Não li e não gostei

Posted: 8th outubro 2013 by Vanessa Barbara in Blog da Cia. das Letras, Crônicas
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Blog da Companhia das Letras
7 de outubro de 2013

por Vanessa Barbara

Na coluna anterior, falei de Pierre Bayard e da importância de poder escolher suas leituras, protestando contra a obrigatoriedade imposta pelas escolas.

Diz o autor francês que “a leitura é antes de mais nada a não leitura e, mesmo para os grandes leitores que lhe dedicam a existência, o gesto de tomar e abrir um livro esconde sempre um gesto inverso e simultâneo que escapa à sua atenção: aquele, involuntário, de abandonar e de cerrar todos os livros que, em uma diferente organização do mundo,  poderiam ter sido escolhidos no lugar do feliz eleito”.

É por se tratar de escolhas que defendo a liberdade de poder ignorar certos títulos e antipatizar de antemão com alguns autores por motivos nada objetivos, praticando o mais feroz preconceito sem manifestar sombra de culpa.

Um exemplo: não gosto de ler autores brasileiros contemporâneos, a menos que algo da trama me chame a atenção, como aconteceu com Nada a dizer, de Elvira Vigna. Antes que me persigam neste blog com tochas e tridentes por desdenhar da nossa valorosa produção literária atual, explico: não gosto de ter conhecido pessoalmente os autores. Mais que isso, odeio ter conhecido pessoalmente o mau-caráter de muitos deles e me reservo o direito de não levar em conta a mera existência de tais elementos sobre a face da Terra, quanto menos de ler o que eles escrevem.

Como a minha lista de desafetos não é pequena, vivo orgulhosamente por fora da produção brasileira atual — e, de forma sintomática, quanto mais me afasto dela, mais aumenta o meu gosto pela literatura. Adoro poder ler o que me dá na telha, sobretudo autores há muito mortos pelos quais ninguém se interessa, com acentos diferenciais e preocupações arcaicas. Gosto de entrar em mundos nada parecidos com o meu, de não ter de me esforçar para gostar de alguém só por amizade ou interesse. Gosto de não ler aquilo que todos estão devorando na atualidade, esperando alguns anos antes de pegar carona numa obra — ou decidindo ignorá-la por completo porque não gostei da cor da capa.

É ótimo não ter que expressar opiniões profundas sobre as obras e a produção de um determinado autor que esteja na moda (David Foster Wallace consta dessa lista, bem como J.M. Coetzee). Acho graça na pretensão existencialista dos escritores, sempre ansiosos por demonstrar erudição e conhecimento clássico como se um dia fossem prestar contas no Juízo Final da Literatura.

Costumo arremessar um livro longe quando algo me cansa ou um detalhe me irrita — em Os enamoramentos, de Javier Marías, fiquei nervosa com o fato de ninguém ter levado em conta o mendigo. Em A trama do casamento, achei a protagonista criada por Eugenides uma tonta, que só podia ser fruto de uma mente masculina. Gosto de abandonar um livro no começo, bem como aprecio as vezes em que insisto e acabo me afeiçoando à trama. Adoro criticar personagens como se fossem meus vizinhos e defender Charles Bovary como o faria com um tio distante.

Gosto de poder ler A trilogia de Nova York e não entender absolutamente nada. Da mesma forma, gosto de poder apreciar certas unanimidades, de eleger os meus preferidos e de não pertencer a uma patota que pré-aprove as minhas opiniões, fugindo como da peste dessa cansativa mentalidade de horda que aclama ou desautoriza autores, e que é praticada pela maioria dos nossos valorosos luminares da literatura brasileira contemporânea.

Bom mesmo é poder agir como um personagem de Graciliano Ramos, que, quando lhe perguntam: “Fulano é bom escritor?”, responde sempre:

“É uma besta.”

Qualquer trocadilho serve

Posted: 4th outubro 2013 by Vanessa Barbara in Sem categoria

Have a nice day, N.S.A.

Posted: 1st outubro 2013 by Vanessa Barbara in New York Times, Reportagens
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The New York Times
September 26th, 2013

By Vanessa Barbara

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Christian Northeast

AT the opening of the United Nations General Assembly on Tuesday, Dilma Rousseff, the president of my country, Brazil, delivered a scolding speech in response to reports that the National Security Agency has monitored electronic communications of Brazilian citizens, members of government and private corporations. Like a displeased school principal, Ms. Rousseff seemed to speak directly to President Obama, who was waiting in the wings to deliver his own speech.

She called the surveillance program “a breach of international law” and “a situation of grave violation of human rights and of civil liberties; of invasion and capture of confidential information concerning corporate activities; and especially of disrespect to national sovereignty.” She seemed personally offended when she demanded “explanations, apologies and guarantees that such procedures will never be repeated.” Last week, she called off a planned visit to the United States, after she learned that the N.S.A. had gained access to her own e-mails, telephone calls and text messages.

All in all, it was a nice example of what Brazilians call “Dilma Bolada,” or “Furious Dilma.” (A Rio de Janeiro publicist has even created a fake Twitter profile under that name, to make fun of our president’s famous short temper.)

Her strong response was likely more a symbolic position than a political act with practical outcomes, and some interpreted it as nothing more than a way of boosting her popularity for the presidential election next year. But it was well received in Brazil, where for the last four months people have been closely following the news about the secret documents on the spying program leaked by Edward J. Snowden.

The Brazilian newspaper O Globo first reported on the surveillance of Brazilian citizens in July. The series of articles, based on documents provided by Mr. Snowden to Glenn Greenwald, an American journalist living in Rio, detailed how the agency had established a data collection center in Brasília, systematically tapped into the local telecommunication network and intercepted the e-mail and telephone records of millions of citizens. Inside its own country, the N.S.A. needs a warrant to wiretap citizens. But not abroad. According to one document, Brazil is included in a group of key countries being closely monitored by the N.S.A. under the rubric “Friends, Enemies, or Problems?”

Like most Brazilians, I was annoyed to learn that the American government might have been gathering data from my computer and phone calls. But on the bright side, I am hoping that it has kept a backup of my files, since a few months ago I realized that I could no longer find an important video anywhere in my computer. (Mr. Obama, if you’re reading this, please send me the file “summer2012.wmv” as soon as you can.)

The United States has suggested that its interception of data also aims to protect other nations against terrorism. But Ms. Rousseff had an answer for that, too: “Brazil, Mr. President, knows how to protect itself.”

The country’s strategy on that matter does not limit itself to diplomatic grumpiness. Ms. Rousseff has also proposed establishing “a civilian multilateral framework for the governance and use of the Internet.” It would ensure “freedom of expression, security and respect for human rights” by protecting personal information online.

But for now, we citizens have our own plan. It has become something of a joke among my friends in Brazil to, whenever you write a personal e-mail, include a few polite lines addressed to the agents of the N.S.A., wishing them a good day or a Happy Thanksgiving. Sometimes I’ll add a few extra explanations and footnotes about the contents of the message, summarizing it and clarifying some of the Portuguese words that could be difficult to translate.

Other people have gone so far as to send nonsensical e-mails just to confuse N.S.A. agents. For example: first use some key words to attract their surveillance filters, like “chemical brothers,” “chocolate bombs” or “stop holding my heart hostage, my emotions are like a blasting of fundamentalist explosion” (one of my personal favorites, inspired by an onlinesentence-generator designed to confound the N.S.A.).

Then write indiscriminately to friends and acquaintances about serious stuff like: how Doc Brown stole plutonium from Libyan nationalists, or why poor Godzilla had to attack the City of New York. It is recommended to act as crazy as possible, in order to raise questions about your secret intentions.

I call this tactic “vaca louca.” (The term comes from mad cow disease, though it could also refer to a Brazilian song called “Levada louca” (“crazy rhythm”) by Ivete Sangalo, which most of us originally misheard as “A vaca louca” — but I’m digressing here.)

All this is to say that I found the news earlier this month about the actions of a group of Brazilian hackers perfectly appropriate. In an attempt to protest the N.S.A.’s surveillance programs, they accidentally attacked NASA’s Web site.

It’s all part of our Mad Cow Retaliation Plan.

 


Vanessa Barbara, a novelist, edits the literary Web site A Hortaliça and is a columnist for the Brazilian newspaper Folha de São Paulo.

Link para a reportagem: http://www.nytimes.com/2013/09/27/opinion/have-a-nice-day-nsa.html

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Decifrando itinerários

Posted: 28th setembro 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Revista
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Folha de S.Paulo – revista sãopaulo
28 de setembro de 2013

por Vanessa Barbara

Na coluna anterior, desvendei a precisão matemática por trás da numeração dos ônibus paulistanos. Agora pretendo abordar a lógica dos itinerários.

A meu ver, tudo foi decidido numa reunião de cúpula da antiga CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos), quando alguns engenheiros de tráfego tomaram absinto e passaram a visualizar figuras míticas no mapa da cidade.

Foi assim que surgiu o traçado da linha 177-H, que se assemelha a um dragão celta com pata de bode e cabeça de girafa. O coletivo vai do bairro de Santana ao Butantã passando, vejam só, pela Casa Verde, em 2 horas e 10 minutos de pura emoção (a certa altura você tem a nítida impressão de estar andando em círculos e reprime o desejo de jogar pela janela uma trilha de grãos de milho só para se certificar).

No traçado do 8528 (Jardim Guarani/Praça do Correio), a inspiração foi um ofídio mitológico que solta fogo pelas ventas. Já o 477-P (Ipiranga/Rio Pequeno) é uma píton sinuosa que costura a região sul de uma ponta a outra – mas não em linha reta. Há uma volta no Sacomã que desafia a geometria euclidiana.

Sem dúvida, o responsável pelo itinerário do 172-T tentou redigir uma mensagem de socorro que poderia ser lida do espaço, sobretudo quando o ônibus descreve uma parábola no Brás e desenha uma letra ômega na região da Vila Guilherme – então gira em torno de si mesmo, faz um balão brusco e sai a 800 metros de onde estava 15 minutos antes.

A linha 828-P (Lapa/Barra Funda) prova que a menor distância entre dois pontos é um hipogrifo dando cambalhota; imaginativo, o ônibus leva 80 minutos para chegar num ponto bem próximo da partida.

Para entender o caminho de um coletivo, às vezes basta ser versado em astronomia: o 117Y-10 (Pinheiros/Cohab Antártica) é uma homenagem à constelação de Ophiucus, uma das mais confusas do planisfério celeste. A linha vai da rua Sumidouro até o parque da Cantareira, passando pelo terminal Barra Funda.

Por pouco não faz escala na Casa Verde, esse vórtice místico que atrai todos os coletivos.

Minha sugestão é lançar um álbum de figurinhas com o itinerário das linhas paulistanas, como se fossem circuitos de Fórmula 1: minha coleção conteria o 875-A (Aeroporto/Perdizes), que é um número 3 enorme com um rabo de porco; o 702-C (Jardim Bonfiglioli/Belém), um gigante corcunda tropeçando no próprio pé; e o 178-T (Santana/Ceasa), aparentemente conduzido por um bêbado.

Fato é que nem drogas pesadas podem explicar o trajeto alucinógeno do 312-N (Cidade Tiradentes/São Miguel Paulista), um ziguezague de eletrocardiograma com claros indícios de taquicardia.

Clipping: VB narra a perda em novo romance

Posted: 28th setembro 2013 by Vanessa Barbara in Clipping
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Folha de S.Paulo
28 de setembro de 2013

por Raquel Cozer

Fragmentos de conversas ao telefone, festas e brigas entreouvidos no bairro do Mandaqui, na zona norte de São Paulo, ajudaram Vanessa Barbara, 31, a pensar a estrutura do romance “Noites de Alface”, que chega nos próximos dias pela Alfaguara.

É por meio de pistas esparsas sobre os vizinhos, entre constatações indiscutíveis e hipóteses fantasiosas, que Otto, recluso após a morte da mulher com quem foi casado por 50 anos, acompanha a rotina da cidadela onde mora.

“Não é bem bisbilhotar, porque as coisas chegam a você mesmo que não queira”, diz a escritora e colunista da Folha, referindo-se às paredes finas do Mandaqui, mas também ao exercício de investigação passiva do viúvo Otto.

  Alexandre Rezende/Folhapress  
Vanessa Barbara no bairro paulistano do Mandaqui, onde ela mora
Vanessa Barbara no bairro paulistano do Mandaqui, onde ela mora


Com tais pistas, o que se pretendia apenas um romance sobre a perda ganhou contornos de uma história de suspense –a certa altura, Otto começa a desconfiar de que sua mulher, Ada, e os vizinhos esconderam algo dele.

Vanessa tem quatro livros publicados, três deles em parcerias –o romance “O Verão do Chibo” (Alfaguara), com Emilio Fraia, o infantil “Endrigo, o Escavador de Umbigo” (34), com Andrés Sandoval, e a HQ “A Máquina de Goldberg” (Quadrinhos na Cia.), com Fido Nesti.

“Noites de Alface” é o primeiro romance solo, que lhe tomou dois anos de trabalho e cuja abertura lhe rendeu um lugar entre os 20 nomes de “Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros” da revista literária “Granta” (Alfaguara).

O título inusitado é uma referência a uma experiência frustrada de Ada, pouco antes de morrer: preparar chá de alface para o marido para ver se lhe curava a insônia.

INTERAÇÕES

Os moradores com quem Otto interage (ou a quem escuta) têm inspiração na vizinhança de Vanessa. É o caso, no livro, do sr. Taniguchi, que passou 30 anos lutando nas Filipinas depois de 1945 sem acreditar no fim da guerra.

O personagem, ela diz, foi “vagamente inspirado” em um antigo vizinho, que saiu de Hiroshima poucas semanas antes da bomba, e um ex-combatente real, Hiroo Onoda, que escreveu um livro sobre sua “guerra de 30 anos”.

O humor que prevalece nos textos da autora desde a estreia, com a reportagem “O Livro Amarelo do Terminal” (Cosac Naify, 2008), também está no romance, em personagens como Nico, entregador de farmácia obcecado por decorar os efeitos colaterais em bulas de remédio.

“Uma das piores coisas em literatura, e acho que em outras áreas também, é o hábito de se levar muito a sério, de se considerar muito sábio e profundo. Nossa literatura é muitas vezes prepotente demais e se valeria de maior leveza”, argumenta Vanessa.

Para ela, o humor deve ser inerente à postura das pessoas diante do mundo. “Costumo enxergar tudo por uma espécie de erro de paralaxe, achando graça no aleatório e deixando passar o que se considera ‘importante'”, diz.

NOITES DE ALFACE
AUTORA Vanessa Barbara
EDITORA Alfaguara
QUANTO R$ 34,90 (168 págs.)

Decifrando letreiros

Posted: 15th setembro 2013 by Vanessa Barbara in Folha de S. Paulo, Revista
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Folha de S.Paulo – revista são Paulo
15 de setembro de 2013

por Vanessa Barbara

Quase ninguém sabe qual a lógica por trás da numeração dos ônibus de São Paulo, criada em 1978 na gestão Olavo Setúbal. Chegou a hora de descobrir.

As linhas com três números e uma letra pertencem ao sistema diametral, que liga pontos de áreas distantes.

No caso do 875-M 10- Aeroporto/Metrô Barra Funda, o primeiro e último dígitos (8 e 5) indicam a região de origem e destino do ônibus conforme a divisão antiga de áreas da cidade. O dígito do meio (7) informa a classe da linha; no caso, que ela tem integração com uma estação de metrô.

O algarismo central também pode variar de 0 a 6, dependendo do quão perto do centro chega o coletivo, sendo 0 o centro. Alguns exemplos: 107-T – Tucuruvi/Cidade Universitária vai da região 1 a 7 passando pelo centro, ao passo que 352-A – Terminal São Mateus/Jardim Helena trafega entre bairros, ligando as áreas 3 e 2.

A letra é um diferencial que, no exemplo acima, significa Miruna, avenida por onde passa essa linha, em contraponto ao 875-A, de Aratãs.

Na Zona Norte, temos a distinção entre 971-C, 971-D, 971-M, 971-P e 971-R, linhas que unem as regiões 9 a 1 passando pelo metrô, e cujas letras significam: Cohab, Damasceno, Mandaqui, Penteado e Jardim Rincão.

Já os ônibus de quatro dígitos pertencem ao sistema radial, composto por linhas que saem do bairro em direção ao centro (5119 – Terminal Capelinha/Largo São Francisco), ou setorial, com veículos que circulam apenas dentro dos bairros (1775 – Vila Albertina/Center Norte).

Nestes, o primeiro algarismo indica a principal via utilizada pelo ônibus (5 é a avenida Brigadeiro Luís Antonio, 6 é a Nove de Julho, por exemplo). O segundo dígito se refere à classe: se é 0, o trajeto inicia e termina na mesma área (6000 – Terminal Santo Amaro/Terminal Parelheiros), e se o valor está entre 1 e 6 é porque vai até o centro (9500 – Terminal Cachoeirinha/Paissandu).

Em todo caso, quando o segundo dígito for 7 é porque o coletivo passa perto do metrô.

E não é só isso: algumas linhas possuem um código extra, como 1744-10 – Lauzane Paulista/Santana. Nesse caso, o número 10 indica que se trata da linha principal e há uma variante circulando na área; no caso, o 1744-31, uma derivação que passa por outras ruas.

Na prática, depois de mais de três décadas, com a mudança de divisões das áreas na cidade e a criação de novas linhas que não seguem a nomenclatura original, não há nenhuma congruência na numeração dos coletivos de São Paulo.

Como disse um amigo gaúcho, “só pelos números já se vê que o sistema é uma bruxaria”.

O que o autor quis dizer

Posted: 9th setembro 2013 by Vanessa Barbara in Blog da Cia. das Letras, Crônicas
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Blog da Companhia das Letras
9 de setembro de 2013

por Vanessa Barbara

http://www.dreamstime.com/stock-image-teenage-boy-sleeping-book-covering-his-face-image23322671

Não há dúvida de que o conceito de leitura obrigatória é um dos grandes males da sociedade contemporânea, perdendo apenas para a violência, o totalitarismo, a ganância e as sobremesas com café — pois que se propõem a se passar por chocolate quando estão longe disso. É desonesto.

Sobretudo na época escolar, quando nos obrigam a ler Senhora, de José de Alencar, ou Primo Basílio, de Eça de Queirós, ou Eurico, o Presbítero (que eu chamava de Eurico, o Burrico), a compulsoriedade da leitura geralmente tem como efeito o ódio extremo a essas obras, sobretudo as mais clássicas, ainda que sejam boas ou contenham elementos interessantes para aquela faixa etária.

O problema é sempre a obrigação: se no ensino fundamental me mandassem ler O Gênio do Crime ou qualquer coisa do Pedro Bandeira, só o fato de consistir num dever já tiraria a graça da atividade. E geraria todo tipo de revolta não só ao título em questão, mas à leitura em geral.

Sempre gostei de ler e me esforçava para tirar alguma coisa de útil das tarefas que me impunham, mas ficava frustrada por arruinarem uma atividade que devia ser tranquila e saltitante. Por isso encarava os trabalhos de leitura como obrigações que se deviam cumprir sem demora, a fim de poder me dedicar às coisas que realmente importavam: ler livros da minha escolha quando eu quisesse, se eu quisesse e por nenhum motivo senão a curiosidade. Ou uma capa bonita. Ou uma fonte com serifas especialmente sedutoras. Ou porque alguém disse que tinha um personagem que morria de tanto beber água.

A consequente profissionalização e setorização das tarefas escolares para maior eficiência coletiva segundo os interesses de cada membro da turma foi uma decorrência natural dessa obtusa lógica didática, e ocorreu muito cedo, quando passamos a repartir entre os colegas os trabalhos em grupo com vistas a maximizar o aproveitamento do nosso tempo livre — que podia ser gasto na internet, no vôlei, na socialização generalizada ou na leitura de títulos proibidos pelo conselho docente.

Desde o ensino médio, fiquei responsável pelos trabalhos de pesquisa do grupo, enquanto uma amiga cuidava das tarefas matemáticas e outra redigia resumos burocráticos das matérias da semana. Havia ainda uma especialista em fazer relatórios das experiências em laboratório e outra que resolvia fórmulas de física.

Lembro também de quando um professor de filosofia nos mandou ler O mundo de Sofia e fazer um resumo dos capítulos. No máximo cinco pessoas da classe de fato leram o livro, três delas pulando as páginas e sublinhando aleatoriamente trechos que lhe pareciam relevantes. Uma delas pediu para a irmã executar a tarefa, em troca de favores domésticos. A grande maioria copiou resenhas da internet, trocando os verbos e a ordem das frases. Alguns se tornaram especialistas em simulação intelectual, embromação estilística e de fato aprenderam lições importantes de como sobreviver neste mundo. Só eu e a Alessandra lemos o livro inteiro, e devo confessar que fui eu que redigi sete dos trinta trabalhos individuais da minha classe, cobrando caro para tanto. Tirei dez em quase todos, inclusive no meu, que foi o mais caprichado. Minha popularidade aumentou de forma notável. A Alessandra também aceitou encomendas, acho, mas não se dedicou com tanto afinco à empreitada.

Gostei bastante do livro, mas não importa. O fato é que, como disse Pierre Bayard, autor de Como falar de livros que não lemos, “é justamente essa obrigação de ter que ler que nos impede de chegar aos livros. Sacralizamos tanto os livros, o fato de ler e ter que guardar todas as informações e detalhes dos textos, que acabamos morrendo de medo das palavras e, então […] não lemos. Prefiro evitar todo tipo de ‘dever’ ou ‘obrigação’ sobre esse assunto. A leitura é um ato de liberdade. Não há como impor regras a ela”.

Na obra, Bayard ensina algo que minha mãe aprendeu desde cedo: como burlar a obrigatoriedade da leitura sem perder muito tempo lendo livros que não nos interessam — o oposto do meu método nerd de realmente fazer tudo o que os outros mandam. A técnica tem grandes méritos próprios: exige criatividade, intuição e esforço de síntese. Meu irmão também era bom nisso e adivinhava com maestria o que o professor gostaria de ler na prova; quanto a mim, jamais consegui atingir verdadeira excelência no método, que realmente requer treino constante e habilidade acima da média.

Na Flip de 2008, Bayard inclusive sugeriu o uso de técnicas de leitura que as escolas não ensinam e que professores e críticos literários cansam de usar para poupar tempo com livros que merecem apenas ser folheados. “O crescimento da exigência da leitura tem feito mais vítimas que grandes leitores”, explica.

Muitos podem argumentar que ter disciplina é importante, que a vida é dura e devemos aprender desde cedo a fazer coisas de que não gostamos, já que, no futuro, teremos muitas vezes que nos submeter a elas. Mas parte da graça de ser adulto é ter escolhas, poder partir para um novo emprego ou uma profissão diferente — ou, no mínimo, trabalhar para que no futuro isso seja possível. Outra habilidade essencial para um adulto é saber identificar prioridades e dispensar as coisas que não são relevantes, sendo, portanto, seletivo.

Poder escolher suas leituras é essencial. Mesmo que os professores julguem saber quais livros são apropriados para os alunos, nunca devem limitar as opções. O fato de haver na minha escola uma “lista negra” com livros proibidos para a minha faixa etária (romances policiais sanguinolentos, livros com cenas picantes e coisas para as quais ainda “não estávamos prontos”) apenas aumentou minha vontade de lê-los, ao passo que a existência de uma lista obrigatória acabou relegando os títulos recomendados a uma categoria enfadonha e nada atrativa.

Bayard é defensor da descoberta pessoal de títulos, sem quaisquer restrições e imposição de critérios. “Nos Estados Unidos, ao contrário da França, as bibliotecas permitem que o usuário circule entre os livros, levando-o a títulos que não pretendia tomar emprestado. A curiosidade ainda é o melhor incentivo que um leitor pode ter”, afirmou.

O livro de Bayard, por exemplo, eu não li. Por nenhum motivo em especial. Contudo, depois de conferir algumas resenhas, acabo de ceder à vontade — contanto que não me peçam para resenhá-lo.

(Se me proibirem de lê-lo, aí é que o título sobe direto para o topo da lista de prioridades.)

Comunicado

Posted: 4th setembro 2013 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários

Anfíbios fazem

Posted: 2nd setembro 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Revista

Folha de S.Paulo – revista da Folha
1 de setembro de 2013

por Vanessa Barbara

Quando eu era pequena, não entendia por que o governo mandava todo mundo usar camisinha. Apareciam uns artistas na tevê repetindo a recomendação federal muito sérios, como se fosse uma questão de vida ou morte, e nunca explicavam ao certo o que havia de errado com o restante do guarda-roupa. E mais: qual o tamanho máximo do referido item da indumentária, em proporção ao torso do indivíduo? Qual a diferença entre camisinha, camiseta e camisola?

Eu realmente imaginava cidadãos em trajes muito apertados, cumprindo seus deveres cívicos, e olhava desconfiada para os que andavam por aí com roupas folgadas.

Um pouco mais tarde, encontrei umas edições velhas da revista Capricho e fui me instruir. Àquela altura, as crianças da rua já circulavam informações mais precisas sobre a origem dos bebês (sem repolhos ou cegonhas nessa equação), mas pairava uma certa dúvida sobre o verdadeiro significado de sexo oral: seria só ficar falando sacanagem ao telefone? Teria algo a ver com dentistas?

Na mesma época, havia um programa de televisão chamado “Cocktail”, que passava altas horas da noite e só uma das meninas da nossa turma conseguia assistir.

Ela vinha contar como rebolavam as mulheres seminuas, e nós lhe fazíamos perguntas objetivas sobre a circunferência e o formato dos glúteos – tínhamos um fascínio curioso por essa parte da anatomia tão redonda e sofrida.

Sempre que alguém fazia uma piada obscura, de interpretação duvidosa, a melhor política era dar risada e nunca admitir que não entendeu – depois vinha o silêncio e todos podiam pensar no possível teor do duplo sentido que, na verdade, ninguém captou. Em geral, nem quem contou a piada.

Muitos de nós ainda achavam que era possível engravidar sentando num banco de ônibus recém-ocupado por um desconhecido, outros pensavam que gays namoravam lésbicas e que coito interrompido era quando você estava aos beijos e alguém abria a porta.

Lembro também da história de um menino que foi dissecar um sapo na aula de ciências e, depois da aula, contou à mãe como foi a experiência. Esta, julgando estar diante de uma boa oportunidade de ensiná-lo sobre os órgãos reprodutores, empreendeu uma longa e truncada explicação de como os sapos se reproduziam e de onde vinham os girinos, julgando mandar bem na metáfora.

Por muito tempo, ele achou que as relações sexuais envolviam necessariamente um bom par de sapos. (A logística ainda era fonte de especulação, mas que aquilo tinha a ver com anfíbios – isso era certeza.)

O nome da rede

Posted: 18th agosto 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Revista
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Folha de S.Paulo – revista sãopaulo
18 de agosto de 2013

por Vanessa Barbara

No início de agosto, a prefeitura inaugurou um ponto de wi-fi gratuito na praça Dom José Gaspar. A rede, chamada Wifi_livre, oferece uma conexão de internet de 512 kbps e faz parte do projeto Praças Digitais, a ser implementado em 120 espaços públicos até o fim de outubro.

É uma boa notícia para os sem-sinal, aquela parcela da população que vaga pelas ruas procurando uma rede desprotegida para filar; são munícipes que não podem pagar um plano de 3G e dependem da bondade de estranhos para acessar a internet do smartphone – ou da ingenuidade de quem escolhe “admin” como senha de segurança. 

A prática de sair por aí detectando sinais de rede em uma área tem nome: wardriving, variação do método popularizado nos anos 80 que consistia em discar números aleatórios de telefone até encontrar um modem (wardialing). Acessar redes sem autorização é eticamente questionável e se chama piggybacking (termo para pegar carona nos ombros de alguém).

Eu, de minha parte, pratiquei warwalking só por diversão. Fico imaginando o momento em que a pessoa batizou o sinal e, emocionado, lançou-o para o universo.

Minha rede preferida era a RickyMartinForever, fornecida pelo morador anônimo de um prédio em Santa Cecília e acessada pelos pacientes da clínica de fisioterapia que eu costumava frequentar.

Em Campos Elísios há redes com o nome “cutícula”, “maritaca voadora” e “avante zóião”. Em Diadema, o dono da “Patópolis” é vizinho à “Casa do Bozo”. O largo do Arouche abriga as redes “podre” e “Rodolfo o GATO”.

Criativos são os residentes da Consolação: lá se encontram as redes “Not in Kansas anymore”, “sou maravilhoso”, “it’s Britney bitch”, “Playboy Mansion”, “etdamaopreta”, “nenê careca”, “tigre cintilante” e “jesus rodrigo”. No Centro, a ótima “homelete”.

Há cinco categorias de nomes: os de família (“Família Pessoa”), os de logradouros (“apto64”), os de pessoa física ou jurídica (“Casa do Croquete”, “Silas”), os de máquinas (dlink, linksys, HP568 Desk) e os hostis (“Vai conectar na mãe”, “Querusar?Paga!”, “Conexão com Satanás” e “Vcnaotemmaisoquefazer”).

Na rua Dr. Vila Nova, temos “Datavenia”, “Árvore”, “Comuna” e “Comuna-1871”. Na Major Sertório, “Capivara Hermafrodita”, “Batcaverna” e “Raskonikov Uai Fai”.

A av. 9 de Julho conta com a curiosa “Release the Bacon”, e, na Turiassu, o depressivo: “foreveralone”. Há um “Balzac” e um “Casanova”, além de um “Batata” e um “Tadeuzão”. Na rua das Palmeiras, o wi-fi do “mindigo”.

Em Santana, o “Balneário 1” e o “Balneário 2”, além do misterioso “Oi querida procurando…”, cujo final não pude distinguir, mas deve ser impublicável.