Cadernos Expedicionários – Olimpíada
Posted: 15th agosto 2012 by Vanessa Barbara in Cadernos ExpedicionáriosO mais vendido
Posted: 13th agosto 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TVTags: Carrossel, SBT
Folha de S.Paulo – Ilustrada
13 de agosto de 2012
por Vanessa Barbara
Assisti “Carrossel” quando passou pela primeira vez, em maio de 1991, do alto da minha segunda série. Torcia fervorosamente pela gordinha Laura e pelo Davi, dono de uma tartaruga, e imitava o estilo de cabelo da Maria Joaquina. Adorava o Kokimoto Mishima e morria de pena do Cirilo.
Produzida pela rede Televisa e exibida pelo SBT, a novela mexicana era o remake de um título argentino, “Jacinta Pichimahuida, la maestra que no se olvida” [A professora que não se esquece]. Dublada e reprisada no Brasil três vezes, chegou a ultrapassar a audiência do Jornal Nacional e da principal novela da Globo, “O Dono do Mundo”.
(Na época, a atriz que interpretava a professorinha Helena desceu a rampa do Congresso Nacional com o presidente Collor.)
Em outubro de 2011, o SBT começou a filmar o novo “Carrossel”, um remake do remake, com atores brasileiros. A novela foi anunciada à exaustão na própria programação da emissora, através de rápidas e inesperadas inserções publicitárias em outras atrações.
Foi assustador: em pleno episódio de “Dois Homens e Meio”, surgiu um frame verde com os dizeres “Carrossel vem Aí”. Na novela “Pequena Travessa”, que também possuía uma personagem de nome Helena, apareceu um insert de 0,35 segundos com a imagem da protagonista de “Carrossel”. Também durante um episódio de “Chaves” viu-se um pôster na vila anunciando a atração do SBT.
Dois dias antes da estreia, a emissora exibiu um especial de cinco horas com o elenco da novela e os palhaços Patati e Patatá. No domingo, os atores foram ao “Programa Silvio Santos”.
Na segunda-feira, 21 de maio, a atração foi enfim exibida com ótimos índices de audiência, que mantêm até hoje. Sem mais necessidade de ser vendida (subliminarmente ou não), dedicou-se ao passo seguinte: vender.
A marca de sabonetes Lifebuoy é anunciada sem pudor a qualquer momento, quando as crianças brincam com argila ou quando alguém espirra, em arremedos constrangedores.
No capítulo do dia 7 de junho, o tema da aula foi bactérias e a necessidade de se lavar as mãos com sabonete. A classe inteira rumou ao banheiro e Jaime Palilo ficou feliz ao reconhecer a marca usada em casa. “Sua família faz bem”, disse a professora. “Lifebuoy tem a fórmula Active 5, que protege contra até dez doenças, por isso é o mais vendido do mundo.”
Até parece que estamos sintonizados no canal de tapetes.
Obrigada pelo fogo
Posted: 12th agosto 2012 by Vanessa Barbara in TraduçõesTags: F. Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby
Folha de S.Paulo – Ilustríssima
12 de agosto de 2012
por F. Scott Fitzgerald
Tradução de Vanessa Barbara
Aos 40 anos, a sra. Hanson era uma mulher bonita, mas um tanto apagada, que vendia espartilhos e cintas em viagens de negócios fora de Chicago. Por muitos anos seu território havia oscilado entre Toledo, Lima, Springfield, Columbus, Indianápolis e Fort Wayne, portanto a transferência para a região de Iowa–Kansas–Missouri fora uma promoção, já que a empresa estava mais fortemente estabelecida a oeste de Ohio.
No leste, ela conhecia pessoalmente a clientela e sempre tomava um drinque ou fumava um cigarro no escritório dos compradores, depois de concluídos os negócios. Mas logo descobriu que, na nova área, as coisas eram diferentes. Não só deixavam de lhe perguntar se ela desejava fumar como, em várias ocasiões, quando ela mesma indagou se alguém se importaria caso acendesse um cigarro, a resposta veio compungida: “Não é que eu me importe, mas seria um péssimo exemplo para os empregados”.
“Ah, claro, eu entendo.”
Às vezes, fumar era importante para a sra. Hanson. Ela trabalhava muito e era um jeito de fazê-la descansar e relaxar psicologicamente. Era viúva e não tinha nenhum parente próximo para quem escrever à noite, e assistir a mais de um filme por semana prejudicava seus olhos, de modo que fumar tornou-se um importante sinal de pontuação na comprida sentença de um dia na estrada.
Na última semana de sua primeira viagem pelo novo território, ela foi parar em Kansas City. Era meados de agosto e estava se sentindo sozinha entre seus novos contatos, portanto foi com alegria que encontrou, na recepção de uma das empresas, uma mulher que havia conhecido em Chicago. A sra. Hanson sentou-se enquanto aguardava ser anunciada e, conversando, descobriu um pouco sobre o homem com quem iria se encontrar.
“Ele se importaria se eu fumasse?”
“O quê? Meu Deus, sim!”, a amiga afirmou. “Ele deu dinheiro para financiar a lei contra o fumo.”
“Ah. Bem, obrigada pelo conselho – obrigada mesmo.”
“É bom você tomar cuidado por aqui”, a amiga acrescentou. “Principalmente com os maiores de 50 anos. Os que não estiveram na guerra. Um homem me disse que quem participou da guerra nunca faria objeção a um fumante.”
Porém, em sua parada seguinte, a sra. Hanson topou com uma exceção. Ele parecia um jovem muito agradável, mas tinha os olhos fixos no cigarro que ela segurava entre os dedos, tanto que ela se viu obrigada a apagá-lo. Foi recompensada quando ele a convidou para almoçar e, ao longo do período, efetuou uma compra de valor substancial.
Depois disso, ele insistiu em lhe dar carona até o compromisso seguinte, embora ela tivesse a intenção de procurar um hotel nas redondezas e dar umas tragadas no banheiro.
Foi um desses dias repletos de espera –todos estavam ocupados ou atrasados e, quando os clientes chegavam a aparecer, eram homens de rosto duro que não toleravam a autocomplacência alheia, ou então mulheres consciente ou inconscientemente comprometidas com as ideias desses homens.
A sra. Hanson não acendia um cigarro desde o café da manhã e de repente percebeu que era por isso que sentia uma vaga insatisfação ao fim de cada reunião, não importando o quanto havia sido bem-sucedida financeiramente.
Ela dizia: “Acho que cobrimos um mercado diferente. É tudo entretela e látex, claro, mas nós realmente conseguimos juntá-los de um modo diferente. O aumento de 30 por cento nas vendas deste ano fala por si só”.
Mas pensava consigo mesma: Se ao menos eu pudesse dar três tragadas, conseguiria vender até aqueles corpetes antiquados com barbatanas.
Só havia mais uma loja para visitar, porém o compromisso estava marcado para dali a meia hora. Daria tempo de passar no hotel, mas, sem nenhum táxi à vista, ela caminhou pela rua, pensando: “Talvez eu deva parar de fumar. Estou ficando viciada”.
À sua frente havia uma catedral católica. Parecia muito alta, e de repente ela teve uma ideia: se tantas nuvens de incenso haviam subido em espirais até chegar a Deus, um pouco de fumaça no vestíbulo não faria a menor diferença. Por que é que o Altíssimo iria se importar com uma mulher exausta dando umas baforadas no vestíbulo?
Contudo, ainda que não fosse católica, o pensamento a incomodou. Fumar era tão importante assim, mesmo correndo o risco de ofender tanta gente?
E ainda assim. Ele não se importaria, pensou com persistência. Na época Dele, ainda não haviam descoberto o tabaco…
A sra. Hanson entrou na igreja; o vestíbulo estava escuro e ela procurou um fósforo na bolsa, mas não encontrou nenhum.
Vou apanhar o fogo de uma das velas, pensou.
A escuridão da nave era cortada apenas por um facho de luz num dos cantos. Ela caminhou pelo corredor lateral em direção ao borrão esbranquiçado, então reparou que não era causado por velas e, em todo caso, estava quase sumindo – um homem parecia prestes a apagar a última lamparina a óleo.
“São oferendas votivas”, ele disse. “Nós apagamos à noite. Acho que é mais importante para quem ofereceu se as economizarmos para o dia seguinte, em vez de mantê-las acesas a noite toda.”
“Entendo.”
Ele apagou a última chama. Não havia mais luz na catedral, salvos um candelabro elétrico no teto e a lâmpada sempre acesa diante do sacrário.
“Boa noite”, disse o sacristão.
“Boa noite.”
“Suponho que você tenha vindo para rezar.”
“Isso mesmo.”
Ele entrou na sacristia. A sra. Hanson ajoelhou-se e rezou.
Fazia muito tempo que ela não rezava. Mal sabia para quê, então rezou para seu empregador e para os clientes em Des Moines e Kansas City. Quando terminou, olhou para cima. Uma imagem de Nossa Senhora a encarava de um nicho a menos de dois metros de sua cabeça.
A sra. Hanson contemplou vagamente a imagem. Então ficou de pé e caiu, exausta, na beira do assento. Em sua imaginação, a Virgem desceu, como na peça “O Milagre”, tomou seu lugar e vendeu espartilhos e cintas, ficando tão cansada quanto ela. Então a sra. Hanson deve ter cochilado por uns minutos. Acordou com a sensação de que algo havia mudado, sentiu aos poucos um aroma familiar no ar, que não era de incenso, e sentiu que seus dedos doíam. Então percebeu que o cigarro que trazia entre os dedos estava aceso – e queimando.
Ainda sonolenta demais para pensar, ela deu uma tragada para manter a chama viva. Então olhou para cima e viu o nicho vago de Nossa Senhora, à meia-luz.
“Obrigada pelo fogo”, ela disse.
Mas não lhe pareceu o suficiente, de modo que ela se ajoelhou, com a fumaça subindo em espirais do cigarro entre seus dedos.
“Muitíssimo obrigada pelo fogo”, ela disse.
Recuperação e legado
Posted: 12th agosto 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Londres 2012Tags: Estádio Olímpico, legado, Londres 2012, recuperação, Stratford, sustentabilidade
O que o Rio pode aprender com Londres 2012 (antes que seja tarde)
Folha de S.Paulo – Esportes
Especial Olimpíada
12 de agosto de 2012
por Vanessa Barbara
O primeiro passo foi escolher a área mais pobre e degradada da capital, Stratford, e elegê-la como futura localização do Parque Olímpico. A região era uma antiga zona industrial, com áreas abandonadas e terrenos contaminados por petróleo, alcatrão, cianeto e metais pesados.
Cinco máquinas foram designadas para lavar, peneirar e sacudir o solo, que também recebeu um tratamento chamado biorremediação, no qual microorganismos naturais consomem petróleo e diesel. Quase 2 milhões de toneladas de terra foram limpas e recolocadas no próprio parque. A operação demandou quatro anos de trabalho.
Com 2,5 quilômetros quadrados (quase o dobro do Parque do Ibirapuera), o complexo ganhou uma cobertura de 4 mil árvores e 300 mil plantas aquáticas. O rio Lea, antigo esgoto a céu aberto, foi recuperado. Milhares de girinos, peixes e criaturinhas silvestres, retirados na fase de construção, foram devolvidos ao seu habitat.
As fábricas sediadas no local foram transferidas e ganharam a prioridade de serviço nos Jogos – a cobertura de PVC da Arena de Basquete foi produzida por uma empresa de Stratford. Também a mão de obra local foi privilegiada.
A proposta desta Olimpíada sempre esteve ligada à sustentabilidade. Minha parte preferida é a da mobilidade – 100% dos espectadores chegaram às instalações olímpicas via transporte público, bicicleta ou a pé. Não havia estacionamentos nos ginásios e nem em suas proximidades. Só autoridades, atletas e jornalistas, além de pessoas com mobilidade reduzida, puderam utilizar automóveis. (Ainda assim, muitos não o fizeram, como o time americano de basquete, visto esta semana esperando o trem, e o esgrimista venezuelano que pegou o metrô com a medalha de ouro no peito.)
Impressionado, o presidente do Comitê Olímpico Internacional elogiou o “legado tangível” destes Jogos, sem elefantes brancos para a população. A ideia foi utilizar edificações já existentes (as quadras de Wimbledon para o tênis, Earls Court para o vôlei) ou edificar estruturas temporárias.
As arenas de basquete e polo aquático, por exemplo, são recicláveis – ao final dos jogos, todas as estruturas (bancos, quadras, ferragem e até os parafusos) serão desmontadas e reutilizadas.
O funcional Estádio Olímpico, com uma capacidade original de 80 mil assentos, foi pensado de forma modular. Após os Jogos, será reduzido para 50 mil lugares, visando o Mundial de Atletismo, em 2017. Depois disso, ficará com apenas 25 mil.
Também os anexos do Centro Aquático serão removidos, mas as piscinas e a arquibancada permanecerão como legado.
A partir do ano que vem, o parque será aberto à população.
Euforia olímpica
Posted: 8th agosto 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Londres 2012Tags: Gianluca, The Guardian, voluntários
A vida está difícil para quem acorda de mau humor em plena Olimpíada
Folha de S.Paulo – Esportes
Especial Olimpíada
8 de agosto de 2012
por Vanessa Barbara
Estou hospedada num sobrado repleto de italianos, onde a língua oficial todo mundo sabe qual é: o grito. O Gianluca é crupiê e trabalha num cassino em Stratford, ao lado da Vila Olímpica. Ele vive gripado e anda pelo corredor de moletom, cabisbaixo, mas nos últimos dias parece contagiado pelo clima olímpico: Gianluca agora desce as escadas cantarolando e jogou vôlei comigo na cozinha domingo à tarde, ocasionando um pequeno incidente com uma xícara de Nescau.
O Giuseppe, que mora no andar de baixo, trabalha num restaurante. Ele também parece mais animado e falante, assim como seu colega de quarto, o Marco, que pratica tênis na parede.
Como previa o prefeito de Londres, a euforia olímpica alastrou-se pela cidade. No metrô, visitantes saltam barreiras como se estivessem numa corrida de obstáculos, e mágicos contratados fazem momices com baralhos.
Não sei que bicho mordeu os voluntários, mas, logo cedo, na entrada do Parque Olímpico, somos recebidos por saltitantes sujeitos com uniformes magenta e gigantescas mãos de espuma, cumprimentando os passantes numa confraternização quase infantil.
É com imensa alegria que eles oferecem ajuda, dão indicações e saúdam o público das mais variadas formas. Na Arena de Basquete, um coletor de ingressos se dedica a uma dancinha solitária de puro contentamento. Em Earl’s Court, uma mulher deseja um dia maravilhoso.
Ao megafone, um voluntário grita: “Eu amo vocês!”, ao que um popular responde: “Nós também”. Sem querer perder a disputa, ele retruca: “Eu amo mais!”.
É assim por toda parte, como se os voluntários estivessem sob o efeito de alguma substância ilegal. Do alto de suas cadeirinhas, são como salva-vidas zelando pela satisfação dos transeuntes: “Sorriam! Esta é uma ocasião especial que contaremos para os filhos… dos filhos… dos filhos… dos filhos… dos nossos filhos”, narrou Rachel Onasanwo, 23, com um tom monocórdio que fez sucesso no YouTube.
Segundo o “The Guardian”, os voluntários receberam um manual de etiqueta com 66 páginas contendo regras de conduta para recepcionar os espectadores dos Jogos. “Seja sempre otimista e educado”, diz o documento. “Agradeça ao visitante mesmo que você o esteja ajudando e não se esqueça de sorrir.”
Ao abordar estrangeiros: “Lembre-se que falar ou compreender a língua inglesa não tem nada a ver com a audição ou a inteligência da pessoa. Então não é preciso falar alto, apenas de forma clara”.
Eles se revezam em turnos de cinco horas e recebem uma ajuda de custo no valor de 5 libras (15 reais) por dia, o que é pouquíssimo para os padrões britânicos. Álcool é proibido. Talvez estejam é alucinando de fome.
Biblioteca de lunáticos – Parte 2
Posted: 7th agosto 2012 by Vanessa Barbara in Blog da Cia. das Letras, CrônicasBlog da Companhia das Letras
7 de agosto de 2012
por Vanessa Barbara

No longínquo mês de abril do ano corrente, enumerei no blog algumas de minhas leituras psiquiátricas preferidas. Certos leitores escreveram apontando lacunas, de modo que aí vai uma segunda parte.
1) A assustadora história da medicina, de Richard Gordon, Ediouro. Recomendado pelo leitor Fred Spada, que tem nome de automóvel, este livro é um dos mais esquisitos que já li. É confuso, mal engendrado e precisaria de um bom editor. Ainda assim, há passagens muito boas sobre a caótica evolução da medicina, que, nas palavras de Fred, parece ter sido algo ao estilo: “Doutor, substituímos o prego por uma agulha e agora a seringa parece funcionar direito”.
Gordon fala, por exemplo, de uma paciente de Freud que sofria de fadiga generalizada e do sintoma curioso de ser perseguida pelo cheiro de pudim queimado. Fala de micróbios e da axila da rainha Vitória, de anestesia e dos primórdios da vacinação, quando as pessoas inoculadas com o vírus da varíola bovina tinham medo de se transformar em vacas. “Hoje, um terço das mortes do mundo tem alguma relação com moscas”, informa.
Gordon aborda também a questão dos piolhos e da luta contra o escorbuto, de início absolutamente aleatória. “O capitão Cook recomendava geleia de cenoura e mosto de cerveja. Vinagre, para tomar ou lavar o convés, óleo de vitríolo e enterrar o paciente até o pescoço, na terra fria, todos esses métodos tinham seus defensores.”
Contra verrugas: “Toque cada verruga com uma pedra diferente, ponha as pedras numa bolsa, deixe cair a bolsa a caminho da igreja, quem encontrar vai ficar com todas as suas verrugas. Ou procure um homem que nunca viu o próprio pai e peça para tocar no seu casaco. Como profilaxia, nunca deixe seus filhos tocarem na água onde foram cozidos ovos.”
Gordon menciona a biografia de gente ilustre como Florence Nightingale, que costumava bater irritadamente as tampas abertas das privadas, e Osborne Mavor, autor de um artigo definitivamente científico sobre nosso centro anatômico, “O Umbigo”, que, segundo ele descobriu, pode ser atacado por oito doenças. Ou John Coakley Lettsom, fundador da Sociedade de Medicina de Londres e de várias outras instituições de caridade, como a Sociedade para a Libertação e Ajuda a Pessoas Presas por Pequenas Dívidas, e a Sociedade Real Humanitária para Ressuscitação dos Aparentemente Mortos.
2) Amor sem fim, de Ian McEwan, ed. Companhia das Letras. Após testemunhar um trágico acidente de balão, um escritor de artigos científicos vira alvo de uma paixão patológica. A fixação do desconhecido chega aos limites da perseguição e da loucura, transformando a vida do protagonista.
O longo capítulo inicial sobre o acidente é ritmado, tenso e muito bem construído. Mas minhas partes preferidas do livro são os dois apêndices, em que, de forma original, o autor segue narrando a história.
O melhor deles é um estudo de caso publicado na revista British Review of Psychiatrypelos drs. Robert Wenn e Antonio Camia, que obviamente não existem, sobre a síndrome de Clerambault. Em linguagem acadêmica, os nobres doutores falam sobre esse tipo de erotomania que se caracteriza pela obsessão amorosa por alguém mais velho e de maior status social, com um detalhe: o portador dessa síndrome tem absoluta certeza de ser correspondido.
McEwan aproveita o posfácio científico para recontar o caso ao leitor, fornecendo detalhes omitidos pelo narrador, e para dar uma conclusão ao romance, lançada em meio a uma porção de notas de rodapé e descrições da patologia.
Na época do lançamento do livro, inúmeros resenhistas (inclusive psiquiatras) julgaram se tratar de um artigo verdadeiro, até que McEwan veio a público declarar que o apêndice era ficcional, baseado no romance que o precedia — em vez de se passar o contrário. Ele chegou a enviar o artigo a uma revista de psiquiatria, que polidamente o recusou. “Se fosse publicado, seria delicioso ter que pedir permissão para citá-lo”, confessou o romancista numa entrevista ao The Guardian. “Para um escritor, é uma tentação poder bagunçar a fronteira entre ficção e realidade, pois isso dá à ficção uma credibilidade extra e confunde o factual. Também escrevi esse apêndice por exibicionismo linguístico — só queria provar que conseguia fazer.”
Fico aqui pensando quem é mais doido.
3) O estranho caso do cachorro morto, de Mark Haddon, ed. Record. O menino Christopher Boone tem 15 anos e sofre de síndrome de Asperger, uma forma de autismo caracterizada pela dificuldade de interagir socialmente e de expressar emoções, bem como de aceitar mudanças. Os portadores dessa síndrome muitas vezes possuem habilidades incomuns, como memorização de mapas e sequências matemáticas.
Neste romance, indicado pelo leitor Rogério Moraes, o narrador sabe muita coisa de astronomia e pouquíssimo sobre seres humanos. Adora listas, padrões e a verdade. Odeia o marrom, a França e ser tocado. Certa madrugada, encontra o cão do vizinho morto e passa a investigar o crime.
Embora não seja um dos meus livros favoritos, há um jogo interessante com o narrador, que, afinal de contas, sofre de uma síndrome que interfere justamente no processo de comunicação. Seu pensamento é estruturado de forma bastante concreta e literal, prejudicando sua capacidade de interpretar ironias e metáforas. É assim que o livro é narrado: de forma direta, por vezes obsessiva.
Os capítulos seguem “números primos, que são úteis para escrever códigos e por aqui são considerados assunto militar, e se você encontrar um com mais de cem dígitos tem que contar para a CIA e eles te compram por 10 mil dólares. Mas não seria um jeito muito legal de ganhar a vida”.
Boone é um personagem divertido e cheio de angústia, que se lança à investigação com toda a coragem necessária para puxar assunto com os vizinhos. “Às vezes, quando estou num lugar novo e cheio de gente, há tipo um tilt de computador e eu tenho que fechar os olhos e tampar os ouvidos e grunhir, que é o meu jeito de apertar CTRL+ALT+DEL e fechar os programas e desligar o computador e reiniciá-lo, a fim de que eu possa me lembrar do que estava fazendo ali e para onde estava indo.”
4) Afluentes do rio silencioso, de John Wray, ed. Companhia das Letras. Traduzido por esta vossa humilde serva, o romance segue a mesma linha de O estranho caso do cachorro. É narrado por William Heller, jovem de 16 anos que sofre de esquizofrenia. Acometido de um delírio, ele suspende a própria medicação, foge da clínica psiquiátrica onde estava internado e empreende uma jornada pelo metrô de Nova York, com um detetive particular a seu encalço. “Sou um prisioneiro do meu próprio crânio”, ele pensa. “Refém do meu sistema límbico. Não há saída senão pelo meu nariz.”
Assim como Christopher Boone, William possui uma série de rituais que executa quando se vê ansioso ou em terreno desconhecido: repassa uma série de coisas preferidas, checando-as na ordem como se fossem contas de um terço. As primeiras oito ele recita de memória: obeliscos, tinta invisível, a mãe, snowboard, o Jardim Botânico do Brooklyn, Jacques Cousteau, Bix Beiderbecke e o metrô.
“Estou conseguindo fazer piadas de novo”, ele pensa, após ter suspendido a medicação por conta própria. “Estúpidas, mas não importa. Nunca conseguiria ter feito piadas ontem.”
5) A lua vem da Ásia, de Campos de Carvalho, ed. José Olympio. Um esquecimento lamentável na primeira escalação, o romance de Campos de Carvalho fala sobre um sujeito que vive no que pensa ser um campo de concentração, mas que antes julgava ser um hotel de luxo, e que na verdade é um manicômio. “Não sei dizer se fica na Europa ou na Ásia ou mesmo na Polinésia.” Numa prosa fragmentada, absurda e frenética, ele tenta dar sentido às coisas, sem sucesso. O livro é brilhante e tem um dos inícios mais célebres da literatura brasileira:
“Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa — e qual defesa seria mais legítima? — logrei ser absolvido por cinco votos a dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.”
6) “Minha fantasma”, em Ensaio Geral, de Nuno Ramos, ed. Globo. Outra ausência imperdoável na primeira divisão desta lista. Trata-se de um curto relato do artista plástico Nuno Ramos sobre os seis meses de uma crise de depressão severa da esposa, suas idas aos médicos, os cuidados, os horários de remédios, o cansaço e a impotência. É um texto lindo sobre “um amor imenso e cansativo, que deve dizer bem alto: eu quero você mesmo assim. Ou algo ainda antes disso, já que ela é a mesma pessoa, apenas confusa, como quem circula pela casa sem encontrar a porta do próprio quarto”.
Toda vez que leio esse texto de Nuno, penso em como deve ter sido, para ela, ter alguém tão constante, tão certo, tão leal, alguém que desconfiou de um determinado médico “não pelos motivos habituais (pêlos atrás da orelha, voz melíflua, olhar excessivamente demorado, roçar de uma palma da mão na outra). Achei, apenas, que não gostava dela”.
Um médico que, segundo ele, parecia ser alguém que tocava violino, como um judeu de Chagall. “Devia ter uma coleção enorme de selos e uma mãe severa. Devia raspar um prato fundo de caldo de carne com a gema de um ovo batido todas as manhãs, pra ficar bem forte. Mas na verdade é baixo e atarracado e suas pernas não se desenvolveram tanto quanto o tórax, e o próprio tórax não se desenvolveu tanto quanto as feições elásticas do seu rosto — por isso não pode esconder certa fração de paraplegia, de paralisia infantil, certa dessemelhança entre a metade de baixo e a metade superior do tronco, como um Tratado das Tordesilhas cravado em sua cintura que torna apenas mais perverso seu sorriso forçosamente bondoso.”
Não sei por quê, mas acho essa passagem do médico particularmente tocante — há uma solidariedade muda que perpassa o texto inteiro, preenchendo inclusive as lacunas do vazio. Por vezes, o autor hesita diante de tanto sofrimento e é arrastado pela maré da tristeza dela, mas continua ao seu lado dia após dia, enquanto ela chora e chora, “chora por ser covarde, chora principalmente porque não pode parar de chorar. Não há ventos fortes nem tufões, mas uma monotonia de laguna excessivamente salgada onde os peixes não conseguem sobreviver”, conta.
“A cura não é o raio de sol depois da tempestade, nem uma lufada de ar no quarto pestilento, mas haver o quarto, e sol como o conhecemos, e vento como desde que somos pequenos. É o mundo ser redondo e o oceano ser salgado. Isso é a cura, o tédio bem-vindo. Então é isso que ela ataca e protela, voltando a alto-mar enquanto lhe acenamos da praia monótona.”
A certa altura, não estamos mais falando de depressão, mas de amor.
Agora é sério
Posted: 6th agosto 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Londres 2012Tags: batata quente, biribol, dança da laranja, Esportes alternativos, Esportes bizarros, pula-sela
Folha de S.Paulo – Esportes
Especial Olimpíada
6 de agosto de 2012
por Vanessa Barbara
Em 17 de agosto têm início os Jogos Alternativos de Gales, em Llanwrtyd, no Reino Unido, uma espécie de competição composta só desses esportes que todo bêbado já quis ver nas Olimpíadas: Encantamento de Minhocas, Guerra de Frutinhas, Carregamento de Esposas, Regata de Gravetos (categoria infantil), Snorkel na Lama, Hóquei Subaquático e Corrida do Queijo.
O evento dá continuidade a uma temporada inesquecível para o desporto britânico, que começou, sem dúvida, com a Copa do Mundo da Luta de Dedão, modalidade em que dois pés desnudos entram em confronto. O torneio ocorreu em 14 de julho, em Derbyshire, e teve como campeão o lendário Alan “Asqueroso” Nash, conhecido por ter quebrado quatro dedos em uma só luta. “Quebrei nove dedos ao longo da minha carreira”, afirmou.
Pensando nisso, e como não queremos ficar pra trás na Olimpíada de 2016, aqui vão ligeiras adições às modalidades reinantes, com vistas a tornar o evento ainda mais emocionante.
Em primeiro lugar, trocar o futebol de campo pelo futebol de salão e, já que estamos aí, agregar também o futebol de sabão – em saibro, grama ou lona. Promover a inclusão do vôlei de lençol (dois times impulsionando a bola num jogo de cama bem esticado), da queimada, da batata quente e do arranca-toco com bola de capotão, no qual seríamos uma potência. Na ginástica, propor o pula-sela, desporto com grande número de luxações e traumatismos.
Em seguida, retomar o cabo de guerra, desastrosamente excluído dos Jogos Olímpicos em 1920, quando foi vencido por um time de policiais de Liverpool. Trata-se de um esporte que requer muita força, equilíbrio e trabalho em equipe. Em 1997, um cabo de guerra com a participação de 1.600 pessoas resultou na amputação de dois braços, e, anos antes, na Alemanha, dois competidores morreram após a prática.
No ramo de esportes aquáticos, a sentida ausência do biribol deveria ser corrigida, com o orgulhoso povo de Birigui ditando as regras para o resto do mundo. (Para quem não sabe, o biribol foi inventado nos anos 60 pelo professor Dario Miguel Pedro na portentosa Cidade Pérola.)
Uma das categorias mais nobres da Olimpíada, o atletismo, tem sofrido de uma estagnação criativa histórica e se beneficiaria de novas modalidades: a barra-manteiga atrairia multidões, bem como o pega-pega americano, o esconde-esconde clássico (um, dois, três, República Tcheca!) e a corrida de saco. Grandes emoções seriam esperadas na corrida do ovo na colher (sobretudo quando o atleta derruba o redondo) e na inebriante dança da laranja.
Essas modalidades, juntas, formariam o heptatlo contemporâneo, e pouco importa que sejam seis ao todo.
Dois mil e doze: a série
Posted: 6th agosto 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TVTags: BBC, Londres 2012, mockumentary, séries, The Office
Folha de S.Paulo – Ilustrada
6 de agosto de 2012
por Vanessa Barbara
Em março do ano passado, faltando 500 dias para a abertura da Olimpíada de Londres, a BBC estreou uma série chamada “Twenty-Twelve” (em português, 2012).
Espantosamente verossímil, a atração acompanha o comitê de organização dos Jogos, num falso documentário ao melhor estilo “The Office”, com depoimentos à câmera e instantâneos de reuniões.
Foram duas pequenas temporadas de 13 episódios no total, com 30 minutos cada. Sob uma avalanche de críticas positivas, a série terminou na terça-feira retrasada, a três dias da abertura verdadeira, com um corte abrupto e tipicamente britânico.
Neste seriado, a Olimpíada é planejada por uma equipe de burocratas obtusos, brigões, preguiçosos e incompetentes, ainda que às vezes bem-intencionados. Empresas patrocinadoras e políticos vivem se metendo nos assuntos, com resultados sempre desastrosos.
Num dos episódios, o grupo organiza uma despropositada cerimônia para o “Dia da Inclusão”, que por coincidência caiu na mesma data do “Dia da Diversidade” – seguem-se discussões inflamadas sobre a diferença entre ambas.
A ideia vencedora envolvia plantar um carvalho no parque Potters Fields, onde posteriormente se descobriu que havia uma fila de dois anos para mudanças no paisagismo. Alguém sugeriu que a árvore fosse plantada de qualquer forma e posteriormente removida. Na última hora optam por trazer uma caixa de terra para o parque, mas ocorre um imprevisto: esquecem as sementes.
O resultado foi uma solenidade com meia dúzia de fotógrafos, uma fileira de crianças carentes formando a palavra “inclusão” e o plantio de uma vergonhosa bala de chocolate, jogada dissimuladamente por uma atleta paraolímpica.
Qualquer semelhança com a gafe (real) na partida de futebol feminino da Coreia do Norte, em que os nomes das atletas apareceram no telão ao lado da bandeira da Coreia do Sul, é apenas uma coincidência perturbadora.
Escrita e dirigida por John Morton, a série cômica é tipicamente inglesa, com silêncios constrangedores e cortes irônicos. Não há claque e nem risadas gravadas. Narrada pelo ator David Tennant, contou com uma participação especial do próprio presidente do Comitê Olímpico, Sebastian Coe, que confessou adorar o programa.
“Twenty-Twelve” bem que poderia ter seu similar nos Jogos do Rio, em 2016, com a diferença de que não precisaria ser ficcional.
Primos pobres
Posted: 4th agosto 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Londres 2012Tags: exército, família olímpica, Hackney, Londres 2012
Folha de S.Paulo – Esportes
Especial Olimpíada
4 de agosto de 2012
por Vanessa Barbara
Tentei levantamento de peso, mas o ingresso mais barato que restou foi o de 65 libras (210 reais) para um embate feminino na categoria abaixo de 58kg. Fui atrás de saltos ornamentais (295 libras), natação (esgotado), ginástica (idem) e atletismo (450 libras). Tudo era muito caro e acabava em questão de horas. Tampouco havia ingressos para visitar o Parque Olímpico, que é fechado às pobres almas sem credencial.
Só o que consegui foi comprar com antecedência de um mês entradas para o vôlei (55 libras), vôlei de praia (45) e futebol (40).
Dessa forma, quando as imagens ao vivo das competições mostraram enormes áreas desocupadas, a plebe se sentiu pessoalmente ofendida. “Quase 250 mil lugares vazios desperdiçados desde a abertura. Dá pra sentar toda a população de Hackney!”, esbravejou um usuário do Twitter.
O Comitê Organizador da Olimpíada tem procurado solucionar como pode a questão do vácuo em eventos dados como esgotados. Esta semana, prometeram investigar a situação, alegando que tais áreas são em geral destinadas a membros da chamada “família olímpica”: autoridades, patrocinadores, representantes de federações internacionais e da imprensa.
Segundo o jornal “The Guardian”, ao menos 20% dos assentos seriam reservados à patota de elite, sendo que nos eventos mais concorridos (como a cerimônia de abertura e a final dos 100 m rasos), esse índice chegaria à metade.
Alguns desses VIPs mal têm a intenção de saírem de seus hotéis, outros simplesmente não se interessariam. Mais uma vez, o Exército foi convocado para preencher alguns desses lugares vagos, no que foi provavelmente a ocupação militar mais fácil da história.
Tudo isso é particularmente irritante para nós, os primos pobres dessa desalmada família, deserdados por Mamãe Olimpíada e Papai Medalha. Quanto mais o sujeito é fanático pelo esporte em questão, mais insuportável é a visão dos espaços desocupados, em geral nas áreas mais nobres do estádio. (Muitas vezes, os lugares disponíveis para o público são tão ruins que a única coisa que se pode ver dali são os assentos vagos.)
Ao longo da semana, felizmente, o comitê liberou através do site alguns ingressos para o basquete, canoagem e taekwondo (20 libras), tênis de mesa e luta greco-romana (35), handebol e tênis (40), hóquei e judô (45), boxe e nado sincronizado (50), vela (55), vôlei, polo aquático e esgrima (65), atletismo e vôlei de praia (95). Mas só com muita sorte era possível completar a compra, que em geral dava erro.
Do que se conclui que, na Olimpíada, até para conseguir um espaço atrás do pilar é preciso ter uma boa conexão.


