
Em 1989, na Europa do leste, as pessoas queriam solidariedade e liberdade para viver suas vidas fora do controle estatal.
por Slavoj Zizek
tradução Vanessa Barbara
Piauí n. 40
Janeiro de 2010
Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, é comum ouvir que os acontecimentos daquela época foram milagrosos, um sonho realizado, algo que ninguém teria imaginado mesmo poucos meses antes. Eleições livres na Polônia e Lech Walesa como presidente: quem poderia prever? Mas um milagre ainda maior ocorreu poucos anos depois: as eleições livres e democráticas devolveram os ex-comunistas ao poder, Walesa foi marginalizado e tornou-se menos popular que o próprio general Jaruzelski.
Em geral, essa reversão é explicada pelas expectativas “imaturas” do povo, que simplesmente não tinha uma ideia realista do capitalismo: eles queriam se apoderar do bolo e comê-lo, queriam as liberdades democráticas e abundância material sem ter que se adaptar a uma “sociedade de risco” – por exemplo, sem perder a segurança e a estabilidade (mais ou menos) garantidas pelos regimes comunistas.
Quando a névoa sublime da Revolução de Veludo foi dispersa pela nova realidade democrática e capitalista, as pessoas reagiram de três formas: algumas tiveram saudades dos “bons e velhos tempos” do comunismo, outras abraçaram o populismo nacionalista de direita, e houve ainda as que manifestaram uma espécie de paranoia anticomunista retardada.
As duas primeiras reações são fáceis de compreender, e até se sobrepõem com relativa frequência, tal como na Rússia atual. Os mesmos direitistas que, décadas atrás, gritavam “Antes morto do que comunista” [Better dead than red] agora resmungam “Antes comunista do que comer hambúrgueres”. A nostalgia pelo comunismo não deve ser levada muito a sério: longe de expressar um desejo verdadeiro de retornar à cinzenta realidade socialista, é uma espécie de luto, um jeito de se livrar delicadamente do passado. E o populismo nacionalista, longe de ser exclusivo ao Leste Europeu, é uma característica de todos os países apanhados no vórtice da globalização.
Muito mais interessante é a recente ressurreição do anticomunismo por toda parte, da Hungria à Eslovênia. Em outubro de 2006, uma onda de protestos contra o Partido Socialista no poder paralisou a Hungria por semanas. Os manifestantes culpavam os sucessores dos comunistas pela crise econômica no país. Eles negavam legitimidade ao governo que, no entanto, foi eleito democraticamente, e, quando a polícia era usada para restaurar o mínimo de ordem civil, faziam comparações com o Exército soviético que esmagou a revolução de 1956.
Em resumo, diziam que a Revolução de Veludo de 1989 precisava se repetir, já que, por trás da falsa aparência de democracia, nada mudara de verdade, pois as mesmas forças do mal davam as cartas no poder. Em dezembro de 2006, a Polônia endureceu a lei que proibia ex-colaboradores da polícia secreta comunista e pessoas ligadas ao velho regime de assumirem cargos públicos.
***
Outro aspecto do mesmo processo foi a reabilitação, nos países bálticos e na Eslováquia, dos colaboradores nazistas, transformados em “combatentes anticomunistas”. Sua colaboração, e mesmo a participação em massacres de judeus, foi considerada necessária na luta patriótica contra o comunismo. Era um mal menor. Na Revolução de Veludo ucraniana, que levou Viktor Yushchenko ao poder, cantavam-se as mesmas músicas entoadas pelos colaboradores nacionalistas que apoiaram a ocupação alemã.
Não é de se espantar que, pressionado por certos países pós-comunistas, o Parlamento Europeu tenha aprovado uma resolução que equipara o comunismo ao nazismo. E não é de se espantar que, na Eslovênia, a direita populista reprove a esquerda por ser uma “força de continuidade” do velho regime comunista. Novos problemas e desafios são julgados com base em velhos conflitos, e a luta pelos direitos dos gays é soturnamente interpretada como parte de um complô comunista para desmoralizar a nação.
Como e por que esses fantasmas reaparecem em nações onde a maioria dos jovens nem sequer se lembra do comunismo? Os anticomunistas fazem uma pergunta simples – “Se o capitalismo é tão melhor que o socialismo, por que nossas vidas continuam miseráveis?” – e a respondem de maneira direta: é porque ainda não chegamos ao capitalismo, não temos uma verdadeira democracia. Os ex-comunistas ainda estão no poder, disfarçados de proprietários e dirigentes. Precisamos de outro expurgo, a revolução tem que se repetir. É evidente a semelhança que há entre esse discurso e o velho costume comunista de atribuir seus fracassos à perpétua influência das “forças do passado”.
Essa nova geração de anticomunistas tem uma imagem da sociedade que é assustadoramente parecida com a imagem do capitalismo alimentada pelos esquerdistas: uma sociedade na qual a democracia formal é uma máscara que esconde a dominação por uma minoria rica. Em outras palavras, os anticomunistas não percebem que aquilo que eles chamam de pseudo-capitalismo pervertido é simplesmente o capitalismo.
Pode-se dizer que, após o colapso dos regimes comunistas, seus antigos partidários, desiludidos, estavam mais preparados para gerir a nova economia capitalista do que os dissidentes do populismo. Enquanto os heróis das manifestações anticomunistas continuaram a acalentar o sonho de uma nova sociedade baseada em justiça, honestidade e solidariedade, os ex-comunistas se acomodaram sem dificuldades às novas regras capitalistas. Paradoxalmente, na nova situação pós-comunista, os anticomunistas insistiram no sonho utópico de uma democracia verdadeira, ao passo que os ex-comunistas aceitaram o mundo cruel da eficiência de mercado, com toda a sua corrupção e truques sujos.
Será que o realismo capitalista é a única resposta para a utopia socialista? O que se seguiu à queda do Muro foi mesmo a era da maturidade capitalista, o abandono de todas as utopias? Será que essa época também não teve uma utopia própria? Novembro de 1989 marcou o início dos “felizes anos 90”, o utópico “fim da história” de Francis Fukuyama. Ele anunciou que a democracia liberal havia vencido, que o advento de uma comunidade mundial global e liberal estava por acontecer, e que os obstáculos que se interpunham a esse final feliz eram apenas contingentes (bolsões de resistência onde os dirigentes locais ainda não enxergavam que a hora deles havia acabado).
Em contrapartida, o 11 de Setembro marcou o fim simbólico dos “felizes anos 90”. Assinalou o começo de nossa era atual, em que novos muros estão se erguendo por toda parte, entre Israel e a Cisjordânia, em torno da União Europeia, na fronteira dos Estados Unidos com o México – mas também dentro dos próprios países.
Parece que a utopia dos anos 90 de Fukuyama teve que morrer duas vezes: o colapso da utopia política liberal-democrática do 11 de Setembro não afetou a utopia econômica do capitalismo de mercados globais, mas a crise financeira de 2008 certamente o fez. Nos anos 90, acreditava-se que a humanidade havia finalmente encontrado a fórmula para uma perfeita ordem socioeconômica.
***
A experiência das últimas décadas mostrou claramente que o mercado não é um mecanismo benigno, que funciona melhor quando deixado por sua conta. É preciso violência para criar as condições necessárias a seu funcionamento. A forma com que os fundamentalistas de mercado reagem à desordem que se sucede quando suas ideias são aplicadas é típica dos “totalitaristas” utópicos: eles culpam o fracasso em fazer concessões – ainda há muita intervenção estatal – e exigem uma aplicação ainda mais radical da doutrina de mercado.
Observamos hoje a explosão do capitalismo na China e nos perguntamos quando o país se tornará uma democracia. Mas e se isso nunca acontecer? E se o seu capitalismo autoritário não for apenas a repetição do processo de acumulação capitalista que, na Europa, vigorou do século XVI ao XVIII, mas um sinal do que está por vir? E se a “malévola combinação do chicote asiático com o mercado de ações europeu” (como Trotsky caracterizava a Rússia czarista) provar-se mais eficiente economicamente do que o capitalismo liberal? E se ficar claro que a democracia, tal como nós a entendemos, não é mais a condição e o motor do desenvolvimento econômico, mas um obstáculo?
Se for esse o caso, talvez a decepção pós-comunista não deva ser descartada como sinal de expectativas “imaturas”. Nos protestos contra os regimes comunistas no Leste Europeu, as pessoas, em sua maioria, não pediam o capitalismo. Queriam solidariedade e um tipo bruto de justiça, queriam liberdade para viver suas vidas fora do controle estatal, queriam se reunir e falar do jeito que bem entendessem, queriam se libertar da doutrinação ideológica primitiva e da hipocrisia. Aspiravam a algo que podia ser melhor descrito como um “socialismo com face humana”. Talvez essa opinião mereça uma segunda chance.
O mandaquiense
Posted: 1st janeiro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Revista PiauíTags: mandaqui, mandaquienses, sociedade

Piauí n. 40
Janeiro de 2010
por Vanessa Barbara
Ele compra rodos de pia, chega sempre adiantado, acompanha os folhetos de desconto das farmácias, tem o coração grande e um quintal comprido
O distrito do Mandaqui, como todos sabem, localiza-se na Zona Norte de São Paulo, entre os condados de Santana e Cachoeirinha. Segundo uma pesquisa recente, tem área de 13 quilômetros quadrados e população de 103 mil moradores, dentre os quais 53% são católicos e 37%, corintianos. Ainda segundo a pesquisa, 46% dos mandaquienses possuem cachorros e 1% deles são felizes proprietários de coelhos. A média de idade é de 38 anos, com predominância de mulheres e solteiros. Há 6% de viúvos e 15% de fãs de música sertaneja. Exatos 35% são gordinhos.
O nome do bairro vem do tupi “rio dos bagres”, o que dispensa comentários, mas há outras versões. Uma delas remete a um antigo morador, que, ao encontrar em sua propriedade os funcionários da Companhia da Cantareira, disse que quem mandava ali era o “filho do meu pai”, ou seja, ele mesmo. Os vizinhos, de irredutível natureza trocadilhesca, passaram a se referir à área como terra do Mandaqui.
Os primeiros mandaquienses tinham o sobrenome Zumkeller e chegaram à região no início do século XX. Ali plantaram videiras e criaram gado leiteiro. Com a prosperidade, veio o estrelato: o patriarca Alfredo, sua esposa Judith e os filhos Eduardo, Jorge, Maurício, Lídia e Julieta viraram logradouros. Tornaram-se avenida Zumkeller, rua Judith Zumkeller e por aí vai – ainda não há consenso se a pronúncia é “Zúncler” ou “Zumquéler”. Esses foram os pioneiros e mais ilustres mandaquienses, mas não sabemos quais eram os seus anseios e preocupações.
Hoje se sabe que o mandaquiense típico não é pontual: sempre chega com escandalosa antecedência, como se considerasse o ônibus quebrado, a enchente no caminho, a manada de ovelhas interditando o farol. A antecipação oscila entre quinze e sessenta minutos, com picos de até duas horas, e o mandaquiense, invariavelmente aflito, vai procurar uma padaria para tomar um suco enquanto o compromisso não vem. É comum encontrar mandaquienses vagando pelas ruas do Itaim, sentados no meio-fio, brincando com tampinhas de guaraná e checando o relógio de cinco em cinco minutos.
O mandaquiense usa relógio de pulso. Gosta de acordar cedo, ouve rádio de pilha e acompanha a meteorologia. Quando criança, divide o cabelo ao meio e tem um desses estojos de lata, cheios de canetas e borrachas coloridas. O mandaquiense gosta de grifar, de fazer tabelas e de cumprimentar os vizinhos. Ele lê muito, pois de Santana ao Mandaqui os ônibus tendem a ficar presos no tráfego. E não é só isso: o mandaquiense acompanha com zelo os folhetos de ofertas dos mercados e das farmácias. É ele quem enfrenta multidões às cotoveladas só para comprar um abacaxi com 60 centavos de desconto.
No âmbito emocional, o mandaquiense tem um senso de humor complicado e é fácil ofendê-lo sem querer. Por outro lado, é dificílimo magoar um mandaquiense de propósito. Os mais vis xingamentos não atingem o habitante local, que, distraído, nunca acha que é com ele. Costuma ter o coração grande e um comprido quintal. Gosta de plantas e de vendedores de mandioca, nessa ordem, estuda em colégio religioso e dificilmente repete de ano.
Ele se interessa pelo mecanismo de funcionamento das coisas e pode passar semanas tentando consertar um espremedor de laranjas, debruçado sobre uma mesa cheia de arruelas e chaves de fenda. Faz ele mesmo os reparos no telhado, só para não precisar pagar um especialista. Quanto aos especialistas, os mandaquienses são os mais tenazes. Resolvem qualquer questão hidráulica, elétrica ou mecânica, e, se não resolvem, é garantia de que passarão meses tentando. Fornecerão as instruções pelo telefone, se for o caso, agregando informações recentes sobre a família, o clima e os boatos locais.
Os nativos do Mandaqui são às vezes avoados, mas, quando decidem se concentrar, gastam um tempo desproporcional em tarefas que só interessam a eles, como mandar cartas-resposta à fábrica de doce de abóbora reclamando da dificuldade de abrir os potes, com datas e horários das tentativas de libertar a guloseima. É ele que dá consistência às filas nos açougues, que congestiona a linha telefônica da Eletropaulo quando falta luz e que grita “Vai, Curíntias” durante a formatura dos sobrinhos.
***
Um diálogo típico entre dois mandaquienses pode se dar da seguinte forma:
NUNO: “O Robert Altman morreu.”
SILAS: “A Odete Roitman?”
O mandaquiense não tem senso de direção e se confunde com facilidade. Veste o pijama às quatro da tarde e adora sair para comprar engenhocas de plástico, patinhos de borracha, rodos de pia, pregadores de madeira e papa-bolinhas que não funcionam. (No bairro, ainda existem amoladores de faca e vendedores de biju.) O mandaquiense faz a lista de compras no computador e usa a fonte Comic Sans, dividindo por cores os itens de higiene pessoal, alimentação e jardinagem.
São mandaquienses em potencial aqueles que classificam os livros em ordem alfabética, dispõem as camisas do armário em degradê e possuem o mesmo arranjo de gavetas desde 1964. São mandaquienses desde criancinha aqueles que fazem uma refeição respeitando o equilíbrio dos componentes no prato – o arroz deve chegar ao fim concomitantemente ao feijão e à mistura, e esta ao suco, sob pena de “dar nojo” aos comensais.
“Dar nojo” é uma expressão típica, empregada quando algo está fora do lugar ou um forasteiro deixa a gaveta aberta, por exemplo. O nojo está para o mandaquiense assim como a guerra, a fome e a peste estarão para a humanidade no Juízo Final. Se quiser apoquentar um habitante local, é só largar uma meia do avesso em qualquer lugar da casa e ficar atrás da porta, esperando. Os resultados são imediatos.
Outra conversa característica entre dois autóctones, na porta da farmácia:
NUNO: Silas, lembra do que eu te falei agora há pouco? Sobre aquele meu primo que mora no Lauzane, e que casou na semana passada?
SILAS: Não.
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O nativo do Mandaqui costuma ter opiniões fortes sobre os enxaguatórios bucais e não atende o telefone dizendo “Alô”, mas “Alôncio” – e aí cai na gargalhada sozinho, antes de engatar uma conversa com quem quer que seja do outro lado da linha. Principalmente se for engano. É comunicativo, mas não sabe contar piadas. Não resiste a um calemburgo do tipo “Aldo, você está atrasaldo!”. Confraterniza com os patrícios em cadeiras nas calçadas ou no balcão das padarias, onde reclama do colesterol alto e pergunta como vai o João Perninha, da bocha.
A propósito: para ter respeito e receber a alcunha de “senhor” no bairro, é necessário que o proponente seja proprietário de um comércio — o sr. Eliseu da quitanda, o sr. Irineu do bar do clube e o microempresário sr. Firmo Farias -, ou ter sobrevivido a uma hecatombe nuclear – sr. Nakamura. Agora, se o sujeito foi alçado à glória terrena apenas por jogar bocha, deve se contentar com apelidos como João Perninha, Pedro de Lara, Zé Colmeia ou Frangão.
O mandaquiense sobe e desce os morros com um guarda-chuva em punho e meia dúzia de garrafas pet na sacola, toma o 118-C lotado e sobrevive à fúria do motorista, que faz as curvas como quem toma a Prússia. Se o mundo fosse só de mandaquienses, certamente seria melhor, mas todos teriam que usar pochetes.
O sono de Polanski
Posted: 1st dezembro 2009 by Vanessa Barbara in TraduçõesTags: estupro, Jenny Diski, prisão, Roman Polanski

O sono de Polanski
Vamos continuar chamando o fato de estupro-estupro e não nos preocupemos tanto assim com as noites do cineasta
por Jenny Diski
tradução Vanessa Barbara
Piauí n. 39
Dezembro de 2009
No início, achei apenas moderadamente interessante, num mundo repleto de acontecimentos bem mais interessantes, a notícia de que Roman Polanski havia sido preso na Suíça e seria extraditado para os Estados Unidos, por uma acusação de estupro de trinta anos atrás. Mas fui me envolvendo cada vez mais – no noticiário, no Facebook, no Twitter, no blog da London Review of Books e em conversas – na discussão entre os que acham que ele não devia ter sido preso e aqueles que pensam que deveria, mesmo depois de tanto tempo, ser enviado de volta aos Estados Unidos para cumprir sentença judicial, embora a mulher envolvida (Samantha Geimer – ela permitiu que seu nome fosse divulgado) diga agora que não quer dar continuidade ao assunto.
Tive então espasmos ao ler a petição escrita por Bernard-Henri Lévy e subscrita por Paul Auster, Milan Kundera, Claude Lanzmann, Salman Rushdie, Mike Nichols e, para citar representantes femininos, Diane von Furstenberg, as Isabelles Adjani e Huppert, Danièle Thompson e Arielle Dombasle. Nela está escrito:
Roman Polanski, detido como um terrorista comum no último sábado, 26 de setembro, à noite, quando vinha receber um prêmio pelo conjunto de sua obra, agora dorme na prisão.
Ele corre o risco de ser extraditado para os Estados Unidos por conta de um episódio que ocorreu anos atrás e cuja principal querelante já declarou, enfática e repetidamente, haver deixado de lado e abandonado qualquer interesse por uma ação judicial.
Aos 76 anos de idade, sobrevivente das perseguições nazistas e stalinistas na Polônia, Roman Polanski arrisca passar o resto da vida na prisão por atos que, na Europa, já teriam prescrito.
Pedimos à corte suíça que o liberte imediatamente, e não transforme esse talentoso cineasta em mártir de uma trapalhada político-legal indigna de duas democracias como a Suíça e os Estados Unidos. O bom senso e também a honra o exigem.
Deixemos de lado a questão de que os terroristas são comuns, em contraponto à escassez de cineastas estupradores, e como tem sido o sono de Polanski[1]. Também deixemos de lado o argumento “anos atrás” e o atual desejo da vítima de não haver ação judicial – são questões legais. E ignoremos o uso de episódio onde a palavra estupro teria sido mais precisa. Afinal, Polanski foi acusado de ter relações sexuais ilegais, e não de estupro. O abrandamento da acusação lhe foi oferecido com a condição de que ele se reconhecesse culpado, assim a garota não precisaria testemunhar em julgamento aberto. Esse foi o argumento usado por Whoopi Goldberg para exigir a libertação do diretor logo que surgiram as notícias de sua prisão, já que ele não tinha cometido um “estupro-estupro”.
O acordo entre a defesa e a acusação veio com a promessa de uma sentença de apenas quarenta dias ou menos – a fim de completar uma detenção de noventa dias para avaliação psiquiátrica e laudos sobre a liberdade condicional que fora interrompida prematuramente — e, depois, a deportação voluntária de Polanski. Quando o advogado do cineasta ouviu rumores de que o juiz quebraria o acordo, impondo uma sentença de prisão mais longa e a deportação forçada, Polanski fugiu dos Estados Unidos.
Os peticionários sugerem que a juventude sofrida do cineasta na Polônia forneceria uma espécie de explicação para que Polanski, aos 44 anos, decidisse travar relações sexuais com uma adolescente de 13 anos. É possível, mas isso não explica por que outras pessoas com um passado semelhante não fizeram a mesma coisa, ou por que gente sem um passado desfavorável agiu dessa forma. Quanto a seu talento, é evidente que há muito se pensa que os indivíduos “criativos” tendem a agir em desacordo com as normas sociais. Isso às vezes é verdadeiro, mas, a meu ver, significa que devemos julgar a obra em separado do comportamento, e não que o comportamento em si deva ser desculpado. Polanski fez filmes extraordinários, mas obras tão boas quanto Faca na Água e Chinatown não autorizam seu diretor a estuprar.
De todas as desculpas e explicações que surgiram para o comportamento de Polanski, a mais ridícula deu-se durante a audiência inicial, no relatório do agente de condicional solicitado pelo juiz:
Possivelmente desde a Itália renascentista nunca houve tamanha concentração de mentes criativas em um só local como tem sido em Los Angeles na última metade do século. Ao mesmo tempo em que enriquecem a comunidade com sua presença, essas pessoas trazem consigo os costumes e maneiras de suas terras natais, que, em raras instâncias, são discrepantes das terras que os adotaram.
(Contente-se com qualquer risada que se possa tirar dessa historinha infame.)
Quanto a sua presente condição de mártir numa “trapalhada político-legal”: o estupro foi confessado por Polanski, ninguém nega que tenha ocorrido e nem que o diretor tenha fugido quando estava em liberdade condicional, antes de receber a sentença, tendo o cuidado de não voltar aos Estados Unidos desde então. Provavelmente há outros estupradores foragidos na Europa e na América que não são talentosos cineastas e, portanto, não são procurados, o que é certamente injusto. De qualquer forma, tendo a achar que seria melhor que os procurassem, em vez de livrarem Polanski de suas responsabilidades. (Ao que tudo indica, ele ainda está devendo 500 mil dólares do acordo com Samantha Geimer.)
***
Em 1961, fui estuprada por um americano em Londres. Eu tinha 14 anos, um a mais que a garota a quem Polanski deu champanhe e meio comprimido de Quaalude, e com quem depois fez sexo oral, vaginal e anal. Em defesa de Polanski, muita gente observou que Geimer era uma modelo adolescente e que participava de uma sessão fotográfica agendada por sua mãe diretamente com o cineasta, que afirmou estar tirando as fotos para a Vogue. Como evidências extras para abrandar o crime, alguns notaram que, depois de a menina beber champanhe (encorajada pelo diretor durante a sessão de fotos), Polanski entrou numa jacuzzi e a convidou para ir junto, mas ela disse que tinha que voltar para casa. O cineasta telefonou para a mãe da menina, avisou que ela chegaria tarde e depois a deixou falar. Geimer respondeu “não” quando a mãe perguntou se queria que fosse buscá-la e, de acordo com um relato (embora não fique claro na transcrição do tribunal do júri), ela consentiu em fazer sexo oral. Ela também contou ao juiz que já havia tido relações sexuais duas vezes com o namorado, que tinha mais ou menos a sua idade.
O que chamou a minha atenção, por fim, e ganhou meu total engajamento foi a ideia de uma adolescente de 13 anos consentindo em fazer sexo oral com um diretor de cinema de 44. Não que as crianças não sejam às vezes sexuais ou mesmo, aparentemente, cúmplices no ato sexual. Ela obviamente não era inocente. (Embora a experiência sexual prévia não invalide a acusação de estupro, mesmo quando a vítima está acima da idade de consentimento.) Para fazê-la consentir, no entanto, Polanski deve ter perguntado alguma coisa. Como? Algumas perguntas parecem mais perguntas do que outras. Como será ter 13 anos e o sonho de ser estrela de cinema (tal qual a maioria das garotas dessa idade), e de repente estar na presença de um poderoso diretor, na casa de um ator famoso (Jack Nicholson), tendo bebido e tomado uma droga forte, diante da proposta de fazer sexo oral em seu ídolo ou de se prontificar para o cunnilingus?
***
Quando eu tinha 14 anos, não fui coagida ao sexo por deslumbramento e nem pelas drogas – fui constrangida a fazê-lo. Numa manhã de sexta-feira, eu estava indo a pé para a biblioteca de Notting Hill Gate, zangada depois de uma discussão com meu pai, quando um sujeito de uns 20 anos, com sotaque americano, apareceu de repente e começou a andar ao meu lado. Ele perguntou o meu nome. Eu o ignorei. Ele repetiu a pergunta algumas vezes. Aquilo costumava acontecer. O normal é continuar a andar quando um homem fala com você ou se exibe. Mas esse era muito persistente. Ele caminhou ao meu lado, disse que era cantor e que tinha escrito uma música nova. Queria saber o que eu achava dela. Quando eu disse “cai fora” pela segunda vez, ele começou a cantar. Bem alto. Hoje em dia, é claro, eu mesma poderia cantar alto na rua sem me importar com nada. Mas não é assim aos 14 anos. Fiquei desesperada. O fato de haver um homem cantando para mim em altos brados, enquanto eu andava na rua, me ridicularizava publicamente. Era óbvio que todas as pessoas do planeta estavam olhando. E rindo. Fiquei fora de mim de tanta vergonha. Pedi que parasse, ao que ele respondeu que só o faria se eu fosse até o estúdio de gravação onde ele trabalhava e o ouvisse cantar a música devidamente. Ficava ali na esquina, a poucos minutos de onde eu morava. Então ele voltou a cantar. Era amável e até engraçado, nada assustador – quando muito, insistente demais.
Eu não imaginava que um estúdio de gravação pudesse ser silencioso e vazio – pensei que haveria muita gente lá, como técnicos e pessoas à toa. Mas acho que teria ido mesmo se soubesse que estava vazio, só para fazê-lo calar
a boca. O estúdio ficava num porão a uma quadra da minha casa. Ele destrancou a porta e me deixou entrar. Fechou então a porta atrás de mim e ouvi o barulho da chave girando. O som de uma chave girando numa sala vazia é mesmo especial. Repentinamente assustada, pedi para ir embora e falei que queria voltar para casa. Mas ele enfiou a chave de volta no bolso de trás e sorriu. “Quero voltar pra casa”, disse mais uma vez, quase em pânico. “Só depois que a gente tiver se divertido um pouco”, ele respondeu. “E não adianta gritar: é um estúdio de gravação, o lugar é à prova de som.” Puxando-me pelo braço, ele me levou para dentro da sala.
Atrás de uma parede de vidro havia aquela mesa de equipamentos de gravação que a gente vê nos filmes. Na sala principal, onde estávamos, havia alguns microfones, uma bateria, uma geladeira e um sofá. Eu disse que só tinha 14 anos e ele deu risada. “Não, não tem”, ele me falou. “Tenho sim”, respondi. Ele me empurrou para o sofá e eu, já implorando – pois sabia que estava em apuros -, repeti que tinha 14 anos e era virgem. Em todo caso, eu era jovem o suficiente para acreditar que isso o faria parar para pensar. “Não, você não tem 14 anos e nem é virgem”, ele riu, enquanto erguia a minha saia. Não faço ideia se ele realmente acreditava no que estava dizendo.
Foi muito doloroso – eu não sabia que a primeira vez poderia ser assim. Gritei de dor várias vezes. Berrei o tempo todo, pedindo que ele parasse (usei bastante a expressão “por favor”). Ainda não temia pela minha vida. Ele não era violento; apenas continuava, recusando-se a parar, repetindo que eu não era virgem e ignorando quando eu dizia que estava doendo. Ele não era violento. Quer dizer, não me bateu.
Assim que ele terminou, pôs-se de pé e ajeitou a roupa. Abaixei a saia e me sentei. Ele foi até a geladeira e pegou uma garrafa de leite, oferecendo-me um gole. Quando recusei, ele bebeu quase tudo.
Depois de terminar o leite, ele me perguntou se eu queria sair para tomar um café. Mas me deixou ir para casa quando respondi que não, contanto que lhe desse meu telefone para que pudéssemos nos encontrar de novo. Ele deve ter me dito o seu nome, mas não me lembro. Então saí e andei uns 100 metros até a minha casa, onde fui direto para o quarto, tirei a calcinha e vi que havia sangue. Fui dormir.
Passei o resto da tarde na cama, cochilando e me sentindo basicamente ferida e vazia. Estava entorpecida pela experiência, mas também tinha a clara noção de que ele era muito burro de pensar que eu havia me divertido. Fiquei com uma poderosa imagem mental dele inclinando a cabeça e tomando leite. Beber leite me faz vomitar sempre. No final, minha reação solidificou-se em descaso, em vez de vergonha. Não acho que tenha sido a pior coisa que me aconteceu. Foi uma experiência ruim, doeu e eu não tinha como escapar. Mas não sinto que fui especialmente violentada pelo estupro em si, não mais do que teria sido por qualquer outro ataque desferido a mim ou a minha liberdade. Em 1961, nem é preciso dizer, ser penetrada contra a vontade era um assassinato espiritual. Tive mais nojo do que me senti envergonhada ou diminuída. Para a minha sorte, o espírito da época era diferente.
***
Ainda assim, por muitos anos, pensei no incidente como “o dia em que me deixei estuprar”.
Tinha plena consciência de ter ido voluntariamente com ele ao estúdio de gravação.
Meu “novo amigo”, como desconfio que ele devia se considerar, telefonou alguns dias depois. Meu pai atendeu, não gostou da voz dele e pediu que não ligasse de novo. Eu não havia lhe contado nada, nem falei disso a ninguém por muito tempo, apenas deixei a coisa se tornar algo que simplesmente acontecera. Cheguei a me considerar, de certa forma, culpada. Na verdade, um amigo mais velho e experiente me garantiu, anos mais tarde, que era impossível estuprar uma mulher: se a penetração ocorria, era porque ela queria. Não lhe contei sobre o estupro, mas fiquei imaginando se, nesse caso, eu devia parar de pensar naquilo como um estupro, uma vez que tinha havido penetração. Hoje já não penso mais assim, embora continue acreditando que não foi a pior experiência da minha vida.
Em busca de atenuantes, Polanski disse ao tribunal que acreditava que Samantha Geimer “não tinha sido totalmente impassível”. Ela relembrou:
Eu disse: “Não, não. Não quero entrar lá. Não, não quero fazer isso. Não!” – e depois não soube mais o que fazer. Estávamos sozinhos e eu não tinha noção do que mais poderia acontecer se eu fizesse escândalo. Então só fiquei assustada e, após oferecer certa resistência, pensei: Bem, acho que ele vai me deixar ir pra casa depois disso.
Soa verdadeiro aos meus ouvidos. Sem dúvida, Samantha Geimer (juntamente com sua mãe), assim como eu, colocou-se numa situação na qual o estupro poderia ocorrer. Talvez ela tenha correspondido, e talvez até consentido em fazer sexo oral com Polanski. Então ele a penetrou e perguntou quando fora sua última menstruação. Quando viu que ela não sabia, ou que estava constrangida demais para dizer, por via das dúvidas ele a sodomizou. Não foi gentil de sua parte? Continuemos chamando isso de estupro-estupro e não vamos nos preocupar tanto assim com o sono de Polanski na cadeia.
[1] Em 25 de novembro, a justiça suíça concedeu liberdade condicional a Roman Polanski. Mediante uma caução de 3 milhões de euros, cerca de 7,8 milhões de reais – que o cineasta obteve hipotecando o seu apartamento em Paris -, ele poderá morar no seu chalé, em Gstaad, até que se decida se será extraditado para os Estados Unidos. Ele teve que entregar seus documentos de identidade à justiça e é obrigado a usar um bracelete eletrônico que permite à polícia o monitoramento dos seus passos.
… E se o MST invadisse “A Fazenda”, da Record?
Posted: 28th novembro 2009 by Vanessa Barbara in Brasil Econômico, CrônicasTags: A Fazenda, Kautski, Lênin, MST, Plekhanov, reality shows, Record
Em 28 de novembro de 2009, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) invadiu o reality show A fazenda, dando prosseguimento à sua política de ocupação de latifúndios improdutivos. Assim que chegaram, com transmissão ao vivo e em rede nacional, os militantes fizeram um pronunciamento à imprensa: “Não descansaremos enquanto uma real alternativa de mudança não for forjada, sem ilusões e nem conciliação de classe. Somaremos ação e pensamento na construção de um país justo, soberano, democrático e socialista. Contra o neoliberalismo e o agronegócio”. O apresentador Britto Jr. aprovou a estratégia de jogo dos novos participantes: “Mandaram bem, né?”.
Na revolução televisionada, a primeira providência foi convocar uma assembleia para definir como se daria a divisão do lotes e o esquema de alimentação, trabalho e segurança no assentamento. Para a coordenadora do núcleo de base Rosa Luxemburgo, seria preciso organizar primeiro o setor da produção de hortaliças, instituindo uma meta de 100 talos por semana para garantir a autossustentação da unidade. Insatisfeita, a celebridade Cacau Melo pediu a palavra: “O Xuxa não quer ajudar com a louça”, dedurou, saindo imediatamente para brincar com Engels, o novo cão da fazenda. Uma subcomissão diplomática foi enviada para resolver a contenda.
Discutidas as prioridades do assentamento, Britto Jr. convidou a todos para um desafio de formação política, em que se avaliou a familiaridade dos peões com as formulações teóricas do marxismo clássico. Houve um desentendimento entre MC Leozinho e o militante Zé Rufino no que tange à questão agrária segundo Plekhanov, Kautski e Lênin, discussão que acabou em troca de obscenidades e beliscões. Após a prova, Sheila Mello foi escolhida para a eliminação. “Me confundi quando me perguntaram sobre a tese ortodoxa da inviabilidade da pequena propriedade camponesa. Achei que ele estava falando de outra coisa”, explicou a ex-loira do Tchan. Seus colegas tentaram consolá-la, mas a dançarina não conseguiu conter as lágrimas. “Vou ser expulsa das frentes de trabalho!”, exclamou, de biquíni, diante das câmeras.
Os dias que se seguiram foram de muito trabalho na lavoura, cuidados com os galináceos e bronzeamento compulsório. O fazendeiro da semana, Maurício Manieri, foi duramente deposto por setores do campesinato que elegeram um Conselho Deliberativo, responsável pela fiscalização das atividades contábeis, administrativas, financeiras e produtivas do acampamento. Aos poucos, o plantio de hortaliças começou a dar resultados. Houve, porém, um incidente grave: a celebridade Adriana Bombom confundiu agrião com rúcula e acabou arruinando uma colheita de dez hectares. “É tudo planta, né?”, justificou-se, e foi imediatamente eliminada do programa. Entre os restantes, instaurou-se a dúvida de que o movimento estaria se tornando stalinista.
À noite, organizaram-se festivos cursos de formação político-ideológica, enlevados pelo espetacular aumento de 40% na colheita. A Fazenda, agora, possuía um setor de autossustentação, ao qual se vinculavam a horta, a produção de leite e o cultivo de produtos destinados ao consumo próprio. Além disso, a piscina foi transformada em caixa d’água e as celebridades foram proibidas de passar protetor solar nas costas dos companheiros de luta. A prova final acontecerá após uma experiência agrária quinquenal, quando os espectadores saberão quem é mais hábil no manejo da terra. O vencedor ganhará um lote na fazenda de Fernando Henrique Cardoso.
Resenha Jornalismo B
Posted: 19th novembro 2009 by Vanessa Barbara in ClippingTags: CosacNaify, O Livro Amarelo do Terminal
Site Jornalismo B
19 de novembro de 2009
por Luiza Monteiro
Recentemente terminei um dos tesouros obtidos este ano na Feira do Livro de Porto Alegre: trata-se de O Livro Amarelo do Terminal, da jornalista Vanessa Barbara, editado pela excelente Cosac-Naify.
Repórter da revista Piauí, Vanessa se infiltrou no Terminal Tietê de bloquinho na mão, disposta a captar impressões, dados e histórias do local, sua construção, seus funcionários e as milhares de pessoas que nele embarcam e desembarcam cotidianamente.
Se o uso da expressão “se infiltrou” na frase anterior parece despropositado (sendo o Terminal um bem público), quem lê o livro vê que é bem isso: Vanessa preocupou os departamentos de assessoria de imprensa e Relações Públicas e enfrentou dificuldades, inclusive, por não estar ligada a nenhum grande veículo- tudo isso aparece n’O Livro Amarelo. Os telefonemas a inúmeros departamentos (cada um deles redirecionando a outro departamento), os dados que “são públicos mas são privados”. E, com ironia, a “ficha de geração de matéria automática” da assessoria.
Aparece a história de Marcos, “a voz mais bonita do terminal”, que interrompe conversas pra anunciar pelo rádio a necessidade de comparecimento dos funcionários a um determinado balcão ou uma criança perdida perto do quiosque de informações. E de Rosa, que jura que a Marinha Britânica está vindo para levá-la pra longe do caos paulista. O Natal dos migrantes. A faxineira Augusta. As onipresentes freiras e pranchas de surfe.
Há também algo que se aproxima da reportagem clássica, com farta consulta a arquivos de jornais e documentos, reconstruindo a história novelesca da construção do Terminal Tietê e a imagem popular (remontada a partir de letras de músicas de sucesso à época) desse processo.
Popular, governamental, público, privado, histórico, atual, urbano, rural, factual, imaginário: tudo isso se funde no livro de Vanessa. O tipo de livro que explica por que, com todas as dificuldades que ela apresenta, eu continuo amando a profissão.
Jabuti 2009: Cosac Naify conquista seis estatuetas
Posted: 5th novembro 2009 by Vanessa Barbara in ClippingTags: Cosac Naify, O Livro Amarelo do Terminal
Cosac Naify
05 de novembro de 2009
A Cosac Naify comemora mais seis estatuetas na 51ª edição do Prêmio Jabuti. A cerimônia de entrega foi realizada ontem, na Sala São Paulo, na capital paulista.
A editora, que já tinha 20 indicações para o prêmio deste ano – um recorde em sua história de títulos selecionados – trouxe para casa os troféus de 1º lugar na categoria Reportagem, com O livro amarelo do Terminal, de Vanessa Bárbara, os 1º e 2º lugares na categoria Juvenil, respectivamente para O Fazedor de Velhos, de Rodrigo Lacerda, e Cidade dos deitados, de Heloisa Prieto (da coleção Ópera Urbana, com ilustrações de Elizabeth Tognato; uma coedição Edições SESC-SP), e também o 1º lugar na categoria Capa para Moby Dick, de Herman Melville, criação da designer Luciana Facchini [conheça o site especial do livro aqui].
Também foram premiados O santo sujo – a vida de Jayme Ovalle, de Humberto Werneck (3º lugar em Biografia) e a tradução de Satíricon, de Petrônio, realizada por Claudio Aquati (2º lugar).
O “Livro do ano”, na categoria Ficção, ficou para o romance de Moacir Scliar, Manual da paixão solitária(Cia. das Letras); a obra vencedora, Não-ficção, foi Monteiro Lobato: livro a livro (Editora Unesp/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), de Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini.
Confira detalhes dos livros clicando sobre os links abaixo:
Moby Dick,
de Herman Melville
Melhor capa [1º lugar], projeto gráfico de Luciana Fachinni
O livro amarelo do Terminal,
de Vanessa Barbara
Melhor reportagem [1º lugar]
O santo sujo – a vida de Jayme Ovalle,
de Humberto Werneck
Melhor biografia [3º lugar]
Satíricon,
de Petrônio
Melhor tradução [2º lugar], com tradução de Cláudio Aquati
O Fazedor de Velhos,
de Rodrigo Lacerda
Melhor juvenil [1º lugar]
Cidade dos deitados,
de Heloisa Prieto (texto) e Elisabeth Tognato (ilustrações)
Melhor juvenil [2º lugar]. Coedição: Edições SESC-SP
A menina e o Jabuti
Posted: 29th outubro 2009 by Vanessa Barbara in ClippingTags: CosacNaify, Jabuti 2009, O Livro Amarelo do Terminal
Canto dos Livros
29 de outubro de 2009
por Rodrigo Casarin

Nino Andrés/ Cosac Naify
Com apenas 27 anos, ela já integrou mesa de discussão na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) e, em 2009, levou para casa o prêmio Jabuti na categoria Reportagem com O Livro Amarelo do Terminal. Falo de Vanessa Barbara, que se formou em jornalismo pela Cásper Líbero, apresentando como TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) exatamente a obra que mais tarde lhe valeria um troféu em forma de tartaruga. A escritora, que está abandonando a carreira jornalística para se dedicar exclusivamente a textos de ficção e trabalhos de tradução, concedeu por e-mail para o Canto dos Livros a bem-humorada entrevista abaixo, onde, dentre outras coisas, relata como começou sua paixão por pudim.
Canto dos Livros: De onde surgiu a idéia de falar do terminal do Tietê?
Vanessa Barbara: Queria fazer um livro sobre as ruas de São Paulo, mas teria que falar de calçadas, semáforos e meios-fios, o que me deixaria imensamente avoada, então acabei escolhendo a rodoviária porque é o lugar que mais se parece com a rua. O terminal traz histórias que ilustram contradições da metrópole: a modernização, o movimento repetitivo das pessoas que vão-e-vêm, a inconstância, a idéia de massas; e, por outro lado, a sensação de não-pertencimento, a vontade de retornar ao lugar de partida, o anacronismo dos personagens, a permanência – aquilo que nunca muda.
Canto dos Livros: Como foi o processo de apuração e redação d’O Livro Amarelo do Terminal?
VB: Foi uma apuração de aproximadamente um ano, durante o qual vivia apavorada. O que mais me incomodava, além dos entraves burocráticos, era a minha completa inaptidão para conversar com as pessoas. Às vezes eu ficava em silêncio ao lado de algum entrevistado vendo os ônibus passarem, por puro pânico e falta de perguntas. Isso às vezes era uma vantagem, porque o sujeito acabava falando qualquer coisa que lhe viesse à mente.
Já a parte da redação foi mais tranquila e correu bem. De início, seria um livro de crônicas, mas os textos foram saindo num gênero mais híbrido e, como no formulário de inscrição dos TCCs não havia a opção “crônica”, acabei me rendendo ao formato de reportagem.
Canto dos Livros: O livro tem forma e linguagem que foge totalmente do que vemos na grande imprensa e do que é ensinado nos cursos de jornalismo. Como ele foi recebido pelos professores e avaliadores do seu TCC?
VB: Meus orientadores, Marcelo Coelho e Welington Andrade, gostaram bastante do trabalho e me deram liberdade para fazer o que eu bem entendesse. A banca avaliadora era formada por Sérgio Alcides, Flávio Lobo e Nanami Sato, que a propósito caiu da cadeira logo no início da apresentação – mas não porque estivesse impressionada com o trabalho, como se poderia supor. De qualquer forma, eles gostaram do livro, me deram nota 10 e sugeriram algumas alterações, que mais tarde acabei incorporando.
Canto dos Livros: O seu livro se encaixa nos preceitos do Jornalismo Literário. Em algum momento você se preocupou com que o livro se encaixasse neste “rótulo”?
VB: Jornalismo Literário não é nada mais do que escrever não-ficção usando uma técnica narrativa de ficção. Não é intrinsecamente bom ou mau, é uma técnica. Se for malfeito, pode ser tão ruim quanto uma matéria convencional mal apurada. Como falei, tentei misturar o estilo mais convencional com um tom de crônica, sabe-se lá Deus por quê.
Canto dos Livros: Qual era a sua expectativa para o Jabuti e o que ganhar este prêmio representa para você?
VB: Não achava que um livro totalmente amarelo pudesse vencer o Jabuti, mas veja só que surpresa. É um livro incomum, diferente e um tanto experimental, então fiquei surpresa de ver que uma coisa esquisita assim também podia ganhar prêmios. Acho que os jurados se convenceram ao tomar conhecimento de uma frase do John dos Passos (“Repara no amarelo, é lindo”) e de outra do Van Gogh (“Como é agradável o amarelo! Ele simboliza o sol”).
Canto dos Livros: Você já participou de mesa na Flip e levou um Jabuti com 27 anos. Como uma jovem é recebida no meio literário, cujas pessoas costumam ser mais velhas?
VB: Tenho 27, mas sou a mais idosa das escritoras. Gosto de usar pijamas, de escrever com uma manta xadrez nos joelhos e até hoje não aceito a reforma ortográfica de 1971, aquela que aboliu a maioria dos acentos diferenciais, como o de flôres e de agôsto. Aos 30 anos, estarei nas ruas protestando contra as discotecas, esses templos de licenciosidade pagã.
Canto dos Livros: Você já está trabalhando em algum outro livro? Sobre o que será? Já tem previsão de lançamento?
VB: Estou escrevendo uma história em quadrinhos em parceria com o ilustrador Fido Nesti, que se chama A máquina de Goldberg. Tenho um livro infantil que vai sair ano que vem pela editora 34, ilustrado pelo Andrés Sandoval, que se chama Endrigo, o escavador de umbigo. E estou escrevendo um romance, mas esse é segredo.
Canto dos Livros: Quais são as suas principais referências literárias?
VB: Para o Amarelo, li alguns jornalistas e escritores como Joseph Mitchell, Gay Talese, Truman Capote, Hemingway, John dos Passos, João do Rio, Rubem Braga, Luis Fernando Verissimo, George Orwell, Charles Dickens e até um quadrinista, o Will Eisner. Na literatura de ficção, gosto de Flaubert, Cortázar, Borges, Kafka, Campos de Carvalho, Cervantes, Sterne, Drummond, Poe, Svevo e Lewis Carroll.
Canto dos Livros: É verdade que você quer parar de escrever não-ficção? Por quê?
VB: Como ficou sabendo? Sim, é verdade. Dei um tempo no jornalismo porque tenho muita dificuldade de fazer a apuração, de conversar com as pessoas, e percebi que ficava cronicamente apavorada com a obrigação de fazer isso. Então, decidi me dedicar mais a ficção, crônica e tradução. Também reviso legendas de filmes em polonês.
Canto dos Livros: De onde vem e como você lida com o seu fascínio por pudim?
VB: Começou em 1984, quando eu estava ocupada mastigando os meus próprios dedos e de repente me deparei com um grande e translúcido pudim. Meus preferidos são os de leite, mas os de laranja também são dignos de nota e – por que não? – os flans de chocolate e de ameixa têm um espaço cativo no meu coração. É tudo questão de consistência e da qualidade dos ovos.
O clã do Jabuti – Reportagem
Posted: 23rd outubro 2009 by Vanessa Barbara in ClippingTags: CosacNaify, Jabuti 2009, O Livro Amarelo do Terminal
Blog da Cosac Naify
23 de outubro de 2009 às 17:34
Se o nadador recordista Cesar Cielo fosse um livro, e se esse livro fosse amarelo, sem dúvida seria esta reportagem, que vem granjeando prêmios no Brasil e no mundo.
Sentada à janelinha de seu Livro amarelo do Terminal, Vanessa Barbara já faturou o prêmio da APCA e emplacou o primeiro lugar no Jabuti, ao lado (ou melhor, um passinho à frente) de veteranos de grosso calibre como Zuenir Ventura.
O projeto das designers Maria Carolina Sampaio e Elaine Ramos foi um dos 50 livros de 2008 destacados pela AIGA, a associação americana de designers, em Nova York. O papel de impressão é aquele amarelinho, usado em bilhetes rodoviários. Na balbúrdia tipográfica criada pelas designers, Elaine enfim encontrou uma utilidade para sua vasta coleção de passagens de ônibus e congêneres: reproduzir graficamente, sem usar uma única foto, a aparente anarquia do Terminal Tietê.
O livro inaugurou uma nova série de jornalismo na Cosac Naify, mas ao mesmo tempo se filia à linha de literatura da editora (pelos recursos que toma emprestados da ficção), e é primo-irmão dos livros da Coleção Particular, que reúne edições experimentais de grandes textos de ficção.
Afeita a atividades de natureza vária, como o cultivo de hortaliças, o volibolismo, a tradução literária e a digitalização da enciclopédia O mundo pitoresco, a pequena notável dedica-se antes de mais nada a promover os encantos de seu rincão natal, o plácido bairro paulistano do Mandaqui. Foi lá, nas imediações do Bar do Firmo, que conheceu o escritor Emilio Fraia, com quem tentou encontrar um vibrafone e assinou, no mesmo 2008 do Livro amarelo, um romance a quatro mãos: O verão do Chibo.
Trocadilhos tolos e conduta absurda à parte, o que faz esta reportagem ganhar prêmios e fisgar tantos leitores? É possível arriscar alguns palpites.
Um deles: dos melhores repórteres, Vanessa Barbara herdou o olhar serendipitoso, a disponibilidade para escutar. Dos melhores ficcionistas, o humor, a liberdade na linguagem e a habilidade para tratar um tema social — o povão da rodoviária — sem idealizações ou caricaturas.
Será isto o tal jornalismo literário?
Veja abaixo um pouco do pensamento vivo de nossa premiada.
O seu Livro Amarelo do Terminal já ganhou o prêmio da APCA de Melhor Livro-Reportagem, foi selecionado pela AIGA entre os melhor livros de 2008 e agora leva o Jabuti de Reportagem. Em quanto tempo pretende receber a Ordem do Cruzeiro do Sul?
Tenho cá para mim que a Ordem do Cruzeiro do Sul virá naturalmente, assim que eu receber ao mesmo tempo o prêmio Nobel e o IgNobel pelo conjunto da minha obra. Será por conta da sequência do Livro Amarelo, a Trilogia O Livro Bege da Plataforma Petrolífera, O Livro Magenta dos Paraísos Fiscais e O Livro Ocre do Mandaqui.
Como responde aos rumores de que será lançada uma edição comemorativa de seu livro, adaptada à reforma ortográfica de 1943?
Estou na expectativa – finalmente poderemos acentuar com galhardia as palavras flôres, pilôto, côr e agôsto. Dou fé aos rumores e prometo fazer o máximo possível para que a edição comemorativa saia antes do próximo aniversário da Socicam, que na edição será grafada “Socicão”.
Como pretende alimentar seu Jabuti? Corre à boca pequena que você já está munida de ração especial para quelônios.
São crustáceos desidratados que ganhei do Cassiano. Mas aposto que o jabuti Jacinto será adepto da carne moída crua, como todo bom mandaquiense no exílio.
Quando publicaremos um texto seu exclusivo para o Blog da Cosac Naify?
Em breve, em breve. Agora estou de férias, dando a volta ao mundo de patins.
A moça do Livro Amarelo
Posted: 7th outubro 2009 by Vanessa Barbara in ClippingTags: CosacNaify, O Livro Amarelo do Terminal
Boteco Sujo
7 de outubro de 2009
por Fausto Salvadori Filho
Admiração é para pessoas dignas e respeitáveis. Gente desqualificada como eu tem mesmo é inveja. E uma figura que eu invejo é Vanessa Bárbara. Não porque ela seja escritora premiada com o Jabuti, colunista do Estadão e repórter da Piauí, tudo isso aos 27 anos. O que eu invejo mesmo é o texto da mina.
O Gerador Automático de Reportagens aí de cima (clique para ler inteiro, vale a pena), uma tiração de sarro com os jornalistas que escrevem sempre as mesmas matérias sobre o terminal Tietê, é um dos muitos achados d’O Livro Amarelo do Terminal, que na semana passada levou um merecido Jabuti na categoria de melhor reportagem. Isso é o livro: uma fuga de tudo o que seja fórmula ou lugar-comum. Vanessa sempre escolhe as formas mais inusitadas para narrar esse perfil sobre a rodoviária do Tietê e as figuras que circulam por ali. No texto dela, o terminal é uma Macondo de histórias fascinantes e personagens surpreendentes.
— Sempre procurei escrever minhas matérias do jeito mais diferente — ouvi Vanessa contar numa palestra sobre “jornalsmo literário” na Livraria da Vila. (A maioria das redações e faculdades de jornalismo busca exatamente o contrário, obrigando profissionais e estudantes a encaixar as informações sempre dentro dos mesmos escaninhos textuais, mas isso é para outro post…).
E Vanessa não cai nas armadilhas que costumam atacar muitos que se metem a fazer o tal do “jornalismo literário”. Acontece que o texto criativo de Vanessa não é uma roupinha frufru para esconder a apuração deficiente. É parte integrante (não pode ser vendida separadamente) dos sentidos da autora: um olhar para as crianças que brincam diante de pais sonolentos nas cadeiras do terminal; um par de ouvidos para as histórias de carnes inchadas de vermes carregadas em malas e velas acesas dentro de gavetas para o cumprimento de promessas.
E o livro também não cai na superficialidade, outro pecado geralmente associado ao jornalismo literário mal compreendido. Não é só uma crônica esticada sobre o Tietê, fruto de alguns passeios pelo lugar e meia dúzia de entrevistas com a galera. O capítulo mais extenso é uma longa história sobre a construção do terminal, baseada em centenas de matérias de jornais e documentos oficiais empoeirados. Vanessa transforma essa narrativa histórica num conto surrealista cheio de humor e lances inusitados, entremeado por trechos de canções do período.
Eu invejo Vanessa Bárbara, mesmo ela tendo dois nomes e nenhum sobrenome. Aliás, se sobrenome tivesse, poderia ser Talese. Ou mesmo Eisner.





