Gente de esquerda

Posted: 15th fevereiro 2009 by Vanessa Barbara in Crônicas, Metrópole, O Estado de São Paulo
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Eis que Barack Obama é um presidente canhoto. É o oitavo líder do mundo livre a escrever com a mão esquerda, e, além disso, gosta de chá gelado de amora – o que não vem ao caso. O fato é que a vitória de Obama traz à tona uma série de questões pertinentes sobre a categoria. Por exemplo: uma das conotações de canhoto é “sinistro”, que em latim significa tanto pernicioso quanto agourento. E “canhoto” é sinônimo de demônio. Nos tempos da Inquisição, eles eram considerados mensageiros da morte, praticantes de bruxarias e enviados do Diabo. Está na Bíblia: “A mão direita de Javé faz proezas! A mão direita de Javé é excelsa!”, e assim o termo “direito” se relaciona ao correto, ao justo e ao bom, e o “destro” à destreza. Para piorar, há quem acredite que Alá tem duas mãos direitas.

Os canhotos que se virem. Aproximadamente 90% da população é destra, os demais abrem as latas com dificuldade, mancham os dedos de tinta de caneta e se entortam inteiros para usar tesouras. As carteiras escolares em geral têm apoio de um lado só, obrigando o canhoto a se encurvar para escrever. E mais: eles não têm vez em esportes como o polo, pois são proibidos de usar a mão mais habilidosa. Réguas, fitas métricas, agendas telefônicas, teclados, todos seguem a ordem tradicional da esquerda para a direita. Só recentemente foram lançados no mercado relógios que correm no sentido anti-horário, para quem vê o mundo no esquema invertido.

Mas há sinais de resistência. Em 13 de agosto do ano passado, Dia Mundial do Canhoto, o senador Marco Maciel fez um emocionado discurso pró-esquerda, reivindicando carteiras escolares diferenciadas. “Como canhoto, observo que somos uma minoria esquecida”, disse ele, aos chefes do Poder Executivo. “A Constituição de 1988, sr. presidente, foi altamente inovadora, em especial no que diz respeito às minorias: adolescentes, idosos, índios, igualdade étnica etc., sem contar a ampla cobertura na área de Previdência Social, mas nada dispõe sobre os canhotos. Enfim, os canhotos também são filhos de Deus.”

Há inclusive provas de sua superioridade: dos cinco criadores do Macintosh, quatro pertenciam à confraria, assim como metade dos Beatles (Paul e Ringo) e dois dos três astronautas da Apolo 11 (Neil Armstrong e Buzz Aldrin). Aliás, o primeiro passo do homem na Lua foi com o pé esquerdo. Reza a lenda que os ursos polares são todos canhotos e que os papagaios usam a pata esquerda com notável habilidade. Além disso, os canhotos enxergam melhor debaixo d’água e pensam mais rápido em tarefas que exigem intensa troca de informação entre os dois lados do cérebro.

Por essas e outras, já estava na hora de o mundo mudar de mão.

A nossa rua

Posted: 1st fevereiro 2009 by Vanessa Barbara in Crônicas, Metrópole, O Estado de São Paulo
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No Mandaqui, a gente comia tatu-bola, tomava banho de chuva e tinha medo da Ana Paula, que batia nas meninas só porque elas eram mais altas. A gente vestia todas as roupas do armário para brincar de Elefantinho Colorido e dava voltas no quarteirão de meias para comemorar uma vitória no futebol. A gente esnobava as crianças mais novas e falava mal da Cássia, que nunca fez nada de mal pra ninguém, desculpa aí, Cássia, você não é orelhuda — foi mal. A gente brigava feio a cada quinze dias, arrumava novos amigos na rua de baixo e jogava ovos no quintal dos outros, por represália.

Na rua 2, a gente estendia uma rede de vôlei no portão dos Pessoa e da Mariângela, e ficava jogando até escurecer ou a mãe de alguém chamar para tomar Nescau, causando constrangimento na vítima e duas semanas ininterruptas de troça. Quando passava carro, a gente saía correndo com uma vassoura para erguer a rede bem alto, senão a antena do veículo enroscava e todo mundo começava a gritar como se o universo fosse acabar ali mesmo, num vórtice laranja de cacos de vidro, bambolês e pitangas. Quando descia caminhão na rua, o Gustavo se arremessava no portão para desamarrar a rede, enquanto os outros se estendiam no asfalto para impedir a passagem do bólido automobilístico, mártires do vôlei mambembe numa rua pouco movimentada, em descida, que é para dificultar ainda mais o esporte tupiniquim.

Nos dias de frio, ficávamos sentados na calçada enrolados num cobertor, discutindo sobre coisas muito importantes. A gente roubava no truco, no taco e furtava luzinhas de Natal dos nossos desafetos. A gente idolatrava o Menelau, um cão que viveu cem anos e que não latia nunca. A gente morria de medo da Selma: quando a bola caía no telhado do 136, o time se evaporava em dois segundos, mergulhava atrás dos arbustos, descia correndo o escadão, corria até Parelheiros e pensava que aquele era o momento mais perigoso de toda a nossa existência — a Selma saía no portão com a bola na mão, gritando, eu sei que vocês estão aí, enquanto a gente encomendava nossa alma ao Criador e rezava baixinho. A Selma era brava.

Nas férias de julho, a gente brincava de escritório: o Bernardo era o chefe e a Paula era uma das secretárias. Furtávamos uma dezena de aparelhos velhos das nossas casas ou de antiquários de quinta categoria, tipo telefones quebrados, grampeadores industriais, fichários, cadeiras de rodinhas e, um dia, chegou um computador 386 no qual a gente fazia fichas cadastrais dos funcionários usando o Bloco de Notas. Às vezes a gente derrubava o chefe e promovia todo mundo, ou rolava alguma briga com o pessoal do sindicato e uma turma de dissidentes abria concorrência na casa do lado.

Hoje o meu irmão tem uma mesa só dele no Banco do Brasil, sai de casa cedo pra brincar de escritório e não chama ninguém.

Piauí n. 28 [só no site]
Janeiro de 2009

por Vanessa Barbara

Beligerância e rancor em evento tipicamente klingon

No auditório da Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, inúmeros klingons se reúnem para bradar o hino da vitória: “YIjah, Qey’ ‘oH”, eles repetem, zangados e com a mão no peito, numa letra que diz que a batalha já começou. No dia 17 de novembro, às 19h30, cerca de cinqüenta bancários e analistas de sistemas vestiram suas fantasias de trekkies e prestigiaram o Dia do Guerreiro Klingon, no lançamento dos quadrinhos Herança de Sangue, promovido pela livraria Devir e a Federação da Frota Estelar de São Paulo.

Os klingons são uma raça guerreira do universo da série Jornada nas Estrelas (Star Trek). No início, eram inimigos dos humanos, mas, ao longo de diversos episódios e filmes, se aliaram à Federação Unida dos Planetas e passaram a formar um pelotão de elite dos bonzinhos. Seu código de honra é militar, baseado no bushido japonês e nas religiões nórdicas. Para um klingon, todo dia é um bom dia para morrer.

O contra-almirante Sandro Feliciano, de 34 anos, mais conhecido como Gork, foi o primeiro klingon a aparecer no evento. Cumprimentou o almirante Wilton Mendonça Ferreira Junior, 44 anos, que na vida real é auditor fiscal do Bradesco, e brandiu sua bat’leth (espada de honra) aos presentes. Seu uniforme era preto, com coturno e calça de couro. No peito, grampeou dois jogos americanos metálicos e espetou broches de doação de sangue, segurança no trabalho e outras insígnias. Colou sobrancelhas espessas da mesma cor dos cabelos compridos e castanhos, além de uma máscara de testa rugosa, marca registrada dos klingons da Nova Geração. “É um assunto que não comentamos com forasteiros”, justifica um representante da raça, sobre a questão da testa. Trata-se de um dos temas mais discutidos da noite: na série clássica, com Kirk e Spock no comando da Enterprise, os klingons tinham a aparência normal com a sobrancelha mais grossa e a testa lisa. Na Nova Geração – capitaneada por Jean-Luc Picard -, talvez porque os produtores tivessem mais verba, a mitologia ficou mais complexa e as testas, rugosas.

O contra-almirante Alexandre “Worf” Lancieri, de 37 anos, professor de jiu-jítsu e ex-lutador de Mixed Martial Arts (uma espécie de vale-tudo), tem a testa comum e um uniforme mais sóbrio. É ele o único falante do idioma klingon (que estuda há oito anos) e um dos palestrantes da noite. “Você acaba procurando uma raça na qual você se enquadra, no meu caso, uma raça que dá porrada em todo mundo”, justifica. “Por ter uma cultura guerreira, sou muito fã dos klingons, então a minha série preferida é A Nova Geração, na qual se formatou a cultura klingon, e a Deep Space Nine, a partir da quarta temporada. Foi assim: um belo dia eu liguei a televisão na falecida TV Manchete, vi aquela baita nave da Enterprise e aquele cara ali, o Worf. Ele começou a dar pancada em todo mundo e eu pensei: ‘Esse aí sou eu’.” Worf, vivido pelo ator Michael Dorn, foi o primeiro klingon a tripular uma nave da Federação.

Há também uma moça klingon, Larissa Ortiz de Souza, 22 anos, estudante de moda, e seu namorado trekkie, que veste um uniforme amarelo no estilo pijama. Ambos têm uma visão da série mais bem-humorada, principalmente na tosca parte de efeitos visuais. Quando a discussão são os efeitos de câmera na hora de simular a turbulência na nave, eles dizem: “Tem sempre alguém que cai pro lado errado”. Já Michel “Vegore” Vega, 33 anos, bancário, é um klingon mais bravo, que faz caretas e olha feio para os humanos. Ele vigia uma das extremidades do auditório da Livraria Cultura enquanto Gork guarda a porta, de pé, feito um segurança dos portões do inferno. Sandro é técnico químico, trabalha com saneamento básico e gosta da raça de Worf por causa da inspiração japonesa e nórdica, e não por sua inclinação a exterminar organismos vivos.

Às quinze para as oito começa um debate sobre cultura klingon que se estende até as nove, com perguntas inflamadas do público. “Gostaria que você falasse sobre a política dos klingons passando pela guerra de Cardássia com Martok e com Gowron na Nova Geração, falar da importância do chanceler, da política em si”, pede um membro do fã-clube. “Qual é a população do planeta Klingon?”, questiona outro. De repente, chega um red shirt e cumprimenta os amigos. Red shirts (camisas-vermelhas) são os coadjuvantes da série que servem apenas para morrer logo após serem apresentados ao espectador, comprovando o perigo enfrentado pelos protagonistas. O sujeito em questão apareceu, sorriu para a platéia e disse que é sempre preciso haver um red shirt. Também apareceu, atrasado, um curioso casal klingon, que se sentou na primeira fileira e dizimou com seus fêisers todas as pessoas que lhes desagradavam.

Durante o debate, foi dito que o idioma klingon é a língua fictícia mais falada no mundo – há inclusive uma célebre tradução de Hamlet, que os aficionados dizem ter sido composta originalmente em klingon e vendida a Shakespeare por um viajante do tempo. Além de possuírem uma língua marcante, os klingons são muito fortes, têm os ossos robustos e uma personalidade aguerrida. Entre seus ritos de passagem, o de puberdade implica em andar por um corredor polonês recebendo choques do bastão da dor. O rito de casamento inclui o Kal’Hyah, despedida de solteiro do klingon, que consiste em passar uma semana num deserto sem comer, vertendo sangue, suando e fazendo provas de resistência física. “Tudo isso para pegar uma mulher barbada?”, pergunta um fã menos ortodoxo, deixando muitos indignados: há, sim, mulheres klingons muito belas, “mas ao estilo klingon”.

A discussão foi longa e, durante as partes mais controversas, foram ouvidas algumas pérolas. “Como diz aquele velho ditado klingon: errar é humano”, observou Michel, fazendo cara feia para a máquina fotográfica de uma criança. “Que os seus pratos sejam sempre servidos vivos”, “Se está no seu caminho, derrube” e “Você é feio” são outros ditados populares. Falou-se também sobre o calcanhar-de-aquiles da raça: o sangue cor-de-rosa. Por causa da censura, em um dos filmes da série, os produtores tiveram que pintar o sangue dos klingons de cor-de-rosa, tornando-os uma das raças mais caçoadas da mitologia. “Por que não amarelo, verde, ou preto?”, eles se revoltam.

Quase no fim da palestra, um klingon inflamado xingou o outro: “Hab SoSlI’ Quch”, ou seja, “Sua mãe tem a testa lisa”. É um xingamento fortíssimo. Aliás, o dicionário klingon não registra nada afetuoso ou amigável. Em lugar de um “olá”, apenas grunhidos como “nuqneH”, que pode ser traduzido como um ríspido: “O que você quer?”. De fato, reza a lenda que os klingons são rudes, truculentos e só gostam de matar. Mas, ao terminar o debate, ironicamente, eles pediram licença, recolheram seus fêisers e foram embora, sem trombar em ninguém.

TV Paciência

Posted: 25th janeiro 2009 by Vanessa Barbara in esquinas, Reportagens, Revista piauí
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Janeiro de 2009

por Vanessa Barbara

A eletrizante programação do transporte público paulistano

Em São Paulo, a bordo do ônibus Praça do Correio/SESC Orion, linha 5 317, o cidadão pode passar 119 minutos até atingir o destino final. Muita gente viaja de pé. Embora o percurso à tarde seja razoavelmente livre de trânsito, é possível envelhecer lá dentro.

“Para se fazer um atabaque, cortam-se pequenas ripas…”, é uma das coisas que o paulistano aprende durante o trajeto. Desde o começo do ano passado, 1 034 coletivos receberam monitores de LCD com programação das companhias BusTV Brasil, TVOut, BusMídia e TVO. Assim, é possível embicar na avenida 23 de Maio como um leigo e sair dela na condição de semi-especialista em confecção de atabaques. A TVO, presente em 468 coletivos de oitenta linhas, como a SESC Orion, conta com a cobertura geográfica mais ampla, “especialmente desenvolvida para o entretenimento dos usuários de transporte público”. Exibidas em aparelhos de 17 polegadas, as vinhetas de um minuto e meio apresentam dicas de saúde, beleza, cidadania e boas maneiras. Apesar de permitido pela portaria da SPTrans, a programação não tem som, segundo a TVO, para respeitar “o direito que os passageiros têm de não serem incomodados”.

Enquanto o ônibus passa pela avenida Interlagos, o viajante aprende o que é memória RAM e assiste a uma animação (incompreensível) com pinguins que tomam bolas de neve na cara. Em seguida, é submetido à propaganda de um desodorante seco, com legendas minúsculas. De dez em dez minutos, o sermão: “Você sabe o que é sífilis? Informe-se antes que seu bebê descubra.”

A maioria dos usuários tenta não prestar atenção nas imagens que se sucedem, brilhantes e vertiginosas, nas telas à frente. Encostam a cabeça no vidro ou olham pela janela. Há um monitor na ponta dianteira do ônibus e outro diante do cobrador, de modo que poucos bancos ficam imunes ao bombardeio visual.

Algumas das vinhetas da TVO contam histórias de figuras locais, como a do jogador de basquete Marcos Vinícius, que, antes de se profissionalizar, pegava três ônibus para ir aos treinos. Outras dão dicas de atrações no interior de São Paulo, como a Folia com Bonecões, em Atibaia, em que há figuras gigantes com cabeça de papel machê. Também na telinha, um pacato senhor dá instruções sobre a pesca de matrinxãs. Quando o ônibus já está na avenida Senador Teotônio Vilela, lotado, e o termômetro marca 32 graus, os passageiros são presenteados com vívidas imagens das cachoeiras de Brotas, de praias e de rios caudalosos.

***

O espectador, que paga 2,30 reais pela passagem, também aprende curiosidades históricas sobre os óculos, o relógio, o algarismo romano e o rinoceronte. E no final, ainda com meia hora do trajeto faltando, eles estão de volta: o atleta Marcos Vinícius, a memória RAM e os matrinxãs.

No metrô, o viajante dispõe da TVMinuto, do Grupo Bandeirantes. O cardápio de atrações inclui blocos de dez segundos com as principais manchetes do dia (“Karl Lagerfeld cria moeda de ouro com rosto de Coco Chanel”, “Exploração excessiva de atum vermelho diminui 10% em 2008”). O espectador ainda pode aproveitar as dicas de teatro, a previsão do tempo, os indicadores econômicos e o horóscopo – a propósito, os nativos de Libra devem tomar cuidado para não se entregarem aos prazeres da gula.

Toda a programação, silenciosa, é intercalada por vinhetas sobre o “plano de expansão do metrô”, em que os passageiros são informados sobre o funcionamento da Linha C-Esmeralda, a criação de novas estações, a modernização dos trens e as melhorias no sistema. Há também os alertas: “Não dê esmolas. Ofereça a sua ajuda a entidades assistenciais de sua confiança”, “Mantenha bolsas e mochilas à frente do corpo”, “Não deixe as crianças se sentarem nos degraus das escadas” e “Não segure as portas. Isso provoca atrasos em todos os trens”. Entre as notícias mais urgentes, há surpresas: “Comer barra de cereais é uma opção saudável e prática para o lanche.” Algumas empresas também anunciam nas telas, como se não bastassem os displays de propaganda junto à parede e ao teto do vagão.

Com a Lei Cidade Limpa, a capital paulista ficou proibida de veicular propaganda em cartazes pelas ruas, mas nos subterrâneos e dentro dos ônibus, a terra é de ninguém. No metrô, há propaganda nas catracas, nas colunas, nas escadas rolantes, nas paredes, nas janelas e nos vagões. Alguns dos trens são envelopados com reclames de refrigerantes, faculdades, chocolates, instituições de crédito e perfumes. Juntam-se a isso mais 528 monitores nos trens da linha verde, 2 256 na linha vermelha e 2 448 na linha azul.

E, ainda assim, o paulistano médio não aprendeu a fazer um bom atabaque.

O Dia da Fantasia de Gorila

Posted: 18th janeiro 2009 by Vanessa Barbara in Crônicas, Metrópole, O Estado de São Paulo
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No Dia Mundial da Fantasia de Gorila, comemorado no próximo 31 de janeiro, pessoas de todas as crenças e nacionalidades resgatam suas roupas de gorila do armário, vestem-nas com garbo e saem batendo de porta em porta, a fim de festejar esse feriado tão peculiar. À diferença das efemérides de fim de ano, não há troca de presentes, ceia com frutas secas, reencenações dramáticas, guloseimas típicas ou sentido moral de qualquer naipe. O Dia da Fantasia de Gorila não traz renovação aos homens de boa vontade, esperança ou paz interior – trata-se apenas de uma confraternização para gente vestida de gorila, ou gorilas vestidos de gente.

A data foi criada pelo cartunista Don Martin, da revista Mad, em 1964. Na tirinha, o personagem Fester Bestertester acusa o feriado de ser um embuste criado pelos fabricantes de fantasia de gorila para nos empurrar mercadoria. Na sequência, ele é repetidamente surrado por macacos que batem à sua porta – quer dizer, todos os seres que surgem para vê-lo, sejam mulheres ou bananas, abrem o zíper de cima a baixo para revelarem um gorila homicida. Até um gorila homicida pode abrir o zíper para revelar um igual.

O emprego indumentário da fantasia de gorila é considerado uma das grandes tradições ocidentais deste século, perdendo apenas para o Dia de Falar Como Um Pirata (19 de setembro) e o hábito de usar pochetes. Um dos motes da comemoração é o seguinte: “Festeje o Dia da Fantasia de Gorila – Porque você não tem nada melhor para fazer.” Trata-se de um bom argumento para divulgar a impersonalização símia. Celebridades como o cantor Robbie Williams já saíram às ruas na pele de um macaco, além do piloto de Fórmula 1 Kimi Raikkonen e o diretor do time de beisebol dos Red Sox, Theo Epstein, que a utilizou para despistar a imprensa. Até o músico Bono, vocalista do U2, foi flagrado em Nova York vestindo uma máscara de macaco, por razões insondáveis.

As massas também costumam aderir aos folguedos: nos últimos cinco anos, mais de 3 mil cidadãos já correram pelas ruas de Londres na Grande Corrida dos Gorilas, que este ano acontecerá em setembro. É um evento beneficente que une o incomparável prazer de correr numa fantasia de macaco à urgente causa de proteger os gorilas-da-montanha em extinção. Como se não bastasse, é a maior aglomeração de pessoas em fantasia de gorila do mundo.

Na internet, é possível encontrar vídeos amadores de sujeitos cortando a grama ou fazendo apresentações de negócios vestidos à caráter. Por aqui, até o momento, a Prefeitura de São Paulo não divulgou um calendário de eventos específico para a data. Tampouco o governador do Estado se pronunciou a respeito. Ainda não ficou claro se as autoridades locais pretendem boicotar a data ou se, quem sabe, irão finalmente abrir o zíper da cabeça aos pés e se juntar à festa.

Antologia pessoal

Posted: 11th janeiro 2009 by Vanessa Barbara in Clipping
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O Estado de S.Paulo
11 de Janeiro de 2009

ANTOLOGIA PESSOAL

Vanessa Barbara, jornalista e escritora
“Não gosto do hábito de se levar muito a sério” 

Nascida em São Paulo, em 1982, Vanessa Barbara é jornalista e tradutora. Além de colaborar com a revista Piauí, é colunista do Estado. Edita o almanaque virtual A Hortaliça (hortifruti.org), no qual se entrega aos trocadilhos tolos e fala da conduta absurda. É autora de O Livro Amarelo do Terminal e O Verão do Chibo, ficção escrita com Emilio Fraia.

Que livro você mais relê?

Histórias de Cronópios e de Famas, de Julio Cortázar, que tem um humor melancólico cheio de poesia e animaizinhos imaginários.

Dê exemplo de um livro muito bom mas injustiçado.

Todos os livros do Campos de Carvalho (A Lua Vem da Ásia, A Chuva Imóvel, O Púcaro Búlgaro e A Vaca de Nariz Sutil), que são muito estranhos, mas ninguém presta atenção. Ele já começa com: “Aos 16 anos, matei o meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris.”

Cite um livro que frustrou suas melhores expectativas.

Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. Fora a parte em que a moça come cal da parede, não gostei muito.

E um livro surpreendente, ou seja, bom e pelo qual você não dava nada.

História Universal da Infâmia, de Jorge Luis Borges. Não é que eu não desse nada pelo livro, mas porque o escolhi por acaso (a capa era bonita) e não fazia ideia de que seria tão bom. O próprio Borges o trata como uma coletânea de exercícios literários e confessa alguns de seus vícios: as enumerações díspares, a brusca solução de continuidade, a redução da vida inteira de um homem a duas ou três cenas.

A boa literatura está cheia de cenas marcantes. Cite algumas.

Uma delas é a cena do Tristram Shandy, do Laurence Sterne (capítulo 11 do livro 3), em que, por conta da dificuldade de abrir uma sacola, um personagem esconjura o outro apenas por ter feito nós demais. É uma enorme imprecação em latim, totalmente desproporcional ao incidente: “Maldito seja no seu cérebro e no vórtice, nas têmporas, na fronte, nos ouvidos, nas sobrancelhas, nas faces, na mandíbula, nas narinas, nos dentes incisivos e molares”, que dura cinco páginas.

Que livro bom lhe fez mal, de tão perturbador?

 Hercólobus ou O Planeta Vermelho, de V.M. Rabolú. É um livro que fala sobre um cataclismo que está por vir: a colisão do planeta Hercólobus que segue em direção à Terra. Em Hercólobus, os nativos usam cinturões cheios de “botões vermelhos, azuis e amarelos que acendem e apagam como um farol. Quando se veem em perigo, apertam um botão-mãe capaz de fazer voar uma colina e desintegrá-la no céu”…

E que livro mais o fez pensar?

A Outra Volta do Parafuso, de Henry James. Me fez pensar em acender todas as luzes, ligar a televisão e esquecer aquela história, que é muito assustadora.

De qual autor você leu tudo?

Julio Cortázar e J. D. Salinger. Ambos escrevem com um ritmo diferente, sem presunção e sem ignorar o lado bizarro das coisas.

Existe algum autor com o qual você jamais perderia seu tempo?

Sim, com os espíritos que psicografam livros como Violetas na Janela e Tempo de Colher Melões, principalmente o espírito Lucius, que não tem senso de estrutura, personagem e unidade aristotélica.

Cite um livro que foi fundamental em sua formação, mesmo que hoje você não o considere tão bom como na época em que o leu.

Na adolescência, li a obra completa (80 livros) da Agatha Christie. Um dos meus preferidos era O Inimigo Secreto, que aparentemente tem os personagens mais chatos da história do crime. Outro importante para a minha formação foi Germinal, de Zola, em que eu chorei no final. Na mesma época li As Vinhas da Ira, de Steinbeck, foi uma fase muito otimista.

Os livros de autoajuda são mesmo todos ruins, ou isso é puro preconceito da crítica?

Gosto de Ser Feliz, de Will Fergunson. É sobre um editor de livros que prepara a publicação de uma obra de autoajuda perigosamente persuasiva e abrangente. O livro estoura na lista de mais vendidos e uma epidemia de felicidade se espalha pela Terra. Ser feliz é uma obra de antiautoajuda, que nos livra desta abominável ânsia por contentamento com um sarcasmo muito peculiar.

Um livro que você acha que deve ser muito bom, mas jamais leu.

A Consciência de Zeno, de Ítalo Svevo. A média de pessoas que vem me procurar para sugerir o livro é de 3,5/dia, portanto ele assumiu um lugar de honra na pilha de próximos.

Um livro difícil, mas indispensável.

Estou lendo Ulisses, de James Joyce, mas por tabela. Dois amigos estão fazendo uma leitura minuciosa e bilíngue do livro, então toda semana eu pergunto o que aconteceu com o sr. Bloom, o que ele comeu, se já escureceu e leio os trechos selecionados.

Um livro que começa muito bem e se perde no caminho.

A Bíblia. O começo é eletrizante, com histórias de poder, luxúria, paixões incandescentes, ambições desmedidas, crimes hediondos e sexo. Tem um capítulo sobre uma mulher que dá à luz um filho cujo pai é uma pomba. Aí depois perde um pouco, sabe? Aquela coisa de quatro cavaleiros do Apocalipse nunca me convenceu.

Um livro que começa mal e se encontra.

Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski. Não que comece mal, mas eu demorei para engrenar – quando engrenei, levei comigo para a praia, se é que é permitido levar um Dostoiévski para a praia.

Um livro pior do que o filme baseado nele.

Tubarão, de Peter Benchley, dirigido pelo Spielberg. Dizem que os livros B dão ótimos filmes, como Blade Runner.

Que livros que contrariam suas convicções, mas são imprescindíveis?

Dom Quixote, de Cervantes, e Cândido, de Voltaire, contrariam minhas profundas convicções de que não se deve contar a história inteira no subtítulo dos capítulos, por exemplo: “Das admiráveis coisas que o extremado Dom Quixote contou que vira na profunda cova de Montesinos, coisas que, pela impossibilidade e grandeza, fazem que se considere apócrifa esta aventura”, ou “O que sucedeu aos dois viajantes em relação a duas moças, dois macacos, e aos selvagens chamados orelhões”.

Cite exemplos de livros assassinados pela tradução e exemplos de boas traduções.

Eu até gosto das más traduções, às vezes dão outro sabor ao livro. Cresci lendo livros antigos que não respeitavam a reforma gramatical de 1971 e usavam acento diferencial (A Menina do Capuchinho Vermêlho), e outros tinham traduções tão ruins que o livro se tornava pitoresco. Meus preferidos de hoje são o Sergio Flaksman e o Paulo Henriques Britto.

Que livros sempre presentes nos cânones que não mereceriam seu voto? E ausentes nos quais votaria?

Não gosto de Clarice Lispector nem de Rubem Fonseca. Os cronistas são muito injustiçados – acho clássicas algumas crônicas de Rubem Braga, Drummond, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Luis Fernando Verissimo.

De que livro demolido por críticos você gostou?

O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien. Não é exatamente um livro demolido pela crítica, mas não é bem visto por muita gente.

Cite um vício literário que você considera abominável.

Não gosto da presunção, do hábito de se levar muito a sério. “Quem nos resgatará da seriedade?”, pergunta Julio Cortázar num artigo de A Volta ao Dia em 80 Mundos. O artigo fala desse vício de escritores: assumir a solenidade de quem habita no Louvre tão logo se põe a escrever, com uma ruga de amarga experiência humana, endurecendo o pescoço e subindo ao ponto mais alto do guarda-roupa.

O bar do Firmo

Posted: 4th janeiro 2009 by Vanessa Barbara in Crônicas, Metrópole, O Estado de São Paulo
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Firmo de Faria, 83 anos, dono de um lendário bar no Mandaqui (à Rua Ires Leonor, 181), é um senhor de movimentos lentos e olhar de quem já viu de tudo. Há quase 60 anos, todos os dias, ele está atrás do balcão servindo bebidas, cigarros, pãezinhos, balas e até canetas. O bar é um pouco escuro, mas acolhedor, e existe no bairro desde março de 1950 – até antes do restaurante nordestino O Mocofava, na mesma rua desde 1976. Alguns o tratam de “seu Firmo”, outros só usam “seu Faria” (há polêmicas), mas o fato é que todos o conhecem e passam acenando. Seu Firmo às vezes parece triste, outras vezes se engaja numa conversa inflamada sobre algum acontecimento local. Tem dias que usa boina, tem dias que fica apenas sentado no balcão, cansado de olhar o relógio.

O Bar do Firmo fica em frente ao ponto de ônibus, um poste verde sem toldos e nem bancos para sentar. O proprietário disponibiliza cadeiras de plástico aos que esperam o coletivo e sempre acena para todo mundo, dizendo: “Vais passear, menina?”, mesmo que seja segunda de manhã e esteja chovendo. Há um japonês que toma cerveja ali todos os dias desde o Descobrimento, e um sujeito muito simpático de bochechas grandes. Eles caminham em ziguezague de volta para casa quando o seu Firmo fecha seu estabelecimento, antes de escurecer, e há quem diga que demoram para conseguir enfiar a chave no buraco da fechadura.

As mulheres têm um carinho especial pelo dono do bar, que nunca deixa de cumprimentá-las com um respeitoso: “Oi, linda”, quando uma delas passa por seu campo de visão. Elas se sentem lisonjeadas e jogam o cabelo de forma ousada em resposta ao galanteio. Mas não deviam se empolgar tanto – fontes fidedignas já viram passar, do outro lado da rua, uma senhora de aproximadamente 90 anos que foi recebida com um “Oi, linda”.

Seu Firmo já viu muito agarra-agarra e atropelamento no ponto de ônibus; já viu uma Kombi matar uma senhora e muitas outras coisas tristes. No fim da tarde, ele olha para o céu em busca de sinais meteorológicos, embora more ao lado do bar. Lembra do tempo em que havia cavalos soltos na rua e pouquíssimas casas construídas. Lembra também da época em que vendia muito pãozinho de manhã – agora os pães se amontoam nas estantes, entre garrafas de pinga e baleiros, e nenhum comprador faz fila.

Ultimamente, seu Firmo está sendo ameaçado pela presença de outro bar bem ao lado, construído na garagem de uma casa. O boteco tem uma televisão e uma mesa de sinuca, fecha às 11 da noite e toca forró aos sábados e domingos. Os donos do imóvel são seus próprios compadres que o conhecem há 60 anos. Ele fica chateado, mas se recusa a desistir: “Estou com essa idade, não posso ficar em casa parado”, diz, e torna a abrir o bar todas as manhãs.

Em tempo: esta semana, o Firmo disse que vai esfriar.

Melhores livros de 2008

Posted: 1st janeiro 2009 by Vanessa Barbara in Clipping
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Zero Hora/RS
Janeiro de 2009

Estrangeiros | Nacionais

Botas de Papai Noel em tricô

Posted: 25th dezembro 2008 by Vanessa Barbara in esquinas, Reportagens, Revista piauí
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Dezembro de 2008

por Vanessa Barbara

Uma esquina sonífera

Duas semanas após o Grande Prêmio de Interlagos, é dada a largada: “Vamos começar: são treze pontos na agulha com a cor preta”, e treze senhorinhas passam a tricotar freneticamente. Não se trata de nenhuma competição, mas do curso “Botas de Papai Noel em tricô: como lavar e passar”, ministrado por Maria Julia Rivelli no espaço Viver Casa & Gourmet, na Vila Mariana, em São Paulo.

De acordo com a descrição do site, o recinto é um “lugar capaz de receber públicos variados de forma dinâmica e harmoniosa”. Localizado próximo à estação Paraíso do metrô, o Viver Casa & Gourmet promove cursos e palestras gratuitas sobre saúde, beleza, casamento e prendas domésticas, como o “Noite mágica: harmonize ainda mais a noite de Natal com ajuda da numerologia”. Outros workshops estão voltados à gastronomia, entre eles, “Maravilhas com alcachofras”, “Bombas e carolinas” e “Finger food: gostosuras de verão”. A grande maioria do público é composta de donas-de-casa de meia-idade com tempo livre à tarde. Numa terça-feira de novembro, elas compareceram ao local para tricotar as botinhas que, prontas, seriam penduradas junto à lareira ou à arvore de Natal.

As alunas, quase todas de cabelo curto e óculos bifocais, formavam uma confraria que falava baixinho. Elas enrolaram as linhas em torno do pescoço e começaram a contar laçadas e meias, seguindo a receita da professora para confeccionar pequenas botas natalinas. A mais rápida era Acácia Mayeji, descendente de japoneses, que terminou sua botinha antes do cronômetro marcar uma hora de aula. O sapato, que serve para armazenar balinhas, foi feito de linha sintética preta de algodão e acrílico, com uma bainha de linha vermelha esfiapada, “bem natalina”, segundo a professora.

No total, a sessão de tricô se arrastou por uma hora e meia. A terminologia parecia complexa: “O primeiro é em meia, daí tem um aumento e mais cinco pontos em meia”, orientava a professora. Após desistirem de acompanhar as mais velozes, as novatas passaram a conversar sobre lavagem de roupas e decoração de mesas para o Natal, manifestando o interesse de participar do curso de arranjos florais. “Se quiserem terminar e fazer o cano mais curto, aí vai da criatividade de vocês”, avisou a professora, já na reta final. “Quem tem ponto mais largo pode escolher outra agulha de número menor, pois essa é a seis”, sugeriu.

Segundo a pacienciosa docente, o tricô só requer dois tipos de pontos: o meia e o tricô. Com a dupla, é possível fazer todas as variações de desenhos, com aumentos, diminuições e laçadas. Pairando no Olimpo dos velozes, Acácia Mayeji não precisava dessas lições, já que é exímia no tricô “desde menina”. Ela manejava a agulha com tanta habilidade que quase não dava para acompanhar.

***

Depois de hora e meia de tricô intenso, três alunas terminaram seus sapatinhos, explicando que eles seriam posteriormente costurados nas laterais, para virarem botinhas tridimensionais, e não apenas retalhos disformes de tricô. De lavar e passar, o curso não teve nada. Animadas, algumas senhoras manifestaram autêntico interesse pela próxima aula, que versaria sobre pães. “Se for com o Caputo, será divina”, afirmaram, a respeito do homem que, aparentemente, conhece tudo sobre broas. Certas senhorinhas suspiraram. Outras continuaram fazendo tricô como se não houvesse amanhã.

O alfabeto das ruas

Posted: 21st dezembro 2008 by Vanessa Barbara in Crônicas, Metrópole, O Estado de São Paulo
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Na Rua Almofada, em Perus, foi encontrado um laboratório de refino de cocaína em 2007. Na Rua Alpercata, no Jardim Robru, há uma loja de conserto de máquinas de costura. Na Rua das Antas, em Sapopemba, há uma moça chamada Marisa que quer ser secretária. Na Rua Antípodas, no Jardim Boulougne, há uma empresa que fornece serviço de brigadistas e cursos de bombeiros. Há cultos todos os domingos às 19 horas na Igreja do Arrebatamento da Rua Antíoco, no Imirim. Há uma casa de 140 metros quadrados para vender na Avenida Apólogos Orientais, no Jardim Marciano, por R$ 60 mil. O imóvel tem dois quartos, sala, cozinha, banheiro, lavanderia, varanda e garagem coberta para dois automóveis. Na Rua Apreciando a Cidade, em Cidade Tiradentes, há uma mercearia de nome “Serve Sempre”. A Rua Aves ao Vento, no Capão Redondo, se inspirou no filme de Yasujiro Ozu de 1948, Kaze no Naka no Mendori. Há três ruas Avestruz na Grande São Paulo: uma em Osasco, outra em Vila Rica (Brasilândia) e a terceira no Recanto do Paraíso (Perus). Reparem: há uma Rua Avestruz em Perus.

É dos vereadores e prefeitos a competência de dar nomes a vias e logradouros públicos. Os moradores só podem solicitar as alterações quando se tratar de denominações homônimas ou, não sendo homônimas, similares na ortografia, fonética ou fator de outra natureza, gerando ambigüidade de identificação. Também podem pedir a mudança de denominações consideradas ridículas, desde que dois terços dos domiciliados concordem.

Nos últimos anos, cerca de 35% dos projetos na Câmara foram destinados a alterar nomes de vias da cidade. Assim é que se mudou o nome de locais consagrados, como a ponte Cidade Jardim (atual Engenheiro Roberto Rossi Zuccolo), o Túnel 9 de Julho (que já se chamou Daher Elias Cutait), a Avenida Águas Espraiadas (atual Jornalista Roberto Marinho) e o Viaduto Aricanduva (atual Engenheiro Alberto Badra). De 1927 a 1930, a Avenida Paulista levou o nome de Avenida Carlos de Campos, ex-governador do Estado, mas o povo não aprovou a medida e a denominação voltou ao normal.

Há nomes de ruas para todos os gostos, do começo ao fim do alfabeto – existe um morador de sobrenome Maluf na Rua Zabelê, no Parque Paulistano, e uma loja de decorações chamada Rique na Rua Zavuvus, na Vila Missionária (Cidade Ademar). Na Rua Zike Tuma, no Jardim Ubirajara, há um apartamento à venda “sem problema de gente passando na janela”. Na Grande São Paulo, há duas Ruas Zíngaras e uma Rua Zircão, onde se pode visitar uma empresa desentupidora chamada A Poderosa. Ainda não se sabe o motivo do nome da Rua Zo Wada, em Vila Friburgo. E, por último: há um sujeito de sobrenome Zizza que mora na Rua Zuzarte Lopes, na Vila Nívi, via que leva o nome de um sertanista que morreu devendo trinta patacas pro primo Bartolomeu em 1635.