A prioridade prioritária

Posted: 6th novembro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
6 de novembro de 2011

por Vanessa Barbara

Um leitor identificado apenas como “Nunes” sugeriu que acompanhássemos uma sessão ordinária na TV Senado – o pedido foi específico, já que a TV Assembleia costuma deixá-lo nervoso. Algo a ver com a indumentária dos nobres colegas, que usam “terno cor de pensamento de esquilo com camisa verde e gravata dourada. Nas entrevistas com deputados sentados, terno com um só botão fechado e vinte centímetros de meias aparecendo”.

Mal sabia Nunes que esta colunista já fez uma maratona de 24 horas de TV Assembleia para uma revista, e que o ponto alto dessa experiência foi um debate sobre inspeção veicular em que um deputado declarou: “A prioridade mais prioritária exclui a prioridade menos prioritária. Isso é lógico. É elementar”.

Desta vez, foi diferente. A TV Senado é mais sóbria, menos histriônica e possui uma média irrisória de dedos em riste, embora existam figuras recorrentes de grande carisma, como Eduardo Suplicy, e momentos em que o som do microfone é cortado, para desespero do nobre colega de pé na tribuna. As preleções são pródigas em termos pomposos como “celeridade” e “aquiescência”.

Já a TV Câmara é dramática – há ênfase e indignação nos depoimentos e um deputado que, se não me engano, discursa num esquema rítmico shakespeariano semelhante ao pentâmetro iâmbico.

O consumo de água é elevado, bem como a utilização de banda larga para envio de mensagens SMS, sobretudo durante a votação – quando é comum todos darem as costas e se engajarem num animado bate-papo paralelo. Nesta terça-feira pré-feriado, o deputado Romário subiu na tribuna só para tecer loas ao esporte nacional e agradecer à Rede Record por tê-lo contratado como comentarista nos Jogos Pan-Americanos.

Outro parlamentar fez uma defesa inflamada à Associação Nacional dos Produtores de Alho. Um terceiro pediu que os deputados favoráveis a certo projeto permanecessem no lugar a fim de aprová-lo, seguindo ao deferimento do mesmo sem que ninguém precisasse sequer levantar o dedo.

Há reviravoltas, brigas e abotoaduras lustrosas, assim como na TV Assembleia, plena de dedos em riste, discursos empolados e gente que se perde na hora de falar.

É como um esquete do Monty Python, só que não tem graça.

Da caverna à calçada

Posted: 4th novembro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
Especial 35a Mostra de Cinema de São Paulo
4 de novembro de 2011

Marcos Dávila e Vanessa Barbara comentam o que guardar e o que esquecer do festival


Na repescagem, que vençam os mais rápidos nas filas

MARCOS DÁVILA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Sessão das dez
“Raul – O Início, o Fim e o Meio”, dirigido por Walter Carvalho, estreou em duas salas ao mesmo tempo. Só assim para comportar os fãs de Raul Seixas, que já faziam cantoria na fila.

Toca Raul
Um amigo músico definiu bem a sessão da cinebiografia: uma sala para os VIPs e outra para os hippies. Adivinhem em qual eu estava?

Horrorshow
Na saída de uma das exibições da cópia restaurada de “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick, soou a voz da juventude: “Cê acha que eu vou pagar uma bica pra ver francesinho moderno? Eu vou é ver os clássicos”.

Iranianos em extinção
Consegui finalmente puxar um aplauso. Foi em “Isto Não É um Filme”, de Mojtaba Mirtahmasb e Jafar Panahi, presos no Irã. Olhos abertos para os também cineastas iranianos de “Olhando Espelhos” (Negar Azarbayjani), “Cut” (Amir Naderi) e “Um.Dois.Um” (Mania Akbari).

Salve a seleção
Uma cinéfila deu o prêmio “miss simpatia” ao sérvio “Montevidéu – O Sonho da Copa”, que mostra a luta da seleção iugoslava para participar da primeira Copa do Mundo, em 1930, no Uruguai. O filme termina antes do torneio, mas ela não resistiu e foi pesquisar o desempenho dos jovens de Belgrado. Não é que eles desclassificaram nossos canarinhos? E o primeiro gol foi de Tirk, protagonista do longa.

Ainda é tempo
Está dada a largada para a repescagem da Mostra (confira a programação de hoje em quadro abaixo), que segue até a próxima quinta-feira. Prepare-se para chororô e para ranger de dentes nas filas. Que vençam os mais rápidos.


Entre diálogos perspicazes e acepipes salgados no bolso

VANESSA BARBARA
COLUNISTA DA FOLHA

Diálogo
“Qual é o filme que vai passar agora?”
“‘Sindicato de Ladrões’.”
“É brasileiro?”

O mais tolo
Leva esse troféu o longa “Como Começar Seu Próprio País”, de Jody Shapiro, sobre micronações que não estão no mapa, como a Seborga e o Principado de Sealand.

A melhor sinopse
É de “Jimmy Rivière”, de Teddy Lussi-Modeste: “Pressionado pela comunidade, jovem cigano se converte ao pentecostalismo e tem de abandonar seu amor e o boxe tailandês”.

Frase
“Esse negócio de Mostra é de matar o paulistano. Você vai e nunca tem ingresso.”

Inquietante
Numa reviravolta inesperada, os titulares desta coluna não se encontraram nenhuma vez durante o festival. Foi como se participassem do mesmo evento, só que em dimensões diferentes.

Má ideia
Entrei em uma sessão de “Histórias da Insônia”, de Jonas Mekas, com certa antecedência e com um brinquedo musical que comprara para um aniversário -uma tartaruga de plástico com 42 melodias. Quando me sentei, a geringonça disparou. Meus colegas de fileira tentaram tirar a pilha, sem sucesso, e a senhora da legendagem chegou a oferecer uma chave Phillips para resolver a operação.

Melhor acepipe
Nos cafés das salas participantes desta edição da Mostra de Cinema, o salgado custava em média R$ 5 e o pedaço de bolo, R$ 6. O melhor acepipe foi mesmo o de um camelô: o pão de queijo sem queijo, com 0% de lactose, glúten e gordura animal.

Sonecas cinematográficas

Posted: 2nd novembro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
Especial 35a. Mostra de Cinema de São Paulo

2 de novembro de 2001

por Vanessa Barbara

Não sei se alguém reparou, mas a Mostra de Cinema deste ano tinha uma temática soporífera: havia 4 filmes com “sono” no título, isso sem contar os que falam de pesadelos e estado de coma. Ou “aqueles em que, no fim, era tudo um sonho”, observou um cara na fila.

Um exemplo é “A Doença do Sono”, do alemão Ulrich Köhler, sobre um médico que vai estudar a tripanossomíase na África. Destaque para a cena em que um paciente cochila durante o diagnóstico e para a já clássica referência aos hipopótamos – embora o ponto alto seja o ar entorpecido dos personagens.

Também temos “O Homem Que Não Dormia”, do brasileiro Edgard Navarro, um filme com ares de Cinema Novo que se passa num lugarejo no interior da Bahia, onde os moradores têm de lidar com um forasteiro esquisito e com a lenda de um tesouro escondido por um barão desencarnado.

Ninguém dorme no filme, exceto um ou dois espectadores, entediados com o excesso de cenas místicas e escatológicas.

Também ouvi um sonoro ronco em “Histórias da Insônia”, elogiado filme de Jonas Mekas, 88, artista radicado em Nova York que não consegue dormir e sai à cata de coisas bonitas. Há belas cenas (“Ó caracol,/ Escala o Monte Fuji/ Mas devagar, devagar!”), ainda que várias sequências sejam maçantes.

Já o irlandês “O Outro Lado do Sono” não chegou a tempo para a exibição na Mostra. Em seu lugar, entrou “Projeto Nim”, documentário sobre um chimpanzé que agradou até a sonolenta senhora da legendagem – que foi vista cabeceando em várias ocasiões.

Folha de S. Paulo – Ilustrada
Especial 35a. Mostra de Cinema de São Paulo

31 de outubro de 2011

por Vanessa Barbara

Peronsagens da vida real ilustram as letras do cancioneiro brega em "Vou Rifar Meu Coração"

A sala inteira fungava ao término de “As Canções”, documentário de Eduardo Coutinho que estreou quinta-feira no Unibanco Arteplex. No filme, 42 populares cantam uma música de grande valor afetivo, relembrando histórias de amores perdidos, tragédias sentimentais e traições jamais esquecidas.

Foram poucos os que escaparam de sair com os olhos vermelhos, limpando as mágoas na manga.

Pouco antes, também se ouviram soluços em “Vou Rifar Meu Coração”, de Ana Rieper, embora mesclados a risadas histéricas.

O grande momento desse documentário sobre música brega foi o depoimento de Osmar, que se sente desafortunado por ter que administrar duas mulheres e duas famílias, a da “matriz” e a da “filial”. Seus filhos: Osmarilda, Osmarilson, Osmarilsa…

Um filme que não teve recepção tão calorosa foi o russo “Khrustalyov, Meu Carro!”, que ejetou hordas de espectadores insatisfeitos à rua. Um senhor se queixou da escatologia do filme, “cheio de gente arrotando”, e disse que muita gente saiu na metade. “E aparecia carro?”, perguntou uma amiga. “Muitos. Mas o que tinha mais era cena de puteiro, cuspe, gente batendo na cara.”

Mais que isso não pude ouvir, pois atrás de nós materializou-se uma garota pomposa que falava alto e usava termos como “psiquê brasileira”, obliterando com sua sabedoria todas as nossas impressões sobre o bravo Osmarilson.

Mas o melhor comentário se deu no sábado, quando um sujeito explicou à namorada: “No fim, o cara virou hipopótamo. Porque ele estava de saco cheio. Entendeu?”.

Democracia ou cama

Posted: 30th outubro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
30 de outubro de 2011

por Vanessa Barbara 

Quando vi pela primeira vez um controle remoto universal, achei que fosse um místico controlador de todas as tevês da vizinhança. O sujeito se postaria no meio da rua, feito um mago, apertaria o botão de desligar e pronto, acabou a farra da novela para o quarteirão inteiro.

Lembro de um vizinho que, maravilhado, mudava de canal na sala e dava um passo pra trás, alcançava o corredor, abria a porta e se postava no meio do quintal, na esperança de ver até onde a feitiçaria podia ir.

Isso era mais divertido em dias de jogo do Brasil, quando tentávamos desligar alguma tevê a distância, trepados no portão alheio, só pra ouvir um sapato voando e um berro de desespero lancinante.

Eu mesma devo ter subido no telhado para tentar mudar sorrateiramente de canal as tevês de um edifício próximo, e na minha cabeça acho que consegui.

Naquela época, além da mística coletiva do controle universal, era comum que as casas tivessem um só aparelho para a família inteira.

Ele se localizava na sala (não existia esse disparate de TV na cozinha, na lavanderia, no banheiro) e era disputado a tapas nos dias mais críticos.

O chefe da família, invariavelmente corinthiano, detinha o mando do controle nos dias de clássico. A dona da casa não abria mão da novela, os avós achavam graça em cochilar na sessão da tarde e os filhos eram contemplados seguindo a ordem de idade – o mais novo, recém-apresentado às teorias de Habermas e da Escola de Frankfurt, dizia que a tevê era o ópio das massas, mas assistia com o canto do olho as videocassetadas do Faustão enquanto fingia ler um texto em xerox.

Havia democracia naquele tempo – quem quer assistir o Jô Soares levanta a mão – e os perdedores que tratassem de ir para a cama mais cedo. Vigorava uma lei tácita de prioridade (era de quem pagou a tevê), e vez ou outra valia a lógica do “sentei primeiro” ou “cheguei antes”.

No final, ninguém saía ganhando porque acabava a luz sem motivo ou uma ventania derrubava a antena, e o jeito era fazer palavras cruzadas. No meio da rua, o vizinho tentava ler mentes com o controle remoto universal.

Hoje cada um da família tem a sua tevê, ainda que estejam todas sintonizadas na mesma reprise de “Zorra Total”.

Análise combinatória

Posted: 29th outubro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo
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Especial 35a. Mostra de Cinema

29 de outubro de 2011

por Vanessa Barbara

Se existe uma qualidade indispensável ao frequentador da Mostra de Cinema não é, ao contrário do que se pensa, saber tudo sobre diretores obscuros ou dominar técnicas de enquadramento e corte. Na verdade, pouco se fala de cinema nos corredores, filas e calçadas da 35a. Mostra; pouco se fala, pois o foco é outro: dedicar-se à ciência da análise combinatória, ou gestão estratégica de calendário aplicada à programação do evento.

É o que se vê nos cafés do entorno: dezenas de cinéfilos com o guia na mão, caneta na boca e um papel rabiscado, concentradíssimos em resolver equações matemáticas complexas, com quatro ou cinco variáveis: será que vai dar tempo de pegar o filme grego “Attenberg” às quatro no Cinusp e chegar no horário de “Girimunho”, às 18h40 no Olido? E se cancelarem o chinês, vale a pena correr para entrar em “Hanezu” ou compensa esperar aquele dos hipopótamos?

A comoção aumenta diante do aviso de “filme substituído”, “projeção cancelada” ou “lotação esgotada”. Aí é um tal de apoiar no balcão e riscar, matutar, folhear e eleger um filme da lista reserva de “interesses levianos”, como explicou um senhor desiludido. Já uma garota, impávida, tentou viabilizar o plano C, depois de terem cancelado suas primeiras escolhas. “Por isso estou nessa conta miserável!”, desabafa.

Os mais ambiciosos traçam gráficos e tentam encaixar a aula de ioga nos intervalos e o curso de francês das terças e quintas, mas é tão difícil quanto resolver um quilômetro inteiro de quadradinhos de Sudoku.

Maratona é isso aí

Posted: 27th outubro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo
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Especial 35a. Mostra de Cinema

27 de outubro de 2011

por Vanessa Barbara

Na tarde de segunda-feira, sob um calor de 30 graus, esta peregrina que vos escreve percorreu 5,2 km de cinema em cinema, numa árdua busca por um filme da Mostra que estivesse disponível.

Fiquei com “Sindicato de Ladrões”, clássico de Elia Kazan, que, se não é exatamente uma novidade, ao menos é garantia de que não teremos surpresas desagradáveis como um frango gigante que surge na tela e tira o protagonista para dançar.

Assim como a vida, a Mostra de Cinema é feita de planos B. A gente não consegue aquilo que quer, mas acaba se virando com o que sobra.

Minha intenção original era assistir o belga “O Garoto da Bicicleta”, no Reserva Cultural, às 21h50. Não passava das três da tarde quando cheguei à bilheteria e dei de cara com o aviso: “Lotação esgotada”. Ao que parece, o guichê abriu ao meio-dia e em vinte minutos já não havia lugares.

Tentando aparentar indiferença diante do colapso dos meus planos, trotei para a Central da Mostra, no Conjunto Nacional, onde sem dúvida conseguiria agendar os filmes do resto da semana. Nada feito. Seria preciso apresentar uma credencial, uma arma ou uma autorização por escrito de um dos irmãos Dardenne.

Saí em desabalada carreira rumo ao Cinesesc, onde ao menos pude garantir meu lugar em “Sindicato”. Intrépida, ainda corri para o Shopping Frei Caneca na esperança de ver “Pater”, às 18h. Surpresa: a projeção fora cancelada e substituída por outro filme. Toca voltar para o Cinesesc.

E depois dizem que cinéfilo é sedentário.

Romaria dramática

Posted: 25th outubro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo
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Especial 35a. Mostra de Cinema

25 de outubro de 2011

por Vanessa Barbara

No sábado à tarde, uma procissão de intelectuais trilhou o caminho entre o Conjunto Nacional e o Espaço Unibanco da rua Augusta. Eram órfãos do longa turco “Era uma vez na Anatólia”, um dos destaques da Mostra, cujos ingressos para a sessão noturna haviam se esgotado.

Alguns seguiram para o Cinesesc, onde, dizia-se, ainda havia lugares para ver “Sobre futebol e barreiras”. Os mais audazes foram ao Unibanco tentar a sorte com “A ilusão cômica”, do francês Amalric – impressionante adaptação de uma peça de Corneille em que um pai acompanha a vida do filho que fugiu de casa.

Houve certa confusão do público diante do original em francês com legendas embutidas em inglês e dessincronizadas em português. “Quem é que matou? Foi o narigudo?”, cochicharam.

A perplexidade foi tamanha que, ao fim da projeção, ouvi um único comentário: “Ai, perdi o meu porta-moedas… onde é que foi parar?”.

Esse mesmo sujeito, confrontado com o caudaloso guia da mostra, chegou a desabafar: “É tanto filme que não dá nem pra escolher… Então melhor não ver nenhum”.

Exaustos, os que ficaram sem ingresso encontraram alento numa banca de DVDs nas imediações, que vendia cópias piratas dos próprios filmes da mostra. A seção dos clássicos era administrada por um cinéfilo flautista e mágico amador.

“Do Fellini eu tenho estes”, explicou. “Mas, se você gostou daquele, vale a pena ver o do Anthony Quinn, que segue essa mesma linha de intensidade dramática.”

Excentricidade britânica

Posted: 23rd outubro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
23 de outubro de 2011

por Vanessa Barbara

Ilustração: Águeda Horn

A TV inglesa tem dessas coisas: você está zapeando sem esperanças e cai numa ópera de Berlioz dirigida por Terry Gilliam (ex-Monty Python e diretor de “Brazil, o Filme”).

Eufórico pela oportunidade, sai caçando uma emissora que exiba um episódio de “Doctor Who” ou “The Office”, mas acaba encontrando um talk show com o tema: “Meu filho gosta de inalar gás butano, e já faz 30 anos”.

Trata-se de uma grade de opções bastante perturbadora. A mesma BBC4 que transmitiu “A Danação de Fausto”, de Gilliam, e um episódio do “Wallander” sueco (resenhado na coluna de 30 de janeiro), veicula um documentário sonífero sobre a porcelana e um “Top of The Pops” com a banda Abba.

Das emissoras públicas britânicas, a BBC1 tem o apelo das massas. Mostra partidas de futebol, noticiários, programas de variedades e novelas como “EastEnders”. Títulos consagrados como “Planet Earth” também figuram na grade.

Já a BBC2 é mais erudita, com atrações nas áreas de arte, dramaturgia e política. É onde encontramos “Mixed Britannia”, um documentário de três partes sobre a miscigenação racial no Reino Unido.

No mesmo dia, pode-se aprender a plantar ervilhas num programa de jardinagem, assistir a um filme antigo com o Fred Astaire e conhecer os escritores mais cotados para o Booker Prize.

A BBC3 tem conteúdo jovem – séries e reality shows são o seu forte. A novidade é “Up for Hire”, um programa interativo em que jovens arrumam o primeiro emprego, sob as bênçãos da televisão estatal.

A cosmopolita BBC4 exibe uma mistura de documentários de arte ou ciência, séries antigas, peças de teatro, reprises e produções estrangeiras, como o original dinamarquês de “The Killing” (comentado na coluna de 24 de julho).

As duas primeiras BBCs são abertas e rivalizam com outros três canais comerciais: a ITV, o Channel 4 e o 5. Há outras emissoras fechadas, por exemplo a E4, onde no último domingo assisti a um episódio do instigante “How to Look Good Naked” (Como parecer bem estando nu).

Na referida atração, duas gêmeas britânicas e rechonchudas aprendem a amar seus corpos, posam peladas numa vitrine de Oxford Street e penduram suas calcinhas de zebra num varal em plena Trafalgar Square.

Insalubridade literária

Posted: 18th outubro 2011 by Vanessa Barbara in Blog da Cia. das Letras, Crônicas
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Blog da Companhia das Letras
18 de outubro de 2011, 11:00 am

Por Vanessa Barbara 

Chega o momento em que é preciso sentar e dizer grandes verdades, e aqui vai uma delas: antes de trabalhar como preparadora de originais para a Companhia das Letras, nos longínquos idos de 2004, fui revisora de um site de fofocas de celebridades.

É dessas coisas que fazemos por necessidade — o salário era bom, eu não tinha outra alternativa, queria juntar dinheiro para viajar e, acima de tudo, podia trabalhar em casa e tirar cochilos durante o expediente. Também me era permitido lavar o cabelo na pia enquanto revisava uma notícia qualquer sobre uma atriz que tirou meleca do nariz em horário nobre.

Tudo isso me serviu para fortalecer o espírito diante das adversidades, além de ser um bom exercício de transcendência da concretude existencial — como fazem os prisioneiros de guerra que inventam um outro mundo para poder suportar o verdadeiro. O estômago e a boa-fé literária necessários para lidar com uma notícia absolutamente sem interesse, corrigindo toneladas de erros gramaticais e reescrevendo frases inteiras sem concordância em poucos minutos, “antes que o Gugu carregue a notícia para ler no ar”, tudo isso moldou o meu caráter e me preparou para o glamoroso mundo editorial.

São de minha lavra, é claro, manchetes como “Nicole Kidman é salva por garçom astuto”, “Covinha de Ricky Martin faz sucesso na Alemanha”, “Peças íntimas de Michael Jackson são usadas pela polícia” e “Gatuno rouba peruca de Jennifer Lopez”.

Sobre a polêmica manchete “Julio Iglesias tira o sapato em cadeia nacional”, confesso que devo ter enriquecido a narrativa com uma declaração do próprio assim traduzida: “Meus dedões, acho-os desproporcionais”. Na entrevista, o cantor revela toda a sua insegurança podal a uma apresentadora cada vez mais constrangida, numa cena que infelizmente só se passou na minha cabeça. Na sequência, Iglesias questiona a proporção áurea do corpo humano, conforme concepção difundida pelos gregos, indagando à plateia se os seus pés deveriam ter mesmo um terço do tamanho do antebraço menos dois.

Outras notícias não passavam daquilo a que se propunham nos títulos, como “Léo Áquilla faz alongamento nos cabelos”, e, portanto, eu apelava para os advérbios, mesóclises, sujeitos ocultos e adjuntos adnominais, na tênue esperança de que o leitor pudesse ao menos sair dali com a vaga impressão de ter lido alguma coisa escrita pelo Olavo Bilac.

Mas não aguentei muitos meses, pois precisaria de um bônus adicional de insalubridade, redução das horas semanais de labuta e férias trimestrais em praias desertas para poder resetar o cérebro depois de tamanha exposição ao maligno. No campo das sequelas de trabalho, além da chamada Lesão por Tortura Repetitiva, sofro até hoje de estresse pós-traumático de Páscoa, que foi quando as celebridades de todas as novelas, peças globais e reality shows deram entrevistas dizendo com quem iam passar o feriado, quantos chocolates iriam deglutir e o número exato de coelhinhos alvos que pretendiam oferecer para a imolação em um sacrifício pagão patrocinado pelo site.

Também me lembro de acompanhar toda a primeira infância da princesa Sasha, o surto filantrópico dos assessores de imprensa da Karina Bacchi e de acordar todos os dias com uma “pérola de otimismo” para revisar — pensando, evidentemente, em como são felizes os que não nasceram.

Pouco antes de pedir demissão por esgotamento mental, fiz questão de redigir minha própria notícia de despedida com base num release qualquer. Ficou assim:

* * * * * 

Moscas gigantes roem celebridades em coquetel de lançamento

Na última sexta-feira, dia 19, personalidades globais reuniram-se para abrilhantar o coquetel de lançamento do longa-metragem Desta vez não será ridículo, estrelado por grandes artistas do cinema tupiniquim. Estiveram presentes os novos-ricos Fifi Guimarães, Otavinho “Dudu” Mascarenhas, Carol Ann Figueiredo e Posêidon (novo nome de Patti Vasconcellos, segundo aconselhamento do numerologista/quiroprata da família).

Na festa, famosos e emergentes divertiram-se a valer na maior piscina de bolinhas da América Latina e garantiram que, desta vez, não será ridículo. “Não será ridículo”, declarou Fifi, ofuscando os fotógrafos com seu mais recente branqueamento dental. O destaque do evento ficou para a pequena Apnéia, filha de Regininha Ula-Ula e Otavinho “Dudu” Mascarenhas (ou Juju Marcondes, ou ambos). A adocicada criança dançou ao som do hit “Intestino grosso” e lançou uma torta-merengue de limão na testa do autor da novela E eu com isso, para delírio dos fãs. Outro momento de comoção e espiritualidade ocorreu quando a modelo-atriz-jornalista-e-escritora Tata Lombardi engoliu uma bolinha e teve de ser socorrida às pressas pelo galã Neco Astolf III, que interpreta um paramédico na novela das oito.

Quando o final da festa já se aproximava e o sr. Palhares, da manutenção, começava a empilhar cadeiras e varrer o pé das celebridades, os atores tiveram uma grande ideia — decidiram se abraçar e cantar, em uníssono, o hino da Guiné-Bissau. Os jornalistas se alvoroçaram e choraram copiosamente, acotovelando-se com afeto. Na saída, todos ganharam lembrancinhas de marzipã confeccionadas pela estilista-top-produtora-atriz-e-acompanhante-de-idosos Alicinha Gomide, que vestia um modelito superdecotado nas cores verde, verde-musgo e verde-calção.

Só então as celebridades foram brutalmente atacadas por um enxame de moscas mutantes, pegajosas e autolimpantes — que só queriam a garantia de que não fosse, mais uma vez, ridículo.


Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.