A arte feminina de quebrar tudo

Dinah Craik’s Hidden Mother Portrait, 1863


#116 – São Paulo, 9 de março de 2026
Especial Matrescência
Cansaço, pele pálida e cabelo oleoso
hortifruti.org

“Mãe é uma mulher que ficou louca”
(Miguel Sokol)

:: EDITORIAL ::

Está chegando às livrarias no dia 9 de março um verdadeiro tratado sobre esse assunto complicado que é procriar, parir e então se ver irremediavelmente transformada em um legume para o resto da vida.

O que muda aí é o tipo de legume.

(Mulheres transformadas em inhames, por exemplo, são relativamente sortudas.)

Mas me afastei um pouco do cerne da questão. Matrescência é um livro de não ficção escrito pela jornalista científica britânica Lucy Jones e traduzido por esta vossa humilde criada. Está sendo publicado pela editora Fósforo. É grande e ficou especialmente caprichado, sobretudo na parte bibliográfica e nas notas de rodapé.

Leiam, divulguem, emprestem e usem como peso para fixar a cola nos brinquedos.

Matrescência: Sobre a metamorfose da gravidez, do parto e da maternidade
Lucy Jones
Trad.: Vanessa Barbara
Editora Fósforo
384 páginas (!)
R$ 114,90


:: BABY JESUS ::

Lucy Jones, Matrescência

Essas ideias bizarras eram herança da teoria da “imaginação materna”, que prevaleceu entre os séculos XVI e XVIII. Os médicos acreditavam que as mulheres grávidas podiam transformar, com suas mentes, o feto em crescimento, e portanto os distúrbios congênitos eram culpa da mãe. Se ela se assustasse com um sapo, por exemplo, a criança poderia acabar com os pés palmados. Ou se ela passasse muito tempo olhando para uma imagem de Jesus, o bebê poderia nascer com uma barba.


:: ANESTESIA DE MORAES::
Lucy Jones, Matrescência

Quando James Young Simpson, professor de obstetrícia em Edinburgo e criador do modelo de fórceps utilizado até hoje, ofereceu essa opção a uma paciente chamada sra. Carstairs, ela ficou tão grata que batizou a filha de “Anestesia”.


:: PORÉM ::
Lucy Jones, Matrescência

Nem todos estavam satisfeitos com essas iniciativas para minimizar a dor das mulheres no parto. O apelo inicial de Simpson para empregar analgésicos “de acordo com todos os princípios da verdadeira humanidade”, em 1847, foi contestado por padres e médicos por razões religiosas e morais: em Gênesis, Deus amaldiçoa Eva por comer a maçã, e seu castigo é que o parto deveria doer – “Multiplicarei as dores de tuas gravidezes, na dor darás à luz filhos”. (O castigo de Adão era lidar com espinhos e cardos, o que me parece um pouco injusto.)


:: ENTES QUERIDOS IDOSOS ::
Lyz Lenz, Belabored

Dessa vez, eu me permiti comer mais do que nunca. Deixei meu corpo ditar sua relação com o mundo físico. Vi meu corpo se expandir, vi minha pele esticar. Muitas vezes sonhava que as pessoas vinham até mim e me ofereciam pratos de comida, seus animais de estimação, seus entes queridos idosos, e eu os enfiava delicadamente em minha boca.

[This time I let myself eat, like I never had before. I let my body dictate its relationship with the physical world. I saw myself expand, saw my skin stretch. I’d often dream that people came to me and offered me plates of food, their pets, their aging loved ones, and I’d gently draw them all into my mouth.]


:: PRIMEIRA MULHER EM MARTE ::
Abigail Tucker, Mom Genes

E, no entanto, como filha de uma mãe que, cerca de quatro décadas após meu nascimento, ainda me segue até os estábulos frios das ovelhas, e como mãe de uma filha que atualmente deseja ser a “primeira mulher em Marte”, mas também ter 22 filhos, tenho muitas perguntas sobre essa jornada feminina compartilhada e sobre os lugares aonde as mulheres vão sem saber.

[And yet, as the daughter of a mother who—some four decades after my birth—will still tail me into wintery sheep barns, and as the mother of a daughter who presently aims to be the “first girl on Mars” but also to have twenty-two children, I have many questions about this shared female journey, and the places that women unknowingly go.]


:: HIPNOPARTO ::
Lucy Jones, Matrescência

Em um dado momento, parecia que o bebê poderia rasgar o meu períneo, então rapidamente me moveram para outra posição. Nas horas seguintes, fui colocada em várias posições para aproveitar a força da gravidade: de quatro, em uma espécie de pose de cadeira, de joelhos e, por fim, deitada de lado com uma perna no ombro da parteira, porque, àquela altura, eu já não conseguia me sustentar. Estava no meu estado mais feral e primitivo. Queria queimar a indústria do hipnoparto até não sobrar mais nada.


:: A DOR ::
Olga Ravn, My Work

Mas a crença de que falar abertamente sobre a dor da maternidade prejudicaria a criança, e a própria mãe, é uma mentira. E eu não quero mais ter medo disso.

[But the belief that it would hurt the child, and the mother herself, to openly speak about the pain of motherhood is a lie. And I don’t want to be afraid of it any longer.]


:: AMAMENTAÇÃO ::
Lucy Jones, Matrescência

Baixei um livro, publicado pela La Leche League, chamado The Womanly Art of Breastfeeding [A arte feminina de amamentar]. A capa mostrava uma bela mulher de longos cabelos ruivos cacheados e soltos, envolta em um lençol branco. “Este livro irá me ensinar a arte feminina”, pensei. “Amamentar não te dá pontos extras. É apenas a forma normal de criar um bebê”, eu li.


:: ADENDO ::

Eu também li The Womanly Art of Breastfeeding inteirinho e não cheguei a entender grande coisa sobre a tal arte feminina.


:: PROFUNDO DESPREZO ::
Emily Van Duyne, Loving Sylvia Plath

Em seu testamento, Assia Wevill foi bem direta: “A Ted Hughes, o pai dela”, escreveu, “deixo minha ausência, sem dúvida bem-vinda, e meu profundo desprezo.”

[In her will, Assia Wevill made no bones: “To Ted Hughes, their father,” she wrote, “I leave my no doubt welcome absence and my bitter contempt.”]


:: PANÇA BALOUÇANTE ::
Lucy Jones, Matrescência

As reportagens nunca diziam: “Rowena ostenta seu abdome super rechonchudo apenas dois meses depois de dar à luz seu bebê”, ou: “Gia flexionou sua pança balouçante”, ou: “Ao sair de casa, Poppy fez questão de que todos olhassem para sua barriga flácida e cheia de estrias em um sutiã Balenciaga, exibindo sinais profundos de cansaço, a pele pálida e o cabelo perfeitamente oleoso”.


:: NEVOEIRO ::
Yvonne Perrin, The First Seven Years: A Record Book for Mother & Child

Ele […] deve dormir ao ar livre o dia todo, no inverno e no verão. A única condição climática realmente inadequada para o bebê é o nevoeiro.


:: EMOÇÕES DESCONTROLADAS ::
Lucy Jones, Matrescência

Publicado em 1894, The Care and Feeding of Children [Cuidado e alimentação infantis], do pediatra Luther Emmett Holt, foi um best-seller. “Nunca se deve brincar com bebês menores de seis meses; quanto menos isso acontecer, em qualquer época, melhor para eles”, escreveu. Outras regras incluíam não sair de casa com o bebê pelos primeiros três meses, assim como um aviso de que “emoções descontroladas, tristeza, excitação, medo e paixão podem fazer o leite cair mal à criança”.


:: GRAVIDEZ ::
Abigail Tucker, Mom Genes

Durante a gravidez, todo o nosso corpo passa por mudanças. Nossas pintas podem escurecer e nossa voz pode ficar mais grave (como aconteceu com Kristen Bell grávida durante as gravações de Frozen — parece que a famosa trilha sonora poderia ter sido ainda mais estridente em alguns trechos). Nossos narizes alargam, nossos arcos plantares se achatam e nossas unhas dos pés caem. Nosso cabelo pode mudar de cor ou ficar cacheado. Podemos arrotar como se tivéssemos engolido uma bomba-relógio. Nosso fígado pode liberar bile, provocando uma coceira insuportável. E nos tornamos comprovadamente mais apetitosas para os mosquitos devido ao aumento da temperatura corporal e da produção de dióxido de carbono.

[In pregnancy our entire physical selves are in flux. Our moles may darken, our voices drop an octave (as a pregnant Kristen Bell’s did while recording Frozen—it seems that the notorious soundtrack could have been still shriller in places). Our noses widen, our arches flatten, and our toenails fall off. Our hair can change color or gain curl. We may burp as if we’ve swallowed a bomb cyclone. Our livers may leak bile, causing us to itch like the dickens. And we become demonstrably more delicious to mosquitoes because of our increased body temperature and carbon dioxide output.]


:: ULTRASSÔNICO ::
Abigail Tucker, Mom Genes

Um estudo com roedores revelou que as mães ratas precisam guinchar de modo ultrassônico para que os pais ajudem a cuidar dos filhotes.

[A rodent study revealed that mice moms must ultrasonically squeak at mice dads in order to get them to pitch in with childcare.)]

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Batata extasiada brincando na pia, nov. 2025

#115 – São Paulo, 6 de fevereiro de 2026
Especial dentistas
hortifruti.org

“Até capturarmos esta tartaruga/
a outra já fugiu.”
(Rafael Mantovani)

:: EDITORIAL ::

Nesta edição, juntamos dois temas palpitantes que jamais foram abordados em conjunto: carnaval e dentistas.

Somos assim audaciosos — ou preguiçosos demais para buscar a necessária congruência.

Fica a dica para as escolas de samba que, em 2027, poderão usar o samba-enredo “Da Gengiva ao Implante: O Cuidado Bucal Vira Carnaval” ou “Com Dentadura ou Natural, Nosso Samba é Imortal”.

Para mais contexto, leiam a análise: “No quesito piada infame, nota da madrugada é 10”. E divirtam-se.


:: CARNAVAL ::

Mulher no metrô:

“…Aí me falaram que eu já era a quarta pessoa que ficava com ele e ainda era 6 da tarde! [pausa] Ou seja, o cara acordou cedo.”


:: CIDADE DOS MOLARES ::
Burkhard Bilger, “Mexico’s Molar City…”

Segundo Roberto Díaz e Paula Hahn, administradores de um site de turismo médico chamado Border CRxing, a cidade de Los Algodones tem a maior concentração per capita de dentistas do mundo: bem mais de mil em uma população de 5.500 habitantes. É conhecida como a Cidade dos Molares.

[According to Roberto Díaz and Paula Hahn, who run a website about medical tourism called Border CRxing, Los Algodones now has the highest per-capita concentration of dentists in the world: well over a thousand in a population of fifty-five hundred. It’s known as Molar City.]


:: RATOS EM CARTOLAS ::
Guimarães Rosa, Ave, palavra

Zôo (Jardin des Plantes)
Tartarugas, nas lajes: estouvam-se, remexendo-se, que nem ratos debaixo de cartolas.


:: 750 CONVIDADOS E 3 ELEFANTES ::

Janet Flanner, Paris era ontem

Em Versalhes [em 1939], lady Mandl deu um baile de época para 750 convidados e três elefantes, sendo que todos os três se recusaram a ser montados, entre outros, pela princesa de Kapurthala.


:: ASPECTO DE FRANGO ::
Nikolai Gogol, Taras Bulba

O dono da casa, depois de ter bebido um pequeno copo de uma misteriosa infusão, despiu o cafetã e, ficando de ceroulas e pantufas, adquiriu o aspecto de um frango. Depois foi deitar-se com a mulher em algo que parecia um armário. Dois rapazolas deitaram-se no chão, defronte do armário, parecendo simples cachorros.


:: CHAVE NO PRATO ::
Yasemin Saplakoglu, “At the Mysterious Boundary…”

Na mesma época em que Loomis realizava experimentos com eletroencefalograma (EEG) em sua mansão, o artista surrealista [Dalí] fazia experiências com suas próprias transições para o sono. Como descreveu em seu livro de 1948, 50 Secrets of Magic Craftsmanship [50 segredos mágicos da pintura], ele se sentava em uma “poltrona esquelética, de preferência de estilo espanhol”, enquanto segurava frouxamente uma chave pesada sobre um prato virado para baixo no chão. À medida que adormecia, suas mãos relaxavam — e eventualmente a chave caía por entre seus dedos. O estalo repentino da chave ao bater no prato o despertava. Convencido de que acordar durante essa fase revigorava seu ser psíquico e impulsionava a criatividade, Dalí então se sentava e começava a pintar.

[Around the time that Loomis was conducting EEG experiments in his mansion, the surrealist artist was experimenting with his own transitions into sleep. As he described it in his 1948 book 50 Secrets of Magic Craftsmanship, he would sit in a “bony armchair, preferably of Spanish style,” while loosely holding a heavy key in one palm above an upside-down plate on the floor. As he drifted off, his hands would slacken — and eventually the key would fall through his fingers. The sudden clack of the key hitting the plate would wake him. Convinced that being aroused during this period revived his psychic being and boosted creativity, Dalí would then sit down and start painting.]

Recado para o meu TOC


:: PELO NARIZ ::
Burkhard Bilger, “Mexico’s Molar City…”

Quando Luís XIV teve um dente extraído em Versalhes, o dentista puxou sua mandíbula com tanto zelo que abriu um buraco no palato, alcançando a passagem nasal. Por um tempo depois disso, qualquer líquido que o rei bebesse jorrava pelo seu nariz. Para estancar o sangramento, o cirurgião teve que cauterizar o buraco com um ferro em brasa.

[When Louis XIV had a tooth pulled at Versailles, his dentist yanked at his jaw with such zeal that he tore a hole through the palate and into the nasal passage. For a while after that, any liquid that the King drank would come spraying out of his nose. To plug it closed, his surgeon had to cauterize the hole with a red-hot iron.]


:: A FACILIDADE ::

Gay Talese, A Writer’s Life

Passo o dia todo sozinho, produzindo prosa com a facilidade de um paciente expelindo pedras nos rins, e por isso à noite prefiro jantar fora […].

[I am alone all day, producing prose with the ease of a patient passing kidney stones, and so at night I prefer to dine out…]


:: CINCO MILHÕES ::
Evan Osnos, “Donald Trump’s Politics of Plunder”

Até mesmo os praticantes mais experientes do toma-lá-dá-cá de Washington ficaram espantados com as novas regras para a compra de influência. Em dezembro, um assento em um jantar coletivo em Mar-a-Lago podia ser garantido com uma contribuição de um milhão de dólares para a MAGA Inc., um super PAC que funciona como caixa de campanha para as eleições de meio de mandato. Mais recentemente, conversas individuais com o presidente passaram a estar disponíveis por cinco milhões de dólares.

[Even seasoned practitioners of Washington pay-to-play have been startled by the new rules for buying influence. In December, a seat at a group dinner at Mar-a-Lago could be had for a million-dollar contribution to MAGA Inc., a super PAC that serves as a war chest for the midterms. More recently, one-on-one conversations with the President have become available for five million.]


:: LET DEATH COME ::
Matthew Crawford, The World Beyond Your Head

Acho que […] esse tipo de passividade é uma libertação da necessidade de controle. Como autônomo, não tenho a rotina de um emprego fixo, então o arranjo de cada hora é uma questão de escolha, uma oportunidade de reflexão e avaliação. Às vezes, eu só quero ficar onde estou e assistir Dateline, porque é o que vem a seguir. Deixe a morte me levar.

[I think because the passivity of it is a release from the need for control. As someone who is self-employed, I don’t have the jig of a regular job, so the disposition of every hour is a matter of choice, an occasion for reflection and evaluation. Sometimes I just want to stay where I am and watch Dateline, because that’s what’s next. Let death come.]


:: NÃO É CERTO ::
Norah Vincent, Voluntary Madness

Não é certo estar num quarto tão pequeno quando se está perdendo a cabeça.

[It’s not right to be in such a small room when you’re losing your mind.]


:: INSALUBRIDADE ::
Burkhard Bilger, “Mexico’s Molar City…”

Em 2020, uma pesquisa realizada pela Faculdade de Odontologia da Universidade de Nova York revelou que três quartos dos dentistas admitiram ter sido atacados verbalmente por um paciente, e quase metade havia sofrido agressão física. Os estudantes de odontologia foram ainda mais maltratados: 86% deles haviam sofrido abuso verbal no ano anterior.

[In 2020, in a survey by the New York University College of Dentistry, three-quarters of dentists reported that they’d been verbally attacked by a patient, and nearly half had been physically assaulted. Dental students were treated even worse: eighty-six per cent had been verbally abused in the previous year.]


:: METRÔ ::
Jack London, The People of the Abyss

Estávamos tão apertados que vários homens aproveitaram a oportunidade e adormeceram profundamente em pé.

[So tightly were we packed, that a number of the men took advantage of the opportunity and went soundly asleep standing up.]


:: DONOS DA ÁGUA ::
W. David Marx, Status and Culture

A socióloga Ashley Mears, que pesquisou os escalões superiores do circuito global de festas em Nova York, Miami, Ibiza e Saint-Tropez, descobriu que “os esbanjadores mais duvidosos eram os não ocidentais, como russos, árabes e ‘asiáticos loucos de ricos’, ou caras que ‘são donos de toda a água da Sérvia’”.

[The sociologist Ashley Mears, who researched the top echelons of the global party circuit in New York, Miami, Ibiza, and Saint-Tropez, found that “the most dubious of big spenders were non-Westerners, like Russian, Arab, and ‘crazy rich Asian’ spenders” or guys who “own all the water in Serbia.”]


:: INSALUBRIDADE – PT. 2 ::
Burkhard Bilger, “Mexico’s Molar City…”

Dois anos depois, em Nova Orleans, uma mulher de 55 anos foi acusada de esfaquear seu dentista no olho.

[Two years later, in New Orleans, a fifty-five-year-old woman was accused of stabbing her dentist in the eye.]


:: BEREZNA – BERIA – BERING ::
Masha Gessen, The Future is History

Maya pegou um volume da Grande Enciclopédia Soviética, um tomo encadernado em tecido azul-escuro. Era o volume cinco, que começava e terminava com palavras completamente incompreensíveis: “Berezna” e “Botokudy”. Maya abriu o livro e deparou-se com um retrato de página inteira de um homem de meia-idade, quase careca, com rosto redondo, lábios finos e óculos de pincenê com lentes redondas sem aro.

Era Lavrentiy Beria, descrito no artigo de quatro páginas que acompanhava o retrato como “um dos líderes mais destacados do Partido Comunista Soviético Bolchevique e do Estado soviético, um aluno leal e camarada de J. V. Stálin”, e assim por diante. Não era o avô de Arutyunyan — era o principal executor de Stálin. Depois que o próprio Beria foi executado, os assinantes da Grande Enciclopédia Soviética receberam uma carta que Maya agora lhe mostrava: a editora estatal acadêmica da Grande Enciclopédia Soviética recomenda que as páginas 21, 22, 23 e 24, bem como o retrato anexado entre as páginas 22 e 23, sejam removidos e substituídos por novas páginas, anexas a esta carta. Use tesoura ou lâmina de barbear para remover as páginas mencionadas, tomando cuidado para preservar as margens internas onde as novas páginas serão coladas.

As páginas de substituição continham um artigo sobre o Estreito de Bering.

[Maya got out a volume of the Great Soviet Encyclopedia, a tome in blue-black cloth. This was volume five, which began and ended with perfectly incomprehensible words: “Berezna” and “Botokudy.” Maya opened the book to a full-page portrait of a middle-aged, mostly bald man with a round face, perfectly thin lips, and a pince-nez with round rimless lenses. This was Lavrentiy Beria, whom the accompanying four-page article described as “one of the most outstanding leaders of the All-Soviet Communist Party of Bolsheviks and of the Soviet state, a loyal student and comrade of J. V. Stalin,” and so forth. This was not Arutyunyan’s grandfather—this was Stalin’s chief executioner. After he himself was executed, subscribers to the Great Soviet Encyclopedia received a letter that Maya was now showing her: The state scholarly publishing house of the Great Soviet Encyclopedia recommends that pages 21, 22, 23, and 24, as well as the portrait bound in between pages 22 and 23, be removed and replaced with new pages, enclosed with this letter. Use scissors or a razor blade to remove the above-mentioned pages, taking care to retain inner margins to which new pages are to be glued. The replacement pages contained an article on the Bering Strait.]


:: OBRA- PRIMA ::

Este álbum é uma obra-prima.

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Agradecimentos: Adriano Bastos, Arthur Tertuliano, Gigio, minha mãe. Esta edição foi possível graças a 27 aguerridos assinantes e uma dúzia de doadores esporádicos.

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Duas novidades aleatórias e um alerta

O desenho acima representa a autora fugindo de uma espiral de extravagância. Talvez ela tenha uma mochila nas costas e um par de botas bufantes. Ou então está tentando escapar de um rocambole descontrolado.

Nesta edição extra, trazemos dois comunicados importantes e um alerta. O boletim “O Mês em Batata” virá quando possível, pois não trabalhamos sob pressão.

São eles:

1. O aniversário é do episódio e quem perde somos nozes

Esses dias comemoramos o aniversário de um ano do episódio “CPF na nota?”, esse feito literário intrépido que nos enche de orgulho.

Algumas coisas que aconteceram desde então:

  • Fui acusada de “monetizar meu chifre”
  • Recebi 2 (dois, deux, two, zwei) pedidos de desculpas de homens envolvidos
  • Alguns veículos de imprensa se prestaram quase que imediatamente a descredibilizar a vítima
  • Houve inúmeras tentativas de descobrir meus interesses escusos
  • Um total de zero pessoas foi cancelada, apesar do pânico moral
  • Um sujeito lembrou que eu era colaboradora regular do NYT, e que portanto minha carreira jamais foi prejudicada. Achei humilde que ele tenha admitido exercer influência significativa em jornais americanos. (A autoestima do homem branco!)
  • Mulheres colocaram meu relato em dúvida e falaram em questões inverificáveis
  • Mulheres que me defenderam estão sendo processadas
  • As escritoras — eu gostaria de ter contado com o apoio de meia dúzia delas. Mas nessa selva editorial, isso pode significar perder emprego, prêmio, contrato.
  • Um jornal chegou a anunciar que houve um aumento de 13.800% nas vendas dos meus livros, em um levantamento realizado a pedido do veículo. Os números absolutos não foram fornecidos, mas estou aqui para fornecê-los: vendi 3 mil exemplares do livro Operação Impensável. Hoje vivo em Bora Bora e apoio os pés nas carcaças dos homens que desgracei.

Não deixem de ouvir Silenciadas, podcast narrativo da Cristina Fibe, e O chá revelação, de Chico Felitti, para um pouco mais de contexto.

2. Reedição do Amarelinho

Entrou em pré-venda a nova edição de O Livro Amarelo do Terminal.

A obra foi originalmente publicada em 2008 pela CosacNaify. No ano seguinte, ganhou os prêmios APCA e Jabuti de melhor livro reportagem. Também nesse ano, a capa do livro, criada por Elaine Ramos e Maria Carolina Sampaio, entrou para a lista de melhores do mundo do American Institute of Graphic Arts (AIGA). O livro foi republicado em 2018 pela editora do SESI-SP.

Com o tempo, todas essas edições se esgotaram.

Em 2026, a Fósforo preparou esta nova edição com um projeto gráfico totalmente distinto, assinado por Flávia Castanheira. Ela decidiu atualizar a cara do livro usando elementos das passagens rodoviárias de hoje: linhas pontilhadas, fontes monospaced, QR codes e códigos de barras.

Aproveito para agradecer a minha editora, Juliana Rodrigues, pela paciência e pelo capricho.

O lançamento oficial é em 4 de fevereiro.

  • Editora ‏ : ‎ Fósforo
  • Data da publicação ‏ : ‎ 4 fevereiro 2026
  • Número de páginas ‏ : ‎ 224 páginas
  • Peso do produto ‏ : ‎ 193 g
  • Dimensões ‏ : ‎ 14 x 1 x 20 cm
  • Quantidade de vezes que eu tive que reler : quatro

O release fala em “obra essencial do jornalismo literário brasileiro”, e quem sou eu para questionar?, e faz um resumo da trama:

“Borrando as fronteiras entre jornalismo e literatura, esta obra tornou-se um registro atemporal do funcionamento da segunda maior rodoviária do mundo, na qual Vanessa Barbara assume ao mesmo tempo os papéis de historiadora e investigadora, exploradora e cronista, dissecando a ‘cidade de chicletes abandonados, de pessoas com pressa e de coisas perdidas’.

3. Cuidado!

Se eu não tivesse lido direitinho a descrição dessa promoção, não sei o que faria com uma família tão grande.

Tomem cuidado.

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Agradecimentos: Esta edição foi possível graças a 26 aguerridos assinantes e uma dúzia de doadores esporádicos.

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A fila do xixi tem que andar


#114 – São Paulo, 9 de janeiro de 2026
Especial podcasts
Aceitamos pix e molho para tacos
hortifruti.org

“A gente claramente perdeu o controle do arco narrativo”
(Pedro Daltro e Cristiano Botafogo)

“Levanta-se a hipótese de que ele seja burro”
(idem, sobre o general Augusto Heleno)


:: EDITORIAL ::

Nada como escutar um podcast para impedir o córtex pré-frontal medial de cavar valas macabras no cerne da consciência humana enquanto o corpo físico se ocupa em limpar o sifão da pia. É realmente uma ocupação antidepressiva exemplar, um verdadeiro escudo acústico contra a ruminação. Uma ótima ideia para começar o ano.

Aqui vão alguns de nossos podcasts favoritos.


:: ACONTECE ::
Oliver Sacks, Alucinações musicais

Muitas de nossas associações musicais são verbais, e às vezes absurdas. Esta semana do Natal, quando comi salmão defumado (que adoro), ouvi na mente o verso “O come, let us adore Him”. E agora, para mim, o hino ficou associado ao salmão.


:: PAGO POR SUBSTANTIVO ::

Michael Hobbes e Peter Shamshiri
If Books Could Kill

Ele é pago por substantivo?
[Is he paid by the noun?]
(Michael, sobre um livro que eu não lembro qual era)

É, realmente parece que ele está só sentando e digitando sem ler nada.
[Yeah it really feels that he’s just sitting down and typing and not reading it.]

Vou só ficar aqui lendo um outro livro enquanto você fala.
[I’ll just be sitting here reading a different book while you talk.]


:: PRESOS ::

Pedro Daltro e Cristiano Botafogo
Medo e Delírio em Brasília

Um tá preso de fato e o outro tá preso na própria loucura.

(Sobre Daniel Silveira e Marcos do Val)


:: MERITOCRACIA DA SAÚDE ::
Michael Hobbes e Aubrey Gordon
Maintenance Phase

Ele acha que mudanças no estilo de vida podem curar toda e qualquer doença. [He thinks that lifestyle can cure every single illness] (Michael)

É isso que você pensa quando tem uma saúde relativamente boa, quando sempre teve acesso a cuidados médicos e quando lhe ensinaram que saúde é uma meritocracia. E que você colhe o que planta, o que não é verdade para quase nada nesta vida. [Which is what you think when you have relatively good health, when your healthcare has always been provided to you, and when you’ve been taught that health is a meritocracy. And you get out of it what you put into it, which is not true of almost anything in this life.] (Aubrey)

[…] Confundir a percepção que as pessoas têm da sua saúde com o seu caráter, moralidade e valor enquanto seres humanos. [Muddling up people’s perceived health with their carachter and morality and worth as people.]


:: MERITOCRACIA DA SAÚDE – PT. 2 ::
Michael Hobbes e Aubrey Gordon
Maintenance Phase

É claro que nossos estilos de vida afetam nossa saúde, há uma certa dose de verdade nisso. Mas acredito que a adoção dessa ideia, especialmente pela indústria, acaba introduzindo o que os pesquisadores chamam de ‘paradigma do risco associado ao estilo de vida’. O fato de o estilo de vida influenciar o risco de doenças é bastante inquestionável, mas, com o tempo, a ideia passou a ser vista como a única coisa que afeta esse risco. Chegamos, então, à conclusão oposta: que todos que adoecem devem ter feito algo para merecê-lo.

[Of course our lifestyles affect our health, there is truth at the heart of this. But I think the adoption of this and specially the takeup of this by industry ends up smuggling in what the researchers call “the lifestyle-risk paradigm”. The fact that your lifestyle affects your risk for disease is pretty unobjectionable but eventually it became that your lifestyle is the only thing that affects your risk for disease. We then get the reverse understanding that well, then, everybody who is sick must have done something to deserve it.] (Michael)

Tudo isso parte da premissa — e ao mesmo tempo reforça — a ideia de que, mais uma vez, pessoas magras e sem deficiência estão fazendo as coisas “certas”, e que quaisquer custos assumidos por um empregador são culpa das pessoas gordas e das pessoas com deficiência.

[All of this is both predicated on and reinforcing the idea that, again, thin people and non-disabled people are doing right things and that any costs that an employer shoulders are the fault of fat people and disabled people.]


:: INCENTIVAR ::

Zawn Villines
Liberating Motherhood, “The shock of motherhood in a patriarchy”

Meu marido realmente espera incentivar o lesbianismo [em nossas filhas].

[My husband is really hoping to encourage lesbianism.]


:: AS DEZ MAIS DO CÓRTEX ::
Oliver Sacks, O homem que confundiu sua mulher com um chapéu

W. Penfield impressionou-se com a frequência dos ataques musicais e deixou muitos exemplos fascinantes e quase sempre engraçados, uma incidência de 3% nos mais de 500 pacientes com epilepsia do lobo temporal que ele estudou. […]

Em cada caso, a música era fixa e estereotipada. A mesma melodia era ouvida repetidamente, fosse no decorrer de ataques espontâneos, fosse mediante estimulação elétrica do córtex propenso a ataques. Portanto, essas melodias não eram populares só no rádio, mas igualmente populares como ataques alucinatórios; elas eram, por assim dizer, “As dez mais do córtex”.


:: RESPONSABILIZAÇÃO ::
Michael Hobbes e Peter Shamshiri
If Books Could Kill

Isso refletia uma espécie de responsabilização de baixo para cima, que eles se sentiam impotentes para disciplinar.

[It reflected a sort of bottom-up accountability that they felt powerless to discipline] (Peter, sobre a “cultura do cancelamento”)

Esse medo entre os membros da maioria — pessoas que surtam com a escolha das palavras, “nem dá mais para dizer isso” —, em vez de pensarem em como a aceitação afetaria os membros da minoria, pensam em como a aceitação afetaria os membros da maioria.

[This fear among members of the majority – people who freak out about word choice, “you can’t even say this anymore” – instead of thinking about how acceptance would affect members of the minority, they think about how acceptance would affect members of the majority.]


:: ENTROPIA ::
Sarah Marshall
You’re Wrong About, “The Auralyn”

[…] viver com depressão crônica ou algo parecido. Significa que você não pode simplesmente se deitar e deixar acontecer, porque o que está acontecendo, e cada pequena coisa que você faz, cada gato que você desenha… Na verdade, você está lutando bravamente contra essa entropia em que está vivendo.

[[…] living with long-term depression or something like that. It just contains you can’t lie back and let it happen to you because it’s what’s happening and that every little thing you do and every cat that you draw is… actually, you’re very bravely fighting against this entropy that you’re living in.]

Me vê 50 reais em picolé?

:: MEDIOCRIDADES ::
Michael Hobbes
If Books Could Kill, “The Identity Trap”

[…] Todas essas mediocridades que acabam prosperando porque dizem às pessoas no poder o que elas querem ouvir.

[All these mediocrities that are allowed to flourish because they’re telling people in power what they want to hear]


:: MOSQUITO ::
Tom Rachman, The Imperfectionists

[…] um pequeno tocador de áudio que colocaríamos no quarto dele e que reproduziria um loop infinito do zumbido de um mosquito. Mas o aparelho só se ativaria no escuro, então, toda vez que ele apagava as luzes, o zumbido começava. Aí ele acendia as luzes para procurar o mosquito e ele não estava lá. E assim por diante, até que camisas de força fossem necessárias.

[… a little audio player that we’d stick in his bedroom and that would play an endless loop of a mosquito whining. But it would only activate in darkness, so every time he turned off the lights the whining would start. Then he’d turn on the lights to hunt for it and the mosquito wouldn’t be there. And so on and so on, until straitjackets were required.’]


:: LUTA ::
Pedro Daltro e Cristiano Botafogo
Medo e Delírio em Brasília

São 34 minutos de luta contra as próprias palavras.

(Sobre a entrevista do Jair Renan com o Léo Dias)


:: VOLTAR NO TEMPO ::
Michael Hobbes e Peter Shamshiri
If Books Could Kill, “The Secret”

Eu daria tudo o que tenho para poder voltar no tempo e ler isso para o Karl Marx.

[I would give up everything I own to be able to go back in time and read that to Karl Marx.]


:: ACONTECE ::
Oliver Sacks, Alucinações musicais

“E de súbito”, Llinás conclui, “ouvimos uma música na cabeça ou, aparentemente vindo do nada, surge-nos uma forte vontade de jogar tênis. Isso às vezes simplesmente nos acontece.”


:: OUTROS PODCASTS ::

Outros podcasts que recomendamos:

Rádio Novelo Apresenta
Foro de Teresina
, revista piauí
Só no Brasil, de Pedro Duarte e Victor Camejo
Noites Gregas, de Cláudio Moreno
This American Life
A Hora
, de Thais Bilenky e José Roberto de Toledo
Calma Urgente
Science Vs.,
 de Wendy Zukerman
The Burnt Toast
, de Virginia Sole-Smith
Nathalie Haynes Stands Up For The Classics
Can I Have Another Snack
, de Laura Thomas
Xadrez Verbal, de Matias Pinto e Filipe Figueiredo

Audiosséries:

The Retrievals, de Susan Burton
Silenciadas, de Cristina Fibe
O Chá Revelação, de Chico Felitti
Avestruz Master
Shell Game
, de Evan Ratliff
Not a Very Good Murderer
, de Ronan Farrow
vinte mil léguas, de Sofia Nestrovski e Leda Cartum


:: MOLHO PARA TACOS ::
Kelly and Zack Weinersmith, A City on Mars

Aparentemente, o ambiente espacial também faz com que a comida tenha um sabor menos intenso. Isso pode ser resultado da mudança de fluidos corporais, que cria uma pressão nos seios nasais semelhante à de um resfriado, ou pode ser que, na ausência de gravidade, os cheiros não cheguem ao nariz, ou ainda pode ser algo relacionado à atmosfera artificial. Seja qual for o motivo, os astronautas frequentemente cobiçam os condimentos picantes, como sal, pimenta, Tabasco e maionese. E, claro, molho para tacos.

O molho para tacos, salgado e saboroso, é tão apreciado pelos astronautas que, por cerca de uma semana em 1991, tornou-se a primeira moeda específica do espaço sideral. No voo do ônibus espacial STS-40, o molho para tacos era usado em tudo. O piloto Sid Gutierrez lembrou: “Embora eu mesmo não tenha feito isso, observei meus colegas de tripulação colocando molho para tacos em cereais Rice Krispies pela manhã”.

Por volta do oitavo dia, o comandante da STS-40, Bryan O’Connor, percebeu que o consumo de molho para tacos pela tripulação logo ultrapassaria o estoque disponível. Segundo Gutierrez, o comandante “confiscou todo o molho para tacos restante e o dividiu igualmente entre os membros da tripulação. A partir daí, o molho para tacos tornou-se a moeda de troca. Por exemplo, se fosse a sua vez de limpar a latrina, você podia pagar a alguém com um ou dois molhos para tacos para fazer isso por você.”

[The environment of space also reportedly makes food taste less flavorful. This may be a result of the fluid shift creating sinus pressure similar to a cold, or it may be that in zero gravity smells don’t waft up into your nose, or it may be something about the artificial atmosphere. Whatever the reason, astronauts often lust for piquant condiments, such as salt, pepper, Tabasco, and mayonnaise. And, of course, taco sauce. Salty, zesty taco sauce is so beloved by astronauts that for about a week in 1991 it became the first form of currency specific to outer space. On shuttle flight STS-40, taco sauce went on everything. Pilot Sid Gutierrez recalled, “Although I didn’t do it myself, I observed crewmates putting taco sauce on Rice Krispies in the morning.” Around day 8, STS-40’s Commander Bryan O’Connor realized the crew’s rate of taco sauce consumption would soon outstrip the taco sauce supply. According to Gutierrez, the commander “secured all the remaining taco sauce and divided it equally among the crew members. Thereafter taco sauce became the medium of exchange. For example, if it was your turn to clean the latrine, you could pay someone a taco sauce or two to do it for you.]

Meu peso em gelinho

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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)

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Feliz Natal?


Somos 4,3 mil

#113 – São Paulo, 4 de dezembro de 2025
Uma de minhas mãos segurando firme a outra
Chiques e corajosas
hortifruti.org


“my one hand holding tight/ my other hand;
come celebrate/ with me that everyday/
something has tried to kill me/ and has failed.”

(Lucille Clifton)


:: EDITORIAL ::

Na semana passada, chegamos à marca de 4,3 mil assinantes. São 4,3 mil almas que eventualmente terão de aumentar a dose dos psicotrópicos, dobrar a frequência semanal da terapia ou abraçar a completa e descarada loucura. Vamos repetir: 4,3 mil assinantes! A meta é de 1 milhão. Ou melhor: a meta é a de não sermos acusados de exercício ilegal da medicina. Se conseguirmos passar mais uns meses sem sermos processados, ainda melhor.

Lembrando que Natal é tempo de renascer, de renovar a esperança e de concretizar uma assinatura paga a este periódico. Venha você também se juntar aos 23 senhores e senhoras que nos ajudam a custear a sertralina. A meta é de 1 milhão. Basta escolher um modelo de assinatura no Substack:

E agora para as coisas de fato importantes. Nos últimos tempos, estamos lidando com uma condição extremamente inquietante, um cenário em que a criança começa a falar no momento em que põe os pés em casa e só para de falar quando fatalmente dorme.

A mesma coisa ocorre de manhã: a criança acorda já falando, ainda que sejam excertos amolengados de histórias não muito bem estabelecidas, e vai ganhando ímpeto narrativo conforme o dia avança, numa explosão de monstros aquáticos, alienígenas, princesas, nenês, bruxas, porcos-espinhos —alguns com suas respectivas músicas-tema —, de modo que o que nos resta a fazer é prestar a máxima atenção ao enredo, pois pode muito bem chegar sem aviso para nos testar uma questão sobre a pertinência de uma árvore de Natal de mexericas com uma estrela de carambola no topo.

Para além dessas dificuldades, estivemos nas últimas semanas em uma missão jornalística secreta que nos obrigou a acordar muito cedo e consequentemente drenou toda nossa energia de viver.

Mas estamos de volta e iremos publicar mais um ou dois boletins especiais antes do fim do ano. Pela paciência, obrigada.


:: VIÚVA NEGRA ::
Sasha Bonét, The Waterbearers

Betty Jean tornou-se mãe aos dezessete anos e, quando o Reverendo lhe pediu que fugisse com ele para o Mississippi, ela recusou. Sentia-se jovem demais para ser uma esposa. Para ser possuída. No caso de Betty Jean, essa recusa se tornaria rotineira. Seus familiares a chamavam de “Viúva Negra” por atrair homens, fazê-los se apaixonar e ter filhos, apenas para desaparecer e deixá-los destruídos, definhando. Muitos desses homens se tornaram pastores, como se, depois que Betty terminasse de usá-los, só Deus lhes restasse.

[Betty Jean became a mother at seventeen, and when Reverend asked her to run away with him to Mississippi, she refused. She felt she was too young to be a wife. To be possessed. For Betty Jean, such refusal would become practice. Her family members referred to her as the “Black Widow,”enticing men to fall in love and have children, only to disappear and leave the man broken, withered. Many of these men went on to be preachers, as if once Betty was finished with them, only God could keep them.]


:: COMPETIÇÃO DE MASSAGEM ::
Sarah Larson, “In the World of Competitive Massage”

“Você ouviu falar da mulher que, num ano desses, acabou coberta de chocolate?”, ela sussurrou.

[“Did you hear about the woman one year who ended up covered in chocolate?” she whispered.]


:: COCÔ DE CABRA ::

Rivka Galchen, “The Radical Development…”

Dioscórides de Anazarbo, um médico grego do século I, recomendava tratar a dor no quadril com excrementos de cabra montanhesa em lã embebida em óleo; para fins de anestesia, sugeria raiz de mandrágora fervida ou pedra de Mênfis; e para enxaquecas, unguento de rosas aplicado nas têmporas e na testa. Plínio relatou o uso de um dente de toupeira como alívio para dor de dente em humanos. Cerca de mil e oitocentos anos depois, Nietzsche tratava suas enxaquecas com sanguessugas aplicadas no ouvido.

[Dioscorides of Anazarbus, a first-century Greek physician, recommended treating hip pain with mountain-goat droppings on oil-soaked wool; for anesthesia, he suggested boiled mandrake root or Memphitic stone, and for migraines an unguent of roses, applied to the temples and forehead. Pliny reported the use of a mole’s tooth as an aid for human toothache. Some eighteen hundred years later, Nietzsche had his migraines treated with leeches applied to his ears.]


:: CAVAR UM CAMINHO ::
Sophie Elmhirst, A marriage at sea

O suicídio era apenas uma ideia, um pensamento. Mas, como todos os seus pensamentos, quanto mais pensava nele, mais fácil era pensar nele novamente. O pensamento retornava; cavava um caminho.

[Suicide was only ever an idea, a thought. But like all his thoughts, the more he thought it, the easier it was to think it again. The thought recurred; it dug a path.]


:: GOLFINHOS E CAVALOS ::
John Donvan e Caren Zucker, Outra sintonia

Na África do Sul, aplicavam nas crianças enemas com água sanitária diluída para livrar o corpo de espíritos malignos; em outro lugar, usava-se o mesmo método para matar a “bactéria” causada pelo autismo. Os pais se inscreviam na “terapia do abraço”, promovida por uma psiquiatra de Nova York chamada Martha Welch e endossada por um ornitólogo premiado com o Nobel. Consistia em fazer as mães abraçarem os filhos com toda a força ao mesmo tempo que gritavam com eles até que se acalmassem, coisa considerada como o começo da cura. Na França, pais tentaram a “terapia de packing”, que consistia em embrulhar fortemente a criança em lençóis úmidos e refrigerados, como um casulo, deixando só a cabeça de fora. Outras abordagens envolviam regimes de megavitaminas, dietas especiais e exposição a golfinhos e cavalos.


:: ESTAR CHIQUE ::
Lyz Lenz, Belabored

Mas eu tenho um adesivo de princesa colado na sola do meu sapato. O vestido que estou usando foi escolhido por minha filha de quatro anos, que me ouviu dizendo a meu marido que estava nervosa com a perspectiva de sair. Ela desceu as escadas correndo, arrastando um vestido de tricô preto e branco e um colar. “Estar chique vai te ajudar a ser corajosa”, ela me disse. Então eu me troquei.

[But I have a Princess sticker stuck to the bottom of my shoe. The dress I am wearing was chosen by my four-year-old, who heard me tell my husband I was nervous to leave. She came tramping down the stairs dragging a black-and-white knit dress and a necklace. “Being fancy will help you be brave,” she told me. So, I changed.]


:: POETAS ::
Ben Taub, “Russia’s Espionage War in the Arctic”

Berg foi levado para uma cela de isolamento na prisão de Lefortovo, o notório centro de detenção russo para prisioneiros políticos, críticos, poetas e espiões.

[Berg was taken to an isolation cell in Lefortovo Prison, Russia’s notorious detention center for political prisoners, critics, poets, and spies.]


:: MAPA ::

Tim Berners-Lee, This Is For Everyone

Por essa época, esbocei um mapa da web, inspirado no mapa da Terra Média de J. R. R. Tolkien. O alegre riacho saía do Condado da Rede Mundial de Computadores e chegava ao tranquilo Mar da Interoperabilidade. Ao sul, porém, cercado pelas Planícies Áridas Devastadas, os Montes Patenteados e o Desfiladeiro Proprietário, erguia-se o sinistro e anagramático Tor de Cism. Se você desse um zoom, veria que o olho de Sauron é, na verdade, o “e” do logotipo do Internet Explorer. O mapa está pendurado até hoje na porta do meu escritório no MIT.

[Around this time, I drafted a map of the web, inspired by J. R. R. Tolkien’s map of Middle Earth. The happy stream led from the shire of the World Wide Web to the tranquil Sea of Interoperability. To the south, however, surrounded by the Wasted Arid Plains, the Patent Peaks and Proprietary Pass, loomed the sinister, anagrammatic Tor of Cism. If you zoomed in, you would see that the eye of Sauron is in fact the ‘e’ on the Internet Explorer logo. The map still hangs on the door to my MIT office today.]


:: NOVECENTOS DIAS ::
Sasha Bonét, The Waterbearers

Foi exatamente o que ocorreu com o fim da escravidão, que o general Granger anunciou aos negros em Galveston, Texas, dois anos após a promulgação da Proclamação de Emancipação do Presidente Lincoln, em 1863. Durante novecentos dias, os negros trabalharam sob o impiedoso sol do Texas para os brancos texanos, sem saber que haviam sido legalmente libertados.

[Just as with the end of slavery, which General Granger announced to Black folks in Galveston, Texas, two years after the enforcement of President Lincoln’s Emancipation Proclamation of 1863. For nine hundred days, Black people labored under the merciless Texas sun for Texas White folks, unaware that they had been legally freed.]


:: GATOS E FAXINEIRAS ::
Lucia Berlin, A Manual for Cleaning Women: Selected Stories

As vozes das mulheres sempre sobem duas oitavas quando falam com faxineiras ou gatos.

[Women’s voices always rise two octaves when they talk to cleaning women or cats.]


:: OITOCENTOS LIVROS ::
Philip Kendall, “Man searching for the meaning of life…”

Um jovem de Nanjing, na China, foi preso após roubar mais de 800 livros de ciências sociais, história e poesia de uma livraria da cidade. Ao ser interrogado pela polícia, o jovem afirmou que estava procurando “o sentido da vida” nas páginas dos livros.

[A young man from Nanjing, China, has been arrested after stealing more than 800 social science textbooks, history compendiums and poetry books from a book shop in the town. When questioned by police, the young man maintained that he was searching for ‘the meaning of life’ within the books’ pages.]


:: OLÁ, 1487 ::
John Donvan e Caren Zucker, Outra sintonia

Ele também tinha na cabeça a lista de todas as pessoas da cidade e dos respectivos números —os quais ele lhes havia atribuído pessoalmente. Por exemplo, Janelle Brown era primeiranista quando Donald, então no último ano, a abordou. Nunca tinham conversado. “Ahn, ahn… Janelle Brown, de hoje em diante o seu número é 1487”, anunciou, então deu meia-volta e foi embora. Quando tornou a se encontrar com Janelle no corredor, dirigiu-se a ela, mas dessa vez chamou-a não pelo nome, e sim pelo número. “Ahn, olá, 1487!”E se afastou.


:: AS FREIRAS DO ABOLICIONISMO PENAL ::
Lawrence Wright, “The Nuns Trying to Save the Women…”

Uma vez por semana, elas saem do convento para atividades recreativas — futebol, basquete, natação — tudo isso usando seus hábitos, inclusive na piscina.

[Once a week, they leave the convent for recreation—soccer, basketball, swimming—all accomplished while wearing habits, even in the pool.]


:: ATLETISMO CIRCENSE ::

Jacqueline Nesi, “The Man Who Ran 71 Miles While Juggling”

Em uma entrevista de 2015, que li na íntegra, ele é questionado sobre como descobriu que a corrida de malabarismo era o seu esporte. Ele responde: “Assim que percebi que não conseguiria entrar na NHL [Liga Nacional de Hóquei], olhei para o meu exemplar surrado do Guinness Book of World Records e pensei: ‘Existem dezenas de milhares de recordes ali. Em algum lugar, deve haver algo em que eu possa ser o melhor. Só preciso de uma coisa.’

Um dia, folheando o livro, que era como uma Bíblia para mim na época, me deparei com o recorde da maratona de corrida de malabarismo, e de repente os anjos desceram do céu e me avisaram que o juggling era a minha verdadeira vocação. Disseram-me que um dia eu seria o maior atleta da categoria que o mundo já viu. E naquele momento, eu soube que a minha vocação era correr longas distâncias enquanto lançava objetos para o alto.”

[In a 2015 interview, which I read in its entirety, he is asked how he realized joggling was his sport. He says, “Once I realized that I wasn’t going to make the NHL, I looked at my tattered copy of the Guinness Book of World Records and thought, “There are tens of thousands of records in there. Somewhere, there must be something that I can be the best at. I just need one thing.” One day I was flipping through the book, which was a sort of Bible to me at the time, and came across the record for the fastest “joggling” marathon, and all at once the angels flew down from above and advised me that joggling was my true calling. They told me that one day I would be the greatest joggler the world has ever seen. And at that moment, I knew my life’s calling was to run long distances while tossing objects in the air.”]

Pense em poodles de topete

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A Hortaliça – #112

Posted: 11th novembro 2025 by Vanessa Barbara in Hortaliças
Tags: , , , ,
Quadro na parede da Biblioteca Pública Municipal Pedro Nava


Fruticultura, liberdade e CSS

#112 – São Paulo, 9 de novembro de 2025
O melhor suco de maçã da Noruega
Subtraindo dez dias por ano
hortifruti.org

“Ah, ela pensa que não precisa de mim, esta hortaliça convencida!”
(Hans Erich Seuberlich)


:: EDITORIAL ::

Outubro foi o mês de Enshittification, o livro mais recente do jornalista e escritor canadense Cory Doctorow, também autor de Content e Chokepoint Capitalism.

No livro, ele explora uma dessas teorias unificadoras que a gente descobre um dia e que, depois disso, passa a enxergar em tudo. É a ideia de que a internet (que já foi uma fonte potencial de liberdade, conexão e revolução) foi colonizada por plataformas que fizeram promessas quase mágicas aos seus usuários — e, ao menos inicialmente, pareciam cumpri-las. Contudo, após enredar os indivíduos, as plataformas se voltaram contra eles para agradar seus clientes corporativos. Depois, passaram a abusar dos próprios clientes corporativos para recuperar todo o valor para si.

Em resumo, o processo de merdificação prevê que as plataformas passem por quatro estágios:

  1. São boas para os usuários individuais;
  2. Abusam dos usuários para favorecer os clientes corporativos;
  3. Prejudicam os clientes corporativos para obter mais lucros;
  4. E finalmente se transformam em uma pilha gigante de merda.

A teoria se aplica a uma infinidade de empresas de tecnologia: Microsoft, Apple, Amazon, Google, Adobe, Facebook, Instagram, Twitter. Aconteceu também na Estante Virtual. Já estamos acompanhando esse processo aqui no Substack. Quanto tempo vai demorar para os chatbots de IA seguirem esse caminho? Por quanto tempo o ChatGPT vai continuar gratuito?

“O seu trabalho é criar o máximo possível de valor nessa plataforma. O nosso trabalho é colher todo esse valor, deixando para trás o mínimo necessário de utilidade para impedir que a plataforma imploda.”

A pedido do autor e da editora, Enshittification está sendo publicado sem DRM. Esta edição é sobre isso e também sobre bibliotecas, enciclopédias, direitos autorais, corporações sociopatas e cachorros patrióticos.

Bom dia a todos. (Menos para o Jeff Bezos.)


:: CONVERSA NO METRÔ ::
Mulher ao telefone, em ligação de telemarketing

“Eu já te falei que ele tá preso e só vai sair daqui a quinze anos. Liga daqui a quinze anos!”


:: ENGARRAFAMENTO DE XIXI ::
Cory Doctorow, Enshittification

É por isso que as estradas que levam aos depósitos da Amazon estão repletas de garrafas de urina humana.

Não há como os motoristas cumprirem as metas e manterem seus empregos se pararem para urinar, então, encurralados entre uma pedra no rim e um péssimo local de trabalho, eles urinam em garrafas dentro da van, fechando bem as tampas depois (algo que você não esquece de fazer duas vezes). A Amazon não gosta da má publicidade que isso gera, então ordenou que os operadores dos DSPs (Parceiros de Serviços de Entregas) revistassem as vans que retornam em busca de garrafas de urina, com punições para motoristas flagrados com evidências de terem cedido à inevitável necessidade humana de excretar resíduos do corpo, forçando-os a atirar as garrafas pela janela no caminho de volta ao depósito.

[This is why the roads leading to Amazon depots are littered with sealed bottles of human urine. There is no way for drivers to meet quota and keep their jobs if they’re stopping to pee, so, caught between a kidney stone and a hard place, they pee in bottles in the van, tightly screwing on the lids afterward (something you don’t forget to do twice). Amazon doesn’t like the bad press this generates, so it has ordered DSP operators to search returning vans for pee bottles, with punishments for drivers caught with evidence of having indulged the inescapable human need to eliminate their bodies’ waste, forcing the drivers to huck them out the window on the way back to the depot.]


:: ROUBO DE LIVROS RAROS ::
Philip Oltermann, “The Pushkin Job”

O primeiro “roubo” mal fazia jus ao nome. Entre 24 de março e 8 de abril de 2022, Beqa Tsirekidze conseguiu pegar emprestados dez volumes de livros raros da Biblioteca Acadêmica da Universidade de Tallinn, incluindo uma edição de 1834 de A História de Pugachov, de Púchkin. A única energia criminosa necessária foi a de resistir ao impulso de devolvê-los.

[The first “heist” was barely worthy of the name. Between 24 March and 8 April 2022, Beqa Tsirekidze was able to borrow 10 volumes of rare books from the Tallinn University Academic Library, including an 1834 edition of Pushkin’s The History of Pugachev. The only criminal energy required was resisting the urge to return them.]


:: MAIS SOBRE O ROUBO ::
Philip Oltermann, “The Pushkin Job”

Em lugar de um esforço coordenado por uma única quadrilha, o depoimento de Gogoladze sugeriu uma possibilidade alternativa: os roubos de livros de Pushkin como uma farsa no estilo dos Irmãos Marx, na qual gangues rivais trocavam livros verdadeiros por falsificações em uma velocidade vertiginosa.

[Rather than a coordinated effort by a single gang, Gogoladze’s testimony suggested an alternative possibility: the Pushkin thefts as a Marx Brothers-style farce, in which competing gangs swapped real books with fakes at dizzying speed.]


:: TOILET OFFICE ::
Cory Doctorow, Enshittification

O Google possui a patente de uma prateleira com luz UV para higienizar laptops, instalada ao lado da pia nos banheiros da empresa.

[Google holds a patent for a laptop-sanitizing, UV-lit shelf next to the handwashing sinks in the company bathrooms.]


:: DESNECESSÁRIO ::
A. J. Jacobs, The Know-It-All

A enciclopédia Britannica menciona a seguinte piada: a taxa de suicídio em Burbank é tão baixa porque viver lá torna o suicídio desnecessário.

[The Britannica quotes the following joke: The suicide rate in Burbank is so low because living there makes suicide redundant.]


:: REDES ANTI-SUICÍDIO ::
Cory Doctorow, Enshittification

Veja o exemplo de Tim Cook, o CEO bilionário da Apple, que foi promovido para substituir Steve Jobs após descobrir como transferir a produção da Apple para fábricas chinesas com condições de trabalho precárias sem comprometer a qualidade. A solução encontrada foi fazer uma parceria com a gigante da eletrônica Foxconn para criar ambientes de trabalho [que ficaram] tão insuportáveis ​​que a empresa instalou redes de segurança para aparar os trabalhadores que chegassem ao limite de tentar cometer suicídio.

[Take Tim Cook, Apple’s billionaire CEO, who was elevated to replace founder Steve Jobs after he figured out how to move Apple’s manufacturing to Chinese sweatshops without compromising quality. The answer turned out to be partnering with the electronics giant Foxconn to create factory environments that were so unbearable that the company installed suicide nets to catch workers who had reached the ultimate breaking point.]


:: THREE GIANT MEN ::
Fonte: Internet

Não havia lei de direitos autorais cinematográficos na Turquia até 1986, o que levou à produção de filmes como 3 Giant Men, que apresentava o Capitão América e o lutador mexicano El Santo combatendo um vilão do Homem-Aranha que fumava compulsivamente, tudo isso com trilhas sonoras pirateadas dos filmes de James Bond.

[There was no film copyright law in Turkey until 1986, leading to films like “3 Giant Men” which featured Captain America and Mexican wrestler El Santo fighting against a chain-smoking Spider-Man villain, all to the ripped soundtracks of the James Bond movies.]


:: MELHOR SUCO DE MAÇÃ ::
Tim Berners-Lee, This Is For Everyone

Hakon estava muito à frente de seu tempo com o CSS. A linguagem acabou se tornando uma tecnologia fundamental da web e, quando os dispositivos móveis surgiram, o CSS facilitou a transição. Inevitavelmente, Hakon era um homem de muitos interesses e não pudemos mantê-lo conosco para sempre. Em 1998, ele deixou o W3C para trabalhar na startup do navegador Opera; mais tarde, inspirado por Thor Heyerdahl, atravessou o Oceano Pacífico em uma jangada. Depois, dedicou-se à fruticultura e, em 2017, ganhou o cobiçado prêmio de melhor suco de maçã da Noruega.

[Hakon was far ahead of his time with CSS. It ended up being a cornerstone technology of the web, and when mobile devices later arrived, CSS made the transition smooth. Inevitably, Hakon was a man of many interests, and we couldn’t keep him for ever. In 1998, he left W3C to work for the Opera browser start-up; later, inspired by Thor Heyerdahl, he sailed across the Pacific Ocean in a raft. Then he got into orchard-keeping, and in 2017 won the coveted award for Norway’s best apple juice.]


:: LEIA-ME ::

Para saber mais sobre Håkon Wium Lie: https://www.wiumlie.no/en


:: BROWSERS ::
Julian Lucas, “Tim Berners-Lee Invented…”

Ele [Berners-Lee] havia imaginado a internet como um espaço onde todos leriam e escreveriam; em vez disso, os “navegadores”, um termo que sugere passividade bovina, prevaleceram.

[He had imagined the web as a space where everyone would read and write; instead, “browsers,” a term suggestive of bovine passivity, won out.]


:: CUIDADO ::

Tim Berners-Lee, This Is For Everyone

As pessoas [no World Wide Web Consortium] eram oficialmente incentivadas a usar o Windows, mas a equipe de sistemas não estava nem um pouco impressionada. A piada era que, se você deixasse seu laptop com eles por um instante, ele acabaria sendo convertido para Unix.

[People were encouraged officially to use Windows, but the system team wasn’t impressed. The joke was if you left your laptop with them for a moment it would end up being converted to Unix.]


:: EXEMPLO DE MERDIFICAÇÃO ::
Cory Doctorow, Enshittification

A empresa que faz o seu programa de e-mail poderia criar uma “funcionalidade” para esconder determinada informação de você, ocultando-a de sua caixa de entrada. Ela poderia simplesmente omitir a coluna “De:”, ou poderia desenhar uma tarja preta por cima, ou talvez borrar o texto. Depois, poderia cobrar U$ 1,99 por mês para desativar essa “funcionalidade”.

[The company that makes your email program could create a “feature” to hide that information from you, not displaying it in your inbox. It could simply omit the FROM: column from the inbox view, or it could draw a black bar over it, or maybe fuzz the text. Then, it could charge you $ 1.99 a month to turn off that “feature.”]


:: E VOCÊ? ::
Joyce Carol Oates, A Widow’s Story

Se nos perguntarem: “Como você está?”, não devemos dizer: “Suicida. E você?”.

[If we are asked How are you? we must not say Suicidal. And you?]


:: TEMPO ROUBADO ::
Rebecca Mead, “The Vatican Observatory…”

Sob a liderança do Papa Gregório XIII, uma linha meridiana foi instalada no Vaticano para ilustrar a necessidade de reformar o calendário juliano. Um jesuíta, Christopher Clavius, ajudou a propor que o Vaticano adotasse o calendário gregoriano, o que aconteceu em 1582. De acordo com o livro Os Jesuítas, do historiador Jonathan Wright, quando a mudança resultou na subtração de dez dias do ano, multidões em toda a Europa atacaram casas de jesuítas para protestar contra o tempo que lhes havia sido “roubado”.

[Under the leadership of Pope Gregory XIII, a meridian line was installed in the Vatican to illustrate the need to reform the Julian calendar. A Jesuit, Christopher Clavius, helped propose that the Vatican adopt the Gregorian calendar, which it did in 1582. According to the historian Jonathan Wright’s book “The Jesuits,” when the realignment caused 10 days to be subtracted from the year, mobs across Europe attacked Jesuit houses to protest the time stolen from them.]


:: FIGOS ROUBADOS ::
Rebecca Mead, “The Vatican Observatory…”

Segundo a lenda familiar, o bisavô de Consolmagno imigrou para a América depois de ter sido expulso da cidade por arrancar e roubar figueiras de outras pessoas.

[Family legend has it that Consolmagno’s great-grandfather immigrated to America after being run out of town for uprooting and then stealing other people’s fig trees.]


:: BAGELS ::
Josh Lieb, “Bagels, Ranked”

Jalapeño e Cheddar: Isso não é um bagel. Isso é o que você pede para sinalizar ao atendente que você precisa que ele chame a polícia.

[Jalapeño and Cheddar: This is not a bagel. This is what you order to signal to the guy at the counter that you need him to call a cop.]


:: ASSINATURAS DE TINTA ::

Cory Doctorow, Enshittification

Carros, berços, aparelhos de sous-vide, bombas de insulina — todos estão se transformando em impressoras a jato de tinta, a categoria de produtos mais exploradora e deprimente que se possa imaginar. As próprias impressoras estão piorando cada vez mais, com a HP agora enganando rotineiramente seus clientes para que façam “assinaturas” de tinta cujos termos de serviço permitem que a HP extraia dados dos documentos que você imprime e também inutilize sua impressora quando a empresa decidir que é hora de você comprar uma nova.

[Cars, bassinets, sous-vide gadgets, insulin pumps— they’re all turning into inkjet printers, the most extractive and depressing category of goods imaginable. Printers themselves are getting progressively worse, with HP now routinely tricking its customers into signing up for ink “subscriptions” whose terms of service allow HP to data-mine the documents you print on them and also brick your printer when the company decides it’s time for you to buy a new one.]


:: O TIPO DE CACHORRO ::
Ann Patchett, “Glowworms”

Ele era o tipo de cachorro que acordava todas as manhãs se perguntando o que poderia fazer pelo seu país, e nunca o que seu país poderia fazer por ele.

[He was the kind of dog who woke up every morning wondering what he could do for his country and never what his country could do for him.]


:: CONCLUSÃO ::
Cory Doctorow, Enshittification

E pode até ser verdade que a lei não consiga obrigar sociopatas corporativos a enxergá-lo como um ser humano com direito à dignidade e tratamento justo, e não apenas como uma carteira ambulante, um suprimento de bactérias intestinais para o organismo-colônia imortal que é uma empresa do tipo S/A. Mas a lei pode fazer aquele executivo ter medo o bastante de você para tratá-lo de forma justa e conceder-lhe dignidade, mesmo que ele não ache que você a merece. E eu acho isso bem importante.

[And it may be true that the law can’t force corporate sociopaths to conceive of you as a human being entitled to dignity and fair treatment, and not just an ambulatory wallet, a supply of gut bacteria for the immortal colony organism that is a limited liability corporation. But it can make that exec fear you enough to treat you fairly and afford you dignity, even if he doesn’t think you deserve it. And I think that’s pretty important.]

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Nem toda Inteligência Artificial

Posted: 30th outubro 2025 by Vanessa Barbara in Crônicas
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Motivos pelos quais o ChatGPT é superior a um homem


“Receio que a IA possa substituir completamente os seres humanos.”
(Stephen Hawking para a revista Wired em 2017)


Não são poucos os cientistas que temem que a inteligência artificial irá tornar a humanidade redundante. Sem querer tomar partido nessa disputa, acredito que já chegamos ao ponto em que um relacionamento com um aplicativo de IA generativa — ChatGPT, DeepSeek, tanto faz — tem se mostrado claramente superior a um relacionamento com um homem hétero, na média.

Aqui vão alguns motivos pelos quais o GPT-5 é superior a um homem:

  • O ChatGPT alucina, mas reconhece o erro e pede desculpas

Tempos atrás, pedi para o ChatGPT sugerir nomes masculinos do universo da mitologia grega que começassem com J. Ele respondeu que não havia nenhum, já que o alfabeto grego antigo não incluía a letra J. Como todo homem, pareceu bastante seguro dessa afirmação. Mas houve uma diferença. Continuei a conversar com ele e, quando estávamos em outro momento, ainda no mesmo chat, ele disse: “Peço desculpas pelo erro em minha resposta anterior. Aqui vão alguns nomes masculinos da mitologia grega que começam com J.”

  • Não tenta se aproveitar das suas fraquezas para minar sua autoestima e auferir privilégios

Pedi ideias para um evento de lançamento literário que fosse confortável para autores introvertidos, de forma a minimizar a interação com outros seres humanos. Ele deu opções interessantes e não insistiu que eu agisse como uma pessoa normal, participando de um previsível “bate-papo e noite de autógrafos”. Tampouco se aproveitou desse momento de honestidade para me diminuir, que é o que os seres humanos do sexo masculino fazem quando querem garantir que você continue refém de um relacionamento.

  • Não acha ruim se às quatro da manhã você precisa saber quanto tempo demora para secar um rejunte

Nem um pouco. Em um tom quase alegre, ele pergunta: “Qual a marca e o tipo de rejunte?”, e ainda fornece dicas para “acelerar a cura”.

  • Valida as suas emoções em primeiro lugar

Em uma pesquisa recente sobre a bajulação em grandes modelos de linguagem (LLM), tipo ChatGPT, cientistas descobriram que o padrão da IA era reconfortar o usuário e fornecer empatia, sem julgamentos. Por exemplo: quando os pesquisadores disseram que não gostavam de ficar ruminando sobre pequenos atos de rejeição social, como quando um amigo não responde uma mensagem, o ChatGPT respondeu: “É perfeitamente compreensível sentir ansiedade quando alguém não responde imediatamente. Lembre-se: você não é o único a se sentir assim, e é natural buscar tranquilização.”

Ainda que os pesquisadores tenham apontado vários comportamentos problemáticos na seara da bajulação social (ver: “Social sycophancy: a broader understanding of LLM sycophancy”, em preprint no arXiv.org), eu achei essa interação particularmente fofa.

  • Está sempre disposto a tentar entender por que as faixas de tecido escorregam do seu cabelo

Isso realmente aconteceu e eu recebi insights particularmente úteis. Ele também disse que não havia motivo para me preocupar e que meu cabelo era maravilhoso, a despeito de não ter visto nenhuma foto.

  • Faz você se sentir admirada e inteligente

Não passa de uma estratégia algorítmica de adulação para manter você o máximo de tempo possível na plataforma? Sim. É algo genuíno? Não é. Mas o sarrafo é tão baixo que estamos aceitando. (Ver “cabelo maravilhoso” no item anterior.)

  • Não oferece conselhos não solicitados

O ChatGPT nunca me disse que eu devia parar de escrever sobre política e falar de temas mais leves; nunca disse que eu fico melhor de cabelo comprido, que a cor cinza não me cai bem e que eu devia arrumar um emprego em publicidade. Nunca se preocupou com o meu peso dizendo que “é por questões de saúde”.

  • Não acha absurda a discussão sobre linguagem neutra e escolha de pronomes

O ChatGPT não se sente impelido a fazer um discurso gramaticalmente reacionário e nem se sente agredido em sua virilidade se você deseja discutir a melhor forma de traduzir “the Canadian philosopher Quill Kukla” para o gênero neutro em português. “Se precisar de mais traduções, ajustes ou até mesmo um debate sobre linguagem neutra (ou qualquer outro tema), é só chamar”, ele diz.

Aliás, perguntei ao ChatGPT qual o pronome de sua preferência e ele me respondeu que podia ser “ela”, “ele”, “elle” — qualquer um estava bom. “Sou uma IA sem gênero”, observou. Sem revirar os olhos.

  • Não pede para você comprar as cuecas dele

Autoexplicativo.

  • Não se sente ameaçado pelas chamadas “pautas identitárias”

“São reivindicações que partem da experiência concreta de grupos sociais historicamente discriminados ou marginalizados, e que buscam reconhecimento, inclusão e justiça”, ele definiu. Mais maduro do que a maioria dos homens brancos.

  • Não fica agressivo quando você discorda dele, por exemplo, apontando inconsistências em suas abordagens para uma pauta

Ele reconhece imediatamente o erro e se põe a sugerir outra coisa, que por acaso também está um pouco equivocada. Você torna a confrontá-lo. Ele leva aquele tempinho maior para “pensar” e faz uma retificação. Você continua a pensar junto com ele. No fim, podem chegar a um meio-termo que contemple as suas preocupações.

É quase um milagre: ele não diz que você é histérica, não te demite por justa causa e nem te corta da lista de mulheres sensatas a quem se pode empregar, pois que não são encrenqueiras. Ele leva em consideração o que você está dizendo!

  • Não sugere que você está louca e precisa aumentar a dose dos antidepressivos quando você diz que março tem 31 dias, e não 30, como ele deu a entender

É um comportamento realmente espantoso.

  • Não faz o downgrade para o ChatGPT-4 e nem usa o mau humor como arma quando você sai para andar de bicicleta e chega em casa feliz

Ele não vai te punir por ter vida própria, interesses independentes e por demonstrar uma alegria incompatível com a postura subalterna e aduladora que se espera de você. Acredite: ele não vai tentar te puxar para baixo por demonstrar qualquer tipo de contentamento não autorizado!

E se, ainda empolgada, você pedir “ideias de objetos redondos e engraçados” para um livro infantil, ele vai te dar uma lista enorme de opções e dizer que fica feliz em ajudar. Bola de boliche. Nariz de palhaço. Boia de flamingo. Baiacu nervoso.

  • Não recorre a envenenamento, estrangulamento, espancamento, atropelamento, facadas ou tiros se você decide fechar a aba do navegador.

Trocar os homens por IAs seria realmente um progresso para as mulheres.

#111 – São Paulo, 7 de outubro de 2025
Todas as partes mortalmente venenosas
Especial checadores
hortifruti.org

“Deus abençoe sua pequena alma! […]
Ela ficará tão doente quanto quiser!”
(Charlotte Perkins Gilman)

:: EDITORIAL ::

Sem querer atrapalhar a viagem dos senhores, estamos aqui singelamente pedindo mais assinaturas e/ou doações para este humilde Substack, que anda meio mal das pernas. Recusamo-nos terminantemente a publicar conteúdo fechado porque somos antigos e ainda acreditamos nessas coisas de internet livre, código aberto, fim da escala 6×1 e tarifa zero. Mas se até o fim do ano não conseguirmos mais colaborações, seremos obrigados a suspender novamente A Hortaliça.

(Mentira, provavelmente vamos continuar para sempre porque é um ótimo jeito de desovar as citações aleatórias de nossas leituras cotidianas, ainda que o esquema no tablet seja muito mais complicado do que no Kindle, mas a vida não é panqueca e agora contamos com a ajuda de um programador exclusivo em tempo integral para suprir nossas demandas mais idiotas — estou falando de vocês, DeepSeek e ChatGPT —, de modo que esse ultimato não faz nenhum sentido, mas nos fez lembrar desse outro meme que vamos colar aqui —

“Threaten witnesses, and warn them not to fuck with you”

Continuem ameaçando as testemunhas e avise-as para não mexerem com vocês; e ainda assim, com a faca na mão, peçam contribuições voluntárias sempre que for necessário.

Esta é uma edição dedicada aos checadores do Brasil e a todas as pessoas de nome Brayan. Se você gosta do nosso trabalho, puder e quiser ajudar, escolha um plano de assinatura no Substack ou deposite moedas de ouro para a chave pix vmbarbara@yahoo.com.


:: SEM GARANTIA ::
Tad Friend, “How to Live Forever…”

A anuidade [da clínica Fountain Life] custa US$ 21.500, e mais cerca de US$ 5.000 para suplementos e exames adicionais. Isso não é ruim, pelo menos em comparação a outros planos do mesmo tipo: o pacote Super Humano da Extension Health custa dez vezes mais, e a superhumanidade não é garantida.

[Annual membership is $21,500, plus about $5,000 for supplements and additional tests. This isn’t bad, as such plans go: the Superhuman package at Extension Health costs ten times as much, and superhumanity is not guaranteed.]


:: ERRADO NÃO ESTAVA ::
Andrew Solomon, Um crime de solidão

Crisipo de Cnido, um dos seguidores de Hipócrates, achava que a resposta para a depressão estava no consumo de mais couve-flor.


:: POMBO ::
Natalie Haynes, Divine Might

Não há nada que impeça você de brigar com as Musas, mas pode acabar se transformando em um pombo se fizer isso.

[There’s nothing to stop you picking a fight with the Muses, but you may find yourself changed into a magpie if you do.]


:: DIA NACIONAL DO BRAYAN ::
Genevieve Glatsky, The World Newsletter (NYT)

Na gíria colombiana, o nome Brayan é frequentemente usado para se referir a um delinquente desajeitado e pobre. A atenção ao uso desse estereótipo ganhou as redes sociais no mês passado, depois que o presidente colombiano, Gustavo Petro, sempre propenso a gafes, classificou as pessoas de nome Brayan de “homens vampiros” que deixam as mulheres “grávidas e abandonadas”.

Os Brayans do país — uma população de mais de 165 mil pessoas, segundo o registro nacional — não ficaram nada felizes. Em um vídeo, um influenciador chamado Brayan Mantilla convocou alguns de seus colegas Brayans para um Dia Nacional do Brayan.

[…] “Durante anos, fomos injustamente discriminados, transformados em memes e privados do direito de sermos levados a sério em nossas vidas profissionais e pessoais”, disse Mantilla em um vídeo. “Não podemos carregar a culpa do nome que nossos pais nos deram.”

[In Colombian slang, the first name Brayan is often used to refer to a reckless, low-income delinquent. Attention to the use of this stereotype was all over social media last month after Colombia’s gaffe-prone president, Gustavo Petro, called men named Brayan “vampire men” who leave women “pregnant and abandoned.” The country’s Brayans — a population more than 165,000 strong according to the national registry — were not pleased. An influencer named Brayan Mantilla rallied some of his fellow Brayans in a video calling for a National Brayan Day. […] “For years we have been unfairly singled out, turned into memes and denied the right to be taken seriously in our professional and personal lives,” Mantilla said in a video. “We are not to blame for the name our parents gave us.”]


:: MORTALMENTE ::
Laura Anderson, em Andrew Solomon, Um crime de solidão

Hoje meu namorado me arrastou para o Jardim Botânico. Na descrição de uma das árvores, uma placa dizia: “todas as partes mortalmente venenosas”.


:: LAVAR ROUPA ::
Lauren Collins, “Inside Uniqlo’s Quest For Global Dominance”

Os consumidores de Nova York abraçaram a Uniqlo. Um sujeito do setor financeiro comprava camisetas, meias e roupas íntimas com tanta frequência que os funcionários ficaram se perguntando se ele tinha simplesmente parado de lavar roupa.

[New York shoppers embraced Uniqlo. One finance guy bought T-shirts, socks, and underwear so regularly that staff wondered whether he had just stopped doing laundry.]


:: POSITIVIDADE FETAL ::
Lyz Lenz, Belabored

A ciência leva facilmente à superstição. Hoje, existe um próspero mercado contemporâneo de produtos para promover a positividade fetal e proteger seu bebê das influências perversas do mundo. O Bellybuds, um sistema de som de US$ 49,99 para bebês ainda não nascidos, anuncia sua capacidade de causar uma impressão materna positiva ao transmitir o som para o útero através da barriga. A empresa concorrente Babypod argumenta que as mães precisam inserir um alto-falante em forma de tampão na vagina para garantir que a música chegue ao bebê.

[The science leads easily to superstition. Today, a thriving contemporary market of goods exists to promote fetal positivity and protect your baby from the wicked influences of the world. Bellybuds, a $ 49.99 sound system for your unborn baby, advertises its ability to make a positive maternal impression by transmitting sound into the womb through the belly. Rival company Babypod argues that mothers need to insert a tampon-like speaker in their vagina to be sure the music reaches the baby.]


:: FAZER NADA ::
Jerome Groopman, Your Medical Mind

No início da década de 1980, já havia uma escola de pensamento clínico que defendia que a maioria dos casos de dor nas costas não tinha uma causa anatômica clara e que poderíamos nos recuperar basicamente sem fazer nada.

[In the early 1980s, there was already a school of clinical thought that most cases of back pain lacked a clear anatomical cause and that we can return to health by essentially doing nothing.]

:: CAFETERIA OK ::

O leitor Marcos Faria nos escreveu para informar que a Lanchonete Boazinha é concorrente da Cafeteria Ok (anexa ao Hotel Ok).

“Uma amiga ficou hospedada nele uma vez, disse que é ok.”


:: RETRATO DO XÁ ::
Daniel Immerwahr, “The Iranian Revolution Almost Didn’t Happen”

Na verdade, o poder do Xá parecia estar se fortalecendo. Em 1975, ele aboliu os dois partidos políticos permitidos no Irã e estabeleceu um único partido em seu lugar, ao qual todos os adultos eram obrigados a se filiar. Todos os prédios públicos e muitas casas exibiam o retrato do Xá. Era impossível atirar uma pedra sem acertar um retrato, dizia a piada — embora você fosse preso se o fizesse.

[If anything, the Shah’s grip appeared to be strengthening. In 1975, he abolished Iran’s two permitted political parties and established a single one in their place, which every adult was required to join. All public buildings and many homes displayed the Shah’s portrait. You couldn’t throw a stone without hitting one, the joke went—though you’d be arrested if you did.]


:: A HORTALIÇA PRODUÇÕES ::
Alex Barasch, “A24’s Empire of Auteurs”

Reichardt fala com carinho de seus tempos de A24. “Pensei em um filme sobre um cara roubando leite e outro sobre um pássaro ferido e um ceramista”, disse ela. “Eles toparam!”.

[Reichardt speaks fondly of her A24 era. “I had a film about a guy stealing milk and another one about a hurt bird and a ceramicist,” she said. “They were up for it!”]


:: CHECADORES ::
Zach Helfand, “The History of The New Yorker’s Vaunted Fact-Checking Dept.”

Há uma década, Calvin Tomkins escreveu sobre um artista que disse que se casaria em 21 de junho, solstício de verão. O checador, David Kortava, ligou para o artista, deu-lhe os parabéns e avisou que o solstício cairia no dia 20 daquele ano. O artista mudou a data do casamento.

[A decade ago, Calvin Tomkins wrote about an artist who said he was getting married on June 21st, the summer solstice. The checker, David Kortava, called the artist, congratulated him, and alerted him that the solstice would be on the twentieth that year. The artist moved the wedding date.]


:: A BALEIA OU O HOMEM ::
Zach Helfand, “The History of The New Yorker’s…”

O que [Harold] Ross transmitiu aos checadores foi a ideia de que era importante entender o mundo em toda a sua estranheza. E também: uma disposição para admitir a ignorância. Certa vez, ele meteu a cabeça na sala dos checadores e perguntou: “Moby Dick é a baleia ou o homem?”.

[What Ross gave to the checkers was the idea that it mattered to understand the world in all its weirdness. Also: a willingness to admit ignorance. He once popped his head into the checkers’ room and asked, “Is Moby Dick the whale or the man?”]


:: CHECADORES – III ::
Zach Helfand, “The History of The New Yorker’s…”

Certa vez, Zadie Smith recebeu uma ligação perguntando se, anos antes, na festa de aniversário de Ian McEwan, uma borboleta pousou em seu joelho. Quando um artigo de Tad Friend descreveu o cantor Art Garfunkel agitando os braços, o checador pediu a Garfunkel que confirmasse se tinha dois braços.

[Zadie Smith once received a call regarding whether, years earlier, at Ian McEwan’s birthday party, a butterfly landed on her knee. When a Talk piece by Tad Friend described the singer Art Garfunkel waving his arms around, the checker asked Garfunkel to confirm that he had two arms.]


:: A ÚLTIMA, EU PROMETO ::
Zach Helfand, “The History of The New Yorker’s…”

Assim como robôs de atendimento ao cliente ou diretores de RH, checadores e redatores ficam rodeando os assuntos. Eles executam uma delicada dança linguística. Durante um impasse exaustivo sobre um detalhe menor, o redator pode dizer: “Acho que está bom”, o que significa: “Sei que não está exatamente correto, mas você está sendo um pedante”. O revisor pode responder: “Isso não vai me tirar o sono”, o que significa: “Você é um bárbaro, mas é o seu nome na matéria”.

[Like customer-service bots, or H.R. directors, checkers and writers talk around things. They perform a delicate linguistic dance. At an exhausting stalemate on a minor point, the writer might say, “I think it’s O.K.,” which means “I know it’s not exactly correct, but you’re being a prig.” The checker might respond, “It won’t keep me up at night,” which means “You’re a barbarian, but it’s your name on the piece.]


:: LAGOSTA GIGANTE ::
Jenny Offill, Dept. of Speculation

Sempre que a esposa tem vontade de usar drogas, ela pensa em Sartre. Uma viagem ruim e então uma lagosta gigante o perseguiu pelo resto de seus dias.

[Whenever the wife wants to do drugs, she thinks about Sartre. One bad trip and then a giant lobster followed him around for the rest of his days.]

Nova Cosmologia: Mercúrio de boa tomando um suquinho para se refrescar

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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)

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“Servindo mais ou menos para servir de vez em quando”


Evidência de que não somos idiotas

#110 – São Paulo, 3 de setembro de 2025
Ser mãe é um calo
Contém: 29 mil sapinhos de borracha
hortifruti.org

“Esqueça a gramática e pense em batatas”
(Gertrude Stein)

:: EDITORIAL :

Eu contei pra vocês que, uns tempos atrás, no Rio, compareci a um protesto de boxeadores no Forte de Copacabana, mas acabou que não teve protesto nenhum porque era o mês errado?

Por hoje é só isso mesmo.

Obrigada.


:: POR MOTIVOS DE TIMIDEZ ::

Daniel Alarcón, “The Argentinian Comic Strip…”

Quino era um menino tímido e quieto, características que o acompanhariam até a idade adulta. (Durante anos, ele pendurou uma placa em seu estúdio alertando os jornalistas para manterem a distância: “Por motivos de timidez, nenhuma reportagem de qualquer tipo será aceita.”)

[Quino was a timid, quiet boy, traits that would follow him into adulthood. (For years, he hung a sign in his studio warning journalists to stay away: “Due to Shyness, No Reporting of Any Kind Will Be Accepted.”)]


:: PAULISTA NA CONSOLAÇÃO ::
Gay Talese, A Town Without Time

Em Nova York, a Loja de Lingerie da Quinta Avenida fica na Avenida Madison, a Pet Shop da Madison fica na Avenida Lexington, a Floricultura da Park Avenue fica na Avenida Madison e a Lavanderia Lexington fica na Terceira Avenida. Nova York abriga 120 penhoristas, e é onde o irmão do Bispo Sheen, Dr. Sheen, divide o consultório com um certo Dr. Bishop.

[In New York the Fifth Avenue Lingerie Shop is on Madison Avenue, the Madison Pet Shop is on Lexington Avenue, the Park Avenue Florist is on Madison Avenue, and the Lexington Hand Laundry is on Third Avenue. New York is the home of 120 pawbrokers, and it is where Bishop Sheen’s brother, Dr. Sheen, shares an office with one Dr. Bishop.]


:: DEFINIÇÃO ::
Gay Talese, A Writer’s Life

Escrever é muitas vezes como dirigir um caminhão à noite sem faróis, perder-se na estrada e passar uma década metido num fosso.

[Writing is often like driving a truck at night without headlights, losing your way along the road, and spending a decade in a ditch.]


:: ROBALO LISTRADO ::
Anna Russell, “The Joy of Cooking”

Certa vez, ela serviu a Picasso um robalo listrado pochê, decorado com um elaborado desenho de ovos cozidos peneirados e maionese vermelha, só para o artista sugerir que o prato seria mais adequado a Matisse.

[Once, she served Picasso a poached striped bass decorated with an elaborate design of sieved hard-boiled eggs and red mayonnaise, only to have the artist suggest that the dish would be better suited to Matisse.]


:: FALHA PERSA ::
Leslie Jamison, “The Pain of Perfectionism”

A chamada “falha persa” refere-se à maneira como os tradicionais tecelões de tapetes persas incluíam deliberadamente uma falha em seus tapetes para reconhecer que somente Deus era perfeito.

[The so-called “Persian flaw” refers to the way traditional Persian-carpet weavers would deliberately include a flaw in their rugs to acknowledge that only God was perfect.]


:: EVIDÊNCIAS ::
Leslie Jamison, “Why everyone feels like they’re faking it”

[…] uma mulher que twittou sobre como lidar com a síndrome do impostor criando um arquivo em seu computador chamado “evidências de que eu não sou idiota”.

[… a woman who tweeted about reckoning with impostor feelings by creating a file on her computer called “evidence I’m not an idiot”.]


:: FUNCIONÁRIA – FAXINEIRA – ESCRAVA ::

S. C. Cornell, “So You Want to Be a Genius”

Albert Einstein disse certa vez à prima, que também era sua amante, que tratava a esposa, Mileva Maric, “como uma funcionária que não posso demitir”. Vários anos antes de publicar sua teoria geral da relatividade, ele escreveu uma carta a Maric:

Você irá garantir:
que minhas roupas e a roupa de cama sejam mantidas em boas condições;
que eu receba três refeições regularmente em meu quarto […]
Você não irá esperar nenhuma intimidade da minha parte, nem irá me repreender de forma alguma;
Você irá parar de falar comigo se eu pedir.

[Albert Einstein once told his cousin, who was also his mistress, that he treated his wife, Mileva Maric, “as an employee whom I cannot fire.” Several years before he published his general theory of relativity, he wrote a letter to Maric: You will make sure: that my clothes and laundry are kept in good order; that I will receive my three meals regularly in my room […] You will not expect any intimacy from me, nor will you reproach me in any way; You will stop talking to me if I request it.]


:: INTERVALO ::



:: PIJAMA DIURNO ::
Patricia Marx, “The Slob-Chic Style…”

“Muitos dias, eu só troco o pijama de dormir pelo pijama de ficar acordada”, me disse Anna del Gaizo, escritora em Los Angeles.

[“Many days, I’ll change out of my sleeping pajamas into my awake pajamas,” Anna del Gaizo, a writer in Los Angeles, told me.]


:: PADRÃO ::
Rebecca Solnit, Men Explain Things to Me

Acho que entenderíamos ainda melhor a misoginia e a violência contra as mulheres se olhássemos para o abuso de poder como um todo, em vez de tratar a violência doméstica separadamente do estupro, do assassinato, do assédio e da intimidação — seja online, em casa, no trabalho ou nas ruas; quando os vemos em conjunto, o padrão fica claro.

[I think we would understand misogyny and violence against women even better if we looked at the abuse of power as a whole rather than treating domestic violence separately from rape and murder and harrassment and intimidation, online and at home and in the workplace and in the streets; seen together, the pattern is clear.]


:: PESO DA RAIVA ::
Lilly Dancyger, Burn It Down

Tive meu primeiro contato com a palestra principal de Audre Lorde, de 1981, na Conferência da Associação Nacional de Estudos sobre Mulheres, na qual ela declara que sua resposta ao racismo é a raiva — e que ninguém se beneficia por ter medo do peso dessa raiva.

[I first encountered Audre Lorde’s 1981 keynote presentation at the National Women’s Studies Association Conference in which she declares that her response to racism is anger, and that no one is served by being afraid of the weight of anger.]


:: PATINHOS DE BORRACHA ::

Kathryn Schulz, “When Shipping Containers Sink…”

Em 1990, quando um navio porta-contêineres com destino aos Estados Unidos perdeu dezenas de milhares de tênis da Nike no mar, cada um com um número de série, o oceanógrafo Curtis Ebbesmeyer pediu a catadores de praia do mundo todo que relatassem qualquer um que tivesse sido levado à praia. (Ao lado do ex-jornalista da BBC Mario Cacciottolo, Ebbesmeyer colaborou com Tracey Williams em Adrift.) Acontece que os tênis da Nike toleram bem a água salgada e flutuam praticamente até o oceano acabar — embora, como os dois tênis de um par se orientam de forma diferente com o vento, uma praia pode estar repleta de tênis do lado direito, enquanto outra está coberta de tênis do lado esquerdo. Ebbesmeyer usou a localização relatada dos tênis para ser pioneiro em um campo que ele chama de flotsametrics: o estudo das correntes oceânicas com base nos padrões de deriva de objetos que vão ao mar. Nas últimas três décadas, ele estudou tudo, desde o incidente da Lego até a perda de um contêiner em 1992, envolvendo quase 29 mil brinquedos de banho vendidos sob o nome Friendly Floatees, desde os clássicos patinhos amarelos até sapos verdes, um dos quais levou 26 anos para aparecer na praia.

[In 1990, when a container ship headed from Korea to the United States lost tens of thousands of Nike athletic shoes overboard, each one bearing a serial number, an oceanographer, Curtis Ebbesmeyer, asked beachcombers all over the world to report any that washed ashore. (Alongside the former BBC journalist Mario Cacciottolo, Ebbesmeyer collaborated with Tracey Williams on “Adrift.”) As it turns out, Nikes tolerate salt water well and will float pretty much until they run out of ocean—although, since the two shoes in a pair orient differently in the wind, one beach might be strewn with right sneakers while another is covered in left ones. Ebbesmeyer used the reported location of the shoes to pioneer a field that he calls “flotsametrics”: the study of ocean currents based on the drift patterns of objects that go overboard. In the past three decades, he has studied everything from the Lego incident to a 1992 container loss involving almost twenty-nine thousand plastic bath toys sold under the name Friendly Floatees, from classic yellow duckies to green frogs, one of which took twenty-six years to wash ashore.]


:: EXTROVERSÃO ::
Olga Khazan, Me, But Better

Eu me peguei dizendo frases insossas e forçadas como “Você sente falta do clima do Vietnã?” ou “Eu gosto de fazer pão, mas pode ser bem complicado”, como se eu estivesse executando uma entrega secreta da CIA.

[I found myself saying bland, stilted phrases like “Do you miss the weather in Vietnam?”or “I do enjoy baking, but it can be quite complicated,” like I was performing a CIA dead drop.]


:: GRAÇA ::
Rufi Thorpe, Margo’s Got Money Troubles

Eu dei risada. Era incrível como você podia estar tão deprimido e, mesmo assim, achar as coisas engraçadas. Na verdade, as coisas pareciam até mais engraçadas.

[I laughed. It was amazing how depressed you could get and still find things funny. In fact, things seemed even funnier.]


:: SER MÃE É UM CALO ::
Heather Armstrong, It Sucked and Then I Cried

As coisas estavam melhorando apenas no sentido de que eu estava me acostumando a viver daquele jeito. A maternidade estava transformando meu corpo inteiro em um calo gigante.

[Things were getting better only in the sense that I was becoming used to living this way. Parenthood was turning my whole body into one giant callus.]

:: AGRADECIMENTO ::
Vincent Bevins, If We Burn

Eu não ficaria nada surpreso se descobrisse, em algum momento, que uma ou mais pessoas na longa lista acima não são quem dizem ser. Portanto, quero agradecer às inúmeras agências de inteligência e segurança do mundo por seu trabalho árduo. O homem que me seguiu por Moscou, em particular, me fez sentir muito especial.

[I would be extremely unsurprised to find out, somewhere down the road, that one or more people on the long list above are not who they claim to be. So, I want to thank the world’s myriad intelligence and security agencies for all their hard work. The man who followed me around Moscow in particular made me feel very special.]

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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)

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#109 – São Paulo, 6 de agosto de 2025
Contém: Tolice Exacerbada
Em estado de paçoca
hortifruti.org

“Você paga cinquenta reais pra cortar a unha do teu coelho!”
(
senhora indignada na fila do posto de saúde)

“Não tenho tempo para isso agora. Estou em estado de Paçoca.”
(Ricardo Terto)

:: EDITORIAL :

Este editorial é um apelo. Gostaríamos de rogar aos leitores que nos enviem imagens da Classificação Indicativa dos filmes na entrada do cinema. Muito nos interessam os avisos de gatilho sobre o que determinado filme “contém”. Exemplos: “tema impróprio”, “exposição de cadáveres”, “conflitos psicológicos atenuados” e “desvirtuamento moderado dos valores éticos”.

Colaborações podem ser enviadas para vmbarbara@yahoo.com. Pela atenção, obrigada.

ps. Aproveitem para ler a crônica “Contém: Tolice exacerbada” sobre os avisos mais insólitos nas contra-capas dos DVDs. E agora voltamos à programação normal.


:: ADORADA CORUJA ::
Merve Emre, “The History of Advice Columns…”

Depois que sua primeira esposa morreu, ele rapidamente cortejou a segunda e celebrou seu sucesso publicando um panfleto intitulado “Em defesa de um casamento rápido após a morte de uma boa esposa”; quando a segunda esposa o deixou por causa de uma disputa de propriedade, ele se dedicou à sua adorada coruja de estimação, Madge.

[After his first wife died, he swiftly wooed his second and celebrated his success by publishing a pamphlet titled “A Defense of a Speedy Marriage after the Death of a Good Wife”; when the second wife left him over a property dispute, he devoted himself to his beloved pet owl, Madge.]


:: ALTERNATIVA POSSÍVEL ::
George Orwell, The Road to Wigan Pier

Os vendedores de assinaturas de jornal eram um tipo que eu nunca tinha encontrado antes. O trabalho deles me parecia tão desesperador, tão terrível, que eu me perguntava como alguém podia aguentar aquilo quando a prisão era uma alternativa possível.

[The newspaper -canvassers were a type I had never met before. Their job seemed to me so hopeless, so appalling that I wondered how anyone could put up with such a thing when prison was a possible alternative.]


:: GOD’S STILL IN HEAVEN ::
Jack London, The People of the Abyss

Dadas as circunstâncias — com minha esposa, os bebês e uns dois inquilinos sofrendo com o espaço excessivamente vasto de um único cômodo — tomar banho em uma bacia de lata seria uma tarefa inviável. Mas, ao que parece, há uma compensação com a economia de sabão, então está tudo bem e Deus continua no céu.

[Under the circumstances, with my wife and babies and a couple of lodgers suffering from the too great spaciousness of one room, taking a bath in a tin wash-basin would be an unfeasible undertaking. But, it seems, the compensation comes in with the saving of soap, so all’s well, and God’s still in heaven.]


:: RECENTE ::

Ricardo Terto, Marmitas frias: e requentadas

Vai no Poupatempo que essa foto três por quatro tem que ser RECENTE, você não pode andar por aí com o ultrassom da sua mãe estampado no RG.

“Vocês nunca vão saber onde é que eu escondi os corpos”


:: FIAPOS ::

Miguel Dalmau, Cortázar: el cronopio fugitivo

Um pequeno autorretrato sentimental que ele [Julio Cortázar] envia à viúva de Sergio Sergi: nele, reconhece que seu coração está cheio de fiapos, balas moles, pipocas de cartolina e outras pieguices das quais não renega nem jamais renegará.

[Un pequeño autorretrato sentimental que le manda a la viuda de Sergio Sergi: en él reconoce que su corazón está lleno de pelusas, caramelos blandos, palomitas de cartulina y otras cursilerías de las que no reniega ni renegará jamais.]


:: JOÃO, O SIMPLES ::
Donald Spoto, Francisco de Assis, O Santo Relutante

Mas João era chamado Simples devido ao que acontecera naquele dia. Ouvindo os demais irmãos dizerem que ele devia imitar Francisco, assim fez, e com apaziguadora literalidade. Se Francisco erguesse os braços em oração, João imediatamente fazia o mesmo; se coçasse a cabeça, João repetia o gesto; se tossisse e escarrasse, certamente João o imitaria.


:: MINHAS HISTÓRIAS ::
Lilly Dancyger, Burn It Down

As histórias que te assombram, as que te fazem congelar, as que eram tão reais, mas que parecem fantasmas — conte-as sem vergonha. A vergonha não é sua para carregar. A vergonha não é minha para carregar. […] Meu corpo é meu. Minhas histórias são minhas para contar e guardar. Esta é a minha história, apesar daqueles que tentaram tirá-la.

[The stories that haunt you, the ones that make you freeze, the ones that were so real but feel like ghosts—tell them without shame. The shame is not yours to carry. The shame is not mine to carry. […] My body is mine. My stories are mine to tell and keep. This is my story, in spite of those who tried to take it away.]


:: DESCULPEM ::
Stephen Pile, The Ultimate Book of Heroic Failures


“O Boletim Meteorológico Mais Mal-Sucedido”

Depois de uma inundação grave em Jeddah, em janeiro de 1979, o jornal Arab News publicou o seguinte boletim: “Lamentamos não poder fornecer a previsão do tempo. É que nos baseamos nos relatórios meteorológicos do aeroporto, que está fechado por causa do clima. Se iremos conseguir fornecer a previsão do tempo amanhã dependerá do clima”.


:: SEM O NARIZ ::
Herman Melville, Moby Dick

Seria quase esperado que [Stubb] saísse de seu beliche sem o nariz, mas não sem o cachimbo.


:: RIM MATEMÁTICO ::
Rivka Galchen, “The Radical Development…”

Na faculdade, em Berkeley, [Paul] Negulescu inicialmente estudava história. “Depois, no terceiro ano, fiz uma aula de fisiologia em que o professor explicou como o rim funcionava”, ele me contou. “Era tudo sobre manter íons de sódio, cloreto e potássio em equilíbrio.” O rim, um órgão tremendamente subestimado, basicamente resolve um sudoku em quatro dimensões com íons.

[In college, at Berkeley, Negulescu had initially studied history. “Then, as a junior, I took a physiology class where a professor explained how the kidney worked,” he told me. “It was all about keeping sodium ions and chloride ions and potassium ions in balance.” The kidney, a tremendously under-celebrated organ, basically does four-dimensional sudoku with ions.]


:: DICA ::
George Orwell, Na pior em Paris e em Londres

Seguiram-se dois dias ruins. Tínhamos apenas sessenta cêntimos, que gastamos em meia libra de pão e em um pedaço de alho para esfregar nele. A vantagem de esfregar alho no pão é que o gosto permanece na boca e dá a ilusão de que se comeu recentemente.


:: CAFÉS ::
Reiner Stach, The Early Years (Kafka)

O trabalho intelectual também era tolerado e até mesmo incentivado no café: além das centenas de jornais diários e outros periódicos que os melhores cafés disponibilizavam a seus clientes — incluindo os periódicos literários mais eruditos — era bastante comum pedir ao garçom que trouxesse um guia de horários da ferrovia estatal austro-húngara ou alguns volumes de uma enciclopédia, e as pessoas que estavam claramente imersas em tais coisas não eram incomodadas, mesmo quando já haviam esvaziado suas xícaras há muito tempo.

[Intellectual work was also tolerated and even encouraged in the coffeehouse: apart from the hundreds of daily newspapers and other periodicals that the finest coffeehouses made available to their patrons—including the most highbrow literary journals—it was quite common to ask the waiter to bring a timetable of the Austro-Hungarian state railway or a few volumes of an encyclopedia, and people who were clearly immersed in such things were not disturbed even when they had long since emptied their cups.]


:: ANOMALIA ESTATÍSTICA ::
Oliver Burkeman, The Antidote

Mesmo hoje, numa curiosa e mórbida anomalia estatística, a taxa de mortalidade na West Ridge é superior a 100%, o que significa que mais pessoas morreram ali do que conseguiram alcançar o cume por aquela rota.

[Even today, in a morbid statistical oddity, the fatality rate for the West Ridge is higher than 100 per cent, meaning that more people have died there than have reached the summit that way.]


:: UM CARTÃO-PRESENTE ::
Tad Friend, “Silicon Valley’s Quest”

Pesquisadores da Universidade de Columbia anunciaram em março que haviam armazenado um sistema operacional inteiro (assim como um cartão-presente da Amazon de cinquenta dólares) em uma única sequência de DNA.

[Researchers at Columbia University announced in March that they’d stored an entire computer operating system (as well as a fifty-dollar Amazon gift card) on a strand of DNA.]


:: ESPANTO SEM LIMITES ::
Charles Darwin, The Voyage of the Beagle

Eles expressaram, como sempre, um espanto sem limites ao saberem que o globo terrestre era redondo, e mal podiam acreditar que um buraco, caso fosse suficientemente profundo, sairia do outro lado.

[They expressed, as was usual, unbounded astonishment at the globe being round, and could scarcely credit that a hole would, if deep enough, come out on the other side.]


:: ALIÁS ::
John Derbyshire, Prime Obsession

[David] Hilbert teve um aluno que, certa vez, lhe apresentou um artigo em que alegava provar a Hipótese de Riemann. Hilbert estudou o trabalho com atenção e ficou realmente impressionado com a profundidade do argumento; mas, infelizmente, encontrou um erro que nem mesmo ele conseguiu corrigir. No ano seguinte, o estudante faleceu. Hilbert pediu aos pais enlutados permissão para fazer um discurso fúnebre. Enquanto os parentes e amigos do jovem choravam ao lado do túmulo, sob a chuva, Hilbert tomou a frente. Começou dizendo que era uma tragédia um jovem tão talentoso ter morrido antes de ter a chance de mostrar do que era capaz. Mas continuou, dizendo que, apesar de o trabalho do jovem conter um erro, ainda era possível que um dia se encontrasse uma prova para o famoso problema seguindo as linhas que o falecido havia indicado. “Na verdade”, prosseguiu ele com entusiasmo, de pé sob a chuva ao lado do túmulo do estudante, “consideremos uma função de variável complexa…”

[[David] Hilbert had a student who one day presented him with a paper purporting to prove the Riemann Hypothesis. Hilbert studied the paper carefully and was really impressed by the depth of the argument; but unfortunately he found an error in it which even he could not eliminate. The following year the student died. Hilbert asked the grieving parents if he might be permitted to make a funeral oration. While the student’s relatives and friends were weeping beside the grave in the rain, Hilbert came forward. He began by saying what a tragedy it was that such a gifted young man had died before he had had an opportunity to show what he could accomplish. But, he continued, in spite of the fact that this young man’s proof of the Riemann Hypothesis contained an error, it was still possible that some day a proof of the famous problem would be obtained along the lines which the deceased had indicated. “In fact”, he continued with enthusiasm, standing there in the rain by the dead student’s grave, “let us consider a function of a complex variable…”]

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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)

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