Cadernos Expedicionários #5

Posted: 26th abril 2012 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários

Oito e meia da manhã, frio, garoa e nem uma alma acordada na Rue de Meaux. Silêncio absoluto. Fosse no Mandaqui e os vizinhos já estariam batendo vitaminas no liquidificador, gritando com o papagaio (e obtendo resposta) e cantando Leone como quem toma a Prússia.

Na dúvida, o secretíssimo QG da Força Expedicionária vai fazer um chocolate quente e decidir que país invadir daqui a pouco.

Cadernos Expedicionários #4

Posted: 25th abril 2012 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários

Reza a etiqueta mandaquiense que é de bom-tom elogiar os sapatos do seu senhorio, sobretudo quando ele é também seu vizinho.

Cadernos Expedicionários #3

Posted: 24th abril 2012 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários

“Ainda tão passando o aspirador”, comentou um senhor de camiseta listrada, sobre atraso no vôo.

Cadernos Expedicionários #2

Posted: 24th abril 2012 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários

Funcionário do Duty Free, tentando convencer cliente a comprar um par de óculos escuros:

“Ficou lindo, dá pra ir num funeral e abafar.”

Cadernos Expedicionários #1

Posted: 24th abril 2012 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários

Zarpando

Por que haveria uma ROLHA no chão da fila do check-in? Alguém comemorando a progressão das posições?

Folha de S.Paulo – Ilustrada
23 de abril de 2012

por Vanessa Barbara

Senhoras e senhores, árvores e multiformes,

Em março, a TV Cultura começou a exibir “Doctor Who” (seg. a sex., às 20h20), a série de ficção científica mais longeva da história – hoje considerada um clássico da BBC britânica.

É uma atração atípica e curiosa. Alguns episódios parecem ter sido escritos por moleques de 11 anos, com “mil bilhões” de exageros e mirabolâncias. Apesar disso (e às vezes justamente por isso), o balanço é ótimo, e dá vontade de acompanhar a atração de forma sistemática.

O herói é um viajante do tempo chamado Doutor, um sujeito eufórico que se movimenta pelo passado e futuro na TARDIS, sua máquina do tempo em forma de cabine da polícia londrina. A série é tão arraigada na cultura britânica que a palavra “tardis” (sigla para “tempo e dimensões relativas no espaço”) hoje é usada para falar de algo pequeno por fora e grande por dentro.

É engraçada e tresloucadamente inventiva, com episódios escritos por Douglas Adams (de “O Guia do Mochileiro das Galáxias”), Neil Gaiman (autor da HQ “Sandman”) e Steven Moffat (de “Sherlock”). E frases como: “A morte da Terra está prevista para as 15h39, seguida de drinques servidos na suíte Manchester”.

Os destaques são o telefone celular do doutor, que faz ligações para o passado e o futuro – “Espere até ver a conta” – e sua paradoxal chave de fenda sônica.

A série é famosa pelos efeitos especiais baratos, trilha sonora eletrônica e uma cronologia das mais intrincadas, totalizando 784 episódios, 32 temporadas e 11 reencarnações do Doutor.

A fase clássica teve 26 temporadas e estendeu-se de 1963 a 1989. Nos anos 90, foi lançado um filme para a televisão. A TV Cultura começou a exibir as temporadas da nova fase, iniciada em 2005, e que no Reino Unido já está no sétimo ano.

O doutor atual é David Tennant, considerado por muitos o melhor de todos.

Quem nunca assistiu “Doctor Who” pode tranquilamente começar agora, da melhor parte – hoje, a emissora paulista exibirá o último episódio da segunda temporada, “Juízo Final”, que contém os vilões enlatados mais célebres da franquia, e amanhã é a vez de um episódio de Natal que pode ser assistido de forma independente, “A Noiva em Fuga”. Quinta-feira o convidado especial é Shakespeare.

No dia 8 de maio, “não pisque, senão você morre”. Escrito por Moffat, o apavorante “Pisque” foi eleito pela imprensa como o melhor episódio da história de “Doctor Who”.

A queda do sistema

Posted: 20th abril 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Revista Piauí
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Revista piauí n. 67
Abril de 2012

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por Vanessa Barbara

Tempos atrás, lutava-se contra o sistema. Agora a torcida é para que ele jamais caia

Pior do que ditadura militar, estado de sítio ou a descida do Anticristo na Terra, pior, enfim, que comprimido entalado na garganta, unha encravada e música do Ivan Lins no repeat, pior do que tudo na vida é o súbito anúncio: “Caiu o sistema.”

Ainda que alimentemos a ilusão de ter algum controle sobre as circunstâncias da vida, não se pode evitar a queda do sistema. Ela é como a morte. Não há nada que a contenha, ninguém que lhe escape. A queda do sistema pode ocorrer numa fila de banco, numa sala de espera, no aconchego do lar, num hospital de ponta ou num delivery de comida mexicana. É tão inesperada quanto uma chuva de sapos e tão inexplicável quanto um besouro voando. Reza a lenda que os atendentes da lotérica já têm um cartaz de prontidão na fila exclusiva para carregar o Bilhete Único – ele anuncia, feito sentença: “Sem sistema.”

A pane no sistema da SPTrans deve ser a segunda maior causa de moléstias depressivas na região metropolitana, perdendo apenas para a própria SPTrans, imbatível em sua vocação para tirar dos eixos o mais pacato dos munícipes.

Até um desejo prosaico como pedir pizza pelo telefone pode ser totalmente frustrado pela queda do sistema. E não venha argumentar que é só burlar o esquema anotando o pedido num bloquinho, ou mesmo gritar à cozinha e fazer as contas de cabeça, vai um, sobe dois, porque isso seria uma hipótese tão absurda que chega a ser indecente. Isso simplesmente vai contra o sistema. O sistema, seja ele qual for – uma tela de computador esverdeada, um pop-up de JavaScript –, é a autoridade suprema, e não há vida fora dele.

É nessas horas que se testa a integridade de um indivíduo. O homem perante a queda do sistema – eis o derradeiro teste de caráter. Há os que reagem ao imprevisto com fúria, urrando, socando as paredes, como quem acaba de encontrar uma imensa verruga peluda no nariz – sinal inequívoco do final dos tempos, de que não há motivos para continuar existindo.

Mas também há gente ponderada na Terra, gente sábia que entendeu que não somos nada nesta implacável engrenagem cósmica e que, portanto, com ou sem verruga peluda no nariz, nenhum surto de fúria irá reverter a triste verdade: o sistema parou de funcionar – e viva-se com isso.

Não vai dar para autenticar os documentos, marcar uma endoscopia, efetuar a transferência monetária que salvaria a vida de sua tia na Holanda, curtir o vídeo daquela lépida tartaruga no Facebook. Impossível colocar créditos no celular, encomendar maçãs carameladas, retirar os remédios gratuitos para hipertensão que você teria que tomar hoje, do contrário morrerá amanhã. (A morte iminente é um dos efeitos colaterais da total subserviência ao sistema.) Sinto muito, senhor. É o sistema – e não há previsão.

 

as repartições públicas, a queda fatal do sistema pode antecipar o recesso de fim de semana e trazer muitas alegrias ao homem simples, devotado à máquina estatal. Em horário de expediente, a derrocada da rede – também chamada de “pau no servidor” – é uma ótima desculpa para ceder àquela necessidade imperiosa de lixar as unhas, ler o catálogo da Avon e papear ao telefone, enquanto a fila vai se multiplicando. A prática é tão difundida que existe um protocolo específico para anunciar ao público o apagão da rede. O funcionário deve executá-lo com certo ar enlutado, convocando todos à resignação, como convém a um legítimo barnabé – afinal, é o sistema.

Na iniciativa privada, a coisa não muda muito: se não há rede, não há com o que trabalhar, e o senhor não queira sequer insinuar que devemos desencavar uns formulários pautados do almoxarifado e preencher planilhas com caneta preta e papel-carbono, pois muitos de nós têm as falanges atrofiadas e o Meirelles da contabilidade nem sabe o que é escrever à mão.

A queda do sistema está para os burocratas assim como o “mau humor do mercado” está para os economistas e a virose para os médicos: ela justifica tudo sem nada explicar. A queda do sistema é a filosofia insuperável da nossa época.

À guisa de desculpa, se alguém ainda perguntar, pode-se alegar que “o menino do TI” já foi acionado e está a caminho. Às vezes, nem isso: a funcionária do guichê bota a plaquinha no vidro e solta um suspiro entediado quando alguém pede detalhes sobre a normalização dos serviços. É preciso aguardar a volta do sistema, e uma hora ele há de voltar. Oremos.

Outros funcionários ensaiam uma desculpa absolutamente aleatória: “É o horário”, “a chuva”, “a manutenção nos servidores”, “o efeito estufa”, “a conjunção astral”, “os campos magnéticos”. Reiniciar as máquinas ou dar um chute na mesa também pode restabelecer o respeito geral – no mínimo, dá a impressão de que algo está sendo feito pelo sistema.

Curioso é que, tempos atrás, lutava-se contra o sistema, e agora a torcida é para que ele jamais caia.

Poucos sabem que ele é pensado para sofrer tilts com certa regularidade, em maior ou menor escala, e para ruir por completo sem razões plausíveis – do contrário não seria tão respeitado. Nem tampouco sistêmico. Karl Marx já explicou, em seu Manifesto Comunista, que o sistema contém em si o germe da destruição do próprio sistema; em algum lugar, em meio a uma porção de códigos binários e comandos incompreensíveis em linguagem php, há sempre uma determinada linha que põe tudo a perder.

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Não se brinca com o sistema.

Revista piauí – n. 67
Abril de 2012

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Fluxo de tartarugas intriga moradores de prédio carioca

por Vanessa Barbara

Eliane Castelo Branco é uma senhora elegante de olhos azuis e cabelos brancos. É diretora médica do Hospital São Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro. Já foi síndica e hoje é subsíndica de um edifício de seis andares encravado numa ruazinha torta do Jardim Botânico. Foi lá que, certa tarde, deparou-se com o inexplicável: as duas tartarugas que moravam no laguinho do prédio viraram três da noite para o dia.

“Me avisaram: olha, o segurança botou aí uma tartaruga que encontrou andando na calçada, sozinha”, contou. “Estava numa rua sem saída.” Pouco menor que as demais, a novata já era adulta. Não faltou quem imaginasse uma explicação para a inusitada presença: a nova hóspede decerto viera visitar as amigas e se perdeu no caminho.

Hoje a população do laguinho é flutuante, literalmente: são cinco tigres-d’água, às vezes sete. As tartarugas somem e reaparecem, mas ninguém sabe explicar por quê. A hipótese mais aceita pelos condôminos é que algumas são visitantes temporárias deixadas pelos donos em férias que depois voltam para buscá-las. Vez ou outra uma delas foge, espremendo-se pela cerca baixa que ladeia o jardim: “A gente acha tartaruga no corredor de entrada, na calçada, em tudo que é canto”, disse Eliane.

O mais intrigante é que a multiplicação das tartarugas está acontecendo sob as barbas de todos. A rua possui um vigia 24 horas e o prédio tem porteiro diurno. Nenhumdeles jamais flagrou qualquer operação de carga e descarga. A instalação de câmeras de segurança para solucionar o mistério não foi descartada pelo condomínio.

Uma testemunha-chave para a investigação é Erivan Silva, há mais de dez anos porteiro do “prédio das tartarugas”, como ficou conhecido na vizinhança. É Erivan quem cuida do bem-estar dos inquilinos aquáticos. Serve aos animais uma dieta inaudita: eles só aceitam ração de gato.

Na limpeza mensal do lago, costuma botar “todo mundo de barriga pra cima” para não fugir. “Um dia esvaziei o lago e vi que brotaram outras duas bem pequeninas”, contou o porteiro. Em razão do tamanho, as novas hóspedes quase passaram despercebidas. Um mês depois, tinham desaparecido.

A hipótese óbvia para explicar a multiplicação dos habitantes do lago seria a procriação dos bichinhos. Contudo, as cinco residentes são fêmeas, aparentemente – e a literatura técnica ainda não registrou casos de partenogênese em tartarugas. Sem ter examinado os animais no foco da polêmica, o médico-veterinário Rafael Bittencourt Torres, de uma clínica da Zona Sul do Rio, não descartou a hipótese de reprodução. “Em cágados, a diferença entre macho e fêmea pode ser quase imperceptível, de modo que as duas menorzinhas podem ser crias”, considerou.

 

ocupação do lago remonta a 1995, quando uma sobrinha de Eliane confiou à tia uma dupla de tartarugas de água doce, na época adquiridas em feiras, o que hoje é ilegal. Eram tão diminutas que Eliane as abrigou num pirex. Dividiam o apartamento com uma gata, dez gatinhos, um coelho que dormia em cima de um cão, um casal de hamsters e seus 35 filhotes.

Naquele tempo, o prédio já tinha um lago com peixinhos no jardim. Crescidas, as tartarugas foram transferidas para lá e, com a fartura de espaço, sol e alimento, dobraram de tamanho. Anos depois, de número.

Sua presença não desagrada aos condôminos, mas alguns não veem com bons olhos a circulação de estranhos nas dependências do prédio. O incômodo não impediu a afluência de visitantes que fizeram dele uma referência na vizinhança: há quem frequente o lago só para ver os répteis tomando sol. Os mais destemidos querem acariciar os bichos. “Quando estou perto, peço para não botar a mão porque elas mordem”, disse Eliane. Vítima ela própria da fúria quelônia, a subsíndica pensou em colocar um aviso: “Cuidado! Tartaruga brava.”

A babá Dilma de Oliveira Coutinho conheceu a atração em 2008, ao se mudar para o bairro. Vinda de um prédio com playground e pracinha, esbarrou na escassez de recursos para entreter as gêmeas Maria Antonia e Valentina Ruiz Britto, de 5 anos. Foi um alívio quando descobriu a pródiga fauna do bairro, com macacos-prego que entram pelas janelas basculantes, lagartos tomando sol nas ruas e o insólito prédio das tartarugas.

Nas visitas ao lago, Maria Antonia desenvolveu verdadeira obsessão em alisar cascos. Já a irmã se limitava a interagir com as tartarugas arremessando-lhes folhinhas de alface. Nenhuma delas sabe dizer de onde vêm e para onde vão as ativas cascudas.

O veterinário Rafael Torres trouxe uma pista valiosa ao evocar o tamanho da espécie. Os tigres-d’água podem chegar a 30 centímetros de diâmetro, o equivalente a uma folha de papel A4 – informação omitida aos clientes por alguns vendedores de pet-shop. “A pessoa compra achando que vai ficar pequenina e acaba com um bicho enorme”, disse. Com a fama que ganhou, o prédio poderia ser um depósito de tartarugas indesejadas da vizinhança. “O lago do condomínio Parque Guinle, em Laranjeiras, é um conhecido lugar de desova”, comentou.

Subitamente, um inocente menino que frequentava o lago todos os dias ganhou ares de suspeito. “Ele passava para dar tchau, chamava a bichinha pelo nome, nitidamente era dele”, contou Eliane. “A mãe deve ter pedido para se livrar do bicho e ele o levou para o prédio vizinho”, supôs a subsíndica. Estaria aí a resposta para o mistério? O menor não foi localizado pela reportagem para esclarecer o caso.


Galeria

Episódio número cem

Posted: 16th abril 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S.Paulo – Ilustrada
16 de abril de 2012

por Vanessa Barbara

Nos últimos capítulos desta coluna, abordamos 99 assuntos dos mais disparatados, como suricatos, punção lombar, Ciro Bottini, futebol de várzea, Leilão de Muares e acumuladores de entulho.

Revelamos em primeira mão os segredos mais bem guardados da tevê brasileira, como o fato de que não há ninguém de plantão nos estúdios de transmissão dos canais a cabo – só uma sonolenta calopsita silvestre cujo ofício é botar a fita para rodar no primeiro dia de cada mês, copiando e colando os mesmos reclames em intervalos aleatórios.

Falamos muito cedo das lutas de MMA e seus protagonistas, o “Maníaco Hispânico”, o “Mestre da Maldade” e o “Ninja do Amor”. Pouco depois, demos espaço a Morgan Freeman, mais conhecido como Deus, apenas para provar que ouvimos os dois lados. Traçamos a gênese do coraçãozinho com as mãos, que remonta a Alexandre Pato, e da mística do controle remoto universal.

Assistimos com a mesma disposição cinco horas seguidas de Raul Gil, oito temporadas de “24 horas”, uma tarde inteira de programas femininos e um episódio especial de “Busão do Brasil”. Utilizamos vocábulos como “enchoiriçada” e  “lumbago”, e publicamos uma coluna só sobre rádio que passou despercebida dos chefes. Falamos de Big Brother, de zumbis e de Big Brother zumbi (não ao mesmo tempo).

Explicamos ao leitor leigo o que é o Teorema do Disco Riscado e da Persistência Recompensada, e a minha mãe finalmente entendeu por que o Van Damme entra numa banheira de gelo em “Soldado Universal”.

Fomos elogiados por um jornalista da ESPN americana por nossos conhecimentos sobre beisebol, saudados pela Leci Brandão e ofendidos por um anônimo, que nos acusou de ter comido cocô antes de escrever um texto. Foram dezenas de e-mails redigidos em letras maiúsculas com os mais variados xingamentos – do tipo “bobona” e “vá regar uma grama”.

Citamos o Pinheirinho e as queimadas no Parque do Trululu, celebramos a “Semana do Tubarão” no Discovery e falamos treze vezes da Globo, sete da Record, seis da Band e três do Animal Planet. Foram 29 colunas sobre séries e doze sobre reality shows. Dois concursos de misses, diferentes modelitos de pijama, 99 belas ilustrações da Águeda Horn e um controle remoto oleoso.

Nos próximos episódios: um humorista com cara de cachorro, mais implicância com os telejornais e a série de ficção científica mais longeva da televisão. Não mudem de canal.

Folha de S.Paulo – Ilustrada
9 de abril de 2012

por Vanessa Barbara

Uma das coisas boas da vida é saber que há inúmeros universos funcionando de forma paralela e independente de nós, com suas regras próprias, linguagem, lendas, vilões e heróis. Isso vale para áreas complexas como a astroquímica no Brasil e também para temas prosaicos, como o setor dos parafusos, da escultura em legumes, dos tocadores de pífano, dos fãs de “Star Trek”, dos praticantes de vôlei e entusiastas do latim.

Sempre quis falar, por exemplo, das dançarinas bamboleando atrás do Faustão – quem são elas, quais são suas motivações e angústias? Quem é a mais invejada? Quem revolucionou a área?

Dito isso, foi com prazer que me vi perdidamente envolvida no mundo da criação do gado nelore, iniciando-me num Leilão de Muares que passou ao vivo no Canal Rural.

Foram quase 4 horas de portentosos bovinos desfilando na tela enquanto compradores davam seus lances por telefone e um especialista pecuário descrevia os atrativos de cada lote. Fiquei tão fascinada que foi preciso tirar o telefone de perto, ou agora mesmo teria um novilho pastando no meu quintal.

Em pouco tempo, entendi o básico: a venda era de prenhezes, em que se exibia a vaca grávida e sua previsão de parto. Forneciam-se os detalhes da gestante, sua genealogia e se gerou descendentes célebres.

Scarlat I, por exemplo, era uma vaca de grande consistência em sua progênie. “Ô, vaca maravilhosa!”, exclamou o leiloeiro, dizendo ser “pigmentada, feminina e com a caixa de crânio linda”. Ela chacoalha o papo, como se concordasse. “Tudo o que ela pare, ela pare muito bem.”

Identificava-se também o touro – não raro, o desgovernado Bitelo SS, campeão absoluto de paternidade.

“São prenhezes destacadas e de grandes matrizes, oriundas de um legado sagrado da raça nelore do Brasil”, exclamou o leiloeiro Aníbal Ferreira, emocionado. Na abertura dos trabalhos, lamentou a ausência do criador Ronaldo Alves, um homem, um mito, que muito cedo aprendeu “a discernir o certo e errado na criação do zebu”. Ele estava ausente porque esperava a chegada de um neto – humano, e não bovino.

Fui cativada pela prenhez da Sérvia 9, uma pechincha – 24 parcelas de 500 reais –, rês de qualidade que estava sendo visivelmente subestimada, apesar de ser “maravilhosa por dentro e por fora”.

Já Backiana era uma vaca com ótima habilidade maternal, muito comprida e mimosa. Não comprei, mas foi quase.