Como se faz um “Columbo”

Posted: 10th julho 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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O tema desta coluna ia ser outro, mas o recente anúncio da morte de Peter Falk (dia 23, aos 83 anos) foi a desculpa perfeita para promover uma maratona doméstica de “Columbo”, a melhor série de TV com protagonista zarolho. (Embora “Popeye” não fique tão atrás.)

O tenente Columbo é um detetive aparentemente simplório, amarfanhado e irritante da polícia de Los Angeles. A série segue o formato da “história de detetive invertida”, em que o espectador vê o crime ocorrer e sabe de antemão quem é o culpado, cabendo ao herói juntar as pistas e pegá-lo.

Os episódios têm longa duração, estendendo-se por até 90 minutos. É o tempo necessário para que os roteiristas possam desenvolver a investigação sem pressa, embaralhar as pistas, encurralar o pobre suspeito e encafifar o público quanto ao método escolhido por Columbo para pegá-lo.

Pouco a pouco, após ir embora e reaparecer várias vezes, lembrando-se de “só mais uma perguntinha”, o policial vai expondo as incongruências do álibi, até que o assassino não tenha outra saída senão se entregar.

As soluções encontradas pelo detetive são por vezes geniais, como num episódio em que ele desmascara um homicídio por meio do laço de sapato da vítima. Ou quando encontra uma carta incriminadora em que o culpado destaca o selo de forma descuidada, guardando a cartela na própria escrivaninha – neste caso, um legítimo jogo de encaixar.

Morro de vontade de saber qual o método usado pelos roteiristas para estruturar os scripts e, na falta de detalhes, fico tentada a “columbar”. É provavelmente uma escrita do tipo “de trás pra frente”, mas, nesse caso, o crime é só o início; o flagrante é que é o final. Imagino que eles devam procurar em primeiro lugar uma sacada investigativa, como a pista dos cadarços ou do selo, e desenvolver o crime a partir daí.

Conta-se que a equipe perseguia meticulosamente esses tais “estalos” investigativos (no original, “pops”), e que o próprio Falk se tornara obcecado por eles – a ponto de, certa feita, pedir que todos no estúdio da Universal tirassem as calças, só para checar que perna eles tiravam primeiro.

E toca inventar um crime passível de ser solucionado pela ordem das pernas fora das calças.

Foi com o meu pai que aprendi a importância de assistir grandes partidas de futebol mambembe, como Santacruzense vs. Penapolense, pela série A3 do Campeonato Paulista.

Foi através dele que descobri o programa “Jogos Perdidos” (ClicTV, ter., 10h), mantido por meia dúzia de abnegados que pegam a estrada para ver clubes desconhecidos em campeonatos regionais obscuros, registrando-os num blogue.

A equipe do JP costuma prestigiar times com 100% de aproveitamento negativo, desses que, no jogo inteiro, dão apenas um chute no gol, “e mesmo assim sem direção”. Recostados ao alambrado e enchendo a cara com Guaraná Poty, fotografam os lances de atletas chamados Pomarola, Papão, Alamir e um atacante de uniforme azul que atende pela alcunha de Amarelo.

“O jogo foi assustador em ruindade. No primeiro tempo, a maior emoção foi tentar achar um saleiro para salgar a pipoca, que estava horrorosa”, postou um dos membros. Mas não é sempre assim.

Acompanhar o futebol mambembe é uma lição de caráter que nos faz refletir sobre a pequenez das glórias mundanas e a importância de se esperar a autorização do juiz antes de irromper pela linha lateral, desgovernado, como fez um reserva do Elosport em partida contra o Capivariano pela Segunda Divisão do Paulista.

Para além dos “Jogos Perdidos”, há as clássicas transmissões da Rede Vida aos fins de semana, com ótima narração de Luiz Carlos Fabrini, que no final agradece ao Senhor por existir e aos espectadores pela agradável companhia. Há closes recorrentes da arquibancada semivazia, de um vira-lata sarnento e de um grupo de tiozinhos de moletom, logo atrás de uma placa do Açougue e Mercado Chicão.

A partir de maio passado, quem também entrou de sola no futebol de várzea é a TV Cultura, que aos domingos às 13h exibe as partidas amadoras do Campeonato Estadual de Seleções – Ligas Municipais.

Na semana passada (Araraquara vs. Serrana), houve até um espetacular passe de calcanhar. Mas a narração ainda está engessada e merecia uma boa reportagem prévia – informando ao leigo, por exemplo, quem é e o que pensa o atleta Zoião, qual a profissão de Weltinho, quantas vezes por semana treina o escrete de Votuporanga e se tem coreto lá em Jaboticabal.

O sem-carro

Posted: 1st julho 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Revista Piauí
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Tipos paulistanos: O sem-carro
Sinistro foi o dia em que Diesel concebeu o seu funesto engenho

por Vanessa Barbara

Piauí n. 58
Julho de 2011

Apesar da tolerância padrão de duas horas, as reuniões da Sociedade Paulistana dos Sem-Carro (SOPASECA) sempre começam atrasadas. A chegada dos associados e o estabelecimento de quórum dependem de fatores meteorológicos, geográficos, sísmicos, sindicais (greve dos metroviários, operação tartaruga da Viação Sambaíba) e subjetivos. Ainda que os encontros sejam marcados na vizinhança de estações de metrô, os membros geralmente precisam tomar duas conduções, seguidas de um trem (com baldeação), uma van clandestina, uma carona na rabeira de um caminhão e um trecho de paralelepípedo vencido a pé, totalizando um percurso que leva, em média, uma hora e quarenta minutos. Sem chuva.

Os sem-carro podem sê-lo por opção ou circunstância. No primeiro caso, minoritário, alinham-se autofóbicos e descoordenados. No segundo, pobres e novos-pobres. Em ambos, trata-se de uma condição penosa, que implica desafiar a normalidade social e as prerrogativas vigentes de sucesso, como quem tem seis dedos na mão direita ou torce para a Portuguesa – há quem padeça de ambas as condições, e ainda assim tem um possante na garagem.

Os sem-carro ostentam um senso de equilíbrio aguçado e nunca estão fora de forma. Não só conseguem se manter de pé como caminham galhardamente pelo estreito corredor de um Jardim Pery Alto–Santa Cecília com vistas a cumprimentar os presentes, tudo isso com uma sacola de travesseiros na mão esquerda, uma samambaia na outra, um triciclo debaixo do braço e um caso crônico de labirintite.

De índole liberal, não se deixam abalar pelo contato físico com os demais passageiros e não se envergonham de cair no colo de desconhecidos nas curvas mais fechadas. Nem fazem caso de, por conta de uma freada brusca, quicar vigorosamente pelos balaústres, bater a barriga na catraca ou colidir com o passageiro à frente, que tem feridas e uma verruga gorda que solta pus.

***

Os sem-carro sabem de cor o poema de W. H. Auden que diz: “Odioso foi o dia em que Diesel concebeu seu motor maléfico.” Eles odeiam os motorizados. É por culpa dessas criaturas torpes que somos obrigados a gastar quarenta minutos para percorrer três quadras da avenida Paulista, constipada de trânsito e de filas quádruplas de carros ocupados por uma única e peçonhenta alma, que ainda por cima canta em voz alta e aproveita o sinal fechado para cutucar o nariz. Da estação Brigadeiro até a avenida Angélica, na hora do lufa-lufa um peregrino a pé, com seu cajado, vence o percurso na mesma velocidade do ônibus, e ainda toma um café, troca ideias com um Hare Krishna e fortalece a panturrilha.

Só não se pode garantir que ele chegará a salvo no destino, pois, como todo motorista sabe, pedestre não é gente: é alvo. Em grande parte dos cruzamentos não há semáforos com bonequinhos verdes à espreita, a via tem três mãos de tráfego e só falta caírem carros do céu, bem em cima do desprotegido passante. Nessas horas, o sem-carro deve se valer do senso acurado de timing que possui desde a infância, e que vem a ser a mesma habilidade que nós, meninas, temos de entrar e sair de uma corda dupla em movimento, na época da pré-escola, sem tropeçar ou levar uma chicotada. Atravessar a rua sem farol é como pular corda pela própria vida, devendo o pedestre ter noções de física, velocidade angular, direção do vento e intensidade mínima do pique. Também é recomendável vestir roupas chamativas e ter boa capacidade pulmonar, sob pena de tombar exausto, em plena via, e terminar como um ex-pedestre.

Os sem-carro são acrobatas das ladeiras, equilibristas do coletivo, intrépidos beduínos a quem dá mais trabalho chegar ao trabalho do que trabalhar. Ainda assim, são pacientes, pois sabem como ocupar a mente no interior de um sacolejante Santana–Jabaquara. Filósofos por falta de opção, têm revelações profundas sobre a existência humana sempre que o ônibus quebra, o motorista erra o caminho ou a composição estanca, por conta do que se costumou chamar de “objeto na via” – um guarda-chuva ou um suicida nos trilhos.

“Nada como um bonde lento para meditar sobre o significado de todas as coisas”, afirmou Luis Fernando Verissimo, numa crônica sobre Porto Alegre. “O bonde Petrópolis subia a Protásio Alves como um velho subindo a escada, devagar e se queixando da vida. Sempre achei que se a linha do meu bairro fosse um pouco mais longa eu teria decifrado o Universo.” E acrescentou: “Se hoje tenho um pouco de equilíbrio emocional, bons reflexos e o mínimo de caráter para não dar na vista, devo tudo ao Petrópolis até o fim da linha ou J. Abbott.”

Além de se revelarem pensadores compulsórios e promissores, os sem-carro também aprendem a dormir impassíveis, sem cabecear ou apoiar-se no ombro de um desconhecido ao lado. Para um bom membro da SOPASECA, a habilidade mais invejada é a de cochilar em pé, feito um sábio hindu em estado de graça. Os sem-carro acordam antes de o sol nascer, moram longe e vão a pé. Têm sono o tempo inteiro e, no Mandaqui, já foram pegos dormindo enquanto caminhavam, numa espécie de sonambulismo ao contrário.

***

“A gente chamava isso de ‘piscina’”, explicou Millôr Fernandes. O humorista morou quinze anos no subúrbio do Méier, no Rio, e ia trabalhar e estudar de bonde. “Quando você mora muito longe é assim, você chega em casa meia-noite, uma hora, duas, bate com a mão na parede e volta. Já está na hora de trabalhar de novo.”

Os sem-carro agradecem diariamente ao Altíssimo pela ausência de escoriações graves e por permanecerem razoavelmente vivos. Eles são atropelados na calçada, na faixa de pedestres, no corredor de ônibus, nos estacionamentos e postos de gasolina por veículos que dão preferência a si mesmos, buzinando alegremente para apressar os velhinhos tísicos que estão no caminho. Os sem-carro incomodam desde Fuscas a caminhões, passando por vans, táxis, motos e os que querem estacionar no meio-fio, bem onde um cego está esperando para atravessar.

No que tange à orientação espacial urbana, os membros da SOPASECA só sabem fazer o “caminho do ônibus”, e por isso se quedam extremamente confusos quanto às rotas mais simples e a menor distância entre dois pontos – sobretudo quando o metrô entra na terra e eles se põem automaticamente a dormir, como em estado de animação suspensa.

Quem não é do time vai às festas usando vestidos de crepe e sandálias de salto agulha, enquanto os sem-carro vão de galochas, metidos num impermeável cor de laranja e com uma mochila nas costas cheia de lanches, livros, mapas, canetas, uma muda de roupa, esmalte, tesourinha de unha e equipamentos para enfrentar cataclismos climáticos. Quando perdem o Bilhete Único, cedem ao desespero.

Os sem-carro chegam à balada com os pés encharcados, ainda que tenham tido o cuidado de meter um saco de supermercado por dentro do tênis, e tentam ignorar os olhares de incredulidade dos demais. Enfrentam frio, vento e fuligem. Quando enfim alcançam o destino, já é hora de voltar – o último ônibus sai à meia-noite e meia, o metrô só abre às quatro, meus pés estão gelados e amanhã a Portuguesa vai jogar. Sabe como é.

Eu sou Moby Dick

Posted: 28th junho 2011 by Vanessa Barbara in Blog da Cia. das Letras, Crônicas
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Blog da Companhia das Letras
28 junho 2011, 3:44 pm

Por Vanessa Barbara

Baseado no romance homônimo de Ray Bradbury, o filme Fahrenheit 451 (1966, François Truffaut) fala de um futuro opressivo onde os livros são proibidos e incendiados. “É um trabalho como outro qualquer”, diz o protagonista Guy Montag, um bombeiro designado para apreender e tostar os objetos ilegais. “Às segundas, queimamos Miller; às terças, Tolstói; às quartas, Walt Whitman; às sextas, Faulkner; e aos sábados e domingos, Schopenhauer e Sartre. Queimamos até virar cinzas e depois queimamos as cinzas. É o nosso lema oficial.”

Certo dia, levado pela curiosidade, ele decide trazer pra casa alguns dos livros que confiscou. O primeiro que lê às escondidas é David Copperfield, de Charles Dickens. Daí pra frente passa a ler de tudo, com destaque para o verbete “rinoceronte” da enciclopédia.

Por fim, Montag é denunciado, mas foge e acaba encontrando um foco clandestino de resistência, formado por Pessoas-Livro (Book People). É gente que se propôs a decorar um volume inteiro de sua preferência, com vistas a salvá-lo do extermínio. “Guardamos os livros aqui dentro, onde ninguém consegue encontrá-los”, explica o líder, apontando para a cabeça. “Por fora, somos vagabundos. Por dentro, bibliotecas”, diz.

Uma moça se aproxima do forasteiro e pergunta: “Você se interessa pela República de Platão? Bem, eu sou a República de Platão. Posso me recitar pra você quando quiser”. O líder se apresenta como A vida de Henri Brulard, autobiografia de Stendhal, e aponta para os amigos: “Lá está O Morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë. E aqui O corsário, de Byron. Aquele sujeito magrinho é Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. E onde está Alice através do espelho hoje? Deve andar por ali.”

Outros residentes: uma alegoria cristã de John Bunyan chamada O progresso do peregrino(o sujeito comeu o livro para que não pudessem queimá-lo), a peça Esperando Godot, de Samuel Beckett, As crônicas marcianas, de Ray Bradbury, as Memórias de Saint-Simon e As aventuras do sr. Pickwick, de Charles Dickens. Quando o recém-chegado diz conhecer o autor inglês, pois já lera David Copperfield, o interlocutor responde: “Oh! Nós temos umDavid Copperfield conosco. Ele está com outro grupo, mais ao sul” — o que provavelmente deve ter entristecido Montag, que bem podia querer ser ele mesmo tal obra. Ao protagonista, porém, cabe saber de cor Histórias de mistério e imaginação, de Edgar Allan Poe, que, se não é o seu preferido, pelo menos não é tão grande quanto o primeiro.

Já O príncipe, de Maquiavel, é um gordinho careca de jaqueta surrada e meia azul, que postula: “Como você vê, não se pode julgar um livro pela capa”. Orgulho e preconceito, de Jane Austen, recém-editado pela Penguin-Companhia, são dois irmãos gêmeos, cada qual com seu tomo. “Costumamos chamar um deles de ‘Orgulho’ e o outro de ‘Preconceito’. Acho que eles não gostam muito”, informa A vida de Henri Brulard.

Ou seja, trata-se de uma biblioteca incongruente, na qual romances clássicos se misturam a livros de poemas, teoria, biografia e teatro, numa barafunda editorial que me incomoda um bocado. Nada é disposto em ordem cronológica ou alfabética, e não há uma coerência entre os títulos — podia existir, por exemplo, um foco de resistência só de literatura francesa, ou de ensaios em latim, ou de ficção contemporânea. Aos mais velhos, reservar-se-iam os escritos mais antigos, e aos mais novos só os romances com uma quantidade moderada de mesóclises.

* * * * *

Entre outros méritos, a história de Ray Bradbury dá novo significado à frase de Gustave Flaubert, “Madame Bovary sou eu”. Ninguém reparou, mas naquele momento ele anunciava sua opção, aludindo também ao fato de ter reescrito o livro demasiadas vezes. A má notícia aos que pretendem ser Pessoas-Livro vai para os fãs de Dostoiévski, obrigados a convocar esforços externos só para memorizar o glossário de nomes próprios de Os irmãos Karamazov, além de terem de se apresentar da seguinte forma: “Muito prazer, eu sou O idiota”.

Tudo isso pra anunciar que, diante da cervicalgia galopante e do recente colapso do espaço nas estantes (ver colunas anteriores acerca de feijões e prateleiras), decidi fazer como o povo da resistência e descentralizar mentalmente a minha biblioteca. À diferença da seleção de Fahrenheit 451, ela seria enxuta e criteriosa — mais criteriosa do que enxuta —, abrigando só ficção de estirpe, com ênfase nos clássicos, e alguma coisa de jornalismo literário e não ficção. Embora eu infelizmente não possa decorar livros que nunca li, espero que haja alguém disposto a memorizar o Mahabharata para quando eu tiver vontade de ouvi-lo.

Também darei preferência aos amigos com comprovada habilidade mnemônica, com exceção feita à minha mãe, que bem que gostaria de ser um épico como O senhor dos anéis ou Exodus, mas vai acabar tendo de se contentar com um soneto rimado, como este do Alphonsus de Guimaraens:

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

Se bem que sua memória não é lá essas coisas nem para as trovinhas e haicais, de modo que “cinamomos” logo serão substituídos por “reis Momos”, assim como “amor” sempre acaba virando “avô”, arruinando por completo os anseios de precisão do projeto, ainda que agregando criatividade ao conjunto. Em questão de semanas, A terra devastada se transformaria numa ode indefinida às tesourinhas de unha e supercomputadores, ao passo que A outra volta do parafuso, de Henry James, seria enriquecido com uma longa descrição de um pesadelo que ela teve outro dia, sendo Flora “aquela loirinha que fala engraçado” e a governanta impiedosamente cortada da versão final.

Ainda não sei qual livro pretendo me tornar (O grande Gatsby está na disputa, assim como Moby Dick e Tristram Shandy), mas sei que gostaria de conhecer Bouvard e Pécuchet, de Flaubert, e Da pequena toupeira que queria saber quem tinha feito cocô na cabeça dela, de Werner Holzwarth.

E você, que livro quer ser?

* * * * *

Vanessa Barbara tem 28 anos, é jornalista e escritora. Publicou O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O Verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o Escavador de Umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

A vida é curta. Fale rápido

Posted: 26th junho 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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A despeito da zombaria generalizada e perda total de reputação entre os meus pares, sempre gostei de “Gilmore Girls” (no Brasil, “Tal mãe, tal filha”, SBT, qua., 3h e Boomerang, ter. a sáb., 2h). É uma série corajosamente tola que durou de 2000 a 2007 e está disponível em 42 DVDs, sempre em liquidação.

A trama fala de uma jovem mãe solteira, Lorelai Gilmore, e de sua filha Rory. Ambas moram no pitoresco vilarejo de Stars Hollow, onde convivem com uma gama de personagens excêntricos – entre eles, um trovador residente, um cachorro chamado Paul Anka, um rapaz que aceita todos os empregos da cidade e um conselheiro municipal dado a longuíssimas e absurdas reuniões comunitárias.

Ao que tudo indica, a criadora Amy Sherman-Palladino (ao lado do marido, Daniel Palladino) parece seguir os preceitos do cineasta Billy Wilder, que mandava os atores refazerem as tomadas numa velocidade duas vezes maior: “Me dê uma alegria, corte uma semana dessa cena”.

Os diálogos de “Gilmore Girls” são torrenciais, ininterruptos e fazem parecer que todos injetaram cafeína no sangue. Os roteiros da série têm quase o dobro do tamanho normal, com uma página de texto por minuto.

Além da prolixidade e do vício por café, as garotas Gilmore dividem um gosto cinematográfico amplo e duvidoso, promovendo sessões comentadas de filmes diante de uma mesa cheia de comida. “Não sei por onde começar”, confessa Rory, ao que a mãe aconselha: “Bem, comece pelo topo e pare quando atingir a mesa.”

Num episódio típico, um maluco local decide protestar na praça, mas ninguém consegue entender sua demanda. “Acho que escutei ‘geleia’…”, alguém arrisca. “Ele é contra ou a favor de geleia?”, perguntam. O doido estende uma faixa com algo que começa com R, e alguém grita: “Ragu!”.

Como diz Lorelai, a realidade não tem chance em Stars Hollow.

Outro ponto alto são os monólogos da personagem ao se sentir constrangida, como num jantar de família em que ela inventa a frase foneticamente mais engraçada do idioma, “Oy with the poodles already”. Ou quando interage com Luke, o dono da cafeteria: “Eu quero um hambúrguer, anéis de cebola e uma lista de gente que matou os pais e saiu impune. Estou em busca de heróis”.

Coluna do Milton Leite

Posted: 23rd junho 2011 by Vanessa Barbara in Clipping
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Folha de S. Paulo
23 de Junho de 2011

Blog do Juca Kfouri

BELÍSSIMA
Digna de nota a coluna de Vanessa Barbara, no domingo, nesta Folha, sobre o narrador da vitória Milton Leite. Um texto leve e justo.


Folha de S. Paulo
20 de Junho de 2011

Painel do Leitor

Narrações de futebol
Até que enfim alguém da imprensa resolveu falar sobre Milton Leite, narrador de esportes do Sportv. Vanessa Barbara, na Ilustrada de ontem, mostra o que um telespectador comum gostaria de falar sobre o narrador.

Agora apareceu alguém diferente para narrar jogos pela televisão, fora da mesmice habitual.

Milton Leite, com seu jeito meio caipira, transmite as emoções que o telespectador está sentindo nas partidas, melhorando até esses jogos “mornos”, de um futebol meio acabado, que temos visto ultimamente. É hora de a Globo pensar em aposentar o Galvão.

TOMAZ DE AQUINO DOS SANTOS (Piracicaba, SP)

Veja você, Milton Leite

Posted: 19th junho 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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“O Osório vai embora com o seu caderninho, com o seu suco de morango, com seu adoçante líquido…”

É assim que o locutor Milton Leite, do SporTV, narra a expulsão do técnico Juan Carlos Osorio, do Once Caldas, em partida contra o Santos no mês passado.

Milton Leite é meu locutor preferido. Com seu estilo “Rock & Gol” de se ater às irrelevâncias, ele passa longuíssimos minutos reparando no técnico colombiano, cujo pitoresco método de comunicação com o time é mandar bilhetinhos através do capitão. “Nunca vi nada parecido em 30 anos de profissão”, comenta.

Além de empregar adjetivos com estilo (“foi uma reclamação acintosa”), ele é o mestre do sarcasmo, divertindo-se praticamente o tempo todo. Com o bordão “Que beleza!”, condena os lances mais ridículos, e com “Que fase!” ironiza o desempenho fraco de um clube.

Na partida da Libertadores, afirmou, sem rodeios, que um dos atletas não tinha “nenhuma habilidade”. Outras vezes, aplaude escorregadelas e tropicões, ou declara que alguém apanhou vergonhosamente da bola. “Acho que a esquerda não é muito boa na finalização do Caíque… Olha o câmera. Olha o esforço do câmera para acompanhar essa bola. Meu Deus.”

Durante o jogo de despedida de Ronaldo da Seleção, no dia 7, chegou ao ápice de sua carreira ao apelidar o atacante romeno Zicu de “o galinho de Bucareste”.

Valendo-se da experiência como locutor de rádio, Milton Leite não tem medo de improvisar. Hesitante, um jogador do Vasco recebeu a bola na pequena área e ficou decidindo pra onde chutava, ao que ele narrou: “Jéferson… Dominou… O que que eu faço com a bola? […] Ele bateu pra fora! Inacreditável!”

Não há limites para seu sarcasmo, o que é sempre bom quando se trata de uma partida importante, sisuda, dramática. “Ô, Bruno Octávio… Que beleza, Bruno Octávio… Ele nunca fez um gol na vida de fora da área. Aí, no Palmeiras e Corinthians, aos 39 do segundo tempo, ele pensou: ‘Agora eu se consagro!’ [sic] e pegou de tornozelo na bola. Ela veio parar perto da bandeirinha de escanteio”.

Mesmo quando é ele quem escorrega, Milton Leite não perde a pose: “Gol do Barueri”, ele confessa, logo após anunciar que a bola foi fora. “Veja você.”

Queria escrever

Posted: 16th junho 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas
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Blog do IMS | Instituto Moreira Salles
16.06.2011, 13:50

O Instituto Moreira Salles acaba de lançar uma nova edição dos seus Cadernos de Literatura Brasileira. O número 26 da série, iniciada em 1996, é dedicado a Rubem Braga, o maior criador da moderna crônica brasileira. Em meio às homenagens prestadas pelo IMS ao cronista, o blog do ims convidou os escritores Vanessa Barbara, Antonio Prata, Chico Mattoso e Cecília Giannetti para criar um texto à maneira de Rubem Braga.

Abaixo, segue a colaboração de Vanessa Barbara.

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Queria escrever

Queria escrever um texto bonito, algo que a moça das verduras pudesse levar consigo no ônibus após um dia sem couves, e que ela fosse reler de mansinho e recortar para as amigas. Um texto sereno, bonito pra burro, que fizesse marejar os olhos de um velho coronel, por um momento arrependido de nunca ter sido jovem e nem trapezista – e de ter dispensado sua primeira namorada, só porque era hippie e não tinha todos os dentes.

Que seja tão inesperado e forte quanto um soluço, que faça despertar as tartarugas e sorrir os banguelas. Que o porteiro, quando ler, pense no seu jardim esquecido, em seus netos adultos e em uma vida só de reprises do Pica-Pau.

Um texto bonito para um determinado pombo, que, atrapalhado, se enroscou num fio de eletricidade e não saiu mais de lá. Isso foi num cruzamento de avenida; o pombo fez que ia conseguir escapar e não escapou, atraindo em minutos uma turba de curiosos, guardas de trânsito, senhoras palpiteiras, vendedores de mata-moscas. Quando fecharam o trânsito para socorrer a ave, um jovem policial militar ergueu a escada do caminhão de bombeiros, repassou o plano e foi cumprir o seu dever cívico; uma senhora ao meu lado exclamou, plena de gravidade histórica: “Olha só, fiquei toda arrepiada”.

Um texto para esse pombo, resgatado do fio de luz sob os aplausos do povo, ainda trêmulo e um pouco tímido, um pombo que possivelmente não terá maior momento de glória nessa sua vida emplumada. Um texto para os que estavam assistindo a tudo e entenderam, na hora, que havia quem passasse a vida inteira em busca de um momento como este, em que um pombo nervoso sai carregado pelos braços do povo, tendo mobilizado dois batalhões da PM e um destacamento especial do Corpo de Bombeiros. E havia gente nos beirais das lojas e nos meios-fios, e os funcionários do metrô dando uma pausa no trabalho, e alguém rezando em voz baixa.

Um texto bonito para a minha rua, para os meus amigos, para o cobrador do 1744 e para todos aqueles que dormem cedo demais. Algo bem tolo, desnecessário, que lembre poemas rimados, que agrade o vizinho cansado, o professor de astronomia, as verdureiras, os militares e os pombos que se enroscam em fios de luz.

Um texto bonito, mas tão bonito que você não possa deixar de lê-lo, ainda que, numa noite fria, ele precise se revelar misticamente numa sopa de letrinhas, todo arranjado em estrofes e ervilhas de pontuação, e você pense nele como pensa em gorrinhos. Um texto tão bonito que o faça botar uma roupa estranha, vestir o chapéu e se sentir instantaneamente aquecido, saindo à rua com a determinação trêmula de um pombo.

Um texto tão bonito que o faça voltar pra casa, meu amor, sob o triste cochilo da lua.


* Vanessa Barbara nasceu em 1982, em São Paulo. É jornalista, tradutora e editora do blog A Hortaliça. É autora deO livro amarelo do terminal (Prêmio Jabuti 2009 na categoria Reportagem), O verão do Chibo, em parceria com Emilio Fraia.

Histórias românticas

Posted: 12th junho 2011 by Vanessa Barbara in Folha de S. Paulo, TV
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Aos 44 anos, Judith Mawson encontrou o amor da sua vida. Após sair de um casamento traumático marcado por abuso de drogas, violência e traições, ela enfim conheceu um homem carinhoso, simples e correto, com quem passou 14 anos num casamento feliz.

Seu nome era Gary e ele posteriormente confessou ser o “Assassino de Green River”, um serial killer que estrangulou pelo menos 48 mulheres em quase duas décadas de atividade.

Na série “Com Quem *!$)& Me Casei?”, do Discovery Home & Health (ter. às 23h), Judith conta que tinha um relacionamento perfeito. Gary era atencioso e gentil. Levava a esposa para acampar, ensinou-lhe o “pasodoble”, cuidava dos poodles do casal e vivia fazendo passeios de bicicleta. Ela nunca teve motivos para duvidar de sua sinceridade.

“A única coisa que estranhei, quando fui morar com ele, é que não havia tapetes na casa”, ela recorda. Os detetives lhe disseram mais tarde que Gary devia ter usado os tapetes para enrolar os cadáveres.

É esse tipo de coisa que se descobre na bipolar e emocionalmente instável programação do Discovery Home & Health, um canal que, quando não está falando de grandes festas de casamento e de casas espetaculares, trata de infidelidades, brigas e demais atrocidades matrimoniais.

Às terças-feiras, a série conta o drama de pessoas que se casaram com ladrões de banco, espiões, falsários, bígamos ou golpistas, e só foram saber tarde demais. Mildred Muhammad, por exemplo, teve três filhos com John Allen que, após o divórcio, veio a se tornar o atirador de Washington, alvejando 17 pessoas a esmo só para poder matar Mildred sem despertar suspeitas.

Terça-feira também é dia de “Traidores”, no mesmo canal (às 22h), que exibe contos de fadas como o de uma chinesa, esposa de um chinês, que misteriosamente dá à luz um filho afro-descendente. Na série, pessoas comuns tentam juntar as peças de uma história mal contada e acabam descobrindo infidelidades e segredos dolorosos de seus cônjuges.

Tudo isso para comemorar o Dia dos Namorados com estilo e alegria. E só pra não dizer que sou catastrófica, o próprio Discovery dá a solução: “Carpinteiro a Domicílio”, todas as quartas às 20h30.

As formigas de Morgan Freeman

Posted: 5th junho 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Se há um papel que o ator Morgan Freeman sabe fazer é o de velho sábio com voz firme e comportamento sereno, bússola moral da sociedade, “voice over” da existência.

Em “Conduzindo Miss Daisy”, ele fez um motorista do tipo humilde que tira valorosas lições de vida de seu passado criando porcos. Em “Um Sonho de Liberdade”, fez um condenado endurecido pelo sistema, porém capaz de se entregar a uma amizade verdadeira.

No cinema, já aconselhou Robin Hood, Batman e Clint Eastwood, foi o presidente americano em “Impacto Profundo”, Nelson Mandela em “Invictus” e o próprio Deus em “Todo-Poderoso”.

Morgan Freeman, que aparentemente nunca foi jovem, instila uma esperança profunda advinda da experiência. Nada mais natural, portanto, que ele fosse o escolhido para apresentar o programa “Grandes Mistérios do Universo”, do Discovery Science (seg. às 21h), considerando-se que ele já entendeu tudo, há muito tempo.

Nesta série inédita de documentários, ele aborda as grandes incógnitas da existência, sob a ótica de novas teorias em astrobiologia, astrofísica e mecânica quântica. Tudo isso num tom duro, porém paternal, como nesta consideração sobre o Big Bang: “Como vamos saber se foi assim mesmo? Afinal, ninguém estava lá para ver”. As explicações científicas se alternam com lembranças de sua infância, com destaque para uma adorada fazendinha de formigas que ele criava no quarto.

Amanhã, serão abordados os buracos negros, que, segundo novas hipóteses, podem não passar de hologramas em duas dimensões na borda do universo. Nos programas anteriores, nosso velho sábio já discutiu a possibilidade de viagens no tempo, a existência de Deus e a criação da vida, destilando um farto número de hipóteses sobre quem somos, de onde viemos e o que existe para além da Terra.

A segunda temporada, que começa dia 8 nos EUA, terá um episódio de estreia sobre vida após a morte, seguido de discussões sobre a aparência dos aliens e a imortalidade.

Por algum motivo, a série não me convence – talvez porque, ao deixar inúmeras questões em aberto, ela tenta desviar o espectador de uma única certeza: Morgan Freeman já sabe tudo, e não há mais espaço para dúvidas. Nós somos as suas formigas.