“Há povos de travesseiro e povos sem travesseiro”, teorizou o antropólogo Marcel Mauss, em 1934. “Há populações que se espremem para dormir em torno do fogo, ou mesmo sem fogo. Há povos de esteira e povos sem esteira. Há, enfim, o sono de pé”, completou, em sua ânsia científica de categorizar os tipos humanos.

Podemos ir além e dividir o mundo entre aqueles que usam tesourinha de unha e os que preferem o “trim”. Uns seriam mais habilidosos com a mão esquerda e os outros, mais detalhistas. Podemos também repartir a humanidade entre os que gostam de botar o feijão em cima do arroz, em oposição aos que separam metodicamente os alimentos ou usam a fava como substrato. Hoje em dia, é essencial optar entre ninja ou samurai, entre fio ou fita dental, entre PC ou Macintosh, entre gato ou cachorro, porco ou chouriço. É possível aglutinar os elementos em subgrupos: o usuário de Mac é eminentemente samurai, gosta de gatos e usa fita dental. Há uma clara propensão ao chouriço.

Não se tratam de opções corriqueiras e sem importância, como aderir ao gongorismo, abraçar a mitologia hindu ou defender a revolução armada. Neste caso, trata-se da maior das questões, do manifesto definitivo que marca o posicionamento de cada um neste planeta: o que você prefere, rúcula ou agrião?

Alguns dados para facilitar essa decisão quase metafísica: a rúcula, também chamada de mostarda-persa, popularizou-se a partir dos anos 90. Antes disso, era uma planta selvagem, ignorada nos campos da culinária e da botânica. Hoje é utilizada em refeições devido ao seu gosto forte e amargo, capaz de anular o sabor dos outros alimentos. Trata-se, portanto, de uma usurpadora de paladares. Já o agrião é popular desde a Idade Média, quando era utilizado como emplasto para combater o escorbuto. Possui alto índice de vitaminas, ferro, ácido fólico, potássio, cálcio, fósforo, iodo e betacaroteno, além de supostas propriedades anticancerígenas. Dizem que também serve para curar verrugas. Por que, então, a rúcula reina soberana em nossas saladas?

O agrião é proletariado, é perseverança, é a gente simples da nossa terra. E disso muitos têm vergonha. Não percebem que o bom acólito da causa agriã está fazendo uma profissão de fé, uma opção clara e simples, como quem diz: “Sou a favor de bebês em geral. E de filhotes de tartaruga”. Até hoje, o discípulo pró-agrião não se conforma com a supremacia da rúcula, consolidada nas duas últimas décadas. De um dia para o outro, surgiram certas folhas mais amargas em meio ao tradicional agrião-alface-e-pepino. Depois veio o tomate seco, a mussarela de búfala e os croutons. Em poucos anos, a rúcula sufocou por completo os caules do agrião, esta valorosa verdura, que praticamente sumiu do mapa. (Só no futebol é que se continua a dizer “zona do agrião”, em referência à pequena área.) Fora os locutores esportivos, ninguém mais tem a coragem de advogar em favor do Nasturtium officinale.

A rúcula é burguesa e petulante. Quem a aprecia fatalmente se posiciona do lado errado da luta de classes, mesmo sem a intenção consciente de esmagar o campesinato. O pró-rúcula escolhe Higienópolis em vez de Santa Cecília, táxi em vez de metrô, caipirinha de lichia em vez de groselha Milani. É adepto de alguma corrente new age e saboreia seus vegetais folhosos com molho italiano. A rúcula, afinal, não tem caule significativo e nem sombra de personalidade. Ela anda de salto alto, frequenta os bares da Vila Madalena, dá escândalo em fila de banco. Apoiá-la é aplaudir a mais-valia e a exploração dos fracos – a rúcula faz as unhas, enquanto o agrião as rói.

Vamos dar uma chance ao agrião e reverter essa iniquidade histórica.

Em 13 de março, comemorou-se no mundo inteiro o Dia do Número Pi. Quem perdeu a oportunidade de idolatrar essa curiosa constante matemática não precisa se desesperar: este ano ainda teremos o Dia do Aço, o Dia da Estrada de Rodagem, o Dia do Disco Voador, o Dia do Protético e, por fim, o Dia do Protesto, em 14 de agosto. Convém já ir planejando. Será uma boa oportunidade de ir a campo, subir num caixote e se irritar com alguma instância do cotidiano, como a violência, a poluição ambiental, o urso panda e a dieta de baixas calorias. Quem tiver uma mesa, que dê um soco vigoroso no móvel. Impropérios de toda sorte estão liberados nesse dia, bem como cartazes com palavras de ordem e manifestações rancorosas em frente a órgãos públicos.

Entre os protestos mais ilustres da história, temos o dia de jogar chá no mar – a Festa do Chá de Boston –, e o momento de atirar sapatos no presidente. Não podemos esquecer de Robert Opal que, em 1974, correu pelado no palco da cerimônia do Oscar, e do neozelandês que abaixou as calças diante do príncipe Charles e da princesa Diana. Os manifestantes mais simpáticos, porém, são belgas e promovem ataques de torta doce a celebridades como Bill Gates e Marguerite Duras. Costumam utilizar tortas de creme de ovo quando o alvo é móvel, tortas-merengue de limão para ataques bruscos e tortas de creme de tofu contra economistas. Igualmente dignos de nota são aqueles que se reuniram em torno do Pentágono, em 1967, e concentraram esforços para fazer o prédio levitar. Ou o grupo de cariocas que saiu às ruas com um penico na cabeça, no protesto “Chega de cocô”. Uma simpatia especial é reservada à Frente de Libertação das Barbies, que substituiu os chips de voz de bonecos da série Comandos em Ação e de bonecas Barbie; as meninas compravam Barbies que diziam “A vingança é minha!” e os meninos ganhavam soldados que gritavam “Vamos planejar nosso lindo casamento!”. (Mais sugestões edificantes podem ser encontradas na dissertação de mestrado de Érico Assis, “Táticas lúdico-midiáticas no ativismo político contemporâneo”, disponível na internet.)

Eu, particularmente, aprecio protestos em que ninguém sabe bem o que está fazendo. São as chamadas caminhadas em grupo. Nelas, alguém pode gritar, sem motivo: “Fora, lumbago! Saia já daqui”, e ser estrondosamente seguido por uma multidão de militantes. Um rapaz com cinto de tachas já providenciaria o cartaz: “Fora, lumbago” e a procissão se dirigiria automaticamente a Brasília, com o propósito de pôr fim à bancada lobista pró-ciática. “E eu que só saí de casa para comprar broas”, diria uma senhora, pega de surpresa pelo fluxo de caminhantes, mas já pronta a dar entrevista às redes de tevê.

Contudo, não há necessidade de ter ideias ou executar ações para protestar. É possível apenas falar, como fez o francês Lluis Colet por 124 horas seguidas, embora seu discurso tenha se perdido no caminho e desandado numa palestra sobre Salvador Dalí e a cultura catalã. Outro exemplo que pode servir de inspiração é o púlpito de um programa de tevê que passa nas madrugadas de sábado, no qual Rubinho Barrichello já reclamou de ser míope e insone, uma atriz declarou que “aniversário que é aniversário tem que ter brigadeiro” e os adolescentes protestam contra a fila da cantina e o imperialismo americano. Num momento memorável, um rapaz chamado Vitor subiu à tribuna e esbravejou: “Eu protesto contra a cirurgia plástica porque eu operei o nariz e ainda sou narigudo”. Em seguida, um outro cidadão decidiu protestar contra “quem ainda acha que pum não é cultura”.  Fica aí a sugestão.

Apontamentos de um fissurado em games

Posted: 1st março 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Revista Piauí
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Piauí n. 42
Março de 2010

por Vanessa Barbara

Fragmentos encontrados por um arqueólogo no HD de Darth_Gonzales15

Meu nome é Darth_Gonzales15 e a realidade continua a me decepcionar. Hoje acordei cedo — ainda não havia escurecido — e fui à padaria, onde as broas pareciam 2D e o mundo não chegava nem perto dos gráficos do Crysis. Odeio o mundo real. É sempre uma decepção opaca, lenta, antiquada e sem surround 5.1. Isso sem falar no sol, uma fonte que emana calor de verdade e não tem controle de contraste.

Estando sem a minha pintura de guerra e a clava dupla de ganchos mortíferos (Kratos!), decidi partir para a tática de espreita dentro da guarnecida fortaleza panificadora, como se estivesse num game do gênero stealth. À maneira do caolho Garrett (protagonista de Thief: The Dark Project) ou do ninja Rikimaru (Tenchu: Stealth Assassins), passei pela porta sem ter que alvejar ninguém, servindo-me apenas da astúcia e de modos furtivos. Soltei uns dez shit, mas consegui.

Por conta disso, ganhei dez pontos de estratégia e um bônus de resistência física. Também logrei passar despercebido pelo balcão de frios, queijos e embutidos graças às técnicas de camuflagem aprendidas em Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots, em que o herói fica idêntico à calçada, ao barril ou à lixeira mais próxima. “Eu sou apenas um velho matador… Contratado para fazer um trabalho sujo”, exclamei, saudoso do game sangrento que vendeu quase 5 milhões de cópias só no ano passado. Mesmo tendo diálogos cafonas e uma inexplicável obsessão fílmica pelos glúteos do velho Solid Snake.

De meu posto avançado entre as bisnaguinhas, tentei executar uma varredura infravermelha do ambiente analógico e hostil, mas não consegui localizar ciclopes, harpias, hidras e centauros. Só o português do caixa, o seu Manoel, que aparentemente esqueceu de personalizar sua armadura e estava de regata contando moedas de 25 centavos. Com os meus botões (Alt e F5), calculei que ele seria um tipo de goblin ou uma criatura primitiva dos mares. Força 2, Habilidade 3, Resistência 1 e Poder de Fogo 5. No final, era só o português mesmo, e nem me deixou pedir fiado.

A jogabilidade do mundo real está cada vez mais fraca.

***

Passei o dia organizando os 12 quilômetros de fiação do meu centro eletrônico de entretenimento. Ao todo tenho dez diferentes consoles. Na linha de frente estão os videogames tradicionais, os que rodam jogos na tela da tevê e têm um controle chamado joystick. São eles: os Playstations 1, 2 e 3 (este último a mais avançada de todas as máquinas de brincar da história), um Nintendo 64, um Dreamcast, um Wii com prancha WiiFit, um Mega Drive com Sega cd (eu caí, desculpa) e um TurboGraphx-16 tardio, que levei numa troca desvantajosa. São traquitanas robustas, confiáveis e, em sua maioria, destravadas para rodar todo tipo de jogos piratas, digo, genéricos. O que não me impede de gastar 239,90 reais num lançamento para ps3. Meu sonho? Um Sega Saturn circa 1995 com conversor de tevê digital, para testar Panzer Dragoon Saga. (O Mojo disse que é bom.)

Depois vêm os portáteis, como o psp e o Nintendo ds, febre entre os mais jovens – diz-se que uma garota perdeu o olho após jogar 17 horas seguidas de Professor Layton and the Curious Village em seu ds cor-de-rosa. Esses têm bateria, podem ser levados no bolso e permitem iniciar uma partida de Mario Kart com a criança de 10 anos que está sentada atrás de você no avião.

Por fim, compõem minha caverna tecnológica três singelas geringonças que não são videogames, mas servem a tão nobre função: o iPhone, o MacBook Pro e o pc. Esse último contém emuladores para todo tipo de plataforma; são softwares que imitam tanto um Master System quanto calculadoras hp, mainframes da década de 50, sistemas operacionais obsoletos e todos os Zeldas jamais criados pelo homem. Tirando os de Wii e GameCube. Mas enfim.

Essas engenhocas melífluas estão todas ligadas, por meio de benjamins contíguos, nas tomadas de um único estabilizador furreca – quando aciono tudo ao mesmo tempo, Furnas emite um comunicado declarando estado de emergência.

***

Acabo de empreender uma jornada na frente da tevê de 83 horas de Dragon Quest VIII: Journey of the Cursed King. As primeiras vinte horas foram boas, mas meus pés começaram a inchar e faltou substancialidade à trama, que versa sobre um estranho ente gelatinoso. O chefe final é muito fácil e eu terminei no nível 44. Estou pensando em jogar de novo.

***

Fui nadar à tarde. Boa notícia: a água de Endless Ocean está cada vez mais convincente, e juro que vi um pinguim. Ou era uma tartaruga? No mais, depois de treze horas sem me alimentar, consegui uma montaria voadora épica em World of Warcraft, com drop rate de 0,01%. Sou famoso agora. Além disso, aderi à modalidade de multiplayer para 32 jogadores do Grand Theft Auto IV, o que certamente irá revolucionar minha vida social. Nada como roubar carros e promover a matança com uma gangue de amigos verdadeiramente cossacos!

Essa história de que game sangrento incita a violência não está com nada. Eu, por exemplo, nunca congelei ninguém só para arrancar a perna do indivíduo e com ela arrebentar seu crânio, como o Sub-Zero de Mortal Kombat, que, aliás, também costumava transformar os inimigos em bebês. Tampouco tenho pendor para ser um zumbi canibal (Resident Evil), que dirá para duplas decapitações, desmembramentos aleatórios e demais homicídios grotescos. Entre os meus favoritos estão o massacre da serra elétrica de Gears of War, a decapitação ritualística em Silent Hill II, o esfaqueamento de uma desconhecida em BioShock, o aparafusamento de uma donzela em Phantasmagoria, a queda súbita de Mario em cima da tartaruga (Super Mario), e, por fim, o afogamento do porco-espinho Sonic, que é muito triste e cruel (Sonic the Hedgehog).

Até no inocente The Sims, pacato jogo de simulação de vidas, é possível matar seus próprios personagens por emparedamento, sujeira, incêndio acidental ou mesmo removendo a escada da piscina, deixando o pobre-diabo se afogar.

***

A interface do mundo real me irrita. Por exemplo: por que as pessoas não nos dão informações mediante a resolução de um enigma, como em Professor Layton? E por que não há bolos espalhados pela rua, como em Fat Princess, a saga da princesa gorda? Na área médica, por que não é possível extirpar tumores em dois segundos com um bisturi a laser, como em Trauma Center: Second Opinion? E como ficam as vidas infinitas, o combustível inca que dá força e o unguento satânico que ameniza feridas expostas? Será que ninguém pensou em reflorestar o mundo à força, destroçando o Oeste americano com milhares de sequóias, tal qual o herói de Sam & Max? É por isso que sempre digo: guitarra, só plugada no ps3. Exercício, só o jogo da galinha voadora na prancha do WiiFit.

Em uma palavra: papapishu.

***

Hoje é 24 de fevereiro e meu primo Nuno, que mora em Nova York, já está jogando Heavy Rain: The Origami Killer, “uma aventura gráfica dramática para maiores de 18 anos”. Com mais de 2 mil páginas de roteiro, o lançamento de ps3 é aguardado pelos gamemaníacos como dom Sebastião pelos portugueses após Alcácer Quibir. “Argumento forte” e “perfeição estética” são algumas das propaladas qualidades do game, que, para o meu primo Nuno, é bem legal. “Dá para aprender a fazer origami enquanto o jogo instala seus 4,2 gigabytes obrigatórios no hd”, afirmou ele.

Em resumo: boa noite e até a Páscoa.

Neste Carnaval, a Secretaria Especial da Ordem Pública do Rio de Janeiro decidiu aumentar o cerco contra o xixi de rua. Dezenas de foliões foram detidos no ato de urinar em logradouros da cidade, antes ou depois da passagem dos blocos. Segundo as autoridades, o fenômeno da micção descarada é comum em grandes eventos, gerando para os cofres públicos um prejuízo de 280 mil litros em solução de eucalipto. O incontinente infrator é fichado por ato obsceno e atentado ao pudor, com uma pena que pode chegar a doze meses de prisão ou multa.

Porém, ao que tudo indica, as organizações ambientais discordam dos homens da lei: “Quem não faz nada pelo meio ambiente pode fazer xixi no banho”, postulou a Fundação SOS Mata Atlântica, numa campanha recente que também louvava o xixi na árvore e o xixi na chuva. Para os ambientalistas, urinar debaixo do chuveiro é deixar de acionar a descarga e poupar de 8 a 12 litros de água por dia. O mesmo aconteceria nas modalidades “na árvore”, “no mato” e “na chuva”, que sairiam de graça no acirrado acerto de contas da ecologia global – as primeiras ainda teriam a vantagem de adubar os vegetais. (É verdade que a campanha também recomenda lavar a salada e as roupas íntimas no chuveiro, mas enfim.) O fato é que o tradicional alívio na privada perde apenas para o pipi na piscina no quesito desperdício de água.

Isto posto, vem a dúvida: seria o xixi de rua ambientalmente aceitável ou, além de repugnante, uma falta de educação passível de indiciamento? Muitos se posicionaram contra a liberação diurética não convencional, enquanto outros saíram urinando à larga e passaram a quarta-feira de Cinzas na companhia de Salvatore Cacciola e de um arlequim triste no presídio de Bangu. Na esperança de enriquecer o debate e ajudar o leitor a decidir seu posicionamento, elencamos aqui algumas das mais importantes estatísticas sobre o xixi na vida moderna, que se seguem.

Primeiro, aos desavisados: comer aspargos pode deixar o xixi com cheiro ruim. Isso ocorre porque algumas das substâncias da leguminosa contêm enxofre, que é metabolizado e provoca um aroma desagradável na urina de 40% da população mundial. Em No caminho de Swann, Marcel Proust trata dessa questão e, laudatório, declara que o bom aspargo “transforma meu penico num frasco de perfume”. Outro grande achado científico é que os peixes urinam. Abelhas também. E que repolhos adubados com xixi humano crescem mais frondosos.

De acordo com estudos, xixi verde acusa presença de azul de metileno no organismo; xixi laranja é sinal de muita cenoura e abóbora. Xixi rosado pode ser ingestão exagerada de beterraba e, se o seu xixi fica fosforescente ao sol, procure um médico ­– porque isso é muito esquisito.

Ao descer do módulo lunar, o astronauta Edwin Aldrin exclamou: “É lindo e desolador”, e imediatamente ficou com vontade de tirar água do joelho. Foi o que fez, aos olhos de todo o universo, dentro de um traje reforçado com 21 camadas de diferentes materiais. Foi um grande passo para a humanidade, já que o último astronauta a esvaziar a bexiga em órbita, Alan Sheppard, não deu tanta sorte no sentido mais clássico da impermeabilização indumentária: teve que suportar uma poça amarela que lhe subiu pelas costas e alojou-se na área do pescoço. Fosse um folião, ainda seria preso ao som de “Chiquita bacana, lá da Martinica” e acabaria em Bangu.

Lado a lado

Posted: 4th fevereiro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo
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A convite da Folha, os escritores Vanessa Barbara, Xico Sá e Joca Reiners Terron relatam suas experiências em restaurantes caros e apertados

Folha de S.Paulo – Ilustrada
4 de fevereiro de 2010

A vida dos outros

Filipe Redondo/Folha Imagem

Piselli r. Pe. João Manuel,1.253, Cerqueira César,tel.0/xx/11/3081-6043

VANESSA BARBARA
ESPECIAL PARA A FOLHA

O Cidão só fala bobagem.

Ele é venenoso, fuxiqueiro e, segundo uma mulher de óculos, tem o pé grande. Não conheço o Cidão, mas é como se conhecesse: só se falou nisso na mesa ao meu lado, no restaurante Piselli. Em meio à decoração de latas de ervilha e garçons que se espremem para passar entre as cadeiras, a clientela vai ficando mais barulhenta em razão direta ao esvaziamento da adega.

Na mesa maior, ninguém segura a maledicência contra o Cidão. Até a senhora sentada com o marido atrás de mim já sabe que o supracitado usa camiseta regata, promove “churrascos poéticos” e arrumou encrenca com um delegado, numa história longa e sem sentido que foi interrompida com a chegada da conta.

Em restaurantes com mesas muito próximas, os homens são os que falam mais alto, sobretudo se estiverem tentando impressionar alguém na outra ponta do recinto. No Piselli, sexta à noite, é normal haver um burburinho geral e indistinto, mas também é possível escutar intimidades, conselhos, bravatas, frases sem sentido (“ele abriu uma cratera na minha cabeça”) e impressões aleatórias sobre qualquer tópico do conhecimento humano. A menção a Nova York foi ouvida seis vezes, contra duas ocorrências da palavra “ético” e uma de “calefação”.

Um jovem casal passou uns bons dez minutos se arrependendo da sobremesa escolhida, antes mesmo que ela chegasse.

Do outro lado do salão, um rapaz com bronzeado cor de laranja exclamou: “Não tem salsicha aqui nesta merda!”, no contexto de uma narrativa prolixa que se desenrolava havia cerca de 15 minutos.

Além do entretenimento involuntário e da variedade de opiniões sobre assuntos de interesse geral, a vantagem das mesas coladas é que se pode julgar impiedosamente os vizinhos. A poucos palmos de distância, é absolutamente razoável rotular uma mulher de megera e um homem de moleirão, num relacionamento que, a julgar pela conversa, vai durar no máximo até domingo. Ao meu lado, havia um desses casais: ela monopolizava a conversa e falava com a boca cheia.

Quando ele manifestou opinião própria sobre um assunto, ela discordou com um seco “não” e ele reconsiderou: “É, pode ser”. A mulher prosseguiu, triunfante: “Querer, eu não quero. Mas não significa que eu desquero”. São momentos como esse que me fazem gostar de música ao vivo.


VANESSA BARBARA é jornalista, tradutora e cronista. Publicou “O Livro Amarelo do Terminal”, Prêmio Jabuti de reportagem, e “O Verão do Chibo”, com Emilio Fraia.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0402201019.htm

Pop cult na biblioteca

Posted: 1st fevereiro 2010 by Vanessa Barbara in esquinas, Reportagens, Revista piauí
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Piauí n. 41
Fevereiro de 2010

por Vanessa Barbara

Dieta de pífanos e parlendas reúne os mais longevos luminares da cultura local

Ao telefone, a piauiense Andréa Sousa tentava angariar reis magos para uma apresentação de Natal: “Como assim, Quantos reis magos são? Que tipo de cristão você é?”

Andréa é contadora de histórias e coordenadora de eventos da Biblioteca Pública Belmonte, no gigantesco bairro paulistano de Santo Amaro. A instituição, que em 2007 se especializou em cultura popular, oferece atrativos como esse do fim do ano, parte das comemorações do centenário de nascimento de Mestre Vitalino, o grande ceramista pernambucano. Foram dois meses de exposições, oficinas de modelagem, peças de teatro, uma feira típica de Caruaru (com réplica da casa do artista), emboladores de coco, declamadores de cordel, mamulengueiros do porte de Valdeck de Garanhuns e, como se pouco fosse, um encontro de “sensibilização musical” com a Banda de Pífanos de Caruaru.

Para gáudio geral, a participação dos músicos coincidiu com o Espaço Gourmet, uma tradição mensal da biblioteca. Trata-se de uma espécie de degustação literária cujo objetivo consistiria, nas palavras de Andréa, em “aguçar o apetite pela cultura popular”. As possibilidades do cardápio matariam de inveja qualquer praticante de invencionices da cozinha molecular. Amostra: saladinha de trovas e parlendas como entrada, medalhão de cordel guarnecido de histórias de enrolar como prato principal e, na sobremesa, bolo de trava-língua com recheio de adivinhas.

As mesas estavam postas para receber os comensais. A primeira a chegar foi Leda Abs Musa Kraml, ex-educadora sanitária que tem 88 anos e uma coleção de oitenta presépios. “Meu nome vem do latim leda, que quer dizer ‘alegre'”, avisou ao se instalar na mesa principal. E, enquanto Andréa beliscava uma prosaica banana, foi desfiando, meio a troco de nada, histórias em que o presépio de barro que acabara de ganhar da Secretaria de Cultura de Teresina se misturava com aquela imperatriz “baixotinha e manca”, a Teresa Cristina, esposa de dom Pedro ii, inspiradora do nome da capital piauiense.

Chegam em seguida a historiadora Maria Helena Berardi, de 69 anos, defensora da emancipação de Santo Amaro do resto do município, e a professora Adozinda Kuhlmann, que leciona há mais de sete décadas e educou gerações de moradores do bairro. Adozinda, de 92 anos, está elegante, com um colar de pérolas adornando-lhe o pescoço e um lenço de renda na cabeça. É considerada “a rainha do acróstico”, mas, como o cardápio do dia não contempla esse engenho poético, não se verão exemplos de façanhas adozindanas.

À mesa de notáveis junta-se uma dezena de funcionários administrativos da Secretaria Estadual da Saúde, que vieram sabe Deus por que e vão se acomodando ao som de Se essa rua fosse minha e Ciranda, cirandinha, tocados pela banda de pífanos. Também sem motivo aparente, a repórter de piauí é convidada a se levantar e recitar Batatinha quando nasce, coisa que faz com denodada galhardia. Retoma o assento sob aplausos educados.

Andréa, que sumira, materializa-se com chapéu de cangaceiro e um vistoso avental de melancias. Todos a postos, a refeição tem início com uma bela salada de trava-línguas: Cacá quer caqui – Que caqui que Cacá quer? Os convivas repetem com moderada fluidez. Mais aplausos se dirigem a dona Leda e ao funcionário público Aparecido, que se saem excepcionalmente bem na difícil articulação dos desejos de Cacá.

***

O prato principal, interpretado por Andréa, é um cordel de poeta matuto. Me enganei com minha noiva, do mossoroense Luís Campos, triste história de um romance trágico descrito em versos memoráreis, como “Ôxe! Só eu não acho mulher/ que queira se esfregar n’eu”. No desfecho – uma versão transgênero do ancestral tema da donzela guerreira -, a noiva Vicença, que se casa com o poeta, acaba se revelando: “Era macho que nem eu!” Aplausos (enquanto alguém lá atrás gargalha e engasga).

Na sobremesa, a especialidade da casa – sorvete de versos com charada e cobertura de simpatia – dá lugar à Banda de Pífanos de Caruaru, a grande atração da tarde. O venerável Sebastião Biano, de 90 anos, fica de pé para explicar que o pífano foi inventado por seu avô, Manoel Clarindo Biano, “homem curioso de ciências”. Isso em 1924, na roça. Mestre Biano conta uma longa história sobre como eles faziam buracos no talo de jerimum e sopravam para ver se saía som.

***

O pífano é um instrumento de sopro semelhante à flauta transversal, de som mais agudo e timbre mais estridente. Pode ser feito de bambu, taquara, osso e até cano de pvc. Quase sempre os tocadores são homens da roça que herdaram a arte de fazer o instrumento e não sabem ler partitura. Como Sebastião Biano, por exemplo, que pega as escalas de ouvido e ensina que sustenido é “meio dedo no buraco”. A crer na lenda, foi depois de ouvir os irmãos Biano que Gilberto Gil, fã das bandas de pífanos, criou a Tropicália.

Mestre Biano dedica a apresentação à sua “colega de década”, Adozinda, a quem faz um acenozinho. O arrasta-pé começa com uma valsa, seguida de um forró aperreado de Dominguinhos (“Que falta me faz um xodó…”). O setlist inclui ainda Asa branca e dois ou três xaxados e baiões, até terminar com o frevo Vassourinha, hino de Pernambuco. Ao final, todos se erguem e se entregam a uma ovação circular e universal. Mestre Biano bate palmas para Adozinda, que bate palmas para Leda, que parabeniza Aparecido, que agradece a Andréa, que aplaude a todos, numa generosa confraternização brindada com suco de tangerina de pacotinho em copinhos de plástico.

A turma da Saúde debanda para uma reunião. Dona Leda, talvez por caridade, convida a intérprete de Batatinha quando nasce para ir a sua casa tomar um cálice de vinho do Porto com sorvete de creme e conhecer os presépios. Andréa se afasta para cuidar da pressurosa questão dos reis magos, pois não parece ter ficado claro que eles são três. É uma vida buliçosa a de coordenadoras, escritoras, poetisas e contadoras de histórias em Santo Amaro.

Os sem-celular

Posted: 1st fevereiro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Revista Piauí
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Piauí n. 41
Fevereiro de 2010

por Vanessa Barbara

Nós, os 37, somos as únicas pessoas livres do Brasil

O telefone celular não é apenas um artefato do Coisa-Ruim, assim como a televisão é a Besta encarnada. É um rastreador do governo/alienígenas/palhaços/Grandes Corporações que serve para manter cada indivíduo sob o domínio deles. Via satélite, eles controlam aonde o senhor 9999-9999 vai, o que fala, quanto tempo demora a digerir um rosbife e tudo o que está pensando, inclusive quando, silenciosamente, comemora: “Humm, rosquinhas.”

Somos 37 os integrantes do combalido Grêmio Pan-americano de Repúdio ao Celular, organização com fins lucrativos que se dedica a imprecar contra o aparelho de telefonia móvel. No quadro de associados, figuram meu avô, o Elton John, um sujeito que mora ao sul de Tocantins, uma velha chamada Celeste que tem os dedos gordos e não consegue apertar as teclas individualmente, o Chico Buarque, o Matheus Nachtergaele, o tio de uma amiga minha, a cantora Stephany do Piauí, um andarilho chamado Ganesha Sol de Oliveira e eu.

Nos últimos meses, o número de membros só tem diminuído, devido à idade avançada dos fundadores e por conta de certos escândalos – como telefones pessoais vibrando durante a reunião de diretoria.

Em dezembro do ano passado, o Brasil chegou a 169 milhões de celulares, São 88,43 aparelhos para cada 100 habitantes. É questão de tempo para que todos os terráqueos (menos nós, os 37) estejam sob o domínio deles.

É fácil reconhecer as vítimas deles. Vejam como ficam desorientados, remexendo suas bolsas diante de qualquer ruído, mesmo quando a gente imita som de telefone com a boca. Diante de um sinal preestabelecido, como o hino do Palmeiras ou Adocica, de Beto Barbosa, todos sairão correndo para atender seus respectivos telemóveis e receberão ordens de aplicar petelecos uns aos outros. A senha para a instauração da balbúrdia será: “É o meu! É o meu!”, e nós, os 37, assistiremos ao espetáculo com um sorriso no rosto, tranquilos e gabolas.

Gostamos bastante de celulares que explodem. Apreciamos macabros ringtones que provocam sustos nos proprietários. Exultamos ao ver as filas à porta das operadoras, gente que tropeça no ônibus com o aparelho equilibrado entre a orelha e o ombro e, sobretudo, o semblante de pânico e prontidão no rosto de quem traz a maléfica engenhoca no bolso. Reagimos com euforia às pesquisas que dizem que o celular dá gota, tifo e problemas abdominais a esclarecer. Exemplo: a partir de 1994, a cidade de Londres registrou um declínio de 75% na população de pássaros, o que coincide com a popularização dos celulares na cidade.

Outro dia, li numa revista institucional uma matéria definitiva sobre as benesses do celular, elaborada inteiramente a partir de um gerador automático de artigos: cinco páginas de puro senso comum, com estatísticas aleatórias e frases de efeito a cada fim de parágrafo. O texto, que de resto era profundo como uma bateria de telefone portátil, terminava, triunfantemente, da seguinte maneira: “Com ou sem radiação, símbolo de status, objeto funcional ou companheiro virtual, não importa: o celular mudou definitivamente as nossas vidas – e o seu alcance ainda nem chegou perto de todo o seu potencial.”

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Como se pode ver, o celular realmente frita os neurônios. Em questão de minutos. “Com ou sem radiação” virou o mote do nosso grêmio, que se gaba de ter um telefone fixo, de disco, só para receber ligações dos advogados da Cooperativa de Telefonia Móvel. Também temos orgulho de haver eleito Edson Celulari como inimigo número um da classe, num congresso que durou três horas e terminou com uma feirinha de artesanato e papéis de carta.

Uma coisa que invejamos nos usuários, porém, é a capacidade de realizar complexas operações matemáticas e calcular variantes. Exemplo: a operadora X fornece 23% de desconto na franquia mensal para quem fala 280 minutos em ligações locais, envia 100 torpedos por mês, baixa três megabytes de dados e tem uma tia chamada Lourdes. Já a operadora Y cobra só depois do primeiro minuto, permite roaming gratuito, exige fidelidade de dezoito meses e libera sem custos o envio de fotomensagens. É preciso ter doutorado em estatística para computar esses dados. Pois bem, o detentor de um celular considera todos esses fatores simultaneamente e, no final, escolhe o pior plano, com os piores atendentes, e um sinal fanho que só melhora nas cercanias do Pico do Jaraguá.

Em geral, o dono de uma linha iniciada com 6, 7, 8 ou 9 costuma estrear a engenhoca no ônibus. A quem interessar possa, se é que isso algum dia interessaria a alguém, ele grita: alô? está me escutando? estou entrando num túnel. E em seguida passa a fornecer informações em tempo real sobre o itinerário. É esse o grande barato do telefone móvel: anunciar ao pessoal de casa que já vou chegar, estou na frente do castelinho, e, pouco depois: acabei de passar no ponto do frangão, mais uns cinco minutos… É comum mentirem: em Copacabana, dizem que estão quase chegando no Méier. Ou então engatam uma conversa íntima sobre o furúnculo do cunhado, a excursão feita pela Europa, as enchentes, a evolução das espécies. Quando menos se espera, o bate-papo já virou briga, com direito a descrição dos mais recentes escândalos extraconjugais. O chato é que ninguém está autorizado a levantar a mão e tirar suas dúvidas.

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Há também os que atendem o telefone no cinema, gritando: agora não dá, estou no cinema (não diga!). Ou os que resolvem checar as mensagens durante os trailers, projetando um facho de luz celestial que cega temporariamente até o homem da projeção. Ou então aqueles que usam o aparelho como se fosse um walkie-talkie, no viva-voz, e nem têm a gentileza de anunciar antes: “Estou aqui na praça com mais cinco desconhecidos, uns bebês, a moça do sorvete, o varredor e o pessoal que saiu do filme por minha causa. Todo mundo está ouvindo. O que você queria me contar sobre a sua micose?”

Como se não bastasse, os proprietários de celular são comprovadamente culpados por acidentes de toda sorte, como o entupimento involuntário de privadas e o congestionamento de pedestres nas calçadas. O fenômeno ocorre quando um ou mais transeuntes atendem uma chamada e passam a andar mais devagar, descrevendo um movimento de cambaleante zigue-zague, para desespero dos que estão atrás. É ruim, mas nada é pior do que tentar conversar com alguém que está mandando mensagens. De quando em quando, o sujeito levanta a cabeça, faz a tradicional pausa de quem estava em outra era geológica e pergunta: “Quem?”, alcançando o assunto com dois meses de atraso.

Nosso grêmio está aceitando novos membros. A prioridade é para quem nunca teve um celular e não pretende ter, nem sob o seu cadáver, mesmo que seja justamente para chamar a emergência e salvar a própria vida. Também podem se candidatar aqueles que possuem o aparelho mas desejam se recuperar, os ex-nomofóbicos (dependentes patológicos) e os que o deixam desligado na gaveta de casa, desde que não saibam “que botão eu aperto para atender”.

Quando decidi comprar duas tartarugas de água doce, Jacinto e Napoleão, de cinco centímetros de diâmetro, não sabia que voltaria para casa com um termostato submersível de 50W, uma bomba de água com vazão de 280 litros, um reptofiltro, uma lâmpada fluorescente de raios UV e um suntuoso aquaterrário com cascata, que é uma espécie de Caribe dos animais dulcícolas. Levei também um suplemento vitamínico que libera cálcio e vitamina B1, impedindo o amolecimento dos cascos, mas dispensei a pedra aquecida, o nebulizador de ambientes, o substrato de coco verde e um tronco flutuante de 150 reais onde os animais poderiam se divertir nas tardes mais enfadonhas. Naturalmente, a água tem que ser potável. A ração possui alta digestibilidade e vem enriquecida com sete vitaminas e ferro.

Ainda assim, Napoleão come cocô.

Na minha época, as tartarugas ficavam boiando em bacias cheias de água turva da torneira, e assim estava bom. Comiam carne crua, passeavam pelo quintal quando havia sol e não recebiam nenhum nome definido. Hoje, elas vêm com certificado de origem, são registradas no IBAMA e exigem que o candidato a dono assine um termo de responsabilidade, sujeito a ação penal e à legislação que trata de crimes ambientais. As minhas têm marcação individual e foram batizadas de Jacinto e Napoleão, como já disse, a despeito de serem fêmeas e de não atenderem quando são chamadas. (Nota explicativa: o nome “Napoleão” é uma homenagem ao gramático Napoleão Mendes de Almeida, autor de Dicionário de questões vernáculas, e não ao imperador). Ambas têm dois meses de vida, pertencem à fauna silvestre brasileira e são da espécie Trachemys dorbignyi, popularmente conhecidas como tigres d’água – devido à ferocidade, imagino.

Jacinto e Napoleão passam o dia inteiro tomando sol, comendo e dormindo. Mesmo assim, há horas em que me preocupo com a respiração ofegante da menorzinha e saio a pesquisar sobre pneumonias, avitaminoses, gastroenterites e prolapsos. A certa altura, me julguei incapaz de criá-las. Seria preciso ter doutorado em biologia e ganhar o primeiro milhão antes dos 30 anos, pensei. Considerei a possibilidade de trocar Jacinto e Napoleão por um cacto, ou quem sabe uma pedra-pomes, mas acabei desistindo ao descobrir a complexidade da composição da terra, drenagem e temperatura adequadas aos cactáceos. Isso acabou me intimidando também quanto à pedra-pomes.

A verdade é que a vida era mais tranquila sem esses curiosos animais. Por exemplo: agora, é preciso convocar alguém para alimentá-las quando passo uns dias fora de casa. Cheguei a deixar telefones de emergência com o encarregado, caso uma das tartarugas tenha algum problema ou precise de alguém que saiba cantar Brilha, brilha estrelinha para embalar-lhe o sono. Em suma, não sei dizer de quem foi a ideia de adotar Jacinto e Napoleão, mas penso no assunto toda quarta-feira, ao trocar a água do aquário, escovar as pedrinhas, carregar baldes de meleca e demais atividades fedorentas.

Agora, enquanto escrevo, Jacinto mastiga a própria pata. Napoleão se esconde debaixo de uma planta, de onde desponta só o pescoço – uma verdadeira tartaruga-folha. Comem cocô, é verdade, mas me proporcionam espetáculos diários de saltos ornamentais, mergulho livre, técnicas de camuflagem e divergência entre irmãs. Orgulhosas, elas não tentam ser afáveis com ninguém, sobretudo se esse alguém for verde e estiver em seu caminho rumo à ração flutuante. São confusas, violentas e muito, muito pequenas.

Não sei de quem foi a ideia de adotar Jacinto e Napoleão, o fato é que aqui em casa ninguém mais assiste televisão.

Em 1o de janeiro, às 7 horas da manhã, 10 mil senhores de meia-idade de shorts dry-fit e meias de cano alto ocuparam as pistas de caminhada do parque do Ibirapuera, em São Paulo. Não constituíam nenhuma manifestação e nem comemoravam o Dia da Paz Universal, embora alguns tenham se agrupado espontaneamente para puxar um bom alongamento de panturrilha – ao que tudo indica, aproveitavam a ocasião para fazer novos amigos. Foi ali que tudo começou: nas semanas que se seguiram, por toda parte, cidadãos bem-intencionados lograram êxito em cumprir suas promessas de Ano-Novo, outrora relegadas ao descaso e atribuídas exclusivamente à ingestão descontrolada de sidra. Assim, 200 milhões de brasileiros passaram a caminhar todos os dias, regular o intestino com iogurte, juntar dinheiro para o futuro e mascar chicletes de nicotina, causando a falência imediata das redes de frango frito e de hambúrguer de minhoca. A exceção foram os botecos que, antenados com os novos tempos, converteram-se em academias de ginástica e passaram a servir só suco de banana.

A indústria do tabaco persistiu por uns quinze dias, mas acabou sucumbindo à coqueluche da vida saudável e anunciou a bancarrota, antecipando seus propósitos de investir pesadamente em charutos de uva. Propósitos, aliás, firmados pelo próprio dr. Philip Morris durante a ceia de revéillon. Outro império que se extinguiu foi o dos programas inúteis de TV, que não se adequavam às novas metas de otimização do tempo livre em atividades edificantes, ao passo que, no mesmo período, as editoras de autores russos e filósofos prosperaram quase 300% em relação ao ano anterior. Também por esse motivo, os três únicos tradutores de literatura húngara do país enriqueceram da noite para o dia – embora a prerrogativa não fosse durar muito tempo, pois dezenas de estudantes tomaram como resolução de fim de ano aprender o velho idioma urálico. As lojas de conveniência 24 horas sumiram do mapa, já que toda a população passou a dormir cedo, lá pelas 9 da noite, depois de ler em família umas duas ou três passagens boas de Parmênides e amar intensamente os parentes próximos.

Em fevereiro, começaram os problemas. As pessoas que decidiram passar menos tempo na internet colidiram de frente com as que queriam arrumar uma namorada pelo MSN, inviabilizando sonhos e anulando a possibilidade de sucesso de ambas as partes. Os maridos que se comprometeram a passar mais tempo com as esposas não contavam com a promessa das contrapartes de se dedicarem mais ao trabalho voluntário. Os que se demitiram de empregos insuportáveis se depararam com desculpas dos ex-chefes, estes determinados a serem pessoas melhores e fazerem as pazes com os velhos inimigos. Diante da frustração de terem abandonado um trabalho que se tornara agora mais agradável, passaram a frequentar cursos de controle da raiva, o que não adiantou coisíssima nenhuma porque suas vagas já haviam sido tomadas por gente que, na virada, decidiu arrumar um emprego sem falta no ano que vem.

Os primeiros a abandonar seus votos foram os filhos caçulas em geral, diante de uma mãe determinada a emagrecer e um pai que havia prometido levar a esposa com mais frequência para jantar. Ficaram confusos e, na dúvida, voltaram a maltratar o cachorro. Depois seguiram-se os funcionários públicos, os jogadores de sinuca, as socialites, e, quando José Sarney anunciou que desistiria de escrever, tudo desmoronou.

Antes mesmo de chegar o Carnaval, o dr. Philip Morris abandonou o negócio dos charutos de uva e comemorou a volta da gloriosa indústria dos cigarros, brindando com um chorumento porco-pizza e um porre de sidra, das mais baratas.

São Paulo despercebida

Posted: 4th janeiro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas
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Revista Piseagrama n. 1
Janeiro de 2010

por Vanessa Barbara

São Paulo é uma cidade sem crianças. É uma cidade onde não se pode olhar para os lados senão pelo reflexo das janelas ou dos óculos escuros; onde não é permitido obter ou prestar atenção. São Paulo é uma cidade sem muito amor nem muito ódio, onde os que choram no ônibus são ignorados, os que pedem informações ganham um olhar desconfiado e os que cantam – pobres dos que cantam – são advertidos por um funcionário de cinza, com o estatuto interno do Metrô. Na rampa da estação Santana, é proibido brincar de escorregador.

São Paulo é uma cidade em que ninguém tem o direito de surpreender, a não ser os loucos, as crianças e os velhos. Todas as terças e quintas de manhã, dezenas de velhinhos dançam bolero, tango e rumba no Sesc Ipiranga. Enquanto isso, um outro senhor opta pela corrida de resistência: Tuplet Vasconcelos, um magro cidadão de 85 anos, já participou de 114 maratonas nos últimos quinze anos, tendo completado a Corrida Internacional paulista de 1999 em cinco horas e quarenta e cinco minutos. Deixou pra trás centenas de competidores. Há velhinhos que jogam dominó; outros tomam aulas especiais de saúde na Universidade Federal de São Paulo. A maioria anda devagar pelas ruas, em total contradição com o ritmo da cidade.

Há, ainda, os que vagam pelos metrôs a esmo, como um certo senhor sentado no banco cinza, a quem uma mulher perguntou: “Este trem vai pro Jabaquara?”, e ele suspirou: “não sei”. A réplica não demorou: “mas para onde é que ele está indo?”; novamente um suspiro e a resposta: “Olha… não sei”.

Nas ruas de São Paulo, todos sabem para onde vão; programam-se para caminhar em linha reta, rumo ao horizonte, e vão atropelando hidrantes, cachorros quietos e criancinhas perdidas. Próximo à entrada dos fundos da USP, junto à Marginal Pinheiros, uma mulher sem-teto gritava, de longe, para o filho de uns 9 anos: “Onde é que tá o Caio?” – e o menino dava de ombros, fazendo um “sei lá” engraçado com o corpo todo. Tinha um olhar meio sapeca, e escondia atrás dele uma caixa enorme de papelão (que se limitava a ficar de pé, impassível). A moça já estava virando as costas, conformada, quando a caixa caiu no chão de repente, em meio a um barulho enorme. E, de dentro, após um penoso esforço para empurrar as abas, saiu engatinhando um menino pequeníssimo, minúsculo mesmo, nem ligando para essas coisas da vida; queria apenas saracotear o mais rápido que podia, de uma ponta à outra do gramado.

Caminhando pelo asfalto, as pessoas veem guris saindo de dentro de grandes caixas, a engatinhar, e não dão a mínima. Nada atinge os que passam na rua; nem mesmo um martelo, que certo dia escapou, lenta e inexplicavelmente da mochila de um rapaz, e foi aterrissar na calçada da Avenida Paulista, causando quase nada de transtorno aos que por ali andavam. Apenas deram a volta, sem oferecer ajuda ou achar minimamente estranho. Que tivesse um martelo dentro da mochila, oras. Não é da minha conta.

Há mães que também não acham ser da sua alçada um certo garoto que cutucava a saia e a paciência dos passageiros do metrô, tentando convencer a referida progenitora a correr com ele para fora do vagão. Queria porque queria sair de lá e entrar no trem oposto, que ia para o Jabaquara e estava vazio; só para depois sair correndo de novo quando a porta abrisse e tomar, mais uma vez, o metrô para o Tucuruvi. Movido por nenhum motivo coerente, é claro. Apenas porque parecia algo bacana à beça – para a criança, não para os demais paulistanos irritados ou para sua mãe, que suspirava fundo e pedia para que ele falasse mais baixo, por favor, os moços ali estão reparando.

Em São Paulo, as pessoas morrem no meio do caminho, atravessam a rua nas horas que não deveriam e os prédios desabam, atrapalhando o tráfego. Na opinião dos taxistas, a esquina da Alameda Campinas com a Paulista é o lugar mais fácil para se atropelar transeuntes. Já no cruzamento entre as Ruas Humberto I e Conselheiro Rodrigues Alves, na Vila Mariana, os carros têm 3 minutos para circular – e as pessoas, pouco mais do que 2 segundos.

Em São Paulo, os pedestres não existem; bem como as cadeiras de rodas, os mendigos (meu nome é Francis e estou vendendo drops), as árvores e as bicicletas. Os poucos que transitam pelas ruas estão indo de um lugar a outro, preocupados com a hora do estacionamento. Nas calçadas da avenida Paulista, não se pode andar em paz sem trombar com um guardinha bravo, que normalmente apita na orelha dos que passam e os obrigam a parar. Tudo para que os carros de vidros fumê possam atravessar a calçada, rumo aos estacionamentos.

Alguns ainda resistem: todos os últimos sábados do mês, um grupo de jovens promove uma Bicicletada pelas avenidas de São Paulo e questionam a utilização das vias públicas. Vestem uma máscara branca de enfermagem e saem por aí, com seus veículos alternativos (sejam patinetes, pogobóis, skates, monociclos, bigas ou pula-saco). “Não estamos atrapalhando o tráfego, nós SOMOS o tráfego”, diz o slogan do Reclame As Ruas, movimento internacional no qual se baseou a Bicicletada paulista. A favor das aglomerações e das festas, sempre no meio da avenida.

A cada ano, cerca de 180 mil pessoas tiram a carteira de habilitação do Detran (Departamento de Trânsito). Quinhentos mil novos automóveis entram em circulação na cidade. Toda esta multidão, atordoada, decide dispor de seu direito de ir e vir geralmente ao mesmo tempo, provocando congestionamentos que já chegaram a somar 240 quilômetros, em um feriado de 1996. A distância, para se ter uma idéia, equivaleria a 3 milhões de potinhos de Yakult, empilhados um a um, embora a comparação não faça qualquer sentido. No ano 2000 houve, em São Paulo, um acidente a cada 2,9 minutos; um atropelamento a cada 44,4 minutos; um morto a cada 5,9 horas. Todos devidamente contabilizados, etiquetados e despachados – em 2002, uma das vítimas foi um pacato cavalo, atropelado no meio de uma rua do Morumbi pela cantora Sula Miranda.

A balbúrdia da cidade encontra seu buraco negro todas as sextas-feiras à noite na praça de alimentação do Shopping Metrô Tatuapé – onde reina o silêncio quase absoluto. Desde que foi inaugurado, o shopping virou ponto de encontro de deficientes auditivos, que passam a noite se comunicando em silêncio, através da linguagem de sinais. Em algumas ocasiões já chegou a haver mais de 200 deficientes auditivos no local.

São Paulo é uma cidade em que ninguém tem o direito de se surpreender, a não ser os loucos, as crianças e os velhos. Mesmo que haja tanto a ser descoberto. Mesmo que existam tantas cidades nas sombras da São Paulo que sai nos jornais.


Sobre o autor

Colunista da Folha de São Paulo, editora do site A Hortaliça e autora de O Livro Amarelo do Terminal, da CosacNaify. Escreveu este texto em 2002.

http://piseagrama.org/artigo/124/sao-paulo-e-uma-cidade-de-coisas-despercebidas/