24 horas de TV Assembleia

Posted: 4th maio 2009 by Vanessa Barbara in Reportagens, Vice Magazine
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Vice Magazine – May 2009
por Vanessa Barbara, translated by Peter Azen

versão em inglês: https://hortifruti.org/obra/?p=736

 

Em fevereiro de 2008, o senador Mário Couto (PSDB-PA) desceu da tribuna e se arremessou em direção ao rival Gilvam Borges (PMDB-AP), que devolveu o gesto com um empurrão. Antes de serem apartados pela cintura, trocaram vigorosos insultos verbais. “Vossa Excelência é safado”, esbravejou Couto. “Vagabundo”, revidou Borges. Em outra ocasião, a deputada Angela Guadagnin (PT-SP) protagonizou, em plena Assembleia Legislativa, uma animada dancinha comemorando a absolvição de um colega das acusações de corrupção. Entre as cadeiras do plenário, ela sacolejou com gosto e foi captada pelas câmeras da TV pública.

Foi a expectativa de topar com imagens dessa envergadura que levou à ideia de assistir 24 horas ininterruptas da TV Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, canal 7 da programação de cabo local. A empreitada teria início no sábado, 4 de abril, às 20h, e se estenderia até o domingo às 20h. Na palpitante agenda do fim de semana, seriam veiculadas sessões do parlamento paulista, debates sobre assuntos atuais, documentários de interesse público e programas voltados ao cidadão com insônia.

A repórter estava animada. Tomou um banho caprichado, vestiu seu melhor pijama e postou-se diante do sofá. “Dentro da inteligência mediana que Deus me deu…”, começa um deputado, de forma auspiciosa. Segue-se o primeiro debate da noite, em que dois sujeitos de sapatos lustrosos explicam em minúcias a situação da economia agrária na cidade de Jundiaí. A certa altura, defendendo-se dos protestos populares contra a instalação de uma cadeia na cidade, o deputado declarou: “Isso já está superado, do ponto de vista que já está instalado”.

Às 20h15, o tema era a carência de recursos hídricos em Jundiaí. Às 20h31, o assunto foi subitamente encerrado e teve início um programa sobre a varonil cidade de Campinas, quando a repórter que vos escreve, num acesso de loucura, decide tirar fotos do próprio pé (fig. 1). “O amanhã já chegou em Campinas”, exclamava o locutor, enumerando os marcos científicos e culturais da localidade paulista. O programa terminou às 20h56, após cenas de uma seresta no coreto da praça principal e uma ode à “cordialidade e amistosidade [sic]” dos locais. Em seguida, toda a atenção foi para um comercial institucional orientando os munícipes a tirarem dúvidas presencialmente no Centro de Atendimento ao Cidadão, localizado no subsolo S-46 da Assembleia Legislativa.

21h03 – O deputado Aldo Demarchi (DEM) se dirige àqueles que acompanham o trabalho da assembleia pela televisão (a repórter olha para os lados) e afirma que aprendeu muito “com respeito a respeitar o direito dos cidadãos”.

21h16 – Terceira ocorrência da elegante construção “onde que”, em frases do deputado.

21h19 – “São Paulo é uma pérola”, diz o deputado, chacoalhando seu relógio dourado de pulso. O apresentador interrompe com uma pergunta sobre o plantio intensivo de gramíneas no interior.

21h25 – A essa altura, o debate versa sobre frangos de corte e o sujeito que trouxe a semente do eucalipto da Austrália.

21h29 – Anotação importante: ao que tudo indica, o senhor deputado tem o mindinho torto.

21h32 – Começa um documentário sonífero sobre o rio Tietê, que em meia hora de duração fala sobre os indígenas, o Descobrimento e a etimologia da palavra Tietê, “o mais paulista dos rios”, “onírico” e “teimoso”. Às 21h48, a repórter pede uma pizza por telefone. A expressão “borda de catupiri” ganha contornos verdadeiramente oníricos. É findo o documentário, ao som de gemidos abafados de desespero.

22h01 – Debate sobre a inspeção ambiental veicular. Às 22h06, primeira pausa para fazer xixi. A repórter anota mentalmente: “Parece setembro”.

22h34 – Chegada da pizza.

22h36 – A programação da TV Assembleia atinge seu ápice com o seguinte pronunciamento de um deputado: “A prioridade mais prioritária exclui a prioridade menos prioritária. Isso é lógica. Isso é elementar.” O público vai ao delírio.

22h46 – A repórter ameaça ir ao cinema, mas continua anotando furiosamente os melhores momentos do debate sobre a inspeção veicular.

22h57 – O deputado Barros Munhoz (PSDB), presidente da Assembleia Legislativa, ganha os primeiros elogios de seus pares, sendo chamado de “camarada” e “pessoa excepcional”. Até o fim deste experimento, certamente terá alcançado o status de deidade.

23h01 – “Sob a proteção de Deus, iniciamos nossos trabalhos”, diz a deputada Célia Leão (PSDB), abrindo a sessão solene de homenagem a uma associação de ajuda a portadores de Síndrome de Down. O evento irá “marcar nos anais desta augusta casa de leis um trabalho de envergadura…”.

23h06 – Primeiras substituições dos verbos “ver” por “visualizar” e “sentar” por “assentar-se”, por parte dos nobres deputados. Também se usa “literalmente” sem o necessário sentido literal.

23h09 – Execução do Hino Nacional Brasileiro pela banda da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Há um gordinho no trompete.

23h11 – A deputada fala aos deficientes auditivos presentes no local. Ela pede desculpas pela demora do intérprete de linguagem de sinais. Grande momento da Assembleia Legislativa: sim, ela está falando com os surdos, que se entreolham.

23h13 – Mais um elogio ao deputado Barros Munhoz: “Grande líder, grande homem, ministro, já foi prefeito de Itapira […]. Pode ser chamado de cidadão e de pessoa humana, porque no seu interior, em sua síntese, ele o é.”

23h17 – Ao que tudo indica, São Francisco de Assis é bolinho perto de Barros Munhoz.

23h19 – Primeira utilização da palavra “quiçá”, que mais tarde será até flexionada: “quiçás”.

23h32 – Mais uma vez, a deputada diz que esta sessão solene ficará marcada ao longo “das próximas décadas e dos próximos séculos”. Ela saúda um político que veio “abrilhantar a nossa festa”, mas que logo vai embora.

23h57 – O representante do município de Valinhos acena para a câmera. Ele usa abotoaduras.

0h06 – Discurso: “Não posso deixar de perder a oportunidade de…”.

0h22 – “Se mais pudéssemos fazer, assim o faríamos”, filosofa o deputado João Barbosa (DEM).

0h29 – Durante um depoimento na tribuna, a presidente da mesa é surpreendida falando ao celular. Ela disfarça e esconde o aparelho sob a bancada. Presume-se que está mandando torpedos às amigas.

1h – Depois de uma atividade solene de duas horas, sem pausas, passa-se a um debate sobre suplementos vitamínicos, esteróides e doping.

1h22 – “Meu caso clínico é gotoso”, confessa um deputado, a respeito de sabe-se lá o quê.

1h34 – A repórter pensa seriamente em aderir ao doping.

1h52 – “Eu, por exemplo, quando como ovo, me dá uma sonolência”, observa a apresentadora, genuinamente interessada no tema.

2h – Desviando-nos temporariamente do sono, há um interessante debate sobre biocombustíveis, embora o prólogo do palestrante seja longo demais e comece com: “Há dez mil anos, o homem era um mero coletor”, passando pela revolução industrial e a peste.

2h19 – O entrevistado demora 11 minutos para responder a uma pergunta.

3h – Debate sobre projeto de lei relativo a faltas escolares. As pálpebras da repórter começam a se fechar.

3h13 – A repórter é rendida por um cochilo avassalador, do qual desperta apenas às 6h55, a tempo de acompanhar um documentário que descreve florestas, canaviais e exalta a conservação da biodiversidade. Naturalmente, cai novamente no sono e é acordada pouco depois por um debate que pretende resolver o problema da habitação de pessoas de baixa renda.

10h06 – Começa um instigante documentário sobre a represa de Guarapiranga, seguido por um programa educativo que nos leva ao Jardim Botânico.

12h33 – Na plenária, acontece uma sessão parlamentar sobre o Plano de Metas da prefeitura, apresentado por um sujeito chamado Manoelito. Agora a programação da Assembleia é dominada por sessões da Câmara dos Vereadores, por conta de uma parceria com a TV Câmara.

13h03 – “Tem a palavra Vossa Excelência por cinco minutos na forma regimental.”

13h22 – “Vejam, senhores, que coisa esdrúxula. Não fiquei satisfeito, senhor vereador, em que pese o meu respeito…”

13h55 – O vereador Jooji Hato (PMDB) sobe à tribuna para pedir o veto ao transporte de passageiros na garupa das motos, que, segundo ele, incentiva os assassinatos na Grande São Paulo. Está obcecado pelo assunto.

14h11 – O vereador e cantor Agnaldo Timóteo (PR) se exalta ao protestar contra a imprensa, que veiculou imagens humilhantes dos políticos na Câmara. Os vereadores foram expostos de maneira torta e covarde, diz ele, que mais tarde se perde no raciocínio e declara que a ditadura militar brasileira “só existiu para quem era terrorista, para quem matava”. Timóteo chama os jornalistas de vagabundos e sai furioso.

14h44 – “Não vou cansar Vossas Excelências com meu discurso já combalido pelos anos…”, diz um vereador grisalho.

14h57 – Começam as votações aos projetos de lei pendentes, como a criação da carteira de saúde bucal para os alunos da rede municipal, caixa de gordura obrigatória nos prédios, preferência para deficientes nos corredores de ônibus e demais questões que se seguem uma após a outra, enquanto a repórter decide passar a roupa acumulada da semana. Em geral, os vereadores favoráveis devem permanecer onde estão para rejeitar os projetos, alguns datados de cinco anos atrás. A maioria é vetada sem que os vereadores levantem o dedo.

15h30 às 16h15 – Nesse período, a repórter entrou num grave estado de catatonia e não respondeu aos estímulos externos.

16h18 – Recuperação da repórter mediante vasta ingestão de chocolate. Começa uma discussão interminável sobre um projeto de lei que dispõe sobre a concessão urbanística pela prefeitura de áreas do bairro da Luz. Grande polêmica. O vereador Cláudio Fonseca (PPS) reclama do ambiente de dispersão.

16h25 – Começa a chover. Torcida para acabar a luz no apartamento.

16h47 – O vereador Chico Macena (PT) discute a utilização do adjetivo “singelo” na redação do texto do projeto de lei. Diz que o texto é “singelo” por ser simples mesmo, não estando à altura desta augusta casa de leis. Leva quase dez minutos para desenvolver essa argumentação.

16h55 – O vereador Netinho (José Police Neto, do PSDB) apela para a noção de “sofisma”, na sequência acalorada da discussão.

17h07 – Chico Macena (PT) não para de falar. “É isso o que falta nesse projeto: um projeto”, conclui. Não é possível dizer com precisão há quanto tempo ele está discursando.

17h40 – Há praticamente dez vereadores presentes e interessados no assunto, e eles se revezam no microfone até completarem as duas horas mínimas de discussão. Um vereador passa bocejando. Outro afirma que o tempo mínimo é de duas horas, sim, mas é preciso falar mais.

18h04 – Quando tudo parece perdido, o vereador Jamil Murad (PcdoB) começa seu discurso falando que a cidade tem 455 anos de idade e que ele se lembra do quarto centenário, ano em que o time dele ganhou o campeonato com um gol do Cabecinha de Ouro.

18h30 – Finalmente é votado o projeto de lei sobre o bairro da Luz. É aprovado por 40 a 6, para desespero do vereador Alfredinho (PT).

18h34 – É decidida a ampliação do nome da CPI da Pedofilia para “CPI da Pedofilia e do Enfrentamento à Violência Sexual Infanto-Juvenil na Cidade de São Paulo”.

19h01 – O presidente de uma das comissões delibera sobre a conservação dos campos de futebol da cidade.

19h36 – Jooji Hato volta a defender o veto à garupa das motos. Ele sonha com uma cidade onde os alunos não entrem nas escolas com armas, onde se possa ir e vir sem ser molestado, onde o filho do governador não seja assaltado.

19h42 – Na reta final deste doloroso experimento, um parlamentar se mostra ofendido com a obrigatoriedade de divulgar as contas pela internet. “Existe fronteira entre ser homem público e fazer gracinha à população, exibindo seus gastos.”

19h46 – Wadih Mutran (PP) diz que não tem obrigação de publicar na internet suas contas. “Quem é que vai corrigir na internet? Qual é o valor jurídico disso?”

19h56 – Wadih Mutran fala sobre economia de 700 mil reais que a Câmara está fazendo.

19h58 – Carlos Apolinário (DEM) volta triunfalmente à tribuna e fala do respeito que tem pelo vereador Netinho. “Grande líder do governo, é companheiro, é leal.”

20h – Com a proteção de Deus, estão encerrados os presentes trabalhos.

20h01 – Repórter beija o chão da sala e desliga a tevê. Passará as próximas horas chamando os vizinhos de Vossas Excelências e procedendo à execução da janta, que, por questão regimental e pela ordem, com a proteção de Deus e do presidente desta augusta casa de leis, foi devidamente apreciada sob a forma de item bovino. Nada mais havendo a tratar, se despede, não sem antes deixar ressaltada sua imensa satisfação em proceder ao registro de tão magistral momento et cetera, et cetera, et cetera.

Vice Magazine – May 2009
Words and photos by Vanessa Barbara, translated by Peter Azen

versão em português: https://hortifruti.org/obra/?p=740
versão na revista: http://www.viceland.com/int/v16n5/htdocs/these-assholes-wont-shut-up-849.php?page=1

In February 2008, Senator Mário Couto of the Brazilian Social Democratic Party came down from the podium and threw himself toward his rival, Gilvam Borges of the Brazilian Democratic Movement Party. Borges retaliated by pushing him. Before being separated, they vigorously insulted each other: “Your Honor, you are a charlatan!” Couto shouted. “You bum,” replied Borges. On another occasion, Angela Guadagnin of São Paulo’s Workers’ Party carried out, in the middle of the Legislative Assembly, a cheerful jig to celebrate the absolution of corruption charges against a friend. Between the chairs of the plenary congregation, she shook her ass vigorously in the high Brazilian tradition as cameras immortalized the event on public television.

Stuff like this happens with such frequency that I decided to spend a weekend watching a broadcast of the Legislative Assembly Television of the State of São Paulo for 24 hours straight. I kept a diary of the proceedings so that the rest of the world can understand what local politics are like in Brazil. To prepare I took a nice shower, put on my best PJs, and planted myself on the sofa. I switched the television to channel 7 and caught a representative in midspeech: “Within the medium intelligence that God gave me…” Soon the first debate of the night started, and two citizens with shiny shoes explained the trifling details of the agro-economic situation in the city of Jundiaí. Later, defending himself against the popular protests against the installation of a prison in the city, a deputy declared, “This is already surpassed, from the point of view that it is already installed.” It was going to be a very long night.

9:03 PM Within the cozy confines of basement S-46 of the Legislative Assembly, deputy Aldo Demarchi speaks to the television audience, stating that he’s learned a lot “in respect to the respect of citizens’ rights.”

9:16 PM The deputy has just made his third utterance of the elegant phrase “where at” in his proceedings.

9:19 PM “São Paulo is a pearl,” says the deputy, while shaking his golden wristwatch. The host interrupts with a question about the intensive planting of grains in the countryside.

9:25 PM At this point, the debate transitions from factory farming to the person who originally introduced Australia’s eucalyptus seed into Brazil.

9:29 PM Important note: It seems the deputy has a crooked pinkie finger.

9:32 PM A tiring documentary about the Tietê River begins, and for half an hour it focuses on the indigenous people of Brazil and the etymology of the word “Tietê.” At exactly 9:48, I order a pizza. Shortly after, the documentary ends with the desperate sounds of sultry moans.

10:01 PM There’s a debate going on about an inspection vehicle’s environmental inspection. At 10:06 I take my first pee break and make a mental note: “It seems like September.”

10:34 PM The pizza arrives.

10:36 PM An unidentified deputy: “The priority that is the biggest priority excludes the priority that is a smallest priority. This is logic. This is elementary.” The crowd goes insane.

10:57 PM The Legislative Assembly’s president, Barros Munhoz of the Brazilian Social Democratic Party, receives some compliments from his colleagues. They call him “comrade” and “an exceptional person.”

11:01 PM “Under God’s protection, we started our work,” says the deputy Célia Leão of the Brazilian Social Democratic Party, starting the session that will serve as an homage to an association of people who suffer from Down syndrome. This event will “be important in this respected house of laws as a work of spreading…” I feel slightly nauseated.

11:06 PM The noble deputies begin to substitute the words “visualizing” for “watching” and “to seat” for “sit.” “Literally” is also being used outside of its literal meaning.

11:09 PM The Brazilian national anthem is being played by the Military Police of the State of São Paulo. There is a fatty playing trumpet.

11:11 PM A deputy speaks to those with hearing disabilities. She apologizes because the sign-language interpreter is late. The deaf look confused.

11:13 PM Another compliment is paid to Barros Munhoz: “He is a great leader, a great man, a minister who served as the mayor of Itapira… He can be claimed as a humane person because, deep inside, in his synthesis, he is.”

11:32 PM For the first time the word “maybe” is used. Later they will exclusively use “perhaps.”

11:57 PM The representative of the county of Valinhos waves to the camera. He is wearing a short-sleeved button-up shirt.

12:22 AM The Democrat João Barbosa philosophizes: “If we could do more, then that’s how we would do it.”

12:29 AM During a deposition, the board’s president is surprised when her cell phone rings. She pretends that nothing happened and hides the phone under the table. It appears that she was sending a text message to a friend.

1:00 AM A debate about vitamin supplements, steroids, and doping begins.

1:22 AM “My problem is the gout,” confesses a deputy. I have no idea what he’s talking about.

1:52 AM “For example, when I eat an egg I get tired,” says the program’s host, who seems engrossed in the current theme.

2:00 AM An interesting debate about biofuels stirs me briefly from my half-conscious state, even though the prologue of the speaker is too long. He begins: “Ten thousand years ago, the man was a mere collector.” Then he outlines the history of the Industrial Revolution.

2:19 AM The interviewee takes approximately 11 minutes to answer a single question.

3:00 AM My eyelids start to droop as a debate begins about the relative law that deals with the lack of schools.

6:13 AM I pass out and awake three and a half hours later, just in time to watch a documentary about forests, cane plantations, and biodiversity.

1:22 PM (the following day) Whoops, I fall asleep again for about seven hours and wake up to a debate about low-income housing. “Listen, sirs… What a low thing! I wasn’t satisfied, Mr. Councilman, in its importance to me…”

1:55 PM Councilman Jooji Hato of the Brazilian Democratic Movement Party stands up to veto a bill about the transportation of passengers in motorcycles, which, according to him, increases the amount of homicides in greater São Paulo. He is obsessed.

2:11 PM The councilman and singer Agnaldo Timóteo of the Party of the Republic gets excited while protesting the recent leak of humiliating images of the politicians in the chamber to the media. “The councilmen were exposed in a twisted and cowardly manner,” he explains. Later he loses his train of thought and declares that the Brazilian military dictatorship “only existed for those who were terrorists, those who killed.” Timóteo declares that journalists are a “bunch of bums” and leaves in a fury.

2:57 PM Voting begins for the current batch of proposed laws. They include the creation of an instructional card about mouth health for students in public schools, obligatory boxes of sweets in public buildings, priority for disabled people in bus corridors, and other miscellaneous bullshit. I decide to iron some clothes.

3:30 to 4:15 PM During this period, I become inexplicably catatonic and unresponsive to external stimuli.

4:18 PM I recover after a massive ingestion of chocolate.

4:25 PM It begins to rain and I pray for a blackout.

5:07 PM Macena won’t shut up. “This is what’s missing in this project: a project,” he concludes.

5:40 PM There are only ten councilmen interested in Macena’s ranting, and all of them talk until they reach the minimum of two hours of discussion on this subject. Another councilman yawns.

6:04 PM When everything seems lost, councilman Jamil Murad of the Communist Party of Brazil starts his argument by saying that the city is 455 years old and that he still remembers its fourth centennial. It was the same year that his team won the soccer championship.

6:34 PM The council decides to change the name of the Parliamentary Commission of Questioning of Pedophilia to the Parliamentary Commission of Questioning of Pedophilia and the Fight Against Sexual Violence in the City of São Paulo.

7:01 PM The president of some commission discusses the maintenance of a soccer field in the city.

7:36 PM Jooji Hato is once again defending the veto concerning motorcycle passengers. He dreams of a city where the students don’t go to school with guns, you can go anywhere without being molested, and the son of the governor won’t get robbed.

7:42 PM A parliament member is offended by his obligation to publish his bills on the internet.

7:46 PM Wadih Mutran of the Progressive Party says that he is not obliged to publish his bills online. “Who is going to correct the internet? What is the judicial value of this?”

8:00 PM With God’s help, my work is done.

8:01 PM I kiss the living-room floor and turn off the TV. I will probably be calling the neighbors “Your Honor” for weeks and plan to proceed with the execution of the dinner, which, by regimental question and order and with the protection of God and the president of this respected house of laws, was appreciated in bovine form.

CosacNaify
29 de abril de 2009

Foto: Nino Andres
O jornalista Humberto Werneck, autor de O santo sujo, eleita a melhor biografia de 2008

A Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) premiou, na última terça-feira, 28 de abril, os melhores do ano em dez categorias de arte, em cerimônia de realizada no Teatro Sérgio Cardoso, na capital paulista. Dois livros editados pela Cosac Naify estavam entre os ganhadores.

Em Literatura, O santo sujo – a vida de Jayme Ovalle, escrito pelo jornalista Humberto Werneck, foi eleito a melhor biografia do ano. A obra desvenda a incrível e pouco conhecida personalidade do compositor que influenciou gente como Manuel Bandeira e Vinícius de Moraes. [Leia entrevista com o autor]

Na mesma categoria, O livro amarelo do Terminal, de Vanessa Barbara, conquistou o prêmio de melhor livro-reportagem com uma original abordagem da rodoviária do Tietê ao retratar as mais diversas histórias de vida que ali se cruzam, além de uma criteriosa investigação jornalística sobre sua construção. [Leia entrevista com a autora]

Para se chegar a este resultado, votaram os críticos Amilton Pinheiro, Dirce Lorimier Fernandes, Ricardo Nicola, Rodrigo Manzano e Ubiratan Brasil. As nove categorias que complementam a premiação são Artes Visuais, Cinema, Dança, Literatura, Música popular, Música erudita, Rádio, Teatro, Teatro infantil e Televisão.

Abaixo você confere os outros ganhadores na categoria. Para conhecer todos os premiados, acesse o site da APCA.

LITERATURA
Romance: Flores azuis / Carola Saavedra / Cia. Das Letras
Poesia: Anima animalis / Olga Savary e Marcelo Frazão / Letra Selvagem
Ensaio: A construção do gosto / Maurício Monteiro / Ateliê
Biografia: O santo sujo – a vida de Jayme Ovalle / Humberto Werneck / Cosac Naify
Tradução: Paulo Bezerra / Irmãos Karamazov, Dostoievski / Editora 34
Reportagem: O livro amarelo do Terminal / Vanessa Barbara / Cosac Naify
Memória: Memórias inventadas – A terceira infância / Manoel de Barros / Planeta

O carteiro Gigante

Posted: 26th abril 2009 by Vanessa Barbara in Crônicas, Metrópole, O Estado de São Paulo
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É uma tarde de verão no interior da zona norte de São Paulo. O asfalto do chão frita com o calor de 35 graus. De bermuda azul, óculos Ray-Ban e pochete, sem boné, o carteiro Vitor Donizetti Silva, 51 anos, vai trançando os dois lados da rua, distribuindo cartas como se estivesse de olhos fechados. Conhece todos os moradores da área e anuncia sua chegada com um vozeirão que ecoa pelos quintais: “Correio!”. De vez em quando, acrescenta: “Tem que assinar”. As pessoas vão saindo às portas, uma a uma, no ritmo da entrega das cartas.

Conhecido como “Gigante”, Vitor passa pela rua cantando hits variados e cumprimentando as pombas. Aos moradores, dá “Boa Páscoa”. É dezembro. “Quando é Páscoa mesmo, aí é ‘Feliz Natal’”, ele explica, muito sério, arrastando cinco quilos de papéis na mala.  Carteiro há trinta anos, trabalha nessa região há seis. Mora no bairro da Cachoeirinha, perto do cemitério. Entrega “desde cartinha de amor até intimação”, embora o impresso mais comum seja a mundana conta de luz.

Acorda às seis todos os dias, entra às 8h30 na central, em Santana, e fica até a hora do almoço fazendo triagem das cartas. Depois começa a jornada pelas ruas do bairro, subindo e descendo morros até escurecer. Gosta muito do frio, porque é menos cansativo. Mas solzão, “peloamordeDeus”, ele diz, maldizendo a chegada do alto verão. “Imagina a hora que o calor pegar”, comenta, entregando um catálogo na casa de duas crianças que nadavam numa piscina de plástico. Ele ameaça entrar na água, mas já está atrasado e tem que apertar o passo.

“Gigante” é um dos nomes que usa para saudar as pessoas na rua. Também utiliza “mister” e “hello”, além de patentes militares ou o próprio sobrenome do morador. Vitor, que tem o exato timbre de voz do cantor Louis Armstrong, sai anunciando: “Ô, coronel! Aqui tem uns dólares, ok?”. E, para outro: “Vai chover. Está aqui na planta”, diz, ao deixar a encomenda em cima de um vaso. Diligente, Vitor sabe de cor quem mora em cada casa. “É do 26, né?”, ele acerta, quando um ilustre mandaquiense passa de carro e abre o vidro para receber a correspondência.

Entre as inquietações do ofício, estão os carros que quase o atropelam, os cães bravos e os chicletes no chão. “Já viu ele com a lanterninha na cabeça?”, pergunta um morador, referindo-se à ousada lanterna de espeleologia. “Eu quase bati o carro quando vi aquela luzinha ali no escuro.” Trata-se de uma das maiores atrações da rua: quando escurece, o Gigante põe uma lanterna na cabeça e sai distribuindo as cartas. “Foi presente do 124”, diz o vaga-lume carteiro, avançando por um dos lados da rua. Falta pouco tempo para o Gigante se aposentar. Ao que tudo indica, vai ser um silêncio nas tardes de calor.

Às quintas-feiras à tarde, havia aula de francês na faculdade do Mosteiro de São Bento. Lá fora, o sol batia em cheio nos camelôs, os executivos saíam para almoçar e as estátuas vivas escorriam tinta do rosto. As pessoas comiam cachorro-quente com purê de batatas, enquanto um bar era fechado pela vigilância sanitária. Lá dentro, porém, era século dezenove: a sala de aula dava para o jardim do mosteiro e a gente aprendia os partitivos, o futuro próximo e os pronomes “en” e “y”.

O professor Alfredo Fressia reclamava do calor e nos dizia, filosoficamente, “ça met longtemps pour se devenir lui-même” (é preciso muito tempo para se tornar si mesmo). As salas eram enormes, com pé-direito alto e crucifixos por toda parte. Havia dez alunos por turma, algumas velhinhas de vestidos floridos e um delegado de terno sob um calor de trinta graus. Os monges se confundiam nas conjugações e o professor Alfredo recitava poemas. Não havia prova e nem chamada oral. A gente lia trechos do romance Manon Lescaut, achava que “chaussures” eram salsichas e conversava sobre a vida, a meteorologia, os trens de alta velocidade. Houve uma aula, em pleno verão, em que passamos duas horas falando só de gansos. Discutiu-se de tudo: dos gansos do Capitólio, do ímpeto agressivo da espécie e do fato de serem “animais multiuso”. A conversa foi derivando para a diferença entre grilo e grelha, depois passou ao termo em francês para “carrinho bate-bate” e, por fim, aterrissou estrondosamente num poema em latim que dizia: “Cacatio matutina (est) medicina. Cacatio meridiana nec bona nec mala. Cacatio serotina ducit hominem ad ruinam”, uma trovinha graciosa sobre os benefícios de frequentar o banheiro pela manhã.

Nas aulas de francês, a gente aprendeu de tudo. Na maior parte do tempo, tratava-se de “un bavardage inconsistant”, ou seja, um notório papo furado, que, não raro, terminava com um trava-língua qualquer: “Ton thé t’a-t-il ôte ta toux?” (Teu chá tirou a tua tosse?). No fim do ano, debatemos um crime hediondo em detalhes, com os verbos todos no lugar. Eu sei recitar até hoje que “a polícia encontrou pedaços de um cadáver num vagão de trem”, e que, nas semanas seguintes, mais membros do mesmo corpo foram encontrados em outros trens. Faltava só uma coisa: a cabeça. Jamais foi encontrada.

Alfredo fazia troça das frases do livro de exercícios: “‘Teus sapatinhos novos me agradam’, que frase mais babaca”. Já o professor de latim, baixinho e sereno, vivia passando vagarosamente e cumprimentando o abade. Na parede, não havia relógios. O tempo corria para trás nas aulas de francês do mosteiro São Bento — como se fosse sempre à tarde e nós usássemos chapéus.

Luzes acesas

Posted: 29th março 2009 by Vanessa Barbara in Crônicas, Metrópole, O Estado de São Paulo
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Todas as noites, ele chega do trabalho, acende a luz da cozinha e põe o cachorro em cima da bancada, perto da janela. Todas as noites, ele escova o animal, que fica encostado no vidro, espichado, morrendo de cócegas. “Amor, ele está penteando a loira bizarra de novo”, diz a vizinha míope, espantada.

Todas as noites, o casal do apartamento da frente bota o bebê pelado no sofá e liga a televisão. Da janela vê-se a mulher passar a roupa vagarosamente, enquanto ele abre uma cerveja e vigia o filho. A vizinha míope acha que a criança é do mal. Eles assistem tevê sem pular os reclames e ficam horas sem se mover.

Há outro casal que veste o pijama às quatro da tarde, um pijama engomado de gola e bolsinho, listrado ou xadrez. “Amor, eles já estão de pijama”, diz a mesma vizinha, tomando certas providências quanto ao próprio vestuário.

Já o advogado da janela de baixo passa as madrugadas de camisa social, cochilando em frente à tevê, e às três da manhã acorda sem saber qual é a capital da Alemanha, quanto tempo a água leva para ferver e se já é hora do almoço. Às vezes ele passa um pano no chão da cozinha, às vezes discute procedimentos jurídicos ao celular. Outro dia estava lendo um livro sobre a China.

A velhinha do lado assiste a programas de culinária no volume máximo e nunca trocou a maçaneta dourada da casa. Às vezes ela fica espiando o corredor pelo olho mágico, quando está sem sono ou quando é sábado à noite.

As luzes estão acesas em todos os apartamentos da vizinhança, e há no ar um cheiro de feijão. É sempre tarde. As moças chegam do trabalho com seus sapatos de salto, os homens largam as pastas na mesa e abrem a geladeira. As crianças vão dormir cedo por causa da escola, os cachorros se enrolam no canto da sala, resmungando palavras em francês. A esposa se põe a contar o que aconteceu no escritório, sem poupar o marido dos mais vívidos detalhes, por exemplo: ela espirrou três vezes antes de assinar o contrato, ela comeu um abacate inteiro, outro dia pensou em pintar a unha de vermelho, mas acha melhor não. O marido bota um filme no aparelho de DVD e os dois dormem antes de descobrirem que é dublado. Amanhã é preciso lavar a roupa, jogar as batatas fora, pagar a conta do gás. Amanhã é preciso acordar cedo, fazer o café, limpar o umbigo.

A vizinha míope anda o dia todo de pantufas, às vezes senta perto da janela e corta as unhas do pé. Ainda não sabe direito trocar as lâmpadas, mas lava a louça como ninguém. Quando chega a madrugada, ela senta no sofá e começa a ler um livro bem grosso, de capa dura, em companhia das luzes que vão se apagando, uma a uma, até sobrarem o barulho dos caminhões de lixo e o porteiro lá embaixo, assistindo a uma reprise do Pica-Pau.

Retrato do terminal

Posted: 21st março 2009 by Vanessa Barbara in Clipping
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Jornal O Povo
21 de março de 2009

por Raquel Gonçalves, da Redação 

    

“Hoje eu consertei o zíper da minha blusa no 701-U”, declara uma jovem passageira. “Espero encontrar meu grande amor nessa linha”, afirma outro rapaz, sonhador. O trajeto coerente do 701-U, Jaçanã–Butantã USP, é até hoje um modelo de racionalidade no tráfego. Em seus 163 minutos de percurso, segundo informações oficiais da SPTrans, o coletivo passa pelas ermas ladeiras do Tucuruvi (assim como os 177H e P, que espantam galinhas pelo caminho), chega portentosamente às principais ruas de Santana, às nem tão principais assim, a uma certa viela chamada Perpétuo Jr. e vai além, sempre atrás de um Corsa, pela avenida Tiradentes, Ipiranga, Consolação e Cardeal Arcoverde, onde é cercado de carros por todos os lados e acolhido em uma alegre e estanque quermesse local. (Segundo relatos, em certos trechos dá pra ver o mar.)

Durante essa jornada, muitos passageiros optam por escutar música, papear ou falar ao celular. O fundo do ônibus se transforma em dormitório, onde os peregrinos encostam-se ao vidro e usam as blusas como travesseiro. Outros cochilam de boca aberta e há sempre uma moça que descasca o esmalte das unhas. De pé, os estudantes lêem folhas de xerox, com canetas marca-texto presas na boca.

Pensando nisso, e diante da evidente escassez de ocupações alternativas, elaboramos uma lista de atividades para exercer a bordo desse coletivo.

1) Massagem nos pés
2) Conhecer a vida, obra, curiosidades e preferências do cobrador, do motorista e de treze passageiros, aleatoriamente
3) Jogar forca no vidro (quando está chovendo)
4) Dormir, acordar, comer, mascar chicletes e voltar a dormir
5) Olhar o relógio de minuto em minuto, gritando a cada hora cheia
6) Inventar enigmas obrigatórios para poder passar pela catraca
7) Estalar todas as articulações do corpo
8) Planejar seu futuro em 815 pedaços de papel
9) Rasgar tudo e escrever um haikai
10) Abrir um pacote de bolachas recheadas e fazer amigos
11) Gritar “tarântula!”, e depois fingir que está dormindo
12) Cronometrar quanto tempo o ser humano consegue ficar completamente imóvel
13) Ficar próximo ao controle do Bilhete Único para ver quanto crédito as pessoas possuem no cartão, invejando os abastados e ridicularizando os depauperados
14) Olhar pra fora e perceber que ainda estamos no meio do caminho

Segundo fontes, a Prefeitura de São Paulo pretende transformar o 701-U num centro cultural e desportivo. Nele, a população nômade terá acesso a palestras, atividades lúdicas e cursos profissionalizantes. Ao passar pela catraca, será possível jogar tênis, ter uma animada aula de rumba, assistir ao curso prático “O que podemos aprender com os gansos?”, realizar caminhadas e assistir na íntegra os discursos de José Sarney

Sem xixi na galocha

Posted: 1st março 2009 by Vanessa Barbara in Reportagens, Revista piauí
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Piauí n. 30
Março de 2009

por Vanessa Barbara

O bandeirantismo completa cem anos com rãs, pelúcia e banho de cano, mas sem o entusiasmo de uma invasão do Palácio de Cristal

No dia 4 de setembro de 1909, no Palácio de Cristal, em Londres, 11 mil meninos de várias partes do Reino Unido se juntaram para encontrar pela primeira vez o criador do escotismo, lord Robert Stephenson Smyth, o barão Baden-Powell. Sem serem convidadas, 24 garotas se infiltraram na reunião dos escoteiros. “Ficamos sabendo do encontro por meio do grupo escoteiro local”, contou uma delas, que tinha 13 anos e morava em Camberwell, ao sul de Londres. “Não havíamos sido convidadas e nem tínhamos permissão para ir, mas pegamos emprestados alguns uniformes e chapéus e fomos.” Algumas das meninas escreveram cartas a Baden-Powell usando apenas suas iniciais, para que ele pensasse que eram rapazes, e assim conseguiram se inscrever.

Apesar do dia frio e chuvoso, elas andaram quase 10 quilômetros até o Palácio de Cristal porque não tinham dinheiro para o ônibus. Ao chegarem, foram barradas por um organizador que fez troça das moçoilas – o escotismo era uma organização estritamente masculina. Incansáveis, elas conseguiram entrar sorrateiramente, por entre um grupo de escoteiros.

Dentro do palácio, filas de rapazes, com seus totens e chapéus, desfilavam e saudavam Baden-Powell, que, satisfeitíssimo, inspecionava as tropas. Seu humor azedou quando vislumbrou o grupinho de fedelhas num dos cantos da arena. Elas ainda tentaram se esconder, mas ele se aproximou a passos largos e inquiriu: “Que diabos vocês estão fazendo aqui?” A líder das meninas respondeu: “Queremos fazer a mesma coisa que os rapazes, queremos ser escoteiras.” Baden-Powell respondeu que era impossível, mas, mais tarde, disse que ia pensar no caso.

Durante o resto da cerimônia, as garotas foram apupadas pelos rapazes, e mesmo assim não se abalaram. Depois da leitura de um telegrama de cumprimentos do rei Eduardo VII, como todos os presentes elas ergueram seus chapéus e totens. Foi graças à pressão das meninas que, no ano seguinte, Baden-Powell determinou que sua irmã Agnes fundasse a vertente feminina do escotismo, que no Brasil se chamou Movimento Bandeirante, em homenagem aos brasilianos de São Paulo que, a poder de ferro e fogo, dilataram a fé católica e o império luso.

O bandeirantismo brasileiro comemora neste ano nove décadas de vida. Em 2010, será a vez do centenário mundial, quando todos os membros da World Association of Girl Guides and Girl Scouts organizarão festas nacionais e internacionais para celebrar a data, sempre no centésimo dia do ano (10 de abril). As comemorações se estenderão por três anos, o tempo que, da Inglaterra, o movimento levou para se espalhar pelo mundo. O primeiro acampamento mundial comemorativo está marcado para o ano que vem, no Canadá, e até lá os bandeirantes firmaram o compromisso de fazer 100 grandes amigos.

Sim: os bandeirantes. Ao contrário do que imaginam os leigos, o bandeirantismo não é uma associação só para moças. A partir da década de 60, passou a receber também meninos e hoje é uma organização mista, distinta do escotismo, mas com princípios e técnicas semelhantes. Pode-se dizer que o escotismo se concentra em aventuras e pioneirias (amarras, bivaques, orientação, sobrevivência na selva) e o bandeirantismo, em campanhas beneficentes, projetos educacionais e jogos – embora isso não seja regra e comportamentos possam variar de região para região.

***

Espíritos malignos invadiram o acampamento durante a noite. Foi em outubro de 2001, em Araçariguama, no interior paulista, quando uma menina fez xixi nas galochas de tanto medo e as crianças tiveram que resgatar a chama da magia por entre as árvores, sem pistas e sem lanterna – e parece que havia morcegos.

Três anos antes, num acampamento em Parelheiros, na periferia de São Paulo, uma bruxa horrenda assaltou o forte apache e, em uma atitude destemida que virou notícia, “a Camila pegou uma minhoca com a mão”.

Em 1992, sempre em São Paulo, dessa vez em Boituva, foi a máfia chinesa que assombrou. Quatro sábios de branco vagaram pelas barracas distribuindo pistas, enquanto os malfeitores de preto capturavam membros das equipes. Alguém passou por uma ponte baixa e foi agarrado pelo pé. Nos acampamentos bandeirantes, os jogos são mirabolantes e até as crianças de 5 anos enfrentam monstros, índios loucos e esqueletos.

Em abril passado, num sítio em São Bernardo do Campo, os núcleos bandeirantes Acauã e Itatiaia organizaram um acampamento para cinquenta participantes. O tema, que em geral é apenas uma desculpa para criar os jogos, era “alto astral”, ou seja, horóscopo. Os jogos foram preparados com algumas semanas de antecedência e incluíam circuitos com cordas, lama e toldos escorregadios. Os bandeirantes foram divididos em quatro equipes, simbolizando a terra, a água, o fogo e o ar, e tiveram de cumprir uma infinidade de tarefas vagamente relacionadas aos signos. Por exemplo: na base do signo de Sagitário, que, segundo o zodíaco, é marcado pela liberdade e a aventura, passaram por um labirinto de cordas com os olhos vendados e apanharam ingredientes para um almoço mateiro.

Os bandeirantes só costumam descobrir o tema na abertura do acampamento. Às vezes, são surpreendidos pelos jogos em andamento enquanto lavam a louça ou escovam os dentes: surge um feiticeiro envolto em uma nuvem de fumaça e começa a ditar as regras. Ou então os adultos (chefes escoteiros ou coordenadores) desaparecem misteriosamente, deixando o acampamento às moscas e um mistério para as crianças desvendarem. Outras vezes, os jogos são contínuos e as equipes passam dias e dias na sequência da mesma história, incorporando os personagens relativos ao tema. As fadas e os magos – os bandeirantes de 5 a 9 anos – já estão acostumados com a idéia. Em suas reuniões semanais, que em geral acontecem aos sábados, participam do “encantamento”, atividade em que formam um círculo e, cantando uma música, assumem a personalidade de médicos, besouros, artistas, expedicionários, marcianos, ou bananas. Levam a brincadeira tão a sério que, num feriado de Semana Santa, uma coordenadora teve que “desencantar” por telefone uma criança que tinha saído mais cedo da atividade e continuava agindo como uma cenoura.

As demais categorias de bandeirantes (B1 e B2, de 9 a 15 anos) e guias (de 15 a 18 anos) também realizam reuniões semanais, em que participam de jogos educativos nas áreas de saúde, habilidades, cultura, cidadania, meio ambiente e participação comunitária. O bandeirantismo também se dedica a gincanas, visitas a creches e asilos, competições esportivas, brincadeiras de roda (às vezes com letras em espanhol que ninguém entende, ou cantigas famosas de significados obscuros como “Era um sapo/ que morava no rio/ com seu traje verde,/ mas morria de frio/ E a senhora sapa/ tinha um amigo/ que era professor”), jogos de cidade, caças ao tesouro, debates, pinturas, teatro etc. A idéia geral é ensinar através de jogos.

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Na saída para o acampamento, uma coordenadora foi logo avisando: “Olha o dedo no nariz!” As crianças se dispersaram pelo ônibus. As fadas e magos dormiram na frente com seus macaquinhos de pelúcia, os B1 ficaram falando sobre a escola e comendo salgadinhos, algumas B2 comentaram que gostavam de tomar banho frio porque faz bem para a pele e os guias tocaram pandeiro. Ao chegar ao sítio Garça Branca, todos descarregaram a bagagem e começaram a montar o acampamento.

Foram postas de pé duas cozinhas (com mesas de bambu e toldo) e doze barracas para os B1 e B2, além de onze redes para os guias. A montagem levou a tarde inteira e foi cansativa. “Tem uma rã no seu pé”, avisou uma das guias e a amiga, ocupada em reforçar uma amarra, nem se incomodou. Alguém reclamou que seria mais rápido montar um kit instantâneo de redes e toldo, e a coordenadora de guias retrucou que seria como comprar hambúrguer pronto para o acampamento. Ou pedir pizza.

Redes de náilon foram estendidas entre troncos de árvores, em dois ou três andares. Os que dormiam no último andar não podiam levantar à noite para ir ao banheiro. Há uma técnica complexa de subir nas redes, que exige agilidade e equilíbrio. Nenhum tombo grave foi registrado.

As fadas e os magos, que não precisavam montar o próprio alojamento, pois iam dormir num galpão, se dispersaram pelo campo. Duas fadinhas apostaram corrida: “Quem chegar primeiro perde”, disse a pequena Letícia, de 5 anos, a tempo de se corrigir: “Não, não, quem chegar por último, senão a gente vai ficar parada.” A certa altura da tarde, ela e Luna, dois anos mais velha, pediram socorro aos bandeirantes que passavam com bambus: “Alguém ajuda a gente a descer da gangorra?”

A bandeira do acampamento foi hasteada quase no final da tarde e assim começou o cerimonial de abertura com brincadeiras e divisão de equipes, quando os bandeirantes produzem gritos de guerra, totens e identificação. A equipe Minhoca saiu na frente. O jantar foi macarrão com almôndegas.

***

Baden-Powell fez carreira militar na Índia e na África e chegou a general. Comandou inúmeros regimentos, entre os quais promovia espetáculos de teatro, competições de caça ao javali e passeios de bicicleta. Um dia, dividiu os soldados em pequenas unidades de meia dúzia (que, no escotismo, foram chamadas de patrulhas e, no bandeirantismo, de equipes) que nomeavam seu próprio líder. Também criou insígnias e prêmios de eficiência. Ele achava que o trabalho, inclusive o militar, rendia mais se fosse realizado de maneira interessante. Desenvolveu jogos e competições que uniam a prática e a diversão, e os aplicou no escotismo.

O primeiro acampamento escoteiro da história foi organizado por Baden-Powell em 31 de julho de 1907, na Ilha de Brownsea. Compareceram vinte meninos. No primeiro dia, foram formadas quatro patrulhas: Maçaricos, Corvos, Lobos e Touros, sendo escolhidos os monitores e distribuídos os demais cargos. Cada patrulha tinha sua barraca e era identificada pelas cores das quatro fitas que os integrantes portavam no ombro e pela bandeirola que os líderes carregavam num bastão. Em cada dia, os escoteiros trabalharam um tema diferente: técnica de acampamento, observação, artes mateiras, cavalheirismo, salvamento de vidas e patriotismo. Lá ocorreu o primeiro Fogo de Conselho (cerimônia em torno de uma fogueira com histórias, esquetes e músicas).

O acampamento foi um sucesso e Baden-Powell reuniu sua filosofia em um manual, Escotismo para Rapazes, publicado em 1908, que é usado até hoje. Ele afirma no livro que “compreendeu que estava aí a oportunidade de ajudar os rapazes de sua pátria a se desenvolverem para uma robusta virilidade”. Há outros trechos memoráveis, como uma seção dedicada à continência ou abstenção de prazeres sexuais, na qual o autor diz que o desejo pode ser despertado por se ter comido demais, pela constipação ou por se dormir em cama macia, muito quente, com muitas cobertas. O livro ensina como tocaiar emas, como ficar de cócoras e como afiar bons cotocos. A despeito de alguns ensinamentos ultrapassados, é um bom manual de referência para pioneirias, orientação, cozinha mateira, sinais de pista, observação e outras técnicas de campo.

Com suas técnicas e jogos, Baden-Powell queria que as crianças e jovens aprendessem a agir por conta própria e se autoconhecessem. “O instinto natural do menino é de fazer despontar a própria personalidade por meio de um exercício que chamamos jogo”, escreveu. “Ele tem um desejo de realizar-se: quer fazer coisas e superar dificuldades para se sentir diferente.” O general cita a educadora Maria Montessori para dizer que, encorajando as crianças nos seus desejos naturais, em vez de instruí-las naquilo que o adulto pensa que deveriam fazer, é possível educar sobre uma base mais sólida e mais ampla.

***

A chuva atrapalhou um bocado o acampamento em São Bernardo. No segundo dia, o jogo noturno foi cancelado porque a tempestade estava forte e, em vez de Fogo de Conselho, fez-se uma lamparada, na qual a fogueira é substituída por lampiões. O banho de B2 e guias aconteceu numa “cachoeira” a quinze minutos do campo – na verdade, três canos de plástico que desaguavam num riacho. Na volta do banho, a chuva apertou. Alguns jogos foram feitos debaixo do aguaceiro. As fadas e magos se dispersavam de cinco em cinco minutos e alguns se recusaram a participar. “Santa Catarina é longe, fica perto do Japão”, informou uma das fadas à amiga, durante um jogo, sem qualquer motivo aparente. Patos e galinhas passeavam placidamente pelo campo, enquanto os bandeirantes tentavam acender uma fogueira debaixo de chuva para preparar o almoço. Às vezes, os maiores também se dispersavam e as brincadeiras se estendiam além da conta.

Desde a invasão das meninas no Palácio de Cristal, o Movimento Bandeirante passou por várias modificações. Nos anos 60, atingiu no Brasil o auge de 20 mil membros. Hoje, segundo o censo da Federação de Bandeirantes do Brasil, o efetivo é de 4 500 inscritos em catorze estados. Recentemente, o movimento aderiu à onda do “ano do voluntariado” e passou a dar mais atenção a projetos como Ouça, Aprenda e Viva (de prevenção a Aids), o Dia Global do Voluntariado Jovem e o Dia de Fazer a Diferença. Ao mesmo tempo, para os cerimoniais de reflexão, adotaram-se mensagens edificantes de paz e harmonia, como textos falsamente atribuídos a escritores famosos que falam de persistência, arco-íris, criatividade e lendas milenares da China rural. Os jogos deram lugar a dinâmicas de auto-ajuda. Baden-Powell foi ficando para trás.

***

O jogo é uma ocupação voluntária, exercida dentro de certos limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas, acompanhado de um sentimento de tensão e de alegria, e de uma consciência de ser diferente da vida cotidiana. Essa é a definição do historiador Johan Huizinga, que, em Homo Ludens, enumera as suas principais características: liberdade, evasão da vida real, desinteresse, isolamento, ordem e limitação. Ainda assim, não é o oposto da seriedade, pois pressupõe que os participantes adotem seu universo com a maior gravidade possível – ele funciona melhor quanto mais for levado a sério.

É o caso da criança que não podia deixar de agir como cenoura. Ou dos muitos casos de agressão, com vassouras e panelas, aos adultos fantasiados de Sujeira ou Vírus, mesmo depois de eles terem retirado as máscaras de vilões. O segredo é despertar nas crianças um entusiasmo que chegue ao arrebatamento, sustentando um ar de mistério e de segredo compartilhado. Nas palavras de Huizinga, “a sensação de estar ‘separadamente juntos’, numa situação excepcional, de partilhar algo importante, afastando-se do resto do mundo e recusando as normas habituais, conserva sua magia para além da duração do jogo”.

Para a educadora Vania D’Angelo Dohme, a informalidade com que Baden-Powell colocou em prática suas idéias educacionais, utilizando elementos desafiadores para a época, pode ter prejudicado a aplicação de seu método nos dias de hoje. Eis o que ela escreveu num artigo para a União dos Escoteiros do Brasil: “Elementos inovadores e criativos ficam um pouco abafados perante tradições e costumes característicos da época em que foram concebidos, e acabam por fazer parte do seu contexto, dando uma aparência, para quem os observa apenas superficialmente, um pouco velha e ‘rançosa’. Neste panorama, o conteúdo educacional fica pouco visível à sociedade em geral e, às vezes, até pouco percebido e explorado pelos próprios integrantes.”

A maioria dos coordenadores bandeirantes não tem formação em pedagogia ou conhecimentos específicos para cuidar das crianças. Apesar de frequentarem treinamentos ocasionais, são movidos a puro ânimo e boas intenções. Muitos são bandeirantes desde a infância e passaram por todos os ramos antes de assumir a coordenação de um grupo, aos 18 anos. Eles se conhecem de outros acampamentos, identificam-se em fotos de dez anos atrás e continuam empolgados com o bandeirantismo. Outros são pais dos novos bandeirantes que, um dia, se oferecem para ajudar numa atividade e acabam ficando para compor a diretoria (secretaria, tesouraria, presidência) ou a coordenação. Todos os cargos não remunerados.

Há ainda jovens voluntários que ficaram sabendo do movimento e resolveram participar: são estudantes de direito, marketing ou administração, além de professores de geografia, comerciantes, bancários ou nutricionistas que demoram a se acostumar com o método bandeirante. Para coordenar as crianças, o requisito básico é possuir uma espécie de entusiasmo peculiar que lhes dá disposição para participar de reuniões de planejamento aos domingos de manhã, desfiles cívicos nos feriados e longas madrugadas recortando sinais de pista.

Alguns núcleos têm a sorte de possuir coordenadores com essa característica, outros não. É esse, em suma, o risco que corre o Movimento Bandeirante: perder o entusiasmo que o mantém de pé. O mesmo entusiasmo que levou as meninas inglesas a invadirem o Palácio de Cristal.

Em 1995, no pico do Jaraguá, duas bandeirantes receberam a tarefa de um coordenador faminto: atravessar o campo à noite para buscar caquis. Na reta final, perceberam que os caquis eram tomates, e tiveram que fazer tudo de novo, correndo de olhos fechados e mãos dadas, numa mistura de pavor e empolgação.

Em 1999, em Embu-Guaçu, uma “bomba-relógio” teve que ser desarmada pelas equipes, que quase atingiram a histeria coletiva à medida que o tempo se esgotava.

Em 2001, bandeirantes chegaram sozinhos até a rodoviária paulistana, guiados por uma bússola e uma carta de navegação.

No acampamento de São Bernardo não houve nada parecido. Ao contrário, houve dispersão e desatenção. Em meio a um jogo de bases, duas fadinhas fugiram para ir ao banheiro e não voltaram mais para suas equipes. Uma B2 impaciente pediu para uma coordenadora ler mais rápido as tarefas da base. Um bumerangue clandestino foi apreendido. Para tristeza dos coordenadores, ninguém chegou a fazer xixi nas galochas.

Mulheres notáveis

Posted: 1st março 2009 by Vanessa Barbara in Crônicas, Metrópole, O Estado de São Paulo
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Em 8 de março, comemora-se o Dia Internacional da Mulher, um momento para celebrar as conquistas políticas, sociais e econômicas do sexo feminino desde o doloroso tempo das cavernas, passando pela época dos aventais e a era das polainas na aula de aeróbica.

Ao longo da história, foram muitas as mulheres que se destacaram pela audácia e pioneirismo. Algumas permanecem anônimas. Por exemplo, Sandra Luchian, de 15 anos, da Moldávia, que não tinha dinheiro para comprar o livro do Harry Potter e passou as férias do verão de 2005 copiando-o à mão. Ela preencheu cinco cadernos com o texto de 607 páginas, discriminando os diálogos em azul e as narrações em preto, para facilitar a leitura. Ou a americana Leslie Tipton, a pessoa que escapou mais rápido de uma mala fechada. A contorcionista conseguiu sair da bagagem em apenas 13,31 segundos e entrou para o Guinness Book. Há mulheres que carregam imensos fardos na cabeça, mulheres com onze filhos, mulheres matemáticas, mulheres santas, mulheres fãs de Star Trek e até mulheres barbadas. Há mulheres como a sul-coreana Cha, de 68 anos, que tentou tirar a carteira de motorista 772 vezes, ou a búlgara Daniela Simidchieva, considerada a pessoa mais inteligente do mundo, com um Q.I. de 192, mas que não consegue arrumar emprego. Simidchieva é mãe de três crianças e possui cinco títulos Ph.D.: em economia, engenharia eletrotécnica, engenharia industrial, inglês e sociologia.

Trinta e cinco mulheres já ganharam prêmios Nobel, e mais de quinhentas foram eleitas prefeitas de cidades brasileiras nas últimas eleições. Há mulheres astronautas, mulheres-bomba, mulheres mecânicas, mulheres gordinhas e mulheres que andam o dia todo de galochas por opção profissional. São do sexo feminino as inventoras do pára-brisa, do liquid paper, do filtro de papel, das fraldas descartáveis, da lava-louças e das primeiras lentes de óculos. Também foi uma mulher, lady Mary Montagu, que introduziu no mundo a vacina contra a varíola, e foi a filha de lord Byron a primeira programadora de computadores da história. No caso, Ada Lovelace utilizou seus conhecimentos de matemática avançada para ajudar Charles Babbage, inventor de um artefato analítico que é considerado o primeiro computador. Também uma mulher projetou o primeiro cinto de castidade canino, em 1903, para manter a pureza do pedigree de seus cães.

Não podemos esquecer da sueca que passou 27 dias com uma aranha dentro da orelha, “grande como a unha de um dedão”, e da senhora inglesa que atacou um intruso com seu gnomo de jardim. “Ele ficou estirado no chão e comecei a gritar. Voltei para a cozinha e peguei um rolo de macarrão, caso ele acordasse. Não queria quebrar outro gnomo”, disse a heroína. E, por fim, lembremos da sueca idosa que vivia com onze cisnes em seu apartamento de 25 metros quadrados.