Quem é morto sempre aparece

Posted: 12th dezembro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
12 de dezembro de 2011

por Vanessa Barbara

Os direitos de licenciamento da série juvenil “Julie e os Fantasmas” (Band, seg. às 20h25) foram vendidos antes mesmo de sua estreia, em outubro. Os cadernos exclusivos com fotos e estrelinhas já estão no mercado e há planos de lançar uma linha de tênis.

Produzida pela Band em parceria com a Mixer e a Nickelodeon Brasil, a série fala de uma adolescente de 15 anos que muda de casa e acidentalmente liberta uma banda de fantasmas da década de 80, um trio de galãs teen com o visual de integrantes do The Cure.

Os vistosos ectoplasmas ajudam Julie a desenvolver seu talento musical e a lidar com a paixão por Nicolas, o menino mais popular da escola, que é também um nerd enrustido. Diz o release que “Julie tem uma beleza diferente. Seu cabelo foi cortado por ela mesma, o uniforme sutilmente personalizado, caderno e tênis cobertos por palavras”. Paradoxalmente, esse gosto de Julie pela personalização é outra aposta de merchandising dos produtores.

O episódio piloto é interessante e simpático. Há personagens como o fantasma-bateirista Félix, neurótico e hipocondríaco mesmo depois de morto, e o baixista Martim, que “se sente bem como fantasma, mas se sentiria bem como qualquer outra coisa”.

A atriz Mariana Lessa passa longe de qualquer afetação típica de novelas adolescentes, à diferença de alguns de seus coadjuvantes. Após o fracasso na audição de estreia, ela diz, impassível: “Se você pensar que a Lady Gaga vomitou a primeira vez que subiu no palco, até que não fui muito mal”. Até os fantasmas fazem trocadilhos respeitáveis, como o do título desta coluna.

Uma das boas cenas é quando Julie, irritada com o visual infantil de seu quarto, recebe uma dica dos fantasmas e arranca todo o papel de parede, revelando por baixo vários pôsteres de rock.

Se a série pretende imitar o estilo de “Glee”, o que estraga é justamente a parte musical, que devia ser menos enlatada para o consumo e mais autêntica e autoral. A trilha sonora é de Rick Bonadio, produtor das estrelas, responsável pelas trilhas de “Floribella” e “Dance Dance Dance”, além de formatar bandas de apelo comercial como Mamonas Assassinas, Charlie Brown Jr., NXZero e Fresno.

O tema de abertura é lamentável e trata a audiência como se fosse um pires. A letra parece ter sido composta a partir de palavras-chave publicitárias: “Julie, ela é mais ela/ Lá vem Julie/ Ela vai te conquistar”.

Blog da Companhia das Letras
7 de dezembro de 2011

[Texto escrito por Liberty Hardy para o site BookRiot e reproduzido aqui com autorização. Tradução de Vanessa Barbara.]

Akron 293 AA Meeting

No subsolo de uma igreja unitarista em Portland, o escritor Chuck Palahnuik se dirige a um grupo de pessoas sentadas em cadeiras dobráveis. Na parede, fotos de Albert Camus e Aleksandr Solzhenitsyn. Estou parada no fundo da sala, junto à mesa do café, sondando o ambiente. Consigo identificar vários dos participantes: Chimamanda Ngozi Adichie, Abraham Verghese, Eoin Colfer. Trata-se de uma reunião dos Grandes Nomes e Obras, ou GNEO — um grupo de apoio para escritores com sobrenomes difíceis de pronunciar.

Palahniuk é uma escolha óbvia como líder do GNEO, não só porque no passado trabalhou no transporte de pessoas que frequentavam grupos de apoio como este, mas porque ele próprio costuma ter seu nome deturpado. Naquela manhã, nos falamos pelo telefone, enquanto acertávamos os pormenores da minha cobertura do evento. “Você se entrega de coração ao trabalho durante dias, meses, anos, e fica feliz com o resultado. Ganha prêmios, torna-se um autor de best-sellers, namora modelos. E então alguém põe tudo a perder errando a grafia do seu nome”, ele me disse. “Você é o seu trabalho. Se as pessoas não conseguem sequer pronunciar corretamente o seu nome, o que isso diz de você? É tão frustrante”.

Vou acompanhando a apresentação de cada um dos escritores presentes, que articulam os próprios nomes com cuidado e compartilham testemunhos. “Ganhei o Prêmio Nobel de Literatura”, declarou a poeta Wislawa Szymborska, “e eles ainda não conseguem acertar o meu nome”.

“Aquele palhaço do Matt Lauer arruinou a minha estreia em rede nacional”, disse Slavoj Zizek. “Tive que me segurar para não largar o microfone e ir embora”.

É a primeira reunião de Siddhartha Mukherjee. “Ainda não me acostumei com o nível de exposição após o anúncio do Pulitzer. É um alívio saber que não estou sozinho”, declara.

Há uma única interrupção, quando um senhor grisalho de olhar bondoso abre a porta. “Não, não, DeLillo”, diz Palahniuk. “Você está procurando a ViFraCoDe, na sala ao lado”. O escritor agradece e fecha a porta. (“ViFraCoDe?”, perguntei a Palahniuk mais tarde. “Viciados em Frases Compridas e Desconexas”, ele explicou.)

Após os testemunhos, juntei-me aos participantes. “As pessoas sofrem com isso desde que existem escritores”, conta Raefel Yglesias.

“Como Ayn Rand?”, eu pergunto.

“Não falamos sobre esse assunto”, ele me sussurra.

Um membro do grupo, que pediu para permanecer anônimo, diz invejar autores com sobrenomes fáceis, como “Waters” ou “Roth”. “Joe Hill? Quer dizer, como assim? O nome inteiro dele só tem duas sílabas”, ele zomba. “E Sara Gran? Claro, seus livros são ótimos, mas ela não sabe o que é sofrimento!”

“Se é tão frustrante assim, por que não trocam de nome?”, eu pergunto, e de imediato a sala cai num silêncio mortal. O grupo me encara como se eu tivesse pedido para urinar no adorado bicho de estimação da família. Chris Bohjalian sorri com desprezo. Ninguém mais fala comigo pelo resto da noite, e a reunião é encerrada pouco depois. O que é bom, pois acho que alguém batizou o ponche. Aposto que foi o Duane Swierczynski.

Folha de S. Paulo – Ilustrada
5 de dezembro de 2011

por Vanessa Barbara

Todas as sextas à noite, antes de existir televisão, a família se reunia em torno do rádio. Apagavam a luz e ouviam “PRK-30”, um programa de humor criado pela dupla Lauro Borges e Castro Barbosa, que parodiava atrações da época (noticiários, novelas, shows de calouros, transmissões esportivas) e caricaturava os clichês da radiofonia.

A PRK-30 se apresentava como estação clandestina e permaneceu vinte anos no ar, de 1944 a 64, exercendo influência sobre toda uma geração de comediantes. Há pouco, a editora Casa da Palavra lançou um livro com dois CDs remasterizados – “No ar: PRK-30”, de Paulo Perdigão –, que foi como conheci a verve retórica dos locutores Otelo Trigueiro e Megatério Nababo d’Alicerce (respectivamente, Lauro e Castro).

Um roteiro típico: o português Megatério introduz o prefixo musical, completamente desafinado e “executado com a coragem habitual por uma descongestionante orquestra de violinos de vara e trombones de corda”. Mas logo interrompe a desengonçada banda com um: “Chega! Não precisa caprichar tanto!”. E elogia a valsa que acabaram de tocar, “em compasso de ópera, ritmo de conga e marcação de bugre-bugre”.

Separados por uma gongada, os quadros duravam segundos ou não eram sequer transmitidos (depois de anunciados, mudava-se de assunto). O humor era inocente e desprovido de cinismo, não apelava para a grosseria, não ofendia e recaía num desvairado nonsense, com total desrespeito às normas linguísticas.

A PRK-30 era uma rádio 48% honesta, um colosso que seguia de popa em vento e uma emissora que raramente provocava náuseas em seus delicados ouvintes, veiculando as mais “avariadas” notícias de todas as partes do mundo e adjacências. Desdenhavam-se as outras estações, “que encerraram suas atividades porque quando nós começamos a ‘funcionejar’ fazemos um completo ‘manepólio’ das ondas ‘artrosianas’”.

Em “soberbas e abobalhantes” transmissões, Lauro e Castro exploravam o avesso das coisas. Eram os reis do trocadilho tolo e da adjetivação furiosa. Não faziam graça a partir do que era dito, mas de como era dito.

Ainda hoje os humoristas da TV teriam muito a aprender com Otelo, dono de uma “voz suave e quase destituída de gosma”, e Megatério, o único locutor que já mordeu a língua mais de dez vezes sem ter tido hidrofobia. E que sabia “falar inglês em vários idiomas”.

Nos episódios anteriores…

Posted: 28th novembro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
28 de novembro de 2001

por Vanessa Barbara

Nos últimos capítulos desta coluna, falamos de 79 assuntos dos mais disparatados, como a concordância gramatical em novelas, os canais de televendas, a TV Senado, os chimpanzés cineastas, Ronnie Von, zumbis e o BBB.

É com grande júbilo que entramos agora no episódio 1×80, intitulado “Recapitulação”. Aos leitores mais ordeiros, que acompanharam esta série desde o início, esperamos que ela faça sentido como um todo, até porque não garantimos que todos os mistérios serão explicados no final – somos desses roteiristas que não sabem para onde vão, confundem-se o tempo inteiro e, se bobear, nossa verba é cortada e teremos de dizer que eles estavam todos mortos (desde o começo).

Nas séries de TV, a recapitulação inicial é um elemento narrativo que visa inteirar o espectador dos últimos eventos da trama, sobretudo os que terão relevância logo a seguir. A colagem de cenas tem a duração média de 20 a 40 segundos, mas nem sempre: a de “Lost” (“Previously on Lost”) podia exceder 1 minuto e era bem atordoante.

Mas existem maiores: as de “24 horas” eram longas, atabalhoadas e duravam 2 minutos e meio; o mesmo acontece até hoje em “True Blood” e “Dexter”. Esta última destaca-se pelos resumos quase em tempo real dos capítulos anteriores – como o mapa de Borges que possuía a proporção de um para um, o mesmo tamanho da província cartografada, com a qual coincidia ponto a ponto.

Intitulado “Pai Nosso”, o episódio 3×01 tem uma recapitulação recorde de 4 minutos e 16 segundos. Fala-se de temporadas há muito esquecidas, da infância de Dexter, de seus últimos homicídios, da criação do Universo, da evolução das espécies e de Funes, o Memorioso.

Já os resumos de “Lost” e “Fringe” são apenas um pálido vislumbre do contorcionismo de suas tramas. Quem perde uma ou duas semanas pode se deparar sem aviso com um universo paralelo adicional e um irmão gêmeo malévolo que é a mesma coisa, só que ruivo, e quem ficava uns meses sem assistir “Lost” reagia ao “recap” com uma expressão de angústia que até dava pena.

Segundo um dos criadores da série, Damon Lindelof, o propósito de toda recapitulação é atender às necessidades daquele sujeito cuja esposa acaba de chegar e pede pra saber do que se trata o programa – e ele precisa dizer em 30 segundos. “O avião cai na ilha e depois disso eu me perdi. Mas tem a ver com ciborgues.”

A Hortaliça — #087

Posted: 24th novembro 2011 by Vanessa Barbara in Hortaliças
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O bom mandaquiense à casa torna
#087 – São Paulo, 24 de novembro de 2011
Edição especial Volta por Baixo
Fluctuat, nec mergitur*
hortifruti.org
*É arremessado pelas ondas, mas não afunda

“Esta vai ser uma semana muito boa”
(eu, aos 23 de maio de 2011)

“Brincando, ele a chamava de minha papoula.”
(James Joyce, “Eveline”)


:: EDITORIAL ::

Há exatos seis meses, numa segunda à tarde, o primo Eduardo foi à janela e viu a vizinha se preparando para o café. Como de costume, ela esquentou o leite, ferveu a água, botou os pãezinhos velhos no forno elétrico. Deve até ter pego alguma coisa para ler – a revista de domingo que ficava debaixo da cesta de biscoitos, sem dúvida, mas havia algo diferente que ele não conseguia explicar. Pela primeira vez em meses, ela parecia saber exatamente o que fazer. Comeu as duas metades do pão com manteiga, guardou tudo de volta à geladeira, mas, naquele dia, não lavou a louça – deixou a xícara suja na pia, e por lá a xícara ficou.

Deve estar lá até hoje, pois, naquela tarde em específico, a moça tirou a mala de rodinhas do armário. Botou lá dentro algumas roupas, dois livros, a caixa de remédios e um computador com nome de legume, tudo em silêncio, como se estivesse regando as plantas. Depois, primo Eduardo reparou que a moça conversava com as tartarugas, tirava os répteis do aquário e os colocava numa bacia de plástico, murmurando alguma musiquinha boba. Não atendeu o telefone e foi embora, levando a mala e o que lhe restava de ar nos pulmões.

Depois daquele dia, primo Eduardo achou tudo muito confuso. As tartarugas jamais voltaram, o aquário se foi num caminhão-baú lamentável e logo apareceu uma outra moça, aliás muito parecida com a anterior, e um dia ele jura que viu a original esparramada no sofá comendo chocolates, como se nada tivesse acontecido. Ela devia estar louca, pois tirava objetos estranhos do lugar com fúria vingativa: botou um rolo de macarrão na gaveta de cuecas, uma lata de ervilhas na prateleira de gibis, um manual de xadrez na gaveta do banheiro, a pomada de micose no lugar da pasta de dente, uma escumadeira junto com as camisetas. Depois desse dia, sumiu. Primo Eduardo passou um tempo tristonho com a sentida ausência, e nisso deve ter sido o único que reparou. Primo Eduardo até hoje tem saudades da vizinha, que falava consigo mesma o dia todo e dançava com as maçanetas da porta – mas já se acostumou com a nova ordem das coisas, como, aliás, sói de acontecer.

Muitos já sabiam o que se passava há meses e todos tiveram a democrática chance de opinar – menos ela – e menos o primo Eduardo, que até hoje não entende, mas também não vai tocar no assunto porque, afinal de contas, a gente se acostuma. Logo vai aparecer um gato, depois uma calopsita, depois um bebê, mais três outros modelos de videogame e o mundo é assim – a gente faz o que bem entende e está muito bom, não havendo motivos para se apoquentar. A moça que trate de viver com isso.

Aos amigos, esta é uma edição d’A Hortaliça que vem com três tipos de molho: agridoce, barbecue e mostarda, conforme a disposição do leitor. Tem quinze assinantes a menos e a Redação de volta ao Mandaqui, terra onde ainda há pochetes e a mobilete tem valor. (Cartas devem ser remetidas à Praça Tito, s/n, onde ergueremos um novo puxadinho espelhado.)

Durante o período de reconstrução pós-Chernobyl, e sem avisar ninguém, adotamos uma terceira tartaruga, o Moisés, que é o homenageado desta edição; também aproveitamos para redecorar nosso sítio e entupi-lo com as mais variadas leguminosas, que é para vocês aprenderem. A inauguração oficial contará com uma espumejante fanfarra descendo a rua, toda de branco, entoando hinos anabatistas, e terá lugar em dia específico que ainda não podemos prever. Segue o endereço.


:: SELETA DE LEGUMES ::

Novo!

Reportagens, crônicas, traduções, preparações e ficções publicadas nos mais diversos veículos da imprensa mandaquiense, nacional e interplanetária, em troca de exíguas patacas que possam custear os meus vícios.

https://hortifruti.org


:: ABRINDO OS TRABALHOS ::

Depoimento de Armando Nogueira para o Roda Viva

O poeta Frederico Schmidt, por telefone, leu o último poema dele para Pedro Dantas, jornalista e cronista esportivo do Diário Carioca. O verso de abertura era o seguinte: “Se batesse à minha porta, eu, tímido, olharia”.

Dantas entendeu: “Se batesse à minha porta o time do Olaria”.


:: ALUCINAÇÕES MUSICAIS ::

Oliver Sacks

Daniel Levitin salientou que Ulysses S. Grant, segundo se dizia, “era surdo para tons e afirmava conhecer apenas duas músicas: Uma é ‘Yankee Doodle’, e a outra não”.


:: OVO FRITO ::

Alain de Botton, Ensaios de amor

A história da medicina nos conta um caso de um homem que vivia na ilusão peculiar de que era um ovo frito. Como ou quando essa ideia havia entrado em sua cabeça ninguém sabia, mas ele agora se recusava a sentar em qualquer lugar com medo de “se quebrar” e “derramar a gema”. Seus médicos tentaram sedativos e outras drogas para apaziguar seus temores, mas nada parecia funcionar. Finalmente, um deles fez o esforço de penetrar na mente do paciente iludido e sugeriu que ele deveria levar sempre um pedaço de torrada consigo, que ele poderia colocar sobre qualquer cadeira em que desejasse se sentar, e assim evitar que a gema se espalhasse. Dali por diante, o homem iludido nunca mais foi visto sem uma fatia de torrada na mão, e foi capaz de continuar a ter uma existência mais ou menos normal.

Qual o propósito desta história? Ela mostra tão-somente que, embora uma pessoa possa estar vivendo sob uma ilusão (amor, a crença de que se é um ovo), se ela descobre sua parte complementar, então tudo pode ficar bem.


:: MÁXIMAS ::

Galvão Bueno

Estamos aqui, direto do Stade de France, que em francês significa “Estádio da França” […].


:: PARA SCOTT ::

de Zelda Fitzgerald, primavera/verão de 1932

Meu adorado e muito valoroso Monsieur,

Temos aqui uma espécie de maníaca que parece imbuída de aberrações eróticas em seu nome. Fora isso, trata-se de pessoa de excelente caráter, disposta a trabalhar, aceita um salário nominal durante fase de aprendizado, pele clara, olhos verdes, gostaria de trocar cartas com rapaz refinado que corresponda a sua descrição, com vistas a casamento. Experiência anterior desnecessária. Adora vida familiar e é um animalzinho de estimação maravilhoso para se ter em casa. Com uma indicação atrás da orelha esquerda de leve tendência à esquizofrenia.

Achamos conveniente avisá-lo de que a referida paciente é uma das melhores que temos no momento na classe dos irresponsáveis, e não gostaríamos que nada de mal lhe acontecesse. Parece que, em grande parte, sofre de uma imensa paixão e é facilmente identificável pois estará em condições supimpas e balbuciando coisas sobre o 6:54 ser a flecha de cupido. Esperamos que tal espécime lhe dê satisfação completa, que quaisquer pedidos posteriores sejam dirigidos a nós e nós o amamos com todo, todo nosso coração, alma e corpo.


:: MAIS ZELDA ::

Trad. Beth Vieira

Salvo alguns retrocessos rumo a uma rebeldia maluca e uma falta total de equilíbrio, estou melhor.


:: TURTLES ALL THE WAY DOWN ::

Stephen Hawking, Uma breve história do tempo

A well-known scientist (some say it was Bertrand Russell) once gave a public lecture on astronomy. He described how the earth orbits around the sun and how the sun, in turn, orbits around the center of a vast collection of stars called our galaxy. At the end of the lecture, a little old lady at the back of the room got up and said: “What you have told us is rubbish. The world is really a flat plate supported on the back of a giant tortoise.” The scientist gave a superior smile before replying, “What is the tortoise standing on?” “You’re very clever, young man, very clever,” said the old lady. “But it’s turtles all the way down!”

[Certa vez, um cientista famoso (dizem que foi Bertrand Russell) fez uma palestra ao público sobre astronomia. Ele descreveu como a Terra orbita ao redor do Sol e como o Sol, por sua vez, orbita ao redor de uma vasta coleção de estrelas conhecidas como a nossa Galáxia. No final do discurso, uma velhinha, sentada no fundo da sala, levantou-se e disse: “O que você acabou de dizer é tolice. O mundo, na verdade, é um prato raso apoiado em cima de uma tartaruga gigante.” O cientista deu um sorriso arrogante antes de replicar: “E onde a tartaruga está se apoiando?” “Você é muito esperto, meu jovem, muito esperto!”, disse a velhinha. “Mas é uma tartaruga embaixo da outra, até lá em baixo!”]


:: QUADRINHAS PAULISTANAS ::

do Fabrício Corsaletti, na revista sãopaulo

jamais pensar no futuro
desprezar o duodeno
comer barriga de porco
no Izakaya Bueno

[…]

tem nove poodles em casa
não conversa com ninguém
de vez em quando ela late
dizem que não late bem

um taxista confessa
que come, a cada manhã
seis pães franceses – e pesa
menos que uma freira anã


:: SOLENEMENTE ::

Frank Wynne, Eu fui Vermeer

Mas os peritos são, realmente, aves raras, cujos métodos incluem arcanos rituais: o historiador da arte Richard Krautheimer, autor de Early Christian and Byzantine Architecture, lambia esculturas para descobrir quando foram feitas; outro eminente crítico de arte determinava a idade de um quadro mascando solenemente uma lasca do verniz.


:: PERANTE DEUS E OS CISNES ::

André Maurois, História da Inglaterra

O Rei da Inglaterra estava velho, enfermo, mas prometeu, num estranho juramento místico “perante Deus e os Cisnes”, esmagar a revolta escocesa […].


:: GIRAFA NA AREIA MOVEDIÇA ::
Ilustrando os cinco estágios do luto

http://www.youtube.com/watch?v=m-u1Kd7istI


:: MAIS ZELDA ::

Meados de novembro de 1931

Querido,

Este foi um daqueles dias empapados de saudades de você. Sinto-me muito pobre e como se a vida fosse vasta demais. Gostaria de enfiar minhas velhas roupas e ir arar o campo.


:: VOLTANDO ÀS ORIGENS ::
Seleções do Reader’s Digest, maio de 1998

Telégrafo – Samuel morse, inventor do telégrafo, “despiu a língua de suas inutilidades”. Não havia instrumento mais perfeito a fim de dizer algumas verdades para alguém. O melhor de todos foi, provavelmente, aquele enviado a Lord Home, ministro das Relações Exteriores britânico: “VÁ PARA O INFERNO. SEGUE CARTA COM INSULTOS”.

Dois titãs da réplica se sobrepujaram quando Bernard Shaw convidou Churchull para a estreia de sua nova peça: “ESTOU RESERVANDO PARA VOCÊ DUAS ENTRADAS PARA MINHA PREMIÈRE. VENHA E TRAGA UM AMIGO – SE TIVER UM.” A resposta de Churchill: “IMPOSSÍVEL COMPARECER À PRIMEIRA APRESENTAÇÃO. ASSISTIREI A SEGUNDA – SE HOUVER.”

Às vezes a concisão levou à confusão. Em 1933, a embaixada americana na Bulgária telegrafou para seu país: “NASCEU A FILHA DA RAINHA IOANNA. ENVIAR CONGRATULAÇÕES AO PRIMEIRO-MINISTRO”.


:: RIGHT AROUND THE CORNER ::

Sim, é uma citação de Gilmore Girls

Anyhow, I’m fine. I mean, not that I’m over it, but little by little it’s getting easier to pretend it’s easier, which means easier must be right around the corner.


:: NOTÍCIA ::

Jornal A Época, Rio de Janeiro, 31 de julho de 1912

Aramis, de 2 annos, filha de Affonso Santos, feriu-se levemente quando brincava em sua residencia.


:: NOTÍCIA RELACIONADA ::


:: O AVÔ NA MPB ::

O que me deixa mais triste nessa história são as músicas que se referem à fria e imediata substituição do avô, como se um avô de verdade fosse mesmo substituível. Seguem exemplos:

“É tarde, é tarde
Arranjei um novo avô…”
(João Gilberto)

“Que tolo fui eu que em vão tentei raciocinar
Nas coisas do avô que ninguém pode explicar
Vem nós dois vamos tentar
Só um novo avô pode a saudade apagar”
(Tom Jobim)

“Andam dizendo na noite que eu já não te amo
Que eu saio na noite e já não te chamo
Que eu ando talvez procurando outro avô”
(Tom Jobim)

“O meu coração já tem um novo avô
Você pode fazer o que quiser”
(Raça Negra)

“Tô fazendo avô com outra pessoa”
(Só Pra Contrariar)


:: DIFERENCIADOS ::
Instruções do microônibus que vai para o Shopping Pátio Higienópolis

Para embarcar nos microônibus, basta acenar para o motorista.


:: RIR DEMAIS ::
Chiara Frugoni, Vida de um homem: Francisco de Assis

Assim como as crianças e jovens que, tão logo se encontram, põem-se a rir –– talvez seja esta a principal diferença em relação aos adultos ––, os frades, principalmente os jovens, também desandavam a rir logo que se viam. Como realmente riam demais, mesmo à mesa, decidiu-se por um remédio extremo: para cada risada receberiam um castigo físico. Apesar disso, um pobre frade foi chicoteado onze vezes num dia, sem conseguir parar de rir. Só parou quando ficou realmente assustado com um terrível sonho que lhe contou o padre guardião.


:: CORAGEM DE MORDER TOMATES ::
Dicionário Universal de Curiosidades, p. 1268

Antigamente o tomate era considerado venenoso, por ser muito vermelho, e ninguém ousava prová-lo. Foi Michele F. Corne que teve a coragem de mordê-lo, em Newport (Inglaterra), perante multidão de 35 mil pessoas. No local onde Corne provou os primeiros tomates, ergueu-se uma estátua em sua homenagem.


:: O AVÔ NA MPB – PARTE II ::

“O avô não passa de um garotinho bem antigo”, já dizia um pensador anônimo, cobertíssimo de razão. Sempre preferi os que louvam nossos garotinhos longevos, como o poeta Frejat, que certa vez perdeu de vista o seu num shopping center e declamou, no sistema de som do estabelecimento: “Eu procuro um avô/ Que ainda não encontrei”, e, mais adiante: “Vou encontrar, eu vou até o fim”.

Ou então, para os mais líricos:

“O nosso avô é lindo
Tão lindo
Nada pode ser mais lindo
Do que o nosso avô”
(Adryana & A Rapaziada)

“Que coincidência é o avô
A nossa música nunca mais tocou”
(Cazuza)

“When the moon hits your eye like a big pizza pie
That’s avô”
(Dean Martin)

“O avô faz a gente enlouquecer
faz a gente dizer coisas
pra depois se arrepender”
(Razão Brasileira)

“Quem vai pagar as contas deste avô pagão?”
(Herbert Vianna)


:: POEMINHA FINAL ::
Guilherme Shakespeare

Sigh no more, ladies, sigh nor more;
Men were deceivers ever;
One foot in sea and one on shore,
To one thing constant never;
Then sigh not so,
But let them go,
And be you blithe and bonny;
Converting all your sounds of woe
Into. Hey nonny, nonny.


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Agradecimentos
Adriano Marcato, Audrey Furlaneto, Bruno Brasil, Marcos Barbará, Moisés, Paulo Velho, Ricardo Nassif. Aos novos amigos, às velhas tartarugas. E que volte a crocância.

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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado — logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie Avari, a moradora mais ilustre da rua Paulo da Silva Gordo)   ## Você está recebendo !!Witzelsucht!!porque estava na mala direta. Ou então, ou então! Você está recebendo o !Rododendro! porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis, sorteados em uma grande urna chinesa. Você e o To Fu, que ganhou o direito de trazer um tufo de nenúfares e furar a fila. Caso não queira voltar a receber este jornalzinho, mande um e-mail para hortalica@gmail.com e diga na linha de assunto: “Foi demais para Kudno Mojesic”, mesmo que você não seja — e nem queira ser — Kudno Mojesic.

Blog da Companhia das Letras
22 de novembro de 2011

Por Vanessa Barbara


(Rachael Morrison em foto de Michael Schmelling)

Em 2010, a norte-americana Rachael Morrison arrumou um emprego como bibliotecária-assistente do MoMA (Museum of Modern Art), de Nova York. Tomada por um irrefreável ímpeto artístico, resolveu aproveitar seu horário de almoço para dedicar-se à performance “Smelling the Books” (Cheirando os livros), que consistia em cheirar todos os volumes da biblioteca.

A peripécia teve início com o primeiro livro da primeira prateleira, conforme a classificação oficial: o AC5.S4, Sermons by artists, e irá terminar com o número ZN3.R45,Bibliography of the history of art. Há 300 mil volumes ao todo e, até o presente momento, ela só cafungou 300. “É uma ideia corajosa”, declarou David Senior, bibliógrafo do MoMA, “pois alguns dos nossos livros cheiram muito mal.”

Rachael tem o cuidado de discriminar cada fragrância num caderno de registros, anotando o número, o título da obra e uma descrição de seu olor. O objetivo dessa exploração farejadora é suscitar uma discussão sobre o futuro da mídia impressa e a relação do olfato com a memória.

Em suas anotações, o livro Collected papers on museum preparation and installation, de 1927, foi imortalizado com uma só frase: “cheiro de sovaco”. Outro volume, de 1967,American folk art in the collection of the Newark Museum, possui “um cheiro nojento de cocô de cachorro”. The civic value of museums evoca o odor de fumaça de cigarro e de chá, e An experiment in museum instruction tem cheiro de chuva de verão e papel velho. Outros aromas catalogados são o de “abraçar a vovó com sua blusa de lã”, o de cola, urina, talco, sótão, fogueira, parte de baixo do sofá, móveis de madeira, cabelo, esmalte, fritura, cera de chão, protetor solar, meia suja e “nenhum”.

Procurada pela reportagem deste blog, Rachael diz que ainda não chegou a conclusões definitivas, mas que, curiosamente, entre os cheiros mais populares estariam o de flores, sovaco, barro e tomilho.

Diz-se que os livros mais antigos têm um peculiar aroma de baunilha devido a um polímero orgânico presente na madeira, a lignina – similar à vanilina. De acordo com o manual Perfumes: um guia de A a Z, de Luca Turin e Tania Sanchez (inédito no Brasil), a lignina é uma substância presente nas árvores, que serve para unir as fibras da celulose à parede vegetal e aumentar sua rigidez, impermeabilidade e resistência. Altamente volátil, o composto seria exalado pelo papel com o passar do tempo e, por ser muito ácido, também o acabaria amarelando e acelerando sua decomposição.

Essa hipótese se aplicaria somente aos papéis provenientes de pastas de madeira mecânica (“groundwood”), processo que emitiria fragrâncias de vanilina, anisol e benzaldeído. Por outro lado, os compostos resinosos derivados de terpeno (mais impermeáveis à tinta) resultariam em fedores mais canforados, gordurentos e amadeirados. Um cheiro de cogumelos estaria associado a álcoois alifáticos bem fortes, e não estou inventando. Os cientistas também consideram que a presença de 2-etil-hexanol pode gerar emulsões levemente florais e que a combinação de etilbenzeno e tolueno dá em aromas mais adocicados.

Do que se conclui, portanto, que o cheiro dos livros se deve aos compostos voláteis emitidos pelos diferentes materiais de que são fabricados, e que não existe um cheiro específico de “livro velho”. Mais de cem compostos diferentes já foram identificados no papel, entre ácidos, aldeídos, álcoois, cetonas, alcano e terpenos. Ainda assim, na busca de uma unanimidade, pesquisadores da Universidade de Londres publicaram um artigo na revista Analytical Chemistry na qual definem o cheiro de livro velho como sendo “uma combinação de notas campestres com um buquê de ácidos e um toque de baunilha sobre uma base de bolor”.

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Segundo enquete no site da Folha de S. Paulo, 81% dos brasileiros gostam de cheirar livros. O hábito é compartilhado até pela presidenta Dilma Rousseff, que, em entrevista à apresentadora Ana Maria Braga, declarou que não basta ler – “tem de pegar o livro, dar uma cheiradinha… Aquele cheiro da página nova”.

O aroma dos livros recém-impressos é de ordem bastante diversa daquela dos antigos e abaunilhados – tem mais a ver com a tinta e a cola do que com o papel. Diante de um exemplar recém-saído da gráfica e trazido pra casa, a primeira coisa que meu pai faz tradicionalmente é abrir o volume, afastar os óculos de leitura e dar uma boa fungada. É esse seu primeiro passo para julgar a qualidade de uma determinada obra – quanto mais fresca, mais promissora. Meu pai é um defensor das vanguardas.

Gordurento ou abaunilhado, empoeirado ou levemente tóxico, há que se valorizar o chorume olfativo dos livros, mas sem protestar contra a ameaça inodora dos e-books. Para combatê-la, é fácil: basta adquirir uma lata de “Cheiro de Livro Novo”, um spray que custa 29 dólares e é compatível com todos os leitores no mercado (menos o Zune). Embora obviamente não exista, o produto vem em sabores variados, como “Mofo Clássico”, “Cheiro de Gato” e “Bacon Crocante”.

Para quem prefere algo mais leve, é possível adquirir uma vela perfumada com o cheiro do New York Times, desenvolvida pelo artista plástico Tobias Wong e vendida por 65 dólares. A vela tem toques de “madeira de guaiaco, cedro e almíscar”, trazendo à memória o aroma “empoeirado e aveludado” do jornal impresso.


Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Folha de S. Paulo – Ilustrada
21 de novembro de 2011

por Vanessa Barbara

O leitor Paulo Silva se diz indignado com o “JN no ar”, segmento do “Jornal Nacional” que manda repórteres num pomposo avião para matérias que poderiam ser facilmente apuradas pelas equipes locais.

Senso de ridículo e perspectiva é o que falta a muitos telejornais que, quanto mais poderosos, mais pretensiosos ficam. A exceção é o “Sensacionalista” (Multishow, seg. às 22h30), uma paródia que estreou sua nova temporada no mês passado.

Com o slogan: “Um jornal isento de verdade”, o JS imita a linguagem sisuda do gênero, os cacoetes de texto, o formato engessado e a condescendência dos âncoras, em manchetes sobre: o rodízio de subcelebridades nas praias cariocas, os mendigos que aceitam cartão de crédito, a discriminação de pessoas com voz de pato e os videntes que decidiram processar comentaristas esportivos por exercício ilegal da profissão.

Tudo isso com a ajuda de gráficos explicativos, depoimentos de populares e consulta a especialistas. A produção é tão competente que muitos acreditam e repassam a notícia como sendo verdadeira, revoltados, por exemplo, com o casal paulista que teria batizado o filho de Facebookson, com o kit mendigo distribuído pelos camelôs do Rio (matéria que enganou até a Rádio Globo) ou com a decisão do governo de lançar uma campanha publicitária para mostrar que não faz tanta publicidade assim.

A verossimilhança é maior no caso do repórter Anderson Freitas, que tem a voz idêntica à de Sérgio Chapelin. A influência mais evidente é do satírico jornal norte-americano “The Onion”.

Nos últimos programas, acompanhou-se o drama de um deputado do Partido Democrático Trabalhador Social Cristão Liberal dos Últimos Dias (PDTSCLUD), banido da política por ter devolvido uma carteira achada no chão. Na sequência, o JS conversou com um pai de santo que manda a pessoa amada embora em três dias e citou um site de compras coletivas que promete trazer 40 pessoas amadas de volta em duas semanas.

O JS é bastante desigual, mas compensa a ocasional falta de graça com momentos de glória absoluta, como o anúncio de que a presidente Dilma irá aplicar os preceitos do feng shui no Planalto. Ela pretende virar os dois pratos do edifício do Congresso Nacional para baixo – evitando, a um só tempo, a anulação de energia cósmica positiva, o acúmulo de água da chuva e a proliferação do mosquito da dengue.

Eu quero “ibagens”

Posted: 14th novembro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
14 de novembro de 2011

por Vanessa Barbara

No último dia 10, o humorista Marcelo Adnet entrevistou José Luiz Datena no “Adnet ao Vivo” (MTV, qui. às 22h30). Mais uma vez, repetindo o que houve no bate-papo com Marília Gabriela (ver coluna de 9/10/2011), Datena comandou a entrevista, chegando inclusive a chamar o intervalo no lugar do seu anfitrião.

Desta vez, ele declarou que “não adianta tentar fingir na televisão”, pois não dá pra enganar o público por muito tempo – pretendendo, com isso, atestar sua franqueza. Abordado por um entrevistador nervoso e inexperiente, deitou e rolou: a propósito de uma cadeira, começou falando de Le Corbusier, depois engatou nos seus gostos artísticos (música clássica e blues) e citou Robert Johnson, que teria vendido a alma ao Tinhoso em troca da habilidade de tocar violão.

Nos últimos meses, Datena tem se dedicado a conceder entrevistas supostamente sinceras em que se declara um homem infeliz. Elogia o interlocutor, confessa ter sido um pai ausente e marido infiel, diz que é de esquerda e que lê Schopenhauer.

Ao garantir que não faz o que gosta, defrontou-se com o bom-senso de Adnet, que, à diferença de Marília Gabriela, perguntou por que então o apresentador não mudava de ramo. “Porque sou obrigado a fazer, porque ganho uma puta grana”, explicou o entrevistado, um tanto confuso, garantindo que seria demitido caso propusesse na Band um tipo de programa mais do seu gosto, como uma atração de auditório.

Não me convenceu, mas “Adnet ao Vivo” é tão curto que mal dá tempo de duvidar. O formato é caótico e desperdiça o talento do humorista, que, com tantas tarefas a cumprir, se vê obrigado a negligenciar não só o entrevistado como a banda convidada (na ocasião, O Teatro Mágico).

Pior: não sobra espaço para o que interessa, que são seus momentos de falta de assunto, as improvisações musicais e imitações de personalidades, como a que fez de Galvão Bueno narrando o UFC (Ultimate Fighting Championship) e do próprio Datena, com seu sotaque e mania de trocar o M pelo B. “Hobens e bulheres de todo o país, eu quero ibagens”, pede Adnet. “Me dá ibagens!”

Teria sido interessante ver um quadro sobre os alarmes falsos de Datena no ar, quando ele diz que algo “está parecendo uma bomba pra mim… É uma bomba! Não vai lá não, César!”. E, trinta minutos depois: “Que bom que era apenas uma sacola vazia”.

Ou então quando Datena solta: “Cobandante Habilton, onde você está nesse bobento? Cobandante? Você tá assistindo jogo de futebol do helicóptero, cobandante?!”.

E a mais clássica de todas: “Congela o Ulisses! Congela o Neto! Congela o Ceará! Me congela também que nós vamos para o futuro!”.

11 contos de 11 linhas por 11 escritores

Posted: 11th novembro 2011 by Vanessa Barbara in Ficção
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
11 de novembro de 2011

A convite da Folha, autores contemporâneos brasileiros criaram minificções inspiradas pela data de hoje

IDEIA FELIZ
por Vanessa Barbara 

Morava numa rua
sem saída e vivia achando
que a mulher ia largá-lo.
Por via das dúvidas, achou
sensato pedir o divórcio,
arrumou uma amante
cheia de verrugas e se
mudou para uma casa
com quintal, assim pelo
menos teria pra onde correr
quando a aflição batesse.


Vanessa Barbara é colunista da Folha e autora de “O livro amarelo do Terminal” (Cosac Naify) 

A filosofia sacolejante

Posted: 10th novembro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas
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MAN Magazine / Volkswagen
n. 3 – circa dezembro de 2011

por Vanessa Barbara

Pode-se dizer, com segurança, que meu caso de amor com o transporte coletivo não é passageiro – com o perdão do trocadilho. Seu ápice se deu em 2008, quando publiquei O Livro Amarelo do Terminal (CosacNaify), um trabalho jornalístico sobre a Rodoviária do Tietê. Mas esse não foi o início e nem o fim.

Meu relacionamento com os ônibus começou em 1993, aos 11 anos de idade, quando ganhei o direito de andar de ônibus por conta própria. Foi com uma euforia desgovernada que tomei meu primeiro coletivo sozinha, no Terminal Santana, e por algum tempo essa foi a minha principal motivação para frequentar a escola: a promessa de que, na saída, eu viajaria garbosamente num mamute de lata, golpeando os passageiros com minha mochila extravagante e fazendo troça dos imaturos que voltavam de perua ou de carro com os pais. Naquela época, só o que eu almejava era um dia poder erguer o braço e fazer o sinal, posto que eu só sabia subir num ônibus que já se encontrasse parado em seu ponto final. Minha amiga Fabianny já conhecia essa sensação, o que sinceramente me deixava invejosa. Mas Fabianny não perdia por esperar.

Lembro de um domingo à tarde em que eu, minha mãe e o meu irmão fizemos uma viagem absolutamente insólita para a “cidade” (na época, o centro era chamado de “cidade”, como se o subúrbio não fizesse parte da capital), onde supostamente passava um ônibus mítico de dois andares, o “Fofão”. A gente esperou um bocado, e até hoje ele não veio. Outro ônibus que esperei em vão, este por uma manhã inteira, foi um fretado que levaria meu grupo de bandeirantes a Salesópolis, como prêmio por termos coletado um número obsceno de assinaturas em prol de uma campanha para despoluir o rio Tietê. Não só desconheço a nascente até hoje, como o supracitado rio permanece sulfuroso. Fabianny não estava presente, e desconfio que ela tenha tido algo a ver com o boicote.

Aos 16 anos, após meia década de experiência com os ônibus urbanos, arrumei um namorado catarinense. Como, naquela época, viagens de avião eram uma impossibilidade econômica para uma estudante de colegial cujas aspirações turísticas mal englobavam a Praia Grande (quando muito), passei os três anos seguintes fazendo viagens de onze horas de duração em linhas de ônibus convencionais com bancos pouquíssimo ou nada reclináveis.

As partidas aconteciam às oito ou dez da noite, e costumávamos chegar em Florianópolis pela manhã. Eu passava a viagem toda acordada, e era geralmente a única, pois quase todos os passageiros entravam direto no quinto estágio do sono assim que o ônibus deixava o terminal e as luzes se apagavam, me fazendo sentir como aqueles personagens de desenho animado que continuam piscando com os olhos bem abertos, mesmo num breu absoluto. Plic, plic.

Eu levava algumas opções de entretenimento a bordo: um toca-fitas portátil com seleções musicais gravadas em cassetes Basf, um monte de livros e muita comida. O farnel era composto de duas ou três unidades de Toddynho, dois sanduíches naturais de frango e quatro bisnaguinhas como sobremesa, sendo duas de geléia e duas de Io-iô Crem, tudo embalado em sacos plásticos de fecho hermético.

Minhas leituras variavam, mas a que me causou maior impressão foi Histórias extraordinárias, contos de terror de Edgar Allan Poe, que li entre duas e seis da manhã, sozinha na última poltrona, com pausas ocasionais para sucumbir a um ataque cardíaco sempre que alguém resolvia levantar e ir ao banheiro.

Foi isso o que ficou das minhas madrugadas passadas num ônibus indo ou vindo de Santa Catarina: o silêncio, a solidão gélida do ar-condicionado, os vidros embaçados, a vergonha de acender a luz e incomodar alguém, o céu estrelado envolvendo curiosas cidades-fantasma – como Massaranduba, onde uma vez vi dois velhinhos sentados lado a lado num banco de praça, às cinco e meia da manhã de um dia glacial. (Achei que estivesse morta.)

Saindo de São Paulo, à noite, tinha uma sensação das mais esquisitas: olhando através da janela em movimento, sentia inveja daqueles que passeavam pela rua, voltando pra casa ou se preparando para ir dançar, sobretudo aos finais de semana, quando eu me via como prisioneira de um não-lugar, habitante de um limbo temporal, a meio caminho entre uma coisa e outra.

Sempre que entro num ônibus, é a sensação que tenho até hoje: de que a vida é uma passagem silenciosa de um lugar para o outro, onde cabem todas as expectativas, ninguém sabe regular o ar-condicionado e o motorista pode pegar no sono a qualquer momento, embalado pelos roncos sinfônicos dos demais companheiros de trajetória. Todo mundo dorme. Não há outros carros na estrada. Mas, se você tiver sorte, haverá alguém à sua espera no desembarque.