Pegue suas facas e vá embora

Posted: 3rd abril 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Ninguém está livre de “dar os cinco minutos” quando se trata de séries de TV. Aqui em casa, ficamos irremediavelmente viciados em reality shows culinários – sobretudo em “Top Chef” (Sony, sáb. às 23h), que está em sua melhor temporada.

Na atração, 15 chefs de cozinha competem pelo título de Top Chef e um prêmio de 125 mil dólares. Nos EUA, o programa já está na nona temporada, mas por aqui ainda estamos assistindo a sexta.

Cada episódio consiste em dois desafios: o rápido, que confere imunidade ao vencedor e/ou prêmios em dinheiro, e o eliminatório, que desclassifica um ou dois chefs da competição.

A sexta temporada chegou a ser proclamada pelos juízes como a mais forte: há o ruivo Kevin, especialista em cocção de suínos, a neurótica Jennifer, com sua descontrolada agressividade culinária, e os irmãos Voltaggio, sofisticados representantes da cozinha internacional desconstrutivista.

Além do porto-riquenho Hector Santiago, que costuma fritar todos os seus pratos – mesmo depois de prontos.

Num episódio recente, um dos juízes chegou a cuspir a comida de um concorrente e outro se referiu a um patê como “ração de gato”. No último programa, alguém fez uma sopa de pepino e abacate apimentado para acompanhar um salgadinho de cebola e ganhou o desafio. Um dos Voltaggio cozinhou couve-de-Bruxelas com rúcula e foi chamado de Picasso.

Como sempre, a temporada tem sobremesas com bacon, comidas com cacto, receitas desconstruídas, gastronomia molecular, vieiras, espumas, reduções e o misterioso “sous vide”, além de muito funcho, ceviche e halibute – essas comidas que a gente nunca sabe bem o que são.

No próximo sábado, a convidada especial será a atriz Natalie Portman, que obrigará os mais ferrenhos defensores do porco a preparar um prato vegetariano. Outros juízes desta rodada são a chef e apresentadora de TV Nigella Lawson e os ilusionistas Penn & Teller.

No âmbito privado, a série revolucionou nosso cardápio da madrugada: agora enfiamos miojo num saco plástico para cozinhar em “sous vide” e empilhamos finas rodelas de banana, fatias de bolo de rolo e salame, decorando com folhas de funcho e creme de ruibarbo.

Resta saber por que chamam de “funcho” e não de “erva-doce”.

O popular exaltado

Posted: 1st abril 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Revista Piauí
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Tipos brasileiros: O popular exaltado
Aristóteles e Sêneca analisam o sujeito que cospe, berra, xinga, faz discurso em cima do caixote e se julga permanentemente ultrajado. Suas frases prediletas são “Não tem cabimento” e “Disso a imprensa não fala”

por Vanessa Barbara

Piauí n. 55
Abril de 2011

Ao contrário de nós, que afastamos discretamente um fio de cabelo do macarrão, e que não nos sentimos ofendidos quando um voo Rio-Curitiba tem que fazer escala em Ribeirão Preto devido a uma tramoia da companhia aérea; ao contrário de nós, que aguardamos com boa vontade a moça do guichê terminar de falar com a prima no celular, enfim, ao contrário de nós, existe o popular exaltado.

É ele que, com a mão no volante do carro, num congestionamento, xinga todos os membros do gabinete do prefeito, um a um (inclusive a tia do café). É ele que faz referência ao “bolso do contribuinte”, que reclama do rodízio de carros e denuncia “disso a imprensa não fala!”, apontando para a fila dupla na porta de uma escola.

É o popular exaltado quem invoca o Código de Defesa do Consumidor a respeito de qualquer coisa, que cita a Declaração Universal dos Direitos Humanos ao trocar uma centrífuga que não coa bem o bagaço. É aquele advogado careca que arenga para multidões na fila do banco, e aproveita para se queixar das taxas de juros, da tarifa dos serviços, da necessidade de duas senhas e da matança de bebês panda na Mongólia.

O popular exaltado destaca-se pelo tom injuriado das reclamações, que têm pertinência, mas, em geral, descambam para a emissão violenta de perdigotos e impropérios a quem estiver pela frente e imediações, seja o funcionário recém-contratado, a estagiária sensível, o zelador gago, o rapaz do almoxarifado, o porteiro distraído.

Numa loja de celulares, ele pede para chamar o gerente. Ao gerente, pede para chamar o supervisor. Quando o funcionário mais graduado garante que não há mais ninguém acima dele, o popular exaltado fica transtornado, quase feliz, e, aos urros, indaga: “É com a presidenta Dilma que estou falando?”

Ao se perder na argumentação, apelando para vitupérios insolentes ou aproveitando para desfiar todas as suas mágoas, o popular exaltado é tratado como um reles Doido de Fila de Banco, ou então como o Querelante Convicto, ou mesmo como a Hiena Reclamona (“Ó vida, ó céus, ó azar!”) – tipos populares também eles, mas de outra estirpe.

***

Popular exaltado legítimo foi aquele que, em abril do ano passado, apoquentado com as enchentes que mataram mais de 200 pessoas no Rio de Janeiro, ficou preso no trânsito e foi entrevistado por um repórter de televisão (o vídeo está no YouTube). Ele começa pelo “governador Sérgio Cabral, com aquela cara de tartaruga Touché, falando que o Rio é uma cidade maravilhosa”.

Vai em cima do prefeito: “Isto aqui é um engodo, uma cidade governada por milícias, traficantes e vagabundos. Meu carro, com o IPVA em dia, está enchendo d’água, e cadê aquele f*&%p do Eduardo Paes?”

Volta-se contra o entrevistador: “E vocês, da imprensa, ficam lá tirando fotinha dele, ‘Ai, Eduardo Paes, Choque de Ordem, tirou da rua o camelô, multou o carrinho que estava na calçada’. Agora, cadê a Guarda Municipal?”

E delira: “A gente paga imposto para sustentarDaniel Dantas e Eike Batista. F*&%-se o Eike Batista, que está f*&#@&o uma piranha que cobra mil reais a hora. F*&%-se a Nicole Bahls, que está d%@&o pro filho do Eike Batista. F*&%-se se a Britney Spears está grávida de um cavalo. Eu quero saber quem vai pagar o prejuízo do meu carro, tá?”

E vem a apoteose: “Essa coisa fascista de dizer que a gente mora numa cidade maravilhosa, isso aí é uma falácia criada por aquela bicha enrustida do Tom Jobim, prócer da ditadura que cantava assim: ‘Ipanema é tão legal, o meu pai é general.’ Então é isso aí: F*&%-se a bossa nova,f*&%-se o Sérgio Cabral tartaruga Touché e f*&%-se o Eduardo Paes.”

E conclui o depoimento com um agradecimento ao repórter: “Olha, você me curou de um câncer agora.”

Dá vontade de aplaudir.

O popular exaltado é uma versão loquaz e combatente do “Popular”, personagem de Luis Fernando Verissimo que está sempre assistindo aos acontecimentos com um embrulho debaixo do braço, a camisa esporte clara para fora da calça (marca Volta ao Mundo?), o ar de eterno espectador.

Mas o popular ortodoxo não se mete nos assuntos, não se manifesta, não se queixa, não expõe sua opinião, não acha nada de coisa nenhuma. Já o popular exaltado cospe, berra, xinga, faz discurso em cima de um caixote e se julga permanentemente ultrajado. Suas frases prediletas são “É um absurdo”, “Não tem cabimento” e “Isso a televisão não mostra”.

***

Quando em viagem, o popular exaltado se solta. No livro Uma Semana no Aeroporto, Alain de Botton descreveu um sujeito que dava murros no balcão e soltou um grito de desespero tão lancinante que se ouviu “lá longe, na loja da WH Smith, no final da ala oeste do terminal”. Para o escritor, o uivo seria sinal de uma disposição esperançosa: “Temos raiva porque somos seres otimistas demais, pouquíssimo preparados para as endêmicas frustrações da existência. Um homem que berra toda vez que perde as chaves ou é barrado no avião demonstra uma tocante mas ingênua e imprudente fé em um mundo onde não se perdem chaves, nem malas, nem voos.”

Em Ética a Nicômaco, Aristóteles defende o popular exaltado: “O que se irrita justificadamente nas situações em que se deve irritar, ou com as pessoas com as quais se deve irritar, e ainda da maneira como deve ser, quando deve ser e durante o tempo em que deve ser, é geralmente louvado.”

Aristóteles, no entanto, admite haver “excessos a respeito de todos os elementos circunstanciais envolvidos num acesso de ira (seja por se dirigir contra as pessoas indevidas, seja por motivos falsos, seja por exagero, ou por surgir rapidamente, ou por durar tempo demais)”. Ainda assim, insiste: Iram calcar ait esse virtutis (A ira é o aguilhão da virtude).

Podem ser classificados, assim, na categoria de populares exaltados e persistentes, a costureira Rosa Parks, que se recusou a dar lugar no ônibus para um branco, Martin Luther King, Antígona, o rebelde desconhecido da Praça da Paz Celestial e os franceses (pois vivem reclamando de tudo, mas com lógica cartesiana).

Embora o popular exaltado possa ser visto com admiração em certos casos, não é o que pensa o filósofo romano Sêneca. No tratado Da Ira, ele indaga: seria certo considerar saudável “aquele que, como que arrastado por uma tempestade, não caminha por si mesmo, mas é levado e feito escravo de um delírio furioso, não confiando a ninguém a sua vingança, mas executando-a ele próprio, com a alma e as mãos enfurecidas?”.

Na dúvida, convém enviar uma carta à redação protestando contra a ausência de uma conclusão satisfatória neste artigo, e denunciando a agonia do jornalismo, o sofrimento de bebês panda e a derrocada generalizada de tudo e de todos.

Acredite… se quiser

Posted: 27th março 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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No último dia 18, estreou na Band o programa “Acredite se Quiser” (sex., 22h15), um show de variedades baseado no americano “Ripley’s believe it or not”.

No Brasil, a atração fez sucesso nos anos 80, quando foi exibida pela Rede Manchete sob a apresentação do ator Jack Palance. Com a maior calma do mundo, ele mostrava reportagens sobre assuntos insólitos, como um menino-bolha, ursos ginastas e verduras gigantes.

A versão da Band é produzida pela Sony e traz apenas casos americanos. O episódio de estreia mostra um homem com uma faca de 28 cm enterrada no crânio, uma cadela bassê que acredita ser mãe de três telefones sem fio, um artista que completou uma réplica da Torre Eiffel com os próprios dentes e um sujeito que andou numa corda bamba entre dois edifícios de vinte andares.

Na série brasileira, tem-se a impressão de que todos os vídeos foram feitos em 1988. O equilibrista não causa o menor espanto, até porque, já em 1974, Philippe Petit atravessou as Torres Gêmeas do World Trade Center num cabo de aço, a uma altura de 400 metros.

A comedora de minhocas e o homem que desafia um jacaré também parecem saídos do século dezenove, sendo facilmente ultrapassados por uma visita ao You Tube, ao Google ou à enciclopédia “O Mundo Pitoresco” (Jackson Ed., 1944).

Há algo ainda pior nesta versão de “Acredite Se Quiser!”: o alarmismo. Um tom sensacionalista e espetacular domina a narração, desnecessariamente adjetivada, numa tentativa de prefigurar a reação do espectador.

O primeiro caso é “apavorante”, diz o narrador: um homem “malvado” enfiou uma “faca do Rambo” no crânio de outro e houve uma cirurgia “perigosa”. A palavra “inacreditável” é repetida às dúzias, bem como “glorioso”, “grotesco” e “espetacular”. As minhocas engolidas pela dançarina são “nojentas, escorregadias, molhadas e pegajosas”.

A toda hora, recomenda-se que o espectador “não faça isso em casa”, embora seja improvável que alguém tente enfiar uma faca serrilhada no próprio crânio.

É uma diferença considerável do programa original, em que Palance (dublado por Darcy Pedrosa) apresentava as histórias com uma voz calma, neutra e indiferente. Na Band, o apresentador Felipe Folgosi só falta comer minhocas.

Guia da Folha
25 de março de 2001

Top Secret

Posted: 21st março 2011 by Vanessa Barbara in Clipping, Crônicas
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Blog da Cosac Naify
21 de março, 2011, às 16:50

por Cosac Naify

A comida e a bebida foram elo e ponto de partida de muitas sociedades secretas.

No livro de Vila-Matas, História abreviada da literatura portátil, é um drinque (refrescante), o shandy, que dá nome à seita dos portáteis. Shandy, além de remeter ao Tristram Shandy, vem de uma expressão dialetal de Yorkshire que significa “indistintamente alegre, volúvel e louco”, e é também, e sobretudo, a tradicional mistura de cerveja com limonada – o que na França dá-se o nome depanaché.

Nos textos abaixo, Vanessa Barbara, Sérgio Rodrigues e Júlio Pimentel Pinto relatam histórias de sociedades secretas unidas justamente pela comida. São seitas de conspiradores guiados por quindins, legumes, goiabada e toda sorte de alimentos.

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Povo do carvão
Vanessa Barbara

“Além do mais somos cinco e não queremos ser seis” é o mote desta sociedade literária secreta, que é tão secreta que nem os seus membros desconfiam da existência. Nossa principal diretriz temática é o uso da piada interna como figura de linguagem, nave-tia da nossa literatura. Formada por mim, Emilio Fraia, Antonio Prata, Paulo Werneck, Chico Mattoso, Fabrício Corsaletti e a minha mãe, tem como principal característica o hábito de responder entrevistas só falando em comida, não importa o que perguntem.

— Como você vê a ficção moderna?
— Veja bem, eu costumo compará-la a um grande pudim de queijo.

— Senhor Emilio, senhor Emilio, qual o sentido da literatura em sua vida?
— Nunca dei muita atenção aos legumes, embora sempre os tenha consumido. E nunca entendi o porquê dessa convenção estúpida de só servir peixe às sextas-feiras.

— Qual a essência do ser humano neste tempo de mudanças? Me parece que seus livros captam isso muito bem.
— Se é preciso definir em uma palavra: “quindim”. Não que siga critérios lógicos, o que nos levaria provavelmente às batatas ou ao ovo em estado bruto, mas trata-se da multiformidade que se pode tirar de uma iguaria bem feita.

*Vanessa Barbara é jornalista e escritora, autora de O livro amarelo do terminal

*

Os desafiadores da goiabada
Sérgio Rodrigues

Formulado em 1978 pelo crítico Adolfo Pinho Rosa, o chamado “desafio da goiabada” é um enigma que estudantes de Letras ainda hoje gostam de sondar quando se veem ameaçados pelo tédio da teoria: como distinguir os membros de certa sociedade literária secreta fundada no Rio de Janeiro em meados do século XX? Seus sócios se identificariam por um sutil aceno maçônico: o emprego de determinada palavra no último parágrafo de uma obra de qualquer gênero, precedida de um verbo no pretérito imperfeito e seguida de advérbio. Pinho Rosa afirmou ter encontrado a pista do conluio numa carta de Lucio Cardoso a um amigo identificado como W., comprada de um alfarrabista de Caratinga. Infelizmente, o escritor mineiro não mencionava a tal palavra, que o crítico supôs ser “goiabada” (“Comia goiabada voluptuosamente”), embora nunca tenha citado um único caso concreto que sustentasse tal conjectura. “Camafeu”, “chupão”, “pandemônio”, “teteia”, “aldraba” e “bicho-de-pé” são outros palpites que até hoje se furtaram a dar resultados conclusivos. Na verdade, não é exagero afirmar que a dificuldade do desafio tem o tamanho do vocabulário da língua portuguesa.

*Sérgio Rodrigues é jornalista e escritor, autor de Elza, a garota, entre outros

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Os glutões
Júlio Pimentel Pinto

Ora, direi ouvir estrelas… Não, nada de ouvir. Comer. Não estrelas, naturalmente, que certo perderias os dentes. Nem comer livros, pois não somos cabras. Comer, simplesmente. Comer e ler, comer e escrever. Certos escritores jamais resistiram à oportunidade de trocar o livro por uma refeição; outros preferiram levar a comida para dentro do livro. Alguns foram glutões no dia a dia — casos de Balzac ou Lezama. Outros podiam até ser contidos à mesa, mas promoveram furiosos bacanais gastronômicos livrescos: sobretudo a brigada francesa — Rabelais, Voltaire, Proust, Dumas. Ah, estamos falando de comida. Então não poderiam faltar, óbvio, os espanhois. Do Sancho comilão de Cervantes ao gourmet-gourmand Pepe Carvalho, de Vázquez Montalbán. Nem italianos, ou melhor, os sicilianos: Vittorini ou Camilleri, entre peixes e doces. Também o clima frio ajuda a harmonizar pratos e leituras. Que o digam Mann, Pasternak ou Blixen, criadora do impagável (em todos os sentidos) jantar de Babette. Ou o glutoníssimo Nero Wolfe, personagem de Stout. E já que nossa pátria é nossa língua e nossa língua é nossa refeição, Eça, Vinícius e Jorge Amado. Todos reunidos numa confraria que sabe que quem devora livros devora algo mais.

*Júlio Pimentel é doutor em História pela FFLCH-USP e tradutor de História abreviada da literatura portátil e Modernidade periférica

Atropelando bebês

Posted: 20th março 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Ignorado no Brasil, o reality show “The OCD Project”, do canal VH1, agrupou seis pessoas com formas severas de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo, OCD em inglês) para fazer um tratamento de três semanas numa casa.

Em oito episódios, o dr. David Tolin, diretor do Centro de Transtornos da Ansiedade do Hospital de Hartford, submeteu seus pacientes a uma terapia de exposição radical, com base no método cognitivo-comportamental.

Arine, de 25 anos, sofria de germofobia (medo de se contaminar). O dr. Tolin a fez comer um bolinho embebido em água de privada. Kristen, de 28 anos, tinha a mesma doença, e acabou entrando numa piscina com xixi.

Tracy temia que seu filho morresse de câncer, e por isso efetuava rituais de acender e apagar luzes. O terapeuta simulou o enterro do menino e mandou-a discursar em sua memória.

Compreende-se que o programa seja ignorado por aqui, e com razão. O médico é arrogante e leva jeito para celebridade. A proposta de curar pacientes em pouco tempo e com exposições extremas (passar um tempo na prisão, lamber a sola dos sapatos) os prejudica unicamente em favor do espetáculo.

Mas há momentos interessantes: a primeira tarefa dos confinados é descrever à exaustão seus maiores medos e estimar a possibilidade real de que aconteçam. O exercício se destina a dar as devidas proporções aos temores e preconizar uma sensibilização a eles, lenta e gradual.

Outro ponto alto é mostrar o processo de habituação à fobia. Na série, isso se resume a uma única cena: Arine mergulha as mãos em chorume e as leva ao rosto. “Qual é o seu nível?”, pergunta Tolin, referindo-se a uma escala de ansiedade. Ela começa com 100, depois desce para 80 e de repente está em 35. “Isso é habituação”, ele explica. “Parabéns”.

Arine também é a protagonista da melhor cena da temporada. Outro de seus pavores é o medo de atropelar pessoas, e por isso ela tem a mania de dar voltas e voltas com o carro para se certificar de que está tudo bem. Tratamento: enquanto ela dirige, o doutor vai atirando no para-brisas um monte de bonecas, cabeças de plástico e muletas, gritando: “Oh, meu Deus! Ela atropelou um bebê! Oh, meu Deus!”.

Não sei bem se a Anistia Internacional aprovaria.

A teoria da calopsita

Posted: 13th março 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Muitos leitores escreveram para manifestar seu apoio à coluna “No próximo bloco, insânia” (23 de janeiro).

O engenheiro de sistemas Marcio José Porta conta que, em 1988, participou do planejamento financeiro da TVA, uma das primeiras operadoras de TV por assinatura no Brasil. Enquanto preenchia planilhas, perguntou se, além das receitas de assinatura, deveria considerar também as de publicidade.

“Claro que não. Os assinantes não irão admitir publicidade na TV por assinatura”, respondeu o chefe.

Ou seja: não foi por maldade. Em algum momento da história, um estagiário deve ter inserido, só de sacanagem, um comercial na grade de uma emissora a cabo. Ninguém reparou.

Daí para chegar aos cinco minutos de intervalo – os mesmos – a cada dez de programação, foi preciso apenas que as pessoas não se manifestassem. O atrevimento é tão grande que hoje o problema não é mais da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), mas da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria).

Até os canais Telecine, outrora incansáveis bastiões dos filmes sem intervalos, aderiram ao “voltamos em dois minutos”, só para encaixar informes da programação.

Uma leitora, pedindo desculpas pelos palavrões, reclamou também do looping infinito dos filmes. “‘Velozes e Furiosos’ é o campeão: já vi passar em três canais ao mesmo tempo”. Eu acrescentaria à lista “Um lugar chamado Notting Hill” e “A Identidade Bourne”, que deve passar na Fox em dias alternados (o resto do tempo é preenchido com “Os Simpsons”).

Muitos sugerem que os canais sejam obrigados a informar o tempo líquido do programa e a porcentagem de comerciais, para que as pessoas decidam se estão dispostas a assisti-lo. Outros dizem que se deve estipular um limite de veiculação para a mesma peça publicitária (uma vez por hora), a fim de coibir a repetição.

Sugiro que informem também os efeitos colaterais da exposição, como: ansiedade, palpitação, ira e catatonia. E que admitam de vez que não há ninguém no estúdio de transmissão, só uma sonolenta calopsita silvestre, cujo ofício é copiar e colar os mesmos reclames em intervalos aleatórios. E botar a fita pra rodar no dia primeiro de cada mês.

Passa rápido o desfile carioca

Posted: 8th março 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Os locutores bem que tentaram, mas não há conversa que se sustente diante dos delirantes enredos das escolas de samba. No Rio de Janeiro, por exemplo, a Mocidade Independente abordou a história da agropecuária brasileira, a Vila Isabel falou de cabelo e a União da Ilha escolheu o evolucionismo.

Um dos melhores temas foi o da Portela, com um samba-enredo sobre as grandes navegações. E dá-lhe Fenícia, Farol de Alexandria, galés do Oriente, especiarias, navios negreiros, Iemanjá e até um ou outro pirata, numa letra que “deságua na imaginação”.
É trabalho dobrado para os comentaristas, que precisam dar naturalidade ao texto fornecido pelas escolas e arrumar nexo histórico para tudo. Nessa balbúrdia, a Imperatriz Leopoldinense falou das origens da medicina e conseguiu ir dos curandeiros da África à vaca louca, passando por centauros e homeopatia.

“Esses chifres representam os chifres do antílope”, tenta explicar o narrador Luis Roberto, ou então: “Esta ala invoca o ritual de magia da mãe África, a sabedoria da mãe natureza que curava com batidas de tambor”.

No sambódromo, há um bloco de múmias “que representam o processo de conservação natural de corpos no antigo Egito”, segundo a locutora Glenda Kozlowski, fazendo o que pode.

Atordoado, Luis Roberto tenta aparentar espontaneidade: “Vamos dar uma passadinha pela China também, a influência do taoísmo na medicina…”. Silêncio. Ele faz sua última tentativa (5 de 5) de emplacar uma discussão sobre a “função precípua” da comissão de frente, que é de reverenciar a plateia e apresentar a escola aos jurados. Fala-se no nariz entupido do puxador Dominguinhos do Estácio, mas o assunto torna a morrer.

Na passagem da ala que homenageia os Raios-X, Luis Roberto pergunta à colega: “Sabe quando foi descoberto o Raio-X?”. Ela retruca, animada: “Não, me conta”. Ele diz que foi em 1895, e ela: “Passa rápido, né?”.

[especial para o caderno “Cotidiano”]

Momices televisivas

Posted: 7th março 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Há que se aplaudir a coragem dos que passam a madrugada comentando desfiles de Carnaval na TV, mesmo diante do risco de virarem legumes. Todavia, isso não os isenta do escrutínio dos críticos, que avaliam suas performances sob os mesmos critérios da apuração do Carnaval.

No sábado, enquanto a bateria de trocadilhos infames abria com um comentário de Cléber Machado – “O povo está esperando a Nenê, que já não é mais nenhuma criança” – , o quesito evolução do raciocínio seguia mediano (nota 6,5).

O conjunto também não se destaca. Cléber discorre sobre a salinidade do mar, ao que Mariana Godoy emenda: “E assim surgiu a feijoada”. Harmonia: zero.

O critério da fantasia tem seu ápice (nota 8,5) no desfile da Águia de Ouro, quando uma repórter de campo anuncia: “Estou aqui, em meio aos homens pré-históricos…”. O ponto alto é um carro alegórico que festeja a Inquisição, com direito a verdugos sacolejando e um Torquemada feliz.

Liderando a comissão de frente, Mariana lê o material de apresentação da Mocidade Alegre: “A intenção da escola é a seguinte: aquele que embarcar na ilusão vai embarcar num carrossel que vai levar à ilusão”. Pausa. Para mudar de assunto, acrescenta: “A criança que você foi ainda está dentro de você”.

A única nota dez vai para o Mestre-Sala Cléber Machado, que, encorajado pelo tropicão de sua Porta-Bandeira, diz: “Tão importantes quanto as cartas são as cartolas, de onde saem os coelhos”.

Às 4h25, o cansaço se instala. Cléber é lacônico e mal consegue apresentar a Ala da Pedofilia na X-9. Também troca “telespectador” por “torcedor” e, até então comedido, comete um ato falho: “Cris Rabelo, parabéns pela sua comissão de frente”. “Da X-9”, completa.

Daí pra frente liberou geral: Chico Pinheiro graceja com as repórteres de campo e declara, a respeito do chapéu de uma passista: “Quem é que olha para a cabeça com um corpo desses?”. Faz-se uma pausa, em que provavelmente a mulher de Chico entrou com os papéis do divórcio. “Digam que não me arrependo de nada”, ele entoaria, em rede nacional.

Mas não. Eram 5h15 e a dupla de locutores decidiu que valia a pena enumerar os sete emirados árabes, a título de ilustração. Nota final: 6,6.

[especial para o caderno “Cotidiano”]

O cinismo de Charlie

Posted: 6th março 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S. Paulo / Ilustrada
6 de março de 2011

por Vanessa Barbara

“Não sou um completo inútil, posso servir de mau exemplo”, diz Charlie Harper, o protagonista de “Two and a Half Men”.

Nas últimas semanas, o ator Charlie Sheen tem seguido à risca a filosofia de seu personagem, um mulherengo alcoólatra que “ganha uma fortuna trabalhando pouco, dorme com mulheres lindas que não ligam para os seus sentimentos e, às vezes, durante o dia, sem nenhum motivo, prepara um monte de margaritas e tira um cochilo ao sol”.

Na série, o bon-vivant Charlie se vê obrigado a acolher o irmão Alan, um quiroprata recém-divorciado, e o sobrinho Jake, de dez anos.

A atração, em sua oitava temporada, era campeã de audiência nos EUA, com uma média de 15 milhões de espectadores por semana. Sheen ganhava o maior salário da tevê: 1,25 milhões de dólares por episódio.

O sucesso esteve relacionado, desde o início, às tiradas cínicas do protagonista, alter ego do próprio ator. Charlie Harper é imaturo e adora refugiar-se em bares onde “as garrafas são cheias e as mulheres, vazias”. Charlie Sheen, idem.

Usuário confesso de crack e cocaína, ele trocou na semana passada o programa de reabilitação por uma viagem às Bahamas na companhia de três loiras: a ex-mulher, Brooke Mueller, que outrora o denunciara por agressão, e duas atrizes pornô de 24 anos.

O Charlie ficcional tem um histórico parecido. Ao levar um fora da namorada, diz não saber bem o motivo: pode ter sido seu alcoolismo, sua compulsão por apostas ou o fato de ter dormido com a melhor amiga dela. “Mas me recuperei e fui morar com uma stripper viciada. Só que ela já era casada. Então achei que devia dar um tempo com os namoros e sair só com prostitutas.”

Cansado de tanto cinismo, o criador da série Chuck Lorre divulgou um manifesto levemente constrangedor logo após os créditos do último episódio, o que mais tarde deu origem à declaração ofensiva de Sheen e ao fim da série.

Lorre disse que passa fio dental todas as noites e faz radiografias periódicas do tórax. “Eu não bebo. Não fumo. Não uso drogas. Não pratico sexo selvagem com estranhos. Se Sheen viver mais do que eu, ficarei muito puto.”

Ao que tudo indica, Charlie Sheen já tem um lugar reservado no inferno. “Ótimo”, diria Charlie Harper. “Odeio ter que pegar fila.”