O bar do Firmo

Posted: 4th janeiro 2009 by Vanessa Barbara in Crônicas, Metrópole, O Estado de São Paulo
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Firmo de Faria, 83 anos, dono de um lendário bar no Mandaqui (à Rua Ires Leonor, 181), é um senhor de movimentos lentos e olhar de quem já viu de tudo. Há quase 60 anos, todos os dias, ele está atrás do balcão servindo bebidas, cigarros, pãezinhos, balas e até canetas. O bar é um pouco escuro, mas acolhedor, e existe no bairro desde março de 1950 – até antes do restaurante nordestino O Mocofava, na mesma rua desde 1976. Alguns o tratam de “seu Firmo”, outros só usam “seu Faria” (há polêmicas), mas o fato é que todos o conhecem e passam acenando. Seu Firmo às vezes parece triste, outras vezes se engaja numa conversa inflamada sobre algum acontecimento local. Tem dias que usa boina, tem dias que fica apenas sentado no balcão, cansado de olhar o relógio.

O Bar do Firmo fica em frente ao ponto de ônibus, um poste verde sem toldos e nem bancos para sentar. O proprietário disponibiliza cadeiras de plástico aos que esperam o coletivo e sempre acena para todo mundo, dizendo: “Vais passear, menina?”, mesmo que seja segunda de manhã e esteja chovendo. Há um japonês que toma cerveja ali todos os dias desde o Descobrimento, e um sujeito muito simpático de bochechas grandes. Eles caminham em ziguezague de volta para casa quando o seu Firmo fecha seu estabelecimento, antes de escurecer, e há quem diga que demoram para conseguir enfiar a chave no buraco da fechadura.

As mulheres têm um carinho especial pelo dono do bar, que nunca deixa de cumprimentá-las com um respeitoso: “Oi, linda”, quando uma delas passa por seu campo de visão. Elas se sentem lisonjeadas e jogam o cabelo de forma ousada em resposta ao galanteio. Mas não deviam se empolgar tanto – fontes fidedignas já viram passar, do outro lado da rua, uma senhora de aproximadamente 90 anos que foi recebida com um “Oi, linda”.

Seu Firmo já viu muito agarra-agarra e atropelamento no ponto de ônibus; já viu uma Kombi matar uma senhora e muitas outras coisas tristes. No fim da tarde, ele olha para o céu em busca de sinais meteorológicos, embora more ao lado do bar. Lembra do tempo em que havia cavalos soltos na rua e pouquíssimas casas construídas. Lembra também da época em que vendia muito pãozinho de manhã – agora os pães se amontoam nas estantes, entre garrafas de pinga e baleiros, e nenhum comprador faz fila.

Ultimamente, seu Firmo está sendo ameaçado pela presença de outro bar bem ao lado, construído na garagem de uma casa. O boteco tem uma televisão e uma mesa de sinuca, fecha às 11 da noite e toca forró aos sábados e domingos. Os donos do imóvel são seus próprios compadres que o conhecem há 60 anos. Ele fica chateado, mas se recusa a desistir: “Estou com essa idade, não posso ficar em casa parado”, diz, e torna a abrir o bar todas as manhãs.

Em tempo: esta semana, o Firmo disse que vai esfriar.

Melhores livros de 2008

Posted: 1st janeiro 2009 by Vanessa Barbara in Clipping
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Zero Hora/RS
Janeiro de 2009

Estrangeiros | Nacionais

Botas de Papai Noel em tricô

Posted: 25th dezembro 2008 by Vanessa Barbara in esquinas, Reportagens, Revista piauí
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Dezembro de 2008

por Vanessa Barbara

Uma esquina sonífera

Duas semanas após o Grande Prêmio de Interlagos, é dada a largada: “Vamos começar: são treze pontos na agulha com a cor preta”, e treze senhorinhas passam a tricotar freneticamente. Não se trata de nenhuma competição, mas do curso “Botas de Papai Noel em tricô: como lavar e passar”, ministrado por Maria Julia Rivelli no espaço Viver Casa & Gourmet, na Vila Mariana, em São Paulo.

De acordo com a descrição do site, o recinto é um “lugar capaz de receber públicos variados de forma dinâmica e harmoniosa”. Localizado próximo à estação Paraíso do metrô, o Viver Casa & Gourmet promove cursos e palestras gratuitas sobre saúde, beleza, casamento e prendas domésticas, como o “Noite mágica: harmonize ainda mais a noite de Natal com ajuda da numerologia”. Outros workshops estão voltados à gastronomia, entre eles, “Maravilhas com alcachofras”, “Bombas e carolinas” e “Finger food: gostosuras de verão”. A grande maioria do público é composta de donas-de-casa de meia-idade com tempo livre à tarde. Numa terça-feira de novembro, elas compareceram ao local para tricotar as botinhas que, prontas, seriam penduradas junto à lareira ou à arvore de Natal.

As alunas, quase todas de cabelo curto e óculos bifocais, formavam uma confraria que falava baixinho. Elas enrolaram as linhas em torno do pescoço e começaram a contar laçadas e meias, seguindo a receita da professora para confeccionar pequenas botas natalinas. A mais rápida era Acácia Mayeji, descendente de japoneses, que terminou sua botinha antes do cronômetro marcar uma hora de aula. O sapato, que serve para armazenar balinhas, foi feito de linha sintética preta de algodão e acrílico, com uma bainha de linha vermelha esfiapada, “bem natalina”, segundo a professora.

No total, a sessão de tricô se arrastou por uma hora e meia. A terminologia parecia complexa: “O primeiro é em meia, daí tem um aumento e mais cinco pontos em meia”, orientava a professora. Após desistirem de acompanhar as mais velozes, as novatas passaram a conversar sobre lavagem de roupas e decoração de mesas para o Natal, manifestando o interesse de participar do curso de arranjos florais. “Se quiserem terminar e fazer o cano mais curto, aí vai da criatividade de vocês”, avisou a professora, já na reta final. “Quem tem ponto mais largo pode escolher outra agulha de número menor, pois essa é a seis”, sugeriu.

Segundo a pacienciosa docente, o tricô só requer dois tipos de pontos: o meia e o tricô. Com a dupla, é possível fazer todas as variações de desenhos, com aumentos, diminuições e laçadas. Pairando no Olimpo dos velozes, Acácia Mayeji não precisava dessas lições, já que é exímia no tricô “desde menina”. Ela manejava a agulha com tanta habilidade que quase não dava para acompanhar.

***

Depois de hora e meia de tricô intenso, três alunas terminaram seus sapatinhos, explicando que eles seriam posteriormente costurados nas laterais, para virarem botinhas tridimensionais, e não apenas retalhos disformes de tricô. De lavar e passar, o curso não teve nada. Animadas, algumas senhoras manifestaram autêntico interesse pela próxima aula, que versaria sobre pães. “Se for com o Caputo, será divina”, afirmaram, a respeito do homem que, aparentemente, conhece tudo sobre broas. Certas senhorinhas suspiraram. Outras continuaram fazendo tricô como se não houvesse amanhã.

O alfabeto das ruas

Posted: 21st dezembro 2008 by Vanessa Barbara in Crônicas, Metrópole, O Estado de São Paulo
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Na Rua Almofada, em Perus, foi encontrado um laboratório de refino de cocaína em 2007. Na Rua Alpercata, no Jardim Robru, há uma loja de conserto de máquinas de costura. Na Rua das Antas, em Sapopemba, há uma moça chamada Marisa que quer ser secretária. Na Rua Antípodas, no Jardim Boulougne, há uma empresa que fornece serviço de brigadistas e cursos de bombeiros. Há cultos todos os domingos às 19 horas na Igreja do Arrebatamento da Rua Antíoco, no Imirim. Há uma casa de 140 metros quadrados para vender na Avenida Apólogos Orientais, no Jardim Marciano, por R$ 60 mil. O imóvel tem dois quartos, sala, cozinha, banheiro, lavanderia, varanda e garagem coberta para dois automóveis. Na Rua Apreciando a Cidade, em Cidade Tiradentes, há uma mercearia de nome “Serve Sempre”. A Rua Aves ao Vento, no Capão Redondo, se inspirou no filme de Yasujiro Ozu de 1948, Kaze no Naka no Mendori. Há três ruas Avestruz na Grande São Paulo: uma em Osasco, outra em Vila Rica (Brasilândia) e a terceira no Recanto do Paraíso (Perus). Reparem: há uma Rua Avestruz em Perus.

É dos vereadores e prefeitos a competência de dar nomes a vias e logradouros públicos. Os moradores só podem solicitar as alterações quando se tratar de denominações homônimas ou, não sendo homônimas, similares na ortografia, fonética ou fator de outra natureza, gerando ambigüidade de identificação. Também podem pedir a mudança de denominações consideradas ridículas, desde que dois terços dos domiciliados concordem.

Nos últimos anos, cerca de 35% dos projetos na Câmara foram destinados a alterar nomes de vias da cidade. Assim é que se mudou o nome de locais consagrados, como a ponte Cidade Jardim (atual Engenheiro Roberto Rossi Zuccolo), o Túnel 9 de Julho (que já se chamou Daher Elias Cutait), a Avenida Águas Espraiadas (atual Jornalista Roberto Marinho) e o Viaduto Aricanduva (atual Engenheiro Alberto Badra). De 1927 a 1930, a Avenida Paulista levou o nome de Avenida Carlos de Campos, ex-governador do Estado, mas o povo não aprovou a medida e a denominação voltou ao normal.

Há nomes de ruas para todos os gostos, do começo ao fim do alfabeto – existe um morador de sobrenome Maluf na Rua Zabelê, no Parque Paulistano, e uma loja de decorações chamada Rique na Rua Zavuvus, na Vila Missionária (Cidade Ademar). Na Rua Zike Tuma, no Jardim Ubirajara, há um apartamento à venda “sem problema de gente passando na janela”. Na Grande São Paulo, há duas Ruas Zíngaras e uma Rua Zircão, onde se pode visitar uma empresa desentupidora chamada A Poderosa. Ainda não se sabe o motivo do nome da Rua Zo Wada, em Vila Friburgo. E, por último: há um sujeito de sobrenome Zizza que mora na Rua Zuzarte Lopes, na Vila Nívi, via que leva o nome de um sertanista que morreu devendo trinta patacas pro primo Bartolomeu em 1635.

Um outro olhar de mundo

Posted: 16th dezembro 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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Observatório da Imprensa
16 de dezembro de 2008 – ed. 516

Por Rodolfo Viana

Nenhuma categoria da lista da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) me chama mais a atenção do que a de literatura. Todo ano, aguardo com devoção especial os resultados de melhor obra de biografia e melhor reportagem. Justifica essa minha espera – ou seria vigília? – o momento raro: quando a relação dos melhores do ano é divulgada na imprensa, é ali, naquele instante, que o ofício mundano do jornalismo se mescla com o quê mais etéreo das artes. Sim, jornalismo pode ser arte. Pergunte a Hersey.

“A noite estava quente e o calor parecia ainda mais intenso por causa dos incêndios, porém uma das meninas que os religiosos resgataram se queixou de frio. O padre Kleinsorge a cobriu com sua túnica. Com várias partes do corpo em carne-viva, conseqüência de enormes queimaduras produzidas pela radiação térmica da explosão – a menina ficara horas dentro do rio, com sua irmã mais velha e a água salgada do Kyo seguramente lhe causara uma dor excruciante. Ela se pôs a tremer e novamente se queixou de frio. O padre Kleinsorge pediu um cobertor emprestado e a agasalhou, porém ela tiritava cada vez mais. `Estou com muito frio´, disse. De repente parou de tremer e morreu.”

Gênero continua atraindo atenção

Hiroshima, de John Hersey, tomou toda a edição de 31 de agosto de 1946 da New Yorker, fato inédito até hoje. Não por acaso, o texto da devastação da bomba atômica que culminou no fim da Segunda Guerra Mundial foi eleito o mais importante relato do século 20 pela Universidade Columbia e ficou em primeiro lugar na lista das cem maiores reportagens da Universidade de Nova York. Um dos motivos é a forma como Hersey conduz sua escrita que, à primeira vista, pode soar a literatura, mas nada tem de ficção; é jornalismo.

Da mesma fonte de Hersey, beberam alguns dos nossos mais célebres jornalistas, tais como José Silveira, Rubem Braga, Antonio Callado e José Hamilton Ribeiro. À parte produções pontuais, a revista Realidade e o Jornal da Tarde são obeliscos do gênero. Durante a década de 1960, suas publicações traziam reportagens de fôlego numa escrita fluida, o que ajudou a moldar a cara do Brasil na iminência dos anos de chumbo. A prática de jornalismo literário na redação do JT feneceu na década de 1990, enquanto a Realidade jaz na memória nostálgica de quem tem mais de cinqüenta anos e que lamenta não terem surgidos, nos últimos anos, textos similares aos da extinta publicação da Editora Abril.

Seis décadas depois da publicação de Hiroshima e quatro após o fim da Realidade, o gênero literário continua atraindo as atenções e fazendo adeptos na imprensa. Seja para tratar de um mendigo que nunca pediu coisa alguma ou um terminal rodoviário em São Paulo, profissionais fazem uso da literatura de não-ficção para contar belas histórias reais, e transformam uma simples notícia em arte.

“Textos duram décadas”

De fato, o jornalismo literário feito no Brasil perdura, não morreu com a Realidade e o JT. Quando a RBS adquiriu o Zero Hora na década de 1970, havia forte concorrência do centenário Correio do Povo. Para encarar o mercado, o diário passou por um processo de consolidação e de melhoria editorial e gráfica e o jornalismo narrativo surgiu como diferencial. “Foi então que se criou a tradição de grandes reportagens na redação”, explica Marcelo Rech, ex-editor do jornal e atual diretor-geral de produto da RBS.

O Zero Hora reserva até 1/6 de seu espaço aos textos jornalísticos literários. Algumas de suas pautas levam um ano para ficarem prontas, o que é incomum nas publicações diárias. Apesar de árduo, o trabalho é necessário devido às inovações. Para Marcelo, num mundo em que há rádio e web, o jornal que leva ao leitor notícias simples está fadado a sucumbir.

Neste século, a primeira empreitada comercial do jornalismo literário veio em formato de livro-reportagem. A Companhia das Letras endossou a idéia do jornalista Matinas Suzuki Jr. e passou a lançar periodicamente clássicos do gênero. O primeiro deles foi Hiroshima, em 2001. Até o momento, são 17 obras, das quais três são de escritores brasileiros – Joel Silveira, com A feijoada que derrubou o governo e A milésima segunda noite da avenida Paulista, e Zuenir Ventura, com Chico Mendes: crime e castigo. Até 2009, a intenção da Companhia das Letras e de Matinas é publicar mais um brasileiro e chegar ao vigésimo título.

“Alguns dos textos têm mais de 60 anos. Foram publicados para serem lidos no dia, na semana ou no mês, e já duram mais de seis décadas”, ressalta Matinas, que não acredita que o gênero seja uma mera “modinha”.

“Ver de outra forma”

A vocação pela narrativa jornalística não requer o rótulo literário. Foi o que aconteceu na década de 1990, quando houve reformas curriculares nas universidades. “A inserção da possibilidade de o aluno de Comunicação fazer um livro-reportagem como trabalho de conclusão de curso expandiu o gênero. Não se falava em JL na época, mas o livro-reportagem ficou associado ao jornalismo literário. Isso gerou trabalhos rasos, mas o excesso gera coisas legais”, comenta Sérgio Vilas Boas, jornalista e coordenador da Academia Brasileira de Jornalismo Literário.

Um dos exemplos mais atuais do que a reestruturação acadêmica proporcionou saiu das mãos de Vanessa Barbara, que se utilizou da arte literária para escrever O livro amarelo do terminal, um retrato preciso e irreverente do Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo. O que era um trabalho de conclusão de curso tornou-se título publicado pela CosacNaify em 2008 e reverenciado pela APCA no mesmo ano. Desde a época de faculdade, a jovem jornalista busca “ver as coisas de outras formas”. Influenciada por Gay Talese, Joseph Mitchell, Truman Capote e Lilian Ross, a repórter da revista piauí e colunista do Estado de S. Paulo confessa que não seria capaz de “ligar para uma assessoria de imprensa pedindo dados sobre a movimentação de veículos nas estradas”.

Auto-indulgência dos editores

O recente interesse do gênero literário na imprensa não se deve apenas à superficialidade das notícias e reportagens, mas também ao advento da recepção em massa de material jornalístico na rede mundial de computadores. Claudio Tognolli aponta a tendência da dispersão de informações sem estrutura, por repetição, tal qual um eco. “As redações esperam colaborações de fotos e textos emanados de leitores que, por sua vez, programam as páginas da internet, via RSS, e editam de casa o que querem ler. Essa linguagem do jornalismo é resumida, ‘ecolálica’.”

A propagação de informações em larga escala pela rede mundial, no entanto, pode ser um motivo para alavancar o jornalismo narrativo na mídia impressa, uma vez que este gênero seria o diferencial do conteúdo encontrado na internet. “O jornalismo literário, o gonzo e outras variantes seriam uma grande oferta para quem está cansado de abrir os jornais e ver que não tem nada diferente do que se leu um dia antes”, diz o cronista Xico Sá, que percebe a necessidade em se contarem boas histórias, “independentemente do rótulo”.

Xico, porém, relaciona a cisma que persiste nos grandes veículos de comunicação em não aceitar uma narrativa que fuja aos padrões da empresa. “É um preconceito antigo. Lembro quando ouvia nas redações aquela sentença, sempre seguida de uma risada, ‘Lá vem o poeta’. A maioria dos cargos de comando dos jornais está nas mãos de burocráticos que insistem na política da chatice mesmo.” Tognolli concorda que “infelizmente, o jornalismo literário no Brasil só ocorre em acessos de auto-indulgência por parte dos editores”.

Rótulo entra como “charminho”

Neste cenário, é comum cair no erro de crer que o jornalismo literário é melhor do que o convencional. Ledo engano. Matinas aponta que ambos podem coexistir em harmonia: “O noticiário do dia-a-dia precisa de uma linguagem simples, direta, com lead e pirâmide invertida; o jornalismo literário tem outras necessidades.” Mesmo nas redações hard news, “não é impossível ser um pouco mais criativo, dar todas as informações essenciais e, ao mesmo tempo, ter um texto mais bem escrito”.

Eliane Brum, que já passou pela redação do Zero Hora e desde 2000 é repórter especial da revista Época, ganhou o Prêmio Jabuti 2007 na categoria livro-reportagem com A vida que ninguém vê, uma coletânea de escritos produzidos para a edição de sábado do periódico gaúcho. “Sempre busco fazer um texto que o leitor possa ler com o prazer de uma ficção. Isso só é possível com uma apuração tão completa, tão detalhada, que permita ao leitor ser transportado para a realidade que nós, repórteres, tivemos o privilégio de testemunhar. Então, ele pode fazer suas próprias escolhas, ter suas próprias opiniões. Algumas pessoas identificam essas características com o jornalismo literário; para mim, isso é bom jornalismo.”

A busca por gêneros tem a pretensão de elevar o valor do texto, como se o termo “literário” atribuísse ao escrito a perenidade que a ficção detém. “A verdade é que fica forçada a tentativa de muita gente de transformar bons textos jornalísticos em obras-primas literárias”, aponta o crítico e jornalista Adriano Schwartz. Lançar mão de beletrismos em material noticioso é reservar uma suposta nobreza a uma atividade prática e concreta. “A grandeza do jornalismo literário está em ele ser `grande jornalisticamente´. Eu não acredito muito nessa mistura: o rótulo parece entrar como um `charminho´, um símbolo de status.”

Público não quer ser ignorado

Sua opinião baseia-se nas definições essenciais de cada campo: a literatura tem como elemento primordial o trabalho com a linguagem, enquanto sua relação com os fatos é ocasional. “O jornalismo, por outro lado, busca sempre uma representação de alguma fatia da realidade. Nessa construção, ele pode, eventualmente, atingir um nível de trabalho com a linguagem tal que termina por passar uma impressão de texto literário.”

Mas afinal, pode-se considerar uma determinada reportagem literatura? Marçal Aquino, escritor e jornalista, acredita que sim, “na medida em que existe a preocupação declarada de produzir algo além da mera informação, algo com estilo”. Ele lembra a experiência do Jornal da Tarde que, “ao menos até a década de 90, mostrou que é possível dar as notícias com estilo, e que é legítimo um texto jornalístico aspirar à literatura”.

Estilo é bem-vindo em peças jornalísticas. Antes de ser literário, porém, é um produto informativo e deve manter este seu caráter. Isso significa que “a pior coisa é pretender ser muito elevado, é querer escrever bonito e sacrificar a reportagem em benefício de um texto cheio de mesóclises”. Vanessa Barbara aposta na parcimônia e ressalta a necessidade de “saber equilibrar e apresentar simplesmente os fatos para escrever um texto bom, ao contrário do que se pensa”.

Um bom texto. Nossa imprensa está repleta de números apenas, e carece de boas histórias. Podem pretender uma elevação artística. “Jornais e revistas desprezaram por muito tempo os leitores que gostam de um bom texto simplesmente pelo prazer de lê-los e eu acho que este público não quer mais ser ignorado”, percebe Matinas. Aos poucos, a mídia também vai percebendo: jornalismo pode ser arte.

O jardineiro fiel

Posted: 7th dezembro 2008 by Vanessa Barbara in Crônicas, Metrópole, O Estado de São Paulo
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Há oito anos, o mineiro Pedro Marcelino Filho, de 73 anos, é jardineiro-chefe de quatro áreas públicas na Praça Joaquim Lopes, no Lauzane, zona norte de São Paulo. Ele não recebe nada da Prefeitura para cultivar lírios, íris, magnólias, primaveras e jacarandás num terreno em declive que antes vivia cheio de entulho.

É aposentado há 25 anos (“quase tenho o direito de me aposentar de novo”, diz) e vem nas horas vagas cuidar do jardim, que tem robustas cercas de madeira e demanda muito trabalho braçal. Seu Pedro, que veste uma camisa listrada parcialmente desabotoada, além de um sapato modesto, trabalhava com terraplenagem e chegou a passar um ano e meio na Subprefeitura da Sé. Preferiu sair de lá porque as coisas não funcionavam, e se engajou em trabalhos em campos de aviação no Paraguai e barragens no Pará. Hoje faz carretos em seu caminhão. “Ainda sou um aprendiz”, declara, enquanto corta umas pragas amarelas dos arbustos. “Isso aqui é chamado de macarrãozinho, os pássaros trazem e acaba com as plantas.”

Pedro adquire as mudas num canteiro de jardinagem da Prefeitura que fica na Rua Doutor Zuquim, em Santana. Mostra um jequitibá, que veio dentro de um carro numa caçamba de 20 litros. “Quando cresce, precisa de dez pessoas pra dar um abraço.” Na vida desse senhor, natural de Pitangui, Minas Gerais, cuidar dos jardins é um divertimento. Mas ele observa que, se tivesse apoio, as coisas seriam muito mais fáceis. “Agora, por exemplo, é hora do adubo, aí se eu tivesse um pouco, armazenava e ia aplicando.”

Na Praça Ultramarino, bem ao lado do território de Pedro, o pessoal do ponto de táxi e das Kombis de carreto, como o Luis, o Marcos e o Toninho, expressa o mesmo pensamento. “Quem manda aqui é nóis”, diz Antonio da Silva Braga, freqüentador dos campeonatos de dominó da praça. “Da Prefeitura aqui não tem nada, a gente é que cuida de tudo.” De vez em quando, convocam reforços: “Na época da seca, quem doou água foi o Material de Construção Miúcha, além da dona da lojinha de 1,99, o cidadão que mora em frente da praça e o seu Dito, vizinho de um dos jardins.” Ele conta: “Se a gente não cuidar do cantinho onde mora…” Mas não termina a frase.

Enquanto Pedro continua podando os pingos-de-ouro, Antonio aproveita para mostrar uma área construída por eles numa esquina da praça: o “Cantinho do Truco”, onde há uma mesa, uma vassoura e um pôster do filme Ultravioleta, além da inscrição: “O que vale é a amizade. Sejam todos bem-vindos”, pintada na parede.

**

Em tempo: a misteriosa Praça Tito, mencionada na primeira coluna, foi construída em homenagem a Trípoli Amelio Bernardini, avô da leitora Cristina Bernardini. Cristina aproveita para avisar que está se mudando para o Mandaqui, numa casa ao lado da do Cebola, e pede encarecidamente que não estraguem a mobília.

Resenha no site da ABJL

Posted: 5th dezembro 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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Site da ABJL – Academia Brasileira de Jornalismo Literário
05 de dezembro de 2008

“O Livro Amarelo do Terminal”,
de Vanessa Bárbara.
CosacNaify, 253 págs., 2008

por Edvaldo Pereira Lima

Este “livro-reportagem em crise de identidade”, como define com muito bom humor a própria autora, marca a estréia, no formato livro, de um talento genuinamente promissor em Jornalismo Literário. Produzido inicialmente como um TCC – Trabalho de Conclusão de Curso – de graduação em jornalismo, na Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, em São Paulo, chega ao público numa combinação de criatividade ousada entre o texto da escritora e o projeto gráfico da editora, assinado por Elaine Ramos e Maria Carolina Sampaio.

A CosacNaify, editora especializada na produção de livros de arte, decide abrir uma linha de narrativas da vida real, estreando com duas obras, exatamente este livro aqui comentado e “O Santo Sujo: A Vida de Jaime Ovalle”, de Humberto Werneck, já contemplado nesta seção. No caso do livro de Vanessa, inova no design com uma capa que é uma colagem de bilhetes de passagem, formulários e outros documentos, prossegue com páginas de fundo amarelo e letras negras ou de fundo branco com letras azuis, navega por outros artifícios, visando sempre a criação de um estilo casado com o texto, ambos buscando refletir o modo particularmente singular com que a autora desenha o seu retrato do maior terminal rodoviário do Brasil, o do Tietê, na capital paulista.

A voz autoral de Vanessa reflete sua juventude – portanto seu olhar sem vício -, assim como seu modo desencanado de enfrentar os obstáculos quando decide mergulhar no mundo complexo do terminal, onde realidades transparentes convivem com verdades nem tanto. Ao procurar obter clareza sobre os contratos de concessão, delicia o leitor com a reprodução de uma série de telefonemas em que vai sendo empurrada de um funcionário a outro, de um setor a outro mais, numa espécie de epopéia pelo mundo da burocracia escamoteadora da divulgação pública obrigatória definida por lei.

A matéria não é investigativa no sentido clássico do termo. É Jornalismo Literário jovem, digamos assim, com algumas marcas fundamentais da modalidade – imersão, como já notamos, humanização, estilo próprio, criatividade – e uma alquimia de técnicas avançadas – como o terceiro ponto de vista autobiográfico – com um jeito maroto de contar histórias. Como neste trecho:

“Alguém deve ter caluniado Vanessa B., pois um dia ela conversava com as funcionárias do balcão de informações quando apareceu um supervisor. O moço, com walkie-talkie na mão e uniforme da Socicam, perguntou quem era V., o que fazia ali e se tinha autorização de alguma instância importante para existir justamente naquele local. Antecipadamente grata por essa especial deferência, V. rememorou as poucas pessoas célebres que conhecia, mas acabou desistindo. Ela tinha obtido autorização de alguém de bigodes, que, certo dia, assinou um ofício protocolado da faculdade e carimbou-o com o selo papal, mas não podia provar nada, não senhor”.

É desejável que, pelo bem da renovação do JL no Brasil e pela entrada de novas gerações neste universo, a Vanessa se entusiasme com o resultado de sua incursão. Que traga a público, no futuro, outras escavações arqueológicas bem-humoradas em tantos outros terminais por aí que merecem ser retratados com vigor e firmeza, mas sem a neura negativista cética de tanta gente que perdeu o sabor de viver.

LITERATURA

O começo do livro é engraçado, cheio de brincadeiras do tipo perco-o-leitor-mas-não-perco-a-piada

Le Monde Diplomatique
23 de novembro de 2008

por Fábio Fernandes

Confesso: o que me atraiu primeiro em O Livro Amarelo do Terminal (Editora Cosac Naify), de Vanessa Bárbara, foi a capa. Fascinado por livros alterados e capas com ênfase em tipografia, foi impossível para mim não parar diante do livro de capa amarelo-canário recoberta por figuras e fac-símiles de passagens antigas e recortes de jornal. Ao folhear o livro, mais uma surpresa agradável: páginas amarelas também, alternando texto original com mais recortes de revistas e outras brincadeiras tipográficas.

Ora, bibliófilo que se preza julga o livro pela capa sim, claro (o velho ditado é, parafraseando Mark Twain, um pouco exagerado), mas não deixa de prestar atenção ao conteúdo. E foi o que fiz. Não me arrependi: O Livro Amarelo do Terminal é uma lição. Não só de jornalismo (o livro é a monografia de conclusão de curso de Jornalismo da autora), mas também de vida. Vanessa Bárbara passou dias (ou semanas, ou meses, isso não fica claro e também não importa muito), em 2003, no Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo, não só para conhecer melhor o funcionamento da rodoviária, como também para registrar o dia-a-dia das pessoas que passam por ali e das que trabalham no terminal.

Essa atitude meio flâneur, meio psicóloga, meio jornalista (três meios? A matemática nessas horas vira transfinita, ou vira multidões, como dizia Walt Whitman) é interessantíssima. Vanessa Bárbara dá uma de Georges Perec, o genial escritor francês do grupo OuLiPo, que gostava de fazer experimentos desse tipo: consta que um de seus projetos, nunca executado, consistia em ficar sentado num banco de praça, em Paris, por um período não inferior a uma semana, para ver as pessoas que passavam e, munido de um gravador, registrar os fragmentos de diálogos que entrassem no raio de ação do aparelho. Perec, que levava as regras matemático-Dada que criava muito a sério, acabou não fazendo isso, mas Vanessa não se levou tanto a sério (no bom sentido), e foi devagar com o andor. E nos mostrou os santos de barro (e no entanto tão verdadeiros) que habitam o terminal.

Todos nós temos histórias para contar

O começo do livro é engraçado, cheio de brincadeiras do tipo perco-o-leitor-mas-não-perco-a-piada. Pode ter perdido um leitor que se leve mais a sério, mas quem teve o desprendimento de continuar (e creio que a maioria esmagadora dos leitores fizeram isso, porque o livro é bem gostoso de ler, quando você vê já está no meio do livro) encontrou, como nas tiras do Calvin, por exemplo, momentos inesperadamente comoventes. Como a descrição alucinada e fictícia que ela faz de “Álvaro”, o locutor do terminal. Ou a breve história da Dona Rosa, uma velhinha que acredita que a Marinha Britânica vai aparecer lá na rodoviária para buscá-la (para quê, jamais se soube). Ou o otimismo do jovem Kenedy, dono de um armarinho no interior de Minas e que uma vez por mês vai a São Paulo fazer compras na 25 de Março.

O Livro Amarelo do Terminal nos faz rir, chorar e às vezes até ficar indignados (como, por exemplo, nas partes em que descreve a convoluta e kafkiana burocracia do terminal, ou na única parte do livro que possui páginas de cor branca, que reproduz matérias de jornal sobre todo o processo de construção e de reforma da rodoviária). As histórias de Rosângela, de Raimunda, de Augusta e de Marcos, entre tantos outros, dariam cada uma um livro, e dos bons. Porque todos nós temos histórias para contar, como já disse Dario Fo. Todos nós.

Banco Imobiliário radical

Posted: 23rd novembro 2008 by Vanessa Barbara in Crônicas, Metrópole, O Estado de São Paulo
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Número de participantes: cinco a dez. Tabuleiro: Banco Imobiliário. Objetivo: Conquistar Itaim, Pinheiros, Berrini e mais três territórios à escolha. Categoria: Gestão de Negócios Imobiliários. Local: Cidade de São Paulo.

Como jogar: Cada empreiteiro corrupto começa com 500 dinheiros, quatro notas de 100 e um cheque nominal para um deputado. Ao cair numa casa do tabuleiro, deve ir até o local, comprá-lo e erguer um guindaste. O referido empreiteiro poderá instalar seguranças fortemente armados para espantar os outros jogadores, durante os cinco anos que vai demorar para concluir a obra. Em cada terreno, um mapa mostrará o nostálgico histórico de escândalos da região, como “Primo de Maluf cobra R$ 6 milhões do município”, “MP denuncia empreiteiros envolvidos no escândalo da educação” e “A lista de Zuleido”.

A partida: O jogador lança os dados, mas pode contratar um contador para abafar o resultado. Além de logradouros como Santa Cecília, Perdizes e Jova Rural, é possível comprar a Companhia do Metrô – nesse caso, o sujeito entra numa licitação fraudulenta e se compromete a entregar três estações nos próximos 20 anos. Pode até mesmo alegar que serão estações da Linha Ocre, que ligam o nada a uma plataforma deserta. Se anunciar a integração “Jardim São Paulo-Mandaqui”, ganha a admiração da banca.

Tirando sete, o executivo pode arrematar a Avenida 9 de Julho e demolir instantaneamente os corredores de ônibus. Com dez no dado, tem direito a escolher um cartão de Sorte/Revés. Algumas das opções são: “Você fraudou a Previdência, receba $45 milhões”, “Você errou no botox, perca $10 em direitos de imagem”, “Você fotografou uma imagem santa no azulejo da cozinha, receba $5” ou “A polícia matou os seus rivais no tráfico, receba $100”.

Lembrem-se: mesmo os jogadores mais poderosos podem acabar na prisão, mas só ficam se não tiverem advogados. De lá, saem direto para uma Concessionária de Importados Alemães ($500) e podem fazer uma bela terraplenagem na região do Itaim por apenas 300 dinheiros. Outras opções de Sorte/Revés são: “Você encontrou um esquilo morto no seu refrigerante. Receba $600 em indenizações”, “Você foi cassado por decoro parlamentar, mas continua na Comissão de Ética do Senado. Receba $400”.

Em vez de irem à falência, os jogadores vão à Europa. Término do jogo: ganha aquele que tiver mais obras pela metade e falir os transportes públicos. Como alternativa, ganha aquele que roubar a banca sem chamar a atenção da imprensa.

Te espero no pato

Posted: 9th novembro 2008 by Vanessa Barbara in Crônicas, Metrópole, O Estado de São Paulo
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“Um ponto amarelo surge no horizonte. As pessoas ao redor param, observam e se aproximam do gigante pato de borracha amarelo. Os espectadores são cumprimentados pelo pato, que lentamente move sua cabeça. O Pato de Borracha não conhece fronteiras, não discrimina ninguém e não tem conotação política. Este gigante amigável e flutuante tem propriedades curativo-sociais: pode amenizar tensões por onde passa. O Pato de Borracha é leve, amigo e apropriado para todas as idades e lugares do planeta.”

É essa a proposta de uma instalação artística que flutua no lago do SESC Interlagos só até hoje, 9 de novembro. Trata-se de um gigantesco pato inflável de nylon e borracha, com 12 metros de altura, 12 de largura e 15 de comprimento, criado pelo artista holandês Florentijn Hofman para a Mostra SESC de Artes.

Ele é exatamente o que um pato de borracha deve ser: amarelo, contente e sincero, só que tem o tamanho de um pequeno edifício. Na entrada do SESC, quando se pergunta onde fica o lago, a resposta da funcionária é clara: “Para ir ao lago você desce a ladeira por aqui, vai descendo, descendo até ver um pato”. A instalação conquistou a simpatia dos usuários do clube, que gostariam de vê-lo para sempre naquelas águas. “Está muito bonitinho esse pato”, afirma uma senhora. “Pensei que fosse um pinto”, diz outra. Nos dias de sol, a criatura de borracha fica ainda mais alegre e o povo aproveita para tirar fotos. “Tira uma de mim do lado do pato”, pede Daiane Cibele da Silva, de 21 anos, que foi visitar a obra com as amigas. “Acho até que tem que virar um ponto de encontro, tipo: ‘estou te esperando lá no pato’.”

A ave de borracha já esteve no estuário do rio Loire, na França, em dimensões ainda maiores. O mesmo artista também criou um coelho doce de 6 metros de altura, um piano gigante e um corvo em Rotterdam. Pintou de azul todo um quarteirão de edifícios e uma rua de amarelo. Confeccionou um rato almiscarado de palha, madeira e metal, que serve de mascote de um vilarejo e fica deitado de barriga para cima com seus 30 metros de altura. E fez um porco inflável entalar no corredor do menor museu do mundo, o Museum van Nagsael, em Rotterdam.

Com essa proposta humanitária, é a segunda vez que um pato de borracha faz história na geopolítica mundial. Em 1992, um navio chinês a caminho de Seattle tombou, lançando ao mar 30 mil patinhos de borracha, além de sapinhos e tartarugas infláveis. A partir de então, a IMO (International Maritime Organization) rastreia a carga perdida com o objetivo de estudar as correntes marítimas. A odisséia dos patinhos começou no Ártico, passou pelo mar de Bering, Groenlândia e Islândia, com muitas baixas registradas na frota. Depois de doze anos, os patos aportaram na costa norte-americana, embora desbotados e livres das embalagens originais que os juntavam em grupos de quatro.