Nova geração desponta na Flip

Posted: 2nd julho 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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Qua, 02 Jul, 03h21
Guilherme Bryan*/Especial para BR Press

Em 2004, Vanessa Bárbara e Emilio Fraia, então com 22 anos e vizinhos do bairro do Mandaqui, participaram de uma oficina para jovens escritores, ministrada por Milton Hatoum, na primeira Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Agora, quatro anos depois, eles são convidados do mesmo evento literário agora o mais importante do país, para compor uma mesa que reúne algumas das novas sensações da literatura brasileira. A razão do convite é a autoria a quatro mãos do recém-lançado romance O Verão do Chibo (Alfaguara, R$ 23,90, em média).

O Verão de Chibo é um romance bastante envolvente e inventivo. Afinal, sua história é narrada a partir do ponto de vista de Menorzinho, um garoto de 7 anos que descreve seu verão alucinante e confuso, ao lado dos amigos Cabelo e Bruno. É uma grande aventura, envolvendo antigas brincadeiras típicas de crianças do interior do Brasil, missões importantíssimas e o misterioso desaparecimento do irmão do narrador, Chibo.

Outro aspecto interessante é a marcação do tempo como “meses-pó” e “meses-palha”. A sensação que se fica é que, em meio a referências ao lindo filme de René Clement, Brinquedo Proibido, o romance trata na verdade de um rito de passagem e, de certo modo, da perda da inocência.

Muito bem-humorados, Vanessa Bárbara e Emilio Fraia comentam a realização de um livro conjunto e o início da parceria na Flip, onde estão de volta, agora como convidados, quatro anos depois.

Como foi a experiência de escrever um romance a quatro mãos e como vocês se organizaram?
Vanessa Bárbara e Emilio Fraia: É mais difícil do que parece e mais possível do que se pensa – o que quer que isso signifique. Pensamos em fazer um romance com crianças sobre a impossibilidade de expressar certas coisas, normalmente as mais importantes, uma história que aos poucos caminhasse para um território de pessoas e sentimentos mortos e empalhados. Um dia, começamos. Um de nós escreveu o início e passou pro outro, que reescreveu, ajeitou, matou no peito e devolveu. Assim foi. No início, demoramos para encontrar a voz do narrador, mas depois o processo foi mais rápido e íamos escrevendo sem discutir.

Mas vocês não se encontravam?
VB EF: Na verdade, chegamos a nos encontrar apenas umas três ou quatro vezes para falar sobre o livro e os rumos da história. Foi um jogo divertido, criar um mundo sem o menor controle (nosso ou dos protagonistas), em que os dias acabavam de repente e aos meses-pó se sucediam os meses-palha, num amontoado de coisas estranhas e suspeitas aconteciam.

Qual foi a importância da participação na oficina literária de Milton Hatoum na Flip 2004? Em algum momento, passou pela cabeça de vocês serem convidados para este que é um dos eventos mais importantes da literatura no Brasil? Qual é a expectativa, aliás, da participação ao lado dos colegas Adriana Lunardi e Michel Laub?
VB EF: Na oficina do Hatoum é que, discutindo sobre as modalidades de romance, pensamos em fazer um romance “pistolar” (em vez de epistolar), que começasse com um tiroteio de balas de goma. A isso juntamos uma frase do Kafka: “Além do mais somos cinco e não queremos ser seis”. Nunca achamos que seríamos convidados para a Flip e, pra falar a verdade, temos certeza que vamos pegar soluço durante o debate. E será um soluço tão constrangedor quanto sincronizado: a Vanessa solta um hic, o Emilio continua, bota um hífen, vira hic-hic, e depois hic-hic-hic e será um sucesso.

O Verão do Chibo é narrado com a linguagem e a visão de uma criança de 7 anos, que, de certo modo, dá uma grandiosidade aos eventos que nós adultos provavelmente não daríamos. Quais foram as maiores dificuldades de se encontrar o tom certo dessa linguagem?
VB EF: No começo, o Menorzinho (nosso narrador pequeno e confuso) não ia interferir na história e nem falar quase nada. Mas ele foi se impondo e, aos poucos, tomando conta do registro desse verão, que, afinal, foi bem difícil pra ele o Chibo e o Bruno desapareceram, o lado de lá se misturou com o de cá e os navios não atracaram, nunca. De certa forma, foi o tom em conjunto que encontramos para escrever a quatro mãos; o narrador reflete esse ruído que são duas pessoas escrevendo por uma só: ele é assustado, confuso, nunca entende nada e interpreta do jeito que ele quer uma literatura do malentendido. É o nosso H. Bustos Domecq de nariz escorrendo.

O livro começa com um dos diálogos mais fortes do filme Brinquedo Proibido, de René Clement. Qual foi a importância desse filme para a realização do livro? Também há muitas outras referências cinematográficas no livro. Pode citar algumas?
VB EF: Quando vimos Brinquedo Proibido, já tínhamos avançado um pouco na história. Gostamos do tom e dos meninos que roubam as cruzes do cemitério, da Paulette arrastando o cachorro morto, de tudo. É um filme que se passa durante a guerra, realista, o que pode levar a uma leitura diferente da nossa história, que tem muita imaginação desenfreada. Além disso, no fim do filme há uma homenagem ao nosso colega de Flip, o Laub, quando a menina fica gritando: “Michel, Michel, Michel”.

Tem também algumas referências de clássicos do cinema e faroeste, não?
VB EF: Nós gostamos muito de filmes e botamos até o Rodolfo Valentino na roda. Assistimos muito faroeste (a Vanessa adora o título do livro do Eli Walach: O Bom, o Mau e Eu), muito filme de aventura e muito Hitchcock (em Sabotagem, uma criança morre e, ora, não se deve matar crianças no cinema, diria o nosso narrador). Além disso, Os Incompreendidos, Zero de Conduta, Zazie no Metrô, If e Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios são outros dos filmes a que assistimos na época do Chibo.

O Verão de Chibo faz referência a uma série de brincadeiras e travessuras típicas de crianças do interior. Como foi a infância de vocês, nascidos numa cidade tão urbana como São Paulo, no início da década de 80? Aliás, como vizinhos, vocês costumavam brincar juntos? Se sim, quais eram as brincadeiras mais comuns e quais narradas no livro vocês gostariam de ter brincado mais?
VB EF: A gente morou no Mandaqui, que não fica exatamente em São Paulo. Quer dizer: é um bairro da zona norte bem distante do centro, cheio de peculiaridades. Por exemplo: frequentávamos a lojinha de doces Pé-de-Moleque, onde os donos não tinham o menor senso de lucro (faliu em pouco tempo) e davam picolé premiado pra todo mundo – um dia o Emilio ganhou cinco, em sequência. No Mandaqui, as coisas acontecem num tempo diferente e há o seu Firmo Farias, que desde o Descobrimento fala as mesmas coisas para quem espera o ônibus (“Vais passear, Minino?”). É um bairro pitoresco. Na rua, a Vanessa brincava de Elefantinho Colorido; o Emilio morava no Bosque de Santana, corria muito no polícia-e-ladrão e sempre roubavam as figurinhas dele – eram eventos muito graves e importantes. Tudo é muito sério até os 12 anos. Quando ainda se tem dentes de leite, o esconde-esconde é a coisa mais assustadora do mundo. Isso sem falar nas cascas de joelho, a infância é cheia delas, e de pais e mães que brigam, e de um passarinho morto que é enterrado atrás do prédio, sem ninguém ver.

A escritora campineira Índigo adotou em seu romance, A Maldição da Moleira, o pensamento de um bebê. É possível estabelecer alguma relação com a obra de vocês? Por quê?
VB EF: A gente não leu este livro, mas não é difícil imaginar que ela se divertiu um bocado entre toucas, sapatinhos, mingau e a vida íntima dos bebês.

Também há comparações entre o método adotado por vocês e o de Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares. É possível realmente estabelecer esse paralelo? Por quê?
VB EF: Gostamos muito do Bioy e do Borges, do humor irônico, da discrição, de certo classicismo da dupla (de lugares que criaram, feito a “quase marmórea confeitaria Los Argonautas”), mas eles são gigantes, qualquer comparação é impossível. Algumas das regras que norteavam a colaboração entre os dois acabaram sendo naturalmente adotadas por nós: exigência mútua, direito permanente de veto, prioridade ao jogo e ao prazer. Nos livros que escreveram juntos é impossível dizer o que é de um e o que é de outro. Isso foi algo que buscamos, tentar apagar esses limites e fazer o leitor se concentrar única e exclusivamente no mundo que importa, que é o do Chibo, Cabelo & Cia.


(*) Guilherme Bryan é autor do livro Quem Tem Um Sonho Não Dança – Cultura Jovem Brasileira nos Anos 80 (Record, 2004).

O Verão do Chibo – Veja Recomenda

Posted: 2nd julho 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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Revista Veja
02/07/2008

Perfil Cosac Naify

Posted: 1st julho 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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Vanessa Barbara

Foto: Nino Andrés

Vanessa Barbara nasceu em 1982, em São Paulo, e viveu por muitos anos no bairro do Mandaqui. É jornalista, tradutora e editora do periódico A Hortaliça. Escreve para a revista Piauí, onde costuma publicar reportagens sobre hipnose, telemarketing, astrologia, ioiô e anões. Em 2003, estreou com o livro O livro amarelo do terminal, prêmio Jabuti 2009 (na categoria Melhor reportagem), editado pela Cosac Naify. Também é autora do romance O verão do Chibo (editora Alfaguara), em parceria com Emilio Fraia, com o qual concorreu ao Prêmio São Paulo de Literatura. Em 2008, foi convidada a participar da mesa de abertura da FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty.

OBRAS DE REFERÊNCIA

                                               

O homem atômico chegou (trad.)                   O livro amarelo do Terminal

 

                                           

Três vidas (trad.)                As aventuras de Ook e Gluk: mestres do kung fu primitivos do futuro (trad.)

01/07/2008 às 18h19
da Folha Online

Jornalista paulistana nascida em 1982, Vanessa Barbara colabora, assim como Emilio Fraia, com a revista “Piauí” e é também editora do almanaque virtual “A Hortaliça”.

Divulgação
A escritora Vanessa Barbara, que participa da Flip-2008, em Paraty
A escritora Vanessa Barbara, que participa da Flip-2008, em Paraty

 

Recentemente, publicou “O Livro Amarelo do Terminal” (Cosac Naify, 2008), livro-reportagem sobre a rodoviária do Tietê. Com Emilio Fraia é co-autora de “O verão do Chibo” (Objetiva, 2008).

Seu “O Livro Amarelo do Terminal” une a linguagem jornalística com recursos narrativos dos mais variados, o que acompanha a própria polifonia visual do cuidadoso projeto gráfico: as páginas amarelas servem de elemento, por exemplo, complementar às letras que ficam parcialmente sobrepostas, ao contrário dos capítulos de cunho mais histórico –esses lembram os antigos bilhetes de ônibus.

O terminal rodoviário do Tietê é o laboratório onde Vanessa experimenta a linguagem oral e o relato anônimo, retratando um dos espaços mais importantes da cidade de São Paulo.

Já sua parceria com Fraia, em “O Verão do Chibo” fornece a perspectiva de uma literatura cada vez mais experimental, não em sua linguagem ou tema, mas justamente no modo em que foi concebido: a quatro mãos. Como Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares já fizeram outrora.

A mesa na qual tomará parte na Flip terá também Emílio Fraia, Michel Laub e Adriana Lunardi.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u417407.shtml

01/07/2008 – 18h13
da Folha Online

“O Livro Amarelo do Terminal”, de Vanessa Barbara

Divulgação
Capa de "O Livro Amarelo do Terminal", de Vanessa Barbara
Capa de “O Livro Amarelo do Terminal”, de Vanessa Barbara

 

A matéria, o objeto, isso é jornalístico; a linguagem, porém, o ritmo fluido de sua narrativa, faz com que o leitor sinta uma ambientação ficcional, típica do romance polifônico moderno. As diversas vozes, ou seja, os relatos que Vanessa Barbara destaca em “O Livro Amarelo do Terminal” (Cosac Naify, 2008), sua ordenação, contornam uma presença anônima que parece refletir sobre os conceitos sempre tão lisos do que se chama de “jornalismo literário”.

Maior rodoviária da América do Sul, o Terminal Rodoviário do Tietê serve de objeto de estudo e reportagem e reflexão. Fazendo uso da reportagem clássica, a autora apóia-se em farta documentação histórica para, a partir dela, experimentar com diversos modos de relatar uma informação: o humor, o nonsense, por exemplo. Chega a criar um gerador automático de informações, que se desdobra na própria narração.

“As moças que trabalham lá –como Cíntia– precisam conhecer em minúcias a cidade. E cada canto da rodoviária: o homem só queria saber onde era a plataforma 49, e ela mal precisou de três segundos para informá-lo”. Desse modo, a narradora apresenta suas personagens como um microcosmo jornalístico – elas estão lá para igualmente informar, e o hábito, a repetição, ou, em nível mais extremo, a alienação dos que trabalham para informar, como “um gerador automático” que aponta e atira para todos os lados indiscriminadamente.

O projeto gráfico sempre cuidadoso da Cosac Naify acompanha a polifonia do relato. Por exemplo, as páginas amarelas servem de contraponto àquelas que mais lembram os antigos bilhetes de ônibus: para justamente destacar a parte de cunho mais histórico.

A estréia de Vanessa Bárbara convence pelo trabalho que tem em lidar com a linguagem do jornalismo de maneira bem-humorada, sem perder o foco do seu objeto, de seu conteúdo.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u417949.shtml

Flip 2008 – Perfil dos participantes

Posted: 1st julho 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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Revista Vila Cultural – Livraria da Vila
Julho de 2008

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Piauí n. 22
Julho de 2008

por Vanessa Barbara

A rodoviária do Tietê é um lugar onde mocinhas sobem as escadas do desembarque sem olhar para trás, homens ultrapassam a linha amarela para abraçar parentes

A rodoviária do Tietê, em São Paulo, é uma cidade de coisas perdidas. “O caça-níqueis está aqui há dois anos”, informou a funcionária, mostrando uma lista que enumerava o esquecimento de espingardas (duas), motocicletas (duas), um banco de kombi, uma máquina de serrar azulejos, camas, muletas, motores de moto, pneus, dentaduras e uma mão mecânica.

“Às vezes vem gente procurando amigos desaparecidos: mostram a foto e perguntam se já encontraram”, contou Andréia, que trabalha no setor de Achados e Perdidos. De fato, muitos pernambucanos, baianos, peruanos ou mineiros perderam-se há algum tempo em São Paulo e continuam deslocados, reprimindo a cada dia o desejo de voltar para casa (depois, talvez, quando os guris crescerem e sair a aposentado-ria). Têm nomes como Rosa, Hugo, Rosângela, Ivonete, José Fernando, Cláudio, Edilene. Vagam pela cidade junto aos guarda-chuvas esquecidos, aos botões que se desprenderam, às dentaduras e todas essas coisas que não se sabe mais onde estão.

A rodoviária é uma cidade de pessoas que andam com um enor-me fiapo preso aos pés, de gente que derruba café no chão e joga o papel higiênico fora do lixo. De moças que exigem cartões telefônicos e praguejam do alto de seus óculos escuros. É uma cidade de homens que preenchem o formulário de sugestões apenas para reclamar, que acendem velas dentro do guarda-volumes e resmungam que todos ali são incompetentes. De gente que sugere a instalação de um ar-condicionado com urgência, porque na Europa…

Uma cidade onde é necessário pedir autorização para conversar com os funcionários; onde é proibido fotografar os ônibus, e os seguranças cumprem ordens do diretor-assistente administrativo, detentor de um escritório espaçoso e um farto bigode. Na rodoviária, milhares de pessoas acotovelam-se numa fila para comprar bilhetes, outras andam de um lado para outro ou arrumam encrenca, alguns empurram os funcionários na plataforma de desembarque ou ameaçam agredi-los a socos – mas as sugestões, meu senhor, devem ser preenchidas com letra de forma neste formulário específico, numerado e identificado, para que possamos…

É uma cidade onde os passageiros de Holambra ficam agradecidos e oferecem estadia e flores aos funcionários; onde a atendente ganha um pão de queijo e um aceno da moça que não sabia ir a Santo Amaro. É uma praça pública onde a senhora da limpeza conversa com uma avó de três crianças, e como isso aqui é grande, hein?, eu demoro duas horas para voltar para casa (e eu, 37), mas só saio daqui às dez.

Nos corredores do terminal, 100 mil cafezinhos e 12 toneladas de pão de queijo são consumidos por mês, 300 quilos de chiclete desgrudam-se do chão a cada grande faxina e 60 mil passageiros vão e vêm, a cada dia. Todo mês, 1,4 milhão de créditos telefônicos são consumidos nos orelhões, o que equivale a 46 mil horas de conversa ou 84 milhões de “alôs” repetidos à exaustão. São 63 lojas e onze quiosques, 650 quilowatts de energia por hora, 9 milhões de litros de água e 1 mil quilômetro de papel higiênico (dentro ou fora dos cestos de lixo). Ao todo, 1 806 funcionários trabalham em três turnos: 445 na administração, 346 nas lojas, quatro mocinhas no balcão de informações e a filosófica atendente Rosângela, que odeia quando não olham para ela e lhe cospem ordens, números ou interrogações sem sentido.

Para muitos, a rodoviária é um grande shopping center visto com os olhos de um contador: massas numéricas e estatísticas de porcelana. Mas talvez seja um lugar onde mocinhas sobem as escadas do desembarque sem olhar para trás, homens ultrapassam a linha amarela para abraçar parentes e um velhinho cochila em silêncio, em cima de sua bengala. No terminal, o usuário pode polir sapatos em máquinas elétricas (sala VIP) ou derrapar em salgadinhos Chipola (plataforma 82). Pode comprar cisnes dourados na tabacaria ou recolher latinhas de alumínio dos cestos de lixo.

Na rodoviária do Tietê, é normal colocar tigres de pelúcia na cabeça, dançar em trenzinhos de conga, cumprimentar os lojistas todos os dias às 7 horas em ponto, carregar carne-seca com vermes brancos ou sentar-se em um dos 1 200 bancos de espera para tirar os sapatos (aliviado). Pode-se dançar com uma bolacha de maisena na mão ou mostrar a fralda para os transeuntes. Pode-se ir para Piracanjuba ou para Morro do Chapéu, pode-se voltar de Buenos Aires e depois tomar um banho, após deixar 10 reais para garantir a toalha.

Também é possível pesar os volumes na Viação São Geraldo, pedir ajuda aos carregadores de amarelo – e, se você for freira e isso for mesmo necessário, embarcar sua prancha de surfe sem problemas. Nos corredores do Tietê, alguns aceleram o passo mesmo sem ter motivo e perguntam aos gritos onde fica o guichê da Cometa, mas também é permitido parar em algum canto e ficar ali, de bobeira, conversando com o Papai Noel ou com uma senhora de blusa de lã que diz (de repente) que a Marinha britânica está vindo buscá-la.

A rodoviária do Tietê é uma cidade de chicletes abandonados, de pessoas com pressa e de coisas perdidas.

***

Dez horas da noite.
Dona Rosa continua sentada, no meio do terminal: mãos juntas sobre o colo, olhar calado, blusa de lã.
Sapatos brancos, ou quase brancos.
Setenta anos – oitenta, talvez.
São Paulo tem muita violência, né?, muita morte.
“A gente vê nos jornais.”
Saia azul-marinho comprida para o corpo miúdo e encurvado. Coque impecável, bem no topo da cabeça.
Dona Rosa diz que a Marinha britânica vem buscá-la.O nome dela não é Rosa. Nunca foi. Deve ser algo como Natasja Nicholaievna, espiã austro-húngara. Especialista em criptografia. Mas ela se recusa a dizer como se chama. Também não conta de onde está vindo. “De outro estado”, afirma, incomodada. Ela repete a toda hora que não tem nada a dizer. Não tem o que falar. Mexe-se na cadeira, encarando tudo com os olhos negros e agitados. Às vezes, diz que mora na Consolação. Depois, revoga tudo o que disse e também todas as disposições em contrário.

O problema é que a Marinha britânica só vem amanhã, ela deixa escapar de repente.

– Amanhã? E você vai ficar aqui sozinha?
– Não, não. – Ela olha para os lados, apreensiva, e sussurra: – Eles estão aqui.

Silêncio. Momentos de suspense. Chego mais perto. Com os olhos arregalados e o tom de segredo, pergunto, meio sem jeito:

– “Eles” quem?
– Eles!

Dona Rosa fica impaciente e responde mais alto, bem brava, como se eu fosse maluca:

– Você não está vendo? Está cheio de gente aqui!

**

– Bem-vindo a Le Postiche!
O vendedor usa um grande button no qual está escrito: HUGO.
– Hmm, você está com cara de quem vai viajar.
“Boa, a piada”: foi o olhar de resposta.
– Olha, eu tenho uma mala ótima.

E começa a mostrar um enorme monolito vermelho, uma mala medonha de 1 metro de altura, para esconder bebês e dar pequenas festas infantis, usar como bote inflável, sei lá. “Eu cresço 30 centímetros”, é o que está escrito nela, “basta abrir o zíper”. Hugo continua a discorrer sobre as qualidades do produto, abrindo e fechando a mercadoria, mostrando os compartimentos e falando da durabilidade do material. Ao preço de 224 reais, é a mais cara da loja. Por dentro, parece um caixão. Você compra uma mala para a vida toda e ela também lhe serve na hora da morte.

– Não precisa mostrar, não. Eu não vou comprar.
– Mas não tem problema! Tenho o maior prazer em atendê-la! Veja só que linda frasqueira.
– Não, eu não vim comprar nada, eu…
– Ahh! Você veio se esconder de alguém! Deve ser de um mala como eu.

Ele ri, sozinho, orgulhoso de seu trocadilho. Hugo trabalha na Le Postiche da rodoviária e sabe tudo sobre malas. E também sobre frasqueiras, mochilas, bolsas, cintos, carteiras, guarda-chuvas, porta-moedas. Facilidades que você nem supõe que existam (porta-dólares, porta-gravatas, porta-ternos). Veja só esta linda nécessaire – parece um produto comum, senhora, mas quando você abre, ela v…

Em meio à loja lotada, Hugo atende os clientes e vai derrubando coisas pelo espaço estreito. Dentro das malas há enchimentos de plástico, sacolas e jornal amassado. Hugo tira de dentro e vai jogando num cesto quando vende algo – mas nunca consegue fazer o serviço até o final, pois derruba várias pelotas de coisas no caminho. Preocupado em atender um casal, deixa cair um monte de sacos plásticos no chão. Hugo se abaixa para apanhar. Esbarra numa enorme sacola de papel, que tomba perto dele. Derruba uma bolsa. Põe no lugar. Deixa cair cartões, recibos, caixas de papelão e mochilas. Teria que contratar um gandula para segui-lo. A partir de um momento, desiste de recolher os despojos, que vai deixando pelo chão, tendo apenas o cuidado de não pisar em cima de algo importante. Por onde passa, deixa um verdadeiro rastro.

Por pouco, Hugo não cai também.

**

– Hoje é uma moça que vai te acompanhar até a plataforma, seu Cláudio.

– Oba! – responde o velhinho cego, que iria embarcar com a esposa, também deficiente visual, dali a pouco.

A funcionária Rosângela, do balcão de informações, se aproxima dos dois e pergunta qual deles gostaria de segurar seu braço, para que ela possa guiá-los.

– Eu! Escolhe eu! – pede Cláudio, com um sorriso.

A esposa apenas resmunga:

– Ô, velho assanhado! Melhor a moça ficar no meio.

E foram andando, um velhinho de cada lado. Ele, contente à beça; a mulher, meio emburrada. Mas a birra não durou muito: logo estavam se dobrando de rir quando, a certa altura, Rosângela perguntou se o casal tinha filhos.

– Não, moça – disse Cláudio. – Sabe o que é? É que a gente já casou com a validade vencida…

***

A pergunta é feita a um vendedor de milho cozido, em frente à rodoviária: “Tem água, tio?” Com uma expressão das mais sérias, ele tira a tampa da enorme panela onde as espigas cozinham em água fervente, e diz:

– Ôpa. Claro que tem. Só que está um pouco quente.

***

– Ninguém nunca conseguiu provar nada contra ele. Falam, falam, mas ainda não provaram que ele rouba.

Estava sentado num dos bancos do lotação Jardim Pery Alto-Tietê.

– Por isso eu vou votar no Maluf. Sempre apoiei ele, desde 1982.

Conversava com outro senhor grisalho; sua careca se movia como se estivesse discursando no parlamento romano. Não estava. Apertou os olhos e mostrou um porta-documentos de plástico.

– Vou votar nestes aqui: delegada Rose e Nelo Rodolfo. Grandes pessoas. E simpáticos.

O companheiro fez menção de dizer algo, mas ele continuou:

– Este documento aqui é da minha namorada. Fui ver a mulher ontem. Ela mora no Imirim, uma delas; a outra é de Cidade Tiradentes. Paula, o nome dela, moça muito bonita: tem olhos azuis.

Não faço idéia a qual das duas ele se refere.

– Porque é paulistana da gema, por isso é que é boazinha, se bem que a outra é de Belém do Pará. Pelo menos não é baiana, nunca mais caso com baiana.

O homem já falava alto. O topo de sua cabeça se voltava para todos os pontos cardeais quando ele se exaltava. O senhor sentado na poltrona ao lado limitava-se a assentir.

– Eu casei com uma baiana terrível – o monólogo continua. – O nome dela era Felizarda. Ela controlava a minha vida, a mulher só queria o meu dinheiro. E olha: era feia…

Riu, obviamente sozinho. Àquela altura, a lotação inteira escutava ou fingia não escutar, com o olhar parado em algum dos poucos fios de cabelo que lhe restavam.

– A minha irmã se chama Dirce – prossegue, com o indicador suspenso no ar, como se estivesse dando uma lição de moral. – A Dirce dizia para eu largar a Felizarda. E eu não largava. “Nilso”, ela dizia, a minha irmã, não a Felizarda, “ninguém pode ficar mandando na sua vidinha, não.” Mulher é uma peste, mulher nenhuma presta. Não é verdade? Todas elas.

Um dia ele tomou coragem e largou a Felizarda, no ano da graça de 1995, como pudemos atestar, e desde então se ocupava das coisas de sempre.

– Mais tarde eu vou para casa, tomo meu banho, coloco bermuda e escuto música. A Dirce, que é a minha irmã, também gosta de sertanejo. Eu já fui no Raul Gil cantar a música do Daniel, Meu reino encantado. E amanhã eu vou ao bingo.

Fazia tempo que ele não ia ao bingo, segundo o que eu e as duas senhoras sentadas à frente do homem pudemos apurar. Não tinha sabonete nem pasta de dente para levar de prenda, só que desta vez lhe disseram que não precisaria.

– Foi a Rosinha que me disse, Rosinha é companheira minha, eu encontrei ela na estação do metrô. De vez em quando eu vou catar latinha de alumínio no Tietê, ontem consegui dois reais e comprei um bife.

Só então percebeu que o homem ao lado estava de pé, indicando que queria passar. “Já vai descer?”, perguntou, recebendo uma resposta afirmativa, murmurante e de olhos baixos. Recomendou lembranças aos parentes e, enfim, deixou o outro escapar.

***

O movimento de saída dos paulistanos que pretendem deixar a cidade neste feriado de Carnaval / Páscoa / Natal já é intenso nas principais rodovias. De acordo com a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), o trânsito é lento nos principais corredores da cidade, entre eles as Marginais Pinheiros e Tietê, pistas expressa e local, em ambos os sentidos e em praticamente toda a extensão. Nesta manhã/tarde, foram registrados ____ quilômetros de lentidão. A previsão é de que ____ carros deixem a cidade até amanhã.

A Polícia Rodoviária Federal informa que o movimento já é intenso na rodovia ____, para quem deixa a capital. A Ecovias, empresa que administra as rodovias Anchieta e Imigrantes, informou que ____carros utilizaram o siste-ma até as ____ horas, em média de ____ por minuto, quase ____ por segundo. A Ecovias prevê um total de ____ veículos até o término do feriado, dependendo das condições do tempo na capital.

Já a rodovia ____ apresenta lentidão por conta de um acidente envolvendo um ____ e um elefante, por volta das ____ horas de hoje. O motorista deve evitar o trecho interditado, que vai de ____ a ____. As informações são de que a pista deve ser liberada a partir das ____ horas, horário de Brasília.

Os três terminais rodoviários da cidade apresentaram movimento tranqüilo. De sexta até quar-ta–feira, ____ mil passageiros devem embarcar e desembarcar nos terminais do Tietê, Barra Funda e Jabaquara. Só no terminal do Tietê, foram ____ mil pessoas, ____ crianças e ____ animais peçonhentos. Estima-se que ____ mil pessoas sairão da capital entre sexta e sábado, embarcando nos três terminais. Esse movimento é ____% maior que o do ano passado.

O rodízio de veículos da capital está suspenso hoje e na segunda-feira.

***

A industrialização e o desenvolvimento urbano aceleraram as migrações no Brasil a partir da década de 50. Foi quando milhões de pessoas saíram de sua terra em busca de um emprego em São Paulo, para tentar “botar filho no colégio, dar picolé na merenda, viver bem civilizado, pagar imposto de renda” – nas palavras de Tom Zé -, “ser eleitor registrado, ter geladeira e tevê, carteira do ministério, ter CIC, ter RG”. Durante muito tempo, elas continuaram vindo e por aqui ficaram. Hoje, tentam voltar para casa, nem que seja apenas para passar o Natal.Há vinte anos Ivonete não vê a filha mais velha, que deixou na cidade de Entre Rios, na Bahia. Apenas no final de 2002 é que ela conseguiu o dinheiro necessário para a passagem. “Eu pensava: será que vou morrer, será que nunca mais vou ver a menina? Mas graças a Deus ainda estou aqui”, disse, sentada no chão junto aos dois filhos e ao marido. “Tenho medo de que a minha filha não me reconheça.”

Ivonete e José Fernando vieram para São Paulo em 1982, com um bebê de 6 meses. Deixaram na Bahia a filha mais velha. José exerceu a profissão de pedreiro enquanto ainda era moço. Hoje, aos 55 anos, trabalha “por conta” e lamenta não encontrar serviço desde 1995. “Ninguém me dá trabalho porque sou velho”, diz. Após uns instantes de silêncio, ele ergue os olhos em direção à esposa e confessa, meio sem jeito: “Sessenta e cinco latinhas é 1 quilo. Mas até para catar latinha tem concorrência.”

Ivonete, elegante em sua saia comprida, sandália e cabelos presos num coque, dedos do pé pintados de cor-de-rosa, interrompe a melancolia e diz que finalmente vai rever o pai, de 82 anos, e a mãe, de 73. Rindo pela primeira vez, ela conta a história dos dois: “São uma comédia. Ele faz uma coisa e ela vai e desmancha. Ou então ele liga para mim dizendo: ‘Sua mãe arrumou outro namorado. Ela está estranha.’ Daí, logo em seguida, a velhinha entra na sala e começa a tirar o pó das coisas. O marido olha para ela e, sem reconhecê-la, resmunga: ‘Ainda bem que agora tenho outra mulher.'”

Ivonete gostaria de poder visitar mais parentes (uma irmã em Aracaju e um irmão no Rio), mas não tem dinheiro suficiente. Dessa vez, vai apenas a Entre Rios e leva parte da família – dois filhos. José vai passar o Natal em São Paulo com a outra menina do casal.

O caçula, de 6 anos, ouve a conversa sentado em cima de uma mala. Ivonete comenta que ele está triste e cansado. São quinze para as oito da noite e o ônibus sairá às 22 horas. A ansiedade é tamanha que todos concordaram em sair de casa bem cedo, apenas para dar impressão que partiriam mais rápido. Nenhum deles gosta de São Paulo: o sonho é poder vender tudo e voltar para Entre Rios.

“Aqui é um lugar ruim”, explica José. “Minha filha Ivanilda foi fazer um trabalho pra escola e teve que entrevistar uma mulher do bairro. Tocou a campainha da casa, e a velha soltou os cachorros.”

Todos riem, e ele acrescenta: “Ô! É sério.” Diz que nem para passar informação as pessoas olham nos olhos. E, quando o fazem, ainda dão as indicações erradas. De propósito.

Ivonete terá pela frente 34 horas dentro de um ônibus, num calor de cortar em fatias, carregando um menino pequeno. Disse que era a última chance de levar o Felipe, porque criança de até 6 anos viaja de graça. Não paga, mas não tem cadeira: vai no colo da mãe, o caminho inteiro.

Assim como ele, outros tantos nenês, caixas, crianças, mães e sacos de batata espalham-se pelas plataformas de embarque: 640 mil pessoas, só naquela semana de feriado. Os destinos são em geral cidades distantes, quase inexistentes, esquecidas pelo resto do mundo. “Ninguém sabe o que significa Natal enquanto não o passamos em alguma terra estranha”, disse Hemingway. E ele nem conhecia São Paulo.

***

Aos 26 anos, Edilene abandonou a família em Boa Vista do Tupim, na Bahia, para se casar com o namorado e morar em São Paulo. Desde então, só voltou à cidade uma vez, há cinco anos, para rever os parentes.

No Natal de 2002, levou toda a família para casa: marido, cunhado e três filhos, de idades entre 7 e 10 anos (Elisiana, Eli Renan e Elenilsa, todos falando ao mesmo tempo). Cada passagem custou 130 reais, só ida. Tempo para fazer as contas. No total, a barulhenta família da letra “E” gastou (ida e volta) 1 560 reais.

Sorridente, sentada num canto da plataforma, Edilene protege todos os quilos de comida, roupas e presentes espremidos nas malas. Ainda faltam duas horas para o embarque. Depois, é só esperar mais 31 horas dentro do ônibus, esvaziando progressivamente as sacolas de lanche para, enfim, às cinco da manhã do dia 25 de dezembro, desembarcar em Boa Vista do Tupim.

Como a família de Edilene, todos os passageiros do lotado corredor de embarque Norte e Nordeste passarão o Natal dentro de um ônibus. Mas vale a pena – é o que todos dizem. “A gente chega lá e o prefeito faz festa, leva conjunto e sempre tem baile”, explica Edilene. Apesar da carência de chuva e de recursos na região, a família adora Boa Vista do Tupim e planeja voltar a morar lá, um dia.

Enquanto não conseguem dinheiro suficiente para deixar São Paulo de vez, gostariam apenas de poder voltar todo ano. “Demora tanto que dói”, diz Edilene.

***

Um rapaz tímido, de camisa social e sapato engraxado, todo arrumadinho, encolhe-se numa das cadeiras das plataformas de embarque. Seu nome é Émerson, ele é mineiro e estuda engenharia civil em Jundiaí. No começo, limita-se a responder às perguntas e então se cala. Tem as mãos juntas e a fala mansa. De repente, sem precisar de incentivo, desanda a contar sobre a paixão por Ipatinga, cidade onde nasceu, e pela família – que não vê há quanto tempo? – “Dois-meses-e-seis-dias”, retruca, prontamente.

Conforme ele vai falando sobre a terra natal, o sotaque fica mais forte. A cada três frases, dá um jeito de incluir na conversa a saudade que tem da mãe e do frango com quiabo que ela prepara. Émerson é o primeiro da família a cursar uma faculdade. Embora tenha um bom emprego de estagiário numa construtora, gostaria de poder largar tudo e voltar imediatamente a morar em sua cidade. Por enquanto, a caminho de lá, não quer pensar nisso e apenas continua descrevendo o frango com quiabo, o espetinho de queijo e o leitão à pururuca que estarão esperando por ele.

Desde as cinco e meia da tarde o garoto está ali, sentado, na maior expectativa. O ônibus só sai às 19h50. Émerson expressa a ansiedade com os dedos, que destroem a fita adesiva marrom de uma caixa e alisam febrilmente suas abas fechadas. “Cesta de Natal para a minha mãe”, explica. “Grudei fita adesiva em volta da caixa inteira, para ficar bem difícil de abrir durante a viagem. Do jeito que eu sou voraz…”

A viagem inteira, de Jundiaí até Ipatinga, dura dezessete horas. Ou melhor: nem sempre, porque a ida é mais comprida. Como assim, mais comprida? “Demora um montão, uai, é psicológico”, ele diz. Depois torna a ficar calado, esperando em silêncio a hora de partir.

[trecho de O Livro Amarelo do Terminal, CosacNaify, 2008]

Último Segundo – SP
01/07/2008 – 16:28

por Marco Tomazzoni

SÃO PAULO – Para um jovem autor, publicar o primeiro livro pode ser considerado um desafio. Dois ao mesmo tempo, então, é algo quase impensável. Pois para a paulistana Vanessa Barbara, 26 anos, aconteceu assim mesmo: chegam quase simultaneamente às livrarias “O Livro Amarelo do Terminal” (CosacNaify, 254 pgs) e “O Verão do Chibo” (Alfaguara, 120 pgs, escrito em parceria com Emilio Fraia), que serão lançados nesta semana na 6ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip.

A trajetória até as prateleiras percorreu um caminho breve, mas acertado. Dona do “Hortaliça”, espécie de fanzine publicado “de quando em quando” na Internet desde 2002, Vanessa chamou atenção na web pela mistura surreal de textos que vão desde a “gestação dos sapos” à “força de aceleração centrípeta do rodopio das baianas da Viradouro”.

Tradutora e também jornalista, é colaboradora desde a primeira edição da revista piauí, onde já escreveu, como mesmo conta, reportagens sobre “hipnose, telemarketing, astrologia, ioiô e anões”. A singularidade desses assuntos se reflete nos textos, uma mistura de inusitado, fantasia, nonsense e lirismo.

A necessidade de um trabalho de conclusão de curso motivou a autora a procurar tema para um livro-reportagem, e o resultado foi um relato original da minicidade que é o Terminal Tietê, em São Paulo, a maior rodoviária da América Latina. Entrevistas, material de arquivo, relatos tocantes e personagens curiosos são costurados capítulo após capítulo naquilo que foi descrito pelo documentarista João Moreira Salles como um “épico do transporte viário”.

O paralelo com “O Verão de Chibo”, apesar de uma leve proximidade no absurdo das situações, não é automático. Enquanto os causos do terminal são crônicas, produzidas em sua maioria em 2003, “O Verão do Chibo” é a estréia de Vanessa na ficção, ao lado do amigo Emilio Fraia. O romance, iniciado numa oficina da Flip de 2004 e concluído recentemente, narra as fantasias de um garoto durante suas férias no campo. Imerso na mata e em um milharal, ele maquina tramóias secretas que envolvem caras mortos, aventuras marítimas, conspirações no reino da Bulgária e o sumiço de seu irmão Chibo, em uma narrativa nada infantil sobre a chatice do amadurecimento.

Vanessa participa na quinta-feira (03), às 10h, da primeira mesa de debates da Flip. Ao lado dos também escritores Michel Laub, Adriana Lunardi e do parceiro Emilio Fraia, ela representa uma parcela da nova geração da literatura brasileira. Em entrevista por email ao Último Segundo, a autora falou sobre seus dois trabalhos publicados, motivações, a cumplicidade com Fraia e, nas respostas, dá um gostinho do texto que vem arrebatando crítica e admiradores.

Por que fazer um livro sobre a rodoviária de São Paulo?
Queria fazer um livro sobre as ruas de São Paulo, mas teria que falar de calçadas, semáforos e meios-fios, então acabei escolhendo a rodoviária porque é o lugar que mais se parece com a rua. O terminal traz histórias que ilustram contradições da metrópole: a modernização, o movimento repetitivo das pessoas que vão-e-vêm sem pensar, a inconstância, a idéia de massas; e, por outro lado, a sensação de não-pertencimento, a vontade de retornar ao lugar de partida, o anacronismo dos personagens, a permanência – aquilo que nunca muda. “Tietê” vem do tupi: “té é té”, um rio que se mostra “muito fundo e corrente” e corta a cidade.

“O Livro Amarelo do Terminal” é descrito como um livro-reportagem, mas não é um exemplar “específico” do gênero. Como você o define? No início ele tinha mesmo a intenção de ser essencialmente material jornalístico?
É um livro-reportagem com crise de identidade, disfarçado de lista telefônica. Foi um projeto experimental de conclusão do curso de jornalismo, que inicialmente era pra ser de crônicas. Aos poucos, foi virando outra coisa porque a pura observação não seria suficiente: eu teria que falar com as pessoas e fazer recortes, inserir diálogos, inventar capítulos e pesquisar bastante. De qualquer forma, gosto do gênero (crônica) e tentei misturar os registros tanto quanto possível.

Como foi feita a pesquisa para o material histórico do livro?
Fui atrás de recortes de jornais da época, o que é muito mais difícil do que parece. Encomendei uma pesquisa no arquivo da Folha de S. Paulo e microfilmei exemplares do Estadão no Arquivo do Estado. Encontrei edições de A Gazeta da Zona Norte numa biblioteca municipal em Santana. Copiei outras coisas e fui achando clippings do Jornal da Tarde e da revista “A Construção São Paulo” na Casa da Memória Paulistana. Foi um processo lento e difícil, com ofícios e telefonemas para todos os lados. Também pesquisei na internet e procurei testemunhas da inauguração do terminal.

Quais foram as experiências mais incríveis que você vivenciou na rodoviária? É surreal como você descreve ou o texto está um pouco temperado?
Quatro freiras consecutivas e uma senhora que acende velas no Malex é uma coisa incontestável. Talvez eu tenha um olhar esquisito para selecionar os fatos, sim, mas qualquer cidadão respeitável que espera um ônibus no Tietê pode ver que alguma coisa não está bem. A rodoviária é uma cidade profunda e corrente que corta a metrópole, cheia de falas solenes, histórias estranhas e gente perdida.

Você lança também na Flip um livro com Emilio Fraia. Como essa história começou? E de que maneira essa parceria foi operacionalizada: vocês escreviam juntos ou trocavam colaborações? Dá para reconhecer o que é de quem no resultado final?
O Emilio tinha um fanzine na Internet chamado “Givago” e a Vanessa escrevia “A Hortaliça”. Começamos a trocar emails e descobrimos que morávamos no mesmo bairro (o Mandaqui) e fazíamos a mesma faculdade, o que era uma coincidência incrível – é um bairro tão longe que segue até um fuso horário diferente. Um dia, escrevemos juntos um conto sobre o sumiço de um vibrafone. Participamos de uma oficina literária com o Milton Hatoum, na Flip de 2004, e enviamos projetos de romances para concorrer a uma bolsa. Naturalmente não ganhamos porque o livro da Vanessa continha trechos do “Manual de refrigeração e ar condicionado” (Editora Fulton, 1329 pp.), e o do Emilio tinha como protagonista um isqueiro. Depois de suportar o peso da nossa genialidade incompreendida, tivemos a idéia de fazer um romance que começasse com um tiroteio de balas de goma. Começou assim. A idéia inicial era escrever um livro que falasse da dificuldade de dizer coisas importantes, de se comunicar com o outro e de criar besouros campeões. O Emilio escrevia um trecho, eu sapateava e devolvia por email. Foi um processo lento que demorou 2 anos e meio. Hoje não sabemos quem fez o quê, e se tal trecho é meu ou do Emilio. Há certas passagens que não fazemos idéia de quem é a culpa.

Como foi para você mergulhar no universo de um menino? Foi fácil enxergar por esse olhar ou, para você, o ideário é similar ao de uma garotinha?
Não vejo diferenças… o narrador (Menorzinho) é confuso e assustado, e odeia brincar de esconde-esconde. Eu fui um Menorzinho e o Emilio também. Nós repartíamos o cabelo ao meio. Nunca vi muito sentido em falar de “literatura feminina”, senão teria que me incluir na turma da “literatura de baixinhos” e “literatura de gente que não sabe falar ao telefone”.

Como é que você define a “Hortaliça”? É o caso de chamar de almanaque mesmo?
É o único periódico do mundo que sai “de quando em quando” – quer dizer, possui uma periodicidade definida, os leitores é que não sabem. Ela é baseada na gestação dos sapos e na força de aceleração centrípeta do rodopio das baianas da Viradouro. Enfim: é uma mistura de fanzine com almanaque e jornalzinho, com textos alheios tirados do contexto e textos próprios sem razão de ser.

O seu trabalho na Internet ajudou bastante para que você conseguisse ser publicada, com dois livros praticamente simultâneos? Ou é resultado de um trabalho contínuo no ramo jornalístico e editorial?
O “Livro Amarelo” foi escrito em 2003, então não se pode dizer que foi exatamente simultâneo. Mesmo assim, tudo influi, tanto a internet quanto a experiência jornalística (na revista piauí) e editorial (comecei como preparadora de originais na Companhia das Letras e na CosacNaify, depois fui fazendo aparatos e traduções). A “Hortaliça” me ajudou muito porque é um meio onde se pode escrever o que dá na telha na hora que quiser e para quem quiser, então a liberdade é única – tanto que a edição “bobice indomável” atingiu recordes de audiência.

O que transpassou de um livro para o outro? Você nota influências do “Livro Amarelo” no “Verão de Chibo” e vice-versa?
Acho que os dois têm muita coisa em comum, principalmente no olhar. É claro que todo mundo quer ter um estilo tão particular que inviabilize as cartas anônimas – mas é uma pergunta difícil de responder. Não sei, espero que sim.

E agora a parte fácil (ou não): quem são teus heróis na literatura, que influenciam teu trabalho?
Para o “Livro Amarelo”, li muitos jornalistas literários e escritores como Joseph Mitchell, Gay Talese, Truman Capote, Hemingway, John dos Passos, João do Rio, Rubem Braga, Luis Fernando Verissimo, George Orwell, Charles Dickens e até um quadrinista, o Will Eisner. Na literatura, gosto de Flaubert, Cortázar, Borges, Kafka, Campos de Carvalho, Cervantes, Sterne, Drummond, Poe e Lewis Carrol.

O Verão do Chibo – Playboy

Posted: 1st julho 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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Revista Playboy
01/07/2008

Flip 2008 – Recortes

Posted: 1st julho 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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Vanessa Bárbara é jornalista. Chegou a cursar Ciências Sociais, mas não concluiu. O Livro Amarelo do Terminal, que será lançado pela Cosac & Naify durante a FLIP foi seu trabalho de conclusão na faculdade de Jornalismo. Sua vida profissional começou na Companhia das Letras como preparadora de originais, atividade que ainda exerce. Aos poucos foi se envolvendo em outras fases do processo de produção de livros além de começar a fazer traduções. Cabeça-tubarão, de Steven Hall (Companhia das Letras) é um exemplo. Atualmente está traduzindo Três vidas, livro de novelas de Gertrude Stein que será lançado pela Cosac & Naify e o Guia da Molvânia, com lançamento previsto para o final do ano pela Companhia da Letras.

Em sua primeira participação na FLIP, Vanessa Bárbara chega com tudo. Além do O Livro Amarelo do Terminal e O Verão do Chibo (Alfaguara, 2008), escrito em parceria com Emilio Fraia, Vanessa preparou o livro de José Miguel Wisnik e revisou a segunda prova do livro de Humberto Werneck.

Vanessa trabalha como jornalista para a revista piauí (com letras minúsculas mesmo) desde o primeiro número. Escreve reportagens, esquinas, horóscopos e o que mais aparecer. “Por causa da piauí, tenho diplomas de hipnose, telemarketing e astrologia, cobri campeonato de ioiô e maratona de samba, enfim, só coisas realmente relevantes” diz ela.

A idéia do livro O Verão do Chibo escrito em parceria com Emilio Fraia, surgiu durante a FLIP 2005, quando os dois participaram de uma oficina literária ministrada por Milton Hatoum. Em 2006 começaram a escrever.

Há seis anos e 72 edições, Vanessa mantém a Revista Eletrônica A Hortaliça. Mora no Mandaqui, bairro da Zona Nordeste de São Paulo e não gosta de polvo.

Participação na FLIP
Quinta-feira, 03 de julho
10h – Mesa 1 – Primeiro Tempo
Adriana Lunardi, Emilio Fraia, Michel Laub e Vanessa Barbara, Mediador: João Moreira Salles