Folha de S. Paulo – Ilustrada
5 de março de 2012

por Vanessa Barbara

Três colunas atrás, falamos do “Jornal Hoje”, esse programa vespertino de variedades travestido de noticiário.

O leitor Edson Lucafó, de Piracicaba, jura que deve haver no teleprompter a indicação “notícia boa” ou “notícia ruim”, já que, antes mesmo de introduzir o assunto, a apresentadora assume uma expressão de alegria (sorriso) ou de indignação (testa franzida). As reações faciais são tão repentinas quanto as de um ator do Método tomado por uma iluminação mística.

Outro leitor, Roberto Bueno, questiona o caráter jornalístico de uma receita e vai além: diz que “a TV aberta é só uma reminiscência formal de algo do que, no caso, um dia foi um telejornal. É um desfavor, uma violação a sua natureza de concessão pública”. Ayrton Passos concorda: “A TV precisa melhorar a qualidade, deixar de pensar que o brasileiro é idiota”.

Outros lamentaram a falta de menções ao incidente do mamão, protagonizado pelo âncora Evaristo Costa na edição do dia 2 de janeiro. Antes de apresentar uma reportagem sobre os benefícios do mamão para a saúde, Evaristo perguntou à companheira se ela gostava da fruta. “Adoro. Como todo dia de manhã”, ela responde, com a alegria reservada apenas aos animais e legumes. Cedendo ao trocadilho, Evaristo estendeu a mão e a cumprimentou. “Uma mão aqui”, disse, rindo. “Que piada velha”.

Virou imediatamente meme de internet.

Chegará o dia em que Sandra e Evaristo se entregarão à bazófia e farão uso do tabuleiro temático do “Puxa Cachorra”, um gerador automático de edições do JH (puxacachorra.blogspot.com). Seria mais ou menos assim:

Sandra Annenberg dá início à partida, anunciando a queda de preços nos materiais de construção. Evaristo não se deixa intimidar e tira doze no dado, ganhando o direito de exibir bebês panda com suas mamadeiras. “Queimadas ameaçam parque do Trululu”, ela sentencia, e ao adversário resta uma matéria sobre finanças domésticas.

Na Tailândia, um elefante invade um casamento e Sandra noticia o fato, abocanhando também as pautas de frente fria e mofo nos casacos. Evaristo contra-ataca com os benefícios do chá de cacto. “Comprovado! Linhaça fortalece os ombros!”, ela apela, quase gritando, e se arremessa em direção à receita do dia: bolo de linhaça com cacto.

Evaristo ainda tenta apelar com o Festival da Água-Viva, em Tóquio, mas não há páreo para a primeira-dama do “Jornal Hoje”.

Unanimidade em dúvida

Posted: 27th fevereiro 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S.Paulo – Ilustrada
27 de fevereiro de 2012

por Vanessa Barbara

Vencedora do Globo de Ouro de melhor série dramática, “Homeland” estreia domingo que vem às 22h no canal FX. Na premiação, bateu as favoritas “Game of Thrones” e “Boardwalk Empire”, duas gigantes da hbo. É uma das favoritas de Barack Obama e uma das raras unanimidades do site Metacritic, que faz uma compilação de resenhas publicadas na grande imprensa.

Enfaticamente citado nas listas de melhores estreias de 2011, o thriller da Showtime tem Claire Danes no papel principal e dois produtores de “24 horas” na folha de pagamento.

“Homeland” conta a história de uma agente de contra-terrorismo da CIA que passa a questionar a lealdade de um heroi de guerra americano, um fuzileiro naval recém-libertado do cativeiro no Iraque. Ela acredita que o militar converteu-se à Al-Qaeda e planeja um atentado terrorista contra os Estados Unidos.

O grande trunfo do show é a condição psiquiátrica da heroína, que sofre de transtorno bipolar e apresenta um comportamento paranoico e instável, o que pode (ou não) interferir em sua capacidade de julgamento.

Ou seja: é uma série de espionagem e política que só pode ser muito boa. Tem sido difícil encontrar resenhas negativas sobre a atração, o que torna ainda mais estranho o fato de eu não ter gostado. Nem um pouco.

E digo mais: a série “24 horas”, com sua mirabolância e ataques nucleares, falta total de verossimilhança e exageros patrióticos, é melhor do que a cult “Homeland”. A saga de Jack Bauer não se propõe a raciocínios complexos, nuances de personagens, tentativas de se tornar obra de arte. É divertida e cheia de explosões, e o herói é tão durão que chega a ser engraçado.

“Homeland” é pretensiosa. Os episódios são arrastados, previsíveis, e a heroína é irritante, mais do que a Kim em “24 horas” e mais do que o Jesse do início de “Breaking Bad”. Mas Jesse evolui na trama, enquanto Carrie continua na mesma.

O mistério em si não convence. Os diálogos são esquisitos e apelam para a forte identificação dos americanos com o trauma, o medo e a paranoia pós-11 de Setembro.

“Homeland” podia aprender algo sobre vigilância e caracterização de personagens com a excelente “The Wire”, série da HBO sobre o tráfico em Baltimore, e “A vida dos outros”, filme alemão de 2006 sobre um oficial da Stasi que se vê atraído pela vida de um suspeito em vigilância.

 

Folha de S. Paulo – Ilustrada
20 de fevereiro de 2012

por Vanessa Barbara

Em outubro de 2003, o time de baseball Chicago Cubs estava prestes a quebrar um jejum de 95 anos sem o título de campeão da World Series. Em casa, vencia o Florida Marlins por 3×0, tendo já eliminado um jogador da equipe rival.

Foi quando o rebatedor dos Marlins mandou uma bola alta em direção à linha das arquibancadas. O defensor Moisés Alou correu tresloucado para alcançá-la. Se conseguisse, eliminaria mais um atleta e praticamente garantiria a vitória para os Cubs. Mas os torcedores ali sentados, por instinto ou reflexo, esticaram-se para apanhar a bolinha – e o pacato Steve Bartman conseguiu tocá-la, desviando-a das mãos de Alou e melando o lance para os donos da casa.Depois disso, o time sucumbiu ao pânico, a torcida esfriou e os Marlins viraram o jogo, vencendo por 8×3. Hoje já são 103 anos de jejum para os Cubs.

É esse o tema do documentário “Catching Hell”, de 102 minutos, dirigido por Alex Gibney e produzido pela ESPN. O filme  conta como se elegem bodes expiatórios no esporte.

Sob uma chuva de cerveja, insultos e ameaças de linchamento, Bartman desapareceu sem deixar rastros. Chegou-se a sugerir que entrasse para o programa de proteção a testemunhas ou pedisse abrigo na Flórida.

São tocantes os closes do rosto de Bartman, sozinho e vulnerável na cadeira 113, mascando chicletes, com o olhar perdido no horizonte. Ele usava óculos de grau, boné azul dos Cubs, blusa verde de gola alta e um moletom por cima. “Nunca chegou a tirar os fones do ouvido”, dizem.

Até hoje Bartman não dá entrevistas e vive em reclusão, mantendo-se surpreendentemente fora do alcance dos repórteres e rejeitando propostas milionárias da mídia.

Como se analisasse o assassinato de Kennedy, o filme especula sobre a trajetória da bola, a direção do vento, as chances de Alou apanhá-la. Consulta as testemunhas-chave do incidente e até sincroniza a transmissão radiofônica para saber o que Bartman escutava naquele instante.

Sua tragédia é comparada à do jogador Bill Buckner, que em 1986 deixou uma bola escapar por baixo das pernas. Ele jogava pelos Red Sox, mas usava uma luva com o logotipo dos Cubs.

A maldição do time teria começado em 1945, quando expulsaram um torcedor do estádio porque seu bode estava fedendo. “Os Cubs não vão ganhar o campeonato. Nunca mais, enquanto não deixarem meu bode entrar.”

 

O número 1 do xadrez perdeu as estribeiras no Parque do Ibirapuera

Revista piauí n. 65
Fevereiro de 2012

por Vanessa Barbara

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Havia uma ambulância a postos na tenda principal do 4o Grand Slam de Xadrez, realizado no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Intrigados, corredores e ciclistas das imediações acharam graça – afinal, que tipo de emergência médica poderia acometer aqueles pacatos enxadristas, confinados num cubo de vidro durante três ou quatro horas, olhos pregados no tabuleiro?

Mal sabem eles que o xadrez é um esporte dos mais violentos. Talvez nunca tenham reparado na divisória de madeira que separa as pernas dos oponentes sob a mesa, prevenindo os enxadristas mais exaltados de agraciar seus adversários com pontapés. E decerto não conhecem os inúmeros casos de jogadores que sofreram colapsos nervosos durante as partidas ou enlouqueceram irreversivelmente.

Que o diga o letão Aaron Nimzowitsch. Ao antever uma derrota, ele subiu na mesa e gritou: “Como posso perder para esse idiota?” Ou o polonês Achilles Frydman, que foi parar num sanatório após um torneio particularmente exaustivo. De acordo com um artigo da Chess Digest Magazine, Frydman gostava de deixar a sala para dar telefonemas internacionais e encomendar objetos insólitos, como uma bicicleta alemã ou uma flauta húngara. Durante uma competição na Polônia, correu de cueca pelo hotel, gritando “Fogo!”. Outro caso irremediável é o do austríaco Wilhelm Steinitz, que alegava ter jogado xadrez contra Deus – e vencido.

Era reconfortante, afinal, que uma ambulância estivesse de prontidão para a eventualidade de um ataque de nervos vitimar algum dos enxadristas hospedados em São Paulo. Eram estrelas de primeira grandeza do xadrez, a começar pelo norueguês Magnus Carlsen, número 1 do mundo – um rapaz de 21 anos que guarda semelhança perturbadora com o ator Matt Damon.

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A tenda montada nas proximidades do Planetário abrigou três partidas simultâneas por dia, durante uma semana. Os embates ocorriam dentro de uma sala de vidro com isolamento acústico, onde ficavam os enxadristas e os árbitros. Do lado de fora, o público podia acompanhar as partidas e ouvir o comentário de especialistas ao microfone.

Ao longo da semana, houve também atividades abertas ao público, como torneios simultâneos contra veteranos. Num deles, o grande mestre internacional Gilberto Milos, terceiro lugar no ranking brasileiro, enfrentou 32 jogadores de todas as idades. Ganhou 28 partidas, empatou três e perdeu uma. Quem o derrotou foi um menino franzino de 11 anos chamado Igor Kikuchi Cadilhac, natural de Registro, interior de São Paulo, que aprendeu a jogar xadrez com o vizinho e não tem treinador. Suas participações nos torneios são bancadas pelos amigos, familiares e estabelecimentos registrenses como a Swagat Modas (especializada em roupas indianas), o Mercado Preço Bom, a Pizzaria Beirute e a Esteiras Yoshimoto. Em 2011, Igor sagrou-se campeão paulista na categoria Sub-12.

Perto dele, brincando com uma garrafa d’água e falando sozinha, estava outra jovem promessa do xadrez brasileiro – uma menina chamada Katherine Vescovi, muito magra, pequena e loira, de olhos azuis e jeito de bailarina. Aos 12 anos, é campeã paulista, brasileira e sul-americana. A despeito de sua aparência frágil e angelical, enxadristas veteranos garantem: Katherine joga de forma agressiva e é conhecida por derrotar os adversários de forma impiedosa.

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Contrariando a expectativa, o número 1 do mundo não se saiu muito bem na etapa brasileira do Grand Slam. Quem teve o melhor desempenho foi o ucraniano Vassily Ivanchuk, que ocupava a sétima posição no ranking, com três vitórias, um empate e uma derrota. Chucky, como é chamado, mostra um estilo de jogo imprevisível e inovador, o que o torna um competidor perigoso, porém instável. Sua originalidade não se limita ao tabuleiro: ele costumava fazer aulas de turco e já foi visto bêbado cantando poemas ucranianos, segundo seu próprio colega Viswanathan Anand disse a um jornal indiano.

A zebra correu solta no Ibirapuera na terceira rodada. No mesmo dia em que Ivanchuk bateu o atual campeão Anand, o favorito Magnus Carlsen perdeu para o espanhol Paco Vallejo, então número 28 do mundo, após um lance de rematada tolice. Até ali, o jogo estava favorável para Carlsen, não obstante jogasse com as pretas (no mundo do xadrez, sabe-se que as brancas têm ligeira vantagem no jogo, pois detêm o privilégio de começar a partida). O norueguês passou muito tempo tentando forçar a vitória e chegou inclusive a desperdiçar uma chance. Mas, num apuro de tempo, acabou “pendurando uma peça”, ou seja, cometendo um erro crasso que lhe custou a partida.

O lance fatídico se deu quando Vallejo ameaçou ingenuamente capturar o bispo de Carlsen com o cavalo. Teria sido só uma investida aparvalhada se, na sequência, o norueguês houvesse se esquivado do mensageiro equino da morte como qualquer amador faria ou, melhor ainda, caso tivesse se saído com um contra-ataque sofisticado. Em vez disso, “ele viu duendes”, na avaliação de um popular, e moveu a rainha de forma a deixar seu bispo exposto, pronto para a degola.

Ao perceber o lapso, Carlsen olhou para os lados como se o mundo tivesse caído, empurrou algumas peças, esboçou gestos de irritação para o árbitro e a plateia, e foi tomado pela fúria. Desistiu da partida doze lances depois, enquanto o elegante Vallejo saía de cena com sua garrafinha de Gatorade cítrico. Ao final, não deu autógrafos nem tirou fotos.

O algoz de Carlsen era o lanterna do grupo. Em São Paulo, vinha de duas derrotas consecutivas. Perderia de novo na rodada seguinte, mas nem por isso se deixou abalar. Vallejo foi um dos mais jovens enxadristas a ser sagrado com o título de “Grande Mestre”. Em 2000, após ganhar o mundial Sub-18, tomou a decisão: “Serei jogador profissional, mas não pretendo passar dez horas por dia treinando. Quero aproveitar a vida.” Dali para a frente, sua carreira progrediu mais lentamente, para desgosto dos espanhóis.

Três campeões mundiais julgam que Vallejo possui talento suficiente para estar entre os dez melhores do ranking. Mas ele dispensa esse tipo de ambição. “Isso implicaria estudar e me dedicar mais, e tenho outros interesses na vida”, explicou ao público do Ibirapuera, pouco antes do encerramento do torneio. Sobre o descontrole emocional dos enxadristas diante da derrota, Vallejo aproveitou para rir de si mesmo: “O bom de perder tanto é que a gente se acostuma e passa a encarar tudo com mais tranquilidade. Além disso, há maior mérito em se levantar após uma queda do que em seguir de pé.”

Já Carlsen deu uma entrevista coletiva desolado após perder para o lanterna. Mas manteve a cabeça erguida. “Eu simplesmente pendurei uma peça. Não sei se podemos chamar isso de ilusão de óptica.” Mais tarde, no Twitter, considerou “ultrajante” o fato de ter tido problemas com o tempo e de haver perdido uma posição vantajosa em poucos lances. Acinte mesmo foi o atentado gastronômico do qual ele fora vítima em São Paulo. “Servir pizza sem queijo para clientes desavisados é simplesmente um crime contra a humanidade.”

Bipolaridade e gracinhas

Posted: 13th fevereiro 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
13 de fevereiro de 2012

por Vanessa Barbara

Nunca entendi a implicância do “Puxa Cachorra!” com o “Jornal Hoje”. O “Puxa!” é um blog de humor (puxacachorra.blogspot.com) com ênfase em tolices do mundo da música, artes e televisão. O nome é uma homenagem ao tio de alguém que, em reuniões de família, quando o assunto começava a ficar constrangedor, virava para a pessoa ao lado e dizia: “Está na hora de puxar a cachorra”.

Nunca entendi até que, na segunda-feira, prontifiquei-me a assistir uma edição do noticiário (Globo, seg. a sáb às 13h20). Por pouco não puxei as minhas tartarugas.

O telejornal começa com a tradicional “escalada” de notícias: “Aulas canceladas, estradas interditadas. Mais de trezentas pessoas já morreram em consequência do frio na Europa”, diz o âncora Evaristo Costa. A câmera passa para Sandra Annenberg: “Já aqui no Brasil, é verão e tempo de sorvete – e que tal um frozen yogurt?”

Sim, eu bem queria estar inventando. Ao que tudo indica, o “Jornal Hoje” é uma atração com transtorno bipolar. “Agora está todo mundo triste”, estranhou minha mãe, na matéria seguinte.

Os clichês se sucedem: por que uma notícia sobre as mudanças no Imposto de Renda tem de ser anunciada por uma repórter de campo, em frente ao Ministério da Fazenda? Por que todas as pautas sérias precisam ser “equilibradas” com futilidades? Faz sentido passar uma receita durante um telejornal?

A avalanche de gracinhas chega a ofender. Não precisava começar a matéria sobre a onda de frio europeia com a frase: “O branco é a cor de toda a Europa”. Mesmo: não precisava.

Dizem que o JH é assim por ser exibido na hora do almoço, quando há menos gente propensa a absorver notícias indigestas. Por isso, em meio às mortes na Europa, o locutor acha de bom-tom falar sobre a preocupação com os bichos do zoológico, “menos com aqueles poucos que gostam do frio” – seguem imagens de uma lontra e um urso polar.

Nem bem se recuperou da síncope depressiva na qual havia mergulhado segundos antes, Sandra dá um suspiro e diz: “Vamos refrescar um pouco esse clima?”. Ambos riem, felizes. “Sorvete nesse calor é tudo de bom!”

No jornal, a receita do acepipe ganhou um tempo total de 2 minutos, enquanto as notícias internacionais apareceram em flashes no quadro “O mundo em um minuto”.

E como termina a matéria sobre o frozen yogurt? “É sabor e saúde para aproveitar ainda mais o verão.”

Folha de S. Paulo – Ilustrada
6 de fevereiro de 2012

por Vanessa Barbara

Pode não parecer, mas o Código Brasileiro de Trânsito determina que os pedestres têm preferência, já que são o elo mais fraco do sistema – em comparação a carros, motos, caminhões. A imprensa também devia seguir uma lógica parecida: quando se tem um megaespeculador de um lado e 6 mil sem-teto de outro, a prioridade de entrevista seria dos últimos, que não têm tanto poder para se fazer ouvir.

Mas não é o que está havendo na cobertura televisiva da desocupação do Pinheirinho, uma área em São José dos Campos habitada há oito anos por 1.600 famílias. O terreno pertence à massa falida do grupo Selecta, do empresário Naji Nahas. É avaliado em R$ 180 milhões e foi objeto de desavenças em diferentes esferas do Judiciário, até que, há duas semanas, a Justiça estadual decretou a reintegração de posse.

No dia 22, o “Fantástico” dedicou pouco mais de dois minutos à cobertura. Abriu a reportagem com cenas dos policiais escancarando um portão e adentrando o terreno. Voz em off: “Seis e meia da manhã, a tropa de choque invade o Pinheirinho”. Deu para imaginar os policiais combinando com a Globo, um-dois-três-e-já.

A ação contou com um efetivo de 2 mil homens, dois helicópteros, 220 viaturas, 40 cães e 100 cavalos. “A situação ficou fora de controle”, explicou a locutora, e a cena era de um sujeito jogando uma pedra contra os policiais.

“Os moradores atearam fogo a prédios públicos e oito carros, entre eles o da TV Vanguarda, afiliada da Rede Globo.”

Aparece a repórter, com um colete à prova de balas: “Segundo policiais que entraram aqui nessa área, esses barracos todos estão abandonados porque eles serviam para o tráfico de drogas. Aqui era uma espécie de cracolândia, onde se vendia e consumia droga”.

Outra coisa que ficamos sabendo pelo “Show da Vida”: em protesto, os sem-teto bloquearam por meia hora uma das pistas da Via Dutra. Um homem foi atingido por um tiro de arma de fogo durante a operação, mas a polícia diz que só usou balas de borracha. Fim da reportagem.

Nada foi dito sobre a presença de tanques de guerra e de soldados da cavalaria com suas espadas. Nada foi dito sobre o uso de força contra idosos e crianças e nem sobre o destino dos desalojados. Alguns receberam da prefeitura de São José dos Campos passagens rodoviárias para seus “estados de origem”.

Só que muitos são paulistas.

Não, não e não

Posted: 1st fevereiro 2012 by Vanessa Barbara in Blog da Cia. das Letras, Crônicas
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Blog da Companhia das Letras
1 de fevereiro de 2012

por Vanessa Barbara

Um dos maiores críticos literários do século, Edmund Wilson nunca primou pela delicadeza. Não hesitava em criticar duramente seus próprios amigos, entre eles Vladimir Nabokov, autor de uma controversa tradução de Eugene Oneguin, de Pushkin. Wilson acusou Nabokov por “erros graves de inglês”, “um estilo desnecessariamente canhestro”, “uma linguagem pobre e deselegante”, expressões vulgares, imodéstia, transliteração imprecisa, falta de bom senso, um apêndice tedioso e interminável, um entendimento pobre de prosódia russa e falhas sérias de interpretação.

No campo do mau humor, porém, sua obra mais conhecida é um bilhete intitulado “Edmund Wilson lamenta”, enviado como resposta a pedidos de participação em palestras, festivais, entrevistas.

Diz o bilhete:

“Edmund Wilson lamenta, mas para ele é impossível:

– Ler originais,
– Escrever artigos ou livros sob encomenda,
– Escrever prefácios ou introduções,
– Dar declarações para fins publicitários,
– Desempenhar qualquer tipo de trabalho editorial,
– Ser juiz de concursos literários,
– Dar entrevistas,
– Ministrar cursos,
– Organizar conferências,
– Dar palestras ou fazer discursos,
– Aparecer na TV,
– Participar de congressos literários,
– Responder questionários,
– Tomar parte em simpósios ou “mesas” de qualquer espécie,
– Doar manuscritos para leilão,
– Doar cópias de seus livros para bibliotecas,
– Autografar livros para estranhos,
– Permitir que seu nome seja usado em cabeçalhos,
– Fornecer informações pessoais a seu respeito,
– Dar opiniões sobre literatura ou outros assuntos.

(Também não aceito convites para fazer leituras públicas, a menos que me ofereçam um bom dinheiro. E.W.)”

À parte a ranhetice e a antipatia, é preciso aplaudir o sr. Wilson. Se fosse contemporâneo, passaria a maior parte do tempo perdido em turnês de divulgação, participando de festivais literários, integrando mesas de debate sobre blogs e literatura, sendo afável em bares, respondendo se dá pra viver de quadrinhos no Brasil, filmando participações em programas de TV e dando entrevistas para estudantes que lhe perguntariam em que ano nasceu. Não teria tempo de escrever, pois gastaria toda a energia em falar sobre o assunto.

Há escritores que gostam de dar aulas e proferir palestras. Outros gostam de viajar para participar de festivais e conhecer colegas de profissão. Alguns acabam até mudando de ofício, ou conciliando a escrita com outras atividades mais sociáveis. Fato é que não dá pra dizer “sim” a tudo o que aparece, sob pena de virarmos pés de tomate e não conseguirmos tempo para escrever.

Já recebi convites para participar do programa do Ronnie Von e de congressos no Amapá. Já me sondaram para apresentar um programa na MTV e virar repórter de um jornal diário. Me pediram para traduzir um livro técnico e participar de bancas examinadoras de graduação. Por mais que a gente queira ajudar, é impossível agradar a todos — de modo que acabo aceitando só o que eu consigo fazer. E o que não me dói em demasia.

Meu bilhete de recusa personalizado atualmente está neste pé:

“Vanessa lamenta, mas para ela é impossível:

– Atender o telefone,
– Participar de congressos,
– Aparecer na tevê,
– Ministrar cursos,
– Tirar fotos fingindo ler ou conversar,
– Comparecer a congraçamentos sociais com mais de sete pessoas,
– Fazer parte de bancas examinadoras,
– Escrever livros sob encomenda,
– Ser afável indiscriminadamente,
– Trabalhar de graça quando o contratante pode pagar,
– Responder questionários com mais de seis itens,
– Responder questionários “pra amanhã”,
– Analisar originais,
– Discursar em jantares (o jantar em si é bem aceito).

(Consulte-nos sobre a disponibilidade de escalar uma atriz contratada para atuar em meu lugar, se necessário. V.B.)”


Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Congestão espontânea

Posted: 30th janeiro 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S.Paulo – Ilustrada
30 de janeiro de 2012

por Vanessa Barbara

No último dia 15, o colega Fabrício Corsaletti lançou uma campanha na revista sãopaulo contra a praga das televisões ligadas em bares, lanchonetes e restaurantes. Dizia o poeta que a prática se justifica em dias de jogo (vá lá) ou efemérides extraordinárias, mas que não faz sentido comer um beirute diante de uma reprise do “Vídeo Show” ou de um programa vespertino de fofocas, quando só o que se quer é prestar atenção no interlocutor ou nas copiosas fatias de rosbife no prato.

Faço coro à causa de Fabrício. Já dizia um best-seller da literatura que “tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu”. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou. Tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de ver televisão e tempo de contar longas histórias sem clímax.

Via de regra, a prática de assistir TV devia limitar-se à intimidade do lar e ao aconchego do sofá. Fazê-lo durante uma conversa entre amigos devia ser punido como falar ao celular dirigindo, e é tão deselegante quanto responder mensagens SMS no meio de um casamento. Sendo um dos noivos.

Uma das piores consequências da TV ligada em congraçamentos sociais de fundo gastronômico é quando a gente conta uma história engraçada e a pessoa cai na gargalhada, batendo a mão na mesa e babando, e a gente se sente um Groucho Marx redivivo. Isso até perceber que o sujeito em questão não ouviu nada – estava prestando atenção na TV atrás de você.

Dessa prática decorre todo tipo de reações despropositadas, exageradas, distraídas ou simplesmente alheias ao que se passa ao redor.

Nada mais triste do que perder para o “Globo Repórter” ou ser trocada por um episódio de “Family Guy” – sobretudo aquele em que o cachorro pede o divórcio.

É por isso que rogamos: desliguem as TVs dos bares, lanchonetes, restaurantes; acabem com as TVs dos ônibus e do metrô. Vamos silenciar os locais públicos e ouvir melhor o que nos dizem. Ter a atenção dividida não é bom pra ninguém – nem para o Carlos Nascimento, que está ali tentando comunicar uma notícia de escopo interplanetário, e nem para o Paulão, chapeiro da padaria que acaba de perguntar se você quer o seu lanche com ou sem maionese.

Fora que, dependendo da programação, o comensal pode até sofrer uma grave congestão.

Dez anos de conduta absurda

Posted: 29th janeiro 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo
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Folha de S.Paulo – Ilustrada
29 de janeiro de 2012

por Vanessa Barbara

Em 22 de janeiro de 2002, tomada por um tédio sem precedentes, resolvi reunir todas as anotações coletadas em meus 19 anos de vida e criar uma audaciosa compilação de tolices. Cursava a faculdade de jornalismo e vivia no Mandaqui, Zona Norte de São Paulo, uma localidade digna de boas movimentações anedóticas. Mantinha um caderno espiral onde registrava tudo o que me parecia digno de nota. Foi como nasceu A Hortaliça, um almanaque eletrônico de humor com ênfase em legumes, recheado de trechos de obras literárias, fotos pitorescas e afirmações alheias tiradas do contexto. (Disponível em hortifruti.org.)

Há exatos dez anos, na madrugada do dia 23, às 3h15 da manhã, a primeira Hortaliça foi enviada por e-mail a uma população de aproximadamente vinte vítimas. Era uma época pré-blogs e pré-Facebook, de modo que compilar insignificâncias era uma relativa novidade. Entre os assinantes primordiais estava a também mandaquiense Stephanie Avari, que cunhou um de nossos 364 slogans: “Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido”.

De lá pra cá, foram enviadas eletronicamente 87 caudalosas edições aos nossos atuais 703 assinantes – a octogésima oitava sai amanhã, se não chover – e muitas madrugadas perdidas na organização e catalogação das besteiras que nos mandavam. Foi por causa d’A Hortaliça que fui chamada para trabalhar como preparadora de texto na Companhia das Letras e, mais adiante, como repórter na revista piauí e colunista na Folha, em nada servindo para tais propósitos minha douta formação universitária, a fluência em quatro idiomas (além de Código Morse) e nem aquele curso de sobrevivência na selva que fiz em 1998.

Nosso maior diferencial é a periodicidade: sempre que dá, ou um pouco depois disso. Não há como prever a chegada de uma edição, assim como não dá para desejar que ela vá logo embora – A Hortaliça respeita um tempo próprio regido pelos ventos, pelas chuvas e pela colheita do algodão. Somos também conhecidos pela utilização aleatória do plural majestático e pelo péssimo hábito de tirar as declarações do contexto, como esta frase do crítico de arte Rodrigo Naves, catalogada sob a alcunha “Heróis da abolição” e proferida numa aula de história da arte: “O sujeito que dá autonomia ao pastel é o Degas”.

Outras boas citações nestes dez anos de Hortaliça:

“Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.” (Guimarães Rosa, A Hortaliça #001)

“A vida é apenas uma tigela de cerejas” (letra de canção popular americana, #004)

“Se você não sabe aonde está indo, qualquer lugar servirá” (Lewis Carroll, #018)

“Se teu olho te irrita, arranca-o!” (Lutero, #020)

“Todo fazedor de jornais deve tributo ao Maligno” (La Fountaine, #042)

“Meu Deus! Por que lhe terão crescido tanto as orelhas?” (Tolstói, #049)

“Que cara engraçada! Seria uma mulher ou uma alcachofra?” (Fellini, A estrada, #054)

“Os tolos vão correndo por caminhos que os anjos temem trilhar” (Alexander Pope, #055)

“Tudo escorre” (Lucrécio, #061)

“Como consegue dormir de bruços com esses botões tão grandes?” (Groucho Marx, #063)

“Pode-se perdoar a um homem a realização de uma coisa útil, contanto que ele não a admire. A única desculpa para se fazer uma coisa inútil é admirá-la imensamente.” (Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray, #066)

“Oito dias com febre! Poderia ter escrito mais um livro” (Balzac, #068)

“Cangaceiro Zeferino: ‘Céus! Que burrice extraordinária!’ Graúna: ‘Agora preciso cuidar para que a consagração não me suba à cabeça!’” (Henfil, #071)

“Ai! Por que estas coisas, e não outras?” (Beaumarchais, #077)

“Todos os pensamentos de uma tartaruga são tartaruga.” (Ralph Waldo Emerson, #081)

“É arremessado pelas ondas, mas não afunda” (#087)

Folha de S. Paulo – Ilustrada
28 de janeiro de 2012

por Vanessa Barbara

“O legume mais modesto contém em si a aventura do mundo”, diz o filósofo Michel Onfray no prefácio de A Fabulosa História dos Legumes. Nele, a escritora francesa Évelyne Bloch-Dano traça uma biografia histórica, literária e sentimental dos vegetais, detendo-se em dez deles.

O livro partiu de aulas ministradas na Universidade Popular do Gosto, em Argentan, na França, onde ela pôde dar a palavra a uma alcachofra, conferir voz a um tomate e dotar de verbo o tupinambor (tubérculo similar à batata).

A importância do tema é óbvia. Diz ela que “os legumes estão na aurora da humanidade, constituem o grau elementar da organização social, a passagem do cru ao cozido, da natureza à cultura: os seres humanos domesticaram os legumes como domesticaram os animais”.

Um dos capítulos mais comoventes fala do tupinambor, “aquela coisa esquisita, disforme, violácea e rugosa”, que por muito tempo não teve nome e nem origem precisa. É considerado o pior dos legumes. Era consumido na Quaresma, a título de penitência, e suspeitava-se que podia causar lepra. “São raízes aguadas, insípidas, nocivas à saúde e produzem muitos gases, por isso ninguém lhes dá importância”, afirmou-se em 1771.

Como se já não bastasse, logo surgiu a batata, e foi o fim para o tupinambor.

Hortaliça mais querida é a couve, verdura versátil e de domesticação arcaica. Para Catão, o Velho, ela “cura a melancolia, dá um fim em tudo, cura tudo”. O escritor Joseph Delteil afirma que “é boa para raquíticos, jovens mães e coelhos”.

Para Évelyne, falar de legumes é partir em busca de territórios e culturas. Ela cita o comentário de Marcel Proust sobre a expressão “estúpido como uma couve” – acaso seriam as couves mais estúpidas do que outras coisas? (Infelizmente para nós, brasileiros, não há qualquer menção ao termo “zé das couves”.)

Dentre os legumes citados, tupinambor e pastinaca sofreram bullying histórico. O mesmo não se pode dizer da ervilha, cuja “existência selvagem se perde na noite dos tempos”. A impaciência de comê-las, o prazer de tê-las comido e a alegria de comer mais eram as únicas preocupações da corte no século XVII. “É uma moda, é um furor.”

O livro é permeado de receitas, poemas e trechos literários. Há reproduções de pinturas relacionando a popularidade de um vegetal às naturezas-

mortas da época, ou debatendo a mudança de coloração da cenoura a partir dos temas da pintura flamenga.

Ainda assim, o resultado é um guisado confuso e sem substância que não chega a constituir um bom caldo.

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A FABULOSA HISTÓRIA DOS LEGUMES
AUTOR Évelyne Bloch-Dano
EDITORA Estação Liberdade
TRADUÇÃO Luciano Vieira Machado
QUANTO R$ 49 (184 págs.)
AVALIAÇÃO regular