The International New York Times
February 18, 2016

by Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

SÃO PAULO, Brazil — Last December, I suddenly found myself in possession of two bottles of the most precious liquid in town: Exposis Extrême, an extra-strong insect repellent. It’s deemed the best protection against the Aedes aegypti mosquito, which transmits dengue, chikungunya and, now, the Zika virus. Its active ingredient is icaridin, which also repels ticks and the mosquitoes that carry malaria. I’d bought the bottles earlier in the year, during an outbreak of dengue fever, in the hope that a high-quality bug spray would keep me safe from the virus. (It didn’t. I came down with dengue, anyway.)

As soon as the Brazilian government confirmed in late November the link between Zika and microcephaly — a rare, incurable neurodevelopmental disorder in newborn babies — pregnant women rushed to drugstores and cleared them out of their supply of the spray. For more than a month, the shelves remained empty. People put their names on waiting lists, tried to bribe drugstore employees and ordered overpriced bottles online. On the black market, a bottle of Exposis Extrême reached two or three times the official price.

My sister-in-law is four months pregnant with a baby girl and she unabashedly took part in the frantic search for Exposis Extrême. Like an undercover narcotics agent, my brother received a tip: A drugstore had received a re-up. He ran out in the hope of getting his wife a fix — only to find that it was just a rumor. So my sister-in-law spent part of the summer wearing long-sleeved shirts and trousers. It was only in the middle of January that they were finally able to buy six small bottles of Exposis Extrême for about $15 each. (Brazil’s monthly minimum wage is $224.)

Health officials from the United States, Canada and other countries have warned pregnant women to postpone trips to Latin America and the Caribbean. But while pregnant women from rich countries are being urged not to travel, women from poor countries are being urged not to become pregnant. The authorities in Ecuador, Colombia and El Salvador have all advised avoiding pregnancy. Here in Brazil, it’s not official policy. But gynecologists — including mine — are strongly discouraging it, at least while it’s summer.

The level of concern Brazilians feel depends on several factors. Of course, pregnant women everywhere are worried. But geography matters: In the richer southeast, where I live, Zika is still no match for dengue fever, which is both more common and more lethal — last year, 1.6 million Brazilians were infected; 863 died. In São Paulo, concern about Zika is still seen as overblown. My sister-in-law recently went to see two different doctors about a rash and both told her that they wouldn’t know how to diagnose a Zika infection because they had never treated anyone with the disease.

Money also matters. Wealthier women can afford as many bottles of insect repellent as they can get their hands on (not to mention ultrasound exams to find out if their unborn children are showing signs of microcephaly); the poorest can count only on chance. And not many women can follow the example of a pregnant middle-class woman from Rio de Janeiro who recently packed her bags and left for Europe, planning to stay abroad at least through the end of her first trimester.

It seems that money can even buy the illusion of safety. My gynecologist told me about one of her pregnant patients, who, despite doctor’s orders, recently traveled three times to northeast Brazil, where most of the Zika infections have been reported. When my doctor asked the woman why she kept going to the area despite the risks of contracting the virus, she explained that she didn’t worry because she always stays in upscale resorts.

The idea that mosquitoes can’t make their way into four-star hotel rooms is absurd, but so is much of the thinking here these days when it comes to the Zika virus. More than fear, confusion has been the dominant response: In WhatsApp groups and on social networks, people have spread rumors that Zika can cause serious neurological complications in infected children or that the government has been hiding the real number of victims or that the outbreak was caused by genetically modified mosquitoes. These claims have been debunked, but Brazilians are still lacking strong, categorical truths. The number of cases is still being disputed and a causal relationship between the virus and microcephaly has not been scientifically established.

There are even fears that foreign athletes will pull out of the 2016 Olympic Games in Rio in August. That’s not an unfounded concern. Some governments have told their teams that they can stay home if they’re worried about diseases. I prefer a more amusing possibility: that the Brazilian committee is lobbying to include a new sport in this year’s Games, a kind of tennis to be played with electric mosquito swatters. There could be three categories: dengue, chikungunya and Zika.

Rumors aside, there’s not much that we in Brazil can do now but wait for more studies and, maybe a few years down the line, a vaccine. For the moment, there’s no alternative plan for most Brazilian women but to spend another season wearing long sleeves, avoiding pregnancy and getting as much Exposis Extrême as they can find and afford.


Vanessa Barbara is a columnist for the Brazilian newspaper O Estado de São Paulo, the editor of the literary website A Hortaliça and a contributing opinion writer.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
15 de fevereiro de 2016

por Vanessa Barbara

Quando eu era pequena, a ideia de me machucar e ter de tomar pontos era seguramente mais temível que a morte. Lembro de um menino da minha rua que cortou o pé durante um baile de Carnaval e foi para o hospital ser costurado – a visão de um médico malévolo passando a máquina Singer no torso de um ser humano consciente me perseguiu durante noites a fio, e até hoje eu não quis ficar sabendo se ele sobreviveu.

Conheço um rapaz que, aos 10 anos de idade, quebrou o braço descendo a rua de bicicleta, mas só começou a chorar quando lhe informaram que iria para o hospital, onde, na cabeça dele, a amputação seria uma forte possibilidade. Quanto a mim, lembro de ter caído de testa no chão da escola e ouvir uma professora dizer: “Vai formar um galo. Alguém traga uma faca, rápido.”

A noção de dor entre as crianças é um troço curioso. Em debates exaltados, elas compartilham histórias de suas cicatrizes feito veteranas de guerra: “Doeu muito quando você caiu de cabeça?”, ouvi um menino perguntar para o outro. Este apenas fez que sim, circunspecto. “Você chorou?”, questionou um terceiro, para indignação do mártir, que respondeu com um sonoro: “Não!”, e mudou de assunto. “Alguém aqui já levou picada de vespa? Parece que é muito pior do que de abelha.”

Tem sempre alguém que sabe de um vizinho que tem um primo que conhece um moleque que engessou o corpo inteiro depois de cair do gira-gira; confrontada com uma miríade de boatos sangrentos, nunca fui capaz de lidar com aqueles que envolviam pinos, torniquetes, cauterizações e pazinhas de mertiolate.

Meses atrás, narrei aqui um grande tombo que, já adulta, tomei andando de bicicleta, e a reação de uma menina solícita que testemunhou a queda e decidiu abrir o berreiro por pura solidariedade. (“Você chorou?”, perguntaria o leitor. “Não!”, eu respondo, e vamos mudar de assunto: alguém aí já foi picado por um marimbondo? Parece que é pior do que vespa.)

Todos os que convivem com crianças sabem que, após uma queda, a estridência e a duração do choro é diretamente proporcional à cara de preocupação dos adultos presentes. Por isso, em caso de emergência, convém manter a calma para não impressionar a criança em excesso. (As palavras “botar o braço no lugar” e “sem anestesia” definitivamente não são recomendadas.)

Outro dia, meu sobrinho de 5 anos mordeu o próprio dedo enquanto comia uma esfiha de calabresa. Ainda que ele tenha anunciado o incidente aos risos, mostrando a marca da dentada, poucos segundos bastaram para que ele virasse para o pai e perguntasse se aquela dor era “tão grande quanto a do filme”.

O filme em questão, que ele teve o azar de entrever justamente no pior momento, era 127 Horas, no qual um alpinista fica preso entre duas rochas e é obrigado a decepar o próprio braço com um canivete.

“Acho que a do filme é um pouco pior”, respondeu o pai. E mudou de assunto.

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O Estado de São Paulo – Caderno 2
8 de fevereiro de 2016

por Vanessa Barbara

A ideia desta crônica era escrever sobre o MC Bin Laden, expoente do funk paulistano nascido em Vila Progresso, na zona leste, e que tem causado comoção com um videoclipe filmado na laje, de nome “Tá Tranquilo, Tá Favorável (Part 2)”. Só que um leitor mais ríspido poderia parar de ler por aqui e fazer o comentário: “… Lixo cultural. Esse tipo de porcaria musical é a prova de que a civilização se encontra em iminente derrocada, conforme comprovado semana após semana por esta adiposa cronista.”

Pensei em descrever como é engraçado quando, no clipe, MC Bin Laden sai teatralmente de dentro de uma caixa d’água, juntando-se a um rapaz de moletom, outro com um braço pra fora da camiseta e mais figuras notáveis, e começa a cantar: “Tá tranquilo, tá favorável” com a ajuda de uma percussão unicamente vocal. Ao mesmo tempo, eles dançam ritmos desencontrados e fazem um passinho assaz incongruente. (Alguns leitores não acharão graça nenhuma, aproveitando para observar que Heitor Villa-Lobos jamais filmaria um clipe na laje.)

Caso todas as fibras do meu ser não estivessem trabalhando para me demover dessa ideia de crônica, eu diria também que há pouco saiu uma versão axé do vídeo, tão surreal quanto a outra, com destaque para um camarada que batuca num cano de plástico com uma minivassoura, enquanto – vocês estão preparados? – enquanto ostenta um tênis branco amarrado em torno do pescoço. (“Tanta coisa importante neste mundo e ela escrevendo sobre isso.”)

Eu sei: é Carnaval e muitos de nós resolveram abrir mão do sentido. Mas isso também já é demais. Então talvez seja melhor nem mencionar uma foto de MC Bin Laden posando tranquila e favoravelmente ao lado da estátua de Drummond, e o comentário de um amigo meu: “Esse cara é um gênio. Quer dizer, os dois são. É preciso reconhecer que Drummond também fez coisas fantásticas.”

É Carnaval, e o quanto já me diverti com essa besteira nos últimos dias só perde para um vídeo do YouTube com o título: “Hoje é segunda-feira? Não, é sábado!”.

Nele, quatro crianças com bermudas de cores diferentes dançam loucamente ao som de um forró em velocidade ultrarrápida. Um deles planta bananeira e quase cai em um buraco. O vídeo tem pouco mais de meio minuto, mas tem a duração filosófica de toda uma vida. Aos onze segundos, o mesmo menino (de bermuda azul) tira um cachorro para dançar – e o animal reage de forma extasiada. Tanto que, logo depois, quando ele larga o cão, este parece se ressentir do abandono e tenta a todo custo ser tirado de novo para o baile.

Nos segundos finais, o menino de bermuda verde passa dançando com uma cuia sobre a cabeça, sem nenhum motivo plausível.

Mesmo para quem odeia samba, acha o funk deplorável, o axé um gênero sem valor e o forró a prova viva da mediocridade humana, a ideia de dançar com um cachorro tem lá os seus atrativos.

Talvez porque hoje seja segunda-feira, mas pareça mais ser sábado.

A arte de lamber o nariz

Posted: 7th fevereiro 2016 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
1 de fevereiro de 2016

por Vanessa Barbara

Quando somos crianças, é muito fácil saber o que a sociedade exige de nós enquanto seres humanos. Os atributos básicos que uma pessoa precisa ter para se destacar na vida são claros, específicos e até sensatos – por exemplo: tem aquele menino que consegue encostar a língua no nariz. Desde seu ingresso na escola, ele tem o respeito absoluto de todo o corpo discente, ao qual não se furta de fazer exibições periódicas de sua extraordinária habilidade. Seu objetivo a longo prazo é treinar até conseguir encostar a língua no olho, no que encontra o entusiástico apoio dos colegas.

Tem sempre alguém que ganha notoriedade por projetar espessas quantidades de suco salivar a grandes distâncias. O menino que cospe longe é ladeado em fama pelo menino que consegue cuspir de lado, por outro que sopra bolhinhas de saliva e por aquele que acerta praticamente todos os arremessos de amendoins na boca. Eles são temidos e reverenciados como se fossem membros de uma liga de super-heróis, verdadeiras celebridades da nossa infância que só não ganharam bustos comemorativos porque é muito difícil esculpir rostos humanos em massinha.

Uma das primeiras provações que encontramos na vida acontece ao entrar numa escola nova e ser indagado por um colega: “Você consegue erguer uma sobrancelha só? E dobrar a língua? Você consegue abanar as orelhas? Mexer o couro cabeludo? Afinal, você sabe fazer qualquer coisa de interessante?”

Eu nunca consegui. Não era capaz de mover os dedinhos de forma independente, nem de lamber o cotovelo. Conheci crianças que dobravam o indicador de forma anormal, que conseguiam inflar a barriga como se estivessem grávidas e mexiam a ponta do nariz feito coelhos. Houve uma vez um menino que soprava ar pelos olhos. (É possível que você não o tenha conhecido, mas só ouvido falar dele, como uma narrativa folclórica passada de geração em geração.)

Mas afinal, o que aconteceu com esses mitos da nossa infância? O que foi feito deles? Fico imaginando essas figuras épicas adentrando um escritório no primeiro dia de trabalho e tentando impressionar os colegas tocando “House of The Rising Sun” com as axilas. Ou respondendo a perguntas de uma entrevista de emprego com a voz do Pato Donald, só para causar boa figura.

Tive uma amiga que conseguia arrotar frases inteiras. Ela entoava versos do Hino Nacional com arrotos, e por isso foi a menina mais popular da turma até mais ou menos os 12 anos. Então as regras mudaram. Da noite para o dia, ter o cabelo liso, um moletom de marca ou, atualmente, um Samsung Galaxy S6 Edge tornou-se mais importante do que ser capaz de lamber o dedão do pé. De repente minha amiga não era mais tão popular assim. E esses nossos verdadeiros mitos da infância se perderam no vestibular, em cursos de gerenciamento financeiro e departamentos de marketing.

Nos coquetéis da firma e nas conversas de bebedouro, ninguém se lembra de que um dia foram heróis.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
25 de janeiro de 2016

por Vanessa Barbara

Numa tarde de verão de 1985, Penny Beerntsen foi violentada sexualmente. Anos depois ela relataria que, ao ser imobilizada pelo agressor, pensara em duas coisas: primeiro, que precisava manter a calma; segundo, que tinha de prestar muita atenção no rosto dele para poder identificá-lo mais tarde.

Penny sobreviveu e, do hospital, descreveu o criminoso à polícia, que já tinha um suspeito em mente. O delegado mostrou à vítima nove retratos. Ela apontou para a imagem de Steven Avery, de 23 anos, que foi detido no mesmo dia.

Penny também identificou Avery em um reconhecimento presencial na delegacia e durante o julgamento, no qual disse ter “absoluta certeza” de que ele era seu agressor. Ele foi condenado a 32 anos de prisão.

Naquela época, o exame de DNA ainda não era comum na prática forense. Onze anos depois, em 1996, Avery entrou com um pedido de novo julgamento a partir do reexame das provas, mas o juiz negou. Após cinco anos, nova apelação. Penny sentia raiva de ver o caso ser repetidamente aberto – até que, em 2003, o exame de DNA provou que Avery era inocente. Ele já tinha passado dezoito anos na prisão.

A história é contada no livro Being Wrong: Adventures in the Margin of Error, de Kathryn Schulz, que fala sobre como resistimos em admitir nossos erros e como eles podem servir para nosso aprendizado. O capítulo de Penny conta o que ela sentiu ao perceber que havia reconhecido o homem errado – e pior, ao saber que seu verdadeiro agressor, Gregory Allen, tinha estuprado pelo menos oito mulheres no período em que permaneceu solto.

“Eu pensava nessas mulheres o tempo todo, e em como essas vidas mudaram por causa de um erro que eu cometi”, afirmou Penny. Mais tarde, ficou provado que o erro não foi só dela, mas também da polícia, que praticamente induziu sua escolha e certificou-se de suprimir suas dúvidas iniciais. Eles também se negaram a investigar outro potencial suspeito, que era justamente Gregory Allen.

Diz Kathryn Schulz que simplificar histórias e ignorar detalhes contraditórios pode nos induzir ao erro, e que a aceitação da complexidade é bem-vinda. Mas e quando o caso se complica sempre mais?

Em 2007, após quatro anos em liberdade, Steven Avery foi preso e condenado, desta vez pelo assassinato de uma fotógrafa. Penny agora tinha de lidar com um terceiro elemento de culpa: para ela, a raiva acumulada após quase duas décadas de prisão injusta podia ter sido um dos catalisadores do crime.

Então, em mais um desdobramento de um caso já rocambolesco, o Netflix acaba de estrear uma série documental que lança dúvidas sobre a culpa de Avery no homicídio. Em Making a Murderer, defende-se categoricamente que essa acusação foi forjada.

De todas as vítimas dessa história, a que mais me chama a atenção é Penny, que nunca imaginou que, depois de se livrar de seu agressor, passaria outros trinta anos lutando contra a própria consciência.

O homem do prato

Posted: 23rd janeiro 2016 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
23 de janeiro de 2016

por Vanessa Barbara

Sempre que vou a um concerto, tenho pena do homem do prato. O sujeito fica sentado com cara de paisagem durante uns vinte minutos; aí se levanta, ajeitando o fraque, e apanha do suporte um par de pratos de metal. Se posiciona. Espera mais um pouco. Finalmente, ergue o instrumento e, com ar solene, produz um “PIM” agudo. Volta a se sentar. Segue nova espera, durante a qual ele mantém um semblante imutável e um tanto tristonho.

Na Sinfonia nº 7 de Bruckner, com duração de mais de uma hora, o cara do prato toca apenas uma nota. Ela surge no segundo movimento, lá pelos 35 minutos, quando também ocorre a única participação do tocador de triângulo – para azar deste, pois seu pitoresco instrumento acaba sendo abafado pela pratada. Depois disso, ambos os músicos se sentam e passam o resto da sinfonia acompanhando a partitura com ar vazio.

Outra peça de uma nota só para o sofrido tocador de címbalos é a Sinfonia nº 9 de Dvorák, na qual o som do prato é tão fraco que mais parece um espirro. Ainda assim, conta-se que, em certa apresentação, o músico se distraiu e perdeu a vez, e que o maestro Hans Richter nunca lhe perdoaria. Anos depois, quando foi conduzir novamente a peça, Richter chegou a perguntar ao primeiro violino: “Aquele tocador de pratos, ele já está morto?”.

Como se não bastasse, discute-se a melhor forma de tocar essa nota única: com um golpe seco? Ou um zischen? E quanto à extensão: deve haver contato prolongado entre os pratos? E mezzo forte é mesmo a dinâmica apropriada?

Ou seja, um tocador de pratos não pode sofrer de ansiedade antecipatória, nem de perfeccionismo. Além de escolher o peso e o tamanho do prato, o músico precisa optar pela técnica da batida: pode deixar o som ressoar até sumir ou abafá-lo logo após o choque. Há também variações de ângulo e de força.

O bater dos pratos pode ser questão de vida ou morte, como sabem aqueles que assistiram ao filme O Homem que Sabia Demais, de Alfred Hitchcock. Também é um ofício que deve ser difícil de praticar, conforme mostrado num episódio de I Love Lucy no qual um percussionista tenta ensaiar sua parte na suíte O Quebra-Nozes, de Tchaikovsky. Ele dá alguns golpes no tímpano, aguarda em silêncio por uns segundos, bate os pratos menores, espera mais um pouco. Virando a página da partitura, antecipa mentalmente a entrada dos instrumentos de sopro, depois dá a pratada final. (E não fica satisfeito com o resultado.)

Por outro lado, na Sinfonia nº 4 de Tchaikovsky, o tocador de pratos espera pacientemente até o quarto movimento, quando então pode enfiar o pé na jaca: a partitura prevê exatas 193 pratadas, algumas muito rápidas e outras em total desacordo com o resto da orquestra. É uma das peças mais difíceis para o profissional do ramo.

Com isso em mente, deixo aqui a minha mensagem ao homem do prato: sua hora vai chegar, e será retumbante. Aguenta aí.

História ou spoiler?

Posted: 16th janeiro 2016 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
16 de janeiro de 2016

por Vanessa Barbara

Em dezembro, estreou nos cinemas Star Wars: O Despertar da Força, o título mais recente da clássica franquia que conta com fãs devotos e toneladas de bonequinhos temáticos. Antes mesmo do lançamento, o filme já tinha arrecadado 100 milhões de dólares em ingressos antecipados, o que obrigou os mais atrasados a uma perigosa e indesejável espera.

Nas semanas que se seguiram, a principal preocupação de muita gente na vida era a de evitar spoilers (revelação de fatos importantes da trama). A angústia era palpável; afinal, em qualquer fila de supermercado se podia entreouvir que o verdadeiro vilão da saga era o Chewbacca, ou que Tatooine era o planeta Terra, ou que Han Solo deixou crescer o bigode. Houve quem abandonasse as redes sociais, faltasse ao trabalho, estocasse mantimentos e renunciasse a todo tipo de convívio até que enfim conseguisse assistir ao filme. (Então essas pessoas retornaram à vida e começaram imediatamente a espalhar spoilers.)

Todo mundo já teve a experiência de ler ou ouvir algo que prejudicou a apreciação de um filme, livro ou série. Às vezes, o estraga-prazer não tinha má intenção, mas o resultado é sempre catastrófico. Daí vem a dúvida: depois de quanto tempo uma revelação deixa de ser spoiler?

Por exemplo: ainda é spoiler quando falamos sobre a mãe em Psicose (1960)? E sobre o final de O Planeta dos Macacos (1968)? E sobre certo personagem de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa? Ainda faz sentido que os atores peçam sigilo quanto ao desfecho da peça A Ratoeira, que estreou em 1952? E se eu revelar o que acontece com a baleia em Moby Dick, de Melville?

Assisti à série Twin Peaks com décadas de atraso e, enquanto estava no meio, morria de medo de ler spoilers sobre o assassino de Laura Palmer. Às vezes basta uma espiada para arruinar tudo. O IMDb (Internet Movie Database), por exemplo, mostra abertamente em quantos episódios cada ator aparece, do que dá para inferir com razoável precisão se seu personagem favorito morre e quando isso acontece.

Há poucas semanas, terminei Guerra e Paz, de Tolstói, e fiquei na dúvida se podia revelar aos amigos que Napoleão perdeu em 1812. (Peço desculpas aos leitores desavisados.) Não resisti e escrevi, sem fôlego, um típico spoiler de rede social: O NAPOLEÃO PERDEU, GENTE! BAFÃO, e fui duramente repreendida pelos mais ortodoxos.

O spoiler de fatos históricos é uma questão delicada, sobretudo para quem tem memória curta: outro dia revi Os Eleitos (1983) e fiquei na expectativa de saber qual dos astronautas americanos teria sido mandado ao espaço primeiro; na série The Americans, fiquei surpresa ao saber que Ronald Reagan sofreu um atentado.

Tenho uma amiga que quase foi linchada virtualmente após mencionar num fórum da série The Tudors que Ana Bolena tinha sido decapitada.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
9 de janeiro de 2016

por Marcos Barbará

Em função das acusações proferidas pela sra. Vanessa Barbara na coluna “O meu irmão”, publicada em 21/12/2015, o sr. Marcos Barbará (o irmão) conquistou direito de resposta que aqui será executado, para fins de restabelecimento da verdade.

Outrossim, a autora do agravo aproveita para retratar-se publicamente e reiterar que contra Marcos não pesa qualquer fato desabonador de sua conduta, além de refutar insinuações de que sua caixa craniana tenha o formato de um melão.

Segue o direito de resposta, previsto pelo artigo 5º, inciso V da Constituição Federal, e regulamentado pela lei 13.188/2015.

*

Prezados,

Qualquer ser humano de razoável bom senso sabe que o irmão mais velho tem direitos imutáveis e assegurados desde o Direito Romano (hermanus velhus est). São precedências incontestáveis, como o direito de sentar no melhor lugar do sofá, de obter o pedaço maior do sorvete e de ser o primeiro a ler o gibi.

Também é de conhecimento público que uma diferença de dois anos de idade entre irmãos é equivalente a onze eras geológicas entre adultos, pela total falta de sintonia de gostos e vontades, como se um fosse aborígene da Idade do Bronze e o outro um executivo nova-iorquino, ou um jovem construtor de pirâmides do antigo Egito ante um psiquiatra aposentado de Hong Kong.

Dito isso, cabe concluir que a pior coisa de ser um menino de onze anos com uma irmã mais nova é, exatamente, ter uma irmã mais nova. Todo e qualquer fato ocorrido no lar passa a ser, automaticamente, culpa sua. Vaso quebrado, brinquedo perdido, boneca enforcada, o veredito é sempre contra o pobre irmão mais velho. Mesmo naqueles casos em que há um álibi e prova clara de inocência, o irmão mais velho é culpado por não ter tomado conta da referida ultimogênita.

Mesmo diante dessa dificuldade e em prol da paz familiar, sempre fui virtuoso e honesto. Entre minhas qualidades fraternais destaco a justiça (dividia uma barra de chocolate utilizando uma trena industrial com precisão de 0,001mm), a generosidade (todo resto de comida que caía no chão ia para a irmã mais nova) e a sinceridade (diariamente comunicava para a irmã mais nova o quanto ela era inútil).

Portanto, graças a minha paciência e bondade, conseguimos superar a infância e adolescência vivos, o que já é uma vitória. Também informo aos interessados que infelizmente a legislação brasileira ainda não permite a separação fraternal (exceto para siameses), então ainda sou obrigado a chamar a referida colunista de “irmã”.

Aproveito para deixar uma mensagem de esperança a vocês, irmãos e irmãs mais velhos. Sejam fortes e valentes! Não existe triunfo sem perda, não há vitória sem sofrimento, não há liberdade sem sacrifício. Voem como uma borboleta e ferroem como uma abelha!

Obs.: Quanto ao caso da boneca enforcada, meus advogados me orientaram a não comentar sobre isso.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
2 de janeiro de 2016

por Vanessa Barbara

Nunca é tarde para começar a aprender coisas diferentes, ainda mais com um ano novo à espreita, mas é também necessário reconhecer a derrota quando ela se apresenta em toda a sua glória. Segue uma lista provisória de Coisas Que Nunca Vou Saber Fazer Direito, Ainda Que Continue Tentando. São elas:

1. Nadar. Aos cinco anos, entrei para uma escola de natação, mas me recusava a enfiar o rosto na água (não me parecia um comportamento razoável). Imbuída das melhores intenções pedagógicas, a professora resolveu que me daria um caldo à força. O trauma se faz presente até hoje, ainda que eu saiba o suficiente para não morrer afogada e ficar boiando de costas, à espera de um helicóptero de resgate.

Aos 25 anos, me inscrevi em aulas de natação numa escola mandaquiense com piscina de 12,5 metros de comprimento, numa turma vespertina que vinha logo após o horário infantil. Tanto a minha falta de fôlego quanto a ausência generalizada de coordenação – e o fato de eu ficar para trás ao apostar corrida com um senhor de 65 anos – me convenceram enfim de que nunca serei capaz de realizar a travessia do Canal da Mancha.

2. Falar francês. E inglês. E, para todos os efeitos, me comunicar com fluência aceitável em português. Certas pessoas simplesmente não possuem os dons mais elementares de oratória e estão fadadas a passar vergonha nas mais diversas situações sociais. É tempo de reconhecer essa realidade e pressionar pela volta dos embates epistolares.

3. Dirigir. Jamais vou entender por que diabos botaram o breque no meio, tão perto do acelerador. Me recuso a compactuar com tamanho disparate.

4. Fazer contas de cabeça. Depois que saí da escola, dediquei-me com afinco a apagar da lembrança todo conhecimento matemático e capacidade de abstração que me permitiam resolver contas de cabeça com mais de dois dígitos. Cabe dizer que ainda sei fazer regra de três, mas só no papel.

5. Sapatear. Sempre me vejo obrigada a estudar exaustivamente as sequências de passos durante a semana, com vistas a fazer apenas má figura no horário de aula. Contudo, quando descobri que o sapateado está praticamente extinto da Broadway, perdi um pouco o estímulo para buscar o estrelato.

6. A curva para a direita ao andar de bicicleta. Não tenho problemas em fazer conversões à esquerda, mas a situação piora de forma exponencial quando se trata do lado oposto, sobretudo se é necessário fazer uma volta de 180 ou 360 graus. Crianças pequenas choram por solidariedade quando me veem levar tombos nos parques.

7. Reconhecer estrelas. Sempre que preciso impressionar alguém com minha sabedoria quase indígena de reconhecimento de objetos celestes, a maldita Arcturus some da abóbada e sou obrigada a apontar as Três Marias.

8. A regra do hífen. Minha revisora pediu que eu incluísse este item, que achei contra-producente.

O meu irmão

Posted: 26th dezembro 2015 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
21 de dezembro de 2015

por Vanessa Barbara

Meu irmão sempre foi o meu nêmesis. Desde cedo, competíamos em tudo: em quem ia tomar banho primeiro, em quem ganhava a maior bola de sorvete, quem era o filho preferido, quem estalava mais alto os dedos, quem mexia o Nescau da forma mais irritante.

Quando eu era bebê, ele tentou furar meus olhos, numa suposta tentativa científica de “descobrir o mecanismo que faz a bolinha mexer”. Além disso, ele já simulou o enforcamento de uma das minhas bonecas no banheiro, ao passo que eu me esforçava por azucriná-lo de todas as formas previstas no Código Civil. (O enforcamento da boneca foi um episódio memorável: lembro que havia sangue de ketchup nas paredes e que as minhas amigas choraram sem parar, passando a recusar os convites subsequentes para participar das festas do pijama lá em casa.)

O fato de eu considerá-lo um herói, conforme registrado em uma redação da primeira série, apenas contribuía para que ele se irritasse ainda mais. E redobrasse o empenho.

Nos idos de 1998, quando a internet era discada e a plebe só podia conectar após a meia-noite (porque de madrugada só contava um pulso), cumpríamos um rodízio muito severo no computador da casa. O primeiro horário era da meia-noite à uma. Então o indivíduo ia dormir, o outro empurrava o móvel de rodinhas e cumpria o turno da uma da madrugada até quanto aguentasse. O problema era que estudávamos de manhã e tínhamos que acordar às seis.

Ainda que, estranhamente, o revezamento de internet não tenha trazido prejuízos ao nosso desempenho acadêmico, danificou muito a nossa já belicosa convivência – lembro de estourar meu turno em dois minutos e ser presenteada com o desligamento compulsório do computador da tomada.

Naturalmente, minha mãe colocava os dois de castigo, ainda que a culpa fosse sempre dele.

Outro objeto de disputa era o banco da frente de um Fiat Fiorino onde meu pai nos levava para a escola, pois quem se sentasse ali podia controlar o rádio, ao passo que o outro ficava jogado na caçamba do furgão, sacolejando junto com equipamentos frigoríficos e cilindros de gás refrigerante. Nesse caso também seguíamos um rodízio, com o agravante de que às vezes o passageiro da frente escolhia uma rádio estranha só para irritar. “Você nunca gostou de sertanejo!”, eu gritava. “É o meu gênero preferido”, ele respondia, aumentando o volume. (Isso quando ele não deixava na estática entre duas estações.)

Crescer não serviu de nada para mudar esse quadro. Até hoje, é como uma corrida armamentista: o Marcos publicou primeiro um livro, então eu tive que escrever mais sete. Ele foi para o Chile e comprou uma televisão, eu arrumei uns gatos e fui a um show de heavy metal. Ele teve um filho, eu adotei duas tartarugas. Eu peguei dengue, ele pegou pneumonia. Ele vai ter outro filho, eu aluguei um apartamento.

E que fique aqui registrado que foi ele quem começou.