Retratação

Posted: 29th maio 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Vários leitores escreveram com tochas e tridentes em repúdio à coluna de 22/5/11 sobre o “Profissão Repórter”, um programa tão útil quanto um bolso de pijama.

“Como um assíduo usuário de pijamas, achei um pouco ofensiva a comparação. No frio de Florianópolis, o bolso de pijama serve para esquentar a mão que não está segurando o controle remoto. O mesmo não pode ser dito deste programa ‘jornalístico’”, afirma o leitor Ricardo Selke, soltando fúria pelas ventas.

Meu próprio avô me censurou duramente. Ora, todos sabem que o bolso do pijama serve para abrigar o rádio de pilha, o IPod ou o próprio controle remoto, numa incursão emergencial à cozinha.

Resumindo, ele é necessário “pra você ter onde guardar suas coisas quando passa o dia inteiro de pijama”, defende a inflamada Diana Passy. “Seria muito mais fácil se eu pudesse guardar meu IPhone no bolso, em vez de ter que equilibrá-lo entre um copo de suco e um prato com caqui, enquanto eu subo as escadas.”

O bolso de pijama supre parcialmente uma demanda ainda premente, que dispõe sobre o pouso temporário de controles remotos durante um filme de mais de 3 horas, digamos, Ben-Hur (1959, William Wyler).

Aqui em casa, temos o controle da TV, o dos canais a cabo, o do Blu-Ray, o do VHS e o do DVD. Dependendo do que estamos assistindo, é preciso deixar à mão dois ou três controles, que fatalmente serão engolfados pelas dobras do sofá, pelas almofadas ou por um vórtice paralelo localizado em algum canto da sala, para onde convergem os isqueiros e as tartarugas.

Existem caixas do tipo “porta-controles”, que são de pouquíssima ou nenhuma valia. O ideal mesmo seria ter um sistema de fios presos ao teto por ventosas, de onde penderiam os controles, na altura do ocupante do sofá. Quando em desuso, grudaríamos os aparelhos à parede com velcro.

Assim eles ficariam ao alcance e não haveria chance de sentarmos em cima, mudando de canal bem na hora em que o Charlton Heston baba na túnica ou quando surge em cena uma gloriosa plataforma de aço galvanizado, pouco antes do momento das corridas.

De modo que peço desculpas publicamente se ofendi os designers de pijama e os bolsos em si. Prometo ser menos leviana.

Bolso de pijama

Posted: 22nd maio 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Recentemente, o Tribunal de Justiça de São Paulo negou uma liminar ao advogado Marcelo Delmanto Bouchabki, que pretendia vetar a exibição de um episódio do programa “Profissão Repórter” (Globo, ter., 23h30) sobre o chamado “Crime da Rua Cuba”.

A matéria gerou expectativa até finalmente ser veiculada, no dia 17.

O programa inteiro durou uns 25 minutos. Os temas foram o Crime da Rua Cuba e o trabalho da perícia forense no Recife e em São Paulo, numa colagem de três assuntos supostamente complementares que, na verdade, se sucediam em flashes, sem que nada fosse abordado de fato.

Ainda que a atração seja produzida por jovens aspirantes, o problema é o esforço em parecer gente grande – repetindo uma fórmula batida sem nem sequer disfarçar.

A receita começa com uma afirmação bombástica e a promessa de que muitos segredos serão revelados, em tempo real, com a ajuda de câmeras escondidas e intrépidos estagiários correndo atrás de gente com fotofobia.
Alguém comenta sobre a importância do trabalho do jornalista, desfia uns adjetivos e corta para um caso real, como o homicídio de um jovem na capital pernambucana. A repórter, imbuída de boas intenções, espeta o microfone no rosto do pai da vítima, que chora junto ao cadáver e ainda tem que fazer uma declaração qualquer.

A matéria da rua Cuba teve início, claro, na rua Cuba, com a dupla de jornalistas tocando a campainha da atual proprietária da casa onde ocorreu o crime e tentando convencê-la a abrir a porta. À guisa de justificativa, alegam que é importante insistir, como se estivéssemos falando de uma arriscada cirurgia cardíaca – e não de repórteres alvoroçados em busca de revelações estrondosas e tão necessárias quanto um bolso de pijama.

Permeado por cenas fortuitas de crimes em Recife e São Paulo, o miolo da edição consistiu em conversas telefônicas com o principal suspeito – 22 anos depois –, sob o pretexto de dar a ele uma oportunidade de se expressar.

E terminou com closes do documento da Justiça em favor do programa (as partes mais buliçosas realçadas e ampliadas), a fim de mostrar como eles são importantes, temidos e sérios. Olha, mãe, sou eu na tevê.

A questão das estantes

Posted: 19th maio 2011 by Vanessa Barbara in Blog da Cia. das Letras, Crônicas
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Blog da Companhia das Letras
3 maio 2011, 10:36 am

Por Vanessa Barbara

Sem querer desmerecer assuntos de interesse mais amplo, como o aquecimento global, a expansão inevitável do Universo, o fato de nascermos e morrermos sozinhos e a falta generalizada de sentido na vida, há que se refletir sobre um problema pouco discutido que atinge dez entre dez leitores destituídos do sobrenome Mindlin: a questão das estantes. É certo que o tópico perdeu parte de sua relevância com a popularização dostablets,* mas não se pode negar que a falta de espaço para os livros continua a aterrorizar os patrícios, moradores de apartamentos com apenas dois dígitos de metros quadrados, e por vezes nem tão quadrados assim — há quinas arredondadas que prejudicam ainda mais a catalogação e organização dos itens domésticos.

É algo que ninguém leva em consideração ao desposar um editor da Companhia das Letras, mas que devia constar do contrato pré-nupcial: como conciliar duas bibliotecas ambiciosas e prever um espaço extra para acomodar cerca de 25 lançamentos por mês, sendo que só em abril tivemos uma biografia do Borges com 672 páginas, um romance de Martin Amis com 528, um estudo sobre Rousseau de 600 e uma brochura sobre matemática de três centímetros de espessura, num total inacreditável de 7.628 páginas impressas. Em termos de espaço, são mais de 45 centímetros a serem liberados nas prateleiras. Isso sem contar as coletâneas do Don Martin e do Sherlock Holmes que chegam pelo correio, como se fôssemos um casal de latifundiários das estantes, sócios acionistas da Tok&Stok, zeladores da Biblioteca Nacional.

Diante desse impasse imemorial, muita gente cai em desespero e toma medidas drásticas. O casal de tradutores-professores Caetano Galindo e Sandra Stroparo deixou de ler o romance 2666, de Roberto Bolaño, simplesmente porque não cabia dentro da casa. Embora eles tenham recorrido a novas prateleiras instaladas no quarto de dormir, bem em cima da cama, ela admite que o esquema não vai durar muito: “Há duas semanas comprei o livro do Huizinga. Veja só. Eu não presto mesmo.”

O também tradutor Alexandre Barbosa de Souza é outra vítima do excesso de livros numa escassez de paredes. Após render-se à incômoda lógica da fila dupla — e até tripla, relegando a maioria dos livros ao ostracismo tátil e visual —, ele encontrou um jeito de se ater à fila única. Decidiu fixar um número médio entre 1.500 e 2 mil volumes (já chegou a ter 4 mil), que mantém através de um espartano sistema de “entra um e sai outro”. Por exemplo: um lançamento do Gay Talese só encontraria lugar na biblioteca se um Lehane ou um Nabokov saísse. “Mas há critérios”, ele expõe, gravemente. “Uma Aguilar ou Pléiade, por exemplo, exclui os volumes avulsos do autor; em suma, uma edição mais completa substitui uma mais singela. Mas, claro, tenho coisas que nunca sairão em novas edições e a maioria dos meus livros vem de sebo mesmo.”

* * * * *

Talvez com a maturidade venha a coragem de adotar o sistema de exclusão, mas por enquanto o que vigora aqui em casa é o Deus-nos-acuda. Toda vez que chega uma leva de lançamentos — as caixas heroicamente trazidas com a ajuda de gente de fibra como o Arthur, do atendimento ao professor —, há uma operação de estica-e-empurra que demora alguns dias.

Depois de muita deliberação, decidimos adotar um sistema peculiar e duvidoso. Aproveitamos as estantes de ferro que já ocupavam as paredes do escritório para eleger nelas a chamada “Estante A”, só com títulos de autores de estirpe, as obras de que mais gostamos ou que, por algum motivo, consultamos e relemos com mais frequência. Ali se encontra a seção Marx (Groucho e Karl), os ficcionistas de nossa predileção e os dicionários.

Junto ao teto do escritório, nosso intrépido marceneiro Ulisses (não estou inventando) instalou duas compridas prateleiras que dão toda a volta no aposento, tornando viável o sonho da “Estante B”. Nela armazenamos os autores raramente lidos, os livros de que menos gostamos ou que consultamos só de vez em quando. Embora o critério pareça definitivo, é passível de discussões. Não raro, rotulamos uma obra por pura birra e despeito — por exemplo, Saramago um dia foi parar na Estante B. Não que desgostemos de sua escrita, muito pelo contrário — mas é que, na hora da arrumação, julgamos que ele já estava acostumado com honrarias e que sua presença na Estante A poderia torná-lo arrogante. Autores temporariamente de castigo também vão para a estante B, a fim de refletir sobre o que andam fazendo e talvez mudar os rumos de sua produção artística.

Ambas as estantes seguem uma rigorosa, porém sofrida, ordem alfabética por sobrenome do autor, e quando digo “sofrida”, refiro-me à fileira que compreende Schnitzler, Schneiderman, Schwarcz, Schwarz. Outra dificuldade envolve os livros meramente afetivos, como o infantil Tungo-Tungo, consagrado na letra T, entre Tucídides e Turguêniev. E o que dizer de Mario Vargas Llosa? No V ou no L?

Nos últimos tempos, tivemos que retirar os livros de arte das estantes oficiais e encaixotá-los no quarto dos fundos, diante da crise doméstica do fim de ano, quando os editores tradicionalmente fazem uma limpeza de suas mesas e trazem todo tipo de papel para casa. Há que se mencionar que temos uma estante na sala só de quadrinhos, que também já sofreu reveses com a superpopulação.

Isso traz graves implicações no mundo literário. Sinto informá-los, por exemplo, que não temos mais espaço para autores com o sobrenome iniciado pela letra C. É lamentável, mas recomendamos ao sr. Coetzee que mude de nome, adote um pseudônimo diferente de Costello ou desista da literatura. João Paulo Cuenca e André Czarnobai já foram informados. Assim como o dono da casa, que se viu repentinamente impedido de publicar um romance. Na letra C não cabe nem mais um haicai.

Por outro lado, o sobrenome S ainda tem vagas, sobretudo pelo downgrade do Saramago. E atenção, jovens romancistas: ainda não ocupamos a cozinha e a geladeira. Há esperanças.

*Uma ressalva deve ser feita com relação ao menino que tentou imprimir toda a internet — Cody Darnell, de 9 anos, apostou 50 dólares com o primo, dizendo que conseguiria imprimir todo o conteúdo da Rede Mundial de Computadores. Estamos com você, Cody.

* * * * *

Vanessa Barbara tem 28 anos, é jornalista e escritora, casada com o editor André Conti. Publicou O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem),O Verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o Escavador de Umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

História triste

Posted: 15th maio 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Apesar de ter sido interrompido há três anos nos Estados Unidos e estar em vias de suspensão na RedeTV!, o reality show “Dr. Hollywood” (dom. às 23h40) continuará no ar por aqui pelo menos até o fim do mês.

Trata-se de um programa capitaneado pelo cirurgião plástico Robert Rey, brasileiro radicado nos EUA que tem uma clínica milionária em Beverly Hills, onde atende mulheres ricas que desejam aumentar os seios, fazer lipoaspiração e incrementar o estofo das nádegas.

A atração mostra cenas explícitas das cirurgias e a marcação das pelancas com caneta piloto, mas isso não é o mais chocante. Chocante é o médico protagonista, um sujeito de coloração alaranjada, branqueamento nos dentes e cabelos excessivamente viçosos, adepto de camisas cor-de-rosa e gravatas da Dolce&Gabbana.

Ele cobra 5 mil dólares por uma consulta de meia hora, na qual diz coisas como: “O céu nasce no Leste e se põe no Oeste, e é aí que a festa começa de verdade”. Seus colegas andam de Porsche, usam anéis quadrados, relógios vistosos e golas rulê.

Suas pacientes têm os cabelos lisos e repicados, em geral platinados, abusam das demãos de maquiagem no rosto, vestem óculos de mosca e minivestidos de tirar o fôlego (delas mesmas).

O médico lhes promete resgatar a autoestima com a ajuda de duas esferas de silicone “que vão fazê-la cintilar de verdade como um cisne”. Sem sair da metáfora do patinho feio, ele afirma, brandindo o implante: “Esta bolinha será essencial para que o cisne voe”.

O dr. Rey se compara a personalidades como Dilma Rousseff, Barack Obama e Madre Teresa. Diz que se orgulha de ter melhorado a condição humana com seu trabalho. Entre outras coisas, assume que “médico velho não é meu amigo. Médico jovem sim. Eles querem ser como eu: se vestem como eu, usam óculos como eu. Me seguem no Twitter”.

Tristes não são os closes de peitorais definidos e barrigas tão retas que aparentemente exigiriam a remoção total dos órgãos internos. Nem são as moças loiras do interior que vêm levantar os seios e fazer compras. Triste mesmo é a confissão do dr. Robert Rey, numa entrevista para um portal de notícias, em que ele admite: “Acho que a última vez que eu comi bolo foi em 1986”.

Força aí, dr. Rey.

O inverno está chegando

Posted: 8th maio 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Estreia hoje às 21h na HBO a superprodução “A Guerra dos Tronos”, baseada no best-seller de fantasia épica “As Crônicas de Gelo e Fogo”, de George R. R. Martin.

A saga se passa nos sete reinos de Westeros, uma terra onde “o verão se estende por décadas e o inverno pode durar uma vida inteira”. Depois de nove anos de clima ameno, o frio está prestes a chegar, condenando gerações inteiras à morte por inanição e congelamento.

Tudo começa quando o conselheiro do rei morre de forma suspeita e várias famílias passam a disputar o poder, nesta história com clima medieval e pinta de “anti-Senhor dos Anéis”.

A trama é suja e tem sua cota de incesto, tragédia, conspiração, decapitações e luxúria. Ao perder seu ajudante, o rei Robert (vivido por Mark Addy) diz que procura “alguém para governar meu reino enquanto eu como, bebo e transo com prostitutas até morrer cedo demais”. Este é o lado civilizado da trama.

Do lado selvagem estão os Dothraki, uma tribo sangrenta cujo líder se casa com a princesa loira do clã dos Targaryen, numa aliança feita para engrossar os exércitos e devolver o trono a estes últimos.

Sobre essa simpática turminha de aborígenes, diz-se que “um casamento Dothraki sem ao menos três mortes é considerado um fracasso”. Após as bodas, a noiva tenta dizer “obrigada” em dialeto, mas alguém observa: “Não existe tal palavra em Dothraki”.

Os únicos que podem ser chamados de mocinhos – e olhe lá – são os Stark, uma família de “temperamento explosivo e raciocínio lento”. O patriarca é Eddard (vivido por Sean Bean, o Boromir de “O Senhor dos Anéis”).

Seus maiores inimigos são os Lannister, de quem se pode esperar todo tipo de torpeza: ao jovem príncipe que demonstrou covardia, provocando a morte de uma criança e de um filhote de lobo, a rainha diz: “Quando você estiver no trono, a verdade será o que você quiser que ela seja”.

Em lugar de hobbits expansivos e trapalhões, temos Tyrion Lannister (Peter Dinklage), um anão cínico, lascivo e cruel, mas que é solidário aos párias e desajustados como ele. Em lugar de um anel, temos uma muralha de gelo guardada por vigilantes de negro, a proteger o reino de uma misteriosa ameaça sobrenatural.

Numerologia televisiva

Posted: 1st maio 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Os relatórios de audiência da Rede Record têm precisão matemática. Por trás de tantos números desconexos, pode-se vislumbrar uma sequência mágica que rege todo o universo televisivo, e fazer uma previsão do que há de vir.

Vejamos: na manhã de 7 de outubro, o programa “Hoje em Dia”, da Rede Record, ficou em primeiro lugar na audiência durante 59 minutos. No mesmo dia, a série “Dr. House”, exibida pela emissora, registrou a liderança por 34 minutos, com 8 pontos de média, pico de 15 e share de 29%.

Pouco depois, o “Domingo Espetacular” chegou a 20 pontos e garantiu a vice-liderança isolada no ranking geral. E o jornalístico “São Paulo no Ar” ficou em primeiro lugar durante 780 segundos numa terça-feira de manhã, o mesmo ocorrendo com a minissérie “Sansão e Dalila”, que abrilhantou o pódio por 14 minutos na região do Rio de Janeiro.

Em fevereiro, o drama “Ray”, exibido pelo Cine Record Especial, ficou na liderança por 1h14, levando a crer que muita gente só viu o filme pela metade.

Somando todos esses números, multiplicando pela preguiça de mudar de canal e dividindo pelo número de insones da casa, pode-se dizer que a emissora está disposta a segurar o calção do espectador por todos os meios possíveis.

Na última terça-feira, o público paulista garantiu a primeira colocação do programa “Ídolos” durante 37 minutos – muito mais do que eu pude aguentar.

Nessa edição do reality, que busca novos cantores, dezenas de candidatos passaram por uma breve e humilhante audição, da qual só três saíram aprovados, num programa de quase uma hora de duração.

Em  busca de gloriosos segundos de vantagem, os jurados ridicularizaram os participantes, abusaram das caretas e receberam uma quantidade propositalmente alta de candidatos bizarros.

Os jurados compararam o talento dos calouros com uma Pepsi sem gás, uma aula de física, um miado de gato, e mandaram que considerassem a “possibilidade de não cantar mais nada”.

Dava pra perceber o esforço. Talvez fosse mais simples hipnotizar a audiência com um relatório do Ibope em tempo real, narrado pelo Britto Jr., e botar todo mundo pra dormir, garantindo assim umas oito horas de liderança e share de 40%.

O gravador digital

Posted: 24th abril 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Depois da penicilina, da internet e do descascador de legumes, o gravador digital de vídeo (DVR) é a maior invenção do homem. É como um videocassete, mas não precisa de fita (o conteúdo é armazenado no disco rígido) e nem de um PhD em física para agendar as gravações.

Digo isso com a experiência de quem ganhou do pai um videocassete de consórcio, na década de 80, e pouco depois já dominava a tela de configurações.

Foram dezenas de fitas gravadas com episódios de “Animaniacs”, filmes em duas partes, o piloto de “A Gata e o Rato” e a abertura das Olimpíadas de 1992. Mais tarde, passei a estudar a relação mensal de filmes da TV a cabo, um catálogo com 1500 títulos que eu selecionava para deixar gravando.

Isso sem contar o ano de 1999, em que registrei todos os episódios do “Vestibulando” e chorei no final. Algumas fitas foram tão regravadas que havia uma camada grossa e muito tóxica de corretivo líquido no rótulo de identificação.
Com o DVR, tudo ficou mais prático. O pioneiro foi o americano TiVo, cuja novidade era detectar e excluir os comerciais. Tais aparelhos têm capacidade para 100 horas de conteúdo e funções como replay, pausa e gravação simultânea.

Possuem um guia eletrônico que dispensa cálculos mais rebuscados, como programar um filme de 188 minutos que começa às 2h15 P.M. com uma folga antes e depois, devendo ser gravado no canal 3 com o receptor ligado no 61 e o formato SLP, pra não comer muita fita.

No DVR, basta escolher o canal e selecionar o item desejado. É possível efetuar buscas por título, ator ou diretor, e agendar a gravação de episódios múltiplos.
Só falta exigir mais precisão das emissoras, sobretudo as abertas, que não respeitam as próprias grades. Num teste aleatório, só o SBT e a Gazeta foram rigorosos, possibilitando a gravação integral de “Chapolim” e “Estação Pet”.

A novela da Globo foi cortada no final (“Insensato Coração”), assim como a da Record, “Rebelde”. O “Liang Gong” da Cultura foi interrompido no ápice.

A Band exibiu o “CQC” com 15 minutos de atraso, e a RedeTV! fez o mesmo com “Dr. Hollywood”. Este foi cortado bem na hora em que uma moça mostrava o resultado de sua plástica e dizia: “vou tentar surfar com os meus novos seios”.

Coisa de menino

Posted: 17th abril 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Tomado pela mais sincera candura, Christian Wellisch olha bem para a câmera e declara: “Adoro bater nas pessoas”. Ele é conhecido como Pesadelo Húngaro e é lutador de Artes Marciais Mistas (MMA, em inglês), o popular vale-tudo.

Nessa modalidade, os competidores podem usar inúmeras técnicas: boxe, jiu-jitsu, caratê, judô, kickboxing, muay thai e luta greco-romana. Só não vale morder, puxar o cabelo, dar cabeçada e dedo no olho, o que sinceramente me deixou decepcionada.

A principal competição de MMA é o Ultimate Fighting Championship, que vem atingindo uma popularidade cada vez maior nos EUA, onde já conta com 2 milhões de espectadores. Por aqui, o UFC é exibido aos sábados de madrugada em duas emissoras: na RedeTV! (sáb., 0h) e no Canal Combate, em pay-per-view.

É o tipo de coisa que se pode assistir por horas a fio, uma superprodução com holofotes ostensivos, brutamontes de capuz, sangue no octógono e muito dinheiro envolvido.

Para completar o circo, há bravatas impagáveis e declarações viris dos lutadores contra seus rivais, à moda do bom e velho Mike Tyson: “Acerto o nariz do meu oponente para que o osso entre no cérebro”.

Os lutadores possuem apelidos como “Carrasco Africano”, “Jovem Assassino”, “Maníaco Hispânico”, “Mestre da Maldade”, “Pavio Curto”, “Rolo Compressor Filipino”, “Ninja do Amor” (?) e “O Homem Mais Perigoso do Universo”. Há também um lutador chamado Josh “Dentista” Neer.

As transmissões do Canal Combate são as mais divertidas, pois contam com um time de intrépidos comentaristas. (Lembrem-se: estamos lidando com caras que podem te fazer desmaiar com um chute na cara.)

Sobre um lutador mais rechonchudo que trazia uma tatuagem com o mapa do Havaí no peito, Luciano Andrade perguntou: “Será que ele surfa?”. Ao que João Guilherme respondeu, sem pensar: “Teria que ser uma prancha bem reforçada”.

O jornalista continua vivo e passa bem.

Semana passada, a mesma dupla iluminada declarou que certo lutador “não era nenhum mosca-morta”. Entretanto, seu rival parecia “estar tirando um pirulito de uma criança de seis meses”. Pausa. “Que, aliás, não chupa pirulito com seis meses.”

Pensando bem, talvez os comentaristas tenham sido afetados por algum tipo de voadora.

Onde a mobilete tem valor

Posted: 10th abril 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Tendo nascido e crescido na zona norte, foi com ardor patriótico que assisti ao programa “Manos e Minas” (Cultura, sáb. às 18h) do último dia 2.

A atração, voltada à periferia, é repleta de rap, hip-hop e grafite. Desta vez, o quadro “Suburbano Convicto” mostrou o bairro do Lauzane, onde “boa parte da vida cultural da quebrada fica na mão de dois caras: o Rashid e o Projota”.

Partindo da praça Ultramarino, onde os nativos jogam dominó e o jardineiro Pedro comanda as samambaias, os rappers levam o repórter “pra trocar uma ideia lá na laje”.

Tudo começou quando MC Rashid quis mostrar à avó as letras e batidas de sua música, e junto com o vizinho Projota fundou o “Rap no Lauzane”, um evento no portão de casa.

“Na primeira vez que ganhei um dinheiro, cheguei e falei: ‘Aí, vó, hoje vai ter pizza’”. A referida senhora é a musa de uma das canções de Rashid, na qual ele expressa sua gratidão e pede desculpas pelos palavrões.

O “Rap do Ônibus” fala de duas linhas antológicas, o 1744 e 178L. Diz o refrão: “Ô cobrador, deixa os menino passar/ Vou sofrer uma hora e meia e ainda tenho que pagar/ Libera aê, porque tá caro pra caraio”.

Como um nativo típico, desses que levam meia hora para aportar no metrô, ele diz que “dá mais trabalho chegar no trabalho do que trabalhar”.

Foi quando fiquei de pé para entoar, mão no peito, o rap “Lauzane”, que doravante empregarei como hino. No videoclipe, a avó de Rashid aparece ao fundo, com sua blusinha de lã, enquanto a coletividade canta: “Se num lugar me sinto bem, é lá/ Tô tranquilão com meus irmãos no Lauzane”.

A canção fala alto ao orgulho cívico: “Só quem vem de 8L pendurado/ O instinto pede pra descer na porta do mercado”. E completa: “Sou mais um com os pés aqui e a pele de Angola/ Atravesso a Valorbe com as mão cheias de sacola”.

Está tudo lá: o batuque na lata de cortante, os moleques de bermuda tactel (“dois números a mais”) e a proporção de 500 corinthianos para meia dúzia de santistas.

Fala-se também do status da mobilete num bairro de ladeiras (“razão da preparação física do time do Pedreira”). E, por fim: “Quem ama o seu lugar como eu amo, tio, enxerga uma estrela a mais na bandeira do Brasil”.

Pegue suas facas e vá embora

Posted: 3rd abril 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Ninguém está livre de “dar os cinco minutos” quando se trata de séries de TV. Aqui em casa, ficamos irremediavelmente viciados em reality shows culinários – sobretudo em “Top Chef” (Sony, sáb. às 23h), que está em sua melhor temporada.

Na atração, 15 chefs de cozinha competem pelo título de Top Chef e um prêmio de 125 mil dólares. Nos EUA, o programa já está na nona temporada, mas por aqui ainda estamos assistindo a sexta.

Cada episódio consiste em dois desafios: o rápido, que confere imunidade ao vencedor e/ou prêmios em dinheiro, e o eliminatório, que desclassifica um ou dois chefs da competição.

A sexta temporada chegou a ser proclamada pelos juízes como a mais forte: há o ruivo Kevin, especialista em cocção de suínos, a neurótica Jennifer, com sua descontrolada agressividade culinária, e os irmãos Voltaggio, sofisticados representantes da cozinha internacional desconstrutivista.

Além do porto-riquenho Hector Santiago, que costuma fritar todos os seus pratos – mesmo depois de prontos.

Num episódio recente, um dos juízes chegou a cuspir a comida de um concorrente e outro se referiu a um patê como “ração de gato”. No último programa, alguém fez uma sopa de pepino e abacate apimentado para acompanhar um salgadinho de cebola e ganhou o desafio. Um dos Voltaggio cozinhou couve-de-Bruxelas com rúcula e foi chamado de Picasso.

Como sempre, a temporada tem sobremesas com bacon, comidas com cacto, receitas desconstruídas, gastronomia molecular, vieiras, espumas, reduções e o misterioso “sous vide”, além de muito funcho, ceviche e halibute – essas comidas que a gente nunca sabe bem o que são.

No próximo sábado, a convidada especial será a atriz Natalie Portman, que obrigará os mais ferrenhos defensores do porco a preparar um prato vegetariano. Outros juízes desta rodada são a chef e apresentadora de TV Nigella Lawson e os ilusionistas Penn & Teller.

No âmbito privado, a série revolucionou nosso cardápio da madrugada: agora enfiamos miojo num saco plástico para cozinhar em “sous vide” e empilhamos finas rodelas de banana, fatias de bolo de rolo e salame, decorando com folhas de funcho e creme de ruibarbo.

Resta saber por que chamam de “funcho” e não de “erva-doce”.