Memórias umbilicais

Posted: 5th fevereiro 2011 by Vanessa Barbara in Clipping
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Folha de S. Paulo / caderno Folhinha
5 de fevereiro de 2011

 

Fórum social virtual

Posted: 1st fevereiro 2011 by Vanessa Barbara in esquinas, Reportagens, Revista piauí
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Piauí n. 29
Fevereiro de 2009

por Vanessa Barbara

Nerds de todo o mundo, uni-vos!

Na fila do credenciamento, uma massa de garotos vestindo bermuda arrasta seus computadores em carrinhos de feira. Outros trazem notebooks debaixo do braço, além de caixas de ferramentas, garrafas térmicas e colchonetes. Estão prestes a entrar na segunda edição da Campus Party, em São Paulo, um evento de tecnologia em que os 6 mil participantes – e seus computadores – acampam durante sete dias para compartilhar uma conexão à internet de inacreditáveis 10 gigabytes (10 mil vezes mais rápido do que uma conexão normal). Na prática, trata-se de um galpão onde todos interagem em rede, baixando jogos eletrônicos e transmitindo seus programas de áudio e vídeo a quem se interessar. Também acontecem palestras ligadas a doze áreas temáticas, como blogs, games, fotografia, astronomia e software livre. É o Fórum Social Mundial do mundo nerd.

Este ano, o evento aconteceu no Centro de Exposições Imigrantes, entre os dias 19 e 25 de janeiro. Foi uma semana de intensa balbúrdia, com gente gritando em megafones, palestrantes tentando chamar a atenção do público e empresas fazendo todo tipo de promoção. “Parece a Super Casas Bahia”, comentou um participante, em alusão ao feirão de fim de ano organizado pela loja de varejo. A arena principal podia ser dividida em setores: havia uma ala só de garotos rodando jogos como Crysis e Counter-Strike, absortos em fones de ouvido gigantes. Outra só de entusiastas da robótica, soldando placas e estudando circuitos para fabricar máquinas antropomórficas com cabeças de som estéreo e cabelos de fibra ótica. O baiano Cristiano Pimentel, 25 anos, funcionário público de Alagoinhas, apresentou um projeto que lhe pareceu revolucionário: um aquário que alimenta automaticamente os peixes. Na área de modding – modificação de computadores -, reinava a bizarrice de cores e formatos de CPUs. Alguns gabinetes imitavam carros e robôs, outros eram feitos de madeira, de plástico transparente e chegavam a medir quase 1 metro de altura.

Orgulhoso de si mesmo, um participante fulminou: “Hoje o nerd é uma das coisas mais importantes que existe, é o cara que move o mundo.” Na Campus Party de 2009, eles vieram de 26 estados do Brasil e de vários países do mundo – chegou a correr um boato de que havia um sujeito da Bielo-Rússia que viera de Minsk só para isso. (Ele não foi encontrado.) A maioria dos participantes era do sexo masculino e estudava ciência da computação. Que ninguém pense que são jovens sem bandeira. Há quarenta anos estariam gritando: “Abaixo a ditadura!” Hoje, continuam criando calos nas cordas vocais, agora em oposição à ditadura da propriedade intelectual. “Viva o pinguim! Viva o software livre!”, gritaram todos na abertura da feira, em referência ao pinguim que serve de mascote ao Linux, o Windows dos anarquistas, um sistema operacional que pode ser baixado de graça.

Alguns participantes confessaram frequentar a Campus Party só para fazer uso da conexão rápida e baixar vídeos, seriados e jogos. Alguns traziam discos rígidos com capacidade para armazenar até mil filmes. A expectativa dos organizadores era que houvesse um efetivo compartilhamento de conhecimento e criação de novos conteúdos – de preferência, mais ambiciosos do que o alimentador de aquários. Durante o evento do ano passado, dois jovens desenvolveram uma geringonça que, ao emitir raios infravermelhos, substituía tanto o mouse quanto o teclado. Os inventores utilizaram apenas o que estava à mão: velcro, sensores, pilhas e um controle de videogame Nintendo Wii. MacGyver se roeria de inveja.

***

Em meio a militantes anticopyright, entusiastas de sites de relacionamento e fotógrafos amadores, havia os descompromissados. Estavam ali só para se apoderar dos pufes e navegar ao deus-dará. Na tarde de quinta-feira, o publicitário Rodolfo Castrezana, 38 anos, tomava suco de goiaba e jogava Spore. Na sexta, ele continuava lá, firme e forte, dessa vez transmitindo imagens em tempo real de uma amiga sua que discorria sobre pastéis de frango, origami e inutilidades afins. São cenas assim que instilam a dúvida em alguns. “Eu fico vendo uns vídeos que a galera libera do dia-a-dia da feira e me pergunto sobre a utilidade desse evento”, ponderou o biólogo e blogueiro Thiago Henrique Santos, 26 anos, de São Bernardo do Campo.

Como 72% dos inscritos tinham entre 18 e 29 anos, ninguém duvidou da informação extra-oficial de que foram compartilhados mais de 6 gigabytes de conteúdo pornô. E não causou espanto o fato de que, a despeito da presença de Tim Berners-Lee, criador da World Wide Web e do primeiro website, as grandes estrelas do evento foram as três coelhinhas da revista Playboy que se revezavam no estande da Abril: a ruiva Ana Lúcia Fernandes, a morena Márcia Spézia e a loira Thaiz Schmitt, todas vestidas com maiôs minúsculos, meia-calça arrastão e rabinho de pompom. As três viviam cercadas de nerds esfuziantes com suas câmeras digitais em punho. Um deles chegou a apalpar os glúteos da coelhinha ruiva, que saiu do evento chorando. O vilão ficou conhecido como o “bolinador de coelhinhas”.

Como era de se esperar, durante as madrugadas a Campus Party seguia animada. Entre um download e outro, participantes organizaram mundanas partidas de truco e rodinhas de violão. “Acho que desaprendi a dormir”, disse um. “Baixei 5 gigabytes em quinze minutos”, comemorou outro. Os que preferiam cochilar se dirigiam às duas mil barracas do setor de acampamento. “Sinto frio”, reclamou Felipe Attílio, num bate-papo virtual. “Comprei um edredom pra não morrer congelado, mas ele fede. Não sei se prefiro ficar com frio ou feder.”

A Campus Party 2009 chegou ao fim tendo reunido 2 492 desktops e 1 508 laptops. Ainda não se tem o balanço final da feira. Sabe-se, porém, que acertou na mosca o nerd sedutor que arriscou a cantada “Você para mim é o Google: acho tudo que eu quero em você”. Por outro lado, não ficou claro se o sujeito que estava trocando um rim por um MacBook aluminium de 13,3 polegadas, 360 Gb de HD e 4 Gb de RAM encontrou um interessado. (Melhor não, porque logo logo chega a versão com 8 giga.)

Blog da Companhia das Letras
31 janeiro 2011, 3:30 pm

Por Vanessa Barbara

Se houvesse bom-senso no mundo, “preparador de texto” seria uma afecção mental categorizada pelo CID-10 (Classificação Internacional de Doenças e de Problemas Relacionados a Saúde, Décima Revisão).

Nas editoras, o preparador é aquela pobre alma responsável pela primeira revisão de um livro, ainda no arquivo de Word. É a mais trabalhosa, que busca limpar o texto, corrigi-lo e aperfeiçoá-lo. O trabalho de preparação consiste em adequar o original às normas editoriais, seguindo um gigantesco manual de padronização que dispõe sobre citações, versaletes, colocação pronominal, pontuação, galicismos, siglas, topônimos estrangeiros e coisas como o singular de “gnocchi”, que é “gnocco” e não pode ser aportuguesado para “inhoco”.

Trata-se de uma leitura atenta, escorada por vasto material de apoio e dicionários vernáculos. Inúmeros detalhes devem ser considerados — itens como sintaxe, coerência, ortografia, ambiguidade, repetição desnecessária, vícios de linguagem, ecos de língua estrangeira, falsos cognatos, ritmos frasais e outras questões de cunho literário. O texto deve fluir bem, sem engasgos.

É obrigação do preparador formatar o arquivo original e bater todos os parágrafos (verificando se o tradutor não pulou nenhum trecho). Essa é uma tarefa particularmente apreciada pelos mais neuróticos, que ajeitam quebras de página e formatam títulos com o entusiasmo de quem toma Berlim.

Um bom preparador é caso psiquiátrico. Convém que ele sofra de um leve transtorno obsessivo-compulsivo e seja persistente, perfeccionista e incansável. É preciso gostar de pesquisar minúcias como a composição química do tricofitobezoar, interessar-se por dispositivos bélicos da Segunda Guerra, especializar-se em generais bizantinos, possuir um dicionário de gírias de milicos e ler tudo sobre a moda seiscentista só para checar se a infanta Margarida usava calcinhas de elástico.

O preparador de originais é um xiita vocabular. Em Ser feliz, de Will Ferguson, há uma frase que resume a categoria: “O preparador de texto enlouqueceu”, exclama May. A personagem é editora de livros e até entende que o preparador é pago para ser minucioso, conferir gramática, pontuação e uso do idioma. “Mas esse sujeito passou das medidas. Passou mesmo. Ele assinalou a frase ‘manuscrito escrito à mão’, disse que era redundância, que a raiz em latim é manus, que significa ‘mão’.”

Tem todo o meu apoio.

O preparador é aquele sujeito que chega a sacrificar uma lagartixa só para ver se ela escorre pela parede ou desaba de uma vez no chão. Minha mãe quase chegou a esse ponto — sim, pois a preparação é um ofício que passa de geração em geração, só que ao contrário. Minha avó será a próxima.

Tem alma de preparador aquele que desconfia de tudo e se gaba publicamente ao encontrar algum erro gritante no original, como passagens bíblicas equivocadas num livro sobre São Francisco de Assis ou um tradutor que topou com a expressão “coolie-hating” e, distraído, salpicou um desvairado “ódio aos cães da raça collie”.

Corre a lenda sobre um profissional que achou uma incongruência no enredo de A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares. Desde já, um mito entre seus pares.

Quando o distinto Paulo Werneck (ex-editor da Companhia e hoje no caderno Ilustríssima, da Folha de S.Paulo) me convidou para trabalhar para a editora, resgatando-me de um deprimente cargo de revisora num site de fofocas, ele revelou a principal qualidade do preparador: a desconfiança. Duvidar de tudo, até da grafia de Shakespeare, Tolstói e Getulio Vargas. (Sobre essa última, a lendária preparadora Márcia Copola deu a palavra final: após pesquisar documentos da época, viu que o Pai dos Pobres não acentuava o nome ao assinar, e assim ficou estabelecido).

Em termos de mania, a inverossimilhança e a impossibilidade física fazem salivar qualquer preparador. Uma frase pronta para a intervenção: “Com os cotovelos apoiados no ombro, ele se sentou correndo sobre a panturrilha esquerda, movendo o cenho na direção oposta”. (A não ser que o livro tenha motivos circenses. Nesse caso, convém ter à mão o telefone do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Picadeiro para esclarecer eventuais dúvidas.)

Como último e derradeiro sintoma da moléstia, o preparador de texto deve sofrer de dupla personalidade, pois precisa se mostrar respeitoso e arrogante a um só tempo. Respeitoso com o estilo do autor e com as soluções do tradutor, mas arrogante o suficiente para passar a tesoura e reformular os trechos que julgue necessário.

Um bom preparador se constrói com muito tempo, experiência e calmantes. Embora eu já demonstrasse pendor para a atividade em meus tempos de revisora de fofocas — títulos de minha lavra: “Gatuno rouba peruca de Jennifer Lopez” e “Julio Iglesias tira o sapato em cadeia nacional” —, minha consagração na área de copy-editing veio mesmo na Companhia das Letras, onde exasperei editores com meus comentários longos, engraçadinhos e desnecessários, e causei poderosas enxaquecas em tradutores renomados com minhas dúvidas e anseios estilísticos.

Nas palavras de FERGUSON 2002, pp. 71-2: “Preparadores de texto, ah! Todos malucos. Malucos, estou te dizendo!”.

* * * * *

Vanessa Barbara é jornalista e tradutora. Entre as suas preparações mais ilustres, destacam-se Os dentes falsos de George Washington (Robert Darnton), Anos do Condor(John Dinges), Nova York (Will Eisner), 71 contos (Primo Levi), Quebrando a banca (Ben Mezrich) e Histórias extraordinárias (Poe), além de livros de autores como Moacyr Scliar, Zé Miguel Wisnik e Shakespeare.

Resenha no blog “O Leitor Comum”

Posted: 31st janeiro 2011 by Vanessa Barbara in Clipping
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31 de janeiro de 2011
Blog “O Leitor Comum”

por Arthur Tertuliano 

TÍTULO LIDO NA SEMANA
O livro amarelo do terminal, Vanessa Barbara

Sabe aquele livro amarelo da Cosac Naify?

Como dizer não? Você conhece boa parte do catálogo da editora – que se destaca com projetos gráficos fora do comum, diga-se de passagem –, então provavelmente já viu o danado do livro. A guria é bonita e inteligente – chamemo-la Y. – e a combinação ainda não fez você gaguejar, ou suar demasiadamente, ou esquecer que consegue conversar por mais do que meia hora sem chegar ao ponto de não ter mais o que dizer: a maldição da falta de assunto, o silêncio constrangedor, conspurcado apenas pelo cricrilar dos grilos.

Ahn… sim.

E o diálogo flui sem maiores sobressaltos.

**

Meses depois, num café com um dos amigos mais recorrentes em minhas colunas – continuemos a chamá-lo K. –, ele me empresta dois livros: uma história em quadrinhos baseada num filme de Fritz Lang, ainda não lida; e O livro amarelo do terminal, de Vanessa Barbara.

O título parece ser apenas O livro amarelo e só ao abrirmos a orelha do volume é que lemos o restante. Uma brincadeira proposital, uma vez que o livro é quase que inteiramente… amarelo. Para variar, mais um projeto gráfico impecável da Cosac Naify. Nas páginas amarelas, em papel tão fino que permite ver o verso da folha, há um elegante cuidado com a diagramação para que as linhas do texto não se sobreponham. Nas páginas dedicadas à numeração dos capítulos, os traços da frente e do verso das folhas se misturam, criando figuras distintas nesse encontro.

Mas se o livro fosse meramente design gráfico, não sei se estaria na Cosac Naify. Como diria um clássico da sabedoria nacional: não é só um corpinho bonito, é muita cuca no lance.

O bom de ler livros indicados por alguém em cujo gosto confio plenamente é que consigo aproveitar melhor certas nuances e surpresas que poderiam ter sido reveladas na quarta capa, por exemplo. Confiando assim, não preciso ler orelha, quarta capa, resenha, ou crítica antes do livro propriamente.

No entanto, por algum motivo, enquanto ainda estava na metade da leitura d’O livro amarelo, fiquei curioso em saber mais sobre a autora e li as páginas finais, onde há uma breve biografia. A partir daí descobri que ela, “em 2003, fez as pesquisas e a redação d’O livro amarelo do terminal, como reportagem de conclusão do curso de jornalismo”. O que não chegou a ser uma grande surpresa, mas talvez tivesse condicionado a leitura do livro.

Afinal, eu estava lendo-o como um romance. Uma narrativa longa de ficção, sobre personagens diversos que convivem em certo ambiente: o terminal. Há dados, críveis, sobre cada setor do local, que poderiam ser fruto da pesquisa aprofundada de uma metódica escritora ou da imaginação de alguém capaz de escrever com admirável verossimilhança. Apenas as páginas brancas – que englobam os capítulos 14 a 16, que discorrem sobre A construção, A inauguração e A consolidação do Terminal Rodoviário do Tietê –, em que há uma colagem de reportagens de periódicos diversos, aponta mais claramente a base jornalística do livro.

A leitura da prosa de Vanessa Barbara aproxima-se com a sensação que tenho ao assistir a alguns documentários. Não aqueles em que se finge que a câmera não altera o observado, num arremedo de neutralidade, cheios de vazios e longos silêncios. A câmera de Barbara é cheia de vida e parece-me mais uma chance para que aquelas diferentes pessoas contem um pouco de suas vidas do que uma amostra do quão bem a escritora consegue narrar tais histórias. Entre o balcão de informações e a sala de controle de onde são feitos os anúncios dos alto-falantes, Rosângela, Álvaro, Augusta e outros passeiam pelas páginas; trabalhando duro, indo para ou chegando de lugares distantes, mas com um sorriso no rosto.

Enfim, o livro emociona.

Update: Achei no site da Cosac Naify uma entrevista com as responsáveis pelo projeto gráfico do livro.

Suécia, terra da alegria

Posted: 30th janeiro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Chega de detetives geniais, excêntricos ou espirituosos. Agora a moda é inspetores enfadonhos, depressivos e sem nenhum dote intelectual extraordinário.

O mais insigne deles, se é que podemos dizer assim, é o britânico Inspetor Morse, da série homônima da ITV exibida entre 1987 a 2000. (Falaremos dele em outra ocasião, a fim de evitar que os leitores cochilem.)

O mais recente é Kurt Wallander, aclamado detetive criado pelo escritor sueco Henning Mankell. Diante do sucesso dos livros, uma produtora escandinava lançou em 2005 a série de TV “Wallander”, exibida pela BBC4 e, no Brasil, pela Film&Arts, com duas temporadas de treze episódios cada.

Wallander é um policial de meia-idade solitário, divorciado e alcoólatra, com hábitos de vida pouco recomendáveis. Nas investigações, é dado a rompantes de raiva. Não se dá bem com a família, nem com os colegas de trabalho.

Fascinado pelo alto-astral do escandinavo, o ator shakespeariano Kenneth Branagh resolveu interpretá-lo numa nova adaptação para a BBC escocesa. Em 2008, estreou o “Wallander” britânico, com duas ótimas temporadas de três episódios – a primeira saiu em DVD no Brasil.

A julgar pela ficção, a pacata cidade de Ystad é uma espécie de Bronx dos países nórdicos. Não se deixe enganar pelo que dizem da Suécia: lá existem seitas satânicas, homicídios ritualísticos, espancamento de velhinhos, gangues neonazistas, psicopatas sádicos, tráfico de órgãos e brutalidade sexual. Numa mesma semana.

(Na dúvida, é só consultar a trilogia “Millenium”, do conterrâneo Stieg Larsson. Dizem que os suecos têm tantos subsídios e assistência estatal que, quando perdem as chaves do carro, desistem de viver.)

Wallander é obstinado, mas revela uma certa demora para desvendar os mistérios, ao contrário da maioria dos detetives ficcionais. É um inspetor existencialista com dúvidas sobre a profissão, que vive decepcionando a filha e que, como o inspetor Morse, adora ouvir ópera.

É difícil gostar dele, e aí é que está o atrativo de “Wallander” – isso e a desgovernada criminalidade sueca. “Ótimo. Só fica melhor e melhor”, exclama o policial, diante de um cadáver enforcado numa igreja.

Wallander, dizem, nunca sorriu.

Um monge do barulho

Posted: 25th janeiro 2011 by Vanessa Barbara in esquinas, Reportagens, Revista piauí
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Um monge do barulho
Sábio hindu ergue a voz interior e cala paulistanos por 15 minutos

por Vanessa Barbara

Piauí n. 52
Janeiro de 2011

No começo da noite de 22 de outubro, uma sexta-feira, a Companhia de Engenharia de Tráfego registrou 100 quilômetros de congestionamento nas ruas de São Paulo. Representando 11,5% do total de vias monitoradas, o índice não era exatamente um recorde, mas já inviabilizava qualquer esperança de alcançar a iluminação e o nirvana em plena rua da Consolação.

Encravado na balbúrdia de carros, ônibus, buzinas e bafo de carburador, o Sesc do bairro promovia um workshop de meditação vedanta. Às 19h30, na Sala Ômega, a coordenadora do evento apresentou o palestrante – swami Nirmalatmananda – um indiano baixinho de túnica ocre que vinha “adoçar a noite com suas palavras”. Swami Nirmalatmananda, desde 1999 no Brasil, formou-se em matemática, física e química e trabalhou dezessete anos em Calcutá, na sede da ordem Ramakrishna, antes de ser transferido para São Paulo, onde é diretor espiritual de um templo dessa corrente hinduísta.

A princípio, o monge – swami, em sânscrito – se mostra em desacordo com o microfone, mas logo chega a um entendimento com o objeto inanimado e inicia o evento puxando um mantra de paz. Depois, toca a dissertar sobre a unidade da existência, a natureza divina da alma e a filosofia vedanta em geral, trazendo à luz verdades profundas que, para desafio espiritual dos circunstantes, são vazadas num idioma sincrético anglo-lusitano.

***

Um intérprete está ali para ajudá-lo nos momentos de maior complexidade expositiva. Trata-se de um sujeito que traz um molho de chaves pendurado no cinto e que passa o tempo todo analisando as próprias unhas, tarefa na qual visivelmente se concentra. Às vezes, distraindo-se, traduz do português para o português. O monge diz: “Concentração é o controle da energia de toda substância mental pela força de vontade.” Chacoalhando as chaves, o intérprete traduz: “Ele disse que concentração é o controle da energia de toda substância mental pela força de vontade.”

Conforme explica Nirmalatmananda, a meditação é um método para chegar ao âmago do Ser Supremo, realidade transcendente e impessoal, subjacente a tudo o que existe – a nós, inclusive, daí a expressão “autoconhecimento do Ser Supremo”. Etimologicamente, veda significa “conhecimento” e anta é a essência dos Vedas, os quatro livros que funcionam como a bíblia do hinduísmo. Esse conhecimento, todavia, não é de ordem intelectual, mas, sim, espiritual, em correspondência com a nossa própria natureza divina. É simples.

“Por que devemos buscar isso?”, indaga Nirmalatmananda à plateia de umas cinquenta pessoas, muitas das quais estão ali com a finalidade expressa de passar o tempo enquanto o trânsito não se desafoga. “Porque coloca um fim a todos os sofrimentos para sempre”, esclarece ele. “Liberta de todos os medos, inclusive o da morte. Elimina para sempre todas as dúvidas da vida. Realizando-o, nada mais resta a buscar.”

Evidentemente ansiando por coisa melhor, duas meninas passam a cochichar sobre o que pretendem fazer mais tarde. “Você dorme tarde?”, pergunta uma delas. “Não muito”, responde a outra. O sábio não faz caso e aponta para a tela do PowerPoint, na qual estão arrolados alguns aspectos da natureza do Ser: existência plena, conhecimento infinito, bem-aventurança e unidade. “Existe algo que perpassa todos nós, mas não estamos conscientes”, ele diz. “Quando essa Existência Única é vista em sua essência, é chamada de Ser Uno e Infinito.”

***

Um celular toca, alguém sai da sala para atender. A fim de tornar mais acessíveis os conceitos, o monge escolhe um exemplo: “Pense numa guirlanda. Você a aprecia, mas o que mantém essas plantas juntas? Um fio fino que geralmente não vemos.” A meditação, portanto, seria o fluxo constante e ininterrupto de energia mental que conduz à absorção total e à união com o Ser Uno e Infinito. É o mais elevado estágio de concentração. (Nesse instante, o monge enquadra as adolescentes com um olhar  fulminante.) “Onde tem concentração tudo floresce”, afirma swami. (As meninas resistem.)

Num último esforço, o santo homem recorre à imagem de uma abelha que, para sugar o néctar, fica zumbindo e dando voltas em torno da flor, sempre assim, girando e zumbindo – bela alegoria da concentração. Quando ela consegue atingir o miolo, o zumbido some e não há mais abelha separada de flor, existe apenas comunhão, um pleno indistinto de bicho-e-planta.

Na meditação profunda, o estado mental de concentração torna-se um fluxo sem interrupção ou distinção, esclarece melhor swami Nirmalatmananda. Donde, pois, qualquer um dos presentes poderia extrair o corolário de que semelhante estado elimina toda manifestação fenomenológica de celulares e cochichos paralelos. Donde, também, a conclusão irreprochável: naquele momento, a Sala Ômega podia se encontrar em muitos estados, menos o da concentração.

Derrotado pelos risinhos das moças, swami Nirmalatmananda resolveu partir para a ignorância: conduziria ali mesmo, no ato, uma sessão de meditação. Chegou a cogitar a hipótese de promover a experiência ao longo de meia hora, mas a funcionária do Sesc achou graça e avisou que ninguém ali conseguiria ficar mais de quinze minutos em silêncio. Que fossem quinze, então.

E assim foi. As luzes se apagaram e, monotonamente, swami recitou o mantra Om – o som primordial, o purificador do ego, a súmula da sabedoria, a representação sonora do Universo, o corpo do Absoluto –, seguido da repetição de shanti, o mantra da paz, e de um minucioso controle do ritmo respiratório. De início, ainda se ouviram tossidos e pigarros ou guinchos de cadeiras arrastadas, mas logo só se distinguiu alguma rara intervenção do monge, nada mais. (As meninas viraram estátuas de sal.)

De modo que naquela noite, ao longo de infindáveis quinze minutos, swami Nirmalatmananda subjugou o rush paulistano, a excitação de duas adolescentes eufóricas, a falta de educação dos celulares e o chacoalhar de chaves do intérprete. Terminada a sessão, agradeceu a presença de todos e foi comer docinhos.

No próximo bloco, insânia

Posted: 23rd janeiro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Quando a TV paga chegou ao Brasil, espalhou-se o idílico boato de que seus canais não teriam intervalos comerciais – afinal, a mensalidade dos assinantes serviria para sustentar as emissoras.

Era tudo brincadeirinha. Em 2010, uma pesquisa da Associação de Consumidores Proteste mostrou que a grade da TV paga contém 15% de comerciais, na média. Em canais como a Fox, a conta é de 23%.

E o pior: se na TV aberta ainda é possível se divertir com anúncios de purgante ou de pomadas para micose em que modelos discutem casualmente suas frieiras, na TV paga a coisa não tem tanta graça. Ali, os comerciais falam da própria programação e se repetem num looping maquiavélico.

Um dos campeões no quesito, a Warner Channel reserva-se o requinte de interromper os episódios de séries na última cena e amarrar o espectador só para exibir os créditos e a piada final. O canal também costuma manter o áudio dos programas baixíssimo e aumentar o volume em 40% nos comerciais, para que os tímpanos da vítima sejam devidamente massacrados pela veemência publicitária.

A atração “Warner Movies” já virou uma lenda. O filme começa bem, mas vai sendo interrompido progressivamente conforme o final se anuncia.

Um longa de 110 minutos de duração leva 3 horas para passar, totalizando 70 minutos de comerciais – sempre os mesmos. A conta pode chegar a 63% do total da atração, gerando boatos de que, em 2011, os canais terão novos comerciais com menos intervalos de programas.

Houve uma épica madrugada de 2003 em que a MGM levou quatro horas para exibir o especial “AFI: 100 anos… 100 filmes”, de 145 minutos de duração. A cada dez títulos citados, amargava-se uma pausa em que os mesmos comerciais se sucediam, talvez procurando levar os espectadores à absoluta e irreversível demência. Conforme os vencedores se aproximavam, a pausa era de três em três.

O documentário acabou pela manhã. Os sobreviventes até hoje se gabam, feito veteranos da campanha na Itália.

A repetição de propagandas em canais como Sony, TNT, Warner, Fox, AXN e Universal ainda será questão de saúde pública. Daí a grandeza das séries em DVD, do gravador digital, da tecla “mudo” e de um providencial cochilo.

Não complicarás

Posted: 16th janeiro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Nos últimos dez anos, o “Jornal Nacional” (Globo, 20h30) perdeu 24% de sua audiência. A velha fórmula, que em 1993 chegou a render 80 pontos no Ibope (com o primeiro depoimento de PC Farias após sua fuga), parece enfim ter se desgastado.

De todos os telejornais brasileiros, o “JN” é o mais temente aos mandamentos do gênero. Para começar, a notícia é sempre curta, objetiva e simples, mas não pode ser excessivamente fria e impessoal, sob pena de distanciar o público. Ao apresentador cabe humanizá-la com sorrisos, mudanças de tom e olhares compungidos.

Em segundo lugar, utilizam-se apenas frases incisivas e curtas no tempo presente, a fim de afetar urgência.

No sábado passado, o jornal começou com o anúncio: “Tiros à queima-roupa”. No mesmo tom de quem está em pleno front, o outro apresentador completou, em jogral: “Dezoito pessoas são baleadas por um jovem nos EUA”. Por pouco, os dois não se abaixaram para se proteger.

O texto falado deve dirigir-se a um hipotético telespectador médio –– para Bonner, uma espécie de Homer Simpson que tem dificuldade em compreender notícias mais complexas. Num episódio que causou polêmica, em 2005, o editor-chefe do “JN” chegou a rejeitar uma pauta dizendo: “Essa o Homer não vai entender”.

Outro preceito do telejornalismo padrão é personificar as notícias, remetendo-as a personagens pitorescos ou à opinião de populares. As declarações espirituosas dos anônimos servem para dar leveza ao texto e fazer rir o singelo Homer.

Assuntos como consumo popular, curiosidades tecnológicas, futebol e o florescimento de dicotiledôneas servem para intercalar cenas de desastres ou de crimes hediondos.

É inevitável: o apresentador conclui um dossiê sobre o colapso do sistema de saúde de Rondônia, como na segunda-feira passada, toma novo fôlego e diz: “No zoológico de Brasília, uma fêmea de lobo-guará conseguiu sobreviver a um atropelamento e voltar à natureza”. Sorri.

Uma anedota corrente no mundo dos telejornais diz que, se o Velho Testamento fosse televisionado, a apresentadora o anunciaria desta forma: “Moisés acaba de receber a tábua com uma série de mandamentos”. Entra infográfico explicativo: “Dentre eles, podemos destacar dois…”.

Napoleão do crime

Posted: 9th janeiro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Fica difícil condenar a pirataria quando uma série como “Sherlock” (2010), da BBC inglesa, não tem a menor previsão de ser exibida no Brasil.

A primeira temporada contou com apenas três capítulos de 90 minutos cada, chegando ao fim em agosto de 2010. Trata-se de um folhetim de ação e suspense que transporta o detetive Sherlock Holmes (interpretado por Benedict Cumberbatch) para os tempos contemporâneos.

Na minissérie, Holmes é fã de tecnologia, não desgruda do celular e gosta de provocar o inspetor Lestrade tumultuando coletivas de imprensa com torpedos SMS. Seu lendário parceiro, o dr. Watson (Martin Freeman, de “O Guia do Mochileiro das Galáxias), registra os casos num blog.

Holmes passa o tempo todo agindo feito um maestro louco, insultando os policiais e rebatendo as acusações de que seria um psicopata (“Sou um sociopata funcional”, diz).

Em vez de cachimbos, ele é usuário ostensivo de adesivos de nicotina: “Este é um problema de três adesivos!”, exclama no episódio-piloto, “Um estudo em rosa”, que trata de suicídios seriais.

O visual da série acompanha o ritmo multitarefa do herói: numa cena de crime, letreiros se sobrepõem na tela para destrinchar as evidências encontradas, enquanto Holmes pesquisa simultaneamente em seu smartphone dados meteorológicos, rotas de trem, informações avulsas e recados pessoais.

Embora saiba rastrear endereços de email e tenha alma de hacker, o Holmes da BBC não é tão diferente do original. A um suspeito, diz: “Além dos indícios óbvios de que você é solteiro, maçom e asmático, não sei nada a seu respeito”. Ao médico legista, pede que não enuncie seus pensamentos em voz alta, pois está diminuindo o QI de toda a rua.

Ele também observa que deve ser “muito relaxante não ser eu” e aproveita cada novo assassinato, alegando que não dá para ficar em casa quando algo divertido assim acontece.

No final da temporada, Holmes sai ao encalço de seu arqui-inimigo prof. Moriarty, o “Napoleão do crime, organizador de tudo o que há de mal nesta cidade”. Houve polêmica quanto ao desfecho da série, que atraiu 7,3 milhões de espectadores na Inglaterra, mas a segunda temporada já foi confirmada para o fim deste ano.

Olha! Uma salsicha falante!
Artifícios suaves e estrambóticos para você mesmo espantar o chamado demônio do meio-dia

Revista Vida Simples
n. 101 – Janeiro de 2011

por Vanessa Barbara

 

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), a depressão é a maior causa de incapacitação de adultos e afeta 120 milhões de pessoas em todo o mundo (17 milhões no Brasil). Na literatura médica, as diretrizes para o tratamento de primeira linha são os antidepressivos de última geração, mais seletivos farmacologicamente, com melhores índices terapêuticos e menor incidência de efeitos colaterais. Uma opção comum é o uso de inibidores seletivos de recaptação da serotonina (ISRSs), como sertralina ou fluoxetina, associados ou não à psicoterapia comportamental.

Dependendo da resposta do paciente, o passo seguinte é a manutenção, o aumento da dose ou a troca de medicamento. Cerca de 30 a 50% dos casos não reagem suficientemente à primeira tentativa farmacológica. Os tricíclicos e os inibidores da monoamina oxidase (IMAOs), além de outros inibidores e antagonistas diversos, podem ser prescritos nessa fase, com ou sem a potencialização de outros agentes (lítio, hormônio da tireóide, estrogênio, buspirona).

Na maioria dos casos, é preciso no mínimo duas semanas para o remédio fazer efeito. Alguns pacientes só melhoram após 6 semanas, e, pior ainda, há os que vão aumentando a dose, aguardam meses e finalmente desistem, por falta absoluta de resposta. Esses irão recorrer a um segundo, a um terceiro e a um quarto tipo de medicamento – as estatísticas mostram que até 50% dos pacientes não respondedores a uma primeira tentativa também não responderão a um segundo curso de tratamento diferente. De fato, a probabilidade de reagir a um antidepressivo declina num fator de aproximadamente 15% a 20% para cada tratamento anterior que tenha falhado.

Pensando nessas pobres almas é que efetuamos um guia com técnicas pitorescas para afastar a depressão, atenuantes temporários para aquelas duas semanas de espera ou após a décima consulta fracassada, enquanto a cura não vem. Essas soluções mambembes não substituem nenhum tipo de intervenção medicamentosa ou psicoterapêutica e se destinam apenas a gerar distração em pacientes para os quais cada gole d’água é excessivamente trabalhoso.

Andrew Solomon, autor de O demônio do meio-dia, um dos melhores tratados existentes sobre a depressão, conta a história de uma sobrevivente de Dachau que, para não enlouquecer, decidiu pensar apenas em seus cabelos. “Pensava em quando poderia lavá-los; em tentar penteá-los com meus dedos. Passava horas combatendo os piolhos. Isso fazia com que minha mente se concentrasse em algo sobre o qual eu podia exercer algum controle, e preenchia minha mente de tal modo que me permitisse deixar de fora a realidade dos acontecimentos à minha volta, possibilitando que eu atravessasse aquele período.”

Além de saudavelmente dispersivas, essas técnicas servem para que os pacientes aprendam comportamentos que possam protegê-los contra uma piora ou recidiva.

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Um dos princípios fundamentais da terapia cognitivo-comportamental é a relação existente entre situação, pensamento, sentimento e comportamento, de modo que a mudança de só um desses itens influenciaria todos os outros. A estratégia subjacente da TCC, portanto, seria forçar o pensamento a seguir certos padrões e assim evitar os caminhos habituais que levam à depressão.

Ou vice-versa. Nesse caso, uma das táticas possíveis é monitorar as atividades diárias e estimular as que são geradoras de prazer, acrescentando sempre algo de muito agradável ao longo do dia. Além de teoricamente válida, essa estratégia tem lá seus atrativos.

Na depressão, o paciente perde o gosto pelas coisas, e a chave é encontrar algo que ainda conserve em si um fiapo de diversão, como um sorvete esperando na geladeira ou a foto de um bebê envolto numa margarida, e assim começar a resgatar os prazeres, um a um. “Os estudos não estão disponíveis, mas uma boa dieta de lagosta e mousse de chocolate pode fazer muito para melhorar o ânimo de alguém”, garante Solomon.

O benefício adicional dessas tarefas é ativar o circuito estímulo–recompensa associado a atividades manuais. Na doença, há falta de gratificações, de concentração, de movimento, de estímulos. Experimentos liderados pela psicóloga Kelly Lambert, da faculdade Randolph-Macon, na Virgínia, mostraram que tarefas prosaicas como limpar o chão, tricotar ou organizar as gavetas incentivam a produção de substâncias que deixam o sujeito mais persistente e concentrado. A questão não é o que se faz, mas onde se chega com o esforço.

Em O demônio do meio-dia, Solomon fala de uma mulher que mantém na parede do quarto uma lista de coisas a fazer quando está começando a se sentir desanimada e entediada. A lista começa assim: “Ler cinco poemas infantis. Fazer uma colagem. Olhar fotografias. Comer um pouco de chocolate”.

A seguir, apresentamos dez sugestões para despistar a depressão, sem necessariamente ter que apontar alguma coisa à distância e gritar: “Olha lá! Uma salsicha falante!”.

1. Fazer coisas com fios

No livro de Solomon, uma moça conta que passou anos trocando de medicação, sem sucesso, até que finalmente descobriu a solução verdadeira para curar a depressão: “fazer coisas com fios”. Taí a primeira sugestão.

Nessa categoria, incluem-se trabalhos artesanais que tragam relaxamento e satisfação, como costurar, tricotar, pintar, desenhar, esculpir, espremer gelatina, consertar um radinho de pilhas, martelar a esmo, pintar as unhas dos pés (dos outros), montar uma armadilha de dominós, assar um porco-pizza e cobrir as paredes de tinta amarela. É importante usar as mãos, pois elas dão uma importante sensação de controle. Sujar-se é igualmente recomendado.

Limpar, esfregar e organizar também se enquadram nesse item. As grandes empreitadas são as mais auspiciosas: organizar todas as gavetas do escritório, separando os documentos por cor e utilizando caixas transparentes com etiquetas, post-its e cola colorida.

2.  Arrumar um professor de sapateado

Um leitor de Andrew Solomon ofereceu-se para ajudá-lo a encontrar um bom professor de sapateado. Nesse campo, vale tudo: inscrever-se em aulas de rockabilly, aprender o cha-cha-cha, fazer ioga, comprar uma cama elástica, pular corda, inscrever-se num curso para terceira idade no Sesc, assistir uma videoaula de artes marciais, jogar badminton, andar de bicicleta, balançar, chutar, girar e empurrar à vontade. Vale optar por videogames bruscos como o Wii.

3. Mexer com terra

Aqui se inclui todo tipo de contato com o chão, seja na jardinagem, na escultura de areia, rolando ou deitando na grama do parque. Esticar-se para acompanhar o passeio de suas tartarugas sob o ponto de vista dos quelônios também vale. O fator sujeira está implícito na atividade e é mandatório. Ainda que não haja comprovação estatística, é certo que sentar no chão sem motivos específicos ajuda a tratar moléstias do humor.

4. Render-se ao videoquê

Escolher as músicas mais bregas no Guitar Hero ou num bar de videoquê pode ser vital para a recuperação de um deprimido reincidente. Entre as sugestões mais sensatas podemos destacar o heavy metal melódico, os refrões estridentes de clássicos do rock, os Twisted Sisters e, é claro, o Ney Matogrosso. Quanto mais gritaria, melhor. Quanto mais desafinado, também.

5. Solucionar grandes mistérios

Lançar-se em busca de uma caneta perdida, um quebra-cabeças de 4 mil peças, os extras de um filme ruim, um livro de palavras cruzadas, a vida do vizinho da frente, um crime imaginário. O importante é se envolver pela coisa: procurar tudo sobre Joseph Mengele, Bob Esponja, as guerras púnicas, “Perdidos no Espaço” e o cozimento das alcachofras. Jogos de tabuleiro se incluem nesta categoria.

6. Estabelecer uma trilha sonora

Em The anatomy of melancholy, Robert Burton diz que não há remédio melhor do que a música para aliviar um coração melancólico. Em muitos casos, só ela consegue penetrar no estado de anedonia e conferir uma sensação de prazer e de estar vivo, mesmo que temporariamente.

O neurologista Oliver Sacks, em Alucinações musicais, acrescenta que há determinadas composições com o poder de produzir efeitos cruciais num dado indivíduo, em um momento específico. Ele cita o exemplo de um suicida que ouviu por acaso uma passagem de Rapsódia para contralto, de Brahms, e o som que antes lhe era indiferente perfurou seu coração como uma adaga. “Numa torrente de rápidas recordações pensei em todas as alegrias que a casa conhecera: as crianças que haviam corrido por seus cômodos, as festas, o amor e o trabalho”, diz ele. “Algo dentro de mim aqueceu-se e me amoleceu”, conta outra paciente de Sacks.

Não dá para prever o tipo de música capaz de vencer a barreira e liberar os sentimentos obstruídos de alguém. O poder da música, para trazer alegria ou catarse, tem de insinuar-se sem ser percebido, “chegar espontaneamente como uma bênção”, diz Sacks.

Isso não nos impede de elaborar uma trilha sonora específica para os momentos de crise – podem ser faixas alegres, trágicas, evocativas, enfim, que possam causar algum tipo de impressão. Convém testar a reação pessoal a diferentes tipos de música, pois às vezes a chave está na batida – a bossa-nova, por exemplo, costuma dar certo com os mais apáticos. O punk rock pode aliviar espíritos mais melancólicos, ao passo que o rockabilly tem o benefício adicional de incentivar o ouvinte a arriscar uns passos de dança. Há quem tenha superado a depressão com uma hora diária de remelexo ao som de ritmos caribenhos.

Alguns títulos que não têm como dar errado: “On The Sunny Side of the Street”, Louis Armstrong; “I Feel Good”, James Brown; “Good Vibrations”, Beach Boys; “Here Comes The Sun”, Beatles; “O Jumento”, Chico Buarque; “Cheek to Cheek”, Fred Astaire; “I Got Rhythm”, Ella Fitzgerald; “Rock And Roll All Nite”, Kiss; “Hallelujah”, Leonard Cohen; “Potato Head Blues”, Louis Armstrong; “Lithium”, Nirvana; “Alive”, Pearl Jam; “Do You Wanna Dance?”, Ramones; “Today”, Smashing Pumpkins; “So Happy Together”, The Turtles; “Island in the Sun”, Weezer; “Beautiful Day”, U2; “Song 2”, Blur; “Don’t Worry Be Happy”, Bobby MacFerrin; “Shiny Happy People”, R.E.M.; “Paradise City”, Guns N’Roses, “Blue Skies”, Ella Fitzgerald; e, por fim, “O Pato” e “Bolinha de Papel”, João Gilberto.

Só tome cuidado para não ouvir sem querer “I Am a Man of Constant Sorrow”, do Bob Dylan, e nem o último álbum do Radiohead, para não invalidar todo o tratamento.

7. Apegar-se ao radinho de pilha

Em O demônio do meio-dia, o pesquisador Seth Roberts, do Departamento de Psicologia da Universidade da Califórnia, sustenta a teoria de que há um tipo de depressão vinculada a acordar sozinho, e que a experiência de assistir a um apresentador de TV falando por uma hora no início do dia pode ajudar. Acrescentamos a isso a presença constante de um radinho de pilha, sintonizado na faixa AM, de preferência num programa de esportes ou de trânsito. Também serve ir puxar conversa com o porteiro.


8. Preparar coletâneas

Pode ser uma lista de sobremesas distribuídas pelos dias da semana. Ou um catálogo pessoal de livros, poemas ou contos favoritos. Pode ser uma coletânea dos melhores amigos (segunda é dia do Cabelo, terça é do Bruno e do Bob). Ou de programas tolos para planejar (ir ao zoológico, ao planetário, ao pico do Jaraguá, ao sítio da incrível morsa turca que dança). É importante registrar seu “best of” pessoal, a fim de evocá-lo em momentos de angústia.


9. Ensinar alguém a descascar pepinos

Em O demônio do meio-dia, Solomon fala de uma moça que passou horas sem conta tentando ensinar à companheira de quarto como descascar um pepino. Nessa categoria, são válidas todas as interações sociais, por mais fugazes que sejam, sobretudo com desconhecidos.

Nesse mesmo livro, há o relato de uma sobrevivente do massacre cambojano que praticava a psicologia com esmaltes coloridos, empurradores de cutícula, toalhas e lixas de unha. Ela começou a fazer as mãos e os pés das amigas, que pouco a pouco se puseram a conversar e a dividir suas experiências.

10. Apelar

Se nada disso funcionar, é hora de partir para a ignorância. Filmes dos Irmãos Marx, livros de piadas do Costinha, trocadilhos tolos, stand-ups do Richard Pryor, músicas do Mario Lanza, romances do Douglas Adams, textos do Woody Allen, palhaços, mágicos, trapezistas, engolidores de fogo e a piada mortal, que é a seguinte:

“Era uma vez um porquinho que tinha uma perna só. Ele foi se coçar e caiu.”

Para Solomon, o senso de humor é o maior indicativo de que o indivíduo se recuperará. “Aguente o tempo de espera e ocupe esse tempo tão plenamente quanto puder”, ele recomenda.

E termina com uma nota esperançosa: “Pessoas que atravessaram uma depressão e estão estabilizadas frequentemente têm uma aguda consciência da alegria da existência cotidiana. Mostram-se capazes de uma espécie de êxtase imediato e de uma intensa apreciação por tudo que é bom em suas vidas”. Ou seja: valorizam o chocolate, o tricô, as tartarugas, a ginástica rítmica, o desenho do Bob Esponja, o rádio de pilha, o mar, o glorioso time do Olaria e o vizinho da frente, que, dizem, é a cara do Dudley Moore.