Bada-Bing, Bada-Beakman

Posted: 2nd janeiro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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“Tranquem as portas! Fechem as janelas! O seu cientista particular está aqui para responder as suas perguntas. Eu sou Beakman, e você acaba de entrar no…”

Com essas palavras, será retomada amanhã a exibição de “O Mundo de Beakman”, na TV Cultura (seg.-sex. às 19h15).

Nesse clássico dos anos 90, um cientista de jaleco verde e cabelo espetado responde perguntas de telespectadores fictícios, que servem de gancho para experiências bizarras e explicações de leis da física.

“Pergunta: por que os frangos ficam engraçados quando piscam? Resposta: porque fecham os olhos de baixo pra cima.”

O episódio-piloto parte da questão: “Se a Terra é redonda, por que as pessoas que estão do lado de baixo não caem?”. Com a ajuda de uma melancia, um boneco de testes, sua assistente Rose e um ator fantasiado de rato (Lester), Beakman fala de gravidade e inércia.

Do Polo Sul, dois pinguins diante da TV interrompem vez ou outra para comentar. “O que a gente acha que acha?”, pergunta Dan. “A gente acha que adorou”, retruca Léo.

No programa seguinte, Beakman chafurda num túnel de muco para responder a pergunta: “O que é ranho?”. Diante da objeção dos companheiros, diz: “É para isso que a gente está aqui”. E Lester: “A gente está aqui para ranho?”.

Após desfiar uma série de sinônimos de catota (meleca, ostra, geleia de nariz, comida de dedo), ele explica para que serve essa substância viscosa. Comentário dos pinguins: “Faz pensar na expressão ‘mau gosto’”. E o outro: “É nojento. Tô adorando.”

Um dado curioso é que Lester nunca é identificado como um rato, mas como um cara fantasiado de rato, ou um ator dramático com um péssimo agente. O ator, Mark Ritts, estudou literatura inglesa em Harvard e morreu em 2009 de câncer nos rins.

Já Paul Zaloom (Beakman) continua na ativa como titereiro, ventríloquo, ator e militante gay. Nos EUA, comanda o espetáculo “Beakman ao Vivo”, em que faz um rolo de papel higiênico levitar e fala de movimentos peristálticos.

Ao todo, são 91 episódios cheios de efeitos sonoros e explosões – o último é sobre flatulência –, todos apresentados pelo mestre das respostas, o guru da massa cinzenta, o emir do enigmático, o único, o incomparável…

Legal essa parada rude

Posted: 26th dezembro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Na última terça-feira, 21 de dezembro, a Record exibiu a final do reality show “A Fazenda”. Após três meses de confinamento num sítio, o modelo Daniel Bueno, de 33 anos, ganhou o prêmio de 2 milhões de reais.

É quase o mesmo valor que recebeu o embriologista britânico Robert G. Edwards, de 85 anos, vencedor do Prêmio Nobel na categoria Medicina ou Fisiologia. Ele faturou 10 milhões de coroas suecas (2,5 milhões de reais) por duas décadas de pesquisa que tornou possível a fertilização in vitro.

A carreira de Daniel Bueno começou na seleção gaúcha de caratê, na qual foi faixa preta. Aos 22 anos, foi contratado por uma agência de modelos e trabalhou para grifes como Calvin Klein e Giorgio Armani. É mais conhecido, porém, por ter namorado a atriz Luana Piovani.

Já Edwards começou seus estudos nos anos 50. Seu esforço possibilitou o nascimento de 4 milhões de pessoas e representou uma revolução no tratamento da infertilidade. Para a comissão do Nobel, o britânico conseguiu vencer “desafios monumentais” no campo da ciência. Mesmo com a dificuldade de obter patrocínio, Edwards conseguiu elucidar grandes incógnitas da biologia, como o momento certo para a extração do óvulo e sua fertilização e fecundação.

Bueno, por sua vez, demonstrou comprometimento com os afazeres rurais, sobretudo no cuidado com os equinos. Durante os 86 dias de programa, destacou-se pela diligência e por tomar para si a ordenha da vaca Estrela, proferindo frases como: “Dona Estrelinha! Como é bom ver a senhora!”.

Logo de início, ele admitiu: “Pra ser sincero, eu não me acho um cara talentoso. Mas sou muito esforçado.” Um de seus maiores momentos foi quando teve de tomar um banho gelado e exclamou: “Legal essa parada rude”.

Mas o melhor diálogo do reality não foi obra dele e de nenhum dos outros finalistas (o ator Sergio Abreu e a assistente de palco Lisi Benitez, a “Piu-Piu”). Foi Luiza Gottschalk que perguntou ao cabeleireiro Carlos Carrasco: “Milho é verdura?”. Ao que ele respondeu: “Não. É um amido”.

Este mês, Daniel Bueno mostrou os peitorais na tevê e comemorou a vitória com Sérgio Mallandro. Robert Edwards não pôde comparecer à cerimônia do Nobel por problemas de saúde.

Folha de S. Paulo – revista sãopaulo
19 de dezembro de 2010 – 12h02

por Vanessa Barbara

Para as tartarugas Napoleão e Jacinto,

Quando 2010 começou, vocês eram do tamanho de uma moedinha. Chegaram assustadas, com as cabeças encolhidas pra dentro do casco, e dormiam o dia inteiro. Achei que o ano seria assim, tartaruguento.

Mas logo vocês foram tirando os narizes pra fora e conheceram o sol, o sashimi, a água morna e a gula sem limites. Aprenderam a comer cocô. Começaram a crescer, a bocejar acintosamente e a passear pela casa.

No ano de 2010, Jacinto passou três semanas sem comer, descobriu a dor de barriga e ficou gripado. Napoleão virou de ponta-cabeça, entalou debaixo da geladeira e tentou comer as plantas de plástico.

Ambas fizeram contatos imediatos com um sabiá, um mosquito e a tartaruga Moisés. Foram apresentadas à pitanga, à formiga, ao filé de pescada e à banana, além de experimentarem o dedo das visitas.

Um ano depois, vocês estão mais parecidas com calotas de Fusca. Sabem derrubar o termostato para chamar a atenção e protegem os olhos com a pata quando alguém acende a luz.

Em 2010, Jacinto descobriu que era fêmea. Napoleão, o contrário.

Assim sendo, gostaria de desejar um 2011 mais tranquilo para os meus quelônios.


VANESSA BARBARA, autora de “O Livro Amarelo do Terminal”, é colunista de TV da Folha

O que Bo quer, Bo ganha

Posted: 19th dezembro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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A julgar pela audiência desta casa, composta por uma parcela equivalente de humanos e quelônios, o melhor programa deste ano não foi “CQC” (Band), “O Aprendiz” (Record) ou “Superpop” (RedeTV!). Também não foi a nova série de Martin Scorcese (“O Império do Contrabando”, HBO), nem a reprise de “A Próxima Vítima” (Viva).

O melhor da TV em 2010 foi “Obsessão por Animais”, do Animal Planet, uma série de quatro documentários veiculada em novembro.

O primeiro episódio falou de exageros, como um sujeito que divide a casa com 70 corujas. Depois vieram os bichos exóticos: um rapaz que toma banho com seu tigre-de-bengala, uma moça que mantém uma girafa de 3,6 m de altura no jardim (e oito zebras), e um senhor que possui oito jacarés em sua residência. “Ele vem quando quer”, declara, apontando para o réptil de 70 kg paralisado no chão da sala. “Eles passeiam casualmente, cuidando de suas vidas.”

No especial sobre animais obesos, a protagonista foi Bo, uma Rotweiller gorda de 92 kg que parece um leão-marinho. Ela anda como se estivesse gingando, come 7 kg de carne fresca e dorme a hora que dá na telha.

“Ela é obesa”, diz a veterinária. “Ela é linda”, responde a dona, rechaçando as insinuações de que sua cadela seria uma porca leiteira. “Eu não a trouxe aqui para ser insultada”, dispara. “O que Bo quer, Bo ganha.”

Outras revelações foram Archie, o gato de 10 kg que precisava se exercitar, mas olhava cinicamente as bolinhas de borracha que lhe atiravam, e Max, um cão que comia linguiça e sanduíche de bacon.

Mas nada superou “Cirurgia Plástica Animal”. Diante das câmeras, um mastim napolitano corrigiu a flacidez das pálpebras. Na sequência, um lagarto de 15 cm tomou anestesia geral para retirar um cisto que lhe prejudicava a carreira de modelo. Um peixinho japonês com uma protuberância suspeita se submeteu a uma abdominoplastia cosmética, enquanto a enfermeira esguichava água em suas guelras.

Por fim, um pato que teve o bico destroçado por um guaxinim passou por um procedimento de reconstrução. Donald, o pato de 3 dólares, ganhou um bico horrendo, mas funcional, feito de cimento ósseo cor de laranja. “Nunca pensei que amaria tanto um pato”, disse a dona.

Miolos! Miolos!

Posted: 12th dezembro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Com muita flechada no olho e crânios trucidados por picaretas, terminou esta semana a primeira temporada da série americana “The Walking Dead” (Fox, ter. às 22h). O roteiro é baseado nos quadrinhos de Robert Kirkman e versa sobre o apocalipse zumbi.

Havia grande expectativa em torno da atração, já que os seis primeiros episódios foram adaptados para a TV pelo cineasta Frank Darabont (“Um sonho de liberdade”), que também dirigiu o piloto de 90 minutos de duração.

Além disso, no Brasil, a Fox se comprometeu a exibir os episódios inéditos com apenas dois dias de atraso, mas, talvez para compensar o excesso de zelo e respeito ao espectador, resolveu cortar 12 minutos do original.

A história fala de um grupo de pessoas que sobreviveu ao holocausto zumbi, quando o mundo foi infestado por esses seres putrefatos e sedentos de carne humana. Ao longo da trama, os protagonistas lidam com seus dramas pessoais e tentam resistir aos ataques dessa gente desagradável sem tronco ou nariz.

A série tem uma fotografia digna de cinema, massacres divertidos e cenas impressionantes: de cara, um policial de chapéu entra na cidade a cavalo, de forma quase apoteótica, não fosse pela horda de presuntos prestes a emboscá-lo.

Aqui e ali, há grandes achados, como o entregador de pizzas que é também um estrategista nato, a inesperada intervenção de uma avó e, por fim, o asilo que vira bunker da resistência.

Alguns diálogos e caracterizações fracas atrapalham, bem como as semelhanças com a série “Lost”. Exemplos: as cenas de sobrevivência na selva, a trilha sonora pontuando expedições desesperadas e os vídeos caseiros de um homem misterioso dentro de uma instalação programada para explodir.

Em “The Walking Dead”, que até agora é mediana, falta uma coisa: amor zumbi.

Falta promover uma temporada só de mortos-vivos, centrada nos dilemas éticos da horda, no cotidiano do Zumbi do Posto de Gasolina, nas trapalhadas da menina sem tronco. Falta investir em números musicais com dançarinos defuntos ou em dramas de tribunal envolvendo vilões necrófilos.

Um “CSI” de zumbis, um “Gilmore Girls” com gente finada e um programa de culinária só para amantes de miolos. A conferir.

Marechal Rondon é o cara

Posted: 5th dezembro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Nesta quinta-feira, dia 9, vai ao ar o último episódio de “15 Minutos”, principal atração de humor da MTV (seg. a qui. às 21h45). Segundo a emissora, o apresentador Marcelo Adnet irá comandar um novo programa em 2011.

Há dois anos e meio, o jovem comediante vem interpretando a si mesmo num estúdio que reproduz seu quarto em Humaitá, no Rio de Janeiro. De bermuda, camiseta e chinelo, lê e-mails dos fãs, divaga sobre assuntos do noticiário, faz paródias de celebridades e imitações retumbantes de José Wilker.

É o único humorístico da TV aberta que tem audiência aqui em casa, talvez porque Adnet não tente ser engraçado de forma explícita. Ele usa um tom quase formal para tratar dos assuntos mais tolos, simulando a empáfia das personalidades televisivas.

Pode começar, por exemplo, mandando um “alô para o cachorro-quente com ervilha, ovo de codorna, molho rosé e queijo ralado, e também para o Ary Barroso”. Em seguida, parte para sua especialidade: imitar Cid Moreira, Pedro Bial ou Dinho Ouro Preto, através de sátiras musicais.

Outro dia, parodiou Elis Regina cantando o hino do Corinthians no chuveiro, Caetano Veloso solfejando “They don’t care about us”, e “Cai Cai Balão” no estilo dos concorrentes de “Ídolos” (Record).

O programa já teve “Sweet Child O’ Mine”, do Guns N’ Roses, na voz de Silvio Santos, e “Garganta”, num dueto de Ana Carolina e Dercy Gonçalves. Entre as composições próprias, destacam-se o “Funk do Mosquito”, a “Micareta Metal” e a “Bossa Nova do Cocô”.

Adnet consegue se transformar em tudo: faz um bispo evangélico à perfeição, tem recorrentes “surtos de Ivete Sangalo” e compôs uma canção de sátira às boybands: “Furfles Feelings”.

Nas estantes, há um boneco do Gorbachev, um exemplar do Alcorão, uma chinchila, uma flâmula da Taça Rio e um cartaz com a inscrição “Marechal Rondon é o cara”. Aléá placas com os dizeres “ÓOAUÊAíÔ”, “Não cumprimente o pinguim” e “Não cuspa”.

Espera-se que o novo programa de Adnet seja tão incoerente e desnecessário quanto “15 Minutos”. Com sorte, ele irá abrir a atração com um de seus instigantes versos:  “Em homenagem ao meu mamilo/ eu vou de repente, do nada, mudar de estilo”.

A grama do vizinho

Posted: 28th novembro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Aqui em casa nós temos quatro: o primeiro é o controle remoto do DVD, com 31 botões e duas pilhas AAA. Depois tem o controle do Blu-Ray, com 52 botões de quatro cores diferentes. Então vem o da televisão, com 44 botões, e o dos canais a cabo, com 45 e um redondo chamado “agora”.

A tevê fica a apenas 1,78m de distância do sofá e, ainda assim, quando um dos controles é perdido entre as almofadas, a única reação possível é desistir de tudo e ir dormir mais cedo.

O controle remoto extinguiu os botões giratórios na frente do aparelho, bem como os gritos para alguém na cozinha ir até a sala mudar de canal. Aniquilou os cabos de vassoura, que serviam para aumentar e diminuir o volume à distância, e eliminou a audiência por inércia: ninguém mais permanece num canal por preguiça de se levantar.

Acima de tudo, o controle remoto trouxe ao bojo da modernidade a incerteza, aquela incômoda sensação de haver algo, em algum lugar, mais interessante do que o que estamos assistindo.

Diante de uma oferta de 96 canais, é difícil contentar-se com “Super Petroleiros” (NatGeo), quando em outra emissora pode haver “Le Haim” (TV Aberta), “Eu Não Sabia que Estava Grávida” (Home & Health) ou “Walking Dead” (Fox).

O controle remoto popularizou o verbo zapear e o costume de dar a volta na programação. Às vezes, o sujeito é impaciente e vai atropelando tudo, até que vislumbra algo de seu interesse. O problema é que, em geral, a cena já foi engolida por uns vinte canais, e o mais fácil é dar a volta de novo.

A única pessoa que escapa a esse hábito tele-hiperativo é a minha mãe, que gosta de “dar uma chance” para todo e qualquer curta-metragem indonésio em que um sujeito demora 15 minutos para atravessar o deserto, enquanto entoa um mantra.

E nem é preciso estar assistindo algo mediano para ter vontade de espiar o que está passando alhures: é comum perdermos uma boa reprise de “Seinfeld” (Sony) só por causa de uma coceirinha que nos faz dar toda a volta, passando por “Bonanza” (TCM) e “Roda a Roda Jequiti” (SBT), aterrissando, exaustos, no indefectível “Medalhão Persa”, um porto seguro para onde retornamos após longa e extenuante jornada.

O segredo de Gerson

Posted: 21st novembro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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No próximo dia 29, segunda-feira, será revelado o segredo de Gerson, da novela “Passione” (Globo, 20h55). O personagem, vivido por Marcello Antony, tem uma obsessão patológica por algo que vê no computador, e que talvez esteja ligado a um abuso sexual sofrido na infância.

Desde meados de agosto, quando foi ao ar a cena em que a esposa de Gerson descobre o que há na tela, e o chama de “doente”, “podre” e “nojento”, pululam na internet várias especulações sobre o teor do mistério. Algumas alternativas já foram descartadas pelo autor da novela, Silvio de Abreu: Gerson não seria pedófilo e nem homossexual.

Além disso, a Globo teve de prometer à Goodyear, patrocinadora do personagem, que o enigma não seria nada escabroso. Segundo o diretor de marketing da firma, o que Gerson faz no computador “não é ilegal, é tratável e é algo do cotidiano”.

Portanto, podem esquecer as mirabolantes hipóteses de necrofilia, zoofilia e canibalismo, já que o relacionamento com cadáveres e coelhinhos não seria nada positivo para a imagem da empresa. Também coprofilia (fezes) é pouco provável, bem como formicofilia (relativo a pequenos animais, tais como caracóis, rãs e saúvas) e autonepiofilia (prazer em usar fraldas).

O acordo comercial que garante a caretice do mistério tirou um pouco da graça das especulações, que hoje se concentram em apostas mais modestas, como fetichismo por dedões do pé, voyeurismo via webcam e sadismo.

Outra explicação cogitada é a de que Gerson seria hacker – essa, além de tola, foi descartada assim que a esposa declarou que tinha “nojo” dele. A não ser que ele seja um enrustido usuário de Windows. “Não tem explicação! Você é podre!”, gritaria Diana, adepta da família Mac.

Fico imaginando a negociação entre os roteiristas e o patrocinador: fraldão pode? E envolver um punhado de besouros? Ter relações com alienígenas? Gostar de gente com soluço? Botar um trapézio no teto? Que tal se o Gerson fosse mulher, uma coruja ou o avô de si mesmo?

Nunca se sabe o que os anunciantes podem achar de um personagem que se revela, para nojo da esposa recatada, uma grande e gorda coruja. Pega mal em termos de RP.

15 de novembro de 2010
Blog Textáculos

O LIVRO AMARELO DO TERMINAL
de Vanessa Barbara
Editora: Cosac Naify, 2008, 254 págs.

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A correria da cidade, o amontoado de ônibus, um mundo gente que vai e vem, carrega bagagens, perde coisas tão inusitadas quanto uma dentadura, um banco de Kombi ou um braço mecânico. A rodoviária do Tietê, a segunda maior do mundo, reproduz a cidade de São Paulo. E é tão grandiosa quanto ela: abriga 61 empresas de ônibus com 331 linhas que atendem 611 localidades em todos os estados brasileiros, com exceção do Amazonas e do Acre,e mais quatro países sul-americanos (Uruguai, Paraguai, Argentina e Chile).

Por isso, conhecer esse terminal rodoviário é conhecer aspectos essenciais da vida da cidade e dos seus habitantes, dos migrantes que chegam cheios de esperança para se tornarem “paulistanos” ou dos que partem desiludidos com a cidade. “O Livro Amarelo do Terminal”, da jornalista Vanessa Barbara, desvenda não apenas os segredos desse terminal (não todos, porque o faturamento dos banheiros ainda é um dado guardado a sete chaves pelo administradores) mas as histórias dessa gente que chega, parte, espera.

Vanessa divide seu livro em 22 capítulos nos quais mostra a história do prédio inaugurado em 9 de maio de 1982, na avenida Cruzeiro do Sul, junto á estação Tietê do metrô; os segredos da administração, a vida de quem trabalha lá, dos motoristas e atendentes do balcão de informações; das responsáveis pela seção de achados e perdidos; e das pessoas que passam por lá.

O que impressiona, no primeiro momento, é a grandeza. Vanessa detalha o prédio, formado por dois terminais distintos (o terminal de embarque e o terminal de desembarque) mais os dois blocos de serviços localizados no andar superior.

Mas, essa descrição ganha vida quando Vanessa começa a mostrar as pessoas que movimentam o terminal. Ela passeia pelos terminais de embarque e desembarque e pelos dois blocos de serviço, anotando com sensibilidade histórias diversas. Mostra o trabalho das atendentes do balcão de informações, de coque, sombra nos olhos e lencinho no pescoço, prontas para dizer como chegar em qualquer lugar. Elas não falam inglês nem espanhol, mas atendem os estrangeiros na certeza de que, de uma forma ou de outra, acabam se entendendo. Mostra também o trabalho dos motoristas, das faxineiras dos banheiros com seu faturamento secreto, dos seguranças que tem ordens de impedir fotos ou reportagens desautorizadas dentro do terminal, carregadores, vendedores da loja de malas, pedintes e até do dono da voz dos auto-falantes da rodoviária.

As histórias do usuários são esclarecedoras. São lojistas do interior de São Paulo e de outros estados, que vêm a São Paulo fazer compras na 25 de março, gente que chega e procura por parentes que deveriam buscá-los, jovens surfistas que dormem sobre suas pranchas enquanto esperam, estrangeiros que querem passear em Ilhabela. Histórias de uma grande cidade, com gente que joga chicletes no chão e papel higiênico fora do lixo, pisa em salgadinhos, carrega malas e sacos pretos enormes, compara esnobe as condições do terminal com as condições oferecidas pelos terminais europeus. Tudo anotado e colocado no livro com um texto sensível, esclarecedor e coadjuvado por uma edição inovadora, com recortes de jornais, manchetes das revistas de fofocas expostas nas bancas de jornais do terminal, frases dos livros de auto-ajuda à venda etc. Enfim… um microcosmo da cidade.

Ioga para homicidas

Posted: 14th novembro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Talvez seja culpa da velhice, mas acho surpreendente, quase inexplicável, a existência de um seriado como “Dexter” (FX, qui. às 22h), que atinge picos de audiência de 2,6 milhões de espectadores nos EUA.

Para quem nunca viu, a série fala de um analista forense da polícia de Miami, especialista em padrões de dispersão de sangue, mas que também acumula o ofício de serial killer nas horas vagas.

Sim, é um mocinho sociopata que esfaqueia, asfixia e retalha o próximo, embrulha seu cadáver e o despeja no mar, a bordo de um iate chamado “Fatia da Vida”.

É verdade que em sua lista de vítimas figuram apenas homicidas impunes, e que só raramente ele mata alguém por engano. “Eu sou um monstro limpinho”, afirma, referindo-se aos rolos de plástico com que costuma forrar a cena do crime.

“Vivi na escuridão por um bom tempo. Então meus olhos foram se ajustando até que a escuridão tornou-se o meu mundo e eu pude enxergar”, filosofa.

Durante a segunda temporada da série, que já está em seu quinto ano, o canal australiano Foxtel precisou tirar do ar um comercial que foi considerado de mau gosto. Além disso, meia dúzia de psicopatas em atividade confessaram sua admiração pelo personagem, o que estranhamente ainda não gerou nenhuma passeata de senhoras escandalizadas com a atração.

O que é ótimo, pois enquanto isso podemos assistir cenas de Dexter na aula de ioga: “Este é absolutamente, sem dúvida nenhuma, o pior momento da minha vida”. Então a professora começa a dançar e pede que Dexter seja tão belo quanto os flocos dourados de poeira diante da luz do sol. “Eu provavelmente poderia matá-la antes que alguém percebesse o que houve”, pensa.

Dexter é um justiceiro engraçado, do tipo que hesita em matar um psiquiatra homicida só porque precisa de mais uma sessão de terapia. Sua narração em off tem humor negro, tiradas tétricas e trocadilhos bobos. “Mais um belo dia em Miami – cadáveres mutilados e chances de tormenta no fim da tarde.”

Em certa ocasião, a esposa pergunta como ele pode ficar impassível diante do sofrimento do filho tomando uma injeção, ao que Dexter retruca mentalmente: “Serial killer, lembra?”.

Como se não bastasse, o fim da quarta temporada é de matar.