Folha de S.Paulo – Ilustrada
9 de abril de 2012

por Vanessa Barbara

Uma das coisas boas da vida é saber que há inúmeros universos funcionando de forma paralela e independente de nós, com suas regras próprias, linguagem, lendas, vilões e heróis. Isso vale para áreas complexas como a astroquímica no Brasil e também para temas prosaicos, como o setor dos parafusos, da escultura em legumes, dos tocadores de pífano, dos fãs de “Star Trek”, dos praticantes de vôlei e entusiastas do latim.

Sempre quis falar, por exemplo, das dançarinas bamboleando atrás do Faustão – quem são elas, quais são suas motivações e angústias? Quem é a mais invejada? Quem revolucionou a área?

Dito isso, foi com prazer que me vi perdidamente envolvida no mundo da criação do gado nelore, iniciando-me num Leilão de Muares que passou ao vivo no Canal Rural.

Foram quase 4 horas de portentosos bovinos desfilando na tela enquanto compradores davam seus lances por telefone e um especialista pecuário descrevia os atrativos de cada lote. Fiquei tão fascinada que foi preciso tirar o telefone de perto, ou agora mesmo teria um novilho pastando no meu quintal.

Em pouco tempo, entendi o básico: a venda era de prenhezes, em que se exibia a vaca grávida e sua previsão de parto. Forneciam-se os detalhes da gestante, sua genealogia e se gerou descendentes célebres.

Scarlat I, por exemplo, era uma vaca de grande consistência em sua progênie. “Ô, vaca maravilhosa!”, exclamou o leiloeiro, dizendo ser “pigmentada, feminina e com a caixa de crânio linda”. Ela chacoalha o papo, como se concordasse. “Tudo o que ela pare, ela pare muito bem.”

Identificava-se também o touro – não raro, o desgovernado Bitelo SS, campeão absoluto de paternidade.

“São prenhezes destacadas e de grandes matrizes, oriundas de um legado sagrado da raça nelore do Brasil”, exclamou o leiloeiro Aníbal Ferreira, emocionado. Na abertura dos trabalhos, lamentou a ausência do criador Ronaldo Alves, um homem, um mito, que muito cedo aprendeu “a discernir o certo e errado na criação do zebu”. Ele estava ausente porque esperava a chegada de um neto – humano, e não bovino.

Fui cativada pela prenhez da Sérvia 9, uma pechincha – 24 parcelas de 500 reais –, rês de qualidade que estava sendo visivelmente subestimada, apesar de ser “maravilhosa por dentro e por fora”.

Já Backiana era uma vaca com ótima habilidade maternal, muito comprida e mimosa. Não comprei, mas foi quase.

 

Blog da Companhia das Letras
03 de abril de 2012

por Vanessa Barbara

Phineas Gage

“E se amanhã eu acordar e não for mais eu mesmo, 
mas um besouro vira-bosta?” (Andrew Solomon)

Muitas vezes, ler sobre desequilíbrios, insânias e extravagâncias pode ser uma grande fonte de alívio para quem, como eu, tem medo de um dia acordar besouro. É terapêutico saber que há casos piores que o nosso, como o de Oliver Sanderson, que há mais de trinta anos pensa que é uma laranja, ou Phineas P. Gage, um operário de ferrovias que, após uma explosão, teve o crânio trespassado por uma barra de ferro de 6 kg. O comprido artefato entrou pela bochecha esquerda do rapaz, projetou seu globo ocular para fora, perfurou o lobo frontal e saiu pelo topo da cabeça. Ao dar entrada no hospital, caminhando, ele comentou ao médico: “Doutor, isso aqui vai dar um trabalhão”.

Além de catártica, esse tipo de leitura pode estabelecer uma conexão com outros mundos (autismo, esquizofrenia, depressão), do qual podemos sair a qualquer momento simplesmente desligando o abajur.

A seguir, uma lista das minhas leituras psiquiátricas preferidas (elaborada após o pedido de um Top 5 para o blog Meia Palavra). Lacunas imperdoáveis podem ser atribuídas a um lapso de memória e não devem ser consideradas sintomas. Para a infelicidade dos que sofrem de TOC, a lista não segue nenhuma ordem.

1) O demônio do meio-dia, de Andrew Solomon, ed. Objetiva. Melhor estudo sobre depressão já publicado. Com um estilo literário apurado, o jornalista expõe seu vínculo pessoal com a doença e faz uma investigação de sua incidência, manifestação, sintomas e tratamentos. É um mundo cinzento onde chove o tempo todo e até as estruturas mais fortes podem ser tomadas pela ferrugem. “Viver com depressão é como tentar manter o equilíbrio enquanto dança com um bode”, define.

O repórter da revista The New Yorker explica que a depressão começa do insípido, enevoa os dias num tom sépia e enfraquece ações ordinárias até que suas formas claras sejam obscurecidas pelo esforço que exigem, nos deixando cansados, entediados e obcecados em nós mesmos. Há uma bela passagem sobre a dificuldade que ele tem para se levantar da cama e ir tomar banho, antecipando cada passo e por fim desistindo da tarefa: “No mundo inteiro as pessoas tomam banho. Por que eu não podia ser uma delas?”.

Seu relato oscila magistralmente entre o registro jornalístico e o pessoal. A pesquisa durou cinco anos e é bem precisa em suas metáforas e definições: na depressão, o ar parece espesso e resistente, como que cheio de massa de pão. Tudo o que foi rápido é agora lento. A depressão, enfim, é a ausência de sentido vital de propósito e o embotamento de sensações — felicidade, tristeza, senso de humor e capacidade de amar.

A superação da doença é às vezes descrita com a simplicidade de quem decide sair para comprar um par de meias. Para alguns dos personagens deste livro, a salvação foi “fazer coisas com fios”, descascar pepinos, aprender sapateado e forçar-se a seguir em frente. “Pessoas que atravessaram uma depressão e estão estabilizadas frequentemente têm uma aguda consciência da alegria da existência cotidiana. Mostram-se capazes de uma espécie de êxtase imediato e de uma intensa apreciação por tudo que é bom em suas vidas. […] Podem desenvolver uma profundidade moral que é um troféu no fundo de sua caixa de tristezas”, diz.

2) Um antropólogo em Marte: Sete histórias paradoxais, de Oliver Sacks, ed. Companhia das Letras. O renomado neurologista e escritor descreve alguns casos curiosos que encontrou durante a prática clínica: um pintor que enxerga tudo em preto e branco, um cirurgião com síndrome de Tourette, um massagista cego que recupera a visão.

Autor de onze livros, Sacks descreve em detalhes o histórico de vida dos pacientes. Seu estilo literário aproxima-se das chamadas “anedotas clínicas” do século XIX, com especial influência do neuropsicólogo A. R. Luria, frequentemente citado em seus artigos.

Um dos pontos altos da obra é a constatação de que as deficiências, distúrbios e doenças podem ter um papel paradoxal na vida das pessoas, revelando poderes latentes que talvez nunca fossem vistos na ausência desses males. Em Um antropólogo em Marte, o tema central é justamente o potencial criativo das doenças. Se, por um lado, os distúrbios de desenvolvimento destroem caminhos preciosos no cérebro, podem, por outro, forçar o sistema nervoso a buscar alternativas, levando-o a um inesperado crescimento ou evolução.

O próprio Sacks é portador de algumas afecções esquisitas: tem prosopagnosia congênita, que é a incapacidade de identificar rostos — inclusive o dele mesmo. Há dois anos, perdeu a visão estereoscópica (tridimensional) devido a um tumor maligno na retina, e não enxerga mais em profundidade. Em O olhar da mente, ele conta sua dificuldade de subir escadas, atravessar a rua e caminhar sem tropeçar ou trombar nos outros.

Outros grandes livros de Sacks são: Tempo de despertar (que deu origem ao filme),Alucinações musicais e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu.

3) O segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell, ed. Companhia das Letras. Escrito por um dos maiores jornalistas da New Yorker, é o perfil de um mendigo excêntrico que pretende escrever a história oral do nosso tempo, um livro doze vezes maior do que a Bíblia. Gould era conhecido por falar com gaivotas e despejar na comida frascos inteiros de ketchup. Caótica e ambiciosa, sua obra possuía longos capítulos ensaísticos que tratavam de temas como a influência do tomate na vida da sociedade contemporânea, além de trechos narrativos, fartamente carregados de digressões, nos quais Gould reproduzia conversas ouvidas ao acaso.

“Trata-se, talvez, da obra inédita mais longa que existe: a História Oral e as notas ocupam 270 cadernos de linguagem, desses que as crianças usam na escola, todos rasgados, imundos, manchados de café, gordura e cerveja. Gould usa caneta-tinteiro e enche os dois lados de cada folha, sem deixar margem alguma, tem péssima caligrafia, e centenas de milhares de palavras são legíveis só para ele mesmo. Nenhum editor se interessou pelo trabalho.”

4) “O alienista”, de Machado de Assis, in: Papéis Avulsos, ed. Penguin-Companhia das Letras. Conto clássico sobre um médico que decide enveredar pelo campo da psiquiatria, abre um sanatório e se dedica ao estudo da loucura. “De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados de espírito.” Com o passar das páginas, sua definição de loucura se torna ligeiramente mais abrangente.

“Não imaginava a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois do almoço fazia regularmente um discurso acadêmico, ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de Cícero, Apuléio e Tertuliano. O vigário não queria acabar de crer. Quê! Um rapaz que ele vira, três meses antes, jogando peteca na rua!” Esse era provavelmente um genuíno Louco de Palestra.

Entre os meus preferidos estão um rapaz que se supunha estrela-d’alva, abria os braços e alargava as pernas, para dar-lhes certa feição de raios, “e ficava assim horas esquecidas a perguntar se o sol já tinha saído para ele recolher-se”. Outro era um fazendeiro de Minas cuja mania era distribuir boiadas a toda gente: dava trezentas cabeças a um, seiscentas a outro, e não acabava mais. “Não falo dos casos de monomania religiosa; apenas citarei um sujeito que, chamando-se João de Deus, dizia agora ser o deus João, e prometia o reino dos céus a quem o adorasse”. Também destaco o licenciado Garcia, que não falava nada pois acreditava que, no dia em que chegasse a proferir uma só palavra, “todas as estrelas se desapegariam do céu e abrasariam a terra”.

5) Bem que eu queria ir, de Allen Shawn, ed. Companhia das Letras. Bela obra de referência para os fóbicos. O autor confessa ter medo de altura, água, campos abertos, estacionamentos, túneis, elevadores, metrôs, pontes e estradas desconhecidas. Sua agorafobia serve de base para uma investigação mais ampla sobre as fobias e a psicologia do medo. O grande mérito deste livro é que, à maneira de Oliver Sacks, acaba expondo a relação direta entre nossas fraquezas e aquilo que somos. Referindo-se ao pai (o lendário editor William Shawn), o autor diz: “O paradoxo é que, sem suas fobias, ele não teria chegado aonde chegou. Podia muito bem ter chegado a outros lugares; que possivelmente poderiam lhe ser mais compensadores, mas não lá, onde se revelou tão competente.”

Shawn explica que o conceito de fobia abrange todo um elenco de temores sociais, que podem ir da especificidade (ficar trancado em um armário de lavanderia) à generalização (todo confinamento de qualquer espécie), mas podem também permanecer notavelmente individualizados. “Recentemente li a respeito de um tenista que tinha medo de coisas felpudas e, portanto, usava luvas quando jogava; de certa pessoa que evitava todos os objetos marrons e não conseguia caminhar na direção de nada que fosse dessa cor; de uma mulher que tinha uma severa fobia de coxas de galinha. Sempre que a convidavam para uma festa, ela precisava ligar e perguntar: ‘Vocês não vão servir coxas de galinha, não é?’.”

Há fobias que se assemelham simplesmente a um medo de estar neste planeta: o medo da luz (fotofobia), do ar (aerofobia). E, para cúmulo da ciclicidade, há o medo de adquirir fobia (fobofobia).

6) O autor mente muito, de Carlos Sussekind e Francisco Daudt, ed. Dantes. Todos os livros do escritor carioca são notáveis (o melhor é Armadilha para Lamartine), mas este é especial por ter sido escrito em parceria com seu psiquiatra. Carlos, um dos senhores mais doces e divertidos deste mundo, tratou-se durante anos e foi dado como incapaz de distinguir entre ficção e realidade. “Diante de tal imprevisto, e para que não se desperdiçasse o caudal de fantasias desenfreadas que o paciente liberou sem retorno terapêutico no consultório do dr. Daudt, resolveu a dupla associar-se numa aventura literária — desistindo da cura em favor da diversão.” Isso está no capítulo “A verdadeira história deste livro”.

Leitura complementar: Entrevista com Carlos Sussekind.

7) Querido Scott, Querida Zelda, ed. Companhia das Letras. Por último, este livro lindo e melancólico que me deixou verdadeiramente impressionada. O que mais chama a atenção nesta coletânea de cartas trocadas entre Scott e Zelda Fitzgerald é a vida triste que ambos levaram, a evolução da doença de Zelda e o modo como ela lidava com seu estado nas cartas. A escritora foi diagnosticada como esquizofrênica e internada em diversas instituições. Era imensamente infeliz, mas em sua correspondência deixa transparecer um talento profundo e até mesmo um senso de humor admirável.

“Querido: A vida é difícil. São tantos os problemas. 1) O problema de como permanecer aqui e 2) O problema de como sair daqui. E eu quero tanto ir à Guatemala e andar de bicicleta até o fim de uma longa estrada branca. Uma estrada margeada por cedros-do-líbano e choupos, com esplendores antiquíssimos se desfazendo na encosta dos morros esturricados de sol e nativos dormindo à sombra, junto a um enorme muro cinzento.”

Visível nas entrelinhas das cartas, a história de ambos é de partir o coração. Por muito tempo, Scott lutou contra o alcoolismo e Zelda jamais se recuperou de sua doença. Há uma missiva datada de setembro de 1930 em que ela faz um balanço de seu relacionamento; é amarga e catastrófica, mas linda de dar nó. Ainda que separados, eram obcecados um pelo outro: “Eu o amo tanto e estar sem você é como ter saído e deixado o gás aceso, ou largado o bebê no cesto de roupa suja”, ela diz, no hospital. “Mas vou vê-lo em breve, e a chuva martela do lado de fora da janela, achata as árvores encharcadas, sobrecarrega o cascalho do passeio e eu torço para que a terra encolha com toda essa molhadeira, assim você ficará mais perto.”

* * * * *

Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Entrevista da semana para o Portal Imprensa
2 de abril de 2012

por Ana Ignacio

O personagem principal é uma fila enorme. A partir disso, Vanessa Barbara desenvolveu um dos contos para o livro recém-lançado “São Paulo 1971-2011”. Luiz Ruffato, Ignácio de Loyola Brandão e Tony Bellotto também desenvolveram narrativas para a obra. O tema era livre. A única exigência é que a história se passasse na cidade de São Paulo. “Demorei um pouco pra pensar sobre o que escreveria, mas depois que a ideia surgiu o resto veio rápido, sobretudo o modo de contar, na forma de relato jornalístico”, diz Vanessa.

Além de “São Paulo 1971-2011”, a jornalista é autora do livrorreportagem “O Livro Amarelo do Terminal” e do infantil “Endrigo, o Escavador de Umbigo” e co-autora do romance “O verão do Chibo”. Colaboradora da revista Piauí, colunista da Folha de S.Paulo, tradutora da Companhia das Letras e criadora da “Hortaliça”, um “almanaque eletrônico de gratuidades”, como define.O ofício de Vanessa é escrever. “Me formei em jornalismo em 2003, mas descobri que não gostava de ser repórter e já comecei procurando outras opções. Nesse campo da escrita, são inúmeras”. Começou escrevendo para um site publicitário, tornou-se revisora e passou a atuar na preparação de originais para a Companhia das Letras.

Dividindo-se entre todas essas atividades, Vanessa gosta da liberdade profissional que conquistou. “Só tenho tanta liberdade para trabalhar com coisas diferentes porque não tenho um emprego fixo em lugar nenhum. Se, por um lado, isso é libertador, é terrível porque não se tem estabilidade financeira, férias remuneradas, benefícios, nada. Você acaba tendo que cuidar de si mesma, viver de forma bem mandaquiense e se conformar com isso”.

Sempre bem humorada, Vanessa falou à IMPRENSA sobre a criação de “A Hortaliça”, mídia, mercado de trabalho, presunção de jornalistas e projetos futuros.

 

IMPRENSA – Como surgiu a ideia para a criação de “A Hortaliça”? 

Vanessa Barbara – Foi há dez anos. Eu estava de férias da faculdade, não tinha o que fazer e decidi compilar num almanaque uma série de besteiras que havia anotado de leituras que fiz e coisas que vi. Enviei para algumas dezenas de amigos e essa foi a edição número um. O almanaque foi crescendo e hoje está na octogésima oitava, com 700 infelizes assinantes.

Como foi o processo de produção de seu conto para o livro recém-lançado “São Paulo 1971-2011”?

Meu conto é sobre uma fila gigantesca que começa a se formar no bairro do Mandaqui e vai tomando conta da cidade. As pessoas vão aderindo ao organismo humano mesmo sem saberem para que serve. A única diretriz fornecida pelo editor do livro foi que escrevessemos ficções sobre a cidade baseadas em determinadas décadas, e eu fiquei com a de 2001-2011. Demorei um pouco para pensar sobre o que escreveria, mas depois que a ideia surgiu o resto veio rápido, sobretudo o modo de contar, na forma de relato jornalístico. Até o meu irmão começou a ler e achou que era verdade.

Como você avalia o mercado de jornalismo hoje?

Me parece que trabalho não falta – o que faltam é condições de trabalho. A grande maioria dos meus amigos que trabalha em redação ganha um salário ridiculamente baixo, não tem benefícios nem carteira assinada, passa mais de dez horas por dia na redação e se desdobra em inúmeras funções por falta de funcionários. Só no jornalismo existe essa aberração chamada “frila fixo”, que é o sujeito que trabalha de manhã até a noite, todos os dias, mas por algum motivo místico não é considerado funcionário do jornal e portanto não tem direito a nada. Também acho que há cada vez menos espaço para escrever e os jornalistas agora têm que possuir experiência em haicai.

Na Folha de S.Paulo seus textos são sobre televisão. Qual a sua relação com essa mídia?

Há pouquíssimos programas de qualidade na TV aberta, mas gosto muito de seriados, documentários e atrações pitorescas ou experimentais, como essas da TV comunitária, programas independentes, leilão de muares etc. De resto, tudo é muito padronizado e monótono, e a maioria trata o espectador como um tolo.

A revista Piauí valoriza o texto e destaca boas histórias. Qual a importância de uma publicação com esse formato hoje? 

Pelo que vejo nos jornais e revistas, o texto longo e a grande reportagem são cada vez mais raros, e sinto muita falta disso enquanto leitora. Acho estranho que se limitem os caracteres de um texto mesmo no meio eletrônico, onde há espaço infinito para escrever. Um pouco de verborragia às vezes é saudável.

Você disse em uma entrevista que não gosta “da presunção, do hábito de se levar muito a sério”. Acredita que jornalistas e escritores se preocupam muito com essa imagem de “sérios”? 

Uma das coisas que acho mais ridículas nos jornalistas é a presunção. Andar de peito estufado e se achar importantíssimo é um erro em qualquer profissão, e no jornalismo parece que você precisa disso para ser respeitado. Isso é triste, porque só se conseguem boas reportagens com paciência e humildade. Na televisão, isso atinge níveis absurdos – o sujeito chega, enfia a câmera no nariz da pessoa e pergunta como ele se sente tendo perdido a família inteira numa enchente. Essa prepotência pode descambar para o menosprezo do leitor/espectador sob a forma de gracinhas inócuas, na tentativa de “cativar” a audiência. Isso é o telejornalismo hoje: uma mistura de pompa jornalística e gracinhas variadas.

Qual a sua relação com o humor e a importância dele na literatura e no jornalismo?

O humor deve permear tudo, não na forma de piada mas no jeito de olhar as coisas.

Já tem alguma ideia para um novo livro? 

Estou escrevendo um romance há algum tempo, mas é segredo. Ele fala sobre alfaces.

Mortos pela TV

Posted: 2nd abril 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV

Folha de S.Paulo – Ilustrada
2 de abril de 2012

por Vanessa Barbara

Segundo um estudo divulgado no ano passado por uma universidade australiana, a TV pode matar. Não só porque os programas são tão ruins que anulam a sua vontade de viver; os médicos atribuem os danos ao sedentarismo e aos longos períodos de inatividade diante do aparelho.

Para os pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Queensland, a ausência de movimento diminui o metabolismo, afeta a capacidade de processar gorduras e aumenta os riscos de diabetes e doença cardíaca. Quem assiste mais de quatro horas de TV por dia tem 80% mais de chances de desenvolver problemas cardiovasculares do que aqueles que assistem menos de duas horas.

A cada hora perdida diante daquilo que Stanislaw Ponte Preta chamou de “máquina de fazer doido”, aumenta-se em 18% o risco de morrer de complicações cardíacas, e 11% de morrer por outras causas (tédio?). Na inatividade, uma enzima chamada lipoproteína lipase para de funcionar, cortando o envio de gordura para o tecido muscular. Esta acaba por se acumular no sangue, entupir as artérias e catapimba.

Ainda de acordo com o estudo, uma hora de TV diminui a expectativa de vida em 22 minutos, quase tanto quanto a obesidade e o tabagismo. (Cada cigarro ceifaria 11 minutos de sua existência.)

Em crianças, a TV superestimula e prejudica o desenvolvimento normal do cérebro, dispersando a concentração e favorecendo a impulsividade, impaciência e confusão. Também resulta em adultos com ossos fracos e osteoporose. Mesmo ligada ao fundo, a TV reduz em 20% a atenção dos pais com os filhos.

E não é só isso: um estudo da Universidade de Londres provou que é possível morrer de tédio. Após 25 anos da primeira sondagem, pesquisadores analisaram um universo de 7,5 mil funcionários públicos e constataram: aqueles que possuíam as vidas mais tediosas tinham 37% mais chances de estarem mortos ao término do estudo.

O tédio pode estar relacionado a fatores de risco como depressão e hábitos pouco saudáveis, como beber, fumar e comer demais.

Quem assiste seis horas de TV por dia, portanto, vive cinco anos a menos do que quem não assiste. Literal e metaforicamente: se você passa seis horas seguidas assistindo “Domingão do Faustão” enquanto fuma um maço de cigarros, toma cerveja e come sem parar, sendo que o ponto alto de sua tarde é levantar para ir fazer xixi, há grandes chances de você já estar morto.

Salvos pela TV

Posted: 26th março 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S.Paulo – Ilustrada
26 de março de 2012

por Vanessa Barbara

Aos que desprezam quem passa horas largado no sofá com o controle remoto apoiado na avantajada pança, aqui vai uma dica: assistir a programas de TV pode salvar a sua vida. Ou pelo menos é o que diz o especial “Salvo pelo Discovery” (hoje, às 18h), que reconstitui incidentes reais dos quais as vítimas se safaram graças a uma lição televisiva.

Com narração grave e catastrófica, o programa abusa dos adjetivos: “Uma bela tarde de surfe se transforma em terror quando um monstruoso tubarão branco surge em meio às águas escuras”. Os esforços da vítima são inúteis contra o espantoso poder do animal. “Ele pensa que eu sou uma foca.”

Seguem imagens da mandíbula do tubarão destroçando os ossos do surfista, que felizmente assistira à “Semana do Tubarão”, no Discovery. Lá, aprendeu que se deve golpear o focinho, a parte mais vulnerável do animal. (Apesar de tudo, Brian não guarda rancor dos tubarões.)

Outro testemunho é de um casal que passou doze dias preso na nevasca, dentro de uma caminhonete, e se lembrou de cortar o estofamento dos bancos para fazer botas de neve.

Até um adolescente fez uso dos ensinamentos televisivos para permanecer mais tempo submerso “numa água mortalmente congelada” enquanto esperava o resgate. “Ele fez exatamente o que Bear Grylls mandou”, disse um amigo, referindo-se ao apresentador de “À prova de tudo” e “No pior dos casos”. Questionado sobre o motivo de ter feito algo tão tolo, ele respondeu: “Somos adolescentes, não escutamos nada do que nos dizem”. Exceção feita a Bear Grylls.

Igualmente instruído pelo Discovery, um menino de 11 anos sobreviveu a uma avalanche criando bolsões de ar em torno de si, ao mover cabeça, mãos e pernas enquanto era atingido. Com essa providência, passou 39 minutos soterrado e burlou a morte.

O melhor exemplo, porém, é a luta de Corey Workman, 16, com um jacaré gigante. “O animal pretende fazer de Corey o seu jantar”, diz o narrador. O predador já executava seu rolamento mortal quando o rapaz lembrou de algo que vira na tevê: golpear o jacaré bem no olho

E foi o que fez, espancando repetidamente o pobre réptil até que ele desistisse de sua promissora refeição. Em seguida, o amigo de Corey foi resgatá-lo e aproveitou para dar mais uns sopapos no jacaré, que pelo visto não aprendeu nada assistindo “Predadores Letais” no canal NatGeo.

Padrão FOX

Posted: 19th março 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Ilustrada – Folha de S.Paulo
17 de março de 2012

por Vanessa Barbara

Estreia hoje a nova série protagonizada por Kiefer Sutherland, “Touch” (22h, FOX). O ator faz o pai viúvo de um menino autista, Jake, que tem a habilidade de prever padrões numéricos na relação entre as pessoas.

“Os padrões se escondem bem debaixo dos nossos olhos”, explica o garoto, através de narração em off. “Até as coisas que parecem caóticas seguem leis sutis de comportamento”, diz, ressaltando que algumas pessoas conseguem ver como essas peças se encaixam.

Ele conta a lenda chinesa do fio vermelho do destino, um fio atado pelos deuses no tornozelo de cada um, conectando-nos às pessoas cuja vida estamos destinados a tocar. Para o garoto, essas conexões podem ser predeterminadas pela probabilidade matemática.

Jake tem onze anos de idade e nunca emitiu uma só palavra. Não permite que ninguém o toque e costuma subir no alto de uma torre de celular, de onde desenha padrões numéricos num caderno.

Para driblar o mutismo do protagonista, criou-se um personagem misterioso (interpretado por Danny Glover) que explica por que o garoto não fala. “Falar é desnecessário, antiquado, tão inútil para a evolução quanto o seu dedo mindinho.” Pessoas como Jake enxergam o mundo como um emaranhado quântico de causa e efeito. “Ele vê tudo: passado, presente, futuro, e como eles estão interligados. Age como um controlador de tráfego.”

Por mais que a premissa seja interessante, a trama resvala em justificativas eletromagnéticas, passa por acontecimentos cada vez mais forçados e acaba tomando um tombo homérico ao apelar para a relação entre ciência e espiritualidade. Do meio para o final, o piloto é um desastre.

Através do pai, o menino vai guiando uma série de fatos que envolvem um celular perdido, uma cantora irlandesa, um executivo japonês, um sujeito que ganha na loteria, um ônibus escolar cheio de crianças, um iraquiano que vira terrorista só para ganhar um forno e outros sub-enredos decididamente inverossímeis e mal amarrados.

A série lembra o pior de “Heroes”, o pior de “Fringe” e o pior de “Lost”, limitando-se a fornecer o vislumbre do que poderia ter sido uma ótima ideia se desenvolvida de forma inteligente, limpa e plausível.

A julgar pelos lançamentos mais recentes da emissora (“Alcatraz”, “Homeland” e “Terra Nova”), a FOX tem seguido um padrão: ele é baixo e norteado pela expectativa da audiência, não pelos bons roteiros.

 

Revista piauí – n. 66
Março de 2012
Versão Estendida

por Vanessa Barbara

Aos 37 anos, a paulistana Cris Siqueira tem planos de vida muito específicos: “Eu preciso ter uma Monga”, exclama, bastante séria. De cabelos castanho-claros, voz rouca e tatuagens nos braços, ela foi vocalista da banda punk Go Hopey e usuária assídua da CapsLink BBS, uma rede pré-internet só para aficionados. Graduou-se em cinema pela Faculdade Armando Alvares Penteado (FAAP), onde teve a ideia de produzir um documentário sobre o Globo da Morte. Durante a pesquisa, porém, descobriu que há Globos da Morte por todo o mundo – “na Índia tem alguns com carros” –, e que o filme seria inviável com um orçamento tão baixo. Mas travou contatos no circo brasileiro e começou a se apaixonar pelo tema.

Em 2004, interrompeu o projeto e a banda punk para ir morar em Milwaukee, onde concluiu dois mestrados (em cinema e história) e deu aulas na Universidade de Wisconsin. Queria estudar a história do circo nos Estados Unidos, mas foi demovida da ideia por seus professores. “Os acadêmicos americanos não podem ver uma pessoa não branca que já mandam para estudos étnicos”, brincou. Acabou indo estudar questões de raça nos Estados Unidos e no Brasil.

Foi numa dessas pesquisas de campo que Cris descobriu que existem Mongas nos EUA – o pitoresco truque de vidros em que uma mulher se transforma em macaco e foge da jaula, para desespero do público. Lá é chamada de Zambora, A Mulher-Gorila, e faz parte dos sideshows, pequenos circos itinerantes inspirados nos espetáculos de aberrações. Originalmente eram a atração secundária do circo, com a mulher barbada, o homem de três pernas e as mutações da natureza, além dos chamados working acts – engolidor de espadas, cuspidor de fogo, atirador de facas, faquir. “São coisas que você não precisa passar a vida treinando, como o trapézio – você vai e faz. É só ser meio doido e não se importar com a dor”, explica Cris, que cospe fogo nas horas vagas.

Por essas e outras, os integrantes de um sideshow não precisam vir de uma família circense de terceira ou quarta geração – Cris se define como “geração zero incrível”, termo que ela mesma inventou. “No sideshow, não há esse esnobismo de circo. São todos empreendedores novos. São também os ‘perdidaços’ da vida, os outsiders, que te recebem de braços abertos.”

Intrigada com a origem da Zambora, ela foi pesquisar e pimba: descobriu que a Monga americana vinha do Brasil. “Achei o elo perdido!”, brinca. O número surgiu de uma técnica inglesa de ilusionismo chamada Pepper’s Ghost, que é um truque de vidros criado para transformar uma coisa em outra. “Aí um casal de brasileiros, nos anos 60, foi pros Estados Unidos com um parquinho itinerante e trouxe do Brasil essa ideia”, conta a historiadora-cineasta-punk, que é também fundadora de uma equipe feminina de roller derby, espécie de rugby de patins (sem bola). “Parece que antes eles tentaram com uma mulher que virava pedra, aí não dava certo. Um dia, fizeram a mulher virar um gorila, e o que funcionou mesmo foi ela escapar”.

Tomada por um furor patriótico, Cris decidiu: “Eu preciso ser a Monga. Preciso”. Em 2008, nas férias do mestrado, conheceu um senhor de 80 anos chamado Ward Hall, dono de um sideshow chamado World of Wonders. “Ele tinha uma Monga. A mais vagabunda que você já viu na vida, não tinha nem os vidros, era só uma máquina de fumaça”, ri. Em vez de “garota em gorila”, ele transformava “garota em fumaça”. Com a temporada prestes a começar, Ward e seu sócio, Chris Christ, convidaram a brasileira para se juntar à trupe. Ela aceitou.

Não possuía habilidades circenses e, para piorar, não era exatamente uma moça delicada, loira e magra. “Os adolescentes esperavam uma modelo. Aí vinha eu, que na época pesava uns 110kg, estava gordésima… Então eu já chegava Monga. Já chegava parecendo um gorila”, conta Cris, que emagreceu 40 quilos montando as tendas dos sideshows e hoje aparece nos espetáculos magra e linda com seus vestidos brilhantes, botas de cano alto e uma flor no cabelo.

“Além de tudo, era uma coisa extremamente racista. A moça é loira, clarinha, linda… E aí as narinas dela vão se abrir, a pele dela vai escurecer… E ela vai se transformar neste gorila macho africano, que vai te pegar e acabar com esse país!” Na época, Cris ainda dava aula de estudos étnicos, raça e gênero na universidade. E era Monga para completar o orçamento.

No World of Wonders, além de virar gorila 32 vezes por dia, ela tinha mais duas atribuições profissionais: sentar em cima do coitado que deitava na cama de pregos e atuar como “uma linda mulher com rosto de uma linda mulher e o corpo de uma aranha”. (Basicamente, um display de papelão repleto de fumaça onde ela botava a cara de vez em quando.)

Mas Cris se considera acima de tudo uma documentarista. Primeiro sonho realizado, surgiram outros dois: “Quero montar uma Monga. Uma Monga só minha. E fazer um filme sobre isso”. O projeto, que está na fase de captação de recursos, prevê uma parte histórica, a montagem de uma Monga própria e uma comparação entre as variantes brasileira e americana. “Nos Estados Unidos, a moça não pode ser nem moreninha. Tem que ser bem branquinha, senão causa desconforto racial”, filosofa. No Brasil, só causaria desconforto se ela fosse bem negra, tipo zulu.

O filme pretende traçar um paralelo entre a classe C americana, que está em franca decadência, e a brasileira, em ascensão. Cris percebe no dia-a-dia as consequências da crise: enquanto faz propaganda do sideshow na entrada, fica reparando se as pessoas estão carregando prêmios dos jogos, se gastaram dinheiro com as brincadeiras, se estão levando comida e bebida. “Uma coisa que eu nunca tinha visto na vida: sabe refrigerante grandão de refil? A família compra um só com um canudinho pra todo mundo!”. Em ambos os países, a entrada média da Monga custa o mesmo preço (4 reais e 2 dólares), então a comparação é pertinente.

Outra coisa que Cris descobriu em suas pesquisas de mercado junto aos donos de Monga é que, no Brasil, o grande desafio é fazer o pessoal correr. “É um problema, porque o pessoal não corre. Então você tem que infiltrar na plateia uns populares contratados pra gritar e estimular o povo a correr”. Nos EUA, é o contrário. O público corre demais e é preciso brecar a saída, por exemplo, botando uma curva no túnel. Senão eles caem um em cima do outro e processam os donos do espetáculo. “Aí eu comecei a reparar: as Mongas do Brasil têm uma rampa! É uma beleza: cai todo mundo, perde o chinelo, ninguém está nem aí…”, afirma.

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Em busca do sonho da Monga própria, Cris foi a uma convenção de sideshows em novembro e soube que havia uma Monga à venda por 4 mil dólares em Dalton, uma cidadezinha ao norte de Minnesota. Estava completa (caminhão e tudo) e era original dos anos 80. “Ficava a oito horas de viagem, e eu havia acabado de passar cinco meses morando numa van. Fim de temporada, o veículo estava arrebentado. Era início de inverno, podia nevar a qualquer momento e eu ficaria ilhada. Falei: vou. Vale a pena”, decidiu.

No dia 12 de novembro, um sábado gelado, Cris dirigiu o dia todo, até escurecer. A rodovia interestadual 94 (I-94) é uma estrada grande, com infraestrutura, porém ladeada por cidades minúsculas, sobretudo no último trecho da viagem. Cris planejava passar a noite em Alexandria (“metrópole” de 11 mil habitantes), mas a van começou a fazer um barulho estranho pouco antes de St. Cloud e ela acabou parando num hotel de beira de estrada em Clearwater (população de 1,7 mil). Lembrava de ter trocado os pneus semanas antes e feito uma revisão no meio da temporada com Troy Jones, o mecânico de montanhas-russas, mas ficou apreensiva.

“No dia seguinte, quando fui levar a van para o mecânico, o pneu caiu ali mesmo no estacionamento do hotel. Imagina se isso acontecesse no meio da estrada?”, indaga. Preocupada com o atraso, telefonou para Phyllis Osander, 85, dona da Monga à venda, que resmungou e disse que Cris não era séria (“you’re not legit”). A velhinha aproveitou para agourar a expedição, afirmando estar na estrada há tempo suficiente para saber que ninguém iria ajudá-la numa cidade estranha, no meio do nada. “Tem uma coisa de estar na estrada, esse pessoal é muito duro”, conta Cris. “Dizem que ninguém vai te ajudar nunca, mas eu sou o contrário, sou brasileira, sempre assumo que você dá um jeito, tudo vai dar certo…”

Conforme o previsto, Cris ficou amiga do mecânico local, a quem contou suas peripécias na feira de Minnesota, que tem o maior parque dos EUA (“The Mighty Midway”). Ganhou até um desconto.

Então venceu os últimos quilômetros e foi ao encontro da Monga de sua vida, que vinha com uma tenda e um conjunto completo de seis banners pintados à mão. Na bilheteria, a inscrição: “Was Darwin right?” [Darwin estava certo?] e a propaganda da mulher-macaco, “capturada nos desertos de Nairobi”. O pacote de 4 mil dólares incluía o caminhão (sem rodas), a caixa, os vidros, as luzes, os postes para montagem da tenda e uma fantasia podre de gorila. O sistema de armazenamento e transporte do material era bem sacado e prático, e os vidros rodavam num trilho bem razoável.

Por azar, ela não tinha dinheiro para comprar a Monga. Além disso, achou que o material estava em péssimas condições de conservação e precisaria de uma reforma praticamente do zero. “Tudo velho, enferrujado, mal cuidado. Mas vi pela primeira vez a Monga que eu quero ter.”

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A segunda road trip do projeto aconteceu no Nordeste do Brasil. Dessa vez, Cris não pretendia comprar o material, mas encontrar uma Monga que representasse o país no filme. Passou sete horas rodando por estradinhas esburacadas, de duas mãos, com desvios inacreditáveis, um deles “sinalizado” por um tronco no meio da estrada – este passava pelo meio de uma favela. “Vi até carcaça de boi no caminho. Se a roda do carro tivesse caído nessa viagem ia ter carcaça de Cris no sertão, porque eu passei no meio do nada mesmo…”, narra.

Finalmente, em Parelhas, no Rio Grande do Norte, encontrou o “Castelo da Monga”, também chamado de “A Monga mais bonita do Nordeste”. Após a visita, Cris concordou com o epíteto: “Fiquei super impressionada e quero muito fazer o filme com eles. Os caras são batalhadores, herdeiros de uma tradição”. A trupe é comandada pelo Paulo da Monga (pai) e Paulinho da Monga (filho), de Campina Grande, na Paraíba. O sogro é o Zezé da Monga, que tem Monga há 40 anos. “Eles são inovadores também, aproximaram a atração do universo de terror para atrair o público e reformaram o ônibus recentemente”, analisa a cineasta-punk-patinadora-e-cuspidora-de-fogo.

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Hoje Cris Siqueira trabalha para o Jim Zajicek’s Big Circus Sideshow, que tem como atrações uma tartaruga albina, um touro de seis patas, um anão malvado e Eartl & Myrtle, a tartaruga de duas cabeças. Todos os anos, no verão americano, ela sai em turnê. Em 2011, apresentou-se em Louisiana, Texas, Pensylvania, New Jersey, Maryland e Ohio. Com seus dois mestrados e uma experiência de vida quase que totalmente urbana, ela escolheu morar numa van e tomar banho em postos de gasolina na estrada. “É uma vida desconfortável, de trabalho braçal”, admite. Mas Cris adora. “Entender o resto do mundo tem sido bem interessante.”

De vez em quando, ela cospe fogo profissionalmente para atrair o público, mas diz que é péssima nisso. “Eu queimo a boca inteira, não consigo engolir, tenho que tentar várias vezes… E às vezes bate um vento na cara…” Sua especialidade no sideshow é de captar a audiência, discursando num microfone com uma cobra ao redor do pescoço. De pé, ela faz truques de mágica e usa frases clássicas do circo de horrores. “Aberrações, monstros e mulheres estraaaaanhas!”, anuncia, ao lado da colega engolidora de espadas, Diane Falk, que assina as fotos desta matéria. “Nós somos as mulheres estranhas. Boa noite!”


GALERIA DE FOTOS

 

Folha de S.Paulo – Ilustrada
12 de março de 2012

por Vanessa Barbara

Não há dúvida de que a corda rompida e os barris amarelos sendo arrastados pelo oceano convencem mais do que o eventual close de um boneco mecânico no filme “Tubarão”, de Steven Spielberg. O bicho termina por aparecer – desfocado –, mas a sugestão de sua presença é mais forte.

Há outros exemplos: Godot, da peça de Beckett, é insistentemente aguardado, mas nunca vem. Dulcinéia, no romance “Dom Quixote”, é mencionada pelo herói e influencia seus atos, mas não aparece.

São personagens silenciosos e vistos apenas sob os olhos dos demais, ainda que a audiência os conheça bem. Sua personalidade e ações ecoam pela trama.

Alguns são invisíveis, porém audíveis: Charlie Townsend, o chefe de “As Panteras”, e Miss Othmar, professora de Charlie Brown. E o sujeito que dá avisos no alto-falante em “M.A.S.H.”: “Atenção, todas as tropas. Devido a circunstâncias fora do nosso controle, lamentamos informar que o almoço está servido.”

Temos também a mãe gorda de Peggy Bundy, em “Married with Children”, que nunca é vista, mas provoca abalos sísmicos quando anda.

Alguns mostram sua silhueta por trás de poltronas altas, como o chefe de George Costanza em “Seinfeld”, que fala sem parar e dá ordens aleatórias.

Há uma miríade de cônjuges sem rosto como a sra. Columbo, esposa do detetive; Stan Walker, marido de Karen em “Will & Grace”; a sra. Wolowitz, mãe de Howard em “Big Bang Theory”; Vera Peterson, ex-mulher de Norm em “Cheers”; e Maris Crane, esposa de Niles em “Frasier”. Além, é claro, da misteriosa Mãe, esposa de Ted em “How I Met Your Mother”.

A empregada de “Tom & Jerry” também entra nessa categoria, assim como os pais da Vaca e o Frango, que não possuem a parte de cima do tronco – daí só aparecerem as pernas.

Em “Animaniacs”, o menino Colin cita sem parar um amigo desconhecido: “Teve uma vez em que o meu amigo Randy Beaman comeu sucrilhos, mas não eram sucrilhos, era a coleção de cascas de ferida do irmão dele. Ok, tchau.”

Outros invisíveis de renome são Bob Sacamano, de “Seinfeld”, e o Cara Feio e Pelado, de “Friends”.

“Tem gente que é meio invisível, como o Willian Bonner, que só aparece pela metade”, afirma o leitor Roberto Bencz.

No fundo, todos somos personagens sem rosto na vida de alguém – podemos não aparecer, mas somos constantemente mencionados. “Na vida real, eles são o chefe do chefe, a ex-namorada, o vizinho, a apendicite”.

Contusões com papel

Posted: 6th março 2012 by Vanessa Barbara in Blog da Cia. das Letras, Crônicas
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Blog da Companhia das Letras
6 de março de 2012

Por Vanessa Barbara

Excetuando-se provavelmente a topada de mindinho na quina, temida até por Genghis Khan e pelos grandes hunos da história, não há dor que se compare a um corte com folha de papel. Você está manuseando a correspondência, acaba se distraindo com um besouro e catapimba: um corte fino no dedo, que te faz urrar e emitir palavras de baixíssima estirpe em público.

De acordo com estatísticas aleatórias encontradas na internet, mais de 50% dos assistentes administrativos sofrem um corte desse tipo por mês, e quase metade deles sofre múltiplos cortes no mesmo período. “É importante lembrar que mesmo um machucado pequeno pode tornar-se fatal em caso de infecção. Mesmo um corte com folha de papel pode resultar numa amputação”, afirma um site americano de acidentes de trabalho, decerto pensando em lucrativos processos trabalhistas. Os danos morais, dizem, são irreparáveis.

Apesar da importância insofismável do tema, não foram encontradas estatísticas confiáveis sobre os acidentes com papel cortante em editoras, e nem o índice de funcionários que grampeiam os próprios dedos ou se veem soterrados em pilhas de originais para corrigir. Sabe-se, porém, que o urro emitido por quem corta o dedo com papel (o chamado paper cut) pode atingir até 98 decibéis, similar ao de quem é atingido por um piano (112 decibéis), quem prende o dedo na porta (99 dB), quem morde a língua (77 dB), quem masca a afta (84 dB), quem bate o cotovelo na parede (72 dB), quem quebra a unha (63 dB) ou é subitamente contrariado em seus planos malignos de dominação do universo (http://nooooooooooooooo.com).

Mas por que cortar o dedo com uma folha de papel dói tanto, ainda que mal sangre e seja imperceptível? Há inúmeras teorias:

Teoria nº 1: Rugosidade maligna

Um corte provocado por papel não só rasga a carne como também a dilacera, por conta da superfície áspera e rugosa desse material. É essa a principal diferença entre uma incisão provocada por um instrumento afiado de cutelaria e por uma folha de papel: esta última ocorre de forma irregular. É só pensar numa faca com o fio cego, que demora mais para cortar um bife e o faz com pouca precisão, “mascando” a superfície atingida. Além disso, o papel deixa pra trás pequenas partículas fibrosas que não são limpas pelo sangue, já que este não flui tão livremente como nos ferimentos por lâminas.

Teoria nº 2: Infecções perversas

Intimamente ligada à primeira teoria, esta se relaciona aos produtos químicos utilizados na fabricação do papel. Quando o material penetra a pele, deixa no local parte de suas fibras quimicamente tratadas, estimulando os receptores da dor. Alguns dizem que, por ser poroso, o papel é um pródigo hospedeiro de bactérias. Como o ferimento é geralmente pequeno e superficial, a pele se fecha sem demora, aprisionando os fragmentos e bactérias em seu interior. O resultado é uma dor de cortar em fatias.

Teoria nº 3: Resmas mortais

Há os que sustentam que as incisões por papel são mais comuns de ocorrer quando manuseamos blocos ou resmas que mantém as folhas unidas e compactadas. Assim, quando uma única folha desliza do conjunto, expõe alguns milímetros de sua aresta e torna-se robusta o suficiente para rasgar a carne.

Teoria nº 4: Ferimento escancarado

Em franca contradição com a teoria número 2, esta afirma que o sangramento comedido dificulta a coagulação e a cicatrização da ferida. Assim, as fibras nervosas ficam mais tempo expostas ao ar e à sujeira, prolongando a dor.

Teoria nº 5: Nociceptores do mal

As vítimas do talho são geralmente acometidas na polpa dos dedos, onde há alta concentração de nociceptores, fibras nervosas que enviam sinais de tato e dor ao cérebro. Diz-se que esses receptores são particularmente sensíveis a estímulos leves. Além disso, por ser pouco profundo, o corte com papel só afeta as camadas externas da pele, precisamente onde se localizam os nociceptores que enviam os sinais agudos de dor. É por isso que às vezes a dor do corte é pior do que se fosse mais profunda — é muito mais aguda e ardida.

As lacerações leves apenas irritam as terminações nervosas, em vez de destruí-las. Isso significa (infelizmente) que os nervos continuam funcionando e enviando suas mensagens excruciantes ao cérebro. A boa notícia: se a dor for insuportável, sempre se pode tentar golpear o dedo com um martelo para destruir as terminações nervosas. A má notícia é que, quando os nervos forem reparados, vai doer bem mais.

* * * *

Embora algumas dessas teorias façam sentido, nenhuma delas é amplamente aceita como causa inequívoca do suplício desse tipo de laceração. Deve haver alguma hipótese alternativa que acuse a natureza perniciosa do papel, sobretudo quando preenchido por má literatura.

Funcionários de gráfica afirmam que as folhas mais cortantes seriam da gramatura 75 a 120 g/m², principalmente do tipo AP. No meio gráfico de Belo Horizonte, há uma lenda corrente sobre um sujeito que morreu quando uma folha do estoque (que era no andar de cima) voou e cortou a jugular do infeliz.

Não se sabe se a história é verídica, mas os Caçadores de Mitos, do Discovery Channel, já colocaram à prova o mito do atirador mortal de cartas de baralho. (O vídeo sem legendas pode ser visto aqui: http://dsc.discovery.com/videos/mythbusters-killer-deck-minimyth.html) Diz a lenda que uma carta de baralho comum pode matar uma pessoa caso seja arremessada com força suficiente. Para testá-la, Jamie e Adam construíram uma máquina atiradora de cartas a 249 km/h, que causou apenas um corte modesto com pouco sangue. O mito foi descartado.

Em todo caso, convém não ignorar a amputação e morte possivelmente advindas de um prosaico paper cut; dizem os especialistas que a conduta mais indicada é manter a calma, desinfetar a ferida e cobri-la. (Alguns mencionam Super Bonder, mas eu recomendaria um band-aid).

E por falar nisso, convém ter cuidado ao abrir a embalagem do curativo. São abundantes os casos de paper cut na caixa do band-aid e nos cartões de “Estimo as melhoras” enviados pelos amigos.