É gente pra caramba

Posted: 7th julho 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas, Revista
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Folha de S.Paulo – revista sãopaulo
7 de julho de 2013

por Vanessa Barbara

“Sábado” me representa.

O filme de 1995, dirigido por Ugo Giorgetti, é até hoje um dos melhores retratos da diversidade paulistana, sobretudo em momentos de curiosidade e de grandes provações.

No longa, uma agência de publicidade vai ao Edifício das Américas, no Centro, para gravar um comercial de perfume. Um dos elevadores quebra, e a multidão começa a se aglomerar no saguão. Alguns dão palpite nas filmagens, outros aplaudem fervorosamente; surgem um vendedor de raspadinha e um homem-placa com os dizeres: “Compro ouro”.

Um grupo se ajoelha para pedir ao Todo-Poderoso que dê um jeito no elevador “para que as pessoas subam para os seus desígnios na casa do Senhor”. O pregador brada: “É a quinta vez que este elevador nos coloca à prova”.

Há um casal de sem-teto, um punk, uma quiromante, uma grã-fina com um cachorrinho, um zelador bêbado e um pessoal tocando baião.

Presa no elevador, uma publicitária de classe média se vê obrigada a dividir o espaço com um mano pançudo de gorrinho, dois funcionários do IML (Instituto Médico Legal) e um cadáver, singelamente chamado de “podrão”.

Enquanto isso, na casa de máquinas, dois “técnicos” (o Zecão e o Bahia) tentam consertar o mecanismo, ligando aleatoriamente o 8D no N19. “Cuidado que é força trísica”, dizem.

Quando o problema elétrico se resolve, os populares aplaudem e alguém comenta: “O que não é a instrução, hein?”.

Em certo momento do filme, um dos papa-defuntos observa, referindo-se à publicitária: “Quando é que ela ia se dirigir para a gente na rua? Mas viu como é que é a vida? De repente ela colocou a gente aqui junto”.

Foi essa buliçosa mistura que testemunhei na Virada Cultural e nas manifestações que tomaram a cidade nas últimas semanas. São Paulo como um gigantesco elevador pifado, em que uns reclamam que queriam estar no terraço “comendo umas carne”, e outros já se habituaram a ficar de pé ao lado do podrão.

Na Virada Cultural, vi senhores de sobretudo esperando um concerto de jazz enquanto assistiam ao final do show do rapper Rappin’ Hood.

Havia ambulantes oferecendo drinques na bandeja como se estivessem numa festa chique; outros cobravam R$ 10 pela dose de uísque ou faziam churrasco num fogareiro. O “tio do guarda-chuva” e o comerciante autônomo de bebidas são os microempreendedores mais presentes nos congraçamentos populares.

Durante os protestos, vi um menino com o cartaz “vendo Palio 98” e algumas patricinhas parando no meio da passeata para tirar fotos de si mesmas fazendo biquinho.

Entoado por milhares de concidadãos, o melhor grito de guerra –em adaptação livre para omitir o palavrão — não rimava e nem tinha propósito: “O povo/ Unido/ É gente pra caramba”.

Folha de S.Paulo – Folha Online
Festa Literária Internacional de Paraty – Flip 2013
6 de julho de 2013

por Vanessa Barbara

“A experiência brasileira nessas últimas três semanas representa um momento extraordinário na política mundial, marcada por crises de representatividade democrática”, afirmou o historiador britânico T. J. Clark nesta noite de sábado (6), na Flip.

Numa mesa marcada por ânimos marxistas, três pensadores de esquerda se reuniram para discutir as aspirações e características dos protestos que tomaram o Brasil nas últimas semanas: além de Clark, estavam presentes o filósofo e colunista da Folha Vladimir Safatle e o psicanalista Tales Ab’Saber. O debate, que teve mediação do jornalista Mario Sergio Conti, ex-diretor da revista Veja e apresentador do Roda Viva, começou com 25 minutos de atraso (o que estranhamente não gerou protestos) e foi marcado pela confluência de opiniões entre os participantes e a plateia.

Autor de Uma esquerda sem futuro (ed. 34), T. J. Clark começou citando o poeta caribenho Derek Walcott, que, no poema “A Sea Change”, fala sobre a inquietação política e a “raiva sombria e agregadora de um eleitorado ferido, cansado das imagens de outdoors”. Ele interpretou as manifestações no Brasil como um repúdio ao que chamou de “igrejas do futebol”, catedrais esportivas cada vez maiores e mais caras que o governo impõe ao povo. Ao longo da história, palácios, estátuas e pirâmides – e agora, estádios – foram utilizados para subjugar as massas.

“A força das imagens é uma decorrência da falta de força do povo nas outras esferas”, afirmou. “É possível resistir a essa colonização? Espero que sim. Acho que sim”, disse Clark, que, a certa altura, chegou a sugerir que os brasileiros fossem às ruas protestar contra a realização da Copa do Mundo.

O britânico ressaltou que, nos protestos atuais, existe uma tentativa de elevar os cartazes feitos à mão como legítimas imagens do povo, numa transferência simbólica de poder.

Ele encara o movimento como algo positivo, mas perigoso, na medida em que deu voz a fantasias antipartidárias.

IMAGEM ERÓTICA DO HOMEM LULA

Autor de A esquerda que não ousa dizer seu nome (Publifolha), Vladimir Safatle comemorou a volta da política às ruas. “Os últimos vinte anos foram um hiato na participação popular brasileira, período de exceção em que a política foi relegada aos bastidores. Mas a onda de protestos recolocou na pauta as demandas das ruas, abrindo novos eixos de conflito e embates democráticos”, afirmou. A insatisfação atual, para Safatle, decorre de uma crise de representação, do esgotamento das possibilidades da democracia parlamentar. “Queremos combater a desigualdade econômica por meio de serviços públicos de qualidade, e é importante colocar isto de forma séria”.

Safatle falou também da política de virtude baseada no bem comum, reivindicada por quem deseja que “o último mensaleiro petista seja enforcado nas tripas do último tucano corrupto”. (Nesse momento, foi crivado de aplausos.) Disse que a democracia é sempre um porvir e demanda um constante reordenamento do estado de direito, que não tem como responder por toda e qualquer nova demanda do povo.

Sob a perspectiva da psicanálise, Tales Ab’Saber falou da “imagem erótica do homem Lula” e se mostrou empolgado com o momento histórico. “Temos um movimento de movimentos, ou seja, um produtor de outros movimentos”, explicou ele, que é autor de um livro sobre o fenômeno do lulismo publicado pela editora Hedra.

Ab’Saber elogiou a visão política dos “meninos” do Movimento Passe Livre, que utilizaram um verdadeiro padrão de análise marxista ao diagnosticarem as falhas da máquina da nossa democracia, os pontos nevrálgicos que podiam ser trabalhados com vistas a agregar demandas e abalar o governo – no caso, a pauta escolhida foi a briga contra o aumento da tarifa e a discussão sobre transporte público. De quebra, o movimento abriu um debate sobre a militarização da polícia de São Paulo, oriunda da ditadura, uma força de exceção e ilegalidade que “precisa começar a agir dentro da lei”. Ele fez questão de dizer que grande parte da civilização se fundou a partir de conflitos e que este é um caminho legítimo.

Clark concordou com a análise política de Ab’Saber, mas discordou terminantemente de sua visão otimista das novas mídias. Animado, o psicanalista brasileiro afirmou que o celular e as redes sociais trouxeram uma gestão flexível da nova política, aumentando em muito a potencialidade da democracia direta. O historiador britânico rebateu dizendo que mídias sociais podem ser instrumentos poderosos –como o capitalismo–, mas se limitam ao virtual e isolam o indivíduo. Clark relaciona a estagnação política brasileira nos últimos vinte anos ao declínio da força dos sindicatos e pediu que as mídias sociais levassem o movimento às ruas.

Folha de S.Paulo – Folha Online
Festa Literária Internacional de Paraty – Flip 2013
6 de julho de 2013

por Vanessa Barbara

Uma conversa entre duas figuras elegantes, à meia-voz, marcou a mesa “Traduzindo Flaubert”, que ocorreu no final da tarde desta sexta-feira, em Paraty.

No ambiente intimista do auditório da Casa de Cultura, a escritora norte-americana Lydia Davis e o tradutor Samuel Titan Jr. falaram sobre os desafios de traduzir Gustave Flaubert. O debate, que teve mediação do jornalista Guilherme Freitas, versou sobre a dificuldade de encontrar equivalentes para a famosa “palavra justa” do romancista francês, que se notabilizou pelo perfeccionismo e pela busca de perfeição vocabular.

Titan, que assinou a tradução de Três Contos (CosacNaify, 2004) em co-autoria com Milton Hatoum, explicou, logo de saída, que o estilo de Flaubert consiste justamente na ausência de floreios retóricos e gestos eloquentes – o que, no século XIX, chegou a ser considerado sinônimo de má escrita e ignorância gramatical. “Durante a tradução, temos de resistir ao impulso de tornar elegante ou polido o que é áspero no original”, disse, apelidando esse fenômeno de “vontade de melhorar Flaubert”. Ele também comentou sobre a necessidade de empregar palavras que tenham a mesma conotação moral do original.

Falando baixinho, a simpática Lydia Davis, que há três anos traduziu Madame Bovary para o inglês, observou que nenhuma das antigas edições norte-americanas era fiel ao estilo flaubertiano, tomando liberdades desnecessárias em nome da clareza ou da elaboração formal. Afirmou ter sentido muita dificuldade com a sintaxe e o “uso bizarro do ponto-e-vírgula” que cortava bruscamente as frases do escritor.

“Devemos confiar no autor e não tirar conclusões próprias”, ela defendeu, usando como exemplo uma cena de Madame Bovary em que damas flanavam pelo salão segurando “pequenos frascos”. Alguns tradutores optaram por escrever “frascos de perfume”, mas, consultando os rascunhos do romance, Davis descobriu que se tratavam de frascos de vinagre utilizados para despertar donzelas desmaiadas. Mesmo sabendo disso, ela escreveu apenas “pequenos frascos”, conforme o desejo do autor, e acrescentou uma nota explicativa.

Usando essa mesma lógica, Samuel Titan Jr. criticou a tradução do título Um coração simples para Um coração singelo, numa edição antiga do livro. Essa opção é um erro, pois o termo “singelo” é açucarado demais e prescinde da neutralidade do original. Para ele, tais julgamentos somente são possíveis quando o tradutor desenvolve uma espécie de “ouvido” para as palavras.

Empolgado, Titan afirmou que Madame Bovary transcende as fronteiras da literatura francesa, representando o ápice de um processo evolutivo do romance que começou com Dom Quixote, de Cervantes. “Não por acaso Madame Bovary foi chamada de ‘Dom Quixote de saias’, o que não é só uma piada tola”, afirmou, atribuindo a Flaubert a fundação da modernidade literária.

A pedidos da plateia, ambos terminaram falando sobre o “Dicionário de Ideias Feitas”, uma compilação de lugares-comuns coletados pelos heróis de Bouvard e Pécuchet, que copiavam trechos de obras sempre que detectavam algum sinal de estupidez. Classificado por Lydia Davis como “radical”, o derradeiro romance de Gustave Flaubert ficou inacabado.

“Em todo caso, a intenção era escrever um livro que, uma vez pronto, deixaria o leitor sem saber se estão ou não zombando dele”, concluiu Titan.

Cenas do capítulo 11

Posted: 5th julho 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo
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Folha de S.Paulo – Cotidiano
Festa Literária Internacional de Paraty – Flip 2013
5 de julho de 2013

por Vanessa Barbara

Cada Flip traz em si todas as edições anteriores, como um livro que você adora reler, mas que por vezes até se arrepende de abrir.

Na primeira, em 2003, dizem que o romancista norte-americano Don DeLillo foi visto nas ruas de Paraty tentando vender uma bola de beisebol usada (a anedota é boa, mas carece de veracidade).

No mesmo ano, Julian Barnes aprendeu a dizer “paralelepípedo” e o historiador Eric Hobsbawm foi flagrado comprando paçocas.

Em 2004, Chico Buarque fez um gol “de letra” no goleiro e eletricista Nanã em partida contra um time local. Na plateia, Paul Auster confessou desconhecer as regras do esporte. O trocadilho da vez decorreu da insólita aparição de um apresentador de televisão, que logo ganhou a alcunha de “Gugu Literato”.

As lendas e fofocas correm soltas, feito subtramas de um romance russo: Arnaldo Jabor acusou uma professora de stalinista, um grilo cruzou o palco, Zuenir Ventura foi chamado de Saramago e Humberto Werneck disse “períneo”.

A escritora americana Toni Morrison andou de charrete na Flip 2006 e Simon Schama dançou “Thriller” com uma camisa aberta até o umbigo, em 2009. Dois anos depois, James Ellroy circulou com a mesma camisa amarela florida. Já o jornalista Gay Talese levou uma mala cheia de ternos.

Lembro de, uma vez, ficar presa numa mesa de restaurante em que Xinran e Ma Jian discutiam violentamente em mandarim, enquanto suas moquecas esfriavam no prato.

Este ano, na 11ª Flip, quem já virou assunto foi Gilberto Gil, que, no show de abertura, propôs a criação de um “carnê-Copa” para os desfavorecidos. A ideia era comprar ingressos de partidas da Copa do Mundo e abrir um crediário para os pobres.

Cada Flip tem sua mitologia própria, reviravoltas e tropeços memoráveis.

Brazil’s Vinegar Uprising

Posted: 3rd julho 2013 by Vanessa Barbara in Clipping

New York Times – Op-Ed Contributor
21 de junho de 2013

 

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A mochila do paulistano

Posted: 25th junho 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas
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Catarina Bessel

Folha de S.Paulo – revista sãopaulo
23 de junho de 2013

por Vanessa Barbara

Verdade seja dita: há de se respeitar a mochila do paulistano, essa corcunda de chumbo que carregamos por toda parte em detrimento da elegância e da escoliose.

Trata-se de um volume de tamanho médio, pesando de dois a cinco quilos e contendo o indispensável para a sobrevivência em território urbano, a exemplo do cinto de ferramentas do MacGyver.

O item mais importante, armazenado num bolso de fácil acesso, é o Bilhete Único, esse místico cartão magnético que abre as portas para a felicidade do transporte coletivo.

Outro objeto obrigatório é o guarda-chuva pequeno, daqueles que custam R$ 5 e duram uma única chuva. Quanto mais leve, melhor. É recomendável levar também um plástico para embrulhá-lo quando molhado.

Nessa mesma linha, uma resistente sacola dobrável é item de extrema importância, sendo utilizada para armazenamento geral. A minha tem capacidade para transportar um anão.

No departamento de estudo e lazer, incluímos um caderno de anotações e duas canetas (uma pode falhar), um volume de palavras cruzadas e um livro (ou leitor de e-book) de livre escolha.

Antes de embarcar num ônibus como o 177-H, faço questão de comprar na Amazon uns títulos adicionais para o Kindle. Há os que levam tablets e smartphones com joguinhos eletrônicos, mas a bateria pode acabar.

Em caso de calamidade pública (tufão, enchente, queda de meteoro, greve dos metroviários), nada melhor do que estar na companhia de um paulistano, que certamente terá víveres para a temporada (barra de cereal, chocolate, amendoim, sanduíches, frutas, biscoitos, achocolatado).

A garrafa d’água é tão essencial quanto o guarda-chuva, embora o líquido possa chegar à temperatura de chá. E mais: celular, blusa de frio, molho de chaves, manteiga de cacau, presilhas e elásticos de cabelo, porta-moedas, Band-aids, creme para as mãos, lenços de papel, absorventes, lixa de unha, óculos de sol, canivete, espelhinho.

Na carteira, que se assemelha a um tijolo, carregamos dinheiro (para o ladrão), documentos (cópia autenticada), cartão de visitas, cartão do SUS ou do convênio, carteirinha do Sesc, lista de prontos-socorros, cartão telefônico, cartão de crédito.

No meu caso, há também uma quantidade razoável de chicletes, uma caixinha de remédios, pente, lenço umedecido, kit costura, pacotinho de sal, clipes, escova de dente, pasta, fio dental, tesoura, um batom, sabonete líquido e uma lanterninha.

Conheço um sujeito que leva sempre na mochila um short e uma joelheira, “para o caso de rolar um vôlei”, e outro que carrega por aí uma felpuda toalha de banho.

Brazil’s Vinegar Uprising

Posted: 23rd junho 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas, New York Times, Reportagens

The New York Times
June 21, 2013

by Vanessa Barbara
Op-ed Contributor

Flavio Moraes

SÃO PAULO, Brazil — LAST week I watched a video of a man arrested for possession of a bottle of vinegar. The man, a journalist named Piero Locatelli, was covering the protests here when a policeman asked to search his backpack. Like other demonstrators, he had brought some vinegar. The idea is that breathing through a cloth soaked in vinegar neutralizes the effects of tear gas, though this doesn’t really seem to work. The police claim that the product can be used to make bombs, but this is even less true.

Mr. Locatelli was released two hours later. But the damage had been done. Over the next week, as the protests spread to cities around the country, the arrest became a mocking rallying cry. Someone started a campaign on Facebook to legalize vinegar. Another created a “V for Vinegar” page, a reference to the graphic novel “V for Vendetta.” The “Salad Uprising” had begun.

The people’s anger was understandable. The day Mr. Locatelli was arrested, June 13, many others in São Paulo also faced the repression of the military police: more than 100 protesters and at least 15 journalists were reported injured, including a photographer, who will probably lose some of his vision after being shot in the eye with a rubber bullet. I rushed to join the demonstration, but I couldn’t get past the clouds of tear gas and pepper spray. Some officers removed their name tags when firing stun grenades. It looked like war. And it was all triggered by the equivalent of a 9-cent increase in the city’s public transport fares, to about $1.47.

That might not sound like a lot, but it makes a big difference to someone who earns the minimum wage of just 678 reais a month (around $300 at today’s exchange rates). Getting around this city is not easy. São Paulo has roughly 11 million inhabitants and 7 million vehicles. Traffic is terrible, the buses and underground rail insufficient and overcrowded. I live in Alto do Mandaqui, a neighborhood about seven miles north of the city center, but it can take an hour and a half to get there. I spend a lot of my salary just so I can sit inside a hot bus, stuck in traffic. And Brazilians in many other cities face the same, along with the threat of increasing transportation costs.

As one of the protest chants, addressed to President Dilma Rousseff, went: “Dilma, what’s the point?/To ride the bus/we’re paying more than for a joint.”

But the protests were about much more than transportation. This week, even after a number of cities agreed to lower or reconsider their fares, the protests continued. After all, we were still gravely concerned about the government conspiracy to suppress our salads. A few months ago, there was a 122 percent increase in the price of tomatoes, compared with the year before. I personally stood with the leaders of the March for Vinegar Legalization, about which there have been many jokes on social media. One person wrote that, if caught in the act of handling vinegar, you should confess to being an avid user, and say you’re trying to quit.

On June 16, pressed by public opinion, the government agreed to authorize vinegar possession for both revolutionary and gastronomic uses. Perhaps as a result, the next day, another protest in São Paulo was peaceful. Around 65,000 people marched (some, like my mom and me, carrying bottles of salad dressing). We were campaigning against all sorts of things: police brutality, government corruption, lousy public services and “funk alto no busão” (roughly: loud boom boxes playing atrocious funky music in the bus).

Another common cry, which garnered much praise despite having little purpose, was, loosely: “The people/united/are a gigantic bunch of dudes” — though the real version included a rowdy profanity.

Crowds were also criticizing the federal government for spending billions to host the FIFA World Cup in 2014 and the Summer Olympics in 2016 (with projected budgets of $13.3 billion and $18 billion, respectively). One demonstrator wrote on a sign: “When your son is ill, take him to the stadium.” Some shouted, “Any good teacher is worth more than Neymar,” in reference to a highly paid soccer player.

The bigger issue behind the dissatisfaction, however, is that Brazilians are still getting used to democracy. Two decades of fierce military dictatorship formally ended only in 1985. We still have a military police force to maintain public order. We still fear them. That is why these protests are so important.

Not all Brazilians agree. Many think the demonstrations lack focus, are useless or even harmful. The press sometimes calls the protesters “vandals,” “delinquents” and “terrorists.” And there have been some acts of vandalism by the crowds. But that is no excuse to stay home.

On Monday night we walked more than six miles, occupying avenues usually clogged with cars and buses. We lay down in the middle of Paulista Avenue and painted all sorts of wise messages on placards, like: “I’m so pissed off that I wrote this sign.” One boy was exhausted by the walking and just wrote, “for the right to stay in one place.”

Most of the protesters were in their teens and 20s, and I felt very ancient in my 30s. I am sure we seemed as ineffective and foolish as our bottles of vinegar against a bomb of tear gas. But we have the right to be ineffective and foolish — we’re still learning how to protest.

On Thursday night one million Brazilians poured into the streets of some 80 cities around the country. “Bring your salad. Salt and olive oil are optional.” That’s our message.


Vanessa Barbara edits the literary Web site A Hortaliça and is a columnist for the Brazilian newspaper Folha de São Paulo

A version of this op-ed appeared in print on June 22, 2013, on page A19 of the New York edition with the headline: Brazil’s Vinegar Uprising.

Excerpt from the novel “Lettuce Nights”

Posted: 22nd junho 2013 by Vanessa Barbara in Ficção
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Granta n. 121
The Best of Young Brazilian Novelists
transl. by Katrina Dodson

by Vanessa Barbara

When Ada died, the wash hadn’t dried yet. The trousers’ elastic waistbands were still damp, socks swollen, T-shirts hanging the wrong way out. A rag was left soaking in the bucket. Rinsed recycling bins in the sink, the bed unmade, open biscuit packets lying on the couch. Ada had gone away without watering the plants. The household things were holding their breath and waiting. Since then, the house without Ada has been nothing but empty drawers.

Otto and Ada were married in 1958, just as the town was transitioning between mayors. They bought a yellow house and decided not to have children, no dogs or cats, not even a pet turtle. They spent almost fifty years together: cooking, assembling massive puzzles of European castles and playing ping-pong on the weekends, until arthritis set in and made the game impossible. In the end it was nearly impossible to tell the difference between their tone of voice, their laugh, their way of walking. Ada was thin with short hair and liked cauliflower. Otto was thin with short hair and liked cauliflower. They wandered up and down the hallways and took out the rubbish together. Ada dealt with the various household details and did most of the chores while Otto followed her around telling anticlimactic stories. They were such good friends that Ada’s death left a silence in the hallways of the yellow house.

More:  http://www.granta.com/Archive/121/Lettuce-Nights-Vanessa-Barbara

Granta 121: The Best of Young Brazilian Novelists was first published in Autumn 2012.
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Gatsby S.A.

Posted: 22nd junho 2013 by Vanessa Barbara in Clipping

Folha de S.Paulo – Ilustrada
21 de junho de 2013

VANESSA BARBARA
COLUNISTA DA FOLHA

Um dos cineastas mais versáteis de Hollywood, Billy Wilder dirigiu 26 filmes e escreveu cerca de 70. A exemplo de diretores que mais admirava (e com quem trabalhou), Howard Hawks e Ernst Lubitsch, ele foi versátil e passeou por diversos gêneros cinematográficos: fez comédias, filmes de guerra, suspenses, romances e dramas.

O CineSesc promove uma retrospectiva completa de seus longas em cópias de 35 mm e digitais. A mostra, que ocorre até 4 de julho, traz clássicos como “Crepúsculo dos Deuses” (1950), considerado um dos melhores dramas da história do cinema.

Filmado em preto e branco, o longa traz William Holden como um roteirista desempregado que termina por tornar-se gigolô de uma veterana atriz do cinema mudo (interpretada de forma superlativa por Gloria Swanson).

Outros títulos obrigatórios: “Quanto Mais Quente Melhor” (1959), uma das comédias mais famosas de todos os tempos, e “Se Meu Apartamento Falasse” (1960), em que Jack Lemmon se apaixona por Shirley MacLaine e usa uma raquete de tênis para coar macarrão.

Um dos mais raros da lista é “Fedora” (1978), excelente drama sobre os últimos dias de uma atriz decadente, indisponível em DVD no Brasil.

O diretor nasceu em 1906, batizado como Samuel Wilder, na cidade de Sucha, então sob domínio da Áustria.

Na juventude, viveu em Berlim, onde trabalhava como jornalista de tabloides e dançarino profissional (acompanhante de senhoras).

JOGO DE XADREZ

Com a ascensão do nazismo, Wilder, que era judeu, emigrou para Paris. Em 1933, mudou-se para Hollywood.

Ao longo da carreira, deu primazia ao texto em detrimento a cenas exuberantes que chamassem atenção para si mesmas e distraíssem o espectador da história.

Procurava demorada e pacientemente até encontrar a melhor solução para uma cena, o melhor caminho para passar de um ponto a outro: era um mestre em encadear sequências. Para ele, escrever um filme era como jogar xadrez.

Wilder interessava-se pela natureza humana e a vida das pessoas comuns. Tinha um senso de humor cortante e uma visão de mundo cínica e melancólica.

Seus principais colaboradores foram os roteiristas Charles Brackett (13 filmes) e I.A.L. Diamond (20). O primeiro colecionava quadros com ovelhas e era radicalmente diferente do parceiro.

Quanto a Diamond, conta-se que, após ler um trecho que haviam acabado de escrever, comentou: “Está muito bom, não é?”.

“Muito bom!?”, disse Wilder, saltando da cadeira. “Muito bom? Está perfeito! [Pequena pausa.] E agora vamos melhorar.”

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