Click click

Posted: 21st agosto 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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Quinta-feira, 21 de agosto de 2008
http://g1.globo.com/platb/zecacamargo/2008/08/21/click-click/

por Zeca Camargo 

cavalo.jpg

Uma das minhas lojas favoritas em Paris fica no Marais, e, ao contrário do que se possa imaginar, não tem nada a ver com moda, não vende nenhum item de comida, e muito menos perfume – para listar três coisas pelas quais a capital francesa é famosa. A loja chama-se Photographie (Fotografia, em português), é de um cara (aparentemente) cinqüentão – magro e, como bom francês, fumante inveterado (já o peguei fumando mesmo dentro da loja, próximo da hora de fechar…) -, chamado Fabien Breuvart. Fica na Rue Charlot, quase esquina da Rue Bretagne – e como quase todas as boas descobertas da vida, eu a encontrei por acaso, procurando uma queijaria que havia visto de relance quando passei por ali de táxi. Naquele pequeno espaço, de menos de vinte metros quadrados, costumo comprar imagens como essa que abre o post de hoje.

São fotos anônimas, esquecidas em gavetas antigas, álbuns abandonados, ou simplesmente jogadas no lixo. Monsieur Breuvart faz um inestimável garimpo por feirinhas de antiguidades (e, imagino, alguns depósitos de entulho) para resgatar essas obras-primas alternativas. Não custam caro (as mais baratas saem por menos de R$ 20,00), mas têm um valor inestimável para fãs do gênero (como eu) – e não exatamente porque elas têm um pedigree, ou uma assinatura famosa, mas justamente porque são registros despretensiosos de pessoas comuns divertindo-se com o prazer de experimentar uma linguagem. Os resultados, quase sempre desastrados, oferecem registros de inesperada poesia, seja no recorte inusitado da foto, ou na inocência de quem estava sendo registrado pelas lentes – como esse casal (de anônimos, claro) patinando, que eu também encontrei naquela loja.

foto1_zeca.jpg

Hoje, claro, com o triunfo das câmeras digitais, imagens como as que são vendidas na Photographie só tendem a desaparecer. O retrato não ficou bom? Apaga e tira outro! De certa maneira, a descartabilidade dessas imagens digitais fez de todos nós perfeccionistas aspirantes – ainda que com critérios bastante duvidosos. Como diz um amigo meu, constantemente abordado por fãs que querem tirar uma foto com ele (sim, ele trabalha também em televisão), todo mundo agora é Cartier-Bresson – quer registrar o “momento decisivo” (para usar a expressão que o famoso fotógrafo ajudou a cunhar), nem que seja com o seu telefone celular…

Nada contra! Eu mesmo, alvo de pedidos semelhantes, poso com paciência (sempre que tenho tempo) para a segunda, terceira, e muitas vezes quarta tentativa de quem me assedia, até que eu escuto: “essa ficou boa!”. O problema é que a avaliação “não ficou boa” é um critério bastante subjetivo: um borrãozinho aqui, um canto da bochecha que ficou fora do quadro ali, um olhar desviado na última hora, o foco que não está afinado, alguém que passa na frente sem avisar, o sorriso que ainda não havia se formado quando a câmera fez click! Pois, para mim, são (repare nas aspas) “imperfeições” assim que fazem a beleza de fotos como essa, tirada num Natal sabe-se lá onde e quando (sabe-se lá até se é Natal… só porque tem alguém vestido de Papai Noel?).

noel.jpgMeu interesse por esse tipo de foto começou quando encontrei, num sebo, o livro “Anonymous: enigmatic images from unknow photographers” (“Anônimos: imagens enigmáticas de fotógrafos desconhecidos”). O entusiasmo com que me apaixonei por aquelas fotos me levou a encontrar outra publicação no gênero, ainda mais incrível: “Other pictures: anonymous photographs from the Thomas Walther collection” (“Outros retratos: fotografias anônimas da coleção Thomas Walther”). São volumes fascinantes, que eu recomendo para a estante de qualquer um que tenha um certo interesse no pouco usual – achei o primeiro por menos de R$ 15,00 numa livraria virtual, e o segundo, um pouco mais raro, por R$ 40,00.

Esta semana tornei a folheá-los – bem como me inspirei a finalmente tirar as fotos que comprei na tal loja parisiense do envelope para emoldurá-las – depois de ter lido dois livros que possuem uma estranha conexão (ambos, quero crer, destaques dessa vigésima – viva! – Bienal do Livro que acontece até domingo, em São Paulo – mas também já disponíveis para o leitor de todo o Brasil): “O livro amarelo do terminal”, de Vanessa Barbara (CosacNaify) e “O instante contínuo – uma história particular da fotografia”, de Geoff Dyer (Companhia das Letras).

A conexão do livro de Dyer com o tema de hoje é um pouco mais óbvia – por isso, vamos começar por ele: Nesse megaensaio de 2005 (lançado só agora em português), o escritor inglês nos convida a um passeio livre pelo seus interesses em fotografia. É um trajeto sem mapa, onde artistas e fotos são agrupados por temas, cuja conexão entre si é bastante intuitiva. Começando por retratos de cegos – mais especificamente pela clássica imagem de uma cega nas ruas de Nova York, registrada em 1916 pelo mestre Paul Strand – o autor nos leva por um itinerário imprevisível: fotos de mendigos tocando acordeão, passageiros no metrô, fotos de mãos, fotógrafos fotografando fotógrafos, nus, chapéus, escadas, camas (desfeitas e arrumadas), bancos de jardim, cercas, parques, homens de sobretudo… e por aí vai!

geoffva.jpgDyer não escreve bem – ou pelo menos, não emociona este humilde blogueiro. Melhor seria dizer que sua escrita é inconstante. Seu livro mais conhecido, “Ioga para quem não está nem aí” (Companhia das Letras), me acompanhou na Volta ao Mundo que fiz em 2004 e me trouxe ao mesmo tempo momentos iluminados e de muita irritação. Quando quer mostrar erudição, ele não tem a naturalidade de um Alain de Botton (curiosamente, quem escreve o texto da contracapa de “O instante contínuo”) e nos obriga a passagens intragáveis. Ao mesmo tempo, ele é capaz de sintetizar idéias interessantes, como essa, que usa para descrever a relação entre dois dos maiores fotógrafos do século 20: Alfred Stieglitz e Paul Strand: “Há nas amizades um momento – e às vezes esse momento pode durar a vida inteira – de absoluta igualdade. O que cada um dá é equilibrado, exatamente na mesma medida, por alguma coisa que o outro oferece, mesmo que uma das partes não tenha consciência disso”.

Em outro parágrafo, em apenas uma frase, Dyer dá a melhor definição que já li sobre o trabalho da americana Diane Arbus (que foi obtusamente interpretada por Nicole Kidman no relativamente recente “A pele”): “Arbus vê as inexauríveis possibilidades da excentricidade, uma multiplicidade de isolamentos”. E, para dar só mais um exemplo, ao comentar uma foto de Stieglitz, “A rua, Quinta Avenida” (1900-01), com um homem encapuzado no centro da imagem, ele diz, quase que como estapeando o leitor: “E pensar que houve um tempo, há mais de um século, em que esse momento foi agora! E aquele vulto da capa – até mesmo ele deve ter tido um pressentimento do modo como aquele “agora” se torna “naquela época”. Brilhante! Pois essa mesma sensação, que serve para um registro do início do século 20, repete-se até hoje, infinitas vezes, a cada instante que as pessoas acionam o botão de sua câmera para rever o que acabou de ser fotografado.

Por passagens assim, e pelo curioso roteiro fotográfico de Dyer, “O instante contínuo” vale a pena ser lido. Afinal, foi exatamente essa frase que acabei de citar – sobre o “agora” que vira “naquela época” assim que é fotografado – que me veio à cabeça nas linhas finais de “O livro amarelo do terminal”. Não, Vanessa Barbara não escreveu outro tratado sobre fotografia… Mas, ao descrever o cotidiano da rodoviária do Tietê, em São Paulo, ela acabou presenteando o leitor com um fascinante conjunto de instantâneos das pessoas que circulam por lá.

livroamarelo.jpgEssa “galeria”, diga-se, está mais próxima das fotos anônimas vendidas naquela loja parisiense do que do cânone de mestres desfilado por Geoff Dyer. Mas por que você acha que eu comecei o texto de hoje falando justamente desses fotógrafos anônimos? Será por que eles oferecem surpresas menos previsíveis que aquelas que você já espera de um nome consagrado? Vejamos alguns “retratos” de Vanessa:

“Há os que passam, tranqüilos, segurando imensas barras de ferro, persianas, apetrechos estranhos, de utilidade desconhecida. Outros arrastam uma pilha de caixas, correndo meio agachados e derrubando e empilhando e disparando de novo, num rali de caixotes”.

“Jomeri estava irritado. Vigiava um bocado de malas no chão e estraçalhava os botões de sua estonteante camisa florida azul e branca. De pé, encarava os passantes à procura do irmão que prometera buscá-lo. Mas nunca o reconhecia – e olha que já estava prestes a explodir de ansiedade”.

“A rodoviária do Tietê é uma cidade de chicletes abandonados, de pessoas com pressa e de coisas perdidas”.

E esses são apenas três das várias “polaróides” que Vanessa traduziu em letras quando fez um plantão por lá, em 2003. Voltando ao terminal agora, em 2008 – como conta no capítulo final de seu livro -, a autora encontra apenas resquícios do que registrou cinco anos antes. Como diria Dyer, aquele “agora”, tão vivamente “fotografado” por Vanessa, já tinha virado “naquela época”.

Essa dissonância, porém, longe de tirar a força do seu relato, só o torna mais intenso. Mesmo se não houvesse o impacto do projeto gráfico de seu livro – com um texto que flerta o tempo todo (felizmente sem sucesso) com o ilegível e tem a esperteza de usar os grafismos das próprias latarias dos ônibus para ilustrar cada abertura de capítulo (e este é apenas um dos elementos visuais presentes no universo da rodoviária que “contamina” suas páginas) -, mesmo assim, “O livro amarelo do terminal” oferece uma experiência única: a de evocar um cotidiano ebuliente para leitores que raramente têm a chance de passar por lá.

Numa simetria perversa, as pessoas com quem Vanessa conversou – como coloca a própria autora, referindo-se à Rosângela (que trabalhava no balcão de informações) – talvez nunca leiam esse livro. Assim como as pessoas imortalizadas nas fotos que enchem as prateleiras da loja Photographie nunca sonharam que estariam um dia ilustrando este blog. Coisas do acaso…

Eles são Sampa e livros

Posted: 15th agosto 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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Blog Urbanistas/SP
15 de agosto de 2008

por Aline M. Ramos 

Em época de Bienal Internacional do Livro em São Paulo, conversamos com Vanessa Barbara e Emilio Fraia, que, desde o lançamento de seu primeiro romance, O Verão do Chibo (Ed. Alfaguara, 2008), vêm recebendo críticas muito positivas e já estão sendo incluídos na lista dos mais originais escritores brasileiros contemporâneos. Nesta entrevista, eles falam sobre o processo de criação do livro, suas inspirações e os diversos tipos de mídia em que criam.


Como foi escrever O Verão do Chibo a quatro mãos? De quem partiu a idéia inicial do livro e como foi o processo de criação?

Escrevemos O verão em turnos. O Emilio escrevia um trecho, que podia ser de duas linhas ou de uma ou duas páginas, passava para a Vanessa e ela lia, reescrevia e seguia em frente. Foi um processo lento, principalmente no início, quando ainda não tínhamos uma voz coesa. Encontramos o tom no decorrer das páginas, quando o nosso narrador (o Menorzinho) decidiu falar com a gente. A partir daí, fomos escrevendo sem rumo, sem discutir o enredo. Fizemos alguns poucos “colóquios” para uniformizar as idéias, mas em geral foi um processo de muita reescrita, de cuidado com o texto. O Emilio gostava muito quando chegava numa parte difícil de continuar, quando ele mesmo colocava os personagens numa situação complicada e aí era só salvar o arquivo e mandar pra Vanessa, que ela resolvia. Às vezes dava a sensação de que o livro se escrevia sozinho, porque de repente a Vanessa recebia um trecho já pronto, como se tivesse ido dormir e as coisas tivessem acontecido na sua ausência. Apesar da coisa da escrita a quatro mãos ser interessante (poucos são os casos de parceria envolvendo ficção), a sensação pra gente é que ela não importa muito. O Verão pode ser lido como sendo de um único autor. A gente queria contar uma história, fazer com que o leitor se concentrasse nela e só.

Como surgiram a idéia do roteiro, o inusitado cenário da plantação de milho e os personagens?

Nós tínhamos lido uma frase do Kafka, de um conto chamado “Comunidade”, e ela dizia que “além do mais somos cinco e não queremos ser seis”. Isso foi mais ou menos ao mesmo tempo em que a gente pensou em escrever uma história cujo início fosse num tiroteio de balas de goma. Não tem muita lógica (e não sabemos exatamente como surgiu a coisa da plantação). O que nos faz pensar também que um livro não começa a ser escrito quando começa (de fato) a ser escrito. Ele começa antes e depois, e por muitas vezes — caolho, com sono, dor de barriga, soluço, apendicite, dor de dente. O Verão, que começou quando a gente se conheceu e começou de novo quando o Chibo não desceu do carro pra brincar com os amigos, começou muitas outras vezes, e quando descobrimos que os personagens não se entendiam muito bem e que tínhamos ali algo sobre a dificuldade de expressar as coisas, sobretudo as mais importantes.

Vocês foram particularmente influenciados por alguma obra ou autor? Como vocês transitam por diversos tipos de mídia (impressa e eletrônica), para escrever este romance, vocês também foram influenciados por alguma outra forma de arte, que não apenas a literatura?

Fomos influenciados pelo universo inteiro, empilhado. Folhetos publicitários de um iogurte búlgaro, a viagem Paris-Marselha do casal Cortázar-Dunlop, a hipótese de que o realismo seria “mera verossimilhança sem invenção”, um cabeludo tocando guitarra na capa de um disco. O nome “Chibo”, por exemplo, foi tirado de um personagem coadjuvante de um livro do Vargas Llosa chamado Os filhotes. Assistimos também uma porção de filmes com crianças,Brinquedo proibido (de onde pegamos a epígrafe do livro), Os incompreendidos, Zero de conduta, Zazie no metrô,Quando papai saiu em viagem de negócios. A Vanessa tirou dentes do siso, o Emilio teve apendicite, vimos A estrada(do Fellini) e também brigamos no início do capítulo seis.

Vocês dois são jornalistas e, além de terem suas próprias publicações eletrônicas (Givago, fanzine que era editado pelo Emilio e A Hortaliça, almanaque virtual editado pela Vanessa), também são colaboradores da revistapiauí. Qual a diferença do processo de criação para cada um destes meios: eletrônico, impresso mensal e literatura?

No meio eletrônico de fanzines e legumes, temos liberdade (em excesso) para escrever o que nos dá na telha, pra lançar edições especiais de “bobice indomável”, pra demorar seis meses entre um número e outro e pra maquinar contos que não têm a menor razão de ser. É bom por ser um exercício divertido e sem a menor solenidade — o que procuramos estender às nossas outras produções. Na piauí, o foco maior é o jornalismo e também tentamos reproduzir os nossos vibrafones e obsessões, sem medo de experimentar, e no caso da literatura, dá pra sapatear bastante no texto e pensar mais detidamente na história (mas sem perder legumes e isqueiros jamais).

O processo de criação a quatro mãos do romance foi diferente do processo que vocês utilizaram para escrever, também em parceria, o conto “Vibrafone”, publicado no Givago?

O “Vibrafone” é uma costura de alguns e-mails que trocamos em 2003, sobre o sumiço de um vibrafone numa música. Não era pra ser um conto, não fomos trocando trechos pensando numa história, como fizemos n’O verão. Tínhamos lido o Jogo da amarelinha, do Cortázar, e estávamos realmente empolgados com o Oliveira, o Gregorovius, a Etienne e a Maga ouvindo jazz e tateando o ar sob as nuvens achatadas e vermelhas do Quartier Latin. Na época, a Vanessa gravou um CD com as músicas que aparecem no livro e deu de presente pro Emilio. Escutávamos a Bessie Smith, o Coleman Hawkins e, de repente, o Emilio percebeu que o vibrafone do Lionel Hampton havia desaparecido da música “Save It Pretty Mama”! Desse sumiço, nasceu o conto.

Apesar de o narrador do romance O Verão do Chibo ser um menino de cerca de sete anos, não se trata de uma literatura infanto-juvenil. É mais difícil escrever para adultos com uma voz narradora infantil?

A voz do nosso narrador é incomum, a visão que ele tem do mundo é muito delicada e achamos mais interessante contar a história do ponto de vista do menorzinho do que dos adultos. Um narrador-criança tem um jeito diferente de ver as coisas e, no nosso caso, tem dificuldade em entender o que está acontecendo, o que é muito interessante para o livro. É um desafio para quem escreve, mas pode ficar interessante.

Vocês estiveram recentemente na FLIP, em Paraty (RJ), como convidados da mesa “Primeiro Tempo”. Há quatro anos, na FLIP de 2004, quando vocês participaram da oficina de criação com Milton Hatoum, vocês já planejavam ter um romance publicado em breve? E esperavam passar de participantes a convidados da festa em tão pouco tempo?

Em 2004, o Emilio se hospedou num albergue cuja TV da sala ficava ligada 24 horas por dia num programa sobre emas. A Vanessa ficou num hotel cuja porta do banheiro não fechava, onde os galos gritavam às 3 da manhã e havia um comitê eleitoral no andar térreo. Ou seja: o convite não só foi inesperado como muito bem-vindo.

Que tipo de leitor vocês idealizam ou idealizaram para O Verão do Chibo? Ou que tipo de leitor vocês gostariam de ter?

Enquanto escrevíamos, não idealizamos nenhum leitor, não pensamos nos amigos nem no que a história poderia causar. Parafraseando o Quiroga: tentávamos criar a história como se ela não tivesse interesse senão para o pequeno mundo dos nossos personagens. Mas, com o livro pronto, a literatura são sempre modos de ler. A mãe da Vanessa, por exemplo, quer um leitor que perceba quão magnífico é o personagem Cabelo. Ele seria o centro do livro e tudo no mundo se encheria de desenhos alienígenas, abelhas e nariz escorrendo. Em outro lugar se ajeitou na poltrona o leitor de um Verão muito sinistro, uma história de terror, de barcos que não atracam, lagartixas cortadas ao meio, tábuas quebradas, a história de um mundo em que a imaginação tenta resistir frente a um exército de figuras mortas e empalhadas. Alguém pode dizer: é o tipo de narrativa de aventura, só que enguiçada! Há crianças, férias, verão, mas parece que o filme enroscou na máquina, que a bóia de pato furou, que as figurinhas perderam o autocolante! Ou então: é a história de um narrador que não entende direito as coisas porque, ora, é criança. É a história de pais que brigam e é a história de como, sem perceber, devagar e aos poucos, as coisas de lá se misturam com as de cá e nos transformamos em pessoas novas e estranhas para nós mesmos.

Vamos pensar em dicas de compras para a Bienal… Quais os livros favoritos de cada um, independentemente de eles terem ou não influenciado este romance?

Emilio: os contos do Onetti; o Gordon Pym e as histórias do Poe.
Emilio e Vanessa: Flaubert, Borges e Cortázar.
Vanessa: Tristram Shandy, do Sterne, e Alice, do Lewis Carroll.
Emilio: A história do olho, do Bataille; Juventude, do Coetzee; A construção, do Kafka.
Vanessa e Emilio: Salinger, A volta do parafuso, do Henry James e A invenção de Morel, do Bioy Casares.
Emilio: a revista Mad; um site que ensina a construir casas na árvore; o manual Você tem muito o que aprender, Charlie Brown!

Vanessa: O Manual de refrigeração e ar condicionado.
Vanessa e Emilio: a entrevista Truffaut/Hitchcock e as histórias do Calvin e do Haroldo.


Na Bienal Internacional, O Verão do Chibo pode ser encontrado, dentre outros, no stand de exposição da editora Objetiva.

Nova autora submerge no terminal Tietê

Posted: 12th agosto 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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Folha de S. Paulo
12 de agosto de 2008

IVAN FINOTTI
EDITOR DO FOLHATEEN

“A rodoviária do Tietê é uma cidade de chicletes abandonados, de pessoas com pressa e de coisas perdidas”, conclui a paulistana Vanessa Barbara no capítulo inicial de “O Livro Amarelo do Terminal” (ela estará hoje na Livraria da Vila). Coisas perdidas: caça-níqueis, duas espingardas, duas motos, uma máquina de serrar azulejos e uma mão mecânica. Eis uma lista do que a jornalista encontrou no setor de achados e perdidos do terminal do Tietê em 2003, quando preparou esse livro-reportagem (lançado agora) para a faculdade de jornalismo. Pessoas com pressa: 2.000 funcionários, 66 mil visitantes/dia, malucos de plantão. Ela radiografa pequenas áreas e compõe um painel impressionante da segunda maior rodoviária da Terra. Chicletes abandonados: Vanessa não esquece, nunca, que os detalhes menos importantes são quase sempre os melhores. Por isso, lemos que, a cada grande faxina, o terminal alivia-se de 300 quilos de goma de mascar grudados nos pavimentos. Por fim, o bom humor do texto permitiu uma edição alucinada do livro: papéis de espessuras diferentes, letras do imaginário rodoviário, cores xerocadas de bilhetes de ônibus. Uma bela viagem.

O LIVRO AMARELO DO TERMINAL
Autora: Vanessa Barbara
Editora: Cosac Naify
Quanto: R$ 35 (254 págs.)
Avaliação: ótimo

 

Folha de S. Paulo
12 de agosto de 2008

Encontros com João Moreira Salles e Vanessa Barbara, entre outros, acontecem hoje e amanhã, na Livraria da Vila

Humberto Werneck, autor de “O Santo Sujo”, fala da experiência com biografias; após as mesas, escritores fazem sessão de autógrafos

Nino Andrés

EDUARDO SIMÕES
DA REPORTAGEM LOCAL

A editora Cosac Naify e a revista “Piauí” realizam hoje e amanhã, a partir das 19h30, na Livraria da Vila, um miniciclo sobre jornalismo e literatura. Vanessa Barbara, Matinas Suzuki Jr. e João Moreira Salles vão falar sobre reportagem. Já Humberto Werneck e Fernando Morais abordam biografias. As mesas têm mediação do jornalista Cassiano Elek Machado, diretor-editorial da Cosac Naify (leia ao lado).

A partir das 21h, Vanessa Barbara e Werneck participam de uma sessão de autógrafos de seus títulos mais recentes, “O Livro Amarelo do Terminal”, sobre o terminal rodoviário do Tietê, em São Paulo, e “O Santo Sujo – A Vida de Jayme Ovalle”, respectivamente.

Para Werneck, que levou 17 anos preparando o livro sobre Ovalle, o gênero tem um mercado “mais ou menos virgem” no Brasil, onde faltam biografias de grandes nomes, como Getúlio Vargas (1882-1954) ou Mário de Andrade (1893-1945).

“Há um mercado potencial enorme e estou convencido de que o campo é fértil. As pessoas se interessam por gente e histórias de pessoas”, diz Werneck, jornalista com passagem pelas revistas “Veja” e “Playboy” e ainda “Jornal da Tarde” e “Jornal do Brasil”, autor também de “Tantas Palavras”, reportagem biográfica sobre o cantor e compositor Chico Buarque.

Werneck também deve falar sobre as dificuldades de escrever a biografia de Ovalle.

“Uma das maiores dificuldades foi achar um repositório das informações sobre Ovalle, seu veio biográfico. Isso porque ele foi um poeta sem obra e muitos de seus contemporâneos já estão mortos. Foi como juntar os caquinhos de um avião que explodiu a dez mil metros de altitude.”

Sobre humanos

Posted: 10th agosto 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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Gazeta do Povo/Paraná
10 de Agosto de 2008

por Sandra M. Stroparo


Divulgação / Vanessa Barbara: cem mil cafezinhos vendidos no Tietê
Vanessa Barbara: cem mil cafezinhos vendidos no Tietê
LITERATURA

A jornalista Vanessa Barbara escreve sobre as histórias que passam pela rodoviária do Tietê em O Livro Amarelo do Terminal, título da Cosac Naify com design inusitado

O projeto gráfico é bem diferente. Esquisito, talvez. Não parece que a gente vai encarar um livro, mas um manual, uma brochura de segundas vias de documentos com uma cara meio antiga, papel carbono, mimeógrafo. Ou bilhetes de passagens de ônibus – via do passageiro. Mas é um livro. E amarelo, como diz o título, a capa e a cor do papel das páginas. Sobre a grande rodoviária do Tietê, em São Paulo.

A voz narrativa não se apresenta, de início, só vai descrevendo, aos poucos, aquele mundo, aquela cidade de coisas perdidas. Não espere um romance nem um livro técnico, informativo, ou análise sociológica, antropológica. Podemos, contudo, reconhecer um pouco de tudo isso, no melhor estilo jornalístico contemporâneo.

A autora, Vanessa Barbara, hoje redatora da piauí (assim mesmo, sem maiúsculas), entre outras coisas, apresentou esse texto como trabalho final de graduação, orientado por Marcelo Coelho, no curso de Jornalismo que fazia. Isso foi em 2003. Cinco anos depois o trabalho sai em livro, com algumas adaptações e um epílogo que inclui uma volta rápida ao local da pesquisa e a descrição de algumas das mudanças que esses cinco anos acarretaram. Até um gostinho nostálgico sobra nesse “capítulo terminal”.

Sobre o terminal do Tietê como assunto para pesquisa acredito que todos nós podemos levantar várias hipóteses, vários temas a serem encaminhados em levantamentos documentais e algumas entrevistas. Num lugar como aquele, que resume o Brasil porque ele inteiro passa por ali, não há de faltar assunto. O que O Livro Amarelo do Terminal consegue é realmente falar um pouco de tudo, mas especialmente de gente. Quem vai e quem vem, quem fica o dia todo por lá, quem trabalha lá todo dia. Para que as dimensões daquilo que foi chamado de cidade sejam compreendidas, um capítulo sobre a história da construção do terminal e muitas inserções de números e estatísticas relacionadas ao movimento da rodoviária e os resultados de consumo que esse movimento implica. Como os cem mil cafezinhos vendidos e mil quilômetros de papel higiênico por mês. Ou os trezentos quilos de chiclete grudados no chão. Isso é divertido, mas gente é mais.

E como é que se fala disso, de gente? Bom, podemos dizer que literatura faz isso e aí temos que reconhecer que esse trabalho da Vanessa, apesar de ter garantido um diploma em jornalismo, é meio que uma fraude. Porque, nesse sentido, o livro é de literatura, porque fala de gente e dá conta, ao acumular histórias de gente, muitas, sobrepondo umas às outras de maneira inteligente, interessante e divertida, sem pieguice ou frieza profissional, acadêmica, dá conta de mostrar muito dessa gente, dramas e alegrias, esse material da vida de todo mundo. Não…, mesmo que você jamais tenha ido ao terminal, que Congonhas e Cumbica sejam os seus postos de saída e chegada em São Paulo, pode apostar que dá para se reconhecer por lá, pelo livro, em algum ou em todos os momentos.

O livro tem papéis diferentes em gramaturas aparentemente diferentes (será só impressão minha por causa da variação de cores?) e uma infinidade de fontes em formas e tamanhos diferentes, muitas acrescentadas ao texto como uma colagem de recortes de manchetes, panfletos, tabelas de preços, manuais dos sistemas de informação e segurança, publicidade, e só a narrativa mestra é que ganha uma certa uniformidade, mesma fonte, mesmo tamanho, ocupando o espaço todo da página, linhas e parágrafos completos.

E aqui vamos chegando à própria narrativa. Esses recursos gráficos fazem com a “cara” do livro o que o texto procura fazer para dar conta da multiplicidade imensa com que precisa lidar. A narrativa, sem perder o fio, acompanha os assuntos de que trata, deixa-se invadir por diálogos inteiros, frases soltas, por trechos de letra de música, mas também assume o comando e se transforma. Como quando o texto, falando de um futebol rápido jogado por crianças em uma plataforma, assume por algumas linhas a narrativa de um jogo de futebol, com vocabulário e vícios sintáticos. O leitor entra no clima, entende, o texto muda e segue adiante. Tem muita coisa para se ver no terminal. Como aqueles homens se abraçando, e sorrindo tanto que a voz narrativa não se contém e cita o escritor Lewis Carroll, a Alice assustada com a idéia de que os cantos da boca podem se juntar atrás e a cabeça pode cair.

* * * * *
Serviço

O Livro Amarelo do Terminal, de Vanessa Barbara. Cosac Naify, 254 págs., R$ 35.

As malas do mundo

Posted: 10th agosto 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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“O Livro Amarelo do Terminal” retoma a tradição das grandes reportagens para retratar o cotidiano da maior rodoviária brasileira

Folha de Londrina
10 de agosto de 2008

por Marcos Losnak 

 

O marquetchim

Posted: 10th agosto 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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Revista da Folha
10 de agosto de 2008


Vanessa Barbara lança em livro extensa reportagem sobre a rodoviária do Tietê

O Estado de S.Paulo
10 de agosto de 2008 | 0h 00

por Francisco Quinteiro Pires

A vida é um milagre. E tem a cor amarela. O Livro Amarelo do Terminal, de Vanessa Barbara, é uma extensa reportagem sobre o Terminal Rodoviário Tietê. Além da cor das páginas – amarela -, que se presta como metáfora à passagem do tempo, que a tudo vai destruindo, a obra relata o vaivém dos passageiros da maior rodoviária da América Latina, embarques e desembarques que bem podiam ser a imitação dos ciclos da própria vida.

“Eu queria escrever sobre as ruas, mas precisaria falar de bueiros, pedrinhas e semáforos, então pensei que a rodoviária seria uma rua sem calçadas”, ela diz. Tietê, Vanessa explica, significa “rio fundo e corrente, que corta a cidade, com gente de todo tipo que chega e vai embora, que corre e perde suas muletas, que conversa com o Papai Noel”.

Querendo escrever sobre a rodoviária de um rio fundo e corrente, Vanessa escreveu sobre o absurdo da existência. O terminal se transformou em modelo miniaturizado do mundo. “Se o mundo é um lugar onde passam dezenas de freiras buliçosas segurando pranchas de surfe, onde há chicletes por toda parte e uma senhora acende velas no guarda-volumes, como eu acredito piamente, então a rodoviária é o mundo.” Ela prefere afirmar que a rodoviária é uma cidade esquisita, “onde nada de estrondoso parece acontecer e tudo se perde na multidão, mas há detalhes inacreditáveis e pessoas jogando pife-pafe enquanto aguardam a partida do ônibus”. Tudo se perde, e passa, até as pessoas. Quando voltou ao local, em abril, para escrever o epílogo, arrematando os 21 capítulos, ela reencontrou apenas alguns personagens da reportagem iniciada em outubro de 2002. “E igualmente falhei em descobrir o faturamento do banheiro.”

Antes de ser publicado pela Cosac Naify, O Livro Amarelo do Terminal (256 págs., R$ 35) era um Trabalho de Conclusão de Curso (o famigerado TCC), necessário para receber o diploma universitário. Vanessa visitou a estação rodoviária durante um ano. Como morava perto, no bairro do Mandaqui, ela passava a tarde inteira lá. “Ao terminar, cheguei a uma conclusão negativa, eu achava que era um lugar de desencontros e tristezas”, diz. “Depois de 5 anos, relendo o texto, vejo que é muito mais um lugar de pequenos encontros, de momentos sutis, de histórias extraordinárias.”

O capítulo 8 – História Oral do Tietê – é inspirado em O Segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell. Jornalista da New Yorker, Mitchell (1908-1996) extraía detalhes fantásticos da matéria bruta da realidade. Era capaz de ficar observando, durante duas horas, um pica-pau derrubar uma árvore. Os textos de Mitchell nascem de uma escuta/observação humilde e apaixonada. “Há várias formas de escutar as coisas e acho bom experimentar o máximo possível delas.” O jornalismo precisa de descrição e observação, segundo ela.

E de paciência. Vanessa, de 26 anos, precisou conversar com alguns dos 60 mil passageiros diários do terminal, além dos 1.806 funcionários que trabalham em três turnos. Era preciso nadar nesse oceano numérico – 100 mil cafezinhos mensais, 12 toneladas de pães de queijo por mês, mil quilômetros de papel higiênico jogados no lixo… A técnica parece simples. “Em certos dias, ia com um propósito certo: visitar o balcão de informações, os banheiros”, ela diz. “Em outros, apenas vagava pelos corredores puxando conversa e arrumando encrenca.” Ela chama isso de “histórias de vida”: fazer perguntas bem abertas e deixar o entrevistado falar livremente – “de frango com quiabo a carrapatos e bijuterias”.

Porque assim é mais fácil perceber o que importa de fato para as pessoas. A disposição para ouvir sem interferências se choca com o “gerador automático de reportagens”, nome inventado por Vanessa para qualificar as reportagens da grande imprensa (trânsito lento nos dois sentidos, liquidação de estofados, alta da taxa de juros) – “leio pouco jornal.” O mais do mesmo. “Faltam histórias”, afirma. E um olhar mais humanista nas redações. Entre os milhares de indivíduos do terminal, Vanessa, jornalista da revista Piauí, selecionou, entre outros, a Rosângela, o Bruno, o Marcos, todos personagens modestos e sem sobrenome. “Porque às vezes a conversa era tão tranqüila que perguntar sobrenome e RG era a última coisa que se aplicava no momento.”

Autora da ficção O Verão do Chibo (Alfaguara), com Emilio Fraia, Vanessa é adepta da noção de que a solenidade não leva a lugar nenhum. Concentrada nos detalhes bobos ou nas reações pequenas, ela aplica o recurso do humor, “um bom ingrediente para o jornalismo”, para narrar o surpreendente e o nonsense, como a senhora à espera da Marinha Britânica. “O mundo não faz necessariamente sentido e eu adoro essas pequenas bobagens que às vezes revelam muito e nada ao mesmo tempo”, diz. O segredo é achar o tom, para não cair no sarcasmo fácil, e ele não está no exagero, revela.

A afinação da narrativa se realizou em dois tons – no recurso ficcional e no projeto gráfico original. “É possível se valer mais de técnicas e noções de ficção para fazer reportagem, sem prejuízo do texto.” Vanessa convocou a ajuda de, entre outros, Truman Capote, Gay Talese, John dos Passos, João do Rio, George Orwell e até do quadrinista Will Eisner. E incluiu um capítulo inventado: Sala de Controle.

Todas as páginas são amarelas, de gramatura mais fina, cuja transparência mais acentuada permite a sobreposição das letras. A leitura às vezes embaralhada lembra o vertiginoso vaivém do local. “O objetivo foi emular a bagunça estética e polifônica do Tietê.” A exceção, dada para a cor azul, fica entre as páginas 145 e 192, sobre a construção, inauguração e consolidação da rodoviária. São os três capítulos históricos, em que o papel é semelhante ao carbono, usado na confecção de bilhetes de ônibus.

Nessas páginas, Vanessa misturou reportagens de época com músicas populares. “Achei a seqüência de acontecimentos tão absurda que precisava de uma trilha sonora à altura”, explica. “Declarações como ‘Não voltam porque eu não vou deixar. Quando for sair, que saiam todos os ônibus’ encaixam exatamente numa letra como ‘Levanta, me serve um café/ Que o mundo acabou’, sem falar de clássicos como ‘Ai, coração alado’.” A vida é mesmo um milagre. E, caso discordem, terão de aceitar ao menos um ponto: ela é uma bela de uma travessia absurda.

Coisas cada vez maiores

Posted: 9th agosto 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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O Verão do Chibo, de Vanessa Barbara e Emilio Fraia, é o primeiro romance dos jovens escritores paulistas. Um livro sobre o poder de inventar suas próprias histórias e as ameaças estrangeiras da vida adulta

O Povo Online
09 Ago 2008 – 01h04min

por Pedro Rocha

Uma ficção escrita a quatro mãos. Vanessa Barbara e Emilio Fraia são os autores d’O Verão do Chibo, o primeiro romance dos dois jovens escritores, nascidos no mesmo e recente ano de 1982, em São Paulo. O livro é um mergulho no universo narrativo infantil. Mas esse adjetivo não cabe aqui no sentido de um segmento editorial destinado às crianças, nem também no que lhe atrela a outros qualitativos como “imaturidade”. O romance de Vanessa e Emilio, pelo contrário, trata do amadurecimento na passagem da infância para a adolescência, e o faz em um estilo coeso, valendo-se das potencialidades da recriação ficcional do “real” pelas crianças.

O livro é narrado pelo caçula de uma turma de quatro amigos que se encontram durante as férias nas casas de veraneio das famílias. O verão instaura um tempo próprio com sua casa na árvore e o milharal, onde eles se ocupam de brincadeiras diversas que se enredam numa história intrincada com espiões, zona proibida, homens de galochas azuis garbosas, um besouro velocista, bebedeiras com água e a Rainha da Bulgária. Mas o referido verão do título marca um novo momento em toda essa história. O irmão do protagonista, o Chibo (os outros amigos são Bruno e Cabelo), está virando homenzinho e nesse ano não participa mais das brincadeiras. Mas essa razão etária não chega a ser suspeitada pelo caçula, que nutre uma profunda admiração pela inteligência aguda de Chibo e, nesse verão, sente uma espécie de orfandade pelo sumiço do irmão.

Os autores também passaram a infância juntos, moraram no mesmo bairro. Depois, se graduaram na mesma faculdade de jornalismo. Colaboradores de revistas como Piauí e Trip, dois dos veículos mais afeitos aos dotes literários do jornalismo, Vanessa e Emilio conseguiram arquitetar uma literatura que não revela as possíveis fissuras de um texto escrito a dois. Principalmente, porque não trata-se de uma narrativa clara, linear, em que as coisas se encadeiam e a trama narrativa, mesmo sendo importante, não é o eixo principal, ao menos não no sentido de um desvelar final.

O Verão do Chibo, mais que contar uma história, as embaralha. A linguagem não se limita ao vocabulário do próprio menino narrador. O texto, rápido, por vezes convulso, vai se entremeando entre memória, descrições, pensamentos, diálogos, sem que essas fronteiras sejam demarcadas. O tempo é impreciso e o espaço, um milharal próximo às casas, é deslocado para distâncias imaginadas como a Bulgária e o alto mar.

SERVIÇO:

O Verão do Chibo, de Vanessa Barbara e Emilio Fraia (Alfaguara, 120 páginas, R$ 23,90).

TRECHO:
“O Bruno tinha os pés afundados na terra e tentava pensar em coisas cada vez maiores, na ordem, até que elas fossem tão grandes que não coubessem mais nas idéias. Então ele deixaria de existir. Porque a gente não morre de ficar parado – não, não pode ser verdade -, a gente morre de explodir a cabeça, de entupir tudo lá dentro, cinco elevado a cem, doze mil novecentos e cinqüenta e quatro, dez vezes um bilhão, até ficar completamente… vazio. Mas era difícil passar de dezessete galáxias, ainda mais com aquele calor. O Bruno não tinha idéia do que podia ser maior que dezessete galáxias com exceção de dezoito (enfileiradas), e não conseguia parar de pensar no isqueiro do Cara Morto”.

http://facesdarte.blogspot.com/
Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

por Thais Brugnara

No ousado livro-reportagem “O Livro Amarelo do Terminal”, Vanessa Barbara conta a história de personagens que ”passam pela página com um enorme fiapo preso aos pés” e detalhes “despercebidos e que não fazem sentido” do Terminal do Tietê.

(O tempo anda em círculos – profetiza Úrsula em “Cem Anos de Solidão”, de García Márquez-. E, como a memória é amante do tempo, às escondidas de nós, eles copulam, enquanto são levados por uma imensa – às vezes, perigosa – roda-gigante.)

Eu lia a Piauí de julho. Precisamente, a reportagem “A cidade das coisas perdidas”. Esse foi o estopim que pôs a memória a fornicar com o tempo na imensa – e, neste caso, inofensiva – roda-gigante. Então, eu lembrei do meu trabalho de conclusão de curso, da complexidade dos não-lugares de Buenos Aires, das poucas horas em que observei a loucura social da rodoviária de São Paulo. Assim, eu soube de “O Livro Amarelo do Terminal” e conheci o trabalho da escritora e jornalista Vanessa Barbara. Enfim, tantas lembranças, mescladas a novas informações, vieram à tona já na primeira volta da roda-gigante, já no primeiro parágrafo de uma página da Piauí.

Transformando a confusão cerebral em método: “A cidade das coisas perdidas” apresenta alguns trechos de “O Livro Amarelo do Terminal”, em que Vanessa Barbara faz um retrato pulsante da maior rodoviária da América Latina: o Terminal do Tietê. A partir de entrevistas, material de arquivo e observação aguçada, Vanessa passa a linha e a agulha por crônicas e relatos. Acaba costurando um livro-reportagem. O texto foi finalizado em 2003, após um ano de apuração, escrita e edição. (Ah,o livro foi resultado do seu projeto experimental de graduação.)

Bem, no meu trabalho de conclusão de curso, sob a orientação do professor Paulo Roberto Araújo, escrevi uma reportagem intitulada “Há vida nos subterrâneos de Buenos Aires”, em que relato o cotidiano do metrô portenho – cheio de cores, cheiros e sons – enfocando a história de vida de quatro pessoas que se cruzam diariamente sem se conhecerem. Para isso, estudei Marc Augé, o antropólogo francês que chamou de “não-lugares” os locais de espera e serviços, onde carecem de sentido as noções de identidade, memória e relação.

Passado um mês da apresentação da minha monografia, estive por duas horas no Terminal do Tietê, puxando conversa com a senhora da limpeza, comendo pão de queijo, tentando adivinhar o que havia nas malas, o que havia nos olhares desconhecidos. Duas horas em que vivenciei a rodoviária como um microcosmo da maior (e mais controversa) cidade do país. Depois, peguei a minha mochila e uma sacola cheia de livros de sebo; enfim, encarei a insana aventura de mais de 20 horas de viagem até Santa Maria.

E, passados outros meses, o tempo, em sua descompassada dança circular, pôs, em minhas mãos, a Piauí de julho e, justamente em frente aos meus olhos, o texto que detalha o cotidiano do Terminal do Tietê. E a memória, ansiosa para convidar o tempo para alguma orgia literária, reconheceu o bom jornalismo, resultado de um olhar que viaja entre tanta coisa pequena. Um olhar que pisca entre latinhas de alumínio, objetos perdidos, escadas. Um olhar que enxerga freiras e surfistas, famílias que passarão o Natal no nordeste, uma senhora que espera a Marinha britânica.

Por e-mail, entrevistei a moça do olhar viajante: Vanessa Barbara, repórter de Piauí, editora do site A Hortaliça (hortifruti.org), escritora (publicou o romance “O Verão do Chibo”, em parceria com Emilio Fraia, pela Alfaguara) e, o que vem ao caso, autora de “O Livro Amarelo do Terminal”.

No seu dia-a-dia, como você exercita o seu olhar? Como trabalha a sua sensibilidade?

Meu olhar sofre de um erro de paralaxe, pois se concentra em detalhes bobos ou reações pequenas. Isso em qualquer situação — quando vou ao mercado, por exemplo, presto atenção num velhinho que anda de galochas e compra cinco embalagens de mortadela. No sábado à noite, me interessam as pessoas que saem de flanela para comprar salsichas.

Sem grandes acontecimentos, “O Livro Amarelo do Terminal” é um retrato da vida que passa diariamente. Ele destaca detalhes do Terminal Rodoviário do Tietê que passam despercebidos. Por que esses detalhes se tornam tão importantes para o relato?

Porque a vida é feita de detalhes despercebidos e que não fazem sentido. Não é uma matéria de jornal com lead, desenvolvimento e conclusão, em que tudo se encaixa e tem um propósito. No Livro amarelo, há pessoas que passam pela página com um enorme fiapo preso aos pés, e é isso.

Além dos detalhes, as pessoas também passam despercebidas em lugares como a rodoviária. Porém, “O Livro Amarelo do Terminal” apresenta um relato humanizado. Como você escolhia, entre uma infinidade de possíveis histórias, os seus entrevistados? Como eram essas entrevistas, ou seja, você dizia que estava fazendo uma reportagem, usava gravador, já tinha uma pauta programada, quais eram as perguntas recorrentes?

Eu chegava, me sentava e puxava conversa. Me apresentava como estudante de jornalismo fazendo um trabalho sobre a rodoviária, usava um bloco cor-de-rosa e tentava anotar algumas frases da pessoa. No segundo ano da faculdade, fiz uma monografia de iniciação científica sobre inclusão digital e usei uma técnica de entrevistas chamada “histórias de vida”, em que o entrevistador tenta interferir o mínimo possível e deixar que a pessoa conduza a conversa. Costuma dar certo. Eu fazia uma ou outra pergunta genérica e a pessoa já ia falando sobre as coisas que importavam, às vezes por horas. Nunca tive pressa de encerrar uma conversa sobre frango com quiabo.

Aliás, você deve ter algumas anedotas interessantes da apuração. Pode contar alguma?

No decorrer do trabalho, tentei desenhar um mapa da rodoviária, no que fracassei estrondosamente. Cheguei a levar uma bússola e, no chão do andar superior, fui abordada por um segurança que me perguntou o que eu fazia com um mapa e uma bússola no chão. Eu respondi: “Olha que engraçado. O Norte antes era pra cá, agora é pra lá. Suspeito, não?”, ele riu, deu as costas e decidiu que eu não era perigosa.

Segundo Marc Augé, rodoviárias são “não-lugares”. Para ele, uma das principais características desses locais é a solidão. Isso porque muitas pessoas dividem o mesmo espaço, mas não se conhecem, quando se comunicam é superficialmente e não se sabe a história de vida dos demais. Como você percebeu isso durante a apuração?

Em 2003, foi essa a conclusão que eu tive com a experiência da rodoviária. Hoje, cinco anos depois, percebo que não é bem assim: a rodoviária é um lugar de encontros. Podem ser breves, tristes, singelos ou aparentemente insignificantes, mas são histórias. A rodoviária é um grande lugar, um rio que corre rápido e fundo, cortando a cidade.

E como é a relação entre os funcionários do Terminal Rodoviário do Tietê com o próprio local?

Depende, há os funcionários como Marcos e Rosângela, que têm uma relação carinhosa com a rodoviária, e há outros como os assessores de imprensa e os supervisores da época, que aparentemente dirigem uma indústria de embutidos com segredo industrial.

Há trechos, publicados na revista Piauí, em que os dados são substituídos por __. Por exemplo, “(…) __ quilômetros de lentidão. A previsão é de __ carros deixem a cidade até amanhã.”. Por quê?

É um gerador automático de reportagens. O repórter de “Cidades” que precisa publicar uma matéria sobre o feriado e quer sair do trabalho mais cedo só precisa preencher com os números e pronto.

O estilo do livro aproxima-se ao Jornalismo Literário. Quais foram os principais recursos estilísticos que você utilizou?

Usei muito diálogo e pouca descrição. Fiz um gerador automático de reportagens, um texto entrecortado por músicas, outro interrompido por vozes que foram se impondo no capítulo, outro puramente inventado, outro com recortes de jornal etc. Tentei usar os melhores expedientes para contar as histórias.

Quais são os autores que inspiraram o livro?

Além de Gay Talese, Joseph Mitchell, Truman Capote, Joel Silveira, Will Eisner, Rubem Braga, Drummond, Luis Fernando Verissimo, George Orwell. Na literatura, Flaubert, Cortázar, Poe, Salinger, Sterne, Kafka, Campos de Carvalho.

Você tem manias para escrever? Alguns rituais?

Tenho que escrever em silêncio e às vezes, para reler, fico de pé, mudo a posição do monitor ou a fonte do texto. Gosto de escrever com serifas.

“O Livro Amarelo do Terminal”
Autora: Vanessa Barbara
Prefácio: João Moreira Salles
Editora: Cosac Naify

* Vale a pena destacar o ousado projeto gráfico, elaborado por Elaine Ramos e Maria Carolina Sampaio.