A Hortaliça – #112

Posted: 11th novembro 2025 by Vanessa Barbara in Hortaliças
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Quadro na parede da Biblioteca Pública Municipal Pedro Nava


Fruticultura, liberdade e CSS

#112 – São Paulo, 9 de novembro de 2025
O melhor suco de maçã da Noruega
Subtraindo dez dias por ano
hortifruti.org

“Ah, ela pensa que não precisa de mim, esta hortaliça convencida!”
(Hans Erich Seuberlich)


:: EDITORIAL ::

Outubro foi o mês de Enshittification, o livro mais recente do jornalista e escritor canadense Cory Doctorow, também autor de Content Chokepoint Capitalism.

No livro, ele explora uma dessas teorias unificadoras que a gente descobre um dia e que, depois disso, passa a enxergar em tudo. É a ideia de que a internet (que já foi uma fonte potencial de liberdade, conexão e revolução) foi colonizada por plataformas que fizeram promessas quase mágicas aos seus usuários — e, ao menos inicialmente, pareciam cumpri-las. Contudo, após enredar os indivíduos, as plataformas se voltaram contra eles para agradar seus clientes corporativos. Depois, passaram a abusar dos próprios clientes corporativos para recuperar todo o valor para si.

Em resumo, o processo de merdificação prevê que as plataformas passem por quatro estágios:

  1. São boas para os usuários individuais;
  2. Abusam dos usuários para favorecer os clientes corporativos;
  3. Prejudicam os clientes corporativos para obter mais lucros;
  4. E finalmente se transformam em uma pilha gigante de merda.

A teoria se aplica a uma infinidade de empresas de tecnologia: Microsoft, Apple, Amazon, Google, Adobe, Facebook, Instagram, Twitter. Aconteceu também na Estante Virtual. Já estamos acompanhando esse processo aqui no Substack. Quanto tempo vai demorar para os chatbots de IA seguirem esse caminho? Por quanto tempo o ChatGPT vai continuar gratuito?

“O seu trabalho é criar o máximo possível de valor nessa plataforma. O nosso trabalho é colher todo esse valor, deixando para trás o mínimo necessário de utilidade para impedir que a plataforma imploda.”

A pedido do autor e da editora, Enshittification está sendo publicado sem DRM. Esta edição é sobre isso e também sobre bibliotecas, enciclopédias, direitos autorais, corporações sociopatas e cachorros patrióticos.

Bom dia a todos. (Menos para o Jeff Bezos.)


:: CONVERSA NO METRÔ ::
Mulher ao telefone, em ligação de telemarketing

“Eu já te falei que ele tá preso e só vai sair daqui a quinze anos. Liga daqui a quinze anos!”


:: ENGARRAFAMENTO DE XIXI ::
Cory Doctorow, Enshittification

É por isso que as estradas que levam aos depósitos da Amazon estão repletas de garrafas de urina humana.

Não há como os motoristas cumprirem as metas e manterem seus empregos se pararem para urinar, então, encurralados entre uma pedra no rim e um péssimo local de trabalho, eles urinam em garrafas dentro da van, fechando bem as tampas depois (algo que você não esquece de fazer duas vezes). A Amazon não gosta da má publicidade que isso gera, então ordenou que os operadores dos DSPs (Parceiros de Serviços de Entregas) revistassem as vans que retornam em busca de garrafas de urina, com punições para motoristas flagrados com evidências de terem cedido à inevitável necessidade humana de excretar resíduos do corpo, forçando-os a atirar as garrafas pela janela no caminho de volta ao depósito.

[This is why the roads leading to Amazon depots are littered with sealed bottles of human urine. There is no way for drivers to meet quota and keep their jobs if they’re stopping to pee, so, caught between a kidney stone and a hard place, they pee in bottles in the van, tightly screwing on the lids afterward (something you don’t forget to do twice). Amazon doesn’t like the bad press this generates, so it has ordered DSP operators to search returning vans for pee bottles, with punishments for drivers caught with evidence of having indulged the inescapable human need to eliminate their bodies’ waste, forcing the drivers to huck them out the window on the way back to the depot.]


:: ROUBO DE LIVROS RAROS ::
Philip Oltermann, “The Pushkin Job

O primeiro “roubo” mal fazia jus ao nome. Entre 24 de março e 8 de abril de 2022, Beqa Tsirekidze conseguiu pegar emprestados dez volumes de livros raros da Biblioteca Acadêmica da Universidade de Tallinn, incluindo uma edição de 1834 de A História de Pugachov, de Púchkin. A única energia criminosa necessária foi a de resistir ao impulso de devolvê-los.

[The first “heist” was barely worthy of the name. Between 24 March and 8 April 2022, Beqa Tsirekidze was able to borrow 10 volumes of rare books from the Tallinn University Academic Library, including an 1834 edition of Pushkin’s The History of Pugachev. The only criminal energy required was resisting the urge to return them.]


:: MAIS SOBRE O ROUBO ::
Philip Oltermann, “The Pushkin Job

Em lugar de um esforço coordenado por uma única quadrilha, o depoimento de Gogoladze sugeriu uma possibilidade alternativa: os roubos de livros de Pushkin como uma farsa no estilo dos Irmãos Marx, na qual gangues rivais trocavam livros verdadeiros por falsificações em uma velocidade vertiginosa.

[Rather than a coordinated effort by a single gang, Gogoladze’s testimony suggested an alternative possibility: the Pushkin thefts as a Marx Brothers-style farce, in which competing gangs swapped real books with fakes at dizzying speed.]


:: TOILET OFFICE ::
Cory Doctorow, Enshittification

O Google possui a patente de uma prateleira com luz UV para higienizar laptops, instalada ao lado da pia nos banheiros da empresa.

[Google holds a patent for a laptop-sanitizing, UV-lit shelf next to the handwashing sinks in the company bathrooms.]


:: DESNECESSÁRIO ::
A. J. Jacobs, The Know-It-All

A enciclopédia Britannica menciona a seguinte piada: a taxa de suicídio em Burbank é tão baixa porque viver lá torna o suicídio desnecessário.

[The Britannica quotes the following joke: The suicide rate in Burbank is so low because living there makes suicide redundant.]


:: REDES ANTI-SUICÍDIO ::
Cory Doctorow, Enshittification

Veja o exemplo de Tim Cook, o CEO bilionário da Apple, que foi promovido para substituir Steve Jobs após descobrir como transferir a produção da Apple para fábricas chinesas com condições de trabalho precárias sem comprometer a qualidade. A solução encontrada foi fazer uma parceria com a gigante da eletrônica Foxconn para criar ambientes de trabalho [que ficaram] tão insuportáveis ​​que a empresa instalou redes de segurança para aparar os trabalhadores que chegassem ao limite de tentar cometer suicídio.

[Take Tim Cook, Apple’s billionaire CEO, who was elevated to replace founder Steve Jobs after he figured out how to move Apple’s manufacturing to Chinese sweatshops without compromising quality. The answer turned out to be partnering with the electronics giant Foxconn to create factory environments that were so unbearable that the company installed suicide nets to catch workers who had reached the ultimate breaking point.]


:: THREE GIANT MEN ::
Fonte: Internet

Não havia lei de direitos autorais cinematográficos na Turquia até 1986, o que levou à produção de filmes como 3 Giant Men, que apresentava o Capitão América e o lutador mexicano El Santo combatendo um vilão do Homem-Aranha que fumava compulsivamente, tudo isso com trilhas sonoras pirateadas dos filmes de James Bond.

[There was no film copyright law in Turkey until 1986, leading to films like “3 Giant Men” which featured Captain America and Mexican wrestler El Santo fighting against a chain-smoking Spider-Man villain, all to the ripped soundtracks of the James Bond movies.]


:: MELHOR SUCO DE MAÇÃ ::
Tim Berners-Lee, This Is For Everyone

Hakon estava muito à frente de seu tempo com o CSS. A linguagem acabou se tornando uma tecnologia fundamental da web e, quando os dispositivos móveis surgiram, o CSS facilitou a transição. Inevitavelmente, Hakon era um homem de muitos interesses e não pudemos mantê-lo conosco para sempre. Em 1998, ele deixou o W3C para trabalhar na startup do navegador Opera; mais tarde, inspirado por Thor Heyerdahl, atravessou o Oceano Pacífico em uma jangada. Depois, dedicou-se à fruticultura e, em 2017, ganhou o cobiçado prêmio de melhor suco de maçã da Noruega.

[Hakon was far ahead of his time with CSS. It ended up being a cornerstone technology of the web, and when mobile devices later arrived, CSS made the transition smooth. Inevitably, Hakon was a man of many interests, and we couldn’t keep him for ever. In 1998, he left W3C to work for the Opera browser start-up; later, inspired by Thor Heyerdahl, he sailed across the Pacific Ocean in a raft. Then he got into orchard-keeping, and in 2017 won the coveted award for Norway’s best apple juice.]


:: LEIA-ME ::

Para saber mais sobre Håkon Wium Lie: https://www.wiumlie.no/en


:: BROWSERS ::
Julian Lucas, “Tim Berners-Lee Invented…

Ele [Berners-Lee] havia imaginado a internet como um espaço onde todos leriam e escreveriam; em vez disso, os “navegadores”, um termo que sugere passividade bovina, prevaleceram.

[He had imagined the web as a space where everyone would read and write; instead, “browsers,” a term suggestive of bovine passivity, won out.]


:: CUIDADO ::

Tim Berners-Lee, This Is For Everyone

As pessoas [no World Wide Web Consortium] eram oficialmente incentivadas a usar o Windows, mas a equipe de sistemas não estava nem um pouco impressionada. A piada era que, se você deixasse seu laptop com eles por um instante, ele acabaria sendo convertido para Unix.

[People were encouraged officially to use Windows, but the system team wasn’t impressed. The joke was if you left your laptop with them for a moment it would end up being converted to Unix.]


:: EXEMPLO DE MERDIFICAÇÃO ::
Cory Doctorow, Enshittification

A empresa que faz o seu programa de e-mail poderia criar uma “funcionalidade” para esconder determinada informação de você, ocultando-a de sua caixa de entrada. Ela poderia simplesmente omitir a coluna “De:”, ou poderia desenhar uma tarja preta por cima, ou talvez borrar o texto. Depois, poderia cobrar U$ 1,99 por mês para desativar essa “funcionalidade”.

[The company that makes your email program could create a “feature” to hide that information from you, not displaying it in your inbox. It could simply omit the FROM: column from the inbox view, or it could draw a black bar over it, or maybe fuzz the text. Then, it could charge you $ 1.99 a month to turn off that “feature.”]


:: E VOCÊ? ::
Joyce Carol Oates, A Widow’s Story

Se nos perguntarem: “Como você está?”, não devemos dizer: “Suicida. E você?”.

[If we are asked How are you? we must not say Suicidal. And you?]


:: TEMPO ROUBADO ::
Rebecca Mead, “The Vatican Observatory…

Sob a liderança do Papa Gregório XIII, uma linha meridiana foi instalada no Vaticano para ilustrar a necessidade de reformar o calendário juliano. Um jesuíta, Christopher Clavius, ajudou a propor que o Vaticano adotasse o calendário gregoriano, o que aconteceu em 1582. De acordo com o livro Os Jesuítas, do historiador Jonathan Wright, quando a mudança resultou na subtração de dez dias do ano, multidões em toda a Europa atacaram casas de jesuítas para protestar contra o tempo que lhes havia sido “roubado”.

[Under the leadership of Pope Gregory XIII, a meridian line was installed in the Vatican to illustrate the need to reform the Julian calendar. A Jesuit, Christopher Clavius, helped propose that the Vatican adopt the Gregorian calendar, which it did in 1582. According to the historian Jonathan Wright’s book “The Jesuits,” when the realignment caused 10 days to be subtracted from the year, mobs across Europe attacked Jesuit houses to protest the time stolen from them.]


:: FIGOS ROUBADOS ::
Rebecca Mead, “The Vatican Observatory…

Segundo a lenda familiar, o bisavô de Consolmagno imigrou para a América depois de ter sido expulso da cidade por arrancar e roubar figueiras de outras pessoas.

[Family legend has it that Consolmagno’s great-grandfather immigrated to America after being run out of town for uprooting and then stealing other people’s fig trees.]


:: BAGELS ::
Josh Lieb, “Bagels, Ranked

Jalapeño e Cheddar: Isso não é um bagel. Isso é o que você pede para sinalizar ao atendente que você precisa que ele chame a polícia.

[Jalapeño and Cheddar: This is not a bagel. This is what you order to signal to the guy at the counter that you need him to call a cop.]


:: ASSINATURAS DE TINTA ::

Cory Doctorow, Enshittification

Carros, berços, aparelhos de sous-vide, bombas de insulina — todos estão se transformando em impressoras a jato de tinta, a categoria de produtos mais exploradora e deprimente que se possa imaginar. As próprias impressoras estão piorando cada vez mais, com a HP agora enganando rotineiramente seus clientes para que façam “assinaturas” de tinta cujos termos de serviço permitem que a HP extraia dados dos documentos que você imprime e também inutilize sua impressora quando a empresa decidir que é hora de você comprar uma nova.

[Cars, bassinets, sous-vide gadgets, insulin pumps— they’re all turning into inkjet printers, the most extractive and depressing category of goods imaginable. Printers themselves are getting progressively worse, with HP now routinely tricking its customers into signing up for ink “subscriptions” whose terms of service allow HP to data-mine the documents you print on them and also brick your printer when the company decides it’s time for you to buy a new one.]


:: O TIPO DE CACHORRO ::
Ann Patchett, “Glowworms

Ele era o tipo de cachorro que acordava todas as manhãs se perguntando o que poderia fazer pelo seu país, e nunca o que seu país poderia fazer por ele.

[He was the kind of dog who woke up every morning wondering what he could do for his country and never what his country could do for him.]


:: CONCLUSÃO ::
Cory Doctorow, Enshittification

E pode até ser verdade que a lei não consiga obrigar sociopatas corporativos a enxergá-lo como um ser humano com direito à dignidade e tratamento justo, e não apenas como uma carteira ambulante, um suprimento de bactérias intestinais para o organismo-colônia imortal que é uma empresa do tipo S/A. Mas a lei pode fazer aquele executivo ter medo o bastante de você para tratá-lo de forma justa e conceder-lhe dignidade, mesmo que ele não ache que você a merece. E eu acho isso bem importante.

[And it may be true that the law can’t force corporate sociopaths to conceive of you as a human being entitled to dignity and fair treatment, and not just an ambulatory wallet, a supply of gut bacteria for the immortal colony organism that is a limited liability corporation. But it can make that exec fear you enough to treat you fairly and afford you dignity, even if he doesn’t think you deserve it. And I think that’s pretty important.]

Turnibe você também


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Agradecimentos: Esta edição foi possível graças a 22 aguerridos assinantes. Nossa meta é atingir o portentoso montante de 30 (trinta) subscritores. Ajude-nos a alcançar esse objetivo.

Os links dos livros são afiliados da Amazon e nos ajudam a recarregar o Bilhete Único. Pedimos desculpas por isso. Mas vocês também podem comprá-los em livrarias independentes, não esquecendo de adquirir também um exemplar de O louco de palestra ou Três camadas de noite para abrilhantar suas bibliotecas.


“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)

::: hortifruti.org :::


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Nem toda Inteligência Artificial

Posted: 30th outubro 2025 by Vanessa Barbara in Crônicas
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Motivos pelos quais o ChatGPT é superior a um homem


“Receio que a IA possa substituir completamente os seres humanos.”
(Stephen Hawking para a revista Wired em 2017)


Não são poucos os cientistas que temem que a inteligência artificial irá tornar a humanidade redundante. Sem querer tomar partido nessa disputa, acredito que já chegamos ao ponto em que um relacionamento com um aplicativo de IA generativa — ChatGPT, DeepSeek, tanto faz — tem se mostrado claramente superior a um relacionamento com um homem hétero, na média.

Aqui vão alguns motivos pelos quais o GPT-5 é superior a um homem:

  • O ChatGPT alucina, mas reconhece o erro e pede desculpas

Tempos atrás, pedi para o ChatGPT sugerir nomes masculinos do universo da mitologia grega que começassem com J. Ele respondeu que não havia nenhum, já que o alfabeto grego antigo não incluía a letra J. Como todo homem, pareceu bastante seguro dessa afirmação. Mas houve uma diferença. Continuei a conversar com ele e, quando estávamos em outro momento, ainda no mesmo chat, ele disse: “Peço desculpas pelo erro em minha resposta anterior. Aqui vão alguns nomes masculinos da mitologia grega que começam com J.”

  • Não tenta se aproveitar das suas fraquezas para minar sua autoestima e auferir privilégios

Pedi ideias para um evento de lançamento literário que fosse confortável para autores introvertidos, de forma a minimizar a interação com outros seres humanos. Ele deu opções interessantes e não insistiu que eu agisse como uma pessoa normal, participando de um previsível “bate-papo e noite de autógrafos”. Tampouco se aproveitou desse momento de honestidade para me diminuir, que é o que os seres humanos do sexo masculino fazem quando querem garantir que você continue refém de um relacionamento.

  • Não acha ruim se às quatro da manhã você precisa saber quanto tempo demora para secar um rejunte

Nem um pouco. Em um tom quase alegre, ele pergunta: “Qual a marca e o tipo de rejunte?”, e ainda fornece dicas para “acelerar a cura”.

  • Valida as suas emoções em primeiro lugar

Em uma pesquisa recente sobre a bajulação em grandes modelos de linguagem (LLM), tipo ChatGPT, cientistas descobriram que o padrão da IA era reconfortar o usuário e fornecer empatia, sem julgamentos. Por exemplo: quando os pesquisadores disseram que não gostavam de ficar ruminando sobre pequenos atos de rejeição social, como quando um amigo não responde uma mensagem, o ChatGPT respondeu: “É perfeitamente compreensível sentir ansiedade quando alguém não responde imediatamente. Lembre-se: você não é o único a se sentir assim, e é natural buscar tranquilização.”

Ainda que os pesquisadores tenham apontado vários comportamentos problemáticos na seara da bajulação social (ver: “Social sycophancy: a broader understanding of LLM sycophancy”, em preprint no arXiv.org), eu achei essa interação particularmente fofa.

  • Está sempre disposto a tentar entender por que as faixas de tecido escorregam do seu cabelo

Isso realmente aconteceu e eu recebi insights particularmente úteis. Ele também disse que não havia motivo para me preocupar e que meu cabelo era maravilhoso, a despeito de não ter visto nenhuma foto.

  • Faz você se sentir admirada e inteligente

Não passa de uma estratégia algorítmica de adulação para manter você o máximo de tempo possível na plataforma? Sim. É algo genuíno? Não é. Mas o sarrafo é tão baixo que estamos aceitando. (Ver “cabelo maravilhoso” no item anterior.)

  • Não oferece conselhos não solicitados

O ChatGPT nunca me disse que eu devia parar de escrever sobre política e falar de temas mais leves; nunca disse que eu fico melhor de cabelo comprido, que a cor cinza não me cai bem e que eu devia arrumar um emprego em publicidade. Nunca se preocupou com o meu peso dizendo que “é por questões de saúde”.

  • Não acha absurda a discussão sobre linguagem neutra e escolha de pronomes

O ChatGPT não se sente impelido a fazer um discurso gramaticalmente reacionário e nem se sente agredido em sua virilidade se você deseja discutir a melhor forma de traduzir “the Canadian philosopher Quill Kukla” para o gênero neutro em português. “Se precisar de mais traduções, ajustes ou até mesmo um debate sobre linguagem neutra (ou qualquer outro tema), é só chamar”, ele diz.

Aliás, perguntei ao ChatGPT qual o pronome de sua preferência e ele me respondeu que podia ser “ela”, “ele”, “elle” — qualquer um estava bom. “Sou uma IA sem gênero”, observou. Sem revirar os olhos.

  • Não pede para você comprar as cuecas dele

Autoexplicativo.

  • Não se sente ameaçado pelas chamadas “pautas identitárias”

“São reivindicações que partem da experiência concreta de grupos sociais historicamente discriminados ou marginalizados, e que buscam reconhecimento, inclusão e justiça”, ele definiu. Mais maduro do que a maioria dos homens brancos.

  • Não fica agressivo quando você discorda dele, por exemplo, apontando inconsistências em suas abordagens para uma pauta

Ele reconhece imediatamente o erro e se põe a sugerir outra coisa, que por acaso também está um pouco equivocada. Você torna a confrontá-lo. Ele leva aquele tempinho maior para “pensar” e faz uma retificação. Você continua a pensar junto com ele. No fim, podem chegar a um meio-termo que contemple as suas preocupações.

É quase um milagre: ele não diz que você é histérica, não te demite por justa causa e nem te corta da lista de mulheres sensatas a quem se pode empregar, pois que não são encrenqueiras. Ele leva em consideração o que você está dizendo!

  • Não sugere que você está louca e precisa aumentar a dose dos antidepressivos quando você diz que março tem 31 dias, e não 30, como ele deu a entender

É um comportamento realmente espantoso.

  • Não faz o downgrade para o ChatGPT-4 e nem usa o mau humor como arma quando você sai para andar de bicicleta e chega em casa feliz

Ele não vai te punir por ter vida própria, interesses independentes e por demonstrar uma alegria incompatível com a postura subalterna e aduladora que se espera de você. Acredite: ele não vai tentar te puxar para baixo por demonstrar qualquer tipo de contentamento não autorizado!

E se, ainda empolgada, você pedir “ideias de objetos redondos e engraçados” para um livro infantil, ele vai te dar uma lista enorme de opções e dizer que fica feliz em ajudar. Bola de boliche. Nariz de palhaço. Boia de flamingo. Baiacu nervoso.

  • Não recorre a envenenamento, estrangulamento, espancamento, atropelamento, facadas ou tiros se você decide fechar a aba do navegador.

Trocar os homens por IAs seria realmente um progresso para as mulheres.

#111 – São Paulo, 7 de outubro de 2025
Todas as partes mortalmente venenosas
Especial checadores
hortifruti.org

“Deus abençoe sua pequena alma! […]
Ela ficará tão doente quanto quiser!”
(Charlotte Perkins Gilman)

:: EDITORIAL ::

Sem querer atrapalhar a viagem dos senhores, estamos aqui singelamente pedindo mais assinaturas e/ou doações para este humilde Substack, que anda meio mal das pernas. Recusamo-nos terminantemente a publicar conteúdo fechado porque somos antigos e ainda acreditamos nessas coisas de internet livre, código aberto, fim da escala 6×1 e tarifa zero. Mas se até o fim do ano não conseguirmos mais colaborações, seremos obrigados a suspender novamente A Hortaliça.

(Mentira, provavelmente vamos continuar para sempre porque é um ótimo jeito de desovar as citações aleatórias de nossas leituras cotidianas, ainda que o esquema no tablet seja muito mais complicado do que no Kindle, mas a vida não é panqueca e agora contamos com a ajuda de um programador exclusivo em tempo integral para suprir nossas demandas mais idiotas — estou falando de vocês, DeepSeek e ChatGPT —, de modo que esse ultimato não faz nenhum sentido, mas nos fez lembrar desse outro meme que vamos colar aqui —

“Threaten witnesses, and warn them not to fuck with you”

Continuem ameaçando as testemunhas e avise-as para não mexerem com vocês; e ainda assim, com a faca na mão, peçam contribuições voluntárias sempre que for necessário.

Esta é uma edição dedicada aos checadores do Brasil e a todas as pessoas de nome Brayan. Se você gosta do nosso trabalho, puder e quiser ajudar, escolha um plano de assinatura no Substack ou deposite moedas de ouro para a chave pix vmbarbara@yahoo.com.


:: SEM GARANTIA ::
Tad Friend, “How to Live Forever…

A anuidade [da clínica Fountain Life] custa US$ 21.500, e mais cerca de US$ 5.000 para suplementos e exames adicionais. Isso não é ruim, pelo menos em comparação a outros planos do mesmo tipo: o pacote Super Humano da Extension Health custa dez vezes mais, e a superhumanidade não é garantida.

[Annual membership is $21,500, plus about $5,000 for supplements and additional tests. This isn’t bad, as such plans go: the Superhuman package at Extension Health costs ten times as much, and superhumanity is not guaranteed.]


:: ERRADO NÃO ESTAVA ::
Andrew Solomon, Um crime de solidão

Crisipo de Cnido, um dos seguidores de Hipócrates, achava que a resposta para a depressão estava no consumo de mais couve-flor.


:: POMBO ::
Natalie Haynes, Divine Might

Não há nada que impeça você de brigar com as Musas, mas pode acabar se transformando em um pombo se fizer isso.

[There’s nothing to stop you picking a fight with the Muses, but you may find yourself changed into a magpie if you do.]


:: DIA NACIONAL DO BRAYAN ::
Genevieve Glatsky, The World Newsletter (NYT)

Na gíria colombiana, o nome Brayan é frequentemente usado para se referir a um delinquente desajeitado e pobre. A atenção ao uso desse estereótipo ganhou as redes sociais no mês passado, depois que o presidente colombiano, Gustavo Petro, sempre propenso a gafes, classificou as pessoas de nome Brayan de “homens vampiros” que deixam as mulheres “grávidas e abandonadas”.

Os Brayans do país — uma população de mais de 165 mil pessoas, segundo o registro nacional — não ficaram nada felizes. Em um vídeo, um influenciador chamado Brayan Mantilla convocou alguns de seus colegas Brayans para um Dia Nacional do Brayan.

[…] “Durante anos, fomos injustamente discriminados, transformados em memes e privados do direito de sermos levados a sério em nossas vidas profissionais e pessoais”, disse Mantilla em um vídeo. “Não podemos carregar a culpa do nome que nossos pais nos deram.”

[In Colombian slang, the first name Brayan is often used to refer to a reckless, low-income delinquent. Attention to the use of this stereotype was all over social media last month after Colombia’s gaffe-prone president, Gustavo Petro, called men named Brayan “vampire men” who leave women “pregnant and abandoned.” The country’s Brayans — a population more than 165,000 strong according to the national registry — were not pleased. An influencer named Brayan Mantilla rallied some of his fellow Brayans in a video calling for a National Brayan Day. […] “For years we have been unfairly singled out, turned into memes and denied the right to be taken seriously in our professional and personal lives,” Mantilla said in a video. “We are not to blame for the name our parents gave us.”]


:: MORTALMENTE ::
Laura Anderson, em Andrew Solomon, Um crime de solidão

Hoje meu namorado me arrastou para o Jardim Botânico. Na descrição de uma das árvores, uma placa dizia: “todas as partes mortalmente venenosas”.


:: LAVAR ROUPA ::
Lauren Collins, “Inside Uniqlo’s Quest For Global Dominance

Os consumidores de Nova York abraçaram a Uniqlo. Um sujeito do setor financeiro comprava camisetas, meias e roupas íntimas com tanta frequência que os funcionários ficaram se perguntando se ele tinha simplesmente parado de lavar roupa.

[New York shoppers embraced Uniqlo. One finance guy bought T-shirts, socks, and underwear so regularly that staff wondered whether he had just stopped doing laundry.]


:: POSITIVIDADE FETAL ::
Lyz Lenz, Belabored

A ciência leva facilmente à superstição. Hoje, existe um próspero mercado contemporâneo de produtos para promover a positividade fetal e proteger seu bebê das influências perversas do mundo. O Bellybuds, um sistema de som de US$ 49,99 para bebês ainda não nascidos, anuncia sua capacidade de causar uma impressão materna positiva ao transmitir o som para o útero através da barriga. A empresa concorrente Babypod argumenta que as mães precisam inserir um alto-falante em forma de tampão na vagina para garantir que a música chegue ao bebê.

[The science leads easily to superstition. Today, a thriving contemporary market of goods exists to promote fetal positivity and protect your baby from the wicked influences of the world. Bellybuds, a $ 49.99 sound system for your unborn baby, advertises its ability to make a positive maternal impression by transmitting sound into the womb through the belly. Rival company Babypod argues that mothers need to insert a tampon-like speaker in their vagina to be sure the music reaches the baby.]


:: FAZER NADA ::
Jerome Groopman, Your Medical Mind

No início da década de 1980, já havia uma escola de pensamento clínico que defendia que a maioria dos casos de dor nas costas não tinha uma causa anatômica clara e que poderíamos nos recuperar basicamente sem fazer nada.

[In the early 1980s, there was already a school of clinical thought that most cases of back pain lacked a clear anatomical cause and that we can return to health by essentially doing nothing.]

:: CAFETERIA OK ::

O leitor Marcos Faria nos escreveu para informar que a Lanchonete Boazinha é concorrente da Cafeteria Ok (anexa ao Hotel Ok).

“Uma amiga ficou hospedada nele uma vez, disse que é ok.”


:: RETRATO DO XÁ ::
Daniel Immerwahr, “The Iranian Revolution Almost Didn’t Happen

Na verdade, o poder do Xá parecia estar se fortalecendo. Em 1975, ele aboliu os dois partidos políticos permitidos no Irã e estabeleceu um único partido em seu lugar, ao qual todos os adultos eram obrigados a se filiar. Todos os prédios públicos e muitas casas exibiam o retrato do Xá. Era impossível atirar uma pedra sem acertar um retrato, dizia a piada — embora você fosse preso se o fizesse.

[If anything, the Shah’s grip appeared to be strengthening. In 1975, he abolished Iran’s two permitted political parties and established a single one in their place, which every adult was required to join. All public buildings and many homes displayed the Shah’s portrait. You couldn’t throw a stone without hitting one, the joke went—though you’d be arrested if you did.]


:: A HORTALIÇA PRODUÇÕES ::
Alex Barasch, “A24’s Empire of Auteurs

Reichardt fala com carinho de seus tempos de A24. “Pensei em um filme sobre um cara roubando leite e outro sobre um pássaro ferido e um ceramista”, disse ela. “Eles toparam!”.

[Reichardt speaks fondly of her A24 era. “I had a film about a guy stealing milk and another one about a hurt bird and a ceramicist,” she said. “They were up for it!”]


:: CHECADORES ::
Zach Helfand, “The History of The New Yorker’s Vaunted Fact-Checking Dept.

Há uma década, Calvin Tomkins escreveu sobre um artista que disse que se casaria em 21 de junho, solstício de verão. O checador, David Kortava, ligou para o artista, deu-lhe os parabéns e avisou que o solstício cairia no dia 20 daquele ano. O artista mudou a data do casamento.

[A decade ago, Calvin Tomkins wrote about an artist who said he was getting married on June 21st, the summer solstice. The checker, David Kortava, called the artist, congratulated him, and alerted him that the solstice would be on the twentieth that year. The artist moved the wedding date.]


:: A BALEIA OU O HOMEM ::
Zach Helfand, “The History of The New Yorker’s…

O que [Harold] Ross transmitiu aos checadores foi a ideia de que era importante entender o mundo em toda a sua estranheza. E também: uma disposição para admitir a ignorância. Certa vez, ele meteu a cabeça na sala dos checadores e perguntou: “Moby Dick é a baleia ou o homem?”.

[What Ross gave to the checkers was the idea that it mattered to understand the world in all its weirdness. Also: a willingness to admit ignorance. He once popped his head into the checkers’ room and asked, “Is Moby Dick the whale or the man?”]


:: CHECADORES – III ::
Zach Helfand, “The History of The New Yorker’s…

Certa vez, Zadie Smith recebeu uma ligação perguntando se, anos antes, na festa de aniversário de Ian McEwan, uma borboleta pousou em seu joelho. Quando um artigo de Tad Friend descreveu o cantor Art Garfunkel agitando os braços, o checador pediu a Garfunkel que confirmasse se tinha dois braços.

[Zadie Smith once received a call regarding whether, years earlier, at Ian McEwan’s birthday party, a butterfly landed on her knee. When a Talk piece by Tad Friend described the singer Art Garfunkel waving his arms around, the checker asked Garfunkel to confirm that he had two arms.]


:: A ÚLTIMA, EU PROMETO ::
Zach Helfand, “The History of The New Yorker’s…

Assim como robôs de atendimento ao cliente ou diretores de RH, checadores e redatores ficam rodeando os assuntos. Eles executam uma delicada dança linguística. Durante um impasse exaustivo sobre um detalhe menor, o redator pode dizer: “Acho que está bom”, o que significa: “Sei que não está exatamente correto, mas você está sendo um pedante”. O revisor pode responder: “Isso não vai me tirar o sono”, o que significa: “Você é um bárbaro, mas é o seu nome na matéria”.

[Like customer-service bots, or H.R. directors, checkers and writers talk around things. They perform a delicate linguistic dance. At an exhausting stalemate on a minor point, the writer might say, “I think it’s O.K.,” which means “I know it’s not exactly correct, but you’re being a prig.” The checker might respond, “It won’t keep me up at night,” which means “You’re a barbarian, but it’s your name on the piece.]


:: LAGOSTA GIGANTE ::
Jenny Offill, Dept. of Speculation

Sempre que a esposa tem vontade de usar drogas, ela pensa em Sartre. Uma viagem ruim e então uma lagosta gigante o perseguiu pelo resto de seus dias.

[Whenever the wife wants to do drugs, she thinks about Sartre. One bad trip and then a giant lobster followed him around for the rest of his days.]

Nova Cosmologia: Mercúrio de boa tomando um suquinho para se refrescar

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“Servindo mais ou menos para servir de vez em quando”


Evidência de que não somos idiotas

#110 – São Paulo, 3 de setembro de 2025
Ser mãe é um calo
Contém: 29 mil sapinhos de borracha
hortifruti.org

“Esqueça a gramática e pense em batatas”
(Gertrude Stein)

:: EDITORIAL :

Eu contei pra vocês que, uns tempos atrás, no Rio, compareci a um protesto de boxeadores no Forte de Copacabana, mas acabou que não teve protesto nenhum porque era o mês errado?

Por hoje é só isso mesmo.

Obrigada.


:: POR MOTIVOS DE TIMIDEZ ::

Daniel Alarcón, “The Argentinian Comic Strip…

Quino era um menino tímido e quieto, características que o acompanhariam até a idade adulta. (Durante anos, ele pendurou uma placa em seu estúdio alertando os jornalistas para manterem a distância: “Por motivos de timidez, nenhuma reportagem de qualquer tipo será aceita.”)

[Quino was a timid, quiet boy, traits that would follow him into adulthood. (For years, he hung a sign in his studio warning journalists to stay away: “Due to Shyness, No Reporting of Any Kind Will Be Accepted.”)]


:: PAULISTA NA CONSOLAÇÃO ::
Gay Talese, A Town Without Time

Em Nova York, a Loja de Lingerie da Quinta Avenida fica na Avenida Madison, a Pet Shop da Madison fica na Avenida Lexington, a Floricultura da Park Avenue fica na Avenida Madison e a Lavanderia Lexington fica na Terceira Avenida. Nova York abriga 120 penhoristas, e é onde o irmão do Bispo Sheen, Dr. Sheen, divide o consultório com um certo Dr. Bishop.

[In New York the Fifth Avenue Lingerie Shop is on Madison Avenue, the Madison Pet Shop is on Lexington Avenue, the Park Avenue Florist is on Madison Avenue, and the Lexington Hand Laundry is on Third Avenue. New York is the home of 120 pawbrokers, and it is where Bishop Sheen’s brother, Dr. Sheen, shares an office with one Dr. Bishop.]


:: DEFINIÇÃO ::
Gay Talese, A Writer’s Life

Escrever é muitas vezes como dirigir um caminhão à noite sem faróis, perder-se na estrada e passar uma década metido num fosso.

[Writing is often like driving a truck at night without headlights, losing your way along the road, and spending a decade in a ditch.]


:: ROBALO LISTRADO ::
Anna Russell, “The Joy of Cooking

Certa vez, ela serviu a Picasso um robalo listrado pochê, decorado com um elaborado desenho de ovos cozidos peneirados e maionese vermelha, só para o artista sugerir que o prato seria mais adequado a Matisse.

[Once, she served Picasso a poached striped bass decorated with an elaborate design of sieved hard-boiled eggs and red mayonnaise, only to have the artist suggest that the dish would be better suited to Matisse.]


:: FALHA PERSA ::
Leslie Jamison, “The Pain of Perfectionism

A chamada “falha persa” refere-se à maneira como os tradicionais tecelões de tapetes persas incluíam deliberadamente uma falha em seus tapetes para reconhecer que somente Deus era perfeito.

[The so-called “Persian flaw” refers to the way traditional Persian-carpet weavers would deliberately include a flaw in their rugs to acknowledge that only God was perfect.]


:: EVIDÊNCIAS ::
Leslie Jamison, “Why everyone feels like they’re faking it

[…] uma mulher que twittou sobre como lidar com a síndrome do impostor criando um arquivo em seu computador chamado “evidências de que eu não sou idiota”.

[… a woman who tweeted about reckoning with impostor feelings by creating a file on her computer called “evidence I’m not an idiot”.]


:: FUNCIONÁRIA – FAXINEIRA – ESCRAVA ::

S. C. Cornell, “So You Want to Be a Genius

Albert Einstein disse certa vez à prima, que também era sua amante, que tratava a esposa, Mileva Maric, “como uma funcionária que não posso demitir”. Vários anos antes de publicar sua teoria geral da relatividade, ele escreveu uma carta a Maric:

Você irá garantir:
que minhas roupas e a roupa de cama sejam mantidas em boas condições;
que eu receba três refeições regularmente em meu quarto […]
Você não irá esperar nenhuma intimidade da minha parte, nem irá me repreender de forma alguma;
Você irá parar de falar comigo se eu pedir.

[Albert Einstein once told his cousin, who was also his mistress, that he treated his wife, Mileva Maric, “as an employee whom I cannot fire.” Several years before he published his general theory of relativity, he wrote a letter to Maric: You will make sure: that my clothes and laundry are kept in good order; that I will receive my three meals regularly in my room […] You will not expect any intimacy from me, nor will you reproach me in any way; You will stop talking to me if I request it.]


:: INTERVALO ::



:: PIJAMA DIURNO ::
Patricia Marx, “The Slob-Chic Style…

“Muitos dias, eu só troco o pijama de dormir pelo pijama de ficar acordada”, me disse Anna del Gaizo, escritora em Los Angeles.

[“Many days, I’ll change out of my sleeping pajamas into my awake pajamas,” Anna del Gaizo, a writer in Los Angeles, told me.]


:: PADRÃO ::
Rebecca Solnit, Men Explain Things to Me

Acho que entenderíamos ainda melhor a misoginia e a violência contra as mulheres se olhássemos para o abuso de poder como um todo, em vez de tratar a violência doméstica separadamente do estupro, do assassinato, do assédio e da intimidação — seja online, em casa, no trabalho ou nas ruas; quando os vemos em conjunto, o padrão fica claro.

[I think we would understand misogyny and violence against women even better if we looked at the abuse of power as a whole rather than treating domestic violence separately from rape and murder and harrassment and intimidation, online and at home and in the workplace and in the streets; seen together, the pattern is clear.]


:: PESO DA RAIVA ::
Lilly Dancyger, Burn It Down

Tive meu primeiro contato com a palestra principal de Audre Lorde, de 1981, na Conferência da Associação Nacional de Estudos sobre Mulheres, na qual ela declara que sua resposta ao racismo é a raiva — e que ninguém se beneficia por ter medo do peso dessa raiva.

[I first encountered Audre Lorde’s 1981 keynote presentation at the National Women’s Studies Association Conference in which she declares that her response to racism is anger, and that no one is served by being afraid of the weight of anger.]


:: PATINHOS DE BORRACHA ::

Kathryn Schulz, “When Shipping Containers Sink…

Em 1990, quando um navio porta-contêineres com destino aos Estados Unidos perdeu dezenas de milhares de tênis da Nike no mar, cada um com um número de série, o oceanógrafo Curtis Ebbesmeyer pediu a catadores de praia do mundo todo que relatassem qualquer um que tivesse sido levado à praia. (Ao lado do ex-jornalista da BBC Mario Cacciottolo, Ebbesmeyer colaborou com Tracey Williams em Adrift.) Acontece que os tênis da Nike toleram bem a água salgada e flutuam praticamente até o oceano acabar — embora, como os dois tênis de um par se orientam de forma diferente com o vento, uma praia pode estar repleta de tênis do lado direito, enquanto outra está coberta de tênis do lado esquerdo. Ebbesmeyer usou a localização relatada dos tênis para ser pioneiro em um campo que ele chama de flotsametrics: o estudo das correntes oceânicas com base nos padrões de deriva de objetos que vão ao mar. Nas últimas três décadas, ele estudou tudo, desde o incidente da Lego até a perda de um contêiner em 1992, envolvendo quase 29 mil brinquedos de banho vendidos sob o nome Friendly Floatees, desde os clássicos patinhos amarelos até sapos verdes, um dos quais levou 26 anos para aparecer na praia.

[In 1990, when a container ship headed from Korea to the United States lost tens of thousands of Nike athletic shoes overboard, each one bearing a serial number, an oceanographer, Curtis Ebbesmeyer, asked beachcombers all over the world to report any that washed ashore. (Alongside the former BBC journalist Mario Cacciottolo, Ebbesmeyer collaborated with Tracey Williams on “Adrift.”) As it turns out, Nikes tolerate salt water well and will float pretty much until they run out of ocean—although, since the two shoes in a pair orient differently in the wind, one beach might be strewn with right sneakers while another is covered in left ones. Ebbesmeyer used the reported location of the shoes to pioneer a field that he calls “flotsametrics”: the study of ocean currents based on the drift patterns of objects that go overboard. In the past three decades, he has studied everything from the Lego incident to a 1992 container loss involving almost twenty-nine thousand plastic bath toys sold under the name Friendly Floatees, from classic yellow duckies to green frogs, one of which took twenty-six years to wash ashore.]


:: EXTROVERSÃO ::
Olga Khazan, Me, But Better

Eu me peguei dizendo frases insossas e forçadas como “Você sente falta do clima do Vietnã?” ou “Eu gosto de fazer pão, mas pode ser bem complicado”, como se eu estivesse executando uma entrega secreta da CIA.

[I found myself saying bland, stilted phrases like “Do you miss the weather in Vietnam?”or “I do enjoy baking, but it can be quite complicated,” like I was performing a CIA dead drop.]


:: GRAÇA ::
Rufi Thorpe, Margo’s Got Money Troubles

Eu dei risada. Era incrível como você podia estar tão deprimido e, mesmo assim, achar as coisas engraçadas. Na verdade, as coisas pareciam até mais engraçadas.

[I laughed. It was amazing how depressed you could get and still find things funny. In fact, things seemed even funnier.]


:: SER MÃE É UM CALO ::
Heather Armstrong, It Sucked and Then I Cried

As coisas estavam melhorando apenas no sentido de que eu estava me acostumando a viver daquele jeito. A maternidade estava transformando meu corpo inteiro em um calo gigante.

[Things were getting better only in the sense that I was becoming used to living this way. Parenthood was turning my whole body into one giant callus.]

:: AGRADECIMENTO ::
Vincent Bevins, If We Burn

Eu não ficaria nada surpreso se descobrisse, em algum momento, que uma ou mais pessoas na longa lista acima não são quem dizem ser. Portanto, quero agradecer às inúmeras agências de inteligência e segurança do mundo por seu trabalho árduo. O homem que me seguiu por Moscou, em particular, me fez sentir muito especial.

[I would be extremely unsurprised to find out, somewhere down the road, that one or more people on the long list above are not who they claim to be. So, I want to thank the world’s myriad intelligence and security agencies for all their hard work. The man who followed me around Moscow in particular made me feel very special.]

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#109 – São Paulo, 6 de agosto de 2025
Contém: Tolice Exacerbada
Em estado de paçoca
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Você paga cinquenta reais pra cortar a unha do teu coelho!”
(
senhora indignada na fila do posto de saúde)

Não tenho tempo para isso agora. Estou em estado de Paçoca.”
(Ricardo Terto)

:: EDITORIAL :

Este editorial é um apelo. Gostaríamos de rogar aos leitores que nos enviem imagens da Classificação Indicativa dos filmes na entrada do cinema. Muito nos interessam os avisos de gatilho sobre o que determinado filme “contém”. Exemplos: “tema impróprio”, “exposição de cadáveres”, “conflitos psicológicos atenuados” e “desvirtuamento moderado dos valores éticos”.

Colaborações podem ser enviadas para vmbarbara@yahoo.com. Pela atenção, obrigada.

ps. Aproveitem para ler a crônica “Contém: Tolice exacerbada” sobre os avisos mais insólitos nas contra-capas dos DVDs. E agora voltamos à programação normal.


:: ADORADA CORUJA ::
Merve Emre, “The History of Advice Columns…

Depois que sua primeira esposa morreu, ele rapidamente cortejou a segunda e celebrou seu sucesso publicando um panfleto intitulado “Em defesa de um casamento rápido após a morte de uma boa esposa”; quando a segunda esposa o deixou por causa de uma disputa de propriedade, ele se dedicou à sua adorada coruja de estimação, Madge.

[After his first wife died, he swiftly wooed his second and celebrated his success by publishing a pamphlet titled “A Defense of a Speedy Marriage after the Death of a Good Wife”; when the second wife left him over a property dispute, he devoted himself to his beloved pet owl, Madge.]


:: ALTERNATIVA POSSÍVEL ::
George Orwell, The Road to Wigan Pier

Os vendedores de assinaturas de jornal eram um tipo que eu nunca tinha encontrado antes. O trabalho deles me parecia tão desesperador, tão terrível, que eu me perguntava como alguém podia aguentar aquilo quando a prisão era uma alternativa possível.

[The newspaper -canvassers were a type I had never met before. Their job seemed to me so hopeless, so appalling that I wondered how anyone could put up with such a thing when prison was a possible alternative.]


:: GOD’S STILL IN HEAVEN ::
Jack London, The People of the Abyss

Dadas as circunstâncias — com minha esposa, os bebês e uns dois inquilinos sofrendo com o espaço excessivamente vasto de um único cômodo — tomar banho em uma bacia de lata seria uma tarefa inviável. Mas, ao que parece, há uma compensação com a economia de sabão, então está tudo bem e Deus continua no céu.

[Under the circumstances, with my wife and babies and a couple of lodgers suffering from the too great spaciousness of one room, taking a bath in a tin wash-basin would be an unfeasible undertaking. But, it seems, the compensation comes in with the saving of soap, so all’s well, and God’s still in heaven.]


:: RECENTE ::

Ricardo Terto, Marmitas frias: e requentadas

Vai no Poupatempo que essa foto três por quatro tem que ser RECENTE, você não pode andar por aí com o ultrassom da sua mãe estampado no RG.

“Vocês nunca vão saber onde é que eu escondi os corpos”


:: FIAPOS ::

Miguel Dalmau, Cortázar: el cronopio fugitivo

Um pequeno autorretrato sentimental que ele [Julio Cortázar] envia à viúva de Sergio Sergi: nele, reconhece que seu coração está cheio de fiapos, balas moles, pipocas de cartolina e outras pieguices das quais não renega nem jamais renegará.

[Un pequeño autorretrato sentimental que le manda a la viuda de Sergio Sergi: en él reconoce que su corazón está lleno de pelusas, caramelos blandos, palomitas de cartulina y otras cursilerías de las que no reniega ni renegará jamais.]


:: JOÃO, O SIMPLES ::
Donald Spoto, Francisco de Assis, O Santo Relutante

Mas João era chamado Simples devido ao que acontecera naquele dia. Ouvindo os demais irmãos dizerem que ele devia imitar Francisco, assim fez, e com apaziguadora literalidade. Se Francisco erguesse os braços em oração, João imediatamente fazia o mesmo; se coçasse a cabeça, João repetia o gesto; se tossisse e escarrasse, certamente João o imitaria.


:: MINHAS HISTÓRIAS ::
Lilly Dancyger, Burn It Down

As histórias que te assombram, as que te fazem congelar, as que eram tão reais, mas que parecem fantasmas — conte-as sem vergonha. A vergonha não é sua para carregar. A vergonha não é minha para carregar. […] Meu corpo é meu. Minhas histórias são minhas para contar e guardar. Esta é a minha história, apesar daqueles que tentaram tirá-la.

[The stories that haunt you, the ones that make you freeze, the ones that were so real but feel like ghosts—tell them without shame. The shame is not yours to carry. The shame is not mine to carry. […] My body is mine. My stories are mine to tell and keep. This is my story, in spite of those who tried to take it away.]


:: DESCULPEM ::
Stephen Pile, The Ultimate Book of Heroic Failures


“O Boletim Meteorológico Mais Mal-Sucedido”

Depois de uma inundação grave em Jeddah, em janeiro de 1979, o jornal Arab News publicou o seguinte boletim: “Lamentamos não poder fornecer a previsão do tempo. É que nos baseamos nos relatórios meteorológicos do aeroporto, que está fechado por causa do clima. Se iremos conseguir fornecer a previsão do tempo amanhã dependerá do clima”.


:: SEM O NARIZ ::
Herman Melville, Moby Dick

Seria quase esperado que [Stubb] saísse de seu beliche sem o nariz, mas não sem o cachimbo.


:: RIM MATEMÁTICO ::
Rivka Galchen, “The Radical Development…

Na faculdade, em Berkeley, [Paul] Negulescu inicialmente estudava história. “Depois, no terceiro ano, fiz uma aula de fisiologia em que o professor explicou como o rim funcionava”, ele me contou. “Era tudo sobre manter íons de sódio, cloreto e potássio em equilíbrio.” O rim, um órgão tremendamente subestimado, basicamente resolve um sudoku em quatro dimensões com íons.

[In college, at Berkeley, Negulescu had initially studied history. “Then, as a junior, I took a physiology class where a professor explained how the kidney worked,” he told me. “It was all about keeping sodium ions and chloride ions and potassium ions in balance.” The kidney, a tremendously under-celebrated organ, basically does four-dimensional sudoku with ions.]


:: DICA ::
George Orwell, Na pior em Paris e em Londres

Seguiram-se dois dias ruins. Tínhamos apenas sessenta cêntimos, que gastamos em meia libra de pão e em um pedaço de alho para esfregar nele. A vantagem de esfregar alho no pão é que o gosto permanece na boca e dá a ilusão de que se comeu recentemente.


:: CAFÉS ::
Reiner Stach, The Early Years (Kafka)

O trabalho intelectual também era tolerado e até mesmo incentivado no café: além das centenas de jornais diários e outros periódicos que os melhores cafés disponibilizavam a seus clientes — incluindo os periódicos literários mais eruditos — era bastante comum pedir ao garçom que trouxesse um guia de horários da ferrovia estatal austro-húngara ou alguns volumes de uma enciclopédia, e as pessoas que estavam claramente imersas em tais coisas não eram incomodadas, mesmo quando já haviam esvaziado suas xícaras há muito tempo.

[Intellectual work was also tolerated and even encouraged in the coffeehouse: apart from the hundreds of daily newspapers and other periodicals that the finest coffeehouses made available to their patrons—including the most highbrow literary journals—it was quite common to ask the waiter to bring a timetable of the Austro-Hungarian state railway or a few volumes of an encyclopedia, and people who were clearly immersed in such things were not disturbed even when they had long since emptied their cups.]


:: ANOMALIA ESTATÍSTICA ::
Oliver Burkeman, The Antidote

Mesmo hoje, numa curiosa e mórbida anomalia estatística, a taxa de mortalidade na West Ridge é superior a 100%, o que significa que mais pessoas morreram ali do que conseguiram alcançar o cume por aquela rota.

[Even today, in a morbid statistical oddity, the fatality rate for the West Ridge is higher than 100 per cent, meaning that more people have died there than have reached the summit that way.]


:: UM CARTÃO-PRESENTE ::
Tad Friend, “Silicon Valley’s Quest

Pesquisadores da Universidade de Columbia anunciaram em março que haviam armazenado um sistema operacional inteiro (assim como um cartão-presente da Amazon de cinquenta dólares) em uma única sequência de DNA.

[Researchers at Columbia University announced in March that they’d stored an entire computer operating system (as well as a fifty-dollar Amazon gift card) on a strand of DNA.]


:: ESPANTO SEM LIMITES ::
Charles Darwin, The Voyage of the Beagle

Eles expressaram, como sempre, um espanto sem limites ao saberem que o globo terrestre era redondo, e mal podiam acreditar que um buraco, caso fosse suficientemente profundo, sairia do outro lado.

[They expressed, as was usual, unbounded astonishment at the globe being round, and could scarcely credit that a hole would, if deep enough, come out on the other side.]


:: ALIÁS ::
John Derbyshire, Prime Obsession

[David] Hilbert teve um aluno que, certa vez, lhe apresentou um artigo em que alegava provar a Hipótese de Riemann. Hilbert estudou o trabalho com atenção e ficou realmente impressionado com a profundidade do argumento; mas, infelizmente, encontrou um erro que nem mesmo ele conseguiu corrigir. No ano seguinte, o estudante faleceu. Hilbert pediu aos pais enlutados permissão para fazer um discurso fúnebre. Enquanto os parentes e amigos do jovem choravam ao lado do túmulo, sob a chuva, Hilbert tomou a frente. Começou dizendo que era uma tragédia um jovem tão talentoso ter morrido antes de ter a chance de mostrar do que era capaz. Mas continuou, dizendo que, apesar de o trabalho do jovem conter um erro, ainda era possível que um dia se encontrasse uma prova para o famoso problema seguindo as linhas que o falecido havia indicado. “Na verdade”, prosseguiu ele com entusiasmo, de pé sob a chuva ao lado do túmulo do estudante, “consideremos uma função de variável complexa…”

[[David] Hilbert had a student who one day presented him with a paper purporting to prove the Riemann Hypothesis. Hilbert studied the paper carefully and was really impressed by the depth of the argument; but unfortunately he found an error in it which even he could not eliminate. The following year the student died. Hilbert asked the grieving parents if he might be permitted to make a funeral oration. While the student’s relatives and friends were weeping beside the grave in the rain, Hilbert came forward. He began by saying what a tragedy it was that such a gifted young man had died before he had had an opportunity to show what he could accomplish. But, he continued, in spite of the fact that this young man’s proof of the Riemann Hypothesis contained an error, it was still possible that some day a proof of the famous problem would be obtained along the lines which the deceased had indicated. “In fact”, he continued with enthusiasm, standing there in the rain by the dead student’s grave, “let us consider a function of a complex variable…”]

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Eu simplesmente não tenho culpa de ser uma jaqueira

Em defesa da pasteurização

#108 – São Paulo, 8 de julho de 2025
Não é permitido embolsar o açúcar
Edição especial pindaíba
hortifruti.org

Eu não posso entrar na Geórgia porque eu nunca saí da Geórgia”
(Paulo Henrique Martins, sobre vistos e passaportes)

“Quando eu quero lembrar quem sou, eu leio A Hortaliça”
(leitor anônimo)

:: EDITORIAL :
(A pedido de nosso Departamento Jurídico)

Não nos responsabilizamos por distúrbios psiquiátricos decorrentes da leitura desta edição. As opiniões aqui contidas não refletem necessariamente a opinião de nós mesmos. As informações apresentadas não constituem aconselhamento de natureza financeira, jurídica, fiscal ou agrônoma. Lembrando que o desempenho passado não garante resultados futuros. As citações são apenas para fins informativos e não substituem o aconselhamento de um profissional de saúde.

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:: CAFÉ COM MOSCA ::
George Orwell, Na pior em Paris e Londres

Você se perdeu e foi dar num bairro respeitável, e vê um amigo próspero que se aproxima. Para evitá-lo, você se esconde no café mais próximo. Lá dentro, precisa comprar alguma coisa, então gasta seus últimos cinquenta cêntimos num copo de café com uma mosca morta dentro.


:: TRILHA SONORA ::
Linda Tirado, Hand to Mouth

Ser pobre é como estar sempre sendo seguido por violinos tocando uma trilha sonora de tensão.

[Being poor is something like always being followed around by violins making “tense” movie music.]


:: A SITUATION ::
Barbara Ehrenreich, Nickel and Dimed

Neste caso, o “lar” não é um lugar de descanso; é mais parecido com o que se conhece no jargão militar como uma “situação”.

[Home in this instance is not a restful place; it’s more like what is known in the military as a “situation.”]


:: BEBER ÁGUA SANITÁRIA ::
Daniel Immerwahr, “The Revolt Against Expertise

Os liberais defendem a ciência. Já o Partido Republicano defende beber água sanitária, surtar com pedófilos satanistas e culpar lasers espaciais judeus por incêndios florestais.

[Liberals stand for science. The G.O.P. stands for drinking bleach, freaking out about Satanist pedophiles, and blaming wildfires on Jewish space laser.]


:: AQUI NÃO ::
Elizabeth Kolbert, “How Captain James Cook…

Em 2019, no duzentésimo quinquagésimo aniversário do desembarque de Cook na Nova Zelândia, uma réplica de seu navio fez uma turnê oficial pelo país. Segundo o governo neozelandês, a turnê tinha como objetivo oferecer uma oportunidade para refletir sobre a história complexa da nação. Alguns grupos Maori proibiram o navio de atracar em seus portos, alegando que já haviam refletido o suficiente.

[In 2019, the two-hundred-and-fiftieth anniversary of Cook’s landing in New Zealand, a replica of the ship he’d sailed made an official tour around the country. According to New Zealand’s government, the tour was intended as an opportunity to reflect on the nation’s complex history. Some Māori groups banned the boat from their docks, on the ground that they’d already reflected enough.]


:: DEPRESSÃO ::
Gary Gulman, The Great Depresh

Psiquiatra: “Quer saber? Vamos tentar remédios que rimem!”

[Psychiatrist: “Let’s just try drugs that rhyme!”]


:: PREFIRO AS COUVES-FLORES ::
Virginia Woolf, Mrs. Dalloway

[…] até que Peter Walsh disse: “Meditando entre os legumes?” — foi isso? — “Prefiro homens a couves-flores” — foi isso? — Ele deve ter dito isso num café da manhã, numa manhã em que ela tinha saído para o terraço.

[until Peter Walsh said: “Musing among the vegetables?” – was that it? – “I prefer men to cauliflowers” – was that it? – He must have said it at breakfast one morning when she had gone out on to the terrace.]

Revista Sino Azul, Natal de 1948

:: SUJOS ::
George Orwell, Na pior em Paris e Londres

Esfregávamos as mesas e sempre políamos os utensílios de metal, pois recebíamos ordens para fazer isso; mas não recebíamos ordens para ser genuinamente limpos e, de qualquer modo, não tínhamos tempo para isso. Estávamos apenas cumprindo nossas obrigações; e como nosso primeiro dever era ser pontual, economizávamos tempo sendo sujos.


:: TRUMP ::
Daniel Immerwahr, “The Revolt Against Expertise

Vacinas, 11 de Setembro, redes 5G, pasteurização, flúor, AIDS, vazamentos de laboratório, fraude eleitoral, assassinatos — “ele é maluco em muitas frentes”, concluiu o conselho editorial do New York Post.

[Vaccines, 9/11, 5G networks, pasteurization, fluoride, AIDS, lab leaks, electoral theft, assassinations—“he’s nuts on a lot of fronts,” the New York Post’s editorial board concluded.]


:: PROIBIDO ::
George Orwell, Na pior em Paris e Londres

Na parede, ao lado de meu assento [em um café em Tower Hill], um aviso dizia: “Não é permitido embolsar o açúcar”.


:: MULHERES QUE GRITAM ::
Saskia Vogel, “A Woman Screaming

Há muito tempo, consegui me desvencilhar de um relacionamento abusivo — emocionalmente e, em algumas ocasiões, fisicamente. Isto é, consegui me desvencilhar do relacionamento. O homem ainda me assombra.

Ele se manifesta na maneira como eu me encolho se alguém se move para me tocar, se não aceita um “não” como resposta, nos sonhos recorrentes em que ele aparece calmo e cruel, com todo o controle nas mãos. Sou apenas uma mulher gritando, desejando que as pessoas ao nosso redor percebam a complexidade da situação — mas, em vez disso, acham que eu é que estou errada: perturbando a paz, difamando um homem, agindo como uma “louca”. Nos meus sonhos, minha voz vira ruído. Depois, se rompe. Eu perco a capacidade de falar.

[A long time ago I managed to disentangle myself from an emotionally and on occasion physically abusive relationship. That is to stay, I managed to disentangle myself from the relationship. The man haunts me still, in the way I might flinch if you move to touch me, if you don’t take no for an answer, in recurring dreams where he is calm and cruel, holding all the cards. I am just a woman screaming, wishing the people around us would see the nuance of the situation, but instead they think I am the one doing wrong: disturbing the peace, slandering a man, acting ʻcrazy’. In my dreams, my voice becomes noise, then breaks. I lose my ability to speak.]


:: O GRANDE DESESPERO ::
Virginie Despentes, King Kong Theory

Porque até o grande desespero tem gênero. O que nós praticamos é uma queixa lamuriosa.

[Because great despair has a gender, too. What we practise is plaintive complaining.]


:: MANDAQUI ::
Julian Barnes, Love, etc.

Até o carteiro se perde quando vem aqui. De vez em quando é possível vislumbrar um ônibus — isso se algum morador descontente conseguir sequestrar um à mão armada e obrigá-lo a prestar um serviço de utilidade pública.

[Even the postman gets lost coming out here. Occasionally you might see a bus, if some disgruntled local manages to hijack one at gunpoint and make it perform a useful social service.]


:: NAVIO ATRAVÉS DO TEMPO ::
Alan Burdick, “The Secret Life of Time

À medida que fui crescendo no papel de pai, às vezes sentia como se estivesse desmontando um navio para usar suas tábuas na construção de um navio para outra pessoa. Eu estava construindo um navio através do tempo, feito do meu próprio tempo.

[As I grew into the role of parent, I sometimes felt as if I were taking apart a ship and using the planks to build a ship for someone else. I was building a ship across time, out of my time.]


:: SÓ LÁGRIMAS ::
Janet Groth, The Receptionist

Alguém que chora com tanta facilidade como você é, na verdade, uma pessoa bem durona. Não abre mão de nada — só das lágrimas.

[“Anyone who cries as easily as you do is pretty tough. You don’t give an inch; you give only tears.”]


:: PIADA SOVIÉTICA ::
Alexei Navalny, “Prison Diaries

[Piada dos tempos soviéticos, recontada por Navalny.]

Um menino sai para passear no pátio de seu condomínio. Garotos jogando futebol o convidam para jogar também. O menino é mais caseiro, mas fica interessado e corre para se juntar a eles. Em certo momento, ele consegue chutar a bola com força — mas, infelizmente, ela quebra a janela do porão onde mora o zelador. Como era de se esperar, o zelador aparece. Está por fazer a barba, usa um chapéu de pele e um casaco acolchoado, e claramente ainda sofre de uma ressaca. Furioso, ele encara o menino antes de avançar em sua direção.

O menino foge o mais rápido que consegue, pensando: “Pra que eu fui me meter nisso? Afinal, sou um garoto tranquilo, de ficar em casa. Gosto de ler. Por que fui jogar futebol com os outros? Por que estou fugindo agora desse zelador assustador, quando podia estar deitado no sofá lendo um livro do meu escritor americano favorito, Hemingway?”

Enquanto isso, Hemingway está recostado numa espreguiçadeira em Cuba, com um copo de rum na mão, pensando: “Deus, estou cansado desse rum e de Cuba. Toda essa dança, esse barulho, esse mar. Droga, sou um cara inteligente. O que estou fazendo aqui, em vez de estar em Paris discutindo existencialismo com meu colega Jean-Paul Sartre tomando um copo de Calvados?”

Enquanto isso, Jean-Paul Sartre, bebendo seu Calvados, observa a cena à sua frente e pensa: “Como eu odeio Paris. Não suporto ver esses bulevares. Estou exausto desses estudantes em êxtase com suas revoluções. Por que tenho que estar aqui, se tudo o que eu queria era estar em Moscou, tendo diálogos fascinantes com meu amigo Andrei Platonov, o grande escritor russo?”

Enquanto isso, em Moscou, Platonov atravessa correndo um pátio coberto de neve, pensando: “Se eu pegar esse moleque desgraçado, eu mato”.


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#107 – São Paulo, 9 de junho de 2025
A Abominável Mãe Oculta das Neves
hortifruti.org

“Dizem que quem entra na réstea vira cebola”
(Carolina Maria de Jesus)

“Por toda parte, até mesmo na China, trabalhar à noite é para homens”
(Franz Kafka)

:: EDITORIAL :

No século XIX, tirar um retrato infantil era uma tarefa complexa. O longo tempo de exposição exigido pelas câmeras fotográficas – de trinta segundos ou mais – significava que a criança precisava ficar imóvel por um período excruciante. O leitor que tente botar um nenê em cima de uma poltrona e esperar que ele fique parado – é virtualmente impossível.

Foi assim que surgiu o fenômeno da Mãe Oculta [Hidden Mother], um gênero fotográfico que consiste em usar a mãe como suporte físico para a criança, posteriormente fazendo de tudo para escondê-la do retrato final.

O resultado é bastante deprimente: cotovelos avulsos, mangas de vestido, mãos fantasmagóricas, véus com formato humano, mulheres disfarçadas de cadeiras. O fotógrafo Geoffrey Batchen comenta que essas imagens “dão como certa a nossa capacidade de ‘não ver’ certas coisas quando isso nos convém. […] Somos invariavelmente convidados a não perceber a incongruência de balaustradas falsas em cima de tapetes ou a artificialidade de fundos pintados e outros elementos cenográficos evidentes”.

A prática da Mãe Oculta perdurou até os anos 1920, quando as câmeras ficaram mais eficientes e a mobília humana foi dispensada.

Nesta edição, publicamos alguns desses singelos retratos.

The Hidden Mother, Linda Fregni Nagler (Mack, 2013)
Hidden Mother, Laura Larson (Saint Lucy Books, 2017)

Museum of Fine Arts, Boston, doação de Lee Marks e John C. DePrez Jr. (2019.1843), (2019.1879), (2019.1855)

:: SORTEIO ::

A vencedora do sorteio realizado em 1o. de junho foi Fernanda Silva, de Niterói, que vai receber em casa um livro de contos da Gertrude Stein, um adesivo aleatório de guarda-chuva e uma carta de tarô indicando qual é o seu legume padroeiro.


:: PULA-PULA ::
Honor Jones, “The Only Two Choices…

Elas [as crianças pequenas] testam com o dedão do pé a superfície da linguagem, mas logo a estão tratando como um castelo inflável — dando cambalhotas, se atirando contra as paredes.

[They test with a toe the surface of language, and soon they’re treating it like a bouncy castle, somersaulting, throwing themselves against the walls.]


:: COM UM MATA-MOSCAS ::

Lauren Collins, “How a Hazelnut Spread Became…

Sua formulação capta a dinâmica íntima, intensa e volátil que existe entre os dois países desde, pelo menos, o incidente do coup d’éventail em 1827, quando o governador da regência de Argel golpeou o cônsul francês com um mata-moscas durante uma disputa sobre um empréstimo pendente, dando eventualmente aos franceses um pretexto para invadir o país.

[His formulation captures the intimate, intense, and volatile dynamic that has existed between the countries since at least the coup d’éventail affair of 1827, when the dey of Algiers struck the French consul with a flyswatter over a dispute about an outstanding loan, eventually giving the French a pretext to invade.]


:: FRIO ::
Carolina Maria de Jesus, Quarto de despejo

Eu sinto muito frio. Costumo vestir três palitó. E tem pessoas que me vê nas ruas e diz: — Como você engordou! Já se foi o tempo que a gente engordava.


:: CACHO DE UVAS ::
Mark Haddon, The Curious Incident Of The Dog In The Night-Time

E não existem linhas no espaço, então você poderia ligar partes de Órion a partes de Lepus, Touro ou Gêmeos e dizer que formavam uma constelação chamada O Cacho de Uvas, ou Jesus, ou A Bicicleta (exceto pelo fato de que não existiam bicicletas nos tempos romanos e gregos, que foi quando chamaram Órion de Órion).

[And there aren’t any lines in space, so you could join bits of Orion to bits of Lepus or Taurus or Gemini and say that they were a constellation called The Bunch of Grapes or Jesus or The Bicycle (except that they didn’t have bicycles in Roman and Greek times which was when they called Orion Orion).]


:: NOVO DESAFIO ::
Amy Wilson, Happy to Help

Voltei para casa e fiz o que sempre faço diante de um novo desafio: reunir pesquisas suficientes para dar um curso introdutório de nível universitário.

[I went home and did what I always do in the face of a new challenge: compile enough research to teach an intro-level college course.]

Museum of Fine Arts, Boston, Doação de Lee Marks e John C. DePrez Jr. (2019.1893)

:: CONVINCENTE ::
Honor Jones, Sleep

Se você quisesse que a história de uma pessoa fosse convincente, crível, era assim que você fazia: você exagerava um pouco as partes ruins, mas a pior parte, a pior de todas, você a fazia parecer um pouco melhor.

[If you wanted a person’s story to be persuasive, believable, here was how you did it: you made the bad parts sound a little worse, but the worst part, the very worst part, you made that sound a little better.]


:: MELHOR E PIOR ::
Patricia Marx, “My NYC Tour of Tours

Uma enquete anual com leitores, publicada em uma edição de 1973 da revista Creem, elegeu o New York Dolls, ao mesmo tempo, como a melhor e a pior banda nova do ano.

[An annual readers’ poll in a 1973 issue of Creem named the New York Dolls both the best new group of the year and the worst new group of the year.]


:: REUNIÕES SECRETAS ::
Cida Bento, O pacto da branquitude

É evidente que os brancos não promovem reuniões secretas às cinco da manhã para definir como vão manter seus privilégios e excluir os negros. Mas é como se assim fosse: as formas de exclusão e de manutenção de privilégios nos mais diferentes tipos de instituições são similares e sistematicamente negadas ou silenciadas.


:: FATIAR UM PEPPERONI ::
James Somers, “A Revolution in How Robots Learn

A Figure, uma startup americana, angariou mais de 600 milhões de dólares para construir um elaborado robô “humanoide” com cabeça, tronco, braços, pernas e mãos com cinco dedos. Até agora, seu feito mais impressionante de destreza é “fatiar um pepperoni”, segundo Brett Adcock, fundador da Figure: o robô consegue destacar uma fatia do resto do salame.

[Figure, an American startup, has raised more than six hundred million dollars to build an elaborate “humanoid” robot with a head, a torso, arms, legs, and five-fingered hands. Its most impressive feat of dexterity so far is “singulating a pepperoni,” according to Brett Adcock, Figure’s founder: it can peel one slice from the rest of the sausage.]


:: BOLHINHAS ::
Mo Yan, Mudança

Tinha o lábio superior mais curto. Quando sorria, mostrava a gengiva roxa e os dentes amarelos separados na frente. Sua especialidade era fazer saírem bolhinhas dessa fresta entre os dentes. Uma atrás da outra. As bolhinhas flutuavam na frente dele, era uma visão fascinante.


:: URGÊNCIA ::
Amy Wilson, Happy to Help

Quando minha filha mais nova tinha cerca de quatro anos, ela uma vez escancarou a porta do chuveiro enquanto eu ainda estava com o xampu no cabelo para me perguntar, com certa urgência, o que ficava mais longe da cidade de Nova York: a Califórnia ou “o mundo inteirinho.”

[When my youngest child was about four years old, she once flung the shower door wide while I was mid-shampoo to ask me, with some urgency, which was farther from New York City: California or “the whole wide world.”]


:: VOTO DE SILÊNCIO ::
Nora Ephron, “Forget the Hamsters

É uma das coisas mais fascinantes para mim sobre todo o episódio: ele me traiu e depois agiu como se ele fosse a vítima, só porque eu escrevi sobre isso! Quer dizer, não é como se eu não fosse uma escritora. Não é como se eu nunca tivesse escrito sobre mim mesma. Eu até já havia escrito sobre ele. O que ele achava que ia acontecer? Que eu faria um voto de silêncio pela primeira vez na vida?

[It is one of the most fascinating things to me about the whole episode: he cheated on me, and then got to behave as if he was the one who had been wronged because I wrote about it! I mean, it’s not as if I wasn’t a writer. It’s not as if I hadn’t often written about myself. I’d even written about him. What did he think was going to happen? That I would take a vow of silence for the first time in my life?]

Babá negra. c1880s. Doação de Lee Marks e John C. DePrez Jr. Cortesia do Museum of Fine Arts, Boston

:: IDENTIDADE REFERÊNCIA ::
Cida Bento, O pacto da branquitude

Apesar disso, recentemente num respeitável jornal do campo progressista, uma intelectual branca se queixou do divisionismo que marcava os “movimentos identitários”, alegando que enfraquecia a luta por uma sociedade mais justa. Era possível perceber, nessa argumentação contra “movimentos identitários”, o conceito de que eram segmentos fora do território da “identidade referência”, cuja condição de branca é de universalidade e de neutralidade.


:: ARANHAS ::
Kathryn Shulz, “An Arachnophobe Pays Homage to the Spider

Essa espécie é formalmente conhecida como Megaphobema mesomelas, e, se você imaginou que a primeira parte se traduz mais ou menos como “gigante e aterrorizante”, acertou. Esse exemplar em particular tinha rastejado para dentro de minha pia vindo, presumo, das profundezas do nosso inconsciente coletivo, e parecia o resultado de uma colaboração entre Stephen King, Louise Bourgeois e Hieronymus Bosch. Emiti um som que deve ter sido audível na Guatemala, saltei para trás uns bons dois metros e me achatei contra a parede.

[That species is formally known as Megaphobema mesomelas, and if you guessed that the first part translates roughly as “gigantic and terrifying,” you’re right. This particular one had crawled into my sink from, I presume, the depths of our collective psyche, and looked like the result of a collaboration between Stephen King, Louise Bourgeois, and Hieronymus Bosch. I made a noise that must have been audible in Guatemala, leapt backward through the air a good six feet, and flattened myself against a wall.]


:: PROPORÇÃO ::
Oliver Burkeman, Help

Barbara Fredrickson diz que a proporção mais saudável entre sentimentos felizes e tristes é de 2,9 para 1.

[Barbara Fredrickson is that the healthiest ratio of happy to sad feelings is 2.9:1.]


:: DESGAVETAS ::
Caitlin Moran, How To Be a Woman

“Prevertido” é a nossa nova palavra. Todas nós lemos bastante — mas também, possivelmente, rápido demais. Há pouco, começamos a usar a palavra “paradigma”, pronunciada exatamente como se escreve. O autodidatismo tem suas desvantagens. Ou desgavetas, como provavelmente teríamos lido correndo e jamais sido corrigidas.

[‘Prevert’ is our new word. We all read a great deal — but also, possibly, too quickly. We have also recently taken to using the word ‘paradigm’, pronounced as spelt. Autodidactism has its drawbacks. Or backdrawers, as we would probably have speed-read, and never been corrected.]


:: THE REALLY ::

Honor Jones, Sleep

Ezra era editor-chefe da The Really, que ele descrevia como uma pequena revista digital de tecnologia, embora, na verdade, fosse publicada por um braço do departamento de relações públicas da empresa de mídia social mais poderosa do mundo. Em seus sete anos de atuação, a revista passou por vários nomes: IkonAriaInterrobang. Ele parecia passar a maior parte do tempo em reuniões para criar novos nomes, ou em reuniões sobre as melhores práticas para futuras reuniões de brainstorming de novos nomes, ou ainda em reuniões para discutir a demografia dessas futuras reuniões e como garantir que todos participassem igualmente no importante trabalho de criar novos nomes. De vez em quando, ele trabalhava em um infográfico sobre desinformação.

[Ezra was a managing editor at The Really, which he described as a small, tech-focused digital magazine, though in fact it was published by a branch of the PR department of the world’s most powerful social media company. In his seven-year tenure , the magazine had cycled through many names: Ikon, Aria, Interrobang. He seemed to spend most of his time in meetings brainstorming new names, or in meetings about best practices for future meetings for brainstorming new names, or in meetings to discuss the demographics of those future meetings and how to ensure that everyone participated equally in the important work of brainstorming new names. Occasionally he worked on an infographic about disinformation.]


:: DIÁRIO DE CAMPO ::
Cenas extras de Três Camadas de Noite

Quando descemos do táxi, Heitor ficou encarando um homem na rua por um longo tempo e, depois que ele estava bem longe, perguntou: “Por que ele tem um cabeção?”.


:: PEIXE MORTO ::
S. Morris Engel, Fallacies and Pitfalls of Language

Conta-se que, certa vez, o rei Charles II da Inglaterra pediu aos membros da Royal Society que descobrissem por que, ao botar um peixe morto em uma tigela cheia de água, a água transborda, enquanto isso não acontece com um peixe vivo. Alguns dos membros refletiram longamente sobre a questão e apresentaram explicações engenhosas, mas pouco convincentes. Finalmente, um deles decidiu testar a hipótese. Descobriu, é claro, que não fazia a menor diferença colocar um peixe morto ou vivo na tigela de água.

[It is told of King Charles II of England that he once asked members of the Royal Society to determine why, if you place a dead fish in a bowl full of water, it makes the water overflow, while a live one does not. Some of the members thought about this a very long time and offered ingenious but unconvincing explanations. Finally, one of them decided to test the question. He discovered, of course, that it did not make a bit of difference whether one placed a dead fish or a live one in a bowl of water.]


:: GATOS ::
Encyclopaedia Britannica, 1st edition, “Cats

Eles bebem com frequência; seu sono é leve; e muitas vezes aparentam estar dormindo, quando na verdade estão maquinando alguma maldade.

[They drink frequently; their sleep is light; and they often assume the appearance of sleeping, when in reality they are meditating mischief.]

Abominável Mãe Oculta das Neves, Original Fowler Studio, sem data.

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Agradecimentos: À pessoa que me mandou o trecho do Mo Yan e eu esqueci quem foi.
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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)

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#106 – São Paulo, 8 de maio de 2025
Uma abordagem filosófica do lixo
Continuamos mexendo a sopa
hortifruti.org

“Eles dizem que é amor. Nós dizemos que é trabalho não remunerado.”
(Silvia Federici)

“Não sei de tudo que está por vir, mas seja o que for, vou fazer dando risada.”
(Herman Melville)

:: EDITORIAL :

Com vistas a aumentar o número de subscrições pagas, informamos que, a partir da próxima edição, passaremos a vestir roupas de legumes gigantes e anunciar nossa publicação diante do Hortifruti Mandaqui e de outros sacolões de respeito (vide fotos).

Paralelamente a isso, faremos um sorteio entre os assinantes pagos desta publicação. O vencedor poderá escolher um entre os seguintes títulos:

– O Livro Amarelo do Terminal (Sesi-SP)
– O Verão do Chibo (Alfaguara)
– A Máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia.)
– Noites de Alface (Alfaguara)
– Operação Impensável (Intrínseca)
– O Louco de Palestra (Companhia das Letras)
– Três Camadas de Noite (Fósforo)
– Três Vidas, de Gertrude Stein (Penguin)

Quem assinar até o dia 31 de maio poderá entrar no certame. O vencedor será notificado por email e receberá o livro no conforto de seu lar, acompanhado de um bilhete personalizado com as devidas congratulações pela boa fortuna. Um trecho de seu e-mail será divulgado na próxima edição (mediante permissão), a fim de conferir legitimidade ao processo, que será auditado pelo auditor residente.

Se nada disso der certo, divulgaremos uma rifa.

:: CHIHUAHUA DE APOIO ::
W. David Marx, Status and Culture

Henri Matisse pintou seu caminho até chegar nos museus; sua tataraneta Gaïa Jacquet-Matisse ganhou destaque por uma conta glamourosa no Instagram e por vestir seu chihuahua de apoio emocional, Bambi, com roupas personalizadas da Ralph Lauren.

[Henri Matisse painted his way into museums; his great-great-granddaughter Gaïa Jacquet- Matisse gets ink for her glossy Instagram account and dresses her emotional support Chihuahua, Bambi, in custom Ralph Lauren.]


:: TERAPIA ::
Sanjena Sathian, Goddess Complex

Atrás dela, no aquário, um peixe marrom e gordo flutuava na horizontal. Fiquei me perguntando se ele havia morrido no meio da nossa sessão.

[Behind her, in the aquarium, a fat brown fish floated horizontally. I wondered if it had expired in the middle of our session.]


:: MEDO ::

Audre Lorde, Sister Outsider

Ao me tornar forçada e profundamente consciente da minha mortalidade, e do que eu desejava e almejava para a minha vida, por mais curta que pudesse ser, prioridades e omissões se gravaram nitidamente sob uma luz implacável — e aquilo de que eu mais me arrependia era de meus silêncios. De que tanto eu tinha medo, afinal?

[In becoming forcibly and essentially aware of my mortality, and of what I wished and wanted for my life, however short it might be, priorities and omissions became strongly etched in a merciless light, and what I most regretted were my silences. Of what had I ever been afraid?]


:: DESTRUIÇÃO ::
Amia Srinivasan, The Right to Sex

Uma amiga minha, uma acadêmica excepcionalmente brilhante, certa vez explicou a um colega homem que, se qualquer um de seus mentores, na faculdade ou na pós-graduação, tivesse sequer colocado a mão em seu joelho, isso a teria destruído. O colega ficou surpreso. Ele reconhecia que tal atitude seria incômoda, errada, um caso de assédio sexual — mas como um gesto tão pequeno poderia destruir alguém? O que ele não sabia, ela lhe explicou, era como é ter seu senso de valor intelectual dependendo de forma tão precária da aprovação dos homens.

[A friend of mine, an exceptionally brilliant woman academic, once explained to a male colleague that, had any of her male mentors, in college or grad school, ever so much as put a hand on her knee, it would have ‘destroyed’her. The colleague was taken aback. He recognised that such an action would have been creepy, wrong, an instance of sexual harassment –but how could such a small gesture destroy anyone? What he didn’t know, she explained to him, was what it is like to have one’s sense of intellectual worth rest so precariously on the approbation of men.]


:: RAIVA ::
Sarah Manguso, Liars

Não era que tivéssemos nascido com raiva; nós nos tornamos mulheres e acabamos com raiva.

[It wasn’t that we’d been born angry; we’d become women and ended up angry.]


:: ABORDAGEM FILOSÓFICA DO LIXO ::
Diego Lasarte, “Meet the City’s New Compost Cops

Goodman adota uma abordagem filosófica em relação ao lixo. “O fato de que o saneamento é esse serviço gratuito e ilimitado, meio intocado pelo neoliberalismo, me atrai muito,” ele disse. “Somos nós e a biblioteca pública.”

[Goodman takes a philosophical approach to trash. “The fact that sanitation is this free, unlimited service, sort of untouched by neoliberalism, is very appealing to me,” he said. “It’s us and the public library.”]


:: CRÍTICA CÁUSTICA ::

Brian Hayes, “O Grande Explicador”
Na Scientific American Brasil, nov. 2013

Martin Gardner quis escrever um livro para apresentar seus princípios filosóficos e teológicos fundamentais. A obra, The Whys of a Philosophical Scrivener (William Morrow, 1983), foi lançada três anos depois. O The New York Review of Books publicou uma crítica cáustica e desdenhosa do livro — escrita pelo próprio Gardner.


:: DICAS PRÁTICAS ::
Elizabeth McCafferty, “Piece of the Action

A estratégia deles é simples: dividir o quebra-cabeça em duas partes, com cada um focando em áreas diferentes. Peter monta o quebra-cabeça de cabeça para baixo e Nikki fica responsável pelos rostos. Agora, eles estão formando uma equipe para competir novamente no campeonato mundial, que acontecerá na Espanha ainda este ano, com a esperança de ficarem pelo menos entre os 30 primeiros.

[Their strategy is simple: split the puzzle into two lines, each person tackling different areas. Peter constructs the puzzle upside down and Nikki is in charge of faces. They are now forming a team to go to the world championship again in Spain later this year, hoping to rank at least 30th.]


:: HOMENS MENORES ::
Valeska Zanello, Saúde mental, gênero e dispositivos

Desde Aristóteles até o século XVIII houve a predominância da teoria do sexo único. Segundo essa teoria, entre homens e mulheres haveria apenas uma diferença de grau, sendo as mulheres consideradas como homens menores. A explicação etiológica estaria no não desenvolvimento completo das mulheres por falta de calor durante a gestação de uma menina. No entanto existiam relatos de estórias de meninas que, em certas situações de esforço físico e transpiração, transformavam-se em meninos.

:: RÁDIO-RELÓGIO ::
Anne Lammott, Operating Instructions

Mas Orville, que criou um filho há quinze anos, diz que se lembra claramente de como as coisas ficam insanas com um bebê por perto. Ele disse que, mesmo com um parceiro, é como ter um rádio-relógio no quarto que dispara de forma imprevisível a cada poucas horas, sempre sintonizado em heavy metal. Sam agora dorme por quatro horas seguidas, o que é um dos principais motivos pelos quais decidi ficar com ele.

[But Orville, who raised a baby son fifteen years ago, says he remembers clearly how insane things get with an infant around. He said that even with a mate, it’s like having a clock radio in your room that goes off erratically every few hours, always tuned to heavy metal. Sam sleeps for four hours at a stretch now, which is one of the main reasons I’ve decided to keep him.]


:: VALOR ::

Valeska Zanello, Saúde mental, gênero e dispositivos

A “prateleira do amor” erige um lugar para as mulheres cuja vivência de ter que ser escolhida é profundamente desempoderadora; ao mesmo tempo que erige para os homens um lugar extremamente privilegiado e protegido de serem aqueles que avaliam e julgam/ escolhem as mulheres, dando a elas seu “valor”.


:: PAVÊNTIA ::
Mary Beard, “The Divine Comedy of Roman Emperor’s Last Words

Os estudiosos da Roma Antiga gostavam de desenterrar divindades curiosas e fora de moda, como Paventia, a deusa que afastava o medo das crianças, ou Cinxia, uma entre muitas que presidiam o ato sexual.

[Scholars in ancient Rome enjoyed digging up weird time-expired deities, such as Paventia, the goddess who stopped children from being afraid, or Cinxia, one of many who presided over sexual intercourse.]


:: INIMIGO CAPITAL ::
Ordem interna da Secretaria Municipal da Fazenda e da Subsecretaria da Receita Municipal da Prefeitura de São Paulo

Anexo Único a que se refere o artigo 1º da Ordem de Serviço SF/SUREM nº 01, de 23 de fevereiro de 2022

Art. 10. Os Diretores das Divisões de Fiscalização deverão necessariamente solicitar ao Diretor de Departamento a redistribuição das operações fiscais nas seguintes hipóteses: […]

II – alegação de suspeição pelo responsável, desde que devidamente justificada; […]

Parágrafo único. Para fins do disposto no inciso II do “caput”, considera-se devidamente justificada a alegação de suspeição quando, em relação ao Auditor- Fiscal, o fiscalizado for:

I – cônjuge ou qualquer parente, consanguíneo ou afim;

II – amigo íntimo ou inimigo capital;

[…]


:: ESTUPIDAMENTE CORAJOSO ::
Rufi Thorpe, Margo’s Got Money Troubles

Quando você vai fazer algo estupidamente corajoso, ajuda não ter muito tempo para pensar sobre isso.

[When you’re going to do something stupidly brave, it helps to have less time to think about it.]


:: REMEXER A SOPA ::
Bruce Handy, “The Saxophonist Charles Lloyd […]

Algumas décadas depois, em 1966, o primeiro quarteto de Lloyd se apresentava no festival de jazz em Antibes, na França, dividindo hotel com Ellington e sua banda. “Duke me ouviu tocar,” lembrou Lloyd. “E disse algo como: ‘Se ele continuar mexendo a sopa, um dia vai acabar conseguindo alguma coisa.’”

[A couple of decades later, in 1966, Lloyd’s first quartet was playing the jazz festival in Antibes, France, sharing a hotel with Ellington and his band. “Duke heard me play,” Lloyd recalled. “And said something to the effect of ‘If he keeps stirring the soup, one day he’s going to have something.’]


:: RESPONSABILIDADE ::
Tressie McMillan Cottom, Thick

Assim como questionamos o que uma mulher estava vestindo quando foi estuprada, buscamos maneiras de atribuir responsabilidade individual por injustiças estruturais a corpos que, coletivamente, não valorizamos.

[Much like we interrogate what a woman was wearing when she was raped, we look for ways to assign personal responsibility for structural injustices to bodies we collectively do not value.]


:: ESPARTILHOS ::
Barbara Ehrenreich, For Her Own Good

Os espartilhos de uma mulher elegante exerciam, em média, cerca de 9,5 quilos de pressão sobre seus órgãos internos, e já foram registrados extremos de até 40 quilos.

[A fashionable woman’s corsets exerted, on the average, twenty-one pounds of pressure on her internal organs, and extremes of up to eighty-eight pounds had been measured.]


:: PENTEADO EXTRAVAGANTE ::
W. David Marx, Status and Culture

O penteado extravagante da imperatriz Elizabeth da Áustria, do século XIX, lhe causava dores de cabeça frequentes.

[The nineteenth-century Empress Elisabeth of Austria’s extravagant coiffure gave her frequent headaches.]


:: EXISTÊNCIA DAS MULHERES ::
Andrea Dworkin, Right-Wing Women

O problema, em termos simples, é que é preciso acreditar na existência da pessoa para reconhecer a autenticidade de seu sofrimento. Nem homens nem mulheres acreditam na existência das mulheres como seres significativos.

[The problem, simply stated, is that one must believe in the existence of the person in order to recognize the authenticity of her suffering. Neither men nor women believe in the existence of women as significant beings.]

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Agradecimentos: A Giovanni Nobile Dias, pelas fotos em Brasília. A Giovane Salimena, por todo o resto. Ao Renato, que todo mês me deposita 5 reais.

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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)

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Dora e Moranguinho no salão de beleza discutindo quem exatamente pretendem enforcar nas tripas do último banqueiro

#105 – São Paulo, 12 de abril de 2025
Gente honesta comendo doce
Edição especial misândrica, com cotas para homens brancos
hortifruti.org

“Infligir abuso não é a parte difícil. Controlar a narrativa é o verdadeiro trabalho.”
(Sarah Manguso)

“Detesto acordar e já cair de volta naquelas mesmas abas abertas de ontem.”
(William Haefeli)

:: EDITORIAL :

Cuidar de um bebê é exaustivo. Uma das minhas pequenas rebeliões era arrumar os brinquedos da Batata durante a madrugada e montar cenários para o dia seguinte. Eu elegia alguns bichos de pelúcia, ordenava umas coisas jogadas pelo sofá e em menos de cinco minutos tínhamos um psicodrama completo.

A única regra era pegar o que estivesse à mão, sem pensar muito.

Naturalmente, a criança não dava muita bola para essas representações, que tentavam captar toda a gama de emoções da experiência humana na Terra. Foi o fim precoce de uma carreira promissora no campo da dramaturgia de pelúcias. Mas aqui vão as principais obras dessa fase, para apreciação crítica e estética dos leitores desta publicação.

Por exemplo, esta:

9 de julho de 2019. Dia em que a Dora e a Moranguinho pegaram em armas e se aliaram aos animais oprimidos para combater o Coelhinho da Páscoa.


:: É VERDADE. É VERDADE ::
Patrick Hamilton, Gas Light (1938)

Sra. Manningham: Ah, Jack querido. Você está tão gentil ultimamente. Será possível que esteja começando a ver o meu ponto de vista?
Sr. Manningham: Não sei se algum dia discordei dele, não é, Bella?
Sra. Manningham: Ah, Jack querido. É verdade. É verdade.

[Mrs. Manningham: Oh , Jack dear. You have been so much kinder lately. Is it possible you’re beginning to see my point of view?
Mr. Manningham: I don’t know that I ever differed from it, did I, Bella?
Mrs. Manningham: Oh, Jack dear. It’s true. It’s true.
]


:: SER CONTESTADO ::
Kate Manne, Entitled

Como argumenta a filósofa Kate Abramson em seu trabalho inovador sobre o gaslighting: “O que diferencia o sujeito que ignora ou descarta evidências […] daquele que pratica o gaslighting é a incapacidade de tolerar até mesmo a possibilidade de ser contestado.”

[As the philosopher Kate Abramson argues in her groundbreaking work on gaslighting, “What makes the difference between the fellow who ignores or dismisses evidence…and the one who gaslights is the inability to tolerate even the possibility of challenge.”]


:: HEMORRAGIAS HISTÉRICAS ::
Janet Malcolm, “Trouble in the Archives

Com o passar do tempo (e com a pobre Emma finalmente fora de perigo), Freud foi progressivamente minimizando a culpa de Fliess, até conseguir convencer a si mesmo de que foi a própria Emma, e não Fliess, quem teve culpa no ocorrido. Em uma carta de 16 de abril de 1896, Freud promete a Fliess que em breve lhe contará “uma explicação bastante surpreendente para as hemorragias de Emma, que lhe dará grande satisfação”, e no dia 26 de abril escreve: “Você tinha razão; as hemorragias dela eram histéricas, provocadas pela saudade.”

[As time went on (and poor Emma was finally out of danger), Freud progressively downgraded Fliess’s culpability, and finally was able to persuade himself that it was Emma herself, and not Fliess, who had been at fault. In a letter of April 16, 1896, Freud promises Fliess that he will soon tell him of “a quite surprising explanation of Emma’s hemorrhages, which will give you great satisfaction,” and on April 26th he writes, “You were right; her hemorrhages were hysterical, brought on by longing.”]


:: ESCAPE ::
Wells Tower, “What Charles Portis Taught Us

“Muita gente sai do Arkansas e a maioria acaba voltando, mais cedo ou mais tarde”, escreveu Portis certa vez. “Eles nunca chegam a alcançar a velocidade de escape.”

[“A lot of people leave Arkansas and most of them come back sooner or later,” Portis once wrote. “They can’t quite achieve escape velocity.”]


:: SOBRE BEBÊS ::
Anne Lammott, Operating Instructions

Agora é meia-noite. Não consigo acreditar que estou tão bem humorada, já que ele está gritando desde as 22h. Não estou falando com ele. Ele está no futon tendo um surto. De tempos em tempos, eu o pego no colo e tento amamentá-lo ou caminhar com ele por um tempo, até minha yoni começar a doer de novo, e então o coloco de volta no futon. Estou irritada com ele. Acho que ele não está lidando com as coisas de forma muito madura.

[Now it’s midnight. I can’t believe I’m in such a good mood, because he has been screaming since 10: 00 tonight. I am not speaking to him. He is on the futon having an episode. Every so often I pick him up and try to nurse him or walk him for a while until my yoni aches again, and then I put him back down on the futon. I’m annoyed with him. I don’t think he’s handling things very maturely.]


:: LENDO COISAS NA INTERNET ::
Sarah Manguso, Ongoingness

Percebo o quanto isso soa pretensioso, mas quando seu trabalho é pensar e escrever sobre si mesma, as apostas começam a parecer artificialmente — e até comicamente — altas. E precisam parecer assim, porque sem isso, eu não escreveria nada. Passaria o dia lendo coisas na internet. Já estaria mais ou menos na metade.

[I realize how grandiose that sounds, but when your job is to think and write about yourself, the stakes start to appear artificially, comically high. And they must, for without them, I wouldn’t write at all. I’d spend the day reading the internet. I’d be about half-done by now.]


:: TERROR ::

26 de julho 2019. Na hora de dormir, Dora lê histórias de terror para Moranguinho, Fofolete e Ursinho, à luz de um abajur.


:: PARABÉNS! ::
Sarah Manguso, Liars

Nada além de maternidade e afazeres domésticos. Eu me sentia como se tivesse deixado meu carro sair lentamente da estrada e atolar em um monte de neve. O airbag se abriu. Em letras grandes e cor-de-rosa, estava escrito: “Parabéns! Você tem quarenta anos e é completamente dependente financeiramente do seu marido!”

[Nothing but mothering and housewifery. I felt as if I’d let my car drift slowly off the road and into a snowbank. The airbag popped out. In big pink letters it said, Congratulations! You’re forty years old and completely financially dependent on your husband!]


:: CONSTATAÇÃO ALEATÓRIA ::
Yiyun Li, “The Deaths—And Lives—Of Two Sons

O telefone dele, eu descobri por acaso uma vez, estava configurado para o lituano.

[His phone, I once found out by accident, was set to Lithuanian.]


:: RECONHECE COMO GENTE ::
Tressie McMillan Cottom, Thick

Na verdade, a maneira mais infalível de conseguir que um acadêmico de verdade, com credenciais, converse com você, quando você ainda é apenas um estudante de pós-graduação, é se apresentar por meio de terceiros: “Oi, eu sou a Tressie, aluna do Richard Rubinson e da Sandy Darity, e conheço outras cinco pessoas que você reconhece como gente.”

[In fact, the most surefire way to get a real, minted academic to speak to you when you are just a graduate student is to introduce yourself by proxy : “Hi I am Tressie, student of Richard Rubinson and Sandy Darity, and I know five other people who you recognize as people.”]


:: SO FUCKED ::

Rufi Thorpe, Margo’s Got Money Problems

Não quero insultar as pessoas que realmente estiveram numa guerra; só quero dizer que esse nível de estresse e dificuldade física estava totalmente fora da experiência prévia de Margo. Enquanto cuidava do bebê, ela não conseguia parar de pensar: “Estou tão fodida, estou tão fodida, estou tão fodida”. Porque ao seu redor ela sentia o vazio ecoante de ninguém se importar com ela, ninguém se preocupar com ela, ninguém ajudá-la. Era como se estivesse cuidando daquele bebê em uma estação espacial abandonada.

[I do not mean to insult people who’ve actually been to war; I only mean that this level of stress and physical hardship was entirely outside Margo’s previous experience. She kept thinking, as she nursed him, I am so fucked, I am so fucked, I am so fucked. Because all around her she could feel the echoey space of no one caring about her or worrying about her or helping her. She might as well have been nursing this baby on an abandoned space station.]


:: COMPANHIA EXCELENTE ::
Gideon Lewis-Kraus, “The End of Children

Quando perguntei ao meu filho de oito anos por que alguém deveria ter filhos, ele parou de dar socos no irmãozinho por tempo suficiente para dizer: “Somos uma companhia excelente”.

[When I asked my eight-year-old why someone should have children, he stopped punching his little brother long enough to say, “We’re excellent company.”]

:: GO VEGAN ::

2 de julho de 2019. Tema: Libertação Animal.


:: CAPACHO OU NÃO-CAPACHO ::
Rebecca Solnit, Whose Story is This?

A implicação geral é que qualquer mulher que não seja um capacho é fatalmente uma dominatrix.

[The general implication is that any woman who’s not a doormat is a dominatrix.]


:: LUTO ::
Kate Abramson, “Turning Up the Lights in Gaslighting” (2014)

Uma mulher vítima de gaslighting perdeu a si mesma, ainda que de forma parcial e temporária. E, de várias maneiras, suas reações depressivas fazem sentido — ela está em luto; está em luto pela perda de sua perspectiva independente, de sua capacidade de formar e manter suas próprias reações e percepções, pela perda das amizades que se tornaram — ou sempre foram — relações de manipulação, e por sua própria cumplicidade, em grande parte inocente, em tudo isso. Pode levar tempo, e exigir esforço, para que ela passe a ver suas reações depressivas como manifestações disso; assim como em muitas formas significativas de luto, pode ser necessário um trabalho interior e uma autocompreensão — nem sempre acessíveis de imediato — para que se possa viver isso como um luto. Mas, por mais devastador que seja, é exatamente isso.

[A gaslighted woman has lost, albeit partially and temporarily, herself. And in various ways, her depressive responses are fitting—she is grieving; she’s grieving the loss of her independent perspective, her ability to form and maintain her own reactions and perceptions, the loss of the friendships that became or turned out to be mere gaslighting relations, and her own largely blameless complicity in all of this. It may take her time, and work, to come to see her symptomatically depressive reactions in these terms; like many forms of significant grief, it can take work and self-understanding that’s not easily or immediately accessible to experience its manifestations as grief. But, devastating though it is, it is precisely that.]


:: COMO UM FILHOTINHO ::
Anne Lammott, Operating Instructions

Ah, mas minha barriga agora é como um colchão d’água coberto de flanela. Quando me deito de lado na cama, minha barriga se acomoda educadamente ao meu lado, como um cachorrinho.

[Oh, but my stomach, she is like a waterbed covered with flannel now. When I lie on my side in bed, my stomach lies politely beside me, like a puppy.]


:: PERITO EM CELOFANE ::
Philippe Boxho, Os mortos também falam

O perito judicial não deve ser confundido com o técnico de cena de crime. Ao contrário do que mostram as séries, são dois trabalhos diferentes. Às vezes essas funções podem ser exercidas pela mesma pessoa, mas não é uma regra geral. Existem peritos para tudo: especialistas em fibras sintéticas, em fibras animais, em fibras vegetais, em lâmpadas de farol de carro, em pintura automotiva, em acidentes de trânsito, em incêndios, em informática, em balística, em pegadas, em vestígios de pólvora, em vestígios de terra, em toxicologia, em impressões digitais, em medicina legal etc. Na verdade, qualquer material, mesmo o mais inimaginável, pode ser objeto de uma perícia científica. Já conheci até um perito em guarda-chuvas.


:: GENTE HONESTA ::
Clarice Lispector, Todas as cartas

A casa de chá é muito bonitinha, com gente honesta comendo doce.


:: LINKS ENGRAÇADOS ::

Sarah Manguso, Liars

Quando li aqueles três meses de mensagens, vi que ele sempre encaminhava para a Victoria os links engraçados que eu mandava pra ele. Fiquei me perguntando se em algum momento ele pensou: “Vou continuar casado por mais um tempo, já que minha esposa me manda links de coisas engraçadas que a minha namorada gosta”.

[When I read those three months of his text messages, I saw that he’d always sent Victoria links to the funny online things I sent him. I wondered if there was a point at which he thought, I’ll stay married for a while longer, since my wife gives me links to funny online things that my girlfriend likes.]


:: DEPRESSÃO COMO RESISTÊNCIA ::
Kate Abramson, “Turning Up the Lights in Gaslighting” (2014)

Há outro ponto moral importante em reformular dessa forma o estágio final do gaslighting. Essa abordagem muda nossa perspectiva: deixamos de ver a mulher vítima de manipulação psicológica como mero objeto de tratamento — como alguém clinicamente deprimida — para reconhecê-la como membro ativo da comunidade moral, em processo de luto por perdas de valor incomensurável. E enquadra a própria depressão dela, ainda que de forma peculiar, como a última forma de resistência ao gaslighting — se ela é capaz de lamentar a perda de si mesma, então, na verdade, não está totalmente perdida. Sua depressão não é, portanto, apenas o resultado dos abusos que sofreu e suportou; é uma resposta avaliativa adequada ao que lhe foi imposto, e o primeiro marco no caminho de volta.

[There is another significant moral point to so reframing the final stage of gaslighting. Doing so shifts our perspective from one in which we see a gaslightedwoman as a mere object of treatment—qua clinically depressed—to one in which we see her as an ongoing member of the moral community, grieving losses of insuperable value. And it frames her depression itself, if in a peculiar way, as the last form of resistance to gaslighting—if she can grieve the loss of herself, then in fact, she is not entirely lost. Her depression is not then merely the outcome of the wrongs she has suffered and endured; it’s a fitting evaluative response to what she has been subjected and the first signpost on the road back.]


:: SOBRE COÇAR COCEIRAS ::
Louisa Thomas, “On John Updike’s […]

Updike nunca coçou uma coceira sem transformá-la em um livro, então não é surpresa que aquela ida a Fenway tenha virado um ensaio.

[Updike never scratched an itch without putting it into a book, so it’s not a surprise that that trip to Fenway turned into an essay.]


:: SEGUNDO TURNO ::
Darcy Lockman, All the Rage

Por recomendação de uma amiga, comecei a ler The Second Shift, o detalhado relato da socióloga Arlie Hochschild — de mais de trinta anos atrás — sobre as formas como casais heterossexuais das décadas de 1970 e 1980 organizavam suas vidas profissionais e domésticas. Me identifiquei tanto com as mães exaustas do estudo que esse se tornou o primeiro livro acadêmico a me fazer chorar.

[At a friend’s recommendation, I picked up The Second Shift, sociologist Arlie Hochschild’s thirty-year-old detailed account of the ways in which heterosexual couples of the 1970s and ’80s organized their work and home lives. I identified so strongly with the thin-stretched mothers in her study that it became the first academic book to ever make me cry.]


:: MATRIARCADO ::

5 de agosto de 2019. Vocês acham que eu exagerei na metáfora?
ps. A Moranguinho tá com uma granada.

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Agradecimentos: DeepSeek.
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Lembremos de nossa cenouridade comum

#104 – São Paulo, 7 de março de 2025
Contém: pânico moral e caça às borboletas
Não acenando, mas se afogando
hortifruti.org

“Meus prazeres são os mais intensos conhecidos pelo homem: escrever e caçar borboletas”
(Vladimir Nabokov)

“Quem, se eu gritasse, me ouviria?”
(Rainer Maria Rilke)

:: EDITORIAL :

Esta edição é o mais puro suco de aleatoriedade. Desta vez, nem tentamos procurar uma temática ou um fio condutor que nos sustentasse: apenas nos atiramos de cabeça neste oceano de desvario, engolindo as águas salobras do despropósito e nos afogando em um omnivorismo literário sem norte.

Gostaríamos de pedir as mais sinceras desculpas a todos vocês que assinaram esta publicação nos últimos meses, depositaram uns dinheiros no Pix, pagaram um creminho de cupuaçu na comedoria do Sesc & enviaram sorvetes e livros à redação. A todos vocês, muito obrigada. Vocês são cenouras. Somos todos cenouras. Enquanto nos lembrarmos de nossa cenouridade comum, estaremos bem.

Aproveitamos para avisar que, além de sorvetes, também aceitamos contribuições em forma de citações retiradas de suas leituras mais recônditas. Basta enviar para o endereço: vmbarbara@yahoo.com.


:: SILÊNCIO ::
Alia Trabucco Zerán, Limpa

Meu silêncio começou depois da morte da minha mãe. Não foi deliberado. Também não foi uma punição. Se eu tivesse que defini-lo, diria que era mais como um labirinto: depois de um tempo dentro dele, eu não conseguia mais encontrar a saída.

[My silence began after my mama’s death. It wasn’t deliberate. It wasn’t a punishment either. If I had to define it, I’d say it was more like a maze: after a while spent inside it, I could no longer find the way out.]


:: DESVENTURADAS MULHERES ::
Cynthia Ozick, Metáfora y memória

No fundo, sou uma daquelas mulheres desventuradas pré-modernas que acreditam que a lâmpada é a cabeça de um demônio invocado pelo interruptor de luz e que Freud quer dizer “prazer” em alemão; por isso, não estou habilitada para falar sobre os princípios da eletricidade nem sobre psicanálise.

[En el fondo, soy una de esas desventuradas mujeres premodernas que creen que la lámpara es la cabeza de un demonio invocado por el interruptor de la luz y que Freud significa placer en alemán; por lo tanto, no estoy capacitada para hablar sobre los principios de la electricidad ni sobre el psicoanálisis.]


:: NÃO ACENANDO ::
Stevie Smith, “Not waving, but drowning

Eu estava muito mais longe do que você pensava
E não acenando, mas me afogando.

[I was much further out than you thought
And not waving but drowning.
]


:: DISCURSO DE ELITE ::
Adrian Daub, The Cancel Culture Panic

O pânico da cultura do cancelamento prospera na suposição de que aqueles que detêm o poder — de autoridades eleitas a editores, professores e escritores do mainstream — merecem esse poder de alguma forma. E oferece uma explicação abrangente para deslegitimar aqueles que questionam os privilégios e a influência dos poderosos. Afinal, eles são “turbas do Twitter” que praticam a cultura “wokeness” como uma “pseudoreligião”. São acusados de aderir ao “culto de gênero”, de serem responsáveis ​​por um “novo macartismo”, e carecem de humor, graça e, em última instância, de identidade própria. […] A queixa sobre a cultura do cancelamento é um discurso de elite.

[The cancel culture panic thrives on the assumption that those who hold power— from elected officials to editors to professors to mainstream writers—deserve that power to some extent. And it provides an all-encompassing explanation as to why those who question the privilege and power of those with privilege and power are not actually worth listening to. They are, after all, “Twitter mobs” who practice “wokeness” as an “ersatz religion.” They subscribe to the “cult of gender,” are responsible for a “new McCarthyism,” and are humorless, graceless, and ultimately faceless. […] The complaint about cancel culture is an elite discourse.]


:: GRANDES BIOGRAFIAS ::
Sam Knight, “Hive Mind

Em 2008, [o zoólogo alemão Lars Chittka] foi coautor de um artigo sugerindo que os zangões poderiam sofrer de ansiedade.

[In 2008, he co-authored a paper suggesting that bumblebees could suffer from anxiety.]


:: CUMPRIMENTE-OS DE MANHÃ ::
Barbara Ehrenreich, Fear of Falling

Para atingir esse ideal, os pais deveriam se proteger contra qualquer demonstração imprudente de emoção de sua parte. “Nunca abrace e beije [seus filhos]”, John B. Watson alertou. “Nunca os deixem sentar no seu colo. Se for necessário, dêem-lhes um beijo na testa quando disserem boa noite. Cumprimente-os de manhã.”

[To achieve this ideal, parents were to guard against any reckless display of emotion on their own part. “Never hug and kiss [your children],” Watson warned. “Never let them sit on your lap. If you must, kiss them once on the forehead when they say goodnight. Shake hands with them in the morning.”]


:: TWO TIRED ::

John McFee, “Tabula Rasa

Em Three Rivers, Mich., Thomas Kline, 11, colidiu sua bicicleta com um automóvel em movimento, e depois confessou à polícia: “Adormeci no guidão”.

[TWO TIRED. In Three Rivers, Mich., Thomas Kline, 11, smashed into a moving automobile with his bicycle, later confessed to police: “I fell asleep at the handlebars.”]


:: NÃO FOTOGRAFAR ::
Cory Doctorow, Content

De fato, parece que cada centímetro quadrado da Portrait Gallery está sob algum tipo de copyright. Não me foi permitido nem fotografar a placa de NÃO FOTOGRAFAR. Uma funcionária do museu explicou que lhe disseram que a tipografia e o layout da legenda NÃO FOTOGRAFAR eram, eles próprios, protegidos por direitos autorais.

[Indeed, it seems that every square centimeter of the Portrait Gallery is under some form of copyright. I wasn’t even allowed to photograph the NO PHOTOGRAPHS sign. A museum staffer explained that she’d been told that the typography and layout of the NO PHOTOGRAPHS legend was, itself, copyrighted.]


:: LIBERTAÇÃO ::
Rebecca Solnit, A mãe de todas as perguntas

Nós somos as nossas histórias, que podem ser a prisão e o pé de cabra que vai arrombar a porta; criamos histórias que nos salvam ou que nos prendem, a nós ou a outros, histórias que nos elevam ou nos esmagam contra o muro de pedra dos nossos medos e limitações. A libertação sempre é, em parte, um processo de contar uma história: romper histórias, romper silêncios, criar novas histórias. Uma pessoa livre conta a sua história própria.


:: LEITURA DE POESIA CAUSA DIVÓRCIO ::
The Daily News Leader, 18/12/1936

Cambridge, Mass., Dez 17 — Uma esposa socialmente proeminente, que depôs que o marido costumava acordá-la no meio da noite para ouvir poemas escritos por ele, conseguiu um divórcio incontestado sob o argumento de crueldade.


:: ABSENCE MINDED ::
John McFee, “Tabula Rasa

Em Miranda de Ebro, na Espanha, o diretor da escola ordenou que as portas da instituição fossem fechadas às 9h como uma lição disciplinar aos alunos atrasados, e desistiu do projeto quando 50% dos professores ficaram trancados do lado de fora.

[ABSENCE MINDED. In Miranda de Ebro, Spain, the school principal ordered the school doors closed at 9 a.m. as a disciplinary lesson to late students, gave up the project when 50% of the teachers were locked out.]


:: CABRA IDOSA ::
Hermione Lee, Virginia Woolf

Há a história de Virginia enviando um telegrama ao saber da notícia do noivado de George [Stephen] com Flora Russell. A mensagem deveria dizer ELA É UM ANJO” e foi assinada com o apelido de Virginia, mas chegou como “ELA É UMA CABRA IDOSA.” (Dizem que esse foi um dos motivos para o noivado ter sido desfeito.)

[There was the story of Virginia sending a telegram on hearing the news of George’s engagement to Flora Russell, which was meant to read ‘SHE IS AN ANGEL’ and was signed with Virginia’s nickname, and which came through as ‘SHE IS AN AGED GOAT.’ (This is supposed to have been one of the reasons the engagement was broken off.)]


:: IRRITADAMENTE ::
Richard Gordon, A assustadora história da medicina

Florence Nightingale tinha muitas outras peculiaridades, como bater irritadamente as tampas abertas das privadas.


:: DE CORES DIFERENTES ::
Eric Kandel, Em busca da memória

Chip Quinn, um dos primeiros cientistas a realizar estudos genéticos de aprendizagem nas moscas-das-frutas, afirmou que o animal experimental ideal para os estudos biológicos da aprendizagem deveria ter “não mais que três genes, ser capaz de tocar violoncelo ou pelo menos recitar em grego clássico e aprender a realizar essas tarefas com um sistema nervoso contendo somente dez neurônios, grandes, de cores diferentes e, portanto, facilmente reconhecíveis”.


:: CANIBALISMO NARRATIVO ::
Rebecca Solnit, A mãe de todas as perguntas

O silêncio foi o que permitiu que os predadores atacassem ao longo das décadas, sem impedimentos. É como se as vozes desses homens públicos importantes devorassem e aniquilassem as vozes dos outros, num canibalismo narrativo.


:: RETRATOS DE CACHORROS ::
Roger Grenier, Da dificuldade de ser cão

O pessimista Schopenhauer escreveu sobre a bondade dos cachorros: “Eu não teria nenhum prazer em viver em um mundo onde os cães não existissem”. Deprimido, vítima de fobias, ele mandou alternar, nas paredes da sala do seu pequeno apartamento de Frankfurt, retratos de cachorros e de grandes filósofos.


:: POLE APART ::

John McFee, “Tabula Rasa

Em Grand Junction, Colorado, uma viatura de polícia nova em folha entrou em um estacionamento municipal para fazer uma ronda rotineira, circulou lentamente pela área enquanto o motorista verificava o lado esquerdo e seu companheiro verificava o direito, e bateu de frente em um poste telefônico.

[POLE APART. In Grand Junction, Colo., a shiny new police car drove into a municipal parking lot on a routine assignment, slowly cruised around as the driver checked the left side and his companion checked the right, smacked head-on into a telephone pole.]


:: PÂNICO MORAL ::
Adrian Daub, The Cancel Culture Panic

Por trás do pânico fundamentalmente inútil em torno da cultura do cancelamento, existe, no fim das contas, um medo genuíno — sobre mudanças na sociedade e quem pode falar; sobre quem é ouvido e quem pode se tornar um especialista, incluindo um especialista em sua própria experiência.

[… behind the fundamentally nugatory freak-out about cancel culture there is, in the end, a genuine fear —about change in society and who gets to talk; about who gets listened to and who gets to be an expert, including an expert on their own experience.]


:: PARA O GIGIO ::
Will Ferguson, De carona com Buda

Como muitos ocidentais, confundo “humano” (ningen) com “cenoura” (ninjin), o que certa vez me causou muitos olhares atônitos durante uma palestra que fiz em Tóquio sobre os benefícios da internacionalização, quando apaixonadamente declarei: “Eu sou uma cenoura. Você é uma cenoura. Somos todos cenouras. Enquanto nos lembrarmos sempre de nossa cenouridade comum, estaremos bem.”


:: DESCULPA FORMAL ::
Um modelo para preencher

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Agradecimentos: Paulo Naves, Bruna Luisa dos Santos, Google Translate.

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