O home theater do Pateta

Posted: 3rd setembro 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S.Paulo – Ilustrada
3 de setembro de 2012

por Vanessa Barbara

Em fins de 2007, os estúdios Disney lançaram um curta-metragem de animação tradicional, com ares de anos 50, intitulado “O home-theater do Pateta”.

Exibido no festival Anima Mundi e nos intervalos do Disney Channel, o vídeo foi recentemente incluído no DVD “Pura Risada com o Mickey: Volume 1”, coletânea de histórias clássicas do rato e seus amigos.

Nele, ao melhor estilo “Pateta nas Olimpíadas”, o protagonista decide comprar e instalar um sistema de home-theater para ver partidas de futebol.

Quem já precisou conectar um simples aparelho de videocassete numa tevê de tubo sabe do que estamos falando. O pomposo narrador, saído diretamente d’antanho, anuncia o passo a passo para usufruir dessa tecnologia avançada “que praticamente coloca o torcedor em campo”.

“A jornada celestial começa com alguns componentes fundamentais: o DVD, o CD, o LD, o DVR, o VCR, o receptor de áudio, cabos de vídeo, cabos de TV, antenas de satélite, o Blu-ray, o Green-ray, o Y de alta definição, o HDMI, o Pi e o E=mc2”, ele diz. “Ah! E não esqueça as pilhas. Elas não estão incluídas.”

Com sua alegria inquebrantável, Pateta empilha tudo num carrinho de supermercado e vai escolher a tevê. “Um modelo de tamanho conservador é a opção mais prudente”, sugere o narrador, enquanto Pateta tira o chapéu para uma tevê extravagante e diz: “Eu te amo”.

A excruciante ansiedade pela entrega do produto (das 8 às 5 da tarde) também é retratada. Por fim, a pilha de caixas chega, soterrando a casa de bolinhas de isopor.

Após remover os cabos de áudio e vídeo de sua amigável embalagem de segurança (mostra o Pateta com uma marreta), é preciso ligá-los aos conectores apropriados, “que estão convenientemente localizados na parte de trás da tevê”.

O moderno sistema de som inclui uma dezena de caixas para garantir uma acústica perfeitamente balanceada: “O canal central, equalizadores da esquerda e da direita, outro mais à esquerda, outro mais à direita, caixas de surround, caixas de surround com surround, bastante som para o caso de ter algum surdo na sala, e o super importante subwoofer”.

A essa altura, Pateta já pendurou um emaranhado de caixas acústicas no lustre, abriu um buraco na parede, encheu uma mesa de controles remotos e ganhou uma dezena de aparelhos piscando 12h00.

Quase perde o horário do jogo.

A garbosa drogaria do seu Décio, onde nem o Google Street View consegue chegar

Por que o Mandaqui está virando um reduto sem mandaquienses

Folha de S.Paulo – DNA paulistano
2 de setembro de 2012

por Vanessa Barbara

Encravado entre os bairros de Santana, Imirim e Tremembé, o Mandaqui é uma espécie de Brooklin da Zona Norte. Ou melhor: uma mistura de Brooklin, Santa Cecília e Júpiter. (É distante, divertido, inacessível e aqui o celular não pega tão bem.)

O Mandaqui se localiza a 10 km do centro. Em dias normais, são 40 minutos de ônibus até a praça da Sé e uma hora e meia até a avenida Paulista. Aqui as ruas são íngremes, há muitas ladeiras e poucas calçadas em situação decente. Há casas térreas e moradores antigos, os vizinhos se conhecem relativamente bem e os cachorros andam soltos por aí, com seus nomes de gente. (O Menelau era o meu preferido.)

Mas mesmo o Mandaqui tem mudado. Cada vez menos se vêem nativos nas ruas, andando para ir ao seu Décio (a farmácia) ou ao Roberto (dono da ótica no comecinho da avenida Santa Inês). Os mandaquienses, que vergonha, aderiram em massa aos seus possantes, automóveis lustrosos e tunados com que fazem todo tipo de tarefa cotidiana. Hoje em dia, há provavelmente mais automóveis do que mandaquienses. E mais estacionamentos do que parques.

É, sem dúvida, um dos bairros paulistanos que mais sofrem com essa estúpida valorização do carro que está matando a cidade: com o transporte público cada vez pior, mais demorado e mais cheio, todo mundo se acha no direito de ter um carro. E é cada vez mais difícil viver no Mandaqui, com ou sem carta de motorista.

Percorrer a avenida Voluntários da Pátria, por exemplo, saindo de Santana em direção ao bairro, é um exercício de amor à vida. Em dias calmos, o percurso de 4 km leva menos de 15 minutos, com o vento batendo na cara quando se está no banco alto do coletivo. Experimente fazer esse trajeto em dias úteis ou em horário de pico: só no trecho entre o terminal de ônibus e o supermercado Pastorinho você pode levar meia hora, espremido atrás de uma fila de carros numa estanque quermesse local. Não há corredores de ônibus e nem metrô próximo (o mais perto é o Jardim São Paulo, mas não há linhas pra lá, só uma lotação que passa na Zumkeller).

Cresci jogando bola na rua, e hoje em vez de mandaquienses, parques, bicicletas, clubes e campinhos, há funilarias, concessionárias e fumaça de escapamento.

A nova novela das duas

Posted: 27th agosto 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S.Paulo – Ilustrada
27 de agosto de 2012

por Vanessa Barbara

Segundo a máxima de que a Justiça tarda, mas não falha, o julgamento do mensalão na última quinta-feira começou às 14h25, com um atraso de 25 minutos.

Ayres Britto e suas ombreiras deram início à plenária, que se estendeu até o anoitecer com uma única atração: o prosseguimento do voto do ministro Ricardo Lewandowski sobre as acusações de corrupção contra o deputado João Paulo Cunha e Marcos Valério.

Tomando um cafezinho após o outro, o grisalho Lewandowski, uma espécie de Clint Eastwood da mesóclise, tocou a absolver todos os réus da rodada. Passou uma eternidade elencando os valores alocados para a veiculação de propaganda em cada organização e veículo de imprensa (citar a Fundação Ubaldino do Amaral foi o ápice), e fiquei pensando se esse tipo de enumeração seria realmente necessária – já não estaria registrada nos documentos entregues pelo ministro aos seus nobres pares?

Lewandowski abusou da expressão “no sentido de”, atual substituta do “a nível de” no vocabulário do empolamento verbal. Usou as palavras “cerebrina” e “escorreita” antes mesmo do intervalo para o lanche, que demorou cerca de 40 minutos.

Acompanhar o julgamento do mensalão revelou-se uma opção de entretenimento mais interessante do que a de outras emissoras: na FOX Sports, o time peruano León de Huánuco enfrentava o equatoriano Deportivo Quito pela Copa Sul-Americana; no canal Bem Simples passava a segunda temporada do programa de costura “Ponto e Linha”; no Net Cidade São Paulo, a “Hora do Pescador”; e no RIT a florista Osmarina tirava suas dúvidas com um cardiologista.

A sessão terminou com um “cliffhanger”: o ministro Joaquim Barbosa, relator do processo, levantou-se e disse que, na próxima plenária, responderá às divergências apontadas pelo eminente colega. Com verve de protagonista, o revisor Lewandowski dirigiu-se ao presidente Ayres Britto: “Também peço que me reserve espaço para responder. Se houver réplica, deverá haver tréplica”.

Britto recusou o pedido sob a alegação de que, segundo o regimento, o relator tem proeminência sobre o revisor na condução do processo. “Claro que é uma leitura muito particular que Vossa Excelência faz”, ironizou Lewandowski.

Nos minutos finais, ele ameaçou ausentar-se do pronunciamento de Barbosa, ao melhor estilo “não brinco mais”.

Não percam o capítulo de hoje, a partir das 14h, na TV Justiça.

Neymar e batata frita

Posted: 20th agosto 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S.Paulo – Ilustrada
20 de agosto de 2012

por Vanessa Barbara

Uma mesa-redonda de futebol formada só por crianças: foi da TV Cultura a melhor ideia televisiva do ano, o “Cartãozinho Verde” (seg. a sex., 19h15). Na bancada, torcedores de 8 a 11 anos representando os maiores times paulistas, mediados pela atriz Cristina Mutarelli.

Os programas são curtos (menos de 15 minutos) e discutem os acontecimentos futebolísticos do dia. À diferença dos debates “adultos”, neste cada um assume de antemão suas preferências – mas, curiosamente, não há ofensas e nem bate-boca.

Ainda assim, a cada dia, os meninos se soltam mais. O melhor é quando desatam a falar ao mesmo tempo, empolgados com algum lance em específico, ou quando alguém dispara um comentário como: “E o goleiro, que não conseguia botar o calção?”.

Gosto dos apartes entusiasmados e sem sentido, que vêm do âmago dos pequenos fanáticos. A final da Libertadores foi narrada da seguinte maneira: “Quando o Corinthians fez o primeiro gol, meu dente estava mole e eu estava comendo maçã. Aí comecei a mexer nele e arranquei”, disse o são-paulino Pedro Crema, de 8 anos, que gosta de churrasco, de matemática e do desenho “Cocoricó”.

“O meu primo, quando foi o segundo gol do Corinthians, chutou a mesa, caiu farofa em cima do celular da minha mãe, o santinho voou para a cozinha, vixe”, narrou Matheus Ribeiro, 9 anos, que gosta de Neymar e batata frita. A apresentadora ficou na dúvida: “Seu primo estava totalmente contra?”. E a resposta: “Não, ele gostou. Foi sem querer.”

O corintiano João Braga, 8 anos, temeu quando o goleiro Júlio César foi levantar a taça porque “ele tem mão de alface”. Num exemplo de elegância e autocontrole, contemporizou: “Tudo bem que o Corinthians foi campeão da Libertadores, mas eu acho essa taça muito feia”.

O palmeirense Eric Lanfredi é o mais maduro do time, com 11 anos. Num dos programas, seu pai foi convidado para falar sobre preparação de goleiros, e certamente não esperava a (excelente) metralhadora de perguntas a que foi submetido, com espaço até para a questão: “É melhor luva com bolinha ou sem bolinha?”.

Nada supera um comentário infantil vindo do nada, sem presunção de especialista e nem objetivo aparente. No meio da discussão, o pequeno Pedro levantou a voz e disse: “O pai do meu amigo encontrou o Riquelme no restaurante”.

“Ah, é?”, retrucou a apresentadora, sem ação.

Cadernos Expedicionários – Olimpíada

Posted: 15th agosto 2012 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários

O mais vendido

Posted: 13th agosto 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S.Paulo – Ilustrada
13 de agosto de 2012

por Vanessa Barbara

Assisti “Carrossel” quando passou pela primeira vez, em maio de 1991, do alto da minha segunda série. Torcia fervorosamente pela gordinha Laura e pelo Davi, dono de uma tartaruga, e imitava o estilo de cabelo da Maria Joaquina. Adorava o Kokimoto Mishima e morria de pena do Cirilo.

Produzida pela rede Televisa e exibida pelo SBT, a novela mexicana era o remake de um título argentino, “Jacinta Pichimahuida, la maestra que no se olvida” [A professora que não se esquece]. Dublada e reprisada no Brasil três vezes, chegou a ultrapassar a audiência do Jornal Nacional e da principal novela da Globo, “O Dono do Mundo”.

(Na época, a atriz que interpretava a professorinha Helena desceu a rampa do Congresso Nacional com o presidente Collor.)

Em outubro de 2011, o SBT começou a filmar o novo “Carrossel”, um remake do remake, com atores brasileiros. A novela foi anunciada à exaustão na própria programação da emissora, através de rápidas e inesperadas inserções publicitárias em outras atrações.

Foi assustador: em pleno episódio de “Dois Homens e Meio”, surgiu um frame verde com os dizeres “Carrossel vem Aí”. Na novela “Pequena Travessa”, que também possuía uma personagem de nome Helena, apareceu um insert de 0,35 segundos com a imagem da protagonista de “Carrossel”. Também durante um episódio de “Chaves” viu-se um pôster na vila anunciando a atração do SBT.

Dois dias antes da estreia, a emissora exibiu um especial de cinco horas com o elenco da novela e os palhaços Patati e Patatá. No domingo, os atores foram ao “Programa Silvio Santos”.

Na segunda-feira, 21 de maio, a atração foi enfim exibida com ótimos índices de audiência, que mantêm até hoje. Sem mais necessidade de ser vendida (subliminarmente ou não), dedicou-se ao passo seguinte: vender.

A marca de sabonetes Lifebuoy é anunciada sem pudor a qualquer momento, quando as crianças brincam com argila ou quando alguém espirra, em arremedos constrangedores.

No capítulo do dia 7 de junho, o tema da aula foi bactérias e a necessidade de se lavar as mãos com sabonete. A classe inteira rumou ao banheiro e Jaime Palilo ficou feliz ao reconhecer a marca usada em casa. “Sua família faz bem”, disse a professora. “Lifebuoy tem a fórmula Active 5, que protege contra até dez doenças, por isso é o mais vendido do mundo.”

Até parece que estamos sintonizados no canal de tapetes.

Obrigada pelo fogo

Posted: 12th agosto 2012 by Vanessa Barbara in Traduções
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Folha de S.Paulo – Ilustríssima
12 de agosto de 2012

por F. Scott Fitzgerald
Tradução de Vanessa Barbara

Aos 40 anos, a sra. Hanson era uma mulher bonita, mas um tanto apagada, que vendia espartilhos e cintas em viagens de negócios fora de Chicago. Por muitos anos seu território havia oscilado entre Toledo, Lima, Springfield, Columbus, Indianápolis e Fort Wayne, portanto a transferência para a região de Iowa–Kansas–Missouri fora uma promoção, já que a empresa estava mais fortemente estabelecida a oeste de Ohio.

No leste, ela conhecia pessoalmente a clientela e sempre tomava um drinque ou fumava um cigarro no escritório dos compradores, depois de concluídos os negócios. Mas logo descobriu que, na nova área, as coisas eram diferentes. Não só deixavam de lhe perguntar se ela desejava fumar como, em várias ocasiões, quando ela mesma indagou se alguém se importaria caso acendesse um cigarro, a resposta veio compungida: “Não é que eu me importe, mas seria um péssimo exemplo para os empregados”.

“Ah, claro, eu entendo.”

Às vezes, fumar era importante para a sra. Hanson. Ela trabalhava muito e era um jeito de fazê-la descansar e relaxar psicologicamente. Era viúva e não tinha nenhum parente próximo para quem escrever à noite, e assistir a mais de um filme por semana prejudicava seus olhos, de modo que fumar tornou-se um importante sinal de pontuação na comprida sentença de um dia na estrada.

Na última semana de sua primeira viagem pelo novo território, ela foi parar em Kansas City. Era meados de agosto e estava se sentindo sozinha entre seus novos contatos, portanto foi com alegria que encontrou, na recepção de uma das empresas, uma mulher que havia conhecido em Chicago. A sra. Hanson sentou-se enquanto aguardava ser anunciada e, conversando, descobriu um pouco sobre o homem com quem iria se encontrar.

“Ele se importaria se eu fumasse?”

“O quê? Meu Deus, sim!”, a amiga afirmou. “Ele deu dinheiro para financiar a lei contra o fumo.”

“Ah. Bem, obrigada pelo conselho – obrigada mesmo.”

“É bom você tomar cuidado por aqui”, a amiga acrescentou. “Principalmente com os maiores de 50 anos. Os que não estiveram na guerra. Um homem me disse que quem participou da guerra nunca faria objeção a um fumante.”

Porém, em sua parada seguinte, a sra. Hanson topou com uma exceção. Ele parecia um jovem muito agradável, mas tinha os olhos fixos no cigarro que ela segurava entre os dedos, tanto que ela se viu obrigada a apagá-lo. Foi recompensada quando ele a convidou para almoçar e, ao longo do período, efetuou uma compra de valor substancial.

Depois disso, ele insistiu em lhe dar carona até o compromisso seguinte, embora ela tivesse a intenção de procurar um hotel nas redondezas e dar umas tragadas no banheiro.

Foi um desses dias repletos de espera –todos estavam ocupados ou atrasados e, quando os clientes chegavam a aparecer, eram homens de rosto duro que não toleravam a autocomplacência alheia, ou então mulheres consciente ou inconscientemente comprometidas com as ideias desses homens.

A sra. Hanson não acendia um cigarro desde o café da manhã e de repente percebeu que era por isso que sentia uma vaga insatisfação ao fim de cada reunião, não importando o quanto havia sido bem-sucedida financeiramente.

Ela dizia: “Acho que cobrimos um mercado diferente. É tudo entretela e látex, claro, mas nós realmente conseguimos juntá-los de um modo diferente. O aumento de 30 por cento nas vendas deste ano fala por si só”.

Mas pensava consigo mesma: Se ao menos eu pudesse dar três tragadas, conseguiria vender até aqueles corpetes antiquados com barbatanas.

Só havia mais uma loja para visitar, porém o compromisso estava marcado para dali a meia hora. Daria tempo de passar no hotel, mas, sem nenhum táxi à vista, ela caminhou pela rua, pensando: “Talvez eu deva parar de fumar. Estou ficando viciada”.

À sua frente havia uma catedral católica. Parecia muito alta, e de repente ela teve uma ideia: se tantas nuvens de incenso haviam subido em espirais até chegar a Deus, um pouco de fumaça no vestíbulo não faria a menor diferença. Por que é que o Altíssimo iria se importar com uma mulher exausta dando umas baforadas no vestíbulo?

Contudo, ainda que não fosse católica, o pensamento a incomodou. Fumar era tão importante assim, mesmo correndo o risco de ofender tanta gente?

E ainda assim. Ele não se importaria, pensou com persistência. Na época Dele, ainda não haviam descoberto o tabaco…

A sra. Hanson entrou na igreja; o vestíbulo estava escuro e ela procurou um fósforo na bolsa, mas não encontrou nenhum.

Vou apanhar o fogo de uma das velas, pensou.

A escuridão da nave era cortada apenas por um facho de luz num dos cantos. Ela caminhou pelo corredor lateral em direção ao borrão esbranquiçado, então reparou que não era causado por velas e, em todo caso, estava quase sumindo – um homem parecia prestes a apagar a última lamparina a óleo.

“São oferendas votivas”, ele disse. “Nós apagamos à noite. Acho que é mais importante para quem ofereceu se as economizarmos para o dia seguinte, em vez de mantê-las acesas a noite toda.”

“Entendo.”

Ele apagou a última chama. Não havia mais luz na catedral, salvos um candelabro elétrico no teto e a lâmpada sempre acesa diante do sacrário.

“Boa noite”, disse o sacristão.

“Boa noite.”

“Suponho que você tenha vindo para rezar.”

“Isso mesmo.”

Ele entrou na sacristia. A sra. Hanson ajoelhou-se e rezou.

Fazia muito tempo que ela não rezava. Mal sabia para quê, então rezou para seu empregador e para os clientes em Des Moines e Kansas City. Quando terminou, olhou para cima. Uma imagem de Nossa Senhora a encarava de um nicho a menos de dois metros de sua cabeça.

A sra. Hanson contemplou vagamente a imagem. Então ficou de pé e caiu, exausta, na beira do assento. Em sua imaginação, a Virgem desceu, como na peça “O Milagre”, tomou seu lugar e vendeu espartilhos e cintas, ficando tão cansada quanto ela. Então a sra. Hanson deve ter cochilado por uns minutos. Acordou com a sensação de que algo havia mudado, sentiu aos poucos um aroma familiar no ar, que não era de incenso, e sentiu que seus dedos doíam. Então percebeu que o cigarro que trazia entre os dedos estava aceso – e queimando.

Ainda sonolenta demais para pensar, ela deu uma tragada para manter a chama viva. Então olhou para cima e viu o nicho vago de Nossa Senhora, à meia-luz.

“Obrigada pelo fogo”, ela disse.

Mas não lhe pareceu o suficiente, de modo que ela se ajoelhou, com a fumaça subindo em espirais do cigarro entre seus dedos.

“Muitíssimo obrigada pelo fogo”, ela disse.

O que o Rio pode aprender com Londres 2012 (antes que seja tarde)

Folha de S.Paulo – Esportes
Especial Olimpíada
12 de agosto de 2012

por Vanessa Barbara 

O primeiro passo foi escolher a área mais pobre e degradada da capital, Stratford, e elegê-la como futura localização do Parque Olímpico. A região era uma antiga zona industrial, com áreas abandonadas e terrenos contaminados por petróleo, alcatrão, cianeto e metais pesados.

Cinco máquinas foram designadas para lavar, peneirar e sacudir o solo, que também recebeu um tratamento chamado biorremediação, no qual microorganismos naturais consomem petróleo e diesel. Quase 2 milhões de toneladas de terra foram limpas e recolocadas no próprio parque. A operação demandou quatro anos de trabalho.

Com 2,5 quilômetros quadrados (quase o dobro do Parque do Ibirapuera), o complexo ganhou uma cobertura de 4 mil árvores e 300 mil plantas aquáticas. O rio Lea, antigo esgoto a céu aberto, foi recuperado. Milhares de girinos, peixes e criaturinhas silvestres, retirados na fase de construção, foram devolvidos ao seu habitat.

As fábricas sediadas no local foram transferidas e ganharam a prioridade de serviço nos Jogos – a cobertura de PVC da Arena de Basquete foi produzida por uma empresa de Stratford. Também a mão de obra local foi privilegiada.

A proposta desta Olimpíada sempre esteve ligada à sustentabilidade. Minha parte preferida é a da mobilidade – 100% dos espectadores chegaram às instalações olímpicas via transporte público, bicicleta ou a pé. Não havia estacionamentos nos ginásios e nem em suas proximidades. Só autoridades, atletas e jornalistas, além de pessoas com mobilidade reduzida, puderam utilizar automóveis. (Ainda assim, muitos não o fizeram, como o time americano de basquete, visto esta semana esperando o trem, e o esgrimista venezuelano que pegou o metrô com a medalha de ouro no peito.)

Impressionado, o presidente do Comitê Olímpico Internacional elogiou o “legado tangível” destes Jogos, sem elefantes brancos para a população. A ideia foi utilizar edificações já existentes (as quadras de Wimbledon para o tênis, Earls Court para o vôlei) ou edificar estruturas temporárias.

As arenas de basquete e polo aquático, por exemplo, são recicláveis – ao final dos jogos, todas as estruturas (bancos, quadras, ferragem e até os parafusos) serão desmontadas e reutilizadas.

O funcional Estádio Olímpico, com uma capacidade original de 80 mil assentos, foi pensado de forma modular. Após os Jogos, será reduzido para 50 mil lugares, visando o Mundial de Atletismo, em 2017. Depois disso, ficará com apenas 25 mil.

Também os anexos do Centro Aquático serão removidos, mas as piscinas e a arquibancada permanecerão como legado.

A partir do ano que vem, o parque será aberto à população.

De Burundi a Dong Dong, os principais destaques de Londres 2012

Folha de S.Paulo – Esportes
Especial Olimpíada
10 de agosto de 2012

por Vanessa Barbara

“Aí vem a Mary Poppins para salvar o dia”, narrou o locutor da BBC durante a abertura da 30a Olimpíada, e isso foi só o começo. Hoje, com o evento em seus momentos finais, já é possível redigir um almanaque com os principais destaques de Londres 2012, conforme apuração da sucursal da Folha em Hackney.

Os locutores da BBC na cerimônia de abertura foram capazes de tornar curioso até o desfile das delegações. Durante o evento, aprendemos que o Camboja tem o maior alfabeto do mundo (74 letras) e que a bandeira do Paraguai é a única em que a parte da frente é diferente da de trás. “Burundi, taí um nome tremendamente interessante”, comentaram.

Mais cedo, um debate com especulações sobre a cerimônia contou com a participação de uma mulher aleatória. “Qual a sua relação com a festa de abertura?”, perguntou o apresentador. “Meu concunhado vai participar do evento”, foi a resposta.

Ainda no campo da família olímpica, a melhor manchete: “Atleta da canoagem é punido por mãe; pai pode recorrer”. A mãe de Mike Dawson foi juíza da prova, para desespero do treinador, pai do atleta. Especula-se que o castigo tenha sido uma semana sem sobremesa.

Entre os comentaristas brasileiros, quem leva o caneco é um locutor do SporTV, que declarou: “E vemos agora o cavaleiro australiano Rutherglen com seu cavalo Hoy. Corrigindo, o cavaleiro australiano Hoy com seu cavalo Rutherglen”.

Os melhores nomes do evento: Jimmy Pedro (técnico do judô, EUA), Ning Ding (tênis de mesa, China), Mark Barriga (boxe, Filipinas), Rosa Chacha (atletismo, Equador), Saeid Mohammadpourkarkaragh (levantamento de peso, Irã) e Mister Pooh (cavalo, Suécia). Vi também um inglês de sobrenome French, um australiano de sobrenome Ingles e o “Dong Dong, que não é de Hong Kong”, segundo a BBC.

Entre as atrações do intervalo, a Get Tricky, equipe de corda que se apresenta entre as partidas de basquete, com fileiras de gente pulando cordas entrelaçadas.

A grande vergonha desta edição: brasileiros vaiando o saque e arremessos do time adversário. Não consta que nenhum patrício tenha sido apupado pela torcida rival.

Em segundo lugar no pódio do constrangimento, o presidente do Comitê Organizador da Olimpíada, Sebastian Coe, declarando que os espectadores “provavelmente” seriam autorizados a entrar nos eventos usando tênis Nike. (A Adidas é a patrocinadora oficial.)

O bronze vai para o prefeito Boris Johnson, que afirmou, sobre a comida do McDonald’s: “Definitivamente repleta de nutrientes”.

Por último, mas não menos importante, lembremos do bêbado que atirou, no domingo, uma garrafa em Usain Bolt pouco antes da final dos 100 m e tomou uma surra da judoca holandesa Edith Bosch.

Euforia olímpica

Posted: 8th agosto 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Londres 2012
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A vida está difícil para quem acorda de mau humor em plena Olimpíada

Folha de S.Paulo – Esportes
Especial Olimpíada
8 de agosto de 2012

por Vanessa Barbara

Estou hospedada num sobrado repleto de italianos, onde a língua oficial todo mundo sabe qual é: o grito. O Gianluca é crupiê e trabalha num cassino em Stratford, ao lado da Vila Olímpica. Ele vive gripado e anda pelo corredor de moletom, cabisbaixo, mas nos últimos dias parece contagiado pelo clima olímpico: Gianluca agora desce as escadas cantarolando e jogou vôlei comigo na cozinha domingo à tarde, ocasionando um pequeno incidente com uma xícara de Nescau.

O Giuseppe, que mora no andar de baixo, trabalha num restaurante. Ele também parece mais animado e falante, assim como seu colega de quarto, o Marco, que pratica tênis na parede.

Como previa o prefeito de Londres, a euforia olímpica alastrou-se pela cidade. No metrô, visitantes saltam barreiras como se estivessem numa corrida de obstáculos, e mágicos contratados fazem momices com baralhos.

Não sei que bicho mordeu os voluntários, mas, logo cedo, na entrada do Parque Olímpico, somos recebidos por saltitantes sujeitos com uniformes magenta e gigantescas mãos de espuma, cumprimentando os passantes numa confraternização quase infantil.

É com imensa alegria que eles oferecem ajuda, dão indicações e saúdam o público das mais variadas formas. Na Arena de Basquete, um coletor de ingressos se dedica a uma dancinha solitária de puro contentamento. Em Earl’s Court, uma mulher deseja um dia maravilhoso.

Ao megafone, um voluntário grita: “Eu amo vocês!”, ao que um popular responde: “Nós também”. Sem querer perder a disputa, ele retruca: “Eu amo mais!”.

É assim por toda parte, como se os voluntários estivessem sob o efeito de alguma substância ilegal. Do alto de suas cadeirinhas, são como salva-vidas zelando pela satisfação dos transeuntes: “Sorriam! Esta é uma ocasião especial que contaremos para os filhos… dos filhos… dos filhos… dos filhos… dos nossos filhos”, narrou Rachel Onasanwo, 23, com um tom monocórdio que fez sucesso no YouTube.

Segundo o “The Guardian”, os voluntários receberam um manual de etiqueta com 66 páginas contendo regras de conduta para recepcionar os espectadores dos Jogos. “Seja sempre otimista e educado”, diz o documento. “Agradeça ao visitante mesmo que você o esteja ajudando e não se esqueça de sorrir.”

Ao abordar estrangeiros: “Lembre-se que falar ou compreender a língua inglesa não tem nada a ver com a audição ou a inteligência da pessoa. Então não é preciso falar alto, apenas de forma clara”.

Eles se revezam em turnos de cinco horas e recebem uma ajuda de custo no valor de 5 libras (15 reais) por dia, o que é pouquíssimo para os padrões britânicos. Álcool é proibido. Talvez estejam é alucinando de fome.