Uma em um bilhão

Posted: 28th julho 2013 by Vanessa Barbara in Reportagens, Revista piauí
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china

Revista piauí – n. 82
Julho de 2013

O que faz uma escritora brasileira em um festival literário em Macau

por Vanessa Barbara

 

Quando, há cinco meses, recebi um convite para participar do Festival Literário de Macau, a única resposta possível foi: Por que não? Se a ideia é mudar de ares, nada melhor do que ir o mais longe possível, mais exatamente a 18 014 quilômetros, que é a distância entre o bairro do Mandaqui (Zona Norte de São Paulo) e Macau.

Confesso que tive de abrir um mapa–múndi para descobrir onde ficava a tal península, na costa sudeste da Ásia, ex–colônia portuguesa e atual região administrativa especial da República Popular da China. Embora os idiomas oficiais sejam o português e o cantonês, nas ruas ninguém fala uma palavra reconhecível. Macau é delimitada por Hong Kong, Guangzhou, Zhuhai e Shenzen. Ao leste temos Taiwan, ao sudeste as Filipinas e, ao sul, o Vietnã.

A moeda oficial é a pataca, indexada ao dólar de Hong Kong. Conhecida como “Las Vegas do Oriente”, Macau tem uma economia lastreada no turismo e em cassinos – enormes edifícios revestidos por camadas de neon piscante que funcionam madrugada adentro, assegurando que há sempre alguém mais acordado, mais perdido no calendário e mais rico do que você em algum lugar. É a região com a maior densidade populacional do mundo (19,84 pessoas por metro quadrado, segundo o Banco Mundial).

Fora isso, eu nada sabia quando embarquei no Aeroporto Internacional de Guarulhos, numa terça de madrugada, com 18 quilos na mochila só de livros, prestes a encarar um voo de catorze horas até Dubai, mais três horas e meia aguardando no aeroporto, oito horas até Hong Kong, duas horas de espera e, por fim, um ferryboat.

O piloto da Emirates também parecia confuso, tendo anunciado de repente: “Passageiros cujo destino final é Dubai esta noite… manhã… não, tarde… enfim!, devem apanhar a bagagem na esteira de número…”

Vinte oito horas e meia depois, sem saber o dia da semana (era quinta-feira), cheguei ao destino e fui para o hotel, onde passei a sexta-feira dormindo.

 

O FESTIVAL

A segunda edição do Rota das Letras, o Festival Literário de Macau, reuniu escritores lusófonos e chineses, além de músicos, atores e cineastas. Criado em 2012 pelo jornal Ponto Final, o evento deste ano se estendeu por sete dias de março, com palestras e apresentações nas escolas, universidades e institutos culturais. Foi um curioso simpósio de tons vagamente surrealistas, que pode ser resumido numa única piada:

“Estavam uma brasileira, um português, um timorense, um surdo e um canadense conversando numa rotatória em Coloane quando…”

(O resto da piada eu não sei porque o ônibus passou e tive de sair correndo para pegá-lo.)

Outra boa forma de resumir o festival é descrevendo a mesa de abertura, ocorrida na tarde do dia 10, com a participação de quase uma dezena de autores falando sobre “Influências e perspectivas dos escritores num mundo globalizado”. O debate durou duas longas horas e teve tradução simultânea em português, inglês e cantonês – a sensação, porém, era de que os três idiomas estavam sendo falados ao mesmo tempo e de trás para a frente, tamanha a confusão. A tradutora do português, coitada, estava tão perdida que quase fui lhe oferecer um abraço.

Em falas curtas, os convidados fizeram o possível para trazer unidade à discussão: o diretor da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), Mauro Munhoz, falou sobre festivais literários em cidades de porto; o timorense Luís Cardoso observou que, em matéria de globalização, o melhor é pensar no que temos a oferecer, e não a perder; e o angolano José Eduardo Agualusa mencionou um vídeo no YouTube em que um estrangeiro executa à perfeição uma dança típica de Angola. “Sendo que este imigrante chinês sabe dançar o kuduro muito bem”, afirmou, taxativo, e sua fala fez todo o sentido.

A mim coube a participação em dois debates, cujo tema só me informaram ao chegar. A primeira mesa, na Universidade de Macau, foi dirigida aos estudantes do departamento de inglês e contou com a presença do seriíssimo Pan Wei (China), o simpático Luís Cardoso (Timor Leste) e a louquíssima Hong Ying (China), que tirou uma foto nossa com o smartphone durante a palestra, postou na rede social Renren e recebeu curtidas imediatas de uma galera da fileira de trás da sala. Foi um dos pontos altos da viagem: receber um feedback instantâneo, barulhento e em chinês no decorrer da própria palestra.

Que, aliás, ocorreu no mais autêntico e vergonhoso “Macarronic English”. Com um detalhe: Pan Wei não falava inglês e a organização só havia enviado uma tradutora chinês–português, embora a plateia fosse quase que exclusivamente composta de anglófonos. Cogitou-se a tradução em duas etapas (chinês–português e português–inglês), mas felizmente uma aluna fez a ponte para o idioma final. Não havia mediador, nem tema específico.

Ainda assim, a mesa fluiu bem e não foi preciso defender-se de possíveis objetos arremessados pela turma do fundão, como temia Luís Cardoso, com quem posteriormente saí para almoçar e testemunhar um casamento entre desconhecidos na Igreja São Francisco Xavier, em Coloane, onde o hospedaram.

Em tom de galhofa, ele passou os dias se apresentando como vice-rei de Coloane – uma simpática ilha a quarenta minutos do Centro, ligada a Macau por uma ponte. Outros autores foram alocados em hotéis na ilha de Taipa e arredores, bons mas distantes entre si e do Centro. Houve muita reclamação e alguns convidados decidiram ir embora mais cedo. “Falta de chá, falta de respeito pelos autores e muita ignorância”, declarou um dos escritores. Eu, por sorte, fiquei no Centro e não tive do que reclamar nesse quesito.

A segunda palestra foi um completo desastre. Fui destacada para uma mesa no penúltimo dia ao lado de Valter Hugo Mãe (Portugal), Paulina Chiziane (Moçambique) e Antoine Volodine (França). O tema era: “As literaturas dentro da literatura de expressão portuguesa”, e preparei às pressas um material sobre a crônica. A partir das poucas pistas que me deram, pensei em falar desse gênero que se desenvolveu com suas peculiaridades no Brasil, mas acabei não aproveitando nada.

Logo de início, a moderadora portuguesa me apresentou da seguinte forma: “À minha direita está Vanessa Barbara, escritora brasileira de quem não sei muita coisa além de que é muito jovem, como vocês podem ver, e escreveu alguns livros que não tive oportunidade de ler.”

Mais tarde, ela me perguntou algo sobre a ética inerente às literaturas de expressão portuguesa que eu, juro, quase me levantei e disse: “Minha senhora, eu não faço a menor ideia de como responder a essa pergunta.” Acabei conseguindo encaixar umas coisas sobre crônica aqui e ali, mas basicamente só falei nada com nada. Houve uma porção de perguntas sem rumo e, a certa altura, o autor francês declarou que a humanidade não tinha esperança e estava próxima do fim. Eu me afundei na cadeira, torcendo pelo Apocalipse.

 

MACAU: NOODLES COM FANTA UVA

Cada um por si, os escritores do festival foram explorando pontos turísticos macaenses, como o largo do Senado (uma pracinha com chão de pedras portuguesas e lojas de grife), o jardim Lou Lim Leoc (tranquilo e superpovoado de tartarugas aquáticas), o templo de A-Má, a Fortaleza do Monte, a estátua de Kun Iam e as famosas Ruínas de São Paulo (fachada de igreja incendiada que é como um portal para outra dimensão, um cenário de Hollywood sem fundo).

Sozinha, fui a uma sessão do planetário, experimentei carne de porco crua e quadrada, vi os pandas-gigantes de Coloane, comprei um sapato tipo chinesinha, passei por uma igreja pentecostal Deus É Amor e aproveitei meu nababesco quarto de hotel, que era maior do que a minha casa. (Dava pra andar de bicicleta lá dentro.)

No Jardim de Camões tirei as meias e tentei andar por um caminho de pedras redondas, utilizado como massageador de pés. Tive de segurar na cerca, avançar bem devagar e a cada passo conter um “Ai! Ai!”, sob a chacota generalizada dos locais. Aprendi que os velhinhos chineses costumam levar seus pássaros para passear todas as manhãs e penduram as gaiolas nas árvores. Descobri que Paulina Chiziane adora girafas e que o macarrão cantonês precisa ser elástico, ou seja, você deve poder esticá-lo sem quebrar. Tirei fotos da Venda de Bolinhos Kuong Hou Tai Iat Ka e da Sala de Explicações Pat Mui. Frequentei todas as barracas de pijamas de flanela. Explorei o Mercado de São Domingos com uma jornalista macaense que adorou a palavra “rural”, cuja pronúncia em inglês é realmente engraçada. Me identifiquei com a Igreja de Santo Antônio, “construída em 1638, incendiada em 1809, reconstruída em 1810, de novo incendiada em 1874, reparada em 1875”.

Jantei um prato enorme de noodles com Fanta Uva na companhia de um casal desconhecido de chineses que alternava cantonês e inglês numa conversa desvairada. Eles perguntaram se o Brasil ficava na Europa, me ofereceram wontons com molho agridoce e no final pagaram a conta. “A hospitalidade de Macau! Conte para os seus amigos. Nós somos legais”, ela dizia, animada.

Flanei pelos salões do maior cassino do mundo, The Venetian, na companhia de dois músicos croatas, que riam sem parar das ridículas réplicas da cidade de Veneza. O gigantesco complexo fica em Taipa e é conhecido por obter um faturamento anual maior do que o de todos os cassinos de Las Vegas juntos. Dentro há canais com gôndolas, casas de mentira e um falso céu azul. Gondoleiros filipinos soltam a voz. “E cantam muito bem, os danados”, atestaram Ines Trickovic e Joe Pandur.

A maioria absoluta dos turistas dos cassinos vem da China continental. São autorizados pelo governo a levar no máximo 20 mil yuans para fora do país (7 mil reais) e retirar até 10 mil yuans por dia no caixa eletrônico. Diante das limitações, muitos recorrem às casas de penhores. Os salões de jogos estão sempre abarrotados de chineses, alguns com pinta de mafiosos, e para percorrê-los é preciso suportar os olhares zangados dos seguranças e quebrar uma quase sólida nuvem de fumaça de cigarro. Os jogos mais populares são o bacará, o vinte e um, a roleta e o fan tan.

Em Macau descobri que é proibido andar de boné nos cassinos por causa das câmeras de reconhecimento facial, e também que as janelas dos hotéis são lacradas para evitar suicídios de apostadores desiludidos. Quem quiser abri-las deve assinar um termo de responsabilidade em que supostamente se comprometeria a não atentar contra a própria vida. É uma cidade de muitas luzes, insônia e chinesas fumando na calçada com bobes na cabeça, enquanto falam ao celular.


PRESA EM  MACAU
 

Então fiquei presa em Macau. A ideia original era conhecer Hong Kong, depois Hainan e Pequim, mas para isso eu precisaria obter um visto de entrada específico. Como a organização do festival só emitiu a passagem quatro dias antes da partida, perto de um fim de semana, não pude solicitar tal visto em São Paulo. Então, em Macau, fui ao Comissariado do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, onde preenchi formulários e apresentei a passagem de volta, reservas de hotéis e seguro-saúde. Disseram-me que o visto demoraria duas semanas e só valeria por sete dias. A ilha de Hainan foi imediatamente cortada do roteiro.

Terminado o festival, no domingo, o plano B era tomar o ferry rumo a Hong Kong, passar uma semana lá e voltar a Macau para buscar o visto. Hotel reservado, passagem comprada, mala despachada. Usei naturalmente meu passaporte português, pois o brasileiro estava retido no Comissariado. Contudo, na saída de Macau, uma surpresa: não me deixaram passar. Segundo uma regra escrita em algum lugar, deve-se sair de Macau com o mesmo passaporte da entrada. Mostrei o recibo do Comissariado que reteve meu passaporte brasileiro. Mostrei o passaporte português perfeitamente válido. Mostrei meu carimbo de entrada, num papel separado. Mostrei meu comprovante de vacina contra febre amarela. A resposta, no ininteligível inglês macaense: “Meu chefe decidiu que você não vai para Hong Kong.” E, apontando para o saguão de entrada: “Já pra fora! Out!”

Não adiantou chamar Fish Ho, o chinês faz-tudo da organização do festival, nem apelar para a cara de cachorrinho pidão: fui para um hotel passar a noite e esperar a chegada da segunda-feira, quando o Comissariado estaria aberto.

De manhã, o funcionário informou que não devolveria meu passaporte, pois estava em processo de solicitação de visto. Tentei explicar em inglês (que ele pouco entendia) e com vigorosas mímicas que eu não queria mais o maldito visto, só a minha liberdade e, talvez, um cafuné. Ao final, consegui entender que ele me liberaria o documento se eu apresentasse um bilhete de ferry marcado para aquela tarde. Por pura falta de perspectivas e desânimo existencial, andei até o terminal, comprei o tal bilhete e retornei ao Comissariado, onde o bom chinês me presenteou com o passaporte e um visto de urgência. Fui liberada para embarcar com destino a Hong Kong naquela mesma tarde, onde passaria ainda uma semana antes de viajar a Pequim.

 

HONG KONG: MEIAS SUICIDAS

A coisa mais interessante de Hong Kong são as roupas caídas dos varais, enganchadas em vigas de ferro e recônditos inacessíveis das fachadas dos prédios. Por falta de espaço, os moradores dos apertados edifícios penduram suas roupas lavadas para fora das janelas. Vez ou outra, uma camisa ou meia se desprende com o vento e tomba de lá de cima, ganhando a rua. Em alguns casos, fica pelo caminho, presa num fio ou num poste de luz. Grande diversão é percorrer as ruas olhando pra cima, identificando aqui e ali uma blusa verde estrebuchada num telhadinho e uma camiseta órfã sobre um aparelho de ar-condicionado, ainda com o pregador de madeira grudado. Ideia para ficar rico em Hong Kong: abrir um serviço de resgate de roupas com uma vara de bambu bem comprida ou uma escadinha de bombeiros.

Assim como Macau, Hong Kong também foi colônia europeia (no caso, britânica) e hoje é região administrativa especial da China, com um sistema político independente. Ao longo da última década, firmou-se como um forte centro financeiro internacional.

É um território superpovoado e verticalizado com uma das skylines (silhueta de edifícios ao horizonte) mais impressionantes do mundo. São 112 edifícios com mais de 180 metros de altura, incluindo o quinto maior prédio do mundo, em Kowloon; a imponente sede do HSBC, projetada pelo arquiteto britânico Norman Foster; a icônica sede do Banco da China, executada por I. M. Pei; e o edifício em que o Batman aterrissou estrondosamente a fim de sequestrar o contador do mal, em Batman – O Cavaleiro das Trevas (de Christopher Nolan, 2008). Todas as noites há um espetáculo de som e efeitos especiais chamado “Sinfonia das Luzes”, em que os prédios da ilha acendem e apagam em ritmo de música clássica.

Assim como São Paulo, Hong Kong é uma cidade coalhada de carros, viadutos e pontes, onde o pobre andarilho é obrigado a fazer desvios quilométricos, atravessar sinuosas passarelas, subir escadarias, singrar viadutos pelo acostamento, passar por baixo de uma cama de gato e por cima de uma cama de pregos só para mudar para o lado de lá da rua.

Os ônibus, contudo, são eficientes e fáceis de utilizar, com letreiros em inglês, mapas das linhas que atendem a determinado ponto, avisos de próxima parada e uma grande frota servindo todo o território. O metrô é igualmente eficiente – e cheio.
 

PRAGAS SOB ENCOMENDA 

Em Hong Kong encontrei uma profusão de andaimes de bambu até nos edifícios mais altos, duas estátuas de um porco feliz, meia dúzia de riquixás à venda (falar com o sr. Hung pelo tel. +852 63839439), uma estátua do Bruce Lee, um estabelecimento que se intitula Alfaiate Muito Bom, uma loja chamada Sofa So Good e um agasalho do Corinthians à venda numa banca minúscula e aleatória numa travessa da Nathan Road, em Kowloon. Dancei lindy hop num bar de jazz e tomei um chute na canela de um coreano, vi franceses sacolejando ao som de Bate Forte o Tambor, da banda Carrapicho, subi o Victoria Peak de ônibus e andei num simulador de gravidade lunar no Museu Espacial.

Comprei um repelente de insetos à base de tomate, que promete “confundir os mosquitos na hora de reconhecer os seres humanos”. Vi uma senhora respeitável conversando na calçada com uma amiga, vestida de pijama e tênis.

No aeroporto fiquei intrigada com o aviso: “Tirem seus chapéus para controle de temperatura.” Quando da entrada em Hong Kong, é preciso passar por um sensor infravermelho que mede o calor humano. Dois funcionários de máscaras monitoram e barram os indivíduos mais esquentadinhos. Deve-se tirar o chapéu para mostrar que o cocuruto está bem e que você não trouxe consigo nenhuma espécie de febre aviária, réptil ou mandaquiense.

Meu hotel tinha uma máquina de escrever para alugar e ficava no bairro cosmopolita de Mid-Levels, zona residencial servida pela maior escada rolante do mundo, com 800 metros de comprimento. A Central Mid-Levels Escalator liga uma porção de ruas morro acima e é ladeada por bares, restaurantes e lojinhas. Mais tarde, tive de me mudar por causa de um campeonato internacional de rúgbi – que lotou os hotéis – e fui para um estabelecimento em Wan Chai, onde a grande atração era um deslocado centro de convivência para idosos no 2º andar.

Foi perto dali, debaixo da passarela de Canal Road, que finalmente encontrei as cursing ladies, senhorinhas que rogam pragas sob encomenda. Por 60 dólares de Hong Kong (cerca de 17 reais), elas amaldiçoam quem você quiser – o esconjuro pode ser direcionado a um indivíduo específico ou a um grupo. O interessado preenche um formulário–padrão em forma de corpo humano e explica a situação à boa senhora, que começa a fazer coisas estranhas tipo queimar objetos, dar banha de porco a uma dobradura de tigre e bater com um sapato no papel. O nome do ritual é da siu yan, ou seja, “dando uma sova nessa gentalha” (tradução livre).

A praga tem duração variável em consonância com o valor pago, podendo vigorar de uma semana a toda a eternidade. “Consulte a sua cursing lady para maiores detalhes.”
 

PEQUIM: CUSPE IN CONCERT

Desembarquei em Pequim no dia 24 de março, pouco depois de uma inesperada frente fria. A primeira coisa que vi não foi a Muralha: foi a neve. “Índia mandaquiense não conhecer neve”, expliquei para o meu guia e intérprete, Daniel, enquanto chafurdava num montinho de gelo.

A capital chinesa é uniformemente cinzenta. Em janeiro, o índice de poluição chegou a ultrapassar 45 vezes o limite considerado seguro pela Organização Mundial de Saúde (OMS), contaminando fontes de água potável e gerando problemas sociais e de saúde. Depois da neve, a situação melhorou um pouco, mas não muito. Os cidadãos andavam pelas ruas com máscaras cirúrgicas e era difícil enxergar. No meu quarto de hotel, ao lado dos amendoins, havia duas máscaras respiratórias para utilizar em incêndios, mas que eu quase empreguei no dia a dia. Segundo as instruções, após ajustar as tiras atrás da cabeça, deve-se “escolher um caminho e correr resolutamente para salvar sua vida”.

É uma cidade hostil para introvertidos, já que os turistas são incansavelmente abordados por pessoas vendendo bonés, bandeirinhas, bolsas, passeios turísticos, caronas de riquixá e livros vermelhos. Nas lojas, basta fixar o olhar despreocupadamente numa camiseta para ser assediado por uma vendedora estridente de calculadora em punho, gritando: “70! 70!” Se por acaso o sujeito transfere o olhar para um sapato, a moça brada: “Sapato? Sapato 100 pra você!”

Em caso de fuga, ela faz questão de puxar o indivíduo de volta pelo braço, repetindo “10! 10!” pela mesma camiseta que custava 70 yuans minutos atrás. O mesmo acontece com os camelôs, massagistas de rua, comerciantes de iogurte e outros.

Em Pequim quase ninguém fala inglês, nem mesmo os taxistas. Por isso é importante trazer consigo um cartão do hotel com indicações em chinês e algumas frases básicas em ideogramas, além de um smartphone com um aplicativo chamado Pleco. É muito perturbador ser analfabeta em mandarim, e até agora não sei por que dois taxistas se recusaram a me levar de volta ao hotel a partir do parque Jingshan. Só o que entendi foi “não, não” e a porta se abrindo. Também não compreendi o teor da briga (aos gritos) entre meu guia turístico e o motorista, mas tenho quase certeza de que era a meu respeito e fiz questão de gravá-la para pesquisas posteriores. Outro problema: o letreiro dos ônibus é escrito só em ideogramas.

Em território revolucionário vermelho, driblei as restrições da internet usando um serviço de Virtual Private Network (VPN), que conecta o computador virtualmente a uma rede local norte-americana e mascara o lugar físico onde ele se encontra. Assim pude acessar livremente o Google, o Facebook, certos jornais estrangeiros e o SongPop, joguinho virtual de adivinhação de músicas, que por algum motivo também é bloqueado.

A despeito das dificuldades, Pequim é tremendamente interessante. Na Cidade Proibida pode-se visitar o trono do imperador, o Jardim Imperial, o Hall da Elegância Literária e dezenas de casinhas com telhados cor de laranja; há também o suntuoso Palácio de Verão, o Mausoléu de Mao Tsé-Tung, o estádio Ninho de Pássaro e a praça Tiananmen, onde se veem guardas armados e detectores de metal por todos os lados.

Cospe-se muito na China. Há cinco anos, o escritor Antonio Prata foi a Xangai e descobriu que o governo estava engajado numa campanha para erradicar a escarrada no país. Queriam chegar à Olimpíada de 2008 com pelo menos 20% a menos de catarro nas ruas, mas, pelo visto, a luta continua. Em lugar de “Proibido fumar” ou “Não pise na grama”, o que mais se lê é “Proibido cuspir”. Não raro os arredores do aviso estão cercados de pequenas poças salivares.

 

FUTEPETECA E REPOLHO DE JADE

Apesar de soar uma redundância, impressionante mesmo é a Grande Muralha da China, edificação que vai serpenteando pelos picos gelados das montanhas feito um dragão, a perder de vista. Visitei a seção Remanescente de Badaling (Badaling Remnant Great Wall), onde, ao contrário da parte principal, não se avista um único turista em quilômetros. O local também não possui infraestrutura, o que contribui para a sensação de isolamento e imensidão.

Durante horas eu e o guia subimos e descemos ladeiras íngremes e escadarias de pedra, exploramos torres de observação milenares, escorregamos na neve e percorremos longos trechos da Muralha. Ele provavelmente tinha medo de altura e grudava-se às paredes nos momentos mais vertiginosos. No percurso inteiro, encontramos apenas uma família de turistas alemães e uma enorme fotografia do ator Jackie Chan em visita ao local. A sensação era de haver retrocedido 2 mil anos no tempo. Pude ouvir o exército mongol marchando ao longe e os opositores da dinastia Ming ameaçando nosso território, brandindo seus compridos bigodes.

O inglês do meu guia era truncado e a comunicação foi difícil, sobretudo nas primeiras horas do passeio – de acordo com o que entendi da explicação, o muro foi construído com latas de molho de tomate e era bastante joelho, assim como o shopping center cachorro yakult. Aos poucos, fui assimilando o sotaque e hoje ostento um curioso inglês macarrônico com toques asiáticos.

Casado, Daniel tem uma filha pequena, duas tartarugas e é fã do cinema de Hollywood. Disse que assistiu a Titanic três vezes e chorou em todas. Interessou-se pelo preço dos imóveis em São Paulo e disse que comprar uma casa em Pequim é quase impossível. Confessou que nunca saiu do país e queria aprender outras línguas.

De lá fomos a uma fábrica de jade para turistas, com repolhos gigantes esculpidos na pedra, e depois a uma degustação de chás. Jantei um caprichado pato laqueado à Pequim, com panquecas, pele crocante, molho missô e cebolinha.

Tirando a Muralha, os coloridos pôsteres de Mao, a praça Tiananmen e a Cidade Proibida, o melhor de Pequim são os parques e praças públicas, como o parque Tiantan, nos arredores do Templo do Céu. O espaço é ocupado por velhinhos exercendo práticas das mais variadas, como adeptos do tai chi, praticantes de lutas marciais com espada e bastão, grupos de ginástica, indivíduos se alongando, mulheres treinando coreografias com leques vermelhos, homens empinando pipas e brincando com bilboquês. Há um corredor imenso de gente dedicada ao carteado. Há grupos dançando em ritmos variados e uma trupe de senhoras que se reúne quase todas as noites numa praça perto da Cidade Proibida para executar dancinhas curiosas. No parque Jingshan há um espaço para tocar instrumentos musicais e cantar, onde conheci um compenetrado tocador de erhu e sua instrutora.

No parque Tiantan pratiquei o jianzi, uma espécie de futevôlei com peteca que é muito popular na China. Basta dizer que não fiz feio, embora o vento tenha prejudicado a minha performance nos momentos finais – e ainda que eu não tenha entendido as instruções em mandarim do capitão do meu time, que ria muito. Antes de partir, fui merecedora de uma garbosa peteca amarela. Todos riram muito. Espero que não tenha sido de mim.

Folha de S.Paulo – Poder
28/07/2013 – 14h15

VANESSA BARBARA
DE SÃO PAULO

Um dos aspectos mais marcantes dos protestos de rua no Brasil, desde o início, é a presença de muitos jovens com celulares e câmeras nas mãos, filmando a manifestação de todos os ângulos.

Se, por um lado, isso pode ser visto como um ponto fraco de uma geração que prefere postar a vida no Instagram antes mesmo de vivê-la, por outro pode ser facilmente interpretado como uma resposta à crise dos intermediários –tanto na política quanto na mídia–, uma tentativa de produzir contranarrativas e tomar para si a cobertura dos acontecimentos.

Quando os canais tradicionais não dão conta das novas demandas, surgem outros mediadores. Entre eles, a “Mídia Ninja” (sigla para “Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação”), coletivo que se dedica a filmar e transmitir os eventos usando a tecnologia 3G do celular.

Nos últimos dias, esse embate ficou evidente. Para o jornal britânico “The Guardian”, “com a TV Globo sob frequente ataque dos manifestantes, a Mídia Ninja se tornou uma fonte confiável de informação para muitos dos envolvidos”.

Durante passeata nas imediações do Palácio Guanabara, na segunda-feira (22), o estudante Bruno Ferreira Teles foi preso pela Polícia Militar, acusado de portar e arremessar um coquetel molotov contra a barreira policial.

A cena do confronto foi filmada e transmitida, via streaming, pela internet. Enquanto Bruno passava a madrugada na penitenciária, usuários das redes sociais compartilhavam vídeos que desmentiam as acusações: num deles, Bruno é visto na linha de frente, gritando palavras de ordem para os policiais, no momento em que o artefato incendiário é arremessado de trás.

Outra filmagem flagrou o anônimo que acendeu a bomba: de rosto coberto, ele veste uma camiseta de manga curta com estampa e calça jeans clara. É auxiliado por um rapaz com mochila nas costas. Já Bruno usa uma jaqueta, traz um óculos de proteção na testa e está sem mochila.

Ele foi solto pela manhã. Segundo o desembargador que analisou o caso, a prisão em flagrante não tinha fundamento concreto.

Ainda na noite de terça, o “Jornal Nacional” dedicou quase seis minutos aos protestos, incluindo a exibição de uma entrevista do rapaz à “Midia Ninja”. “Nas redes sociais, pessoas que acompanhavam a manifestação acusaram a PM de ter infiltrado policiais sem farda para provocar o tumulto”, informou o âncora.

Na edição de quarta (24), o “Jornal Nacional” teve acesso ao inquérito e revelou que, ao contrário do que tinha sido divulgado nas notas oficiais da polícia, Bruno não portava explosivos no momento da detenção. Também mostrou imagens em que ele é visto sem mochila. O governador e o secretário de Segurança do Rio se apressaram em declarar que as circunstâncias da prisão serão investigadas e haverá um pronunciamento na segunda-feira, dia 29.

“Vocês são do Mídia Ninja, né? Aquela que salvou o carinha lá?”, indagou um popular nas manifestações do final da semana, atribuindo a soltura de Bruno aos vídeos compartilhados pela internet e à cobertura dos ninjas.

O fato de haver muita gente filmando, além de ajudar a elucidar ocorrências, também é útil para inibir infrações de ambos os lados, como vandalismo e abuso de autoridade.

Na quinta-feira, houve uma mudança drástica na abordagem dos policiais, que apenas acompanharam a passeata – esmagadoramente pacífica. A certa altura, abriu-se até um canal de diálogo com a tropa de choque, que pediu para os manifestantes liberarem uma pista da avenida. Tendo ninjas como mediadores, a PM foi atendida.

NINJAS

O “Jornal Nacional” de terça (23) informou que, segundo a PM, sete pessoas foram detidas nas manifestações por “desacato, incitação à violência, formação de quadrilha, exposição ao perigo, resistência e dano qualificado”. Dessas, seis foram liberadas porque teriam praticado “crimes de menor potencial ofensivo”.

Mas quem seguiu ao vivo a cobertura da Mídia Ninja viu como foi arbitrária a prisão dos dois membros do grupo. O primeiro, Felipe Peçanha, foi abordado sem motivos, colocado num camburão e levado à delegacia, ainda que repetisse: “Mas por quê? Mas por quê?”.

O segundo caso foi ainda mais surreal: Filipe Gonçalves de Assis transmitia da porta da delegacia, onde questionava a prisão de seu colega quando um tenente o abordou.

“Existem indícios de que você está participando de uma incitação ao movimento”, disse, depois de receber ordens pelo celular. Nesse momento, foi levado para dentro da delegacia sob os olhos de 14 mil espectadores. Eles foram soltos horas depois.

Eu não entendo

Posted: 22nd julho 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Revista

Folha de S.Paulo – revista sãopaulo
21 de julho de 2013

por Vanessa Barbara

Até pouco tempo atrás, passando pelo túnel Rebouças, no sentido da Consolação, lia-se uma frase escrita no muro: “Eu não entendo”.

Irmão grafiteiro, seja você quem for, fica aí um recado: eu também não. Há anos não tenho compreendido coisa alguma, fora uma ou outra lei da física e a certeza de que o 177-H vai demorar pra passar.

Não entendo, por exemplo, por que existem 198 salões de beleza para cada cinema na cidade; por que há mais pet shops do que padarias; mais agências bancárias do que postos de saúde; por que a piscina do Pacaembu fecha às 16h45, inclusive no verão; por que os novos abrigos de ônibus não protegem contra a chuva, não têm assentos suficientes e nem quadros de informações sobre as linhas –ou seja, só servem de suporte publicitário.

Não entendo por que justo na avenida Higienópolis há um iate clube.

Não entendo uma menina andando na rua com uma toalha enrolada na cabeça; assim como não entendo por que sempre falta cloridrato de sertralina nos postos da farmácia Dose Certa.

Ilustração Catarina Bessel

 

Difícil compreender por que os serralheiros do Mandaqui muitas vezes chegam para trabalhar com soluço e sabem falar frases em sueco; por que o sindicato dos jornalistas, na República, me lembra uma mistura de repartição contábil com um consultório de dentista da década de 1970, repleto de funcionários destacados só para repor os copinhos de plástico.

Misteriosos também são os desígnios das mulheres que vão de carro até a academia; do metrô que não chega dentro da USP; das férias de 75 dias dos vereadores da Câmara.

Não dá pra compreender como ainda não despoluíram o Tietê e o Pinheiros; nem por que só um em cada dez orelhões costuma funcionar.

Escapam-me por completo as motivações de um certo passageiro de ônibus, um jovem oriental que sacou um cubo mágico da mochila e pôs-se a resolvê-lo numa velocidade incrível, sabendo realmente o que fazia, e dali a dez minutos concluiu a empreitada, levantou-se de um salto e desceu no ponto seguinte.

Não saberia dizer se ele teve um timing e um senso de oportunidade incríveis, desses que só acontecem uma vez na vida, ou se a ideia era descer exatamente quando tudo estivesse terminado; sei que o restante dos passageiros soltou um suspiro coletivo de admiração, louvando o espetacular (e modesto) prodígio do terminal Princesa Isabel.

Não entendo por que é tão divertido avistar um conhecido num lugar inesperado –outro dia vi o meu irmão subindo a rua do colégio Salesiano e quase me arremessei para fora da janela do ônibus, acenando animadamente. (Ele fingiu que não me viu.)

Não entendo por que na vida tudo passa, menos o 177-H.

18 de julho de 2013
Blog da CosacNaify

MINHA VIDA COM VANESSA BARBARA

Por Vanessa Rodrigues*
18/07/2013 às 12:12

A gente não se conhece, apesar das coincidências: temos o mesmo nome, somos jornalistas e escrevinhadoras, gostamos dos ínfimos detalhes da vida, como moscas ziguezagueantes, ávidas de cenas da vida real e fazemos aniversário no dia 14, embora em meses diferentes. Isso me dá alguma vantagem para quebrar o gelo.

Nunca nos vimos, muito embora tenhamos galgado já as mesmas calçadas. E vivemos o mesmo surto psicótico: observar o Terminal Rodoviário Tietê, em São Paulo (cidade onde vivi durante 5 anos), a segunda maior rodoviária do mundo (parece que a primeira é em Telavive, Israel), percebendo que é uma espécie de país neutro, uma súmula de Brasil, um tratado etnográfico. Bastam cinco minutos e até o escritor italiano Italo Calvino – autor de Cidades Invisíveis – ficaria louco, achando que todas suas urbes caberiam nesta anatomia. Regra básica: para entender esta central de “busões” temos de ser, porém, observadores participantes. E agora me cai nas mãos a missão de escrever sobre o livro de Vanessa. Como se escreve sobre um livro, no qual nos revemos, ou quem sabe, podemos mesmo ser personagem invisível?

 tiete1 A estação rodoviária Tietê (foto de C. Alberto)

 

Talvez a escritora e jornalista Vanessa Bárbara (VB) tenha me visto enquanto fazia trabalho de campo. Talvez a gente tenha se cruzado, lado a lado, observando a “cidade de coisas perdidas”, como ela apelida o Terminal. Talvez, quem sabe, tenhamos estado na mesma fila, ou pegado o mesmo ônibus. Em rigor, se passarmos pelo Terminal Tietê, qualquer um de nós pode ter partilhado um fragmento de vida com a autora. Não só porque o livro é carnalmente real, como também poderia ser o divã de todos nós, metafisicamente contemporâneo. 

Em todo o caso, minha vida com Vanessa debaixo do braço mudou um pouco. Deixa eu explicar melhor: minha vida com O livro amarelo do Terminal de VB se transformou em literatura, verdadeiramente, portátil, pela cidade do Porto, em Portugal. Virou uma espécie de ficção andante na primeira pessoa. Vamos por partes: o livro veio de avião, até Portugal, cruzando o Atlântico, quiçá sua estreia na Europa, na mala de dois amigos queridos, que mo compraram, porque na Cosac Naify ele estava esgotado e bem que, finalmente, merece esta reedição para acabar com o jejum.

Depois, é bom que se diga que eu levei “o Terminal” para passear pelos transportes públicos portugueses. Primeiro foi de ônibus, tomando a linha 602. Me acompanhou, ainda, de metrô, pegando a linha verde, até a estação da Trindade, outro centro nevrálgico da muvuca portuense.

livroamarelo2

Alguns passageiros, como eu, acharam estranho meu livro nas mãos (cheio de colagens e frases na capa e contracapa), sob meu olhar grudado em páginas amarelas (aliás, nome antigo para listas telefônicas comerciais), e tentavam driblar minha distração para ver se conseguiam decifrar o enigma da capa tão esquisita. Até porque, livro amarelo em Portugal é sinônimo de livro de reclamações.

O livro de Vanessa também tem gente reclamando, é um fato, mas, sobretudo, filosofia de botequim, gente graduada em vida e relações (ralações) humanas; tem gente simpática, preguiçosa, perdida, flirt, busologia (estudo de ônibus, claro), sapato velho, perdidos e achados, xerifes, caminhoneiros, faxineiros, arroz com feijão, notícia de jornal, amigos que nunca se viram, e até Gerador automático de Reportagens. E ela, a repórter de serviço, precisou de um ano para gerar esta longa-metragem da prosa-verdade, muita conversa fiada, aprendizado de telemarketing e anotações q.b., para dar conta do recado com tantos dados e histórias cruzadas, inteligentemente, sobre o Terminal. Nada é escrito à toa e sem um sentido de ligação.

Depois, Vanessa se mune de episódios caricatos:

São mais de 2 mil informações fornecidas diariamente pelas atendentes do balcão (117 por hora, quase duas a cada minuto). Respostas a todo o tipo de pergunta, feitas pelas pessoas mais incomuns e em qualquer idioma. ‘Você conhece aquela teoria de que o ser humano consegue se comunicar em qualquer lugar?’, é o que Rosângela responde, quando lhe perguntam se ela sabe falar inglês. Não, nenhuma delas sabe um idioma estrangeiro, conhece a linguagem de sinais ou decorou o tomo L da enciclopédia, mas parece não fazer diferença.

Poderia ser o design a grande originalidade deste livro (não deixa de o ser, claro), que resulta de um trabalho de fim de curso e a estreia da autora na literatura, mas há vida além do julgamento pela capa. A grande proeza desta obra é, sem dúvida, a mistura equilibrada de estéticas literárias: ora se serve do jornalismo narrativo, ora da técnica de roteiro, passeando pelo discurso direto e indireto, do grafismo neoconcretista, da técnica do microconto, para misturar recursos estilísticos como a metáfora, as onamotopeias, e a enumeração sui generis que abunda num terminal onde a overdose é apenas um eufemismo para a iniciação a São Paulo.

Isto só prova que esta paulistana balzaquiana, além de dominar muito bem os recursos da Língua Portuguesa, sintaxe, semântica, gramática, e estéticas literárias, sabe brincar com as palavras, reinventando um estilo eclético, para este livro-reportagem.

Depois, sua cadência de prosa acelerada, numa contemplação quase sem fôlego, por vezes, é um retrato fiel da fugaz São Paulo, com seus cerca de 15 milhões de habitantes. Por isso, esse terminal só pode ser a loucura desenfreada, como se estivéssemos olhando um filme em fast-forward. Só que é a vida real, nessa aceleração. Uma análise cirúrgica sobre a psicologia e os hábitos humanos, uma microscópica dissecação das rotinas quotidianas.

 


* Vanessa Rodrigues é jornalista independente. Nasceu em 1981, em Portugal. Viveu cinco anos em São Paulo, como correspondente da rádio portuguesa TSF e jornal Diário de Notícias. Atualmente colabora com a TSF, Revista (jornal Expresso) e Notícias Magazine.

** A foto da rodoviária Tietê foi extraída daqui.

Ode ao ebook

Posted: 15th julho 2013 by Vanessa Barbara in Blog da Cia. das Letras, Crônicas
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Blog da Companhia das Letras
15 de julho de 2013

Por Vanessa Barbara


Sou fã do cheiro dos livros, da maciez das lombadas, das manchas de café nas páginas, das dobras no alto das folhas e do volume físico que você pode morder, arremessar e brandir para matar baratas. Mas também sou entusiasta do livro eletrônico.

Quando ganhei um e-reader de presente no ano passado (um Kindle, da Amazon), agradeci polidamente e julguei que nunca iria usá-lo, como se fosse uma incômoda pipoqueira ou uma panela elétrica de fazer arroz.

O primeiro livro eletrônico que comprei foi a biografia do Steve Jobs, por motivos puramente práticos: faltavam menos de 100 páginas para terminá-lo e eu não queria ter que levar para a França um livro de 935 gramas. Rasgar os últimos capítulos não me parecia uma opção adequada. Então decidi concluir a leitura no aparelho.

Naquela temporada, que se estendeu por cinco meses, fui mandando de volta para casa todos os livros já lidos e fiquei com apenas um: aquela engenhoca acinzentada, sem cheiro nem peso, mas que podia conter as obras completas de todos os romancistas deprimidos, poetas suicidas e jornalistas bêbados que eu desejasse.

Foi assim que os acionistas da Amazon.com.br tiveram o melhor Natal de todos os tempos: sim, a culpa foi minha. Passei a comprar compulsivamente os últimos lançamentos em literatura estrangeira, as obras de referência em luto, os manuais práticos para cuidar de quelônios e tudo o que me parecia remotamente interessante (ou barato demais para ser dispensado). Tive acesso a livros que demorariam meses para chegar ao Brasil, a preços razoáveis. Passei a ler três vezes mais do que antes, sobretudo no ônibus, onde é sempre penoso portar volumes pesados. Comprei por engano um título sobre o desenvolvimento macroeconômico dos tigres asiáticos (maldito “Compre agora com 1-Clique”) e fui prontamente reembolsada.

Meses atrás, antes de passar 28 horas no avião, fui às compras e empilhei treze novos títulos na minha biblioteca portátil, diversificando os gêneros: de romances duvidosos a thrillers da moda, passando por tratados sobre a psicologia da rejeição, clássicos da literatura, guias de Hong Kong e contos completos do Conan Doyle. Fui alternando as leituras conforme meu estado de espírito, e na volta precisei comprar mais.

O Kindle básico custa R$299, possui capacidade para até 1400 livros, pesa 170 gramas e sua bateria aguenta 15 horas de leitura ininterrupta. O Kobo custa R$ 259, armazena até 1000 livros e sua bateria dura até um mês. Para quem passa muito tempo no transporte coletivo, é um item de extrema necessidade. É bom também para desdenhar das revistas ruins nas salas de espera dos consultórios médicos.

A oferta de livros em português ainda é muito baixa e os preços não são tão convidativos quanto poderiam, mas este cenário está mudando.

Para quem adora destacar trechos das obras que lê (hortifruti.org), os leitores de livros eletrônicos são bem práticos e agrupam todas as marcas num só arquivo, com a nota bibliográfica pertinente (título, autor, página).

Desde que aderi ao leitor de e-books, melhorei da lordose típica de quem carrega livros pesados. Minha mala de viagens também ficou mais leve, embora eu ainda insista em empacotar, junto com a escova de dentes, alguns tomos antigos de valor sentimental ou que não possuem versão eletrônica. (Confesso: a mala para esta Flip não continha um só livro “de verdade” e voltei com apenas dois, o que deve ser uma espécie de recorde às avessas. Por outro lado, a lista de futuras compras eletrônicas só aumenta.)

E a geringonça é discreta: você pode ler as coisas mais vergonhosas sem que ninguém o identifique como fã de Dashiel Hammett, de Agatha Christie ou de livros de zumbis do espaço.

* * * * *

Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. É autora da graphic novel A máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia., 2012, em parceria com Fido Nesti), O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo(Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e do infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista daFolha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
Site – Facebook

Antes do vôlei – Entrevista para o Rascunho

Posted: 15th julho 2013 by Vanessa Barbara in Clipping
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Jornal Rascunho
Julho de 2013

Vanessa Barbara. Foto: Nino Andrés

Foto: Nino Andrés/Divulgação CosacNaify

Para Vanessa Barbara, literatura é mais que uma “questão de status e posteridade”. A jornalista e escritora, nascida em São Paulo, em 1982, desenvolveu um estilo de escrita despreocupado e envolvente, seja na ficção, na crônica ou na reportagem. Seu trabalho de conclusão do curso de jornalismo se transformou em O livro amarelo do terminal, livro-reportagem sobre a rodoviária do Tietê lançado em 2008, mesmo ano de sua estréia na ficção, com O verão do Chibo, romance escrito em parceria com Emilio Fraia. Vanessa já se aventurou também no terreno dos infantis, com Endrigo, o escavador de umbigo (2011) e, mais recentemente, no dos quadrinhos, com a graphic novel A máquina de Goldberg (2012), em parceria com Fido Nesti. Como tradutora, já verteu obras de F. Scott Fitzgerald, Gertrude Stein e Art Spiegelman para o português, e agora trabalha numa tradução de Alice no país das maravilhas. Ainda cronista da Folha de S. Paulo e colaboradora da revista piauí, neste Inquérito, Vanessa confessa suas manias, revela seu método em casos de falta de inspiração e estipula um importante limite para a ficção.

• Quando se deu conta de que queria ser escritora?
Acho que até hoje não me dei conta. 

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Adoro usar ponto-e-vírgula, para desgosto de muitos; não sou fã de frases curtas e telegráficas, sobretudo as impactantes e pomposas. Adoro ler romances longos, prolixos e cheios de digressões, de preferência que se passem numa cidadezinha do interior da França. Ou na Rússia agrária.

• Que leitura é imprescindível no seu dia-a-dia?
A leitura de antes de dormir, que pode ser qualquer coisa entre um romance clássico, um thriller policial e um livro de estatísticas sobre divórcio.

• Se pudesse recomendar um livro à presidente Dilma, qual seria?
Se fosse a Dilma da revista piauí, eu certamente recomendaria O morro dos ventos uivantes ou alguma coisa caramelosa. Ela ia amar, se apaixonar pelo Heathcliff e reler para as tias na Noite do Fondue. (A piauí publica mensalmente o Diário da Dilma, escrito pelo Renato Terra.)

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Não existem; gosto de escrever quando estou no ônibus, a caminho de um compromisso, ou no chão do Sesc, esperando a hora de começar o vôlei, mas também em casa, de madrugada, no silêncio absoluto. Uma vez passei uma semana num hotel-fazenda para revisar um livro e deu certo também.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Antes de dormir, deitada na cama com o abajur ligado.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Depende do que estou fazendo: reportagem, tradução, crônica.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Eu gosto de reler os textos e ver que ficaram redondinhos, então entregá-los. Também é bom ler alguma coisa antiga e rir em voz alta, achar legal, dá uma satisfação boa. Outra coisa feliz é quando estou sem idéias de como começar um texto e decido sair pra fazer outra coisa, aí no caminho vou montando um parágrafo na minha cabeça, corrigindo e alterando palavras, até ficar perfeitinho. Então eu despejo no papel e é só continuar. Isso também acontece quando estou no banho, o que é pior, porque eu saio de toalha pingando pelo corredor, morrendo de medo de esquecer o parágrafo.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
Editores ruins ou negligentes.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
O oba-oba social, as fofocas do meio. Gosto de ficar bem longe.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
O Antonio Prata, melhor cronista da nossa geração. O Rubem Braga corinthiano.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Imprescindível: O demônio do meio-dia, de Andrew Solomon. Descartável: Hercólubus ou planeta vermelho, de V. M. Rabolú. Mentira, esse é legal.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
A pomposidade, o existencialismo forçado, o autor que se leva muito a sério e quer escrever algo profundo.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Vampiros? Micose? Cutelaria? Se bem que…

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
A praça Tito, um amontoado de mato e cadeiras velhas que alguém erigiu aqui perto, em memória do pai que morreu. Lá tem a inscrição: “Praça Tito — Favor não mexer nos móveis”.

• Quando a inspiração não vem…
Ah, ela vem. Eu me entupo de chicletes e puxo o texto com um fórceps.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Flaubert.

• O que é um bom leitor?
Aquele que não é analfabeto.

• O que te dá medo?
Lagartixas, autoridades, palhaços, metaleiros com voz fininha.

• O que te faz feliz?
Tartarugas, astronomia, sol, sapateado, vôlei, torta de limão, literatura, filmes antigos.

• Qual dúvida ou certeza guia seu trabalho?
A certeza de que depois deste texto eu posso escrever outro, depois deste livro um outro, e nada é tão importante para ser levado miseravelmente a sério, como se fosse uma questão de status e posteridade.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Que o texto tenha ritmo e fluidez, seja surpreendente e divertido para o leitor.

• A literatura tem alguma obrigação?
Não.

• Qual o limite da ficção?
Zebras infláveis. Quando chegou em zebras infláveis, tem que parar.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Ao PJ, que é um amigo meu que dança esplendidamente e é o melhor líder no rockabilly que eu já vi. Os ETs iam se divertir muito. Tem também o Fran, que no quesito lindy hop é o líder mais competente.

• O que você espera da eternidade?
Que lá tenha um bom sinal de internet.

Em boca fechada…

Posted: 15th julho 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas
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Revista Gloss
Julho de 2013

por Vanessa Barbara

“Como saber se um finlandês gosta de você? Fácil: se ele estiver olhando para o seu sapato em vez do dele.” Quem conta a piada é a escritora Susan Cain em “O Poder dos Quietos” (ed. Agir, 2012), falando da fama de introvertidos dos nórdicos.

Não sou finlandesa, mas poderia. Muitas vezes prefiro ficar em casa lendo em vez de ir a uma festa, fazer palavras cruzadas em vez de socializar com estranhos, assistir a um filme em vez de sair para beber. Gente muito animada me dá alergia, assim como rodinhas de violão estridentes. Dar entrevistas para a tevê me é tão prazeroso quanto tomar uma injeção.

O introvertido é uma pessoa sensível que se sente confortável tendo a si mesmo como companhia, prefere ambientes sossegados e gosta mais de ouvir do que de falar. Segundo Susan, um terço da população é assim. A introversão é um pouco diferente da timidez, que é o medo do julgamento social, e se define melhor pelo modo como respondemos aos estímulos, incluindo os sociais. Introvertidos sentem-se bem com menos estímulos e são atraídos pelo mundo do pensamento e do sentimento; extrovertidos pelas atividades e a companhia dos outros. Funcionam de forma diferente.

Ainda assim, ao longo da vida, aprendemos que introversão é um defeito. Na escola e no trabalho, a extroversão tornou-se um padrão opressivo que a maioria de nós acha que deve seguir.

Quando eu estava no ensino médio, tomei uma advertência por ser antissocial. Diziam que eu devia me esforçar para ser mais extrovertida, do contrário não seria nada na vida. Assim como muita gente, fui coagida a “sair da concha”.

Com o tempo, entendi que o ideal expansivo é uma bobagem. Ninguém deveria se sentir obrigado a ser quem não é; em lugar disso, deveríamos valorizar os introvertidos pelas suas qualidades singulares.

Hoje adoro jogar vôlei e dançar, mas sei que preciso recarregar a bateria ficando sozinha. Virei escritora em vez de repórter e não sinto necessidade de provar o meu valor sendo sociável o tempo inteiro.

E acho a maior graça quando me aconselham a “sair da concha”: respondo que ninguém diz isso ao molusco e boto de volta o fone de ouvido.

Apologia do vinagre

Posted: 11th julho 2013 by Vanessa Barbara in esquinas, Reportagens, Revista piauí
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Revista piauí n. 82
Julho de 2013

O ácido acético entra para a pauta da política nacional

por Vanessa Barbara

“Galera, por favor, esta é uma manifestação pacífica”, alertou no Facebook o jornalista Gilberto Americo da Silva. “Não deem motivos para discriminar o movimento: por favor, não consumam vinagre durante o trajeto; evitem as saladas”, pediu.

No rastro das manifestações populares que tomaram o país nas últimas semanas, um único tema conseguiu aglutinar a indignação de todos os setores da sociedade: a injusta criminalização do vinagre.

Tudo começou em 13 de junho, quando o jornalista Piero Locatelli foi preso por porte ilegal do produto enquanto cobria os protestos contra o aumento da passagem, no Centro de São Paulo. Assim como muitos manifestantes, ele trouxera uma garrafa de ácido acético a fim de neutralizar os efeitos do gás lacrimogêneo.

Num primeiro momento, a polícia alegou que o ingrediente poderia ser utilizado para fazer uma bomba caseira, misturado com bicarbonato de sódio. Depois argumentou que eram prisões preventivas, efetuadas apenas para averiguar a natureza do líquido. “Não tenho condições de pegar uma garrafa e saber que é vinagre. Só quem vai dizer com certeza é o Instituto de Criminalística”, declarou o tenente-coronel Ben-Hur Junqueira, comandante da operação.

Locatelli e outros suspeitos foram liberados algumas horas depois. Mas era tarde demais: àquela altura, a legalização do vinagre já tinha se convertido em bandeira popular na internet, onde se disseminaram memes como a expressão “V de Vinagre”, em referência aos quadrinhos V de Vingança. Em questão de horas organizou-se no Facebook uma Marcha pela Legalização do Vinagre, que uniu virtualmente 52 816 pessoas em franca apologia ao ácido.

Detalhe: a despeito do barulho, a ciência nunca comprovou a eficácia do vinagre para minimizar os efeitos do gás lacrimogêneo. Especula-se que o efeito seja apenas psicológico; alguns toxicologistas defendem que o uso do ácido acético pode até piorar a irritação das mucosas.

 

o latim vinum (vinho) + acer (azedo), o condimento consiste numa mistura de água e ácido acético, proveniente da fermentação do etanol. O vinagre existe há milhares de anos e é comumente servido como molho para saladas, embora possua uma infinidade de usos domésticos, industriais e médicos. Aplicado nos cabelos, serve para combater piolhos. Também é útil para remover manchas, eliminar pragas, curar soluços, tratar infecções causadas por fungos, cozer ovos, fortalecer plantas, desentupir pias, aliviar hematomas, lustrar dentaduras e prevenir o refluxo gástrico.

No evento do Facebook, a indignação era vistosa. Preocupado, o assessor de comunicação Rodrigo Pereira alertou: “Vinagre com repolho é uma receita de bomba usada há muito tempo pelos terroristas da Alemanha. Conhecida também como chucrute, a reação química ocorre no próprio corpo do terrorista, que se converte em uma arma química imprevisível de gases venenosos. O efeito é devastador em ambientes fechados como elevadores. É incontável o número de vítimas do chucrute.”

Foram postadas fotomontagens com a apresentadora Palmirinha Onofre sendo presa por porte ilegal do tempero, além de vídeos de microexplosões provocadas por vinagre e bicarbonato de sódio. Alguns manifestantes pediram seriedade. Em resposta, criou-se novo slogan: “Faça salada, não faça guerra.”

“O verdadeiro foco da nossa luta deveria ser combater os pontos de venda dessas substâncias”, reivindicou César Dias. “Aqui perto de casa, na Zona Leste, ele é vendido livremente, de forma organizada, num ponto de vendas chamado supermercado.”

O estudante Lucio Daleiro Ayala discordou: “Acredito que a legalização do vinagre para uso recreativo irá ajudar a combater o tráfico que ocorre há anos em nossa sociedade”, declarou, amparado pela maioria.

Nesses primeiros dias de luta, uma das grandes preocupações era estipular o volume (em litros) que diferenciaria o usuário do traficante, e se para os dependentes caberia internação compulsória. Na opinião do militante Kadu Vido, o vinagre é uma droga de entrada: “A pessoa começa por ele e, quando vai ver, já está cheirando gás lacrimogêneo e vendendo o corpo para pagar a passagem de ônibus.” Uma visitante, incrédula, concluiu que ele só podia estar sob o efeito de vinagre branco.

 

egundo enquete efetuada nos dias que se seguiram à proibição, 32% dos membros da comunidade virtual defendiam que se injetasse vinagre na veia. Outros 30% preferiam diluir a substância no Eno Guaraná, enquanto 22% o cheiravam. “Não uso entorpecentes tão poderosos”, foi a resposta de míseros 8%, e o restante se dividiu entre baforar, fazer chá e ingerir o produto com gás lacrimogêneo.

Como previsto, o movimento descambou para a clandestinidade: “Tenho vinagre do bão aqui. Dá pra cheirar, fumar, injetar, fazer bomba; filma, fotografa e reproduz MP3”, anunciou uma mulher. Firme, o líder João Alves pediu que não se perdesse o foco: “Temos de pensar na segurança e integridade da militante Palmirinha, uma das principais perseguidas políticas desta revolta.”

Tamanha controvérsia incentivou a empresa Flux Game Studio a desenvolver o jogo para Facebook V de Vinagre, em que o protagonista comanda um manifestante mascarado fugindo da polícia. Ao fim do jogo, após ser preso e levar uma surra, o herói recebe um rótulo de acordo com a quantidade de vinagre apreendida: desocupado, vagabundo, meliante e, no pior dos casos, comunista.

Em 16 de junho, finalmente, o secretário de Segurança de São Paulo, Fernando Grella, liberou o uso do produto para propósitos revolucionários e gastronômicos. Ainda assim, no Facebook, alguns militantes interpretaram a manobra como uma armadilha.

Quem deu a palavra final foi a engenheira de computação Cássila Kirst, que, experiente, sugeriu que os manifestantes fossem cautelosos e contrabandeassem vinagre dentro de armas de fogo.

Tô Rocco

Posted: 8th julho 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo
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Folha de S.Paulo
Festa Literária Internacional de Paraty – Flip 2013
8 de julho de 2013

por Vanessa Barbara

A última noite da Flip é sempre antológica, embora a maioria dos participantes não se lembre disso. É quando péssimas ideias são levadas a cabo, velhos inimigos de letras decidem levar suas divergências para o embate físico, e o pessoal, em suma, cede à tentação de dançar um hit do Michael Jackson com as mãos erguidas aos céus, preferencialmente fantasiado de imperador romano ou mulher das cavernas.

No sábado à noite, quando ocorrem congestionamentos bem paulistanos na ponte que dá acesso às tendas, nenhuma festa de editora ousa agregar todos os presentes, que se espalham pelos bares da cidade e pela praça da Matriz.

Lá pelas três da manhã, o cenário é de perda total: um homem pouquíssimo preocupado cavouca a terra da praça em busca de uma chave perdida (“É muito álcool”, explica). Uma menina empolgadíssima anuncia aos amigos: “Aí, galera! Tá rolando uns banheiros químicos! Quem vem comigo?”.

Numa micareta improvisada em que até os membros da banda estavam quimicamente alterados, um rapaz mantinha erguido o cartaz: “Fora Cabral”.

Ao longo da madrugada, correu o boato de que havia fartura de um produto do bom na casa onde se hospedava a equipe do blog literário Posfácio, e que o esquema de distribuição era open bar – em nome da precisão jornalística, esta repórter foi lá conferir e garante ter consumido boa parte do conteúdo de um pote branco com 114 unidades de pães de mel trazidas de Minas Gerais por um entusiasta do doce.

Outro momento da noite de que só os sóbrios se lembrarão (e somos cinco) inclui uma aparição-relâmpago do tradutor Samuel Titan Jr. na festa da editora Companhia das Letras, bradando: “Primeiro eu dou as caras, depois eu dou as costas”.

O Hamlet dos quelônios

Posted: 7th julho 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo

Folha de S.Paulo
Festa Literária Internacional de Paraty – Flip 2013
7 de julho de 2013

por Vanessa Barbara

Incógnito entre os escritores e intelectuais, Leonardo é o protagonista real de uma sórdida trama shakespeariana que envolve dissimulação, traição e vingança. O menino, de aproximadamente 11 anos, anda pelas ruas de Paraty vendendo trufas que “são mais gostosas do que parecem”.

Quem vê de longe não imagina a contundência de sua história, desenvolvida soberbamente num arco narrativo que durou cinco minutos.

Onisciente, ele sempre soube que sua antiga babá não era uma pessoa boa, embora o aparentasse. “Ela fritou a minha tartaruga”, acusa, “e eu soube disso porque instalei uma câmera”.

A ex-babá defendeu-se dizendo que o quelônio fugiu e que ela não conseguiu apanhá-lo, mas a desculpa era inverossímil e as imagens, incontestáveis. Como todo bom arquétipo de herói, Leonardo transformou o incidente em cruzada. “Já faz uns dois anos que me dedico a fazer da vida dela um inferno”, declara.

Demitida, a assassina de quelônios virou professora da turma dele. Botar cola na cadeira da docente e bagunçar os papéis da aula é o mínimo que os justiceiros mirins costumam praticar contra a vilã: “Um dia ela cochilou na aula e acordou de ponta-cabeça”, garante.

Outra passagem dramática desta Flip ocorreu na Tenda dos Autores, pouco antes da conferência de abertura sobre Graciliano Ramos. Seguranças barraram a entrada de uma sofrida cadela manca, que tinha um olhar literário e talvez fosse uma reencarnação da cachorra Baleia, de “Vidas Secas”.

Defensor dos aflitos, Leonardo não se pronunciou sobre o assunto. Especula-se que o dinheiro das trufas seja empregado em atividades clandestinas voltadas à reparação de crueldades aleatórias.

Leonardo é o herói trágico do ano.