Há uma gaiola vazia no jardim aqui fora e uma sepultura branca no fundo do quintal – juro – mas não sei a que se refere. Algo me diz que os locatários barulhentos da Rue de Meaux não costumam sobreviver.
O bom de ter de novo uma casa é que a gente pode pendurar as meias num varal improvisado com uma presilha e ninguém pode reclamar.
Na lista do interfone do prédio, meu nome é Gangasena – uma associação cultural hindu. Aparentemente, eu dou aulas de yoga. (Precisando, é só interfonar.)
Oito e meia da manhã, frio, garoa e nem uma alma acordada na Rue de Meaux. Silêncio absoluto. Fosse no Mandaqui e os vizinhos já estariam batendo vitaminas no liquidificador, gritando com o papagaio (e obtendo resposta) e cantando Leone como quem toma a Prússia.
Na dúvida, o secretíssimo QG da Força Expedicionária vai fazer um chocolate quente e decidir que país invadir daqui a pouco.
Reza a etiqueta mandaquiense que é de bom-tom elogiar os sapatos do seu senhorio, sobretudo quando ele é também seu vizinho.
“Ainda tão passando o aspirador”, comentou um senhor de camiseta listrada, sobre atraso no vôo.
Funcionário do Duty Free, tentando convencer cliente a comprar um par de óculos escuros:
“Ficou lindo, dá pra ir num funeral e abafar.”




