Folha de S. Paulo – Ilustrada
21 de novembro de 2011

por Vanessa Barbara

O leitor Paulo Silva se diz indignado com o “JN no ar”, segmento do “Jornal Nacional” que manda repórteres num pomposo avião para matérias que poderiam ser facilmente apuradas pelas equipes locais.

Senso de ridículo e perspectiva é o que falta a muitos telejornais que, quanto mais poderosos, mais pretensiosos ficam. A exceção é o “Sensacionalista” (Multishow, seg. às 22h30), uma paródia que estreou sua nova temporada no mês passado.

Com o slogan: “Um jornal isento de verdade”, o JS imita a linguagem sisuda do gênero, os cacoetes de texto, o formato engessado e a condescendência dos âncoras, em manchetes sobre: o rodízio de subcelebridades nas praias cariocas, os mendigos que aceitam cartão de crédito, a discriminação de pessoas com voz de pato e os videntes que decidiram processar comentaristas esportivos por exercício ilegal da profissão.

Tudo isso com a ajuda de gráficos explicativos, depoimentos de populares e consulta a especialistas. A produção é tão competente que muitos acreditam e repassam a notícia como sendo verdadeira, revoltados, por exemplo, com o casal paulista que teria batizado o filho de Facebookson, com o kit mendigo distribuído pelos camelôs do Rio (matéria que enganou até a Rádio Globo) ou com a decisão do governo de lançar uma campanha publicitária para mostrar que não faz tanta publicidade assim.

A verossimilhança é maior no caso do repórter Anderson Freitas, que tem a voz idêntica à de Sérgio Chapelin. A influência mais evidente é do satírico jornal norte-americano “The Onion”.

Nos últimos programas, acompanhou-se o drama de um deputado do Partido Democrático Trabalhador Social Cristão Liberal dos Últimos Dias (PDTSCLUD), banido da política por ter devolvido uma carteira achada no chão. Na sequência, o JS conversou com um pai de santo que manda a pessoa amada embora em três dias e citou um site de compras coletivas que promete trazer 40 pessoas amadas de volta em duas semanas.

O JS é bastante desigual, mas compensa a ocasional falta de graça com momentos de glória absoluta, como o anúncio de que a presidente Dilma irá aplicar os preceitos do feng shui no Planalto. Ela pretende virar os dois pratos do edifício do Congresso Nacional para baixo – evitando, a um só tempo, a anulação de energia cósmica positiva, o acúmulo de água da chuva e a proliferação do mosquito da dengue.

Eu quero “ibagens”

Posted: 14th novembro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
14 de novembro de 2011

por Vanessa Barbara

No último dia 10, o humorista Marcelo Adnet entrevistou José Luiz Datena no “Adnet ao Vivo” (MTV, qui. às 22h30). Mais uma vez, repetindo o que houve no bate-papo com Marília Gabriela (ver coluna de 9/10/2011), Datena comandou a entrevista, chegando inclusive a chamar o intervalo no lugar do seu anfitrião.

Desta vez, ele declarou que “não adianta tentar fingir na televisão”, pois não dá pra enganar o público por muito tempo – pretendendo, com isso, atestar sua franqueza. Abordado por um entrevistador nervoso e inexperiente, deitou e rolou: a propósito de uma cadeira, começou falando de Le Corbusier, depois engatou nos seus gostos artísticos (música clássica e blues) e citou Robert Johnson, que teria vendido a alma ao Tinhoso em troca da habilidade de tocar violão.

Nos últimos meses, Datena tem se dedicado a conceder entrevistas supostamente sinceras em que se declara um homem infeliz. Elogia o interlocutor, confessa ter sido um pai ausente e marido infiel, diz que é de esquerda e que lê Schopenhauer.

Ao garantir que não faz o que gosta, defrontou-se com o bom-senso de Adnet, que, à diferença de Marília Gabriela, perguntou por que então o apresentador não mudava de ramo. “Porque sou obrigado a fazer, porque ganho uma puta grana”, explicou o entrevistado, um tanto confuso, garantindo que seria demitido caso propusesse na Band um tipo de programa mais do seu gosto, como uma atração de auditório.

Não me convenceu, mas “Adnet ao Vivo” é tão curto que mal dá tempo de duvidar. O formato é caótico e desperdiça o talento do humorista, que, com tantas tarefas a cumprir, se vê obrigado a negligenciar não só o entrevistado como a banda convidada (na ocasião, O Teatro Mágico).

Pior: não sobra espaço para o que interessa, que são seus momentos de falta de assunto, as improvisações musicais e imitações de personalidades, como a que fez de Galvão Bueno narrando o UFC (Ultimate Fighting Championship) e do próprio Datena, com seu sotaque e mania de trocar o M pelo B. “Hobens e bulheres de todo o país, eu quero ibagens”, pede Adnet. “Me dá ibagens!”

Teria sido interessante ver um quadro sobre os alarmes falsos de Datena no ar, quando ele diz que algo “está parecendo uma bomba pra mim… É uma bomba! Não vai lá não, César!”. E, trinta minutos depois: “Que bom que era apenas uma sacola vazia”.

Ou então quando Datena solta: “Cobandante Habilton, onde você está nesse bobento? Cobandante? Você tá assistindo jogo de futebol do helicóptero, cobandante?!”.

E a mais clássica de todas: “Congela o Ulisses! Congela o Neto! Congela o Ceará! Me congela também que nós vamos para o futuro!”.

11 contos de 11 linhas por 11 escritores

Posted: 11th novembro 2011 by Vanessa Barbara in Ficção
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
11 de novembro de 2011

A convite da Folha, autores contemporâneos brasileiros criaram minificções inspiradas pela data de hoje

IDEIA FELIZ
por Vanessa Barbara 

Morava numa rua
sem saída e vivia achando
que a mulher ia largá-lo.
Por via das dúvidas, achou
sensato pedir o divórcio,
arrumou uma amante
cheia de verrugas e se
mudou para uma casa
com quintal, assim pelo
menos teria pra onde correr
quando a aflição batesse.


Vanessa Barbara é colunista da Folha e autora de “O livro amarelo do Terminal” (Cosac Naify) 

A filosofia sacolejante

Posted: 10th novembro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas
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MAN Magazine / Volkswagen
n. 3 – circa dezembro de 2011

por Vanessa Barbara

Pode-se dizer, com segurança, que meu caso de amor com o transporte coletivo não é passageiro – com o perdão do trocadilho. Seu ápice se deu em 2008, quando publiquei O Livro Amarelo do Terminal (CosacNaify), um trabalho jornalístico sobre a Rodoviária do Tietê. Mas esse não foi o início e nem o fim.

Meu relacionamento com os ônibus começou em 1993, aos 11 anos de idade, quando ganhei o direito de andar de ônibus por conta própria. Foi com uma euforia desgovernada que tomei meu primeiro coletivo sozinha, no Terminal Santana, e por algum tempo essa foi a minha principal motivação para frequentar a escola: a promessa de que, na saída, eu viajaria garbosamente num mamute de lata, golpeando os passageiros com minha mochila extravagante e fazendo troça dos imaturos que voltavam de perua ou de carro com os pais. Naquela época, só o que eu almejava era um dia poder erguer o braço e fazer o sinal, posto que eu só sabia subir num ônibus que já se encontrasse parado em seu ponto final. Minha amiga Fabianny já conhecia essa sensação, o que sinceramente me deixava invejosa. Mas Fabianny não perdia por esperar.

Lembro de um domingo à tarde em que eu, minha mãe e o meu irmão fizemos uma viagem absolutamente insólita para a “cidade” (na época, o centro era chamado de “cidade”, como se o subúrbio não fizesse parte da capital), onde supostamente passava um ônibus mítico de dois andares, o “Fofão”. A gente esperou um bocado, e até hoje ele não veio. Outro ônibus que esperei em vão, este por uma manhã inteira, foi um fretado que levaria meu grupo de bandeirantes a Salesópolis, como prêmio por termos coletado um número obsceno de assinaturas em prol de uma campanha para despoluir o rio Tietê. Não só desconheço a nascente até hoje, como o supracitado rio permanece sulfuroso. Fabianny não estava presente, e desconfio que ela tenha tido algo a ver com o boicote.

Aos 16 anos, após meia década de experiência com os ônibus urbanos, arrumei um namorado catarinense. Como, naquela época, viagens de avião eram uma impossibilidade econômica para uma estudante de colegial cujas aspirações turísticas mal englobavam a Praia Grande (quando muito), passei os três anos seguintes fazendo viagens de onze horas de duração em linhas de ônibus convencionais com bancos pouquíssimo ou nada reclináveis.

As partidas aconteciam às oito ou dez da noite, e costumávamos chegar em Florianópolis pela manhã. Eu passava a viagem toda acordada, e era geralmente a única, pois quase todos os passageiros entravam direto no quinto estágio do sono assim que o ônibus deixava o terminal e as luzes se apagavam, me fazendo sentir como aqueles personagens de desenho animado que continuam piscando com os olhos bem abertos, mesmo num breu absoluto. Plic, plic.

Eu levava algumas opções de entretenimento a bordo: um toca-fitas portátil com seleções musicais gravadas em cassetes Basf, um monte de livros e muita comida. O farnel era composto de duas ou três unidades de Toddynho, dois sanduíches naturais de frango e quatro bisnaguinhas como sobremesa, sendo duas de geléia e duas de Io-iô Crem, tudo embalado em sacos plásticos de fecho hermético.

Minhas leituras variavam, mas a que me causou maior impressão foi Histórias extraordinárias, contos de terror de Edgar Allan Poe, que li entre duas e seis da manhã, sozinha na última poltrona, com pausas ocasionais para sucumbir a um ataque cardíaco sempre que alguém resolvia levantar e ir ao banheiro.

Foi isso o que ficou das minhas madrugadas passadas num ônibus indo ou vindo de Santa Catarina: o silêncio, a solidão gélida do ar-condicionado, os vidros embaçados, a vergonha de acender a luz e incomodar alguém, o céu estrelado envolvendo curiosas cidades-fantasma – como Massaranduba, onde uma vez vi dois velhinhos sentados lado a lado num banco de praça, às cinco e meia da manhã de um dia glacial. (Achei que estivesse morta.)

Saindo de São Paulo, à noite, tinha uma sensação das mais esquisitas: olhando através da janela em movimento, sentia inveja daqueles que passeavam pela rua, voltando pra casa ou se preparando para ir dançar, sobretudo aos finais de semana, quando eu me via como prisioneira de um não-lugar, habitante de um limbo temporal, a meio caminho entre uma coisa e outra.

Sempre que entro num ônibus, é a sensação que tenho até hoje: de que a vida é uma passagem silenciosa de um lugar para o outro, onde cabem todas as expectativas, ninguém sabe regular o ar-condicionado e o motorista pode pegar no sono a qualquer momento, embalado pelos roncos sinfônicos dos demais companheiros de trajetória. Todo mundo dorme. Não há outros carros na estrada. Mas, se você tiver sorte, haverá alguém à sua espera no desembarque.

A prioridade prioritária

Posted: 6th novembro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
6 de novembro de 2011

por Vanessa Barbara

Um leitor identificado apenas como “Nunes” sugeriu que acompanhássemos uma sessão ordinária na TV Senado – o pedido foi específico, já que a TV Assembleia costuma deixá-lo nervoso. Algo a ver com a indumentária dos nobres colegas, que usam “terno cor de pensamento de esquilo com camisa verde e gravata dourada. Nas entrevistas com deputados sentados, terno com um só botão fechado e vinte centímetros de meias aparecendo”.

Mal sabia Nunes que esta colunista já fez uma maratona de 24 horas de TV Assembleia para uma revista, e que o ponto alto dessa experiência foi um debate sobre inspeção veicular em que um deputado declarou: “A prioridade mais prioritária exclui a prioridade menos prioritária. Isso é lógico. É elementar”.

Desta vez, foi diferente. A TV Senado é mais sóbria, menos histriônica e possui uma média irrisória de dedos em riste, embora existam figuras recorrentes de grande carisma, como Eduardo Suplicy, e momentos em que o som do microfone é cortado, para desespero do nobre colega de pé na tribuna. As preleções são pródigas em termos pomposos como “celeridade” e “aquiescência”.

Já a TV Câmara é dramática – há ênfase e indignação nos depoimentos e um deputado que, se não me engano, discursa num esquema rítmico shakespeariano semelhante ao pentâmetro iâmbico.

O consumo de água é elevado, bem como a utilização de banda larga para envio de mensagens SMS, sobretudo durante a votação – quando é comum todos darem as costas e se engajarem num animado bate-papo paralelo. Nesta terça-feira pré-feriado, o deputado Romário subiu na tribuna só para tecer loas ao esporte nacional e agradecer à Rede Record por tê-lo contratado como comentarista nos Jogos Pan-Americanos.

Outro parlamentar fez uma defesa inflamada à Associação Nacional dos Produtores de Alho. Um terceiro pediu que os deputados favoráveis a certo projeto permanecessem no lugar a fim de aprová-lo, seguindo ao deferimento do mesmo sem que ninguém precisasse sequer levantar o dedo.

Há reviravoltas, brigas e abotoaduras lustrosas, assim como na TV Assembleia, plena de dedos em riste, discursos empolados e gente que se perde na hora de falar.

É como um esquete do Monty Python, só que não tem graça.

Da caverna à calçada

Posted: 4th novembro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
Especial 35a Mostra de Cinema de São Paulo
4 de novembro de 2011

Marcos Dávila e Vanessa Barbara comentam o que guardar e o que esquecer do festival


Na repescagem, que vençam os mais rápidos nas filas

MARCOS DÁVILA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Sessão das dez
“Raul – O Início, o Fim e o Meio”, dirigido por Walter Carvalho, estreou em duas salas ao mesmo tempo. Só assim para comportar os fãs de Raul Seixas, que já faziam cantoria na fila.

Toca Raul
Um amigo músico definiu bem a sessão da cinebiografia: uma sala para os VIPs e outra para os hippies. Adivinhem em qual eu estava?

Horrorshow
Na saída de uma das exibições da cópia restaurada de “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick, soou a voz da juventude: “Cê acha que eu vou pagar uma bica pra ver francesinho moderno? Eu vou é ver os clássicos”.

Iranianos em extinção
Consegui finalmente puxar um aplauso. Foi em “Isto Não É um Filme”, de Mojtaba Mirtahmasb e Jafar Panahi, presos no Irã. Olhos abertos para os também cineastas iranianos de “Olhando Espelhos” (Negar Azarbayjani), “Cut” (Amir Naderi) e “Um.Dois.Um” (Mania Akbari).

Salve a seleção
Uma cinéfila deu o prêmio “miss simpatia” ao sérvio “Montevidéu – O Sonho da Copa”, que mostra a luta da seleção iugoslava para participar da primeira Copa do Mundo, em 1930, no Uruguai. O filme termina antes do torneio, mas ela não resistiu e foi pesquisar o desempenho dos jovens de Belgrado. Não é que eles desclassificaram nossos canarinhos? E o primeiro gol foi de Tirk, protagonista do longa.

Ainda é tempo
Está dada a largada para a repescagem da Mostra (confira a programação de hoje em quadro abaixo), que segue até a próxima quinta-feira. Prepare-se para chororô e para ranger de dentes nas filas. Que vençam os mais rápidos.


Entre diálogos perspicazes e acepipes salgados no bolso

VANESSA BARBARA
COLUNISTA DA FOLHA

Diálogo
“Qual é o filme que vai passar agora?”
“‘Sindicato de Ladrões’.”
“É brasileiro?”

O mais tolo
Leva esse troféu o longa “Como Começar Seu Próprio País”, de Jody Shapiro, sobre micronações que não estão no mapa, como a Seborga e o Principado de Sealand.

A melhor sinopse
É de “Jimmy Rivière”, de Teddy Lussi-Modeste: “Pressionado pela comunidade, jovem cigano se converte ao pentecostalismo e tem de abandonar seu amor e o boxe tailandês”.

Frase
“Esse negócio de Mostra é de matar o paulistano. Você vai e nunca tem ingresso.”

Inquietante
Numa reviravolta inesperada, os titulares desta coluna não se encontraram nenhuma vez durante o festival. Foi como se participassem do mesmo evento, só que em dimensões diferentes.

Má ideia
Entrei em uma sessão de “Histórias da Insônia”, de Jonas Mekas, com certa antecedência e com um brinquedo musical que comprara para um aniversário -uma tartaruga de plástico com 42 melodias. Quando me sentei, a geringonça disparou. Meus colegas de fileira tentaram tirar a pilha, sem sucesso, e a senhora da legendagem chegou a oferecer uma chave Phillips para resolver a operação.

Melhor acepipe
Nos cafés das salas participantes desta edição da Mostra de Cinema, o salgado custava em média R$ 5 e o pedaço de bolo, R$ 6. O melhor acepipe foi mesmo o de um camelô: o pão de queijo sem queijo, com 0% de lactose, glúten e gordura animal.

Sonecas cinematográficas

Posted: 2nd novembro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
Especial 35a. Mostra de Cinema de São Paulo

2 de novembro de 2001

por Vanessa Barbara

Não sei se alguém reparou, mas a Mostra de Cinema deste ano tinha uma temática soporífera: havia 4 filmes com “sono” no título, isso sem contar os que falam de pesadelos e estado de coma. Ou “aqueles em que, no fim, era tudo um sonho”, observou um cara na fila.

Um exemplo é “A Doença do Sono”, do alemão Ulrich Köhler, sobre um médico que vai estudar a tripanossomíase na África. Destaque para a cena em que um paciente cochila durante o diagnóstico e para a já clássica referência aos hipopótamos – embora o ponto alto seja o ar entorpecido dos personagens.

Também temos “O Homem Que Não Dormia”, do brasileiro Edgard Navarro, um filme com ares de Cinema Novo que se passa num lugarejo no interior da Bahia, onde os moradores têm de lidar com um forasteiro esquisito e com a lenda de um tesouro escondido por um barão desencarnado.

Ninguém dorme no filme, exceto um ou dois espectadores, entediados com o excesso de cenas místicas e escatológicas.

Também ouvi um sonoro ronco em “Histórias da Insônia”, elogiado filme de Jonas Mekas, 88, artista radicado em Nova York que não consegue dormir e sai à cata de coisas bonitas. Há belas cenas (“Ó caracol,/ Escala o Monte Fuji/ Mas devagar, devagar!”), ainda que várias sequências sejam maçantes.

Já o irlandês “O Outro Lado do Sono” não chegou a tempo para a exibição na Mostra. Em seu lugar, entrou “Projeto Nim”, documentário sobre um chimpanzé que agradou até a sonolenta senhora da legendagem – que foi vista cabeceando em várias ocasiões.

Folha de S. Paulo – Ilustrada
Especial 35a. Mostra de Cinema de São Paulo

31 de outubro de 2011

por Vanessa Barbara

Peronsagens da vida real ilustram as letras do cancioneiro brega em "Vou Rifar Meu Coração"

A sala inteira fungava ao término de “As Canções”, documentário de Eduardo Coutinho que estreou quinta-feira no Unibanco Arteplex. No filme, 42 populares cantam uma música de grande valor afetivo, relembrando histórias de amores perdidos, tragédias sentimentais e traições jamais esquecidas.

Foram poucos os que escaparam de sair com os olhos vermelhos, limpando as mágoas na manga.

Pouco antes, também se ouviram soluços em “Vou Rifar Meu Coração”, de Ana Rieper, embora mesclados a risadas histéricas.

O grande momento desse documentário sobre música brega foi o depoimento de Osmar, que se sente desafortunado por ter que administrar duas mulheres e duas famílias, a da “matriz” e a da “filial”. Seus filhos: Osmarilda, Osmarilson, Osmarilsa…

Um filme que não teve recepção tão calorosa foi o russo “Khrustalyov, Meu Carro!”, que ejetou hordas de espectadores insatisfeitos à rua. Um senhor se queixou da escatologia do filme, “cheio de gente arrotando”, e disse que muita gente saiu na metade. “E aparecia carro?”, perguntou uma amiga. “Muitos. Mas o que tinha mais era cena de puteiro, cuspe, gente batendo na cara.”

Mais que isso não pude ouvir, pois atrás de nós materializou-se uma garota pomposa que falava alto e usava termos como “psiquê brasileira”, obliterando com sua sabedoria todas as nossas impressões sobre o bravo Osmarilson.

Mas o melhor comentário se deu no sábado, quando um sujeito explicou à namorada: “No fim, o cara virou hipopótamo. Porque ele estava de saco cheio. Entendeu?”.

Democracia ou cama

Posted: 30th outubro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
30 de outubro de 2011

por Vanessa Barbara 

Quando vi pela primeira vez um controle remoto universal, achei que fosse um místico controlador de todas as tevês da vizinhança. O sujeito se postaria no meio da rua, feito um mago, apertaria o botão de desligar e pronto, acabou a farra da novela para o quarteirão inteiro.

Lembro de um vizinho que, maravilhado, mudava de canal na sala e dava um passo pra trás, alcançava o corredor, abria a porta e se postava no meio do quintal, na esperança de ver até onde a feitiçaria podia ir.

Isso era mais divertido em dias de jogo do Brasil, quando tentávamos desligar alguma tevê a distância, trepados no portão alheio, só pra ouvir um sapato voando e um berro de desespero lancinante.

Eu mesma devo ter subido no telhado para tentar mudar sorrateiramente de canal as tevês de um edifício próximo, e na minha cabeça acho que consegui.

Naquela época, além da mística coletiva do controle universal, era comum que as casas tivessem um só aparelho para a família inteira.

Ele se localizava na sala (não existia esse disparate de TV na cozinha, na lavanderia, no banheiro) e era disputado a tapas nos dias mais críticos.

O chefe da família, invariavelmente corinthiano, detinha o mando do controle nos dias de clássico. A dona da casa não abria mão da novela, os avós achavam graça em cochilar na sessão da tarde e os filhos eram contemplados seguindo a ordem de idade – o mais novo, recém-apresentado às teorias de Habermas e da Escola de Frankfurt, dizia que a tevê era o ópio das massas, mas assistia com o canto do olho as videocassetadas do Faustão enquanto fingia ler um texto em xerox.

Havia democracia naquele tempo – quem quer assistir o Jô Soares levanta a mão – e os perdedores que tratassem de ir para a cama mais cedo. Vigorava uma lei tácita de prioridade (era de quem pagou a tevê), e vez ou outra valia a lógica do “sentei primeiro” ou “cheguei antes”.

No final, ninguém saía ganhando porque acabava a luz sem motivo ou uma ventania derrubava a antena, e o jeito era fazer palavras cruzadas. No meio da rua, o vizinho tentava ler mentes com o controle remoto universal.

Hoje cada um da família tem a sua tevê, ainda que estejam todas sintonizadas na mesma reprise de “Zorra Total”.

Análise combinatória

Posted: 29th outubro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
Especial 35a. Mostra de Cinema

29 de outubro de 2011

por Vanessa Barbara

Se existe uma qualidade indispensável ao frequentador da Mostra de Cinema não é, ao contrário do que se pensa, saber tudo sobre diretores obscuros ou dominar técnicas de enquadramento e corte. Na verdade, pouco se fala de cinema nos corredores, filas e calçadas da 35a. Mostra; pouco se fala, pois o foco é outro: dedicar-se à ciência da análise combinatória, ou gestão estratégica de calendário aplicada à programação do evento.

É o que se vê nos cafés do entorno: dezenas de cinéfilos com o guia na mão, caneta na boca e um papel rabiscado, concentradíssimos em resolver equações matemáticas complexas, com quatro ou cinco variáveis: será que vai dar tempo de pegar o filme grego “Attenberg” às quatro no Cinusp e chegar no horário de “Girimunho”, às 18h40 no Olido? E se cancelarem o chinês, vale a pena correr para entrar em “Hanezu” ou compensa esperar aquele dos hipopótamos?

A comoção aumenta diante do aviso de “filme substituído”, “projeção cancelada” ou “lotação esgotada”. Aí é um tal de apoiar no balcão e riscar, matutar, folhear e eleger um filme da lista reserva de “interesses levianos”, como explicou um senhor desiludido. Já uma garota, impávida, tentou viabilizar o plano C, depois de terem cancelado suas primeiras escolhas. “Por isso estou nessa conta miserável!”, desabafa.

Os mais ambiciosos traçam gráficos e tentam encaixar a aula de ioga nos intervalos e o curso de francês das terças e quintas, mas é tão difícil quanto resolver um quilômetro inteiro de quadradinhos de Sudoku.