Tela azul para prefeita

Posted: 17th setembro 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S.Paulo – Ilustrada
17 de setembro de 2012

por Vanessa Barbara

Nas últimas semanas, muito se falou da tela azul da Record News, um fenômeno de audiência que tem marcado em média 0,5 pontos (cada ponto corresponde a 60 mil domicílios).

Como o sinal da emissora é gerado em Araraquara, ela não é obrigada a exibir o horário eleitoral gratuito da capital. No entanto, por ser aberta, não pode colocar nada no lugar. Então veicula, duas vezes ao dia, por meia hora, um slide azul muito vivo e estático, avisando que se trata da faixa reservada à propaganda política.

A cerúlea imagem tem angariado mais espectadores do que certas emissoras no mesmo horário, e mais do que a própria Record News costuma obter com sua programação policromática.

A raiz desse fenômeno está no hábito de mudar de canal quando começa a propaganda eleitoral. Em busca de uma rota de fuga, quem não possui TV a cabo acaba sintonizando na tela azul, e por lá o aparelho permanece até que a programação volte ao normal. É como um alarme da hora da novela.

Tenho acompanhado as peripécias da efígie celeste com grande afinco, não por aversão ao horário eleitoral, que é bem divertido, mas por ter plena convicção de que se trata de uma das coisas mais interessantes que a televisão apresentou nos últimos tempos.

A tela azul, por exemplo, não teria coragem de começar um telejornal com observações engraçadinhas e trocadilhos espirituosos sobre o trânsito da cidade. A tela azul não oferece reviravoltas inverossímeis ou atuações vergonhosas como nas novelas, tampouco exibe imagens do Pantanal mato-grossense em especiais sobre plantas que curam.

Naquele cárdeo retângulo, nenhum comentarista esportivo fala platitudes no show do intervalo, nem há mulheres dançando em maiôs de zebra enquanto o auditório bate palmas, amestrado.

A tela azul não desbota e nem cede ao degradê só porque os níveis de audiência baixaram de repente; a tela azul não tira a camisa e nem conta piadas quando os produtores assim o determinam. Não dá prêmios aos primeiros que telefonarem e não tenta empurrar produtos de ginástica ou tônicos capilares aos espectadores, que tampouco precisam se submeter a sofríveis dicas de saúde e fofocas de celebridades.

Sem locuções melosas em off, a tela azul é uma bela surpresa na televisão brasileira.

Seus bons índices de audiência me fazem torcer para que outras emissoras sigam o exemplo, aumentando exponencialmente a qualidade média dos programas. 

Folha de S.Paulo – Ilustrada
10 de setembro de 2012

por Vanessa Barbara

Há pouco menos de um mês, estive em Londres para cobrir os Jogos Olímpicos. Foram três semanas de velocistas extraordinários quebrando recordes, nadadores corpulentos planando na superfície da água, gigantes segurando bolas de vôlei como se fossem laranjas, gente saltando, voando, dando piruetas triplas e caindo no chão com os dois pés, sob os aplausos do estádio lotado.

Estaria mais à vontade se ficasse para assistir à Paraolimpíada, que acabou ontem e foi transmitida no Brasil pelo SporTV. Esta, sim, trata de pessoas comuns tentando lidar com imprevistos da vida, divididas em categorias tão imperfeitas quanto seus participantes.

A natação, por exemplo, separa os atletas em catorze níveis de função e movimento. O grau de deficiência vai de um a dez para limitações físicas e motoras; quanto maior o número, menor a limitação. Um nadador S10, portanto, tem poucas restrições.

A numeração de onze a treze indica deficiência visual e a catorze inclui atletas com deficiência intelectual.

Por mais que se procure ser justo no nivelamento, é impossível padronizar deficiências, o que torna a competição ainda mais plural e interessante, com nadadores anões competindo lado a lado com atletas amputados.

A largada é tão alternativa quanto possível: alguns saltam do bloco, outros pulam de barriga, outros já saem de dentro da piscina, as pernas agarradas pelo técnico. No nado costas, muitos não têm braço para segurar a borda da piscina, por isso, antes do tiro de largada, agarram com os dentes as toalhas estendidas pelos treinadores.

Uns não têm pernas e usam os braços, outros nadam num estilo meio lontra, como o chinês Tao Zheng, que não possui os dois braços e ganhou o ouro nos 100 m costas. Há técnicas ousadas de respiração, comemorações com o cotoco, nadadores de uma perna só e bastões para guiar os cegos. Houve um anão que entrou de motoca, todo pimpão, e um russo que agradeceu ao público em linguagem de sinais.

E como sorriem os atletas paraolímpicos – sorriem o tempo todo, aplaudindo a si mesmos.

Uma boa surpresa nessa cobertura é que o SporTV escalou um comentarista cego para os eventos de atletismo: Hilário Moreira Neto, que recebe a ajuda do guia Delton Leuri para explicar as provas.

“Com o perdão do trocadilho, assim a gente consegue ter uma visão melhor do que está acontecendo”, brincou Hilário.

A Hortaliça – edição #089

Posted: 8th setembro 2012 by Vanessa Barbara in Hortaliças

É couve no dente
#089 – São Paulo, 7 de setembro de 2012
Edição olímpica
Vida de tocha é fogo
hortifruti.org

“É de onde não se espera nada que não sai coisa alguma.”
(Barão de Itararé)


“Só eu e meu pai, naquela casa, é que compreendíamos os tomates.”
(Samuel Beckett, Primeiro Amor)

:: EDITORIAL ::

Como é largamente sabido pela comunidade hortifrutigranjeira, esta Hortaliça foi convidada por um grande conglomerado da mídia a cobrir a Olimpíada de Londres, de 27 de julho a 13 de agosto do corrente, ao que decidimos aproveitar a oportunidade para coletar ainda mais dados estratégicos desses povos excêntricos e irrelevantes que ainda não se dobraram à dominação colonizadora da Força Expedicionária Mandaquiense.

Reunimos, nesta edição, algumas das observações etnográficas que ficaram de fora da cobertura oficial do evento. Esta pode ser vista em https://hortifruti.org/category/cronicas/folha/londres-2012.

Por hoje é só.

:: HAIKAI: REGRAS DA CASA ::
De um proprietário do Airbnb.com

Seja amigável
Converse com o dono da casa
Trate bem o pássaro

:: NOTÍCIAS DOS JOGOS OLÍMPICOS DE 2064 ::
Cortesia de Marcos Barbará

– Medalha de ouro no judô, robô naturalizado japonês se emociona ao lembrar de engenheiro que o fabricou
– Chinês de 7 anos bate recorde dos 400 metros medley nadando os quatro estilos simultaneamente
– Ronaldinhozinho fracassa em levar o Brasil ao primeiro ouro olímpico no futebol
– Australásia do Sul perde para o Reino da Venezuela na lambada esportiva
– Romeno muda de sexo duas vezes durante os Jogos e ganha ouros no arremesso de peso masculino e feminino
– Sob a batuta de Clébernylson, Brasil garante medalha no Guitar Hero
– Estreando novo cérebro artificial, rainha Elizabeth participa de cerimônia de abertura

:: AMSTERDÃ, 1928 ::
O australiano temente ao pato

O australiano Henry Pearce disputava as quartas-de-final no remo skiff simples contra o francês Victor Saurin. No meio da prova, Pearce estava um pouco à frente quando se deparou com uma família de patinhos cruzando perigosamente sua raia. Sem hesitar, o australiano abandonou sua busca pela glória olímpica para permitir que Mamãe Pato e seus patinhos nadassem em fila indiana até a outra margem, de forma despreocupada e tranquila.

Ao término da travessia, ele conseguiu retomar o ritmo e vencer a prova, classificando-se para a semifinal, a qual também ganharia, a exemplo da final, conquistando a medalha de ouro para alegria dos humanos e dos ovíparos.

:: ESTOCOLMO, 1912 ::
O japonês que mudou de ideia
 
Fazia um calor incomum na Suécia durante os Jogos de 1912, e para piorar, a prova mais desgastante, a maratona, começava ao meio-dia. Dentre os competidores estava o japonês Shizo Kanaguri, um dos primeiros asiáticos a competir em uma Olimpíada. Ao fim da primeira metade da prova, muitos competidores já tinham desistido por conta do calor, mas Kanaguri resistia heroicamente, ainda que tenha deitado no percurso por duas vezes. Ao passar por um bosque, o japonês se deparou com uma família sueca fazendo um animado piquenique naquele domingo glorioso. Convidado a se unir a eles, não foi necessário um segundo pedido para convencer Kanaguri, que aceitou a generosa oferta e bebeu suco de framboesa até pegar no sono. Ao acordar, percebeu que era muito tarde para retomar a corrida, então pegou um trem direto ao porto, onde, envergonhado, decidiu não contar a ninguém o que tinha acontecido, retornando de volta ao Japão.
 
Após a corrida, a organização localizou os 33 corredores que não haviam terminado a prova – exceto Shizo Kanaguri, que foi dado como desaparecido. A situação se tornou uma anedota popular na Suécia, onde se usava o nome do japonês para denotar algo que havia sumido sem explicação.
 
Em 1962, no 50º aniversário dos Jogos, um jornalista sueco foi ao Japão tentar descobrir pistas sobre o paradeiro de Kanaguri. Eis que o japonês é encontrado dando aula de geografia na cidade de Tamana. Kanaguri não tinha ideia que ele era uma celebridade na Suécia e cinco anos depois, aos 76 anos de idade, foi contratado para a inauguração de uma loja de departamentos em Estocolmo. De lá foi caminhando até o Estádio Olímpico, onde, para o delírio dos suecos, correu até a linha de chegada, completando a maratona que havia iniciado 55 anos antes.

:: SEMELHANÇAS ENTRE A VILA OLÍMPICA E A VILA OLÍMPIA ::

– Ambas são de difícil acesso
– De dia todo mundo trabalha, à noite todo mundo bebe
– Há muitos seguranças barrando a entrada de mandaquienses
– Ambas são artificiais
– E muito caras
– Você só pode ver de longe, e uma vez a cada quatro anos
– Tem que levar lanche de casa
– Impossível arrumar um apartamento por lá

:: CONSELHO DE CAMPEÃO ::
Cortesia de Michael Phelps

Tudo bem fazer xixi na piscina. Todo mundo faz.

:: 200 M RASOS NO MOONWALKING ::
Cortesia de Paulo Henrique Martins

É preciso entender que certas atitudes drásticas são justificáveis dentro de um contexto. Jim Lee havia viajado vários dias de trem, de Myanmar até Londres, somente para poder desfrutar do ambiente do Parque Olímpico. Depois de ter ido a Pequim quatro anos atrás, ele precisava ver o que Londres havia aprontado dessa vez.

Foi, portanto, compreensível a decepção de Jim Lee ao chegar em Stratford e ver que as entradas para visitar o Parque Olímpico não estavam mais disponíveis à venda; só visitava a região quem tivesse ingressos para ver as competições. Jim Lee se esforçou: tentou comprá-los, mas já não restava nenhum disponível. Passou horas na frente da estação com um cartaz avisando que queria ingressos – e pagava bem por eles, mas foi alertado pela polícia que era uma prática ilegal e ele poderia ser preso. Voltar para casa sem ter entrado no Parque Olímpico seria uma decepção sem tamanho.

Naquela sexta-feira, Jim Lee tomou uma atitude drástica. Foi até Stratford e posicionou-se de costas ao portão de saída do Parque Olímpico. Encarando a fonte do shopping Westfield, Jim Lee começou a sentir as pessoas passando por ele, aqueles que haviam assistido às primeiras provas do dia, saindo do Parque em bando. Sem olhar pra trás, começou a fazer o moonwalking.

Os seguranças a princípio estranharam. Parecia que alguém vinha em direção ao Parque Olímpico, mas não fazia sentido: a pessoa estava de costas e andava para frente. Provavelmente estaria saindo. Não? Um deles, desesperado, puxou da mochila o manual de regras que havia recebido para tomar conta daquela saída. Ele deveria barrar todo mundo que tentasse entrar pela saída, mas aquele homem parecia estar saindo pela saída, só que ao contrário. Junto com outro voluntário, viravam páginas desesperadamente procurando instruções sobre como proceder naquela situação. Enquanto isso, Jim Lee, andando para frente e indo para trás, passava com naturalidade pela linha de pessoas de camisa magenta, e o público que saía do Parque Olímpico desviava dele.

Assim ele foi indo. Em pouco tempo, ultrapassou os portões. Começou a cruzar a ponte que levava e trazia transeuntes, só que a cruzou pelo lado contrário, mas virado para o lado certo, só que andando na contramão. Ou algo assim. Passou por baixo de uma placa com um letreiro que, pelo que ele podia ler, agradecia a visita ao Parque Olímpico. Mais à frente, virou à direita e pôde ver o Orbit em frente, o grande estádio olímpico à sua esquerda e a multidão andando ainda em todos os sentidos. Jim Lee havia entrado.

A visita do rapaz, entretanto, poderia ser mais agradável. Em nenhum momento Jim Lee se sentiu seguro o suficiente para abandonar o moonwalking e voltar a andar normalmente. Quando saiu do Parque Olímpico pela entrada, leu o aviso de “Bem-Vindo” e passou pelos detectores de metais sem ter a mala devidamente vistoriada. Foi acusado de furar fila ao contrário e só parou quando a catraca do metrô lhe impediu de continuar andando para trás.

:: ATRIBUÍDO A ::
Winston Churchill

Não se ganha uma guerra com alface nos dentes.

:: COISAS DA INGLATERRA ::
Da Seleções do Reader’s Digest, maio de 1965

Há muitos anos, a relutância dos marinheiros em navegarem às sextas-feiras atingia tais proporções que o Govêrno Inglês resolveu provar a falácia da superstição. Iniciaram a construção de um navio numa sexta-feira, lançaram-no ao mar em outra sexta-feira, denominaram-no H. M. S. Friday (sexta-feira), e fez-se ao mar numa sexta-feira.
O plano teve apenas um inconveniente: nunca mais se ouviu falar do navio nem da tripulação.
— Our Navy

Recentemente, o Rev. Michael Newman e outras cinquenta pessoas caminharam dez quilômetros e subiram trezentos metros até Dartmoor para um serviço religioso de madrugada. Alguém perguntou ao reverendo por quê, e ele explicou:
– Estávamos revivendo um velho costume, mas ninguém se lembra exatamente qual.
— Quote

:: POR DIVERSÃO ::
Time Out, 9-15 de agosto de 2012

Você sabia?
Londres tem sua própria força voluntária de informações sobre ônibus noturnos

Todas as sextas e sábados à noite, há um sujeito que fica sentado no ponto da Trafalgar Square fornecendo informações impecáveis aos bêbados sobre os ônibus noturnos. Ele não cobra nada e não é contratado por ninguém. Só faz isso por diversão.

:: A CADA DEZ SEGUNDOS ::
Sam Levenson

Somewhere on this globe, every ten seconds, there is a woman giving birth to a child. She must be found and stopped.
[Em algum ponto do planeta, a cada dez segundos, uma mulher dá à luz uma criança. Precisamos encontrá-la e detê-la.]

:: HISTORINHA ::

No trem para Cardiff, um brasileiro gritava ao celular: “Alô? Só pra avisar que consegui os ingressos. Queria agradecer por ter procurado pra mim. Hoje cedo achei que não ia conseguir… Mas arrumei os ingressos, Neymar, obrigado.”

:: THE EMPTY SEAT @OLYMPIC SEAT ::
Time Out, 9-15 de agosto de 2012

Esta semana, ele alcançou 20 mil seguidores, mas ainda não logrou abrigar um só traseiro.

@Assento_Vazio: Minha mãe queria que eu seguisse uma carreira mais estável, como por exemplo tornar-me uma cadeira da Ikea. Mas achei que estava destinado a algo maior.
@Assento_Vazio: Esperei sete anos por esse momento. Sete anos, e pra quê?
@Assento_Vazio: Estou me sentindo um fracasso.

:: BRIAN, O POMBO ::
Time Out, 9-15 de agosto de 2012

Um relatório semanal do nosso correspondente olímpico aviário, que está literalmente cobrindo os Jogos Olímpicos de 2012, em Londres

Quase tão rápido quanto começou, já está quase no fim. Não acho que já vi duas semanas passarem tão rápido. E olha que chacoalhei meu traseiro gordo por toda parte. Voei de Soho até Stratford, depois pela M4 até Eton Dorney, então voltei pela M40 até Wembley. Tem sido incrível. Uma das melhores coisas é flanar pelos shows gratuitos no Hyde Park. Esse chão coberto de serragem foi um toque de gênio. Nada como mascar um naco de serragem úmida para animar o dia. Também nunca vi tantos carrinhos de comida. Macarrão, curry, batatas fritas, salsichas, cerveja. Há todo tipo de comida que você pode imaginar, e os comensais estão sempre sentados no chão vendo esportes no telão. Batatas e salgadinhos voando por toda parte. Pombos de todas as procedências estão vindo se juntar à festa. Trombei com um casal de Birmingham que veio para acompanhar o basquete. O melhor lugar é geralmente nos bastidores: cheio de gente desperdiçando canapés por cima dos ombros. Aqui não. Os bastidores vivem vazios. Curti a tarde com Sophie Ellis-Bextor e o The Feeling, antes do show de semana passada. Quando digo que “curti”, quer dizer que cisquei por baixo da mesa e fiquei lá por um tempo. Ainda assim, estive perto o suficiente e dei uma porção de rasantes quando eles tocaram naquela noite. Só foi esquisito quando fiz cocô sem querer na cabeça do Johnny Vaughan justo quando ele concluía seu show, transmitido ao vivo pela Absolute Radio. Decerto a última coisa de que ele precisava. Johnny, se você estiver lendo isto: foi mal, cara. Não tive a intenção. Apenas escapou.

:: ENCRENQUEIRO ZÉ COLMÉIA É FERIDO EM ACIDENTE DE TREM ::
Metro (Londres), 3 de maio de 2012

Um legítimo urso Zé Colméia que prefere roubar comida a sair para caçar está em situação crítica após ser atropelado por um trem. O urso mal teve tempo de deixar as manchetes desde que acordou de seu período de hibernação este ano: primeiro, foi acusado de assaltar lixeiras e cutucar colméias na Áustria e na Suíça.

Depois, o animal microchipado largou um carrinho de neve após utilizá-lo para afiar suas garras e, na semana passada, usou um poste de luz como coçador de costas, provocando um incêndio florestal. Agora, ao que tudo indica, está ferido e escondeu-se numa caverna após ter sido atropelado por um trem entre as cidades de Scuol e Klosters, na Suíça.

O urso, chamado de M13 pelos especialistas, perdeu o irmão M14 no mês passado, atropelado por um carro na Itália.

:: A GRANDE FUGA DE HOUDINI ::
Com informações da BBC, em 1 de maio de 2012, e do Metro, 3 de maio de 2012

Um hamster em fuga causou a seus donos um prejuízo de mil libras após abrir caminho mascando os fios elétricos do carro da família. Apropriadamente chamado de Houdini, o rato alcançou o motor durante uma viagem em que seria levado para sua nova residência, em Micklover, Derbyshire, numa caixa de papelão. Foi localizado e recuperado pelo Automóvel Clube depois de uma busca de duas horas no Passat. “Tivemos que desmantelar o carro. Tiramos o porta-luvas e o volante, então o homem do Automóvel Clube lançou um facho de luz com a lanterna por trás do rádio e gritou: ‘Acho que posso vê-lo!'”. Então abriram o capô e, quando surgiu a cabecinha de Houdini, o retiramos de lá.

“Ele parecia indiferente à comoção”, declarou a proprietária, Victoria Cooper.

Não foi o fim da aventura, já que, no dia seguinte, Houdini teve de ser resgatado da mandíbula do gato da família.

O hamster custou 7 libras num pet shop.

:: BÊBADOS PAGAM MULTA POR FURTAR PINGUIM ::
Metro (Londres), 3 de maio de 2012

Dois turistas bêbados que invadiram um parque temático e roubaram um pinguim chamado Dirk foram multados em mais de 600 libras.

Rhys Jones, 21, e Keri Mules, 21, naturais de Cardiff, também nadaram com golfinhos e entraram numa jaula de tubarões para acionar um extintor de incêndio. Mas, em vez de guardar segredo sobre suas façanhas, a dupla gabou-se no Facebook e foi denunciada à polícia de Brisbane, Austrália.

Eles beberam grandes quantidades de vodca numa festa e escalaram o portão do Sea World, em 14 de abril. Na manhã seguinte, acordaram no apartamento ao lado de Dirk, um pinguim de sete anos.

Jones e Mules tiraram fotos e fizeram vídeos do animal antes de liberá-lo num canal da região. Ele foi visto por um passante e resgatado pelo Sea World.

Os galeses se declararam culpados por invasão, furto e captura de animal selvagem. O juiz Brian Kucks recomendou à dupla: “Da próxima vez que estiverem numa festa, deviam considerar beber um pouco menos de vodca”.

:: MELHOR PONTO DE VISTA JORNALÍSTICO ::
Evening Standard, 4 de maio de 2012

Título da matéria: Ken planeja cuidar de jardim enquanto sua campanha se prepara para a derrota

Ken Livingstone declarou hoje que pretende praticar um bocado de jardinagem, enquanto encara a possibilidade de derrota nas eleições municipais. O candidato do Partido Trabalhista declarou ao Standard que só espera que não chova este fim de semana. Fontes da campanha admitem que são baixas as chances de vitória para o ex-prefeito.

No quintal de sua casa em Cricklewood, Livingstone, 66, afirmou: “Meu futuro imediato não é diretamente afetado pela vitória ou pela derrota. Minha cunhada acaba de se mudar para uma nova casa e eu prometi que cuidaria de seu jardim neste feriado”.

“Espero que não chova. O canteiro está coberto de ervas daninhas e eu adoro cuidar disso”.

:: PROIBIDO TREPAR EM ÁRVORES E EMPINAR PIPAS ::
Evening Standard

Os administradores da subprefeitura de Enfield estão sendo chamados de estraga-prazeres após proibir as crianças de trepar em árvores e empinar pipas nos parques da região. Mais de 40 regras foram introduzidas no bairro, incluindo o veto à prática de aeromodelismo e skate de forma “irritante e perigosa”.

Adultos pegos no descumprimento da lei podem levar uma multa de 500 libras, enquanto crianças ficarão sujeitas às leis de comportamento antissocial, criadas para deter vândalos e vizinhos barulhentos. Dizem as normas: “A nenhum cidadão é permitido, sem desculpa razoável, subir numa árvore”.

Andar de bicicleta fora das vias específicas também é proibido. […] As pessoas estão sujeitas a multas por nadar em lagos, jogar golfe, “andar a cavalo de forma que prejudique os demais”, usar detector de metais ou andar de skate de forma “irritante” ou perigosa.

:: PESQUISA DE OPINIÃO ::
do Direct Matin

36% dos americanos acreditam na existência de extraterrestres, segundo uma pesquisa efetuada pelo National Geographic. E 65% dos entrevistados pensam que o presidente Obama se sairia melhor do que Mitt Romney, seu adversário republicano nas eleições presidenciais, na eventualidade de uma invasão alienígena.


(acima, nuvem com o formato da Grã Bretanha)

:: NUVENS QUE SE PARECEM COM OUTRAS COISAS ::
Metro (Londres), 3 de maio de 2012

Gavin Pretor-Pinney, 43, é fundador da Sociedade de Apreciação das Nuvens. Seu best-seller Guia do Observador de Nuvens foi publicado em 2007. Ele também é autor de Nuvens Que Se Parecem Com Outras Coisas.

Metro: A Sociedade de Apreciação das Nuvens possui quantos membros?
Gavin Pretor-Pinney: 29.534 associados e continua crescendo. É uma ideia que se espalhou de forma viral. As pessoas costumam observar nuvens quando crianças – olhando para o céu e identificando padrões – e, mesmo que hoje reclamem delas, o afeto ainda permanece. Nossa sociedade lembra às pessoas que as nuvens não precisam ser fontes de lamúria.  

M: Há um perfil típico do associado?
GPP: Não. Já chegaram a comprar títulos de afiliação para bebês, e nosso membro mais idoso tem 96 anos. O perfil varia de físicos de nuvens a fotógrafos que apreciam o fenômeno por sua beleza estética. Não há um membro típico, embora nos vejamos como pessoas que enxergam a beleza no dia-a-dia.

M: Quais são os principais objetivos e atividades da sociedade?
GPP: Lembrar que não é preciso cruzar o mundo para encontrar o exótico. Há aspectos estonteantes de natureza à nossa volta, basta mudar ligeiramente a perspectiva. Seríamos mais felizes se não desejássemos sempre estar em outro lugar do mundo, um lugar sem nuvens no céu. Se apreciássemos essa beleza, seríamos mais felizes.

M: Por que você fundou a sociedade?
GPP: Foi numa palestra no festival de literatura de Cornwall, em 2004. Me pediram para fazer uma palestra sobre nuvens, mas fiquei com medo que ninguém aparecesse, então a chamei de “Palestra Inaugural da Sociedade de Apreciação de Nuvens”. Depois disso, as pessoas vieram pedir para se associar. Começou como uma piada, mas as melhores ideias surgem quando você está numa disposição leve e despreocupada.

M: Quais são as suas estatísticas preferidas sobre nuvens?
GPP: As gotas de água numa cumulus média, essas que têm consistência de lã e surgem nos dias de sol, têm o peso de oitenta elefantes. As gigantescas cumulus nimbus podem ter o dobro da altura do Everest.


:: GIRAFA’S ::

Entrevista com a atriz Joanna Lumley, 66, mais conhecida pelo papel de Patsy em Absolutely Fabulous. Ela diz que gostaria de reencarnar como uma girafa.

:: NOTAS BIOGRÁFICAS ::
Redigidas pelo meu irmão

1) Em meados de 1986, fomos todos a Itu e lá entramos no estádio do Ituano. Tem foto minha e sua com o Delei, reserva do Ituano que provavelmente nos deu o único autógrafo de sua vida esportiva.

2) Em 8 de janeiro de 1995, fui com o papai à Rua Javari e lá encontramos o Professor Pupo Gimenez, técnico dos juniores do Corinthians na época. Apesar do jogo não ser do Corinthians, era do mesmo grupo, o que motivou a frase do papai para o Professor Pupo Gimenez, que provavelmente não queria ser reconhecido: “SEU PUPO, VEIO VER OS ADVERSÁRIOS???” (aprox. 170 decibéis). O jogo era Juventus x Juventude, placar de 3-0 para o Juventus.

:: FRASES OUVIDAS ::

“Vai, Brasil! Tem que ganhar porque é o único ingresso que a gente tem.”

“Vai, vermelho!”

“Força, azul!” (Numa partida de vôlei de praia em que os dois lados eram alemães.)

:: VIDA DE TOCHA É FOGO ::
Temas esparsos desta Olimpíada

– BBC e sua transmissão Cléber-Machadiana: o locutor especialista em vôlei dessa reputadíssima emissora inglesa pareceu arrasado com a vitória do Brasil contra os Estados Unidos, na final do vôlei feminino. Durante o primeiro set (no qual as ianques ganharam de lavada, por 25×11), ele só faltava trazer a mãe para cumprimentá-las, empolgadíssimo com a performance americana e já botando terra em cima da tumba das adversárias. Em comentários deprimentes, observou que os pontos brasileiros “apenas adiavam o inevitável”, ou seja, a derrota, e ironizou qualquer ataque certeiro das meninas. Fez comentários pessoais sobre a habilidade de cada uma e ressaltou a superioridade inconteste das estrangeiras. Mas, ao que parece, as brasileiras devem ter ouvido a narração, porque voltaram com sangue nas órbitas.

A partir do segundo set, o time protagonizou uma bela virada, e o que se ouvia na locução da BBC eram longos minutos de silêncio. Durante os pontos finais, pouco antes do ouro brasileiro, parecia até que o locutor tinha ido embora. Ele ainda tentou se justificar por um tempo, quase atribuiu a recuperação brasileira a uma tática norte-americana ou a um milagre religioso, e então desistiu. Entregou a locução ao Senhor.

O mesmo aconteceu em outras partidas de vôlei. Ele parecia triste, macambúzio em suas narrações, verdadeiramente infeliz com as partidas. Cada ponto era apenas uma confirmação de sua lamentável visão de mundo, no que pareceu uma nova tática de locução da BBC, destinada a deprimir o espectador para que não saia de casa nunca mais e continue dando boas audiências à emissora.

– Usain Bolt costuma ir ao McDonald’s e pedir vinte nuggets antes de correr. Não consegui desenvolver essa informação. Só ficou a dúvida: qual seria o molho preferido do velocista?

– Onde é que a tocha dorme durante sua passagem pelo mundo?

– Por que a seleção búlgara de basquete estava caminhando pelo Parque Olímpico se a Bulgária não foi classificada para a modalidade? E mais: poderiam os bons resultados do país no vôlei ser atribuídos a ela?

:: ATÉ UM FILATELISTA ::
De um episódio da série Tatort

Você está começando a ficar paranoico, Moritz. Nós temos cristãos, ateus, muçulmanos, esotéricos. Um ou dois maçons. Temos até um filatelista!

:: BONGÔ! BONGÔ! ::

É hora de quebrar o silêncio da grande imprensa e revelar, em primeira mão, a melhor coisa da Olimpíada 2012: a pausa do bongô. Em poucas palavras, é o seguinte: no intervalo das partidas de basquete, entravam dançarinos apresentando coreografias de street dance. Ou uma equipe de corda chamada Get Tricky, que distraía o público com truques atléticos na arte de pular corda, rodopiando, saltitando em fileiras e trançando grossas cordas. No intervalo do vôlei de praia, meninas de biquíni com grandes bolas de plástico dançavam ao som de Beach Boys, numa das atrações mais cafonas dos Jogos.

No intervalo das partidas de vôlei, porém, era o Homem frente a frente com o Bongô. Um duelo de corações e mentes numa excêntrica simbiose. O apresentador pimpão e anedótico ficava ao microfone entretendo o público e levantando questões básicas da modalidade, numa inútil tentativa de ganhar tempo para o que realmente importava: o bongô. A certa altura, no telão, ele exibia um desenho do instrumento. Ao fundo, a trilha sonora. Pedia que a câmera desse closes em torcedores e, ao vivo, instava-os a batucar o instrumento imaginário – não houve quem saísse incólume da experiência, e devo confessar que assisti uma final única e exclusivamente por causa do bongô. Treinei em casa, inclusive. A alguns afortunados, o apresentador concedia palavras elogiosas como: “Claramente não é a sua primeira vez”, ou: “Você nasceu pra isso, cara!”. Quando a câmera focalizava uma senhora idosa, o povo ia ao delírio. Alguns chegavam a hesitar, desacostumados a passar vergonha dessa forma, mas a plateia urrava e o sujeito acabava cedendo. E com gosto: alguns batucavam cruzando as duas mãos, ou com a cabeça, outros ficavam de pé e sapateavam no tambor.

Um dos únicos a resistir foi uma celebridade do basquete inglês, um certo jogador que assistia seus compatriotas do vôlei e foi focalizado nos primeiros instantes do intervalo. Soberbo, não só resistiu ao apelo do bongô como virou-se de costas, recebendo um apupo instantâneo da multidão. Sua seleção perdeu vergonhosamente no dia seguinte, e dizem que foi culpa da arrogância perante o bongô.

Na foto acima, um anônimo cede ao desvario musical.

:: NOTÍCIA ::

“Tênis: No. 1 do mundo perde e ainda prende cabelo na raquete”.

Esse tipo de notícia me dá um senso de comunhão com a humanidade.

:: EU DURMO COMIGO ::
Angelica Freitas

eu durmo comigo/ de bruços deitada eu durmo comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão longa em que não durma comigo/ como um trovador agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo comigo às vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo vai ter que dormir ao lado.

:: ANOTAÇÃO ESPARSA ::

Durante a Batalha de Poitiers (1356), o exército inglês fez um cerco para capturar João II, da França. Para se esconder, o monarca francês tirou suas túnicas reais, anéis e colares, e se misturou a multidão. Contudo, os soldados ingleses o capturaram sem dificuldades em poucos minutos. João II era a única pessoa que estava de coroa.

:: REPÚDIO AO COLEGA ::

Considerei bastante infeliz a observação do colega Antonio Prata em sua coluna na Folha no último dia 5 de agosto, na qual proclamou a corrida um esporte de fujões. Em sua tocante defesa do levantamento de peso, este sim um desporto notável, ele chega a falar de um mundo “decadente e esquálido, em que a virilidade escorreu pelo ralo”.

Deveria o chocarreiro escrivão refletir um pouco e considerar uma questão essencial: que esportes seriam realmente úteis na eventualidade de um apocalipse zumbi? Qual a serventia, afinal, do levantamento de peso diante de um ataque de mortos-vivos? E da marcha atlética, essa piada que deu certo?

Já o treinamento em atletismo, arco-e-flecha, tiro e arremesso de dardo seriam determinantes para a sobrevivência da humanidade e perpetuação da espécie.

:: MALLEUS MALEFICARUM ::
Colaboração de Adriano Marcato

[…] Caso semelhante é relatado por São Gregório em seu primeiro diálogo: uma freira que comeu alface sem ter antes feito o sinal da cruz foi depois liberada (da possessão demoníaca) pelo padre Equitius.

:: AS COISAS ::
Georges Perec

Assim viviam, eles e seus amigos, em seus pequenos apartamentos abarrotados e simpáticos, com seus passeios e seus filmes, seus grandes jantares fraternos, seus projetos maravilhosos. Não eram infelizes. Alguns prazeres de viver, furtivos, evanescentes, iluminavam seus dias. Certas noites, depois de jantar, hesitavam em se levantar da mesa; terminavam uma garrafa de vinho, beliscavam nozes, acendiam cigarros. Certas madrugadas, não conseguiam dormir e, meio sentados, recostados contra os travesseiros, um cinzeiro entre eles, conversavam até de manhã. Certos dias, passeavam batendo papo horas inteiras. […] Bastava estar ali, na rua, num dia de frio seco, de muito vento, bem agasalhados, no cair da tarde, se dirigindo sem pressa, mas em bom passo, a uma casa amiga, para que o menor de seus gestos — acender um cigarro, comprar um saquinho de castanhas assadas, se esgueirar no tumulto de uma saída de estação de trem – lhes parecesse a expressão evidente e imediata de uma felicidade inesgotável.

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Agradecimentos
Aos de sempre. Obrigada.

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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado — logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie Avari, a moradora mais ilustre da rua Paulo da Silva Gordo)   ## Você está recebendo !!Witzelsucht!! porque estava na mala direta. Ou então, ou então! Você está recebendo o !Rododendro! porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis, sorteados em uma grande urna chinesa. Você e o To Fu, que ganhou o direito de trazer um tufo de nenúfares e furar a fila. Caso não queira voltar a receber este jornalzinho, mande um e-mail para hortalica@gmail.com e diga na linha de assunto: “Foi demais para Kudno Mojesic”, mesmo que você não seja — e nem queira ser — Kudno Mojesic.

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Matando personagens

Posted: 4th setembro 2012 by Vanessa Barbara in Blog da Cia. das Letras, Crônicas

Instantâneo de “Murder by the book” (1971), episódio da série Columbo

Blog da Companhia das Letras
4 de setembro de 2012

por Vanessa Barbara

Instantâneo de “Murder by the book” (1971), episódio da série Columbo.

É um pouco como o “Assassino Terrivelmente Lento Com Arma Extremamente Ineficaz”, curta-metragem de Richard Gale sobre um sujeito que tenta cometer homicídio usando uma colher. “Isso vai soar ridículo, mas ele tem uma colher e dói pra burro”, conta a vítima ao telefone, enquanto o psicopata lhe aplica petelecos com o referido talher.

Mais ridículo ainda é o esquivo assassino da caneta, aquele escritor que, por tédio ou pura maldade, resolve um dia sair da cama e matar um de seus personagens. Assim de repente, entre o almoço e o cochilo da tarde, muitas vezes sem sentir remorso. Pior ainda é quando se trata de um herói, alguém que sinceramente não merecia terminar seus dias atropelado por uma horda de gnus ou atingido por um presunto em queda livre.

“Seja sádico”, recomenda Kurt Vonnegut em suas oito regras para escrever contos. “Não importa o quão doces e inocentes sejam seus protagonistas, faça acontecerem coisas horríveis com eles para que o leitor perceba do que são feitos.”

O psicopata da caneta segue à risca essa norma. Tal qual um Todo-Poderoso, não se importa em causar sofrimento às próprias criaturas, e, quando bem entende, pode eliminá-las no espaço entre um capítulo e outro, muitas vezes sem maiores explicações.

Kafka transformou um de seus personagens em artrópode e sujeitou outro a um pesadelo burocrático fatal; Flaubert induziu uma senhora ao adultério e a matou logo depois; Shakespeare causava tanto sofrimento que levava os outros ao suicídio; Bernard Cornwell começou guerras sangrentas; Stephenie Meyer tem personagens muito ruins e não mata nenhum deles, o que talvez seja pior.

Agatha Christie passava o fim de semana empenhada em arrumar formas engenhosas para eliminar inocentes, pesquisando sobre venenos que não deixam rastros e formas de se obter uma morte lenta e dolorosa; já Stephen King esperava que seus óbitos fossem apenas grotescos, traumáticos. J. K. Rowling diz ter chorado após matar um personagem central de Harry Potter e, quando seu marido perguntou por que então o fazia, ela explicou: “Não é assim que funciona. Quem escreve livros infantis deve ser um assassino implacável”.

Tenho lá minhas reservas e acredito que o escritor deva firmar um contrato de responsabilidade existencial com seus livros, tomando para si a culpa de traumatizar leitores e fazer marmanjos chorarem quando Gandalf é engolido pelo Balrog e só torna a aparecer lá pelo fim do livro, transformado num guru cinzento pouco convincente. Muitos autores deviam ser levados a julgamento a fim de justificar, perante os leitores, se a morte do personagem era realmente necessária e se não havia um jeito melhor de levá-la a cabo — tropeçar e cair nunca é uma opção honrada, assim como não se morre de morte natural nos melhores romances.

Eu mesma tenho um homicídio no currículo: a morte de um de meus personagens mais queridos, o besouro Bob, de O verão do Chibo, por problemas abdominais a esclarecer, isso sem falar numa lagartixa anônima covardemente esmagada, que despencou da árvore com seus olhinhos pidões. Em A Máquina de Goldberg, graphic novel que escrevi em parceria com o Fido Nesti (sairá em breve pela Quadrinhos na Companhia), passei noites em claro me torturando por não ter tido coragem de matar uma tartaruga.

O autor, enfim, tem total responsabilidade pelos seus atos, cenas e diálogos, de modo que, em literatura, estamos cercados de homicídios dolosos. Não consigo imaginar um escritor assassinando acidentalmente um personagem. Há sempre premeditação, frieza, uns quatro ou cinco capítulos preparatórios em que as engrenagens são postas em ação e a pobre vítima segue distraída para o matadouro. Há também preliminares emocionais, como nesses romances em que a gente sabe que alguém vai morrer só porque ganhou destaque de repente, em cenas lacrimosas com seus entes queridos e demoradas passagens ilustrativas de sua história, sua relevância e intenções neste mundo.

Um personagem morto pode continuar a viver na existência dos demais, ou, pior, pode ser ressuscitado por um autor sem escrúpulos, pela pressão financeira de um editor mesquinho ou por puxar os pés de seu criador todas as noites. Sherlock Holmes é um desses casos, e é por essas e outras que não se recomenda decapitar ninguém na literatura. Nunca se sabe quando será preciso suturar o pescoço à cabeça.

E por falar em decapitação indiscriminada e extermínio satisfeito de quase a totalidade de seu próprio elenco, algum dia vão levar a julgamento George R. R. Martin, de As crônicas de gelo e fogo. Esse vai pegar, no mínimo, prisão perpétua. Ou uma pena de morte diligentemente aplicada pelo Assassino Terrivelmente Lento Com a Arma Incrivelmente Ineficaz.

* * * * *

Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
Site – Facebook

Cadernos Expedicionários – Usain Bolt

Posted: 4th setembro 2012 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários, Crônicas
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Usain Bolt, para a revista Sport de 27 de julho de 2012

“Nos minutos anteriores à corrida, eu aceno para a multidão e penso em qualquer coisa que não seja o que estou prestes a fazer. Em geral penso em jogos de computador, porque amo jogar e eles distraem a minha mente”, declarou.

O favorito de Bolt é Black Ops, um sangrento jogo de guerra para PlayStation 3. Então se você acha que ele está pensando em sua estratégia para a corrida, é mais provável que ele esteja ocupando a mente com assassinato.

**

Revista Sport: É verdade que você tem um filhote de guepardo de estimação? 
Bolt: Sim, e ela já está grande. O nome dela é Lightning [Relâmpago] e não a vejo muito, pois mora no Quênia. Eu apenas sou seu patrocinador. 

RS: Pensa em trazê-la para morar com você?
Bolt: Não, cara, ela está enorme. Grande demais pra isso.

RS: Já apostou corrida com ela?
Bolt: Ainda não, mas acho que poderia ganhar.

O home theater do Pateta

Posted: 3rd setembro 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S.Paulo – Ilustrada
3 de setembro de 2012

por Vanessa Barbara

Em fins de 2007, os estúdios Disney lançaram um curta-metragem de animação tradicional, com ares de anos 50, intitulado “O home-theater do Pateta”.

Exibido no festival Anima Mundi e nos intervalos do Disney Channel, o vídeo foi recentemente incluído no DVD “Pura Risada com o Mickey: Volume 1”, coletânea de histórias clássicas do rato e seus amigos.

Nele, ao melhor estilo “Pateta nas Olimpíadas”, o protagonista decide comprar e instalar um sistema de home-theater para ver partidas de futebol.

Quem já precisou conectar um simples aparelho de videocassete numa tevê de tubo sabe do que estamos falando. O pomposo narrador, saído diretamente d’antanho, anuncia o passo a passo para usufruir dessa tecnologia avançada “que praticamente coloca o torcedor em campo”.

“A jornada celestial começa com alguns componentes fundamentais: o DVD, o CD, o LD, o DVR, o VCR, o receptor de áudio, cabos de vídeo, cabos de TV, antenas de satélite, o Blu-ray, o Green-ray, o Y de alta definição, o HDMI, o Pi e o E=mc2”, ele diz. “Ah! E não esqueça as pilhas. Elas não estão incluídas.”

Com sua alegria inquebrantável, Pateta empilha tudo num carrinho de supermercado e vai escolher a tevê. “Um modelo de tamanho conservador é a opção mais prudente”, sugere o narrador, enquanto Pateta tira o chapéu para uma tevê extravagante e diz: “Eu te amo”.

A excruciante ansiedade pela entrega do produto (das 8 às 5 da tarde) também é retratada. Por fim, a pilha de caixas chega, soterrando a casa de bolinhas de isopor.

Após remover os cabos de áudio e vídeo de sua amigável embalagem de segurança (mostra o Pateta com uma marreta), é preciso ligá-los aos conectores apropriados, “que estão convenientemente localizados na parte de trás da tevê”.

O moderno sistema de som inclui uma dezena de caixas para garantir uma acústica perfeitamente balanceada: “O canal central, equalizadores da esquerda e da direita, outro mais à esquerda, outro mais à direita, caixas de surround, caixas de surround com surround, bastante som para o caso de ter algum surdo na sala, e o super importante subwoofer”.

A essa altura, Pateta já pendurou um emaranhado de caixas acústicas no lustre, abriu um buraco na parede, encheu uma mesa de controles remotos e ganhou uma dezena de aparelhos piscando 12h00.

Quase perde o horário do jogo.

A garbosa drogaria do seu Décio, onde nem o Google Street View consegue chegar

Por que o Mandaqui está virando um reduto sem mandaquienses

Folha de S.Paulo – DNA paulistano
2 de setembro de 2012

por Vanessa Barbara

Encravado entre os bairros de Santana, Imirim e Tremembé, o Mandaqui é uma espécie de Brooklin da Zona Norte. Ou melhor: uma mistura de Brooklin, Santa Cecília e Júpiter. (É distante, divertido, inacessível e aqui o celular não pega tão bem.)

O Mandaqui se localiza a 10 km do centro. Em dias normais, são 40 minutos de ônibus até a praça da Sé e uma hora e meia até a avenida Paulista. Aqui as ruas são íngremes, há muitas ladeiras e poucas calçadas em situação decente. Há casas térreas e moradores antigos, os vizinhos se conhecem relativamente bem e os cachorros andam soltos por aí, com seus nomes de gente. (O Menelau era o meu preferido.)

Mas mesmo o Mandaqui tem mudado. Cada vez menos se vêem nativos nas ruas, andando para ir ao seu Décio (a farmácia) ou ao Roberto (dono da ótica no comecinho da avenida Santa Inês). Os mandaquienses, que vergonha, aderiram em massa aos seus possantes, automóveis lustrosos e tunados com que fazem todo tipo de tarefa cotidiana. Hoje em dia, há provavelmente mais automóveis do que mandaquienses. E mais estacionamentos do que parques.

É, sem dúvida, um dos bairros paulistanos que mais sofrem com essa estúpida valorização do carro que está matando a cidade: com o transporte público cada vez pior, mais demorado e mais cheio, todo mundo se acha no direito de ter um carro. E é cada vez mais difícil viver no Mandaqui, com ou sem carta de motorista.

Percorrer a avenida Voluntários da Pátria, por exemplo, saindo de Santana em direção ao bairro, é um exercício de amor à vida. Em dias calmos, o percurso de 4 km leva menos de 15 minutos, com o vento batendo na cara quando se está no banco alto do coletivo. Experimente fazer esse trajeto em dias úteis ou em horário de pico: só no trecho entre o terminal de ônibus e o supermercado Pastorinho você pode levar meia hora, espremido atrás de uma fila de carros numa estanque quermesse local. Não há corredores de ônibus e nem metrô próximo (o mais perto é o Jardim São Paulo, mas não há linhas pra lá, só uma lotação que passa na Zumkeller).

Cresci jogando bola na rua, e hoje em vez de mandaquienses, parques, bicicletas, clubes e campinhos, há funilarias, concessionárias e fumaça de escapamento.

A nova novela das duas

Posted: 27th agosto 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S.Paulo – Ilustrada
27 de agosto de 2012

por Vanessa Barbara

Segundo a máxima de que a Justiça tarda, mas não falha, o julgamento do mensalão na última quinta-feira começou às 14h25, com um atraso de 25 minutos.

Ayres Britto e suas ombreiras deram início à plenária, que se estendeu até o anoitecer com uma única atração: o prosseguimento do voto do ministro Ricardo Lewandowski sobre as acusações de corrupção contra o deputado João Paulo Cunha e Marcos Valério.

Tomando um cafezinho após o outro, o grisalho Lewandowski, uma espécie de Clint Eastwood da mesóclise, tocou a absolver todos os réus da rodada. Passou uma eternidade elencando os valores alocados para a veiculação de propaganda em cada organização e veículo de imprensa (citar a Fundação Ubaldino do Amaral foi o ápice), e fiquei pensando se esse tipo de enumeração seria realmente necessária – já não estaria registrada nos documentos entregues pelo ministro aos seus nobres pares?

Lewandowski abusou da expressão “no sentido de”, atual substituta do “a nível de” no vocabulário do empolamento verbal. Usou as palavras “cerebrina” e “escorreita” antes mesmo do intervalo para o lanche, que demorou cerca de 40 minutos.

Acompanhar o julgamento do mensalão revelou-se uma opção de entretenimento mais interessante do que a de outras emissoras: na FOX Sports, o time peruano León de Huánuco enfrentava o equatoriano Deportivo Quito pela Copa Sul-Americana; no canal Bem Simples passava a segunda temporada do programa de costura “Ponto e Linha”; no Net Cidade São Paulo, a “Hora do Pescador”; e no RIT a florista Osmarina tirava suas dúvidas com um cardiologista.

A sessão terminou com um “cliffhanger”: o ministro Joaquim Barbosa, relator do processo, levantou-se e disse que, na próxima plenária, responderá às divergências apontadas pelo eminente colega. Com verve de protagonista, o revisor Lewandowski dirigiu-se ao presidente Ayres Britto: “Também peço que me reserve espaço para responder. Se houver réplica, deverá haver tréplica”.

Britto recusou o pedido sob a alegação de que, segundo o regimento, o relator tem proeminência sobre o revisor na condução do processo. “Claro que é uma leitura muito particular que Vossa Excelência faz”, ironizou Lewandowski.

Nos minutos finais, ele ameaçou ausentar-se do pronunciamento de Barbosa, ao melhor estilo “não brinco mais”.

Não percam o capítulo de hoje, a partir das 14h, na TV Justiça.

Neymar e batata frita

Posted: 20th agosto 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S.Paulo – Ilustrada
20 de agosto de 2012

por Vanessa Barbara

Uma mesa-redonda de futebol formada só por crianças: foi da TV Cultura a melhor ideia televisiva do ano, o “Cartãozinho Verde” (seg. a sex., 19h15). Na bancada, torcedores de 8 a 11 anos representando os maiores times paulistas, mediados pela atriz Cristina Mutarelli.

Os programas são curtos (menos de 15 minutos) e discutem os acontecimentos futebolísticos do dia. À diferença dos debates “adultos”, neste cada um assume de antemão suas preferências – mas, curiosamente, não há ofensas e nem bate-boca.

Ainda assim, a cada dia, os meninos se soltam mais. O melhor é quando desatam a falar ao mesmo tempo, empolgados com algum lance em específico, ou quando alguém dispara um comentário como: “E o goleiro, que não conseguia botar o calção?”.

Gosto dos apartes entusiasmados e sem sentido, que vêm do âmago dos pequenos fanáticos. A final da Libertadores foi narrada da seguinte maneira: “Quando o Corinthians fez o primeiro gol, meu dente estava mole e eu estava comendo maçã. Aí comecei a mexer nele e arranquei”, disse o são-paulino Pedro Crema, de 8 anos, que gosta de churrasco, de matemática e do desenho “Cocoricó”.

“O meu primo, quando foi o segundo gol do Corinthians, chutou a mesa, caiu farofa em cima do celular da minha mãe, o santinho voou para a cozinha, vixe”, narrou Matheus Ribeiro, 9 anos, que gosta de Neymar e batata frita. A apresentadora ficou na dúvida: “Seu primo estava totalmente contra?”. E a resposta: “Não, ele gostou. Foi sem querer.”

O corintiano João Braga, 8 anos, temeu quando o goleiro Júlio César foi levantar a taça porque “ele tem mão de alface”. Num exemplo de elegância e autocontrole, contemporizou: “Tudo bem que o Corinthians foi campeão da Libertadores, mas eu acho essa taça muito feia”.

O palmeirense Eric Lanfredi é o mais maduro do time, com 11 anos. Num dos programas, seu pai foi convidado para falar sobre preparação de goleiros, e certamente não esperava a (excelente) metralhadora de perguntas a que foi submetido, com espaço até para a questão: “É melhor luva com bolinha ou sem bolinha?”.

Nada supera um comentário infantil vindo do nada, sem presunção de especialista e nem objetivo aparente. No meio da discussão, o pequeno Pedro levantou a voz e disse: “O pai do meu amigo encontrou o Riquelme no restaurante”.

“Ah, é?”, retrucou a apresentadora, sem ação.