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A escola em Bento Rodrigues, no Brasil, que foi destruída após o rompimento de uma barragem. Ricardo Moraes/Reuters

The New York Times
17 de dezembro de 2015

por Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

SÃO PAULO, Brasil — Pouco depois das quatro da tarde do dia 5 de novembro, o marido da diretora entrou correndo na Escola Municipal Bento Rodrigues, em Mariana, Minas Gerais, e gritou que a barragem havia se rompido. Professores e funcionários levaram os cerca de 50 alunos até ônibus e carros. Alguns seguiram a pé. Minutos depois, enquanto subiam o morro, os membros da caravana viram uma onda de lama de dez metros engolindo a escola.

A massa acobreada cobriu mais do que a escola: destruiu o vilarejo inteiro. Ao menos 16 pessoas morreram, incluindo duas crianças. Três pessoas ainda estão desaparecidas e 631 ficaram desabrigadas.

A barragem servia para armazenar água e resíduos de uma mina de minério de ferro próxima ao local. Não possuía sistema de alarme, um bom plano de contingência ou rotas de evacuação. De acordo com os moradores, ninguém foi avisado da ruptura. “Se a barragem tivesse rompido à noite, todos teriam morrido”, disse Duarte Júnior, prefeito de Mariana.

A estrutura era operada pela Samarco, uma joint venture entre duas multinacionais da mineração: a brasileira Vale e a anglo-australiana BHP Billiton. Mais de um mês depois da tragédia, ainda não se sabe quanto tempo vai levar para o ecossistema – e a economia – se recuperar. E mais duas barragens da região correm risco de rompimento.

Após inundar Bento Rodrigues, a onda de aproximadamente 60 milhões de metros cúbicos de lama e resíduos minerais, um volume equivalente a 25 mil piscinas olímpicas, chegou até o rio Doce. O rio, que passa por 228 municípios, é essencial para a economia da região, e agora está tomado pela lama. Inúmeras empresas foram obrigadas a suspender suas operações; os pescadores estão entre os mais afetados. Em Governador Valadares, cidade de 300 mil habitantes, o suprimento de água teve de ser cortado por uma semana.

As empresas envolvidas insistem em afirmar que a lama não apresenta perigo à saúde humana. Mas dois especialistas em meio-ambiente da Organização das Nações Unidas afirmaram que ela continha “altos níveis de metais pesados tóxicos e outros produtos químicos tóxicos”. Um relatório do Instituto de Gestão das Águas de Minas Gerais encontrou níveis de arsênio mais de dez vezes acima do limite legal. Outras amostras coletadas em pontos diferentes ao longo do rio continham níveis elevados de mercúrio, ferro, alumínio e manganês.

De acordo com o Ibama, agência federal de proteção ao meio ambiente, o rio Doce é o habitat de 80 espécies, das quais 11 estão ameaçadas de extinção e 12 são endêmicas, ou seja, não são encontradas em nenhum outro lugar do mundo. “A mortalidade instantânea é apenas um dos impactos aos organismos aquáticos causados pelo desastre”, ressaltou um relatório do Ibama, que fazia menção sobretudo aos danos causados ao ecossistema. Enquanto isso, a Samarco contratou pescadores locais para coletar e enterrar peixes mortos.

A rota marrom da lama pelos rios brasileiros é visível em imagens de satélite da NASA. Dezesseis dias após o rompimento da barragem, a lama alcançou o oceano Atlântico, a mais de 650 km de distância. Também se espalhou pela Reserva Biológica de Comboios, na costa do Espírito Santo, uma área de desova de tartarugas-cabeçudas e tartarugas-de-couro, estas últimas ameaçadas de extinção.

“As providências tomadas pelo governo brasileiro, a Vale e a BHP para prevenir danos foram claramente insuficientes”, afirmaram os relatores da ONU em um pronunciamento recente, no qual consideraram inaceitável a demora de três semanas para a divulgação de informações sobre a toxicidade da água. “As empresas e o governo deveriam estar fazendo tudo que podem para prevenir mais problemas, o que inclui a exposição a metais pesados e substâncias tóxicas”, disseram.

A causa exata do rompimento ainda não foi determinada. Um executivo da Samarco sugeriu que tremores sísmicos na região da mina podem ter causado o desastre, mas promotores públicos suspeitam de negligência da empresa. O governo brasileiro também tem sido criticado por falhar em monitorar a estrutura. Sabe-se que o Departamento Nacional de Produção Mineral tem apenas quatro funcionários para fiscalizar as 735 barragens de todo o estado de Minas Gerais.

Em seu discurso na conferência do clima em Paris, no final de novembro, a presidente Dilma Rousseff declarou que “a ação irresponsável de umas empresas provocou o maior desastre ambiental na história do Brasil”. Alegou que o governo já estava “punindo severamente” os responsáveis pela tragédia.

A Samarco concordou em pagar R$ 1 bilhão para bancar os esforços iniciais de recuperação ambiental, e ofereceu um salário mínimo mensal para as 115 famílias diretamente afetadas pela tragédia. A companhia também foi multada em R$ 250 milhões por poluir o rio Doce e prejudicar o abastecimento de água de toda a região, com 30% de desconto se o pagamento for feito dentro de 20 dias. Em 30 de novembro, o governo entrou com uma ação pública pedindo indenização de R$ 20 bilhões ao longo de uma década.

Mas os brasileiros têm bons motivos para permanecerem céticos. De acordo com estatísticas oficiais, menos de 3% das multas ambientais foram pagas nos últimos cinco anos. Muitos suspeitam que a Vale e a BHP ficarão impunes e que o desastre não se prestará nem a aperfeiçoar a regulamentação do setor de mineração.

Se a história servir como parâmetro, eles podem estar certos. Quando a barragem se rompeu, no mês passado, dezenas de pescadores da região aguardavam o dinheiro da indenização – pelo dano causado pela construção da hidrelétrica de Aimorés, dez anos atrás. A companhia responsável pela operação da usina é chamada Aliança Energia. É outra joint venture da Vale.


Vanessa Barbara é cronista do jornal O Estado de São Paulo, editora do site literário A Hortaliça e colunista de opinião do INYT.

Este texto foi publicado em inglês no The New York Times do dia 17 de dezembro de 2015. Tradução da autora.

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The school in Bento Rodrigues, Brazil, that was destroyed by mud from a collapsed dam. Credit Ricardo Moraes/Reuters

The New York Times
Dec. 17, 2015

by Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

SÃO PAULO, Brazil — JUST after 4 p.m. on Nov. 5, the principal’s husband ran into the school in the village of Bento Rodrigues, in southeastern Brazil, yelling that the nearby dam had burst and everybody needed to get out of the schoolhouse. Teachers and employees herded about 50 children into buses and cars. Some followed on foot. Minutes later, as the caravan made its way uphill, they saw a 32-foot-tall wave of mud sweeping over their school.

The copper-colored sludge wiped out more than just the school. It destroyed the entire village. At least 16 people have died, including two children. Three people are still missing and 631 lost their homes.

The dam had been used to store water and mineral waste from a nearby iron-ore mine. It had no alarm system and no good emergency plan or designated evacuation routes. According to the villagers, nobody was warned about the breach. “If the dam had collapsed at night, everyone would have died,” said Duarte Júnior, the mayor of the city that includes Bento Rodrigues.

The dam was operated by Samarco, a joint venture between two multinational mining companies: Brazil’s Vale and the Anglo-Australian BHP Billiton. More than a month after the dam collapsed, it is unclear how long it will take for the ecosystem — and the economy — to recover. And two more dams in the area are at risk of collapsing.

After flooding the village, the wave of approximately 2.2 billion cubic feet of mud and mineral residue, enough to fill about 25,000 Olympic-size swimming pools, made its way to the Doce River. The river, which passes through 228 municipalities, is crucial to the region’s economic life. The mineral-waste sludge has devastated the area. Several companies had to suspend operations. Local fishermen are among the most severely affected. The water supply for Governador Valadares, a city of 300,000 people, had to be cut off for a week.

The companies involved insist that the muck poses no threat to human health. But two United Nations environmental experts declared that the mud contained “high levels of toxic heavy metals and other toxic chemicals.” A report from the Institute for Water Management, a government agency in the state of Minas Gerais, found that the water’s arsenic levels were 10 times above the legal limit. Other samples collected at different points along the river contained high levels of mercury, iron, aluminum and manganese.

According to Ibama, Brazil’s environmental protection agency, the Doce River is home to 80 fish species, of which 11 are endangered and 12 are found nowhere else in the world. “The instant death of the aquatic organisms is just one of the many impacts of the disaster,” said an Ibama report highlighting the damage to the ecosystem. Meanwhile, Samarco hired local fishermen to collect dead fish from the river’s banks and bury them.

The mud’s brown route across Brazil’s waterways is visible in NASA satellite images. Sixteen days after the dam broke, the tide reached the Atlantic Ocean, more than 400 miles downstream. It also spread into the Comboios Biological Reserve on the coast, a spawning area for loggerhead sea turtles and critically endangered leatherback sea turtles.

“The steps taken by the Brazilian government, Vale and BHP Billiton to prevent harm were clearly insufficient,” the United Nations environmental experts said in a statement, adding that it was unacceptable that it took three weeks for information about the water’s toxicity to surface. “The government and companies should be doing everything within their power to prevent further harm, including exposure to heavy metals and other toxic chemicals,” they said.

The exact cause of the breach has not yet been determined. Samarco’s chief executive officer suggested that a seismic tremor near the mine may have caused it, but public prosecutors suspect negligence by the company. Brazil’s press is criticizing the federal government in Brasília for failing to monitor the dam. The National Department of Mineral Production employed only four people in the whole state of Minas Gerais to inspect 735 dams.

Speaking at the climate conference in Paris on Nov. 30, President Dilma Rousseff said that “the irresponsible action of one company recently caused the biggest environmental disaster in the history of Brazil.” She claimed that the government was “severely punishing” those responsible for this tragedy.

Samarco has agreed to pay $262 million to fund initial cleanup efforts, and has granted monthly support of $204 to 115 families directly affected by the tragedy. The company has also been fined $66 million for polluting the Doce River and damaging freshwater supplies, with a 30 percent discount if the payment is made within 20 days. On Nov. 30, the government filed a civil suit demanding $5.2 billion over a decade.

But Brazilians have good reason to be skeptical. According to government statistics, environmental lawbreakers in Brazil paid less than 3 percent of fines levied against them over the past five years. Many people suspect that Vale and BHP will go unpunished and that safety regulations for the mining industry won’t be updated in light of the disaster.

If history is a guide, they may be right. When the dam broke last month, dozens of fishermen in the same area were already waiting for compensation — for the damage caused by the construction of the Aimorés hydroelectric power plant 10 years ago. The company responsible for the plant’s operation is called Aliança Energia. It’s another joint venture by Vale.


Vanessa Barbara is a columnist for the Brazilian newspaper O Estado de São Paulo, the editor of the literary website A Hortaliça and a contributing opinion writer.

A version of this op-ed appears in print on December 17, 2015, on page A39 of the New York edition with the headline: Brazil’s Toxic Sludge.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
14 de dezembro de 2015

por Vanessa Barbara

A julgar pelas redes sociais, todo mundo está descansando numa praia paradisíaca, entregando teses de doutorado, se divertindo à beça com amigos de boa aparência, ganhando prêmios, aprendendo russo, subindo de faixa no judô, parindo de forma épica, comprando apartamentos, dando a volta ao mundo de bicicleta e se mudando para Paris.

Trata-se de um imenso constrangimento para nós, os deprimidos, que também gostaríamos de anunciar nossas conquistas e receber a mesma aclamação pública do que aqueles que correm 10 quilômetros por dia e cortam totalmente os doces da dieta.

Por isso pensei em lançar uma rede social só para nós, o Facebrood. (Em inglês, “brood” é o ato de remoer pensamentos tristonhos.) Exemplos de postagens populares nessa nova rede:

“Hoje à tarde consegui levantar da cama e tomar banho. ‪#‎feelingblessed”

“Cheguei à sexta-feira sem chorar! Chupa, sociedade.”

“Consegui sair para comprar meias. #hojeninguemmepara”

“Faltando ao trabalho. #étudoemvãomesmo.”

“Tenho certeza que os meus gatos não gostam de mim.”

A rede será tomada por exemplos de ostentação (gente que conseguiu tirar o pijama, sujeitos que gabaritaram o Inventário de Ansiedade de Beck) e fotos de teto. Os clipes mais difundidos serão os de bandas como The Cure, Belle and Sebastian e Joy Division. Todos irão compartilhar fervorosamente seus psicólogos preferidos e descobrir, com surpresa, que existe a terapia comportamental e a cognitivo-comportamental, e que esta última não é necessariamente mais cara do que a primeira (acho que o mundo terapêutico não trabalha com promoções do tipo “leve dois, pague um”).

O horário mais acessado será da meia-noite às quatro da manhã, com eventuais postagens delirantes de usuários sob efeito de zolpidem, um indutor de sono conhecido pelos pitorescos efeitos colaterais.

Exemplo de postagem de usuário do Facebrood com insônia simples: “A humanidade não deu certo. A vida não vale a pena. O amor é uma ilusão.”

Exemplo de postagem de usuário do Facebrood sob efeito de zolpidem: “Ei, sabe o que eu sempre quis ter em casa? Uma lousa branca! Vamos ter uma lousa branca! Nós podemos resolver equações nela!”

No que tange a eventos, os mais populares serão a Noite Virtual de Autógrafos, em que todos se comprometem a parar no mesmo horário e mandar bons eflúvios para a autora, e o Grande Encontro de Introvertidos 2015, no qual cada um levará o seu livro e escolherá um cantinho para lê-lo. Não haverá problema em confirmar presença e não comparecer, mas o simples fato de sair de casa e desistir no meio do caminho será altamente apreciado, com média de 11 mil curtidas e muita gente invejando.

Estamos falando, enfim, de um Facebook mais realista e compreensivo, no qual todos se sentirão à vontade para se vangloriar de haver dado uma volta no quarteirão e cortado as unhas.

Fazendo cerimônia

Posted: 8th dezembro 2015 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo

O Estado de São Paulo – Caderno 2
7 de dezembro de 2015

por Vanessa Barbara

Outro dia falei de expressões automáticas que fazem boa figura no âmbito do congraçamento social, mas que não têm nenhum sentido se você pensa bem nelas.

Um exemplo clássico acontece quando uma visita se apresenta à sua porta e, enquanto ela limpa os pés educadamente no capacho de entrada, você exclama:

– Entre, por favor. E não repare na bagunça.

Dizendo isso, você fatalmente chama a atenção para a montanha de meias sujas no chão, as fatias de pizza de anteontem largadas pelo sofá, o chorume escorrendo pelos ralos e aquele rato morto que você esqueceu de varrer do meio do caminho. Talvez, se não fosse isso, a pessoa nem notaria.

Em todo caso, lembrando-se das regras de etiqueta transmitidas oralmente de geração em geração, você afasta as toalhas úmidas e abre um lugar no sofá, dizendo:

– Fique à vontade. A casa é sua.

É outra frase inócua que não tem nem sombra de sentido literal, já que obviamente a casa não é da visita, nem se espera que ela fique exatamente à vontade – botar os pés na mesa de centro não é lá um gesto apropriado, bem como achar que está muito quente e decidir ficar só de cuecas.

Mas a sequência de gentilezas obrigatórias é como um churrasco de confraternização que não tem fim, e depois que o visitante se instala, você oferece um refrigerante, uma cerveja, um suco (ainda que não tenha nada disso na geladeira). Como falei anteriormente, está muito calor, e a visita, que também aprendeu boas maneiras com uma tia-avó, diz que só gostaria de uma “água gelada, por favor”.

Só que, neste caso hipotético, você mora na periferia de São Paulo, onde nunca tem água depois do meio-dia. Então simula um ar compungido e diz, imitando o governador:

– Água eu vou ficar te devendo.

“Vou ficar te devendo” é minha expressão favorita; da primeira vez que a ouvi, proferida por uma vendedora em face da ausência do sorvete de chocolate, julguei que poderia voltar outro dia para cobrar a dívida. Os juros seriam pagos em cobertura de granulado, imagino.

Mas voltemos à visita, que, para não fazer desfeita, resolve aceitar um pedaço da pizza de anteontem que você ofereceu só por educação. Você finge estar satisfeito em seu papel de anfitrião e pede:

– Por favor, pegue mais um pedaço! Não faça cerimônia.

Pode ser que posteriormente a pessoa tenha uma forte dor de estômago por conta do mofo felpudo sobre a cobertura de queijo, mas isso não importa. Basta saber que logo ela vai olhar para o relógio, comentar que está tarde e que “o papo está bom, mas preciso ir”.

É a senha de que mais uma visita protocolar foi concluída com sucesso e que você pode se despedir daquele parente – do qual você nunca gostou em particular – com as frases:

– Vamos marcar, hein? Abração. Tudo de bom.

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Le Figaro (France)
10 Nov 2015

Cette récompense, qui existe depuis près de quarante ans, a révélé, entre autres, Boualem Sansal en 1999 et Hédi Kaddour en 2005, les deux lauréats 2015 du Grand Prix du roman de l’Académie française.

Le jury du Prix du Premier roman a décerné sa récompense à Didier Castino pour son livre Après le silence (aux éditions Liana Levi).

Didier Castino l’a emporté face à Jean-Pierre Montal, Les Années Foch (Editions Pierre-Guillaume De Roux) et à Frédéric Viguier, Ressources inhumaines (Albin Michel).

Après le silence est le récit d’un fils qui se remémore la mort de son père lors d’un accident de travail dans une usine. À travers cette chronique, Didier Castino brosse le portrait de la France ouvrière des années 70, dit le poids de l’absence du père et s’interroge sur ses origines sociales. L’auteur est professeur de lettres à Marseille.

Dans la catégorie «premier roman étranger», le jury a souhaité distinguer deux auteurs: Vanessa Barbara, La Nuit de la laitue (Zulma) et Maja Haderlap, L’ange de l’oubli(Métaillié).

Le Prix du Premier roman existe depuis trente-huit ans. Il a couronné, entre autres, Boualem Sansal (en 1999) et Hédi Kaddour (en 2005), Grand Prix du roman de l’Académie française cette année ; mais aussi Dan Franck, Alexandre Jardin, Pascale Roze (Prix Goncourt), Christophe Bataille, Isabelle Jarry, Bruno Racine, Sophie Fontanel, Jean-François Kervean, Annick Geille…

Présidé par Joël Schmidt, le jury est composé de Jean Chalon, Georges-Olivier Châteaureynaud, Annick Geille, Jean-Pierre Tison, Jean-Claude Lamy, Michèle Gazier, Gérard de Cortanze, Christine Ferniot, Gérard Guillot, Mohammed Aïssaoui.

Encontrando um imóvel

Posted: 5th dezembro 2015 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
30 de novembro de 2015

por Vanessa Barbara

Então eu encontrei um lugar para morar, o que significa que em breve deixarei o glorioso bairro do Mandaqui e me instalarei em Santana, onde existe um castelo do século XIX e um museu da odontologia, e onde o padre Landell de Moura realizou a primeira transmissão de voz via rádio em 1899.

O bairro é considerado pelo Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Estado de São Paulo como uma zona de valor C, ao lado de Barra Funda, Jabaquara, Tatuapé e Santa Cecília, entre outros. Em 2008, foi considerado pelo Valor Econômico o reduto paulistano do moralismo, e foi com certa apreensão que me dei conta de que serei uma legítima “senhora de Santana”.

Só que encontrar um apartamento é apenas o primeiro passo de uma saga burocrática sem precedentes que até eu, notória admiradora de documentos em três vias e formulários coloridos, e cujo sonho de infância era ser secretária para poder grampear e arquivar papéis de diferentes gramaturas, julguei talvez ser demasiado excessiva.

Primeiro, a imobiliária pediu que o locatário apresentasse uma comprovação de renda de quatro vezes o valor do aluguel mais encargos. Supondo que o aluguel seja de 1.800 reais, mais 600 do condomínio e 140 de IPTU, o cidadão teria de ganhar 10.160 reais por mês.

Nem é preciso dizer que, sozinha, não ganho nem sombra disso. (Se o meu caso já é desesperador e trabalho para dois jornais de grande estirpe, fico pensando naquele sujeito que tem família e ganha um salário mínimo. Será mesmo que basta o pobre se esforçar para conseguir um lugar para morar?)

Na sequência veio o drama do fiador, que precisava possuir um imóvel na capital com área construída superior a 80 metros quadrados, valor venal de mais de 40 mil reais e adquirido há mais de um ano. A casa do nosso fiador tem 79 metros quadrados e quase hiperventilei ao descobrir esse detalhe.

Tive de reconhecer firma de quatro assinaturas em duas vias do contrato (66 reais), tirar uma certidão atualizada do imóvel do fiador (60 reais), enviar três holerites, declaração do imposto de renda, comprovante de endereço, capa do carnê de IPTU, o telefone do Ubiratan Brasil, três últimos recibos de pagamento de aluguel, e por pouco não pediram também meu boletim da quarta série. Mandei referências pessoais, profissionais e tive de checar três nomes no Serasa (105 reais).

Então a imobiliária insistiu que eu me casasse. Pediu reiteradamente uma certidão de casamento e tive de explicar para a corretora que meu estado civil não era da conta de ninguém.

Por fim, atentaram para uma cláusula que dizia ser “proibida a permanência de animais de qualquer porte ou espécie nas dependências do imóvel, mesmo que permitido pelo regulamento do condomínio”.

Felizmente, aceitaram inserir o parágrafo: “Excepcionalmente, fica autorizada a permanência de tartarugas.”

Aula de democracia

Posted: 5th dezembro 2015 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de S. Paulo – Caderno 2

23 de novembro de 2015

por Vanessa Barbara

No momento em que escrevo, já são mais de 70 escolas estaduais ocupadas por estudantes em protesto contra a reorganização imposta pelo governo de São Paulo, que promete fechar 93 escolas e instaurar o ciclo único em 754 unidades, forçando a transferência dos alunos.

Muitos reclamam que as condições já são precárias e que as salas de aula possuem de 40 a 55 estudantes, o que apenas iria piorar com o fechamento de escolas e o remanejamento (compulsório) de alunos para outras unidades, também superlotadas. Para piorar, o esquema foi imposto pela Secretaria da Educação, que não o discutiu antes com a comunidade e nem sequer tem sido receptiva às críticas dos estudantes.

Estive na semana passada em cinco dessas ocupações, em diferentes regiões. Em todas vi um grande cuidado com as instalações escolares. Há preocupação em dizer que o movimento é pacífico e não tem intuito de depredar o patrimônio, que ademais é dos próprios alunos. A ideia é justamente mantê-lo.

Na Escola Estadual Castro Alves, no Lauzane, zona norte, os alunos cuidaram de tirar fotos das condições já precárias do local para não serem depois acusados de vandalismo. Na E. E. Raul Fonseca, na Saúde, zona sul, há comissões de limpeza, alimentação e segurança. Lá o calendário de atividades é extenso: no sábado, estavam marcados um debate sobre legalização do aborto e um campeonato de futebol feminino, além de sessões de cinema, oficinas e aulas livres. Pais e professores se revezam no apoio.

Em muitos lugares, ouvi relatos de autoritarismo e arbitrariedade dos diretores. Numa escola da zona sul, a diretora chamou a Rota, a Ronda Escolar e mais cinco viaturas de polícia no meio de uma assembleia estudantil. Em outra unidade, o diretor arrancou os chuveiros e chamou a Ronda para intimidar os alunos dentro da própria escola. Há relatos de que esse mesmo diretor só conversa com os estudantes na presença de um policial de prontidão, com a mão na arma. “Estão nos tratando como bandidos”, disseram. Em outra escola, o diretor mandou a ficha dos estudantes da ocupação para a polícia. Alunos de 15 e 16 anos estão sendo acusados de desacato e invasão; os pais receberam telefonemas para ir à delegacia.

Na quinta-feira passada eu estava na E. E. Shinquichi Agari, no Itaim Paulista, quando o jornal Folha de S.Paulo noticiou que a gestão Alckmin teria suspendido o fechamento e reorganização de escolas em 2016. A informação irradiou no pátio feito caxumba e o presidente do grêmio, Wellington Dias, 17, interrompeu um show de rap para anunciá-la ao microfone. Todos se abraçaram e o professor de história Rodrigo Servilha caiu no choro. O vice-diretor, Sérgio Luis de Almeida, um dos poucos corajosos a apoiar o movimento, também se emocionou e disse que provavelmente perderia o emprego na segunda-feira, mas estava orgulhoso dos seus alunos.

Só que a notícia não era verdadeira: o secretário afirmou que não pretende recuar.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
16 de novembro de 2015

por Vanessa Barbara

A essa altura, todo mundo já sabe da campanha do coletivo Think Olga, que está reunindo relatos de mulheres que viveram sua primeira situação de assédio quando crianças. “Não vamos mais esconder nossas histórias. Quem tem que ter vergonha do #PrimeiroAssédio são os criminosos que nos violentaram”, disseram elas no Twitter.

Choveram relatos escabrosos de abusos. Muitas das mulheres relatavam esses episódios pela primeira vez, pois diziam sentir um misto de medo, culpa e vergonha, ainda que não tivessem sido nada além de vítimas. Algumas chegaram a duvidar de si mesmas, interpretando encoxadas no transporte público como se fossem cutucões de um guarda-chuva.

Meu primeiro assédio aconteceu quando eu tinha uns 10 ou 11 anos. Foi quando comecei a tomar ônibus sozinha para voltar da escola. Certo dia, sentei-me ao lado de um homem de meia-idade, que tirou o pênis para fora. E o deixou ali, exposto, tomando um ar fresco.

O trajeto da escola para a minha casa durava dez minutos. Passei esse tempo todo ao lado dele, duvidando de mim mesma – seria mesmo o que eu estava achando que era? Será que não se tratava de uma pochete excêntrica ou de uma pelanca abdominal de formato cilíndrico? (Naquela idade, meus conhecimentos sobre sexualidade não iam muito além do que lia na Capricho.)

Não levantei do banco até chegar ao meu ponto porque senti três coisas: medo, culpa e vergonha. Não sei de onde vem essa impressão de que temos qualquer responsabilidade quando um homem decide fazer uma coisa dessas. Ou melhor, sei muito bem: vem de uma sociedade que diz que as mulheres é que provocam. Provocam por andarem de roupa curta, provocam por saírem sozinhas, provocam porque “no fundo estão a fim”, provocam por serem mulheres (no caso, meninas). Só que nada pode justificar o abuso.

Outro exemplo: lá pelos 16 anos, num sábado, fui a pé da minha casa até a videolocadora. Já estava escurecendo. Um homem começou a me seguir e apertei o passo. Ele também andou mais rápido. Começou a fazer uns sons meio nojentos. Acelerei ainda mais e cheguei à videolocadora, um tanto aliviada. Ele entrou atrás.

Eu podia ter ligado para o meu pai ir me buscar, mas fiquei com vergonha. Achei que seria censurada por ter ido a pé, em vez de pegar um ônibus, como se fosse minha culpa que um tarado resolvesse me seguir fazendo sons nojentos. Decidi esperar que o homem saísse e tive que passar mais umas duas horas lá dentro. Depois corri para o ponto de ônibus.

Nunca me esqueci desses episódios. E achava que, se fosse hoje, reagiria de outra forma.

Mas não. Há duas semanas, uns caras dentro de uma Kombi ficaram me chamando de “pitéu” e “flor do deserto”, entre outras coisas, diante de um ponto de ônibus lotado. E eu me calei, pois senti medo, culpa e vergonha.

Escapando da realidade com a Globo brasileira (tradução)

Posted: 10th novembro 2015 by Vanessa Barbara in Traduções
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The International New York Times
11 de novembro de 2015

por Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

No ano passado, a The Economist publicou um artigo sobre a TV Globo, a maior emissora do Brasil. Dizia que “91 milhões de pessoas, pouco menos do que a metade da população, sintoniza no canal todos os dias: o tipo de audiência que nos Estados Unidos só é obtida uma vez por ano, e apenas pela emissora que ganhou os direitos de exibir o Super Bowl”.

Os números podem parecer exagerados, mas basta dar uma volta no quarteirão para passar a considerá-los até que conservadores. Por toda parte há uma televisão ligada, em geral na Globo, e todos a estão encarando de forma hipnótica.

Não é de se espantar que um estudo de 2011 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) afirme que o percentual de residências com um aparelho de televisão (96,9%) é maior do que o das pessoas com uma geladeira (95,8%), e que 64% possui mais de um aparelho em casa. Outros estudos revelaram que os brasileiros passam 4 horas e 31 minutos assistindo à televisão nos dias úteis e 4 horas e 14 minutos nos fins de semana; 73% assistem à televisão todos os dias e apenas 4% nunca o fazem. (Eu sou uma dessas.)

Nesse universo, a Globo é onipresente. Embora sua audiência tenha diminuído nas últimas décadas, o share da emissora ainda é de 34%. Sua principal rival, a Record, tem 15%.

Mas o que significa essa presença esmagadora? Num país onde a educação é deficitária (a Organização pela Cooperação e Desenvolvimento Econômico recentemente nos colocou em 60o. lugar entre 76 países na performance média em exames de aptidão escolar), quer dizer talvez que um único conjunto de valores e perspectivas sociais está sendo amplamente difundido. Além disso, sendo a maior empresa de mídia da América Latina, a Globo é capaz de exercer uma influência considerável na nossa política.

Um exemplo: dois anos atrás, em um tímido pedido de desculpas, a Globo confessou ter apoiado a ditadura militar no Brasil, ocorrida de 1964 e 1985. “À luz da História, contudo”, disse o editorial, “não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original.”

Com esses perigos em mente, e em nome do bom jornalismo, passei um dia inteiro assistindo à programação da Globo, em uma terça-feira recente, a fim de verificar o que eu podia aprender sobre as ideias e valores promovidos pela emissora.

A primeira coisa a que a maioria das pessoas assiste todas as manhãs é o jornal local, depois o nacional. A partir desses programas, pode-se inferir que não há nada mais importante na vida do que o clima e o trânsito. O fato de que nossa presidente, Dilma Rousseff, enfrenta um risco sério de impeachment e de que seu principal oponente político, Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, está sendo investigado por corrupção, esses fatos recebem menos tempo de tela do que os detalhes dos congestionamentos. Os boletins são atualizados pelo menos seis horas por dia, com os âncoras papeando amigavelmente sobre o calor ou a chuva, como se fossem tias solteironas na hora do chá.

Dos programas matutinos, entendi que o segredo da vida é ser famoso, rico, vagamente religioso e “do bem”. Todos os apresentadores e convidados gostavam uns dos outros e sorriam o tempo todo. Foram contadas histórias inspiradoras de pessoas com deficiência que tiveram força de vontade para ter sucesso em suas profissões. Especialistas e celebridades discutiam esses e outros tópicos com notável superficialidade.

Decidi pular os programas vespertinos – em sua maioria, reprises de novelas e de filmes de Hollywood – e fui direto para as notícias do horário nobre.

Dez anos atrás, um âncora da Globo, William Bonner, comparou o espectador médio do Jornal Nacional ao Homer Simpson – incapaz de entender notícias complexas. Pelo que pude ver, esse padrão ainda se aplica. Um segmento sobre a crise hídrica em São Paulo, por exemplo, foi ilustrado por uma repórter no zoológico, que disse ironicamente: “Olha a cara de preocupação do leão com a falta d’água”.

Assistir à Globo significa acostumar-se a clichês e fórmulas batidas; muitos dos roteiros de jornais incluem pequenos trocadilhos no final, ou inanidades de pessoas que estão passando. “Dunga disse que gosta de sorrir”, disse uma repórter sobre o técnico da seleção brasileira de futebol. Às vezes, poucos segundos são devotados a notícias perturbadoras como o fato de que o estado de São Paulo decretou um sigilo de 15 anos dos dados operacionais e técnicos da rede hídrica, ao passo que longos minutos são gastos em tópicos como “o salvamento de um homem que estava se afogando [e que] provocou admiração e surpresa numa cidade do interior paulista”.

O resto da noite foi preenchido por novelas, através das quais pode-se concluir que as mulheres sempre usam maquiagem pesada, brincos enormes, unhas bem feitas, saias apertadas, saltos altos e o cabelo liso. (Segundo esses critérios, eu não sou uma mulher.) As personagens femininas podem ser boas ou más, mas unanimemente magras. Elas brigam por causa de homens. Seus objetivos máximos na vida são usar um vestido de noiva, dar à luz um bebê loiro e/ou aparecer na televisão. Pessoas normais têm mordomos, enquanto encanadores sarados realmente visitam e seduzem donas de casa entediadas.

Duas das três novelas em exibição falam sobre favelas, com pouca semelhança com a realidade. Politicamente, tendem ao conservadorismo. A regra do jogo, por exemplo, conta com um personagem que, em um episódio, se apresenta como um advogado de direitos humanos a serviço da Anistia Internacional só para contrabandear para dentro da prisão os materiais necessários para fazer uma bomba. A ONG fez uma reclamação pública, acusando a Globo de contribuir para a criminalização do trabalho de defensores dos direitos humanos no Brasil.

A despeito do alto nível técnico de produção, as novelas são dolorosas de assistir, com suas vastas doses de preconceito, melodrama, diálogos rasos e clichês.

Mas elas têm o seu efeito. No fim do dia, me senti menos preocupada com a crise hídrica ou com a possibilidade de outro golpe militar – exatamente como o leão apático e as mulheres vazias das novelas.

 


Ps. O artigo original se referia erroneamente a 25 anos de sigilo nos dados operacionais e técnicos da rede hídrica.

Vanessa Barbara é cronista do jornal O Estado de São Paulo, editora do site literário A Hortaliça e colunista de opinião do INYT.

Este texto foi publicado em inglês no The International New York Times do dia 11 de novembro de 2015. Tradução da autora.

The International New York Times
November 11, 2015

by Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

SÃO PAULO, Brazil — Last year, The Economist published an article about TV Globo, Brazil’s largest broadcast network. It reported that “91 million people, just under half the population, tune in to it each day: The sort of audience that, in the United States, is to be had only once a year, and only for the one network that has won the rights that year to broadcast American football’s Super Bowl championship game.”

That figure might seem exaggerated, but all it takes is a walk around the block for it to look conservative. Everywhere I go there’s a television turned on, usually to Globo, and everybody is staring hypnotically at it.

Not surprisingly, a 2011 study supported by the Brazilian Institute of Geography and Statistics found the percentage of households with a television set in 2011 (96.9) was higher than the percentage of those with a refrigerator (95.8), and that 64 percent had more than one television set. Other researchers have found that Brazilians watch four hours and 31 minutes of TV per weekday, and four hours and 14 minutes on weekends; 73 percent watch TV every day and only 4 percent never regularly watch television. (I’m one of the latter.)

Among them, Globo is ubiquitous. Although its audience has been declining for decades, its share is still about 34 percent. Its nearest competitor, Record, has 15 percent.

So what does this all-pervading presence mean? In a country where education lags (the Organization for Economic Cooperation and Development recently ranked us 60th among 76 countries in average performance on international student achievement tests), it would imply that one set of values and social perspectives is very widely shared. Furthermore, being Latin America’s biggest media company, Globo can exert considerable influence on our politics.

One example: Two years ago, in a bland apology, Globo confessed to having supported Brazil’s military dictatorship between 1964 and 1985. “In the light of history, however,” it said, “there is no reason to not recognize explicitly today that this support was a mistake, and that other editorial decisions in the period that followed were also wrong.”

With these hazards in mind, and in the name of good journalism, I watched a whole day of Globo programming on a recent Tuesday, to see what I could learn about the values and the ideas it promotes.

The first thing most people watch each morning is the local news, then the national news. From those, one might infer that there is nothing more important in life than the weather and the traffic. The fact that our president, Dilma Rousseff, faces a serious risk of impeachment and that her main political opponent, Eduardo Cunha, the speaker of the lower house of Congress, is being investigated for embezzlement, get less airtime than the details of traffic jams. Those bulletins are updated at least six times a day, with the anchors chatting amicably, like old aunts at teatime, about the heat or the rain.

From the morning talk shows and other programs, I grasped that the secret of life is to be famous, rich, vaguely religious and “do bem” (those who stand on the side of good). Everybody on-air loved everyone else and smiled all the time. Wondrous tales were told of people with disabilities who had the willpower to succeed in their jobs. Specialists and celebrities discussed that and other topics with remarkable superficiality.

I decided to skip the afternoon programs — mostly reruns of soap operas and Hollywood movies — and go straight to the prime-time news.

Ten years ago, a Globo anchorman, William Bonner, compared the average viewer of the news program Jornal Nacional to Homer Simpson — incapable of understanding complex news. From what I saw, this standard still applies. A segment on a water shortage in São Paulo, for example, was highlighted by a reporter, standing at the local zoo, who said ironically: “You can see the worried look of the lion about the water crisis.”

Watching Globo means getting used to platitudes and tired formulas; many news scripts include little puns at the end, or an inanity from a bystander. “Dunga said he likes to smile,” one reporter said about the coach of Brazil’s national soccer team. Often, a few seconds are devoted to disturbing news like a revelation that São Paulo had kept operational data about the state’s water supply secret for 15 years, while full minutes are lavished on items like “the rescue of a drowning man that caused awe and surprise in a little town.”

The rest of the evening was filled with soap operas, from which you could learn that women always wear heavy makeup, huge earrings, polished nails, tight skirts, high heels and straight hair. (On those counts, I guess I’m not a woman.) Female characters are good or bad, but unanimously thin. They fight one another over men. Their ultimate purposes in life are to wear a wedding dress, give birth to a blond-haired baby or appear on television, or all of the above. Normal people have butlers in their homes, where hot male plumbers visit and seduce bored housewives.

Two of the three current soap operas talk about favelas, but with little resemblance to reality. Politically, they tend toward conservatism. “A Regra do Jogo,” for example, has a character who, in one episode, claims to be a human rights lawyer working with Amnesty International in order to smuggle bomb-making materials to imprisoned criminals. The advocacy organization publicly complained about that, accusing Globo of trying to defame human rights workers throughout Brazil.

Despite the high technical level of production, the novelas were painful to watch, with their thick doses of prejudice, melodrama, lame dialogue and clichés.

But they had their effect. At the end of the day, I felt less concerned about the water crisis or the possibility of another military coup — just like the apathetic lion and the empty women of the soap operas.