”.

Toda essa encenação recheada de sentimentalismo o deixou incomodado. Ele externou essas sensações, Oprah retirou o convite para o clube do livro e o país inteiro o chamou de esnobe.

Como convém na televisão, a história acabou bem: no final de 2010, o novo romance de Franzen (“Liberdade”) foi escolhido para o clube do livro da apresentadora e eles fizeram as pazes, numa entrevista repleta de platitudes.

Fingir que se está lendo, conversando ou contemplando uma árvore é a regra da televisão para captar imagens falsamente profundas.

Se os produtores lessem o ensaio de Franzen (publicado em “Como ficar sozinho”, da Companhia das Letras), saberiam que, no caso, bastava filmar um prato de ervilhas e tudo seria dito. 

Lançamento “A Máquina de Goldberg”

Posted: 9th novembro 2012 by Vanessa Barbara in Clipping

Bolhas e joanetes

Posted: 5th novembro 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
5 de novembro de 2012

Ilustração: Águeda Horn

por Vanessa Barbara

Aos 46 anos, Amy Sherman-Palladino é famosa pela ousadia de seus chapéus e pelos roteiros da série “Gilmore Girls”, comédia da Warner que durou sete anos e foi sucesso de público.

Filha de um comediante e uma dançarina, ela tenta unir esses dois talentos herdados na nova série “Bunheads” (gíria para as bailarinas com seus coques de cabelo), que estreou nos EUA em junho, sem previsão de lançamento no Brasil.

Na trama, uma ex-dançarina de Las Vegas com sólida formação clássica (Sutton Foster) decide se casar por impulso e vai parar na bucólica cidadezinha de Paradise, onde ajuda a gerenciar a escola de balé da sogra.

À semelhança de “Gilmore Girls”, temos um vilarejo cheio de tipos excêntricos e duas protagonistas sarcásticas, que falam muito rápido enquanto andam ou sapateiam – uma delas é Kelly Bishop, ex-Emily Gilmore.

As principais diferenças são o tom mais dramático de “Bunheads”, que após dez episódios ainda não encontrou um equilíbrio, misturando cenas mais escrachadas com momentos pungentes, sem grande critério. 

Se a série às vezes escorrega, talvez seja só questão de alinhar os ombros, elevar o queixo e levantar a perna, como a protagonista tentando corrigir um “arabesque” de uma aluna.

Há momentos que evidenciam a beleza de “Bunheads” e seu potencial dançarino-dramático: primeiro, o balé de “Picture in a Frame”, de Tom Waits, apresentado pelo núcleo jovem da trama num velório.

Segundo, a brasileira Julia Goldani Telles fazendo a coreografia raivosa de “Istambul (Not Constantinople)”, da banda They Might Be Giants. Ela faz parte do quarteto de bailarinas adolescentes que gravita em torno da protagonista.

Já no terceiro episódio, um instante digno de “Gilmore Girls”: do lado de fora da escola, as meninas tiram fotos dos pés para uma competição. Quanto pior o estado dos pés, melhor o estúdio de dança. “La Cañada é difícil de ganhar. Aquelas garotas têm pés revoltantes”, dizem.

“Unha quebrada não é nada. Se estiver infeccionada, aí podemos conversar”, declara uma delas.

Para perplexidade da protagonista, alguém exibe com orgulho “cinco bolhas, uma unha encravada, cascas de ferida e descamação”. “Isso está muito bom. Mas essa bolha vai ficar muito mais nojenta se estourar.”

E seguem felizes, elencando coisas repulsivas e fazendo trocadilhos sem pausa para respirar.

Fachada da Loja para Monstros idealizada pelo escritor Nick Hornby, de “Alta Fidelidade”

Loja literária de artigos para monstros dita as últimas tendências em geração de pavor e alarmismo

Revista Serafina
Novembro de 2012

Vanessa Barbara, de Londres

A rua Hoxton fica no subúrbio de Londres, na zona norte da cidade, onde antes se encontravam hospícios, cortiços e moradias de operários. Hoje vivem ali zumbis de esgoto, um mutante na biblioteca e um monstro de cabelo felpudo chamado Eidan, que se esconde atrás do banco do parque. Ele tem garras afiadas e, quando encosta as mãos numa bela mulher, se transforma num edifício de dez andares.

Com vistas a atender essa horripilante demanda, funciona há dois anos no número 159 a Hoxton Street Monster Supplies (Loja de Monstros da Rua Hoxton), que fornece mercadorias de qualidade para monstros de todos os tipos e formatos. “Muitos dos nossos clientes estão conosco há séculos. Outros são mais antigos ainda. Seja você vampiro, lobisomem, pé grande ou qualquer outra coisa diversa, nós temos o que você precisa”, diz o folheto.

Na Loja de Monstros da Rua Hoxton, o monstro contemporâneo pode adquirir vidros de bile, pele esfolada, sangue AB negativo extrapuro, sangue O positivo para uso geral, pastilhas mentoladas (para o hálito dos zumbis), chutney de entranhas, marmelada de órgãos, catota humana compacta e “uma vaga sensação de mal-estar”. Os produtos são enfileirados e metodicamente expostos em sólidas prateleiras de madeira, como numa loja de boticário.

Os não monstros podem argumentar que a compota de cérebro à moda antiga é apenas geleia de framboesa, enquanto a cera de ouvido em cubos é composta de prosaicos tabletes de caramelo. Aparentemente não há nada dentro do vidro de peidos frescos – cuja descrição é “o fedor do medo: a mais fina iguaria para o monstro exigente” – e há singelas balas de goma dentro das latas de “terror noturno”, “medo paralisante”, “frio na barriga” e “alarmismo”.

No valor de 8 libras cada (26 reais), tais latas são o que há de mais moderno em matéria de sensações desagradáveis. Como verdadeiros antidepressivos, só que ao contrário, prometem induzir visões de demônios, bichos-papões, dentistas e “coisas que fazem BUMP! no meio da noite”, afastando qualquer sentimento de conforto, segurança e contentamento. A posologia de “frio na barriga” para crianças é de um ou oito comprimidos ao dia, postos debaixo do travesseiro.

Já as cápsulas de “terror mortal” inspiram um medo imediato e palpável da morte. Efeitos colaterais: grotesco inchaço dos membros e do rosto, incompetência geral e morte. “Em caso de overdose, entre em contato com um padre e mostre este rótulo”.

São produtos indicados para monstros inseguros, com baixa autoestima, que não conseguem mais instilar o pavor não farmacológico nas vítimas. No interior de todas as latas, contos escritos por autores ingleses fazem as vezes de bulas. 

ESCRITA CRIATIVA

A Loja de Monstros da Rua Hoxton é uma iniciativa do Ministry of Stories (Ministério das Histórias), organização sem fins lucrativos que fornece cursos particulares e workshops de escrita criativa para crianças e jovens da periferia de Londres. Idealizado pelo escritor Nick Hornby (de Alta Fidelidade e Um Grande Garoto), o Ministério visa a instigar a imaginação das novas gerações, promovendo uma melhora geral na confiança e autoestima – não há nenhum paralelo com os anabolizantes para monstros.

A inspiração veio da 826 Valencia, loja de produtos para piratas e centro de escrita criativa fundada em 2002 pelo americano Dave Eggers em San Francisco, Califórnia. Além de comercializar ganchos, tapa-olhos, extensões para barbas, pernas de pau, tampões antissereia e olhos de vidro, o estabelecimento incitou a criação de outros similares pelo país: a primeira foi uma filial para super-heróis aberta em 2004 em Nova York. No ano seguinte surgiram outras quatro: uma loja para robôs em Michigan, uma para viajantes do tempo em Los Angeles, outra voltada para viajantes espaciais em Seattle e outra para espiões em Chicago (disfarçada de Loja Entediante).

Há também um Instituto de Pesquisa do Pé Grande em Boston (fundado em 2007) e um Museu de História Antinatural em Washington (o caçula da turma, de 2010), todos operando como fachadas para o referido programa educativo de Eggers, apelidado de 826 National.

Firmemente enraizado no subúrbio de Londres, o quartel-general do Ministério das Histórias de Hornby pode ser acessado por uma porta secreta nos fundos da loja de monstros. Lá se promovem cursos gratuitos e atividades lúdicas para jovens de 6 a 18 anos.

A última ação do Ministério terminou em agosto e consistiu na fundação de um país independente, a República das Crianças de Shoreditch, dotada de Constituição própria, serviço postal, rede de espionagem e uma embaixada – sita ao lado da Loja de Monstros da Rua Hoxton. Na carta de intenções da nova nação, redigida pelas crianças, firmou-se uma cláusula em favor das nuvens.

UM GIGANTE POR VEZ

A história da criatura Eidan foi escrita por uma menina de Hoxton e consta do “Misterioso e Monstruoso Mapa de Hoxton”, à venda na loja por 2 libras. Redigido e ilustrado com rigor científico, o mapa traz a localização dos principais monstrengos residentes e avisos gerais, tais como: “Atenção! Monstros felpudos também têm sentimentos. Favor não usá-los como travesseiros”.

Naturalmente, os rótulos das mercadorias da Loja de Monstros são redigidos com esmero por escritores como Hornby, David Nicholls e Zadie Smith. No letreiro de um rolo de barbante, lê-se que “o fio dental para vampiros é imbatível em acessar recônditos que nenhuma farpa de madeira ou escova comum consegue alcançar, removendo todo tipo de matéria depositada entre os dentes caninos: miolos, coágulos, ossos, vísceras, entranhas, couve, balas toffee e outros. Ideal para o monstro do século 21 que acredita que a dilaceração cotidiana de carne e ossos não deve necessariamente inviabilizar a socialização pós-ataque”.

Embora a loja funcione em horário comercial, há uma possibilidade de agendamento noturno (mediante reserva) oferecida para vampiros. Feijões mágicos não são aceitos como pagamento.

“Apenas um gigante por vez”, recomenda um letreiro na fachada, insinuando desagradáveis precedentes. Em meio a inúmeros outros avisos, um deles parece prevalecer, por sua natureza alarmista: “Pede-se polidamente que os clientes se abstenham de comer os funcionários. Obrigado”.

Folha de S.Paulo – Ilustrada
1 de novembro de 2012

por Vanessa Barbara

Todo filme curdo tem que ter um bardo

O filme (que eu inventei) para humilhar todos os outros filmes da Mostra é uma coprodução Rússia/Irã/Armênia/Afeganistão/Alemanha de 194 minutos. 

Baseada em uma história real, fala sobre um carpinteiro curdo de meia-idade que perde a mãe num brutal acidente de carro, no qual também perece o cachorro da família e uma coleção de selos que não terá maior importância na história. 

A despeito de seus problemas urinários, Amanj decide sair numa viagem de moto pelo interior do Curdistão, onde entra em contato com os horrores da guerra e se afeiçoa ao pequeno Mako, um garoto de 11 anos com um lábio leporino que pouco a pouco lhe ensina as coisas simples da vida.

Lá pelo meio do filme, Amanj tem alucinações existenciais lindamente filmadas pelo diretor de fotografia, concunhado de Andrei Tarkovski. Febril, o carpinteiro vê imagens de cavalos, leite derramado, espelhos, gente flutuando e chuva dentro de casa.

Quando se recupera do surto, pode ou não estar sem os rins – isso nunca fica claro, nem para a roteirista do filme e nem para o pobre Amanj, que passa o resto do tempo tateando o chão em busca de suas lentes de contato.

“Rapsódia Curda”, de L. Barzani, seria premiado no Festival de Juarez e na Mostra Internacional de Cinema de Paris (Texas). Aplaudido de pé na cabine de imprensa, em São Paulo, teria todos os ingressos esgotados em suas exibições ao público, inclusive na de terça às 13h no Cinespaço Granja Vianna, com legendas em inglês e italiano.

Na saída, cinéfilos aproveitariam para fazer uma apreciação crítica dos filmes anteriores do diretor, “Elegia de Outono: A Sombra” e o polêmico “Uma Alface Para o Tio do Meu Carteiro”, em que o cineasta revisita sua dura infância nas estepes.

“Gostei de ‘Rapsódia’, mas é um Barzani menor”, afirmaria um entendido. “Não tem a plasticidade de um ‘Elegia’ e nem a transcendência do ‘Alface’, mas é natural se formos pensar na trajetória do diretor, que recentemente teve problemas com a questão da nacionalidade.”

Mastigando balas de goma cítricas em forma de minhoca, Barzani responderia a todos os questionamentos do público com a mesma frase: “Eu gosto de cavalos”. 

Rachel Seiffert on Vanessa Barbara

Posted: 30th outubro 2012 by Vanessa Barbara in Clipping

 

Blog Granta.com
30 de outubro de 2012
Link para o original: http://www.granta.com/New-Writing/Rachel-Seiffert-on-Vanessa-Barbara

por Rachel Seiffert

Vanessa Barbara is a journalist, translator and writer. Her publications include O livro amarelo do terminal (2008), winner of the Jabuti Award, the novel O verão do Chibo(2008), co-written with Emilio Fraia, and the children’s book Endrigo, o escavador de umbigo (2011), illustrated by Andrés Sandoval. She recently published a translation of The Great Gatsby. Barbara also edits the literary website A Hortaliça and is a columnist for the newspaper Folha de S. Paulo. ‘Lettuce Nights’ (‘Noites de alface’) is an extract from her forthcoming novel. Here, as part of an ongoing series on the twenty authors from The Best of Young Brazilian Novelists issue – which was first published in Portuguese by Objetiva – Vanessa Barbara is introduced by previous Best of Young British Novelist, Rachel Seiffert.

A story that starts with a bereavement: already I’m drawn in. The real story is always in the aftermath, and here’s a young writer who not only understands that, but expresses it with tender humour too. So it’s the socks that miss Ada first; Otto notices them swollen in mourning, untended in the wash. The tone has been set, wry and gentle, even in the first paragraph, and we’ve been taken straight into that intimate, domestic space expressive of a long and contented marriage.

It’s a sad start, but there’s contentment for the reader here too: the particular satisfaction offered by a well-turned first chapter. Unhappily for Otto, his wife is now gone; happily for us, these are but the opening pages of a novel-in-progress, full of the promise of more to come, in good time, beyond this issue of Granta.

Otto and Ada, we are told, decided early on not to have children. Their life had to do with each other, and with those who lived around them. Inward-looking Otto took shelter behind his garrulous Ada; the kind of woman who would welcome a delivery boy into the living room and draw out his life story over coffee. Otto has his neighbours now, but he has his memories too – which should he choose? In this widower’s dilemma lies all the potential energy of a narrative ready to unfold.

Oh, and it has to do with cauliflowers too . . . – Rachel Seiffert, Best of Young British Novelist in 2003

Lettuce Nights

When Ada died, the wash hadn’t dried yet. The trousers’ elastic waistbands were still damp, socks swollen, T-shirts hanging the wrong way out. A rag was left soaking in the bucket. Rinsed recycling bins in the sink, the bed unmade, open biscuit packets lying on the couch. Ada had gone away without watering the plants. The household things were holding their breath and waiting. Since then, the house without Ada has been nothing but empty drawers.

Otto and Ada were married in 1958, just as the town was transitioning between mayors. They bought a yellow house and decided not to have children, no dogs or cats, not even a pet turtle. They spent almost fifty years together: cooking, assembling massive puzzles of European castles and playing ping-pong on the weekends, until arthritis set in and made the game impossible. In the end it was nearly impossible to tell the difference between their tone of voice, their laugh, their way of walking. Ada was thin with short hair and liked cauliflower. Otto was thin with short hair and liked cauliflower. They wandered up and down the hallways and took out the rubbish together. Ada dealt with the various household details and did most of the chores while Otto followed her around telling anticlimactic stories. They were such good friends that Ada’s death left a silence in the hallways of the yellow house.