A arte de desconversar

Posted: 7th maio 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S.Paulo – Ilustrada
7 de maio de 2012

por Vanessa Barbara

O ano é 2030. Dois adolescentes estão sentados no sofá com cara de tédio. “Crianças, vou lhes contar uma história incrível. A história de como conheci a mãe de vocês”, diz Ted Mosby. “Estamos sendo punidos por algo?”, pergunta o menino. “Isso vai levar muito tempo?”, indaga a menina.

Sim: a história já dura uns sete anos.

Pouco se fala por aqui de “How I Met Your Mother” [Como conheci a sua mãe], uma das sitcoms mais assistidas entre o público jovem, com média de 11 milhões de espectadores por episódio e um total de sete temporadas. Mesmo no Brasil ela é popular, embora não seja exibida em nenhum canal. Ganhou cinco Emmy e é tida como sucessora de “Friends”.

O pano de fundo é similar: cinco amigos na cidade de Nova York. Segundo os criadores, a série da CBS fala sobre “as coisas idiotas que nós fizemos aos 20 e poucos anos”.

O protagonista é Ted, um arquiteto que conta sua história em flashback. Logo de início, ele narra como se apaixonou por uma determinada garota, fala sobre o primeiro encontro e vê a reação dos filhos – sobretudo quando ele revela que a moça em questão não é a mãe deles, mas uma amiga. “…E foi assim que conheci a tia Robin.”

Episódio após episódio, Ted ameaça introduzir sua esposa, sem nunca fazê-lo: “Calma, já chego lá. Como eu disse, é uma longa história”.

A identidade da Mãe e as circunstâncias de seu surgimento são mistérios da série, que, porém, não se apoia só nisso. Importa mais ver as peripécias de Ted, Robin, Lily, Marshall e Barney, este último interpretado por Neil Patrick Harris. “Isso vai ser legen… dário”, ele repete, acerca das coisas mais estúpidas. O grupo segue regras de conduta e submete seu dia a dia a debates absurdos.

A linguagem é diferente – o ponto de vista é o de Ted, que se contradiz de propósito, omite fatos e inventa passagens descaradamente. Seu jeito de antecipar o suspense e dar dicas sobre a identidade da Mãe alimenta teorias quanto ao futuro dos personagens e o momento exato em que ela aparece.

Um dos melhores episódios é “Slap Bet”, em que eles fazem uma aposta para descobrir por que Robin tem medo de shopping center. E “Pineapple Incident”, em que procuram entender por que Ted acordou após uma festa com o tornozelo torcido, a jaqueta carbonizada e um abacaxi em cima da cômoda.

Isso vai ser legen…

(Da preguiça de tirar fotos.)

Este é o QG de onde a Força Expedicionária Mandaquiense liderou os Aliados (Mandaqui-Itália-Freguesia do Ó-São José do Rio Preto) durante uma recente e breve investida a Londres, com resultados bastante favoráveis ao nosso exército. A blitzkrieg já é considerada pelos historiadores um sucesso, tirando a participação do soldado com a toalhinha bordada, que passou o tempo todo gripado.

Agora estamos de partida para a Croácia a fim de reorganizar as tropas e marchar triunfantemente de volta a Paris.

Dos italianos da casa, Gianluca é o meu preferido. Ele está sempre gripado e anda pela casa de pijamas, assoando o nariz, com cara de irritado. Tem uma toalhinha de rosto com o nome bordado (!). E também acabou de acordar.

(Com a diferença de que ele é crupiê, e eu narcoléptica.)

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Mas tem também o Antonio, que ninguém nunca viu (até esta semana, quando ele foi pego subindo a escada uma vez e aparentemente trouxe a mãe para visitar). A brasileira aqui residente (falaremos dela depois) acha que ele é psicopata e está tramando matar todo mundo, mas eu acho que ele é um cara ótimo e já pensei em bater lá para pedir um abraço.

Ele nunca toma banho, nunca usa a cozinha, nunca é visto saindo e nem entrando. Não faz nenhum barulho no quarto. Ou é um vampiro, ou é um psicopata, ou será em breve meu melhor amigo.

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Eu também gosto do Giuseppe, que é o italiano que manda na casa. Gosto dele porque é limpinho, vive preocupado com as áreas comuns, tem uma roupa de chef de cozinha e é o dono de todos os materiais de limpeza da casa. O Giuseppe não fala inglês, mas é bem animado e de manhã bota um aquecedor no banheiro para poder tomar banho mais tarde.

Daí tem uns outros italianos que eu nunca sei quem são, e provavelmente é só mais um e provavelmente é o Marco, mas eu gosto que de capuz todos eles parecem o mesmo italiano. E falam alto. E gesticulam.

E quando alguém abre a porta, é que nem a Casa da Mãe Joana: um deles xinga alguma coisa, o outro grita e vem puxar assunto, engata-se uma entusiasmada conversa num idioma que não é exatamente o de ninguém e eu saio correndo em direção a um helicóptero e uma rota de fuga.

O Paulo diz que às vezes os italianos vêm bater na porta perguntando se é tua a roupa na máquina de lavar, e quando não encontram exatamente o dono saem a gritar pela casa: “A roupa na máquina de lavar! A roupa! De quem é a roupa?”

Eu consigo visualizar o Marcelo Mastroianni no papel, e fico procurando a saída de Cinecittà.

Folha de S.Paulo – Ilustrada
30 de abril de 2012

por Vanessa Barbara

Quando foi que a TV se distanciou do rádio, em matéria de noticiário? É isso o que penso após ouvir o “Jornal de Amanhã”, da Rádio Bandeirantes (seg. a sex., 22h40) e traçar uma comparação com seu primo televisivo, o “Jornal da Band” (seg. a sáb., 19h15).

Sou de uma geração que cresceu diante da TV e só ouvia rádio de manhã, no carro do pai, indo para a escola. É uma linhagem traumatizada pelos acordes de Billy Blanco, “Vambora, vambora/ Olha a hora, vambora, vambora”, do jornal matutino da Jovem Pan, e pela aterrorizante vinheta de “O Pulo do Gato”, programa da Bandeirantes que começava às 5h30. Até hoje tenho pesadelos narrados por José Paulo de Andrade, que diz: “Olha a aula, olha a hora”, enquanto eu babo no meu uniforme de lã do colégio.

Apesar do trauma radiofônico, me impressiona a qualidade das emissoras AM e seus boletins de notícias, entrevistas demoradas e locutores com voz de príncipe.

O “Jornal de Amanhã” tem uma hora e meia de duração e só trata de assuntos relevantes. A escalada de manchetes dura 15 minutos e apresenta as notícias do dia num tom impecavelmente neutro e informativo.

Só houve uma gracinha em toda a edição, algo referente a Chico Anysio arrancar lágrimas em vez de gargalhadas. Também o locutor alongou-se em suas impressões sobre o tema, que, de resto, foi abordado de forma sóbria num texto limpo e bem redigido.

Já o telejornal da Band abriu a manchete sobre o falecimento do humorista com a frase: “Rir é o melhor remédio”. Rendeu-se a uma boa dose de “Fala, Povo”, esse nefasto costume televisivo de colher depoimentos de populares, em geral espirituosos e inócuos, só para pontuar a matéria.

Numa reportagem sobre uma escola de música clássica para crianças carentes, a repórter perguntou: “Ficou feliz?” a um jovem tocando violino pela primeira vez. Está para nascer alguém que responda: “Não. Só vim por causa do lanche”.

Se o início do jornal televisivo até que estava bom, do meio para o fim a coisa desandou. No rol das notícias do dia, um especial de cinco minutos sobre qualidade de vida e “como alcançar esse estado de espírito chamado felicidade”. As declarações eram óbvias e espelhavam o que o repórter queria ouvir.

Deu pra ver o clichê vindo lá da Avenida Zumkeller, com suas garras pintadas de esmalte, ávido para me soterrar de gracinhas e liquefazer meu cérebro.

Cadernos Expedicionários

Posted: 30th abril 2012 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários

E da bucólica e zen Rue de Meaux do Monsieur Gabin, com suas rosas amarelas e livros de filosofia da religião, passamos para o set de “Rocco e Seus Irmãos”, um reduto de italianos diante da Baden Powell Primary School.

at Hackney, London.

Folha de S.Paulo – revista sãopaulo
29 de maio de 2012

VANESSA BARBARA, COLUNISTA DA FOLHA

Distribuídos ostensivamente pelas plataformas da rodoviária, os relógios patrocinados pela Cia. do Terno parecem vigiar os vigias. O chão é lustroso, os coques das funcionárias bem presos e há um “mix comercial” de 78 lojas reluzentes, coloridas, entulhadas de anúncios e quinquilharias. É o Tietê Station Center.

Na última década, a rodoviária Tietê tornou-se um “espaço limpo e seguro que se assemelha ao conceito dos aeroportos e shoppings”, segundo release da Socicam (empresa que administra o terminal). Tudo é organizado e padronizado, os ônibus saem no horário, os lanches são caríssimos e é terminantemente proibido tirar fotos. Ninguém pode falar com os funcionários sem autorização prévia. Ao que tudo indica, a alta cúpula da Socicam teria sido substituída por ciborgues.

Ciborgues, como todos sabem, não têm coração, por isso a estação perdeu um pouco o calor humano e a graça. Suas tabacarias, perfumarias, cafés e LAN houses são proibitivas para a maioria dos usuários, que ficam com vergonha de tirar os sapatos para descansar os pés. Há menos chulé e mais óculos Ray-Ban, mais mensagens automáticas nos alto-falantes e menos salgadinhos de queijo grudados nas solas dos transeuntes.

Ainda que os ciborgues da Socicam tentem manter sob controle os elementos mambembes dessa estação comercial-cibernética, é possível encontrar gente furtiva lavando morangos no banheiro, longe das câmeras, puxando os cabinhos e resistindo à dominação robótica.

A Socicam é como esses avisos que a gente vê nos bebedouros e nos banheiros públicos: “Proibido encher garrafas”, “Proibido lavar os cabelos” e “Proibido lavar marmitas”. A empresa controla 45 terminais rodoviários pelo país (Brasília, Campinas, Rio de Janeiro) e 43 terminais urbanos como se fossem propriedade privada.

Temo que, no futuro, não seja mais permitido jogar conversa fora e tirar cochilo nos bancos. Os bancos, aliás, estão cada vez mais escassos, pois que incentivam a vadiagem, e logo será ilícito chegar cedo demais, entrar nas lojas para trocar uma nota de 20 e trazer comida de casa.

A rodoviária é uma cidade de pessoas que chegam e vão embora na mais perfeita ordem, e de outras que revolucionariamente ficam, tirando o cabinho dos morangos, feito membros da Resistência.


VANESSA BARBARA, 29, é autora de um livro sobre a rodoviária, “O Livro Amarelo do Terminal” (2008, Cosac Naify), vencedor do prêmio Jabuti de reportagem. Escreve na “Ilustrada” às segundas-feiras

Cadernos Expedicionários

Posted: 28th abril 2012 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários

Há uma gaiola vazia no jardim aqui fora e uma sepultura branca no fundo do quintal – juro – mas não sei a que se refere. Algo me diz que os locatários barulhentos da Rue de Meaux não costumam sobreviver.

Cadernos Expedicionários

Posted: 28th abril 2012 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários

As rosas amarelas do Monsieur Gabin e a ocupação mandaquiense.

Cadernos Expedicionários

Posted: 28th abril 2012 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários

O bom de ter de novo uma casa é que a gente pode pendurar as meias num varal improvisado com uma presilha e ninguém pode reclamar.

Cadernos Expedicionários

Posted: 26th abril 2012 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários

Na lista do interfone do prédio, meu nome é Gangasena – uma associação cultural hindu. Aparentemente, eu dou aulas de yoga. (Precisando, é só interfonar.)