O pinocle, esse desconhecido

Posted: 20th julho 2009 by Vanessa Barbara in Revista piauí
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Revista Piauí – n. 34
Julho de 2009

Como jogar corretamente e aproveitar todas as nuances de um divertimento cujas raízes estão firmemente encravadas em solo teutônico: uma visão histórica e ortodoxa

por Vanessa Barbara e André Conti

 

Em abril de 1917, os Estados Unidos declararam guerra à Alemanha. De imediato, o chucrute passou a se chamar “repolho da liberdade”, o pastor alemão virou “pastor alsaciano” e o pinocle foi proibido na cidade de Siracusa, no estado de Nova York. Naquele ano, longe dos olhos das autoridades, cassinos de reputação duvidosa começaram a promover jogos de biriba com baralhos incompletos e combinações de ases típicas do pinocle. Casas de repouso ofereciam aos visitantes mais abonados a oportunidade de acompanhar uma partida clandestina do amaldiçoado jogo alemão, que, de todo modo, continuava a ser praticado febrilmente nos subúrbios da cidade e além da fronteira.

Foi o ano negro do pinocle. Centenas de exemplares do clássico MacDougall on Pinochle foram queimados e uma brochura de 1896 sobre as regras do jogo foi declarada imoral e retirada das livrarias. Desde então, nada mais ficou claro no pinocle. A única coisa que se sabe é que existem vários jogos chamados pinocle, e diversos jogos a ele relacionados que não têm essa denominação. Para uns, o pinocle só pode ser jogado por duas pessoas. Mas outros aceitam três ou quatro participantes. Para outros tantos, o jogo envolve leilões (auction pinochle), leitões (pignochle), baralhos maiores, jogadores imaginários, cartas viúvas e até mesmo a prática estrita de “regras da casa”.

Desde aquele louco 1917, quando o pinocle rendeu-se à desordem e passou a ser regido por indivíduos de caráter questionável – em geral, pouco tementes às leis básicas de observância do naipe -, não se tem registro de iniciativas sérias no sentido de moralizar o jogo e resgatar os brios originais do pinocle. É o que pretendemos realizar neste modesto ensaio.

As regras que aqui se apresentam são do pinocle de raiz, tal como era praticado nos idos de 1864 (coincidentemente, o mesmo ano em que José Sarney presidiu pela sétima vez o Senado, e criou a Comissão Pinoclista Secretíssima, integrada por uma sobrinha, duas misses Maranhão, dois cunhados e meio, uma prima da vizinha da tia de dona Marly que morava em Brejal dos Guajas, uma paca macho e um tamanduá fêmea). Sabe-se de sobejo que a conspurcação do jogo não tardará, caso se perpetuem os chulismos e patuscadas do período pós-1917.

Hoje já não se encontram, por exemplo, homens como Sam Marx, pai de Groucho, que, segundo o filho, “gostava de pinocle com um ardor que a maioria dos homens reserva para a fama, a fortuna ou as mulheres”. Sam inclusive preferia a companhia de Zeppo, Chico ou Harpo, pois os três eram exímios jogadores e Groucho, tal e qual Karl, era um inútil. Hoje também não se encontram homens como Chico Marx, um dos maiores pinochlers sub-70 de todos os tempos, que costumava descartar boas cartas (com a anuência dos espectadores) apenas para tornar o jogo mais divertido. Tampouco há cientistas como o professor Quincy Adams Wagstaff, de saudosa memória, que em suas conferências sobre a corrente sanguínea declarava que “o sangue corre do alto da cabeça até a sola dos pés, dá uma espiada nesses pés e corre de volta à cabeça mais uma vez. Isso é conhecido comoauction pinochle“.

Duas pessoas são necessárias para jogar o pinocle, doravante chamadas de “o mão” e “o pé”. Usam-se dois baralhos formados por nove, valete, dama, rei, dez e ás (dispostos aqui em ordem crescente). Ambos os jogadores podem embaralhar, mas o pé tem o direito de fazê-lo em último lugar, se assim lhe aprouver. O mão corta o baralho e o pé fecha o corte. Após uma pausa solene, em que os jogadores refletem sobre questões de estilo, o pé distribui doze cartas a cada pinochler e vira para cima a 25ª, que será o trunfo. O ritual preparatório do pinocle é essencial para preservar a finesse do jogo, e não pode ser suprimido nem em casos de emergência ou sururu.

Durante a passagem do furacão Charley pela Flórida, em 2004, diversas partidas de pinocle foram realizadas em um abrigo na cidade de North Port, e, noblesse oblige, em nenhuma das mesas se quebraram as formalidades preparatórias. Clarence Smith, de 103 anos, permitiu-se ignorar a própria passagem do furacão, mas não admitiu que o pé cortasse o baralho, ou que o mão distribuísse as cartas. “Não dei muita bola para a ventania”, afirmou Clarence, que passou a noite jogando pinocle na cafeteria do abrigo enquanto tomava sopa de legumes.

Há controvérsias teóricas quanto à porção de cartas distribuídas por vez a cada jogador: segundo Sázio, de quatro em quatro alternadamente; já Culbertson defende a disposição de três cartas de cada vez, começando pelo oponente. Trata-se de uma das maiores polêmicas do pinocle, que, no entanto, não será discutida neste estudo por se tratar de assunto demasiado intrincado para os leigos.

Após os procedimentos cerimoniais, o mão inicia a partida jogando qualquer carta que lhe der na veneta. O pé não tem obrigação a naipe ou trunfo, bastando que jogue alguma carta antes que o oponente (inadvertidamente) cochile, o que costuma acontecer com frequência em partidas de pinocle dada a longevidade dos praticantes. A carta de abertura e a carta jogada em seguida constituem uma vaza. O vencedor da vaza ganha o direito de declarar as combinações de cartas (meld) que tiver na mão. Para tanto, é necessário que o perdedor admita o fracasso e ordene, em alemão: “Anuncia!”, no modo imperativo da segunda pessoa do singular, poden-do ou não olhar feio para o adversário.

As combinações no pinocle são predominantemente casamenteiras: damas e reis do mesmo naipe juntam-se em um matrimônio mixuruca (vinte pontos) ou em bodas reais (o dobro, quando os noivos têm sangue de trunfo), e por aí afora. No entanto, a meld mais festejada é o pinocle, algo como um noivado improvável (dama de espadas e valete de ouros, quarenta pontos), que dá ao vencedor o privilégio de chacotear livremente o oponente e de roubar seus comprimidos de vitamina C. O jogador que alcançar primeiro um total de mil pontos[1] é proclamado Mr. ou Mrs. Pinochle (os paraguaios, esses puristas, usam as denominações Guapa Señora e Distinguido Señor, o que lhes valeu o banimento de Assunção dos torneios internacionais já antes do atroz ano de 1917).

Não nos renderemos, entretanto, à ignorância e ao desleixo dos maledicentes, essas almas mesquinhas. Tampouco navegaremos à deriva dos invencioneiros de modismos e dos derrotistas do belo carteado. Não nos deixaremos levar pelas águas turvas e sebosas dos acomodatícios da incúria oficial e do desmazelo didático, dos propagandistas de tumulto, daqueles que querem melifluamente conspurcar a imagem altaneira do Senado, guardião da democracia e do bem-estar da família brasileira. Na seção a seguir, apresentaremos elementos históricos e científicos com vistas a resgatar a ilustração original deste jogo notável.

Nota prévia 1 (que na verdade deveria ter entrado logo no começo deste despretensioso ensaio, mas não soubemos como encaixá-la): a pronúncia afetiva do jogo é pinócle. Em inglês se diz peaknuckle, e se aceita inclusive essa grafia. Há uma menção ao jogo em O Poderoso Chefão, feita pelo personagem Clemenza (aquele gordo meio careca interpretado por Richard S. Castellano), e ele dizpeaknuckle.

Nota prévia 2: depois de uma madura discussão, na qual terçamos armas e trocamos insultos conosco mesmos, decidimos ignorar Sázio nas questões históricas e de ortodoxia. Além da falta de objetividade e das muitas omissões que lhe são características, nota-se em Sázio disposição em atribuir um caráter romântico a todo mistério que cerca o pinocle. Debruçando-se sobre os compêndios de Sázio, fica-se com a impressão de que o pinocle tem origens místicas, quase religiosas, e que é oriundo de vontades superiores. Teóricos hodiernos – e poderíamos citar Culbertson e Resnicoff em nosso socorro, se de socorro necessitássemos – já superaram essa funesta idiotia, e neles encontramos subsídios para nossa investigação.

Nota prévia 3: a idéia de que o pinocle é uma “divisão” da família besigue e de que sua autonomia enquanto jogo é apenas geográfica, como defende o estulto Culbertson, é no mínimo tola, mas se encontra disseminada como uma praga na verdejante fortuna crítica do jogo. Ao contrário de fazer graçolas em matéria de carteado e difundir histórias especiosas (e, ao fim e ao cabo, não genuínas), deveriam esses chocarreiros estudar um pouco mais de pinocle, em suprimento do acanhado poder de raciocínio. Ironicamente, o único que se preza a defender o pinocle como uma evolução do besigue é Sázio.

Ao assunto: o pinocle tem a infelicidade de ser singularmente desconhecido na Europa. Na França, tem o direito de ser uma variação menor do besigue, porque passa por bom divertimento alemão. Na Alemanha, goza da reputação de ser um jogo antipatriótico, porque passa por uma das mais vigorosas formas do besigue francês. Nós, que não somos alemães, consideramos o Tratado de Versalhes um equívoco e tampou-co apreciamos o besigue, gostaríamos, data maxima venia, de protestar contra esse duplo erro.

Mas, a fim de evitar o pinoclês hermético que é comum aos iniciados, pouparemos o leitor das discussões menores e da fofocaiada acadêmica que em geral acompanha o debate histórico – entendeu, fräulein Sigfrida? Isso posto, consideremos primeiro a origem do besigue – e seus laços ancestrais com o pinocle – em Culbertson. O Completo Manual nos diz que o besigue surgiu na Escandinávia de Ibsen e que de lá tomou Paris de Dumas e depois a Alsácia do fondue e da raclette, sem desdouro para os seus vinhos brancos. De suas vinte variações, apenas uma teria atingido a condição de jogo autônomo – eis o pinocle. Do dia em que o besigue se tornou popular na França até sua total evolução ao pinocle, passaram-se quatro anos, dois meses, sete dias e algumas horas.

Enquanto isso, o besigue se desmembrou em outras vinte modalidades, cada uma com mais cartas do que a anterior. Até hoje, jogadores sérios de besigue desenvolvem estranhas técnicas para segurar suas cartas, que envolvem inclusive as orelhas e os dedos do pé. Jogadores aplicados de pinocle discutem estratagemas, meandros insidiosos. Em pouco tempo, o pinocle superou o besigue no cenário internacional, a ponto de ganhar, em 1880, seu próprio baralho. O problema desse raciocínio, no entanto, é que, na visão ignara e simplista (para não dizer estúpida) de Culbertson, toda a história do pinocle se resume a uma mudança de nome. O Completo Manual ainda sugere, de maneira sinistramente velada, prenhe de insinuações escabrosas, que o besigue só teve que adotar a alcunha de pinocle porque ganhou autonomia nos Estados Unidos, onde não teriam acatado a influência francesa. É como se o autor tapasse os olhos – não se sabe se por falta de caráter ou discernimento – para a controvérsia que cerca as raízes germânicas do pinocle. E, graças ao prestígio de que goza nos círculos de eucre[2] e bridge, Culbertson ainda arrastou consigo toda uma geração de teóricos incautos para o obscurantismo.

Pois há aqueles que recusam a idéia de que o pinocle é apenas o enfant terrible da família besigue. Philip Hal Sims foi o primeiro a afirmar, no seminal Pinochle Pointers, de 1935, que “não deveríamos nos esquecer de Baden-Württemberg, região sul da Alemanha”. Lá, segundo o autor, imigrantes suíços e refugiados franceses, na companhia de sete alemães, inventaram o binokel, um pinocle primevo que teria sobrevivido até os dias de hoje sob a alcunha de Jaß. É um argumento admirável e, além disso, encontra respaldo no trabalho de muita gente bem-intencionada.

Dado que as regras do pinocle em nada se assemelham às do binokel e que, nesse campo, o parentesco com o besigue é inegável, Hal Sims e sua alcatéia deletéria nos querem fazer crer que o pinocle se deu ao trabalho de imigrar da Suíça para a Alemanha. Ali, teria travado um improvável encontro com refugiados franceses e conheceu o besigue, em vez de surgir na França de vez, sem a interferência sabidamente perniciosa dos suíços, e com o conforto de se encontrar refugiados franceses por toda a parte (os chamados emigrados internos). Tendo em conta que o pinocle não é jogado na Europa e que só se tornou popular nos Estados Unidos, sabemos apenas que, em algum momento, imigrantes falando alemão – ou iídiche, as fontes diferem – cruzaram o Atlântico com brochuras nas malas, a cabeça cheia de sonhos e a febril determinação de jogar pinocle.

Embora muito tenha sido dito sobre a origem e as rotas migratórias do pinocle, e sobretudo da influência que teve na cultura americana,[3] não há registros claros de sua chegada à Ucrânia. Sabe-se que foi num sábado, que duas pessoas participaram do jogo e que, por um erro na tradução para o russo do Completo Manual, de Ely Culbertson, o primeiro pinocle ucraniano foi jogado com as cartas de número oito do baralho. Como a tabela de pontuação não comportava oitos de naipe algum, os dois visionários pinochlers – cujos nomes, reza a tradição, desconhecemos – ficaram extremamente confusos.

A partir daí, há versões, umas mais dramáticas e outras quase místicas. Em todos os relatos, conta-se que a partida não chegou ao fim, em circunstâncias mal esclarecidas. O fato é que, apesar dos reis, rainhas e valetes, de seus casamentos e de toda a pompa e realeza inerentes ao jogo, não há evidências de que os ucranianos não sejam grandes pinochlers, tampouco de que o jogo em si não desfrute de popularidade entre os locais. Se, como disse o Westminster Papers (Vol. iii, 1870), acalabrasella é “o jogo nacional italiano”, então o pinocle é o jogo nacional da Ucrânia.



[1] Há diversas nuances à regra, inexprimíveis em tão curto espaço e sem os diagramas adequados.

[2] O eucre foi o primeiro jogo a usar o curinga, fato que Culbertson narra com destreza: “Junta-se um curinga ao baralho.”

[3] Segundo o New York Times, os Clinton são grandes jogadores, tendo aprendido o pinocle com Bill Cosby. Segundo certas fontes (vá lá: o Google), o pinocle é praticado em 90% das casas de repouso norte-americanas, perdendo apenas para o bingo.

Bunda no chão

Posted: 21st junho 2009 by Vanessa Barbara in Crônicas, Metrópole, O Estado de São Paulo
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Um a um, eles encostam as pernas mecânicas no banco de reservas e se arrastam em direção à quadra, onde dão início ao aquecimento. São jogadores de vôlei paraolímpico da equipe Cruz de Malta, que veio jogar contra o meu time no Sesc Consolação. Nós: cerca de quinze elementos neuróticos que reclamam o tempo todo de dor nas juntas, preguiça e unhas lascadas. Eles: 14 atletas com membros inferiores amputados ou deficiência locomotora (sequelas de poliomelite, por exemplo). Meu próprio histórico não era animador: anos atrás, perdi uma partida de xadrez para um deficiente visual.

A principal regra do voleibol paraolímpico sentado é a chamada “bunda no chão”, ou seja, o atleta não pode tirar os glúteos da quadra ou, em caso de peixinhos mais ousados, o tórax. Só na hora da movimentação é que pode perder o contato para se deslocar com as mãos. Em relação à modalidade regular, a quadra é um pouco menor (10 por 6 metros) e a rede é baixa: na categoria masculina, fica a 1,15m do solo, pouco acima da altura oficial da rede de tênis. Em geral, o esquema é 4×2 (quatro atacantes e dois levantadores) ou até 3×3, devido à dificuldade em infiltrar dentro da quadra.

O aquecimento é intenso e meu time começa a passar vergonha. No vôlei adaptado, o fundamento principal é o toque (sentado, fica mais difícil encaixar a manchete), mas as bolas de ataque são furiosas e às vezes é preciso proteger a própria vida. Eles nos ensinam a manter as pernas pra frente, e não cruzadas ou pra trás, e então percebemos que elas só atrapalham. Deslocar-se é difícil, pois é preciso se arrastar com as mãos antes de tocar na bola, o que provoca a ocorrência de cenas ridículas. Nosso técnico não ignora o vexame e tenta esconder o rosto da provação pública.

A rede baixa empolga alguns dos nossos: “É a primeira vez que eu consigo bloquear na vida!”, exclamou uma baixinha, extasiada. A diferença é que, no vôlei tradicional, pode-se compensar falta de altura com boa impulsão, ao passo que no vôlei sentado dá pra contar apenas com o biotipo ou, vá lá, a capacidade de se esticar bastante. Os baixinhos abrem os braços, indignados. Quanta discriminação.

Agora os times já se misturaram e nosso objetivo maior é silenciar os apupos da arquibancada, seguindo as dicas de um sujeito que consegue dar bicicletas, como no futebol, sem ter as duas pernas. “É pra se mexer!”, eles gritam, perdendo a paciência e nos comparando a joões-bobos. O resultado é patético. Perdemos em todas as instâncias, menos na abundância de manchas roxas. E também trapaceamos: no fim do jogo, um dos nossos tenta se apoiar matreiramente no joelho para apanhar uma bola. Eles dão uma bronca: “Isso não pode fazer, né? Sem pernas, você cai de cara”. Nosso técnico sai de fininho e, desconsolado, pensa seriamente em mudar para o futebol.

Do Mandaqui para o mundo

Posted: 16th junho 2009 by Vanessa Barbara in Clipping
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ZN na linha
Junho de 2009

Ser cronista de um grande jornal como o Estadão é para poucos. E quando as crônicas falam com frequência de um bairro na periferia da ZN, isso para nós é notícia! Vanessa Bárbara está em fins de semana alternados no caderno Metrópole do Estadão. Quem gosta de crônica já percebeu que, vira e mexe, ela conta uma curiosidade, desperta um personagem discreto, revela uma faceta desse distrito espichado no mapa chamado Mandaqui.

 

A estação Invernada (demolida em final de 2007) e a Igreja de Santo Antônio. Marcos do Mandaqui.

 

“No Mandaqui a gente comia tatu-bola, tomava banho de chuva e tinha medo de Ana Paula, que batia nas meninas só porque elas eram mais altas”. Começava assim a crônica de 01/02/09. Uns dias depois ela nos falou do carteiro conhecido como Gigante, entregando cartas pelas ruas do Mandaqui. E para não dizer que ela fica só no distrito natal, se aventurou a conhecer o trajeto da “Transiberiana Paulistana”, a linha 701-U Jaçanã-Butantã/ USP, na qual, contou ela, dá pra fazer 14 coisas diferentes durante a longa viagem.

A seguir uma breve entrevista com essa cronista paulistana de 26 anos.

Você mora na ZN há quanto tempo?
Morei 25 anos na mesma casa no Residencial Santa Terezinha, no Alto do Mandaqui, até me casar, em agosto do ano passado. Hoje moro em Higienópolis, mas meus pais ainda moram lá.

Estudou onde na ZN?
Comecei no maternal do Lar Infantil São Francisco de Assis, das freiras da Paróquia de Santa Inês (existe até hoje e é ótimo: é na rua Paulo Carneiro, 78). Depois estudei no Salesiano e no Mazzarello, e deste último só guardo lembranças ruins e raízes brancas. Até hoje não consigo passar pela pracinha do Mazzarello sem ter arrepios.

A Zona Norte tem uma significação especial para você, em relação a São Paulo como um todo?
É um lugar pitoresco onde me sinto em casa, onde o tempo parece passar de forma diferente e as pessoas são peculiares. A Zona Norte é a coisa mais divertida do mundo. Lá eu tenho um jardim.

Como você acha que os paulistanos vêem a ZN?
Não sei, é um lugar longe e esquisito. Sempre fui embaixadora do Mandaqui além-Tietê, e é difícil conciliar a política externa com ônibus tão demorados.

Quais os locais mais marcantes da ZN para você? Uma rua, uma loja, uma pessoa em especial?
O seu Firmo (da crônica sobre o bar do Firmo), que fica na rua Íris Leonor. O carteiro Gigante, que se chama Vitor e anda com uma lanterninha na cabeça. A minha rua, onde a gente tocou o horror desde cedo. Minha vizinha, a Paula, o seu Nakamura, que eu adorava, e todos os vira-latas locais, desta e de outras épocas.

Já pensou que a ZN poderia se emancipar de São Paulo, se tornando uma outra cidade? Se sim, que nome teria essa cidade?
A ZN podia se emancipar de São Paulo e se chamar Hospício. Antes que cortem a minha cabeça, atenção: é brincadeira. Por falar nisso, os mandaquienses têm dificuldade em aceitar ironias e/ou críticas. E eu sei, sim, que tem Drogaria São Paulo, shopping e imóveis milionários na região… o progresso veio a galope, sim senhor!

Internet é importante para você… um pouco? Muito? Demais?
Demais.

Seus pais gostam de escrever? De onde vem o interesse em escrever crônicas?
Meus pais adoram ler. Como meu pai é engenheiro mecânico, meu sonho de criança era ler inteiro o Manual de Refrigeração e Ar Condicionado, 1600 páginas. Minha mãe leu Guerra e paz aos 16, quando trabalhou como recepcionista numa sala de espera. Meu irmão também é escritor.

Quais gêneros interessam? Tem livros lançados?
Gosto de ficção e crônicas. Tenho dois livros publicados: O Verão do Chibo, escrito em parceria com meu vizinho mandaquiense, o Emilio Fraia (Alfaguara, 2008), que é um romance sobre meninos numa plantação de milho. É dedicado ao bairro, vejam só. O segundo é O Livro Amarelo do Terminal, um livro-reportagem sobre a rodoviária Tietê (CosacNaify, 2008).

Quais autores influenciaram/ influenciam o seu texto?
Flaubert, Cortázar, Salinger, Kafka, Lewis Carroll, e em crônica Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Luis Fernando Verissimo, Mario Quintana, Carlos Drummond.

Como surgiu a idéia de escrever crônicas ambientadas em cenas urbanas?
É o meu mundo, não tem muito como fugir.

Sobre o que gostaria de escrever, na ZN, mas não teve tempo ou chance de fazer?
Sobre muitas, muitas coisas. A Zona Norte é o meu Cachoeiro do Itapemirim (obsessão do Rubem Braga). Tenho uma crônica engatada para o mês que vem que será sobre as lagartinhas locais.

Como conquistou esse espaço nobre no Estadão?
O Estadão fica na Zona Norte, é muito acessível para os nativos.


Clique AQUI para ler as crônicas de Vanessa Bárbara.

Hortaliças e o Apocalipse

Posted: 13th junho 2009 by Vanessa Barbara in Clipping
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Revista Capitu
13 de junho de 2009 – 18:44:07

ENTREVISTA | Vanessa Barbara marca trechos que gosta com a unha, lê hortaliçamente e um dia vai pedir carteirinhas para emprestar livros aos amigos, “favor apresentar comprovante de residência, RG, etc…”

por Duanne Ribeiro

Ler não é só ler, um livro não é só um livro. Cada um se relaciona de forma diferente com o objeto livro, colecionando, protegendo ou rabiscando — e as histórias e as ideias que eles trazem vão ser parte de conversas, vão ser fonte de lembranças. A arte também é uma relação afetiva. É desse lado, desse relacionamento, que a seção Relicário trata. Neste mês, entrevistamos a escritora Vanessa Barbara, autora de O Livro Amarelo do Terminal, colunista de O Estado de S.Paulo e colaboradora da Piauí.

Vanessa Barbara nasceu em 1982, em São Paulo. Formada em jornalismo, colabora com jornais e com a revista Piauí. Edita o blog A Hortaliça, com trechos de livros, além de ser tradutora. O Verão do Chibo foi seu primeiro romance, em que contou com a parceria de Emilio Fraia, que mantinha a revista digital Givago.

Capitu — Como você guarda seus livros? Organiza segundo algum critério ou não? Encapa ou usa algum tipo de proteção?

Vanessa Barbara — Organizo por ordem alfabética de sobrenome de autor, o que é uma dor de cabeça na hora de catalogar os Schwarcz, Schnitzler e Schmidt. Temos também uma estante A (mais à mão) e uma estante B, que fica ao alcance de uma escada, e gostamos de poder relegar um autor à primeira ou à segunda categoria. É legal poder julgar um escritor. O Saramago, por exemplo, está mal acostumado e foi para a estante B só por despeito. Temos também a estante temática de quadrinhos na sala, que está em ordem sentimental. Não encapo nada, mas vivo tirando o pó dos livros.

Capitu — Qual a sua relação física com os livros? Anota nas páginas, quando dá de presente, faz dedicatórias? Ou acha que tudo isso estraga o livro?

Vanessa — Às vezes morro de dó de ‘machucar’ os livros, mas os que eu mais gosto estão bem gastos, anotados e marcados. Acho bom. Gosto de fazer dedicatórias e marcar com a unha os trechos mais legais (o Emilio Fraia que me ensinou).

Capitu — Você empresta livros? Se sim, por quê; se não, por quê.

Vanessa — Empresto, todos. Eles estão aí pra isso. Um dia quero fazer um esquema em que meus amigos terão carteirinha da biblioteca, e a devolução estará prevista para dali a quinze dias, favor apresentar comprovante de residência, RG etc.

Capitu — Você dá livros de presente? Dá os livros que você mesmo gostou ou tenta descobrir o que a pessoa gostaria?

Vanessa — Gosto muito de dar livros que eu ainda não tenho e quero ler, pra depois pedir emprestado. É sério. Mas a tática principal é sempre tentar escolher um livro que a pessoa vá gostar, do gênero preferido dela, enfim. Às vezes também indico alguma coisa que eu li e adorei, e que me parece a cara da pessoa.

Capitu — Qual a sua relação com o conteúdo dos livros? Usa algum método para não esquecer do que leu? Costuma reler ou não? Copia citações ou conta para os outros as partes que lhe marcaram?

Vanessa — Eu sou a rainha de copiar citações bestas, sem sentido ou esquisitas. Por isso fiz A Hortaliça (hortifruti.org) para reunir esses trechos aleatórios de coisas que estou lendo, por exemplo, a parte em que a Ana Karenina recebe o marido na estação e pensa: ‘Meu Deus! Por que lhe terão crescido tanto as orelhas?’. Adoro ler um livro hortaliçalmente, ou seja, tirando partes do contexto e achando-as imensamente engraçadas.

Capitu — Você se lembra do primeiro livro que leu? Foi uma experiência marcante? Se não, qual foi a primeira experiência marcante que teve com livros?

Vanessa — Lembro de um livro chamado Araújo Ama Ofélia, sobre dois velhinhos e uma árvore. Foi um dos primeiros, acho. Eu lia muito Monteiro Lobato e minha mãe contava as histórias do Dom Camilo pra mim. Pensando bem, ela lia qualquer coisa pra mim porque sabia contar as histórias muito bem. Lembrei agora de um livro de arqueologia que a gente leu quando eu era bem pequena, sabe-se lá por que motivo…

Capitu — Os livros que lê fazem parte das suas conversas? Seu grupo de amigos costuma ter discussões em torno dos livros, mesmo em momentos de descontração?

Vanessa — Às vezes. Eu gosto de conversar com o André Conti (meu marido) sobre as coisas que ele leu, a história da adenóide gigante do Pynchon, a batata da sorte do sr. Bloom, o homem azul gigante e pelado de Watchmen etc.

Capitu — Acha que o livro, como objeto, pode ser trocado por um ebook? Se acha que não, isso não seria possível mesmo com o Kindle, que imita uma página de livro, não emite luz e baixa quantos livros quisermos?

Vanessa — Os dois vão continuar existindo. Eu leio tanto no computador quanto no papel e tudo depende da ocasião. Assim como a gente tem os livros mais leves pra levar em consulta médica, os livros de crônica pra ler no ônibus, os mais pesados pra antes de dormir, um pequeno pra levar no bolso, um de quadrinhos pra ler tomando café etc.

Capitu — Qual livro que ainda não leu (ou que quer reler) gostaria que fosse seu último?

Vanessa — Que pergunta mórbida! Talvez o livro do Apocalipse, que é pra já entrar no clima.

Prêmio FNLIJ 2009 – Melhor Tradução

Posted: 10th junho 2009 by Vanessa Barbara in Clipping
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Taí. Se alguém quiser saber como funciona o INCRÍVEL corpo humano, já sabe onde procurar.

Ele tinha uma tática própria: inclinava-se para frente, jogava o peso nos joelhos, dava passos curtos e erguia o pé apenas poucos centímetros do chão. Há duzentos anos, em junho de 1809, o capitão escocês Robert Barclay-Allardice ganhou uma aposta. De cartola, gravata, roupa de lã e meias até o joelho, ele caminhou por mil milhas (1,6 mil quilômetros) em mil horas sucessivas para ganhar mil guinéus, na pacata localidade de Newmarket, em Suffolk, no leste da Inglaterra. Durante os 42 dias da aposta, que se estendeu de 1 de junho a 12 de julho daquele ano, ele perdeu quase 15 quilos e fez um tempo médio de 18,5 minutos por milha.

A única regra é que devia andar uma milha a cada hora. Para aumentar o tempo de repouso, sua técnica era começar a percorrer a milha nos últimos vinte minutos de uma determinada hora, por exemplo, às 11h40. Assim ele completava a milha obrigatória antes do meio-dia e já emendava na milha da hora seguinte, computando duas milhas até as 12h20, quando ia descansar até as 13h40. Não podia dormir por mais tempo, embora tenha cochilado em pé durante a 607a milha, quando seu assistente o cutucou com um graveto. Segundo relatos, o bom capitão “acordou e despejou uma porção de impropérios ao assistente, pouco antes de retomar a caminhada e completar a milha necessária”.

Na terceira semana de sua diligente excursão, Robert Barclay-Allardice teve problemas com o ligamento do joelho direito, e na semana seguinte registrou uma incômoda dor de dente. Mas o que mais o irritava era a aglomeração de populares que teimava em ficar no caminho. A aposta foi notícia nos principais jornais do país e muita gente tomou parte dela, incluindo o próprio príncipe de Gales. Estima-se que o pedestre tenha angariado um valor equivalente a 5 milhões de libras.

Nos últimos dias da caminhada, a turba era tão grande (aproximadamente 10 mil pessoas) que foi preciso contê-la com um cordão de isolamento. Por conta da mudança do clima, o ilustre transeunte trocou seu pesado casaco de chuva por uma jaqueta de flanela. Também calçou um par de sapatos mais robustos como preparação para a grande vitória, que chegaria a passos largos na milésima hora da jornada.

No dia 12 de julho, às 15h27, ele concluiu as mil milhas com certa indiferença, ao som dos sinos da igreja de Newmarket e sob os aplausos de uma multidão de espectadores, entre duques, condes, lordes e cavaleiros do Império Britânico. Não há dados que confirmem, na linha de chegada, a presença de James Wedderburn-Webster, o “Bravo Webster”, pobre sujeito que desafiou o capitão. Sabe-se apenas que Robert Barclay-Allardice foi dormir e que, no dia seguinte, perambulou pelas ruas de Newmarket.

Ele entrou para a história com a alcunha de “Célebre Pedestre” e morreu aos 74 anos, atingido pelo coice de um cavalo.

The Freak Fido

Posted: 3rd junho 2009 by Vanessa Barbara in Clipping
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Além de desenhar para publicações brasileiras como Vip e Gazeta Mercantil, Frederico Nesti encanta leitores internacionais desde 2007 com suas colaborações para The New Yorker

Revista Imprensa
Junho 2009

por Karina Padial
 

Só diretoria

Posted: 1st junho 2009 by Vanessa Barbara in Clipping
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Revista da Cultura/Livraria Cultura
Ed. 23 – Junho de 2009

Lagartas e outras distrações

Posted: 24th maio 2009 by Vanessa Barbara in Crônicas, Metrópole, O Estado de São Paulo
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No meio do fechamento de uma matéria, ou de um prazo apertadíssimo, meu pai abria a porta do quarto e interrompia tudo para mostrar uma joaninha. Ele coletava os animais no jardim e vinha me mostrar nos horários mais inconvenientes, oferecendo um relatório dos hábitos diurnos dos bichos. Dava preferência às lagartas: acompanhava a evolução dos casulos, aparecia para contar as novidades e às vezes abrigava algum bom lepidóptero debaixo de uma folha, quando estava chovendo.

Em casa, surgiam vizinhos no meio da tarde pedindo para passar um fax a respeito de um álbum incompleto de figurinhas da Barbie. Ou um desconhecido vinha trocar sacolas de supermercado por pães de mel, sabe-se lá com que intenções. Alguns pediam ajuda para imprimir o currículo. Tocava-se a campainha pelos motivos mais diversos, e a gente emprestava escadas, livros, cebolas e chaves de fenda, às vezes nessa ordem, no mesmo dia e para a mesma pessoa.

Com isso, minha mãe acabou inaugurando um novo sistema de troca entre os habitantes locais – ela é uma espécie de Centro Local de Necessidades do Cidadão. Fulano está precisando de uma placa de rede para o PC ou de uma pedicure, ela encaminha às instâncias cabíveis e cuida para que todos fiquem satisfeitos. Sicrano não sabe o que fazer com quinze sachês de molho agridoce, ela encontra alguém que está precisando. Um dia deixaram um espelho no nosso jardim. A gente arrumou um destinatário imediatamente. Ela também coleta computadores de dez anos atrás, tenta consertá-los e implora peças com os profissionais do ramo, que ainda lhe dão dicas de eletricidade. E funciona 24 horas, vejam só.

Às vezes ela recebe um pão de calabresa em agradecimento, plantas, abacates ou uma posta de peixe. Já as freiras da região pagam em dinheiro e em orações – que ela pode pedir para terceirizar, quando sabe que outra pessoa está precisando.

Acabei me desviando do assunto; a questão é que, lá em casa, era difícil se concentrar em qualquer tarefa. A tarde era um constante ir-e-vir de gente descarregando coisas e telefonando, o que pode ser edificante quando não se tem que entregar um texto para anteontem. Trocavam-se incessantemente pilhas, panquecas, santinhos, agulhas de vitrola e programas de computador. Além disso, meu pai passava de lá pra cá com um radinho de pilhas colado ao ouvido esquerdo, desde a época da invenção do aparelho ou desde as 5 da manhã. Hoje, com a mudança para um bairro menos movimentado, há que se acostumar com o silêncio.

Mas nem tudo está perdido: minha nova vizinha acaba de ganhar um cachorro e vai precisar de jornais velhos para absorver os pormenores intestinais do animal – com todo respeito à perenidade e à relevância do trabalho periodístico –, portanto, agora teremos que montar um esquema diário para a exportação e importação dos jornais. Boa notícia. Espero que a vizinha de baixo goste de falar de lagartinhas.

“Foi demais para Kudno Mojesic”, anunciou o jornal Sunday Mirror. Em janeiro de 1976, em Belgrado, Kudno foi preso por atacar os automóveis da rua com um machado, aos berros: “Acabem com todos os carros, eles são obras do diabo!”. Daí pra frente, a situação só piorou: hoje os automóveis são a forma de vida dominante no planeta Terra, segundo O Guia do mochileiro das galáxias, e não há nada que o diligente Kudno possa fazer.

Em São Paulo, a frota de automóveis particulares chegou a 4,76 milhões, com uma taxa de ocupação de uma pessoa e meia por veículo. A cada mês, milhares de novos carros entram em circulação. Toda essa multidão, atordoada, decide dispor de seu direito de ir e vir geralmente ao mesmo tempo, provocando congestionamentos que já chegaram a 266 quilômetros, em maio de 2008 – a distância equivale a 3,325 milhões de potes de Yakult. Já a frota de ônibus não chega a 15 mil unidades, a oferta de linhas do metrô é insuficiente, andar de bicicleta é para gente ousada e os pedestres não fariam feio numa violenta partida de queimada.

A vida de quem não tem carro oscila entre longos trechos a pé e o “vai descer no próximo?”, num ônibus lotado que não avança há dez minutos. É verdade que às vezes grudamos a cara no vidro e damos bananas aos motoristas de carro, ao passarmos velozmente num corredor exclusivo. Mas isso é raro, e ninguém pode nos culpar. A média de tempo gasto com o deslocamento diário é de 33 minutos nos veículos individuais e 69 no transporte coletivo. Há casos em que o tempo de viagem no coletivo triplica, o que pode ficar realmente incômodo se você estiver de pé num 118C ­– Jardim Pery Alto, com uma sacola na mão direita e um vizinho decididamente tísico.

É por isso que, na esteira de Kudno, alguns tentam reconquistar as ruas. “Não estamos atrapalhando o tráfego, nós SOMOS o tráfego”, diz um movimento antiautomóveis. Há gente que veste os carros de porco para protestar, como ocorreu em Frankfurt, em 2007. Outros pedalam pelados pela avenida Paulista. Há ainda quem acople estruturas de arame em torno das bicicletas, ocupando o mesmo espaço de um carro. E há um alemão chamado Michael Hartmann, que se denomina o primeiro atropelador de automóveis do mundo. Ele sai pisando nas máquinas estacionadas na calçada, recusando-se a contornar os carros que estão no caminho. Levado aos tribunais, em 1995, foi sentenciado a pagar uma multa, porque, segundo o juiz, poderia desviar dos carros pela direita ou pela esquerda.

Foi então que, para orgulho de Kudno, ele resolveu andar no meio da rua e comer um pão em plena avenida, num ponto onde os automóveis também pudessem contorná-lo. Naturalmente, não foi bem recebido. “Não sou popular em Munique”, confessou, antes de ser internado num hospital psiquiátrico.