Mundos em miniatura

Posted: 28th junho 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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RODAPÉ LITERÁRIO

São Paulo, sábado, 28 de junho de 2008
MANUEL DA COSTA PINTO

COLUNISTA DA FOLHA

 


Romance de Emilio Fraia e Vanessa Barbara e livro-reportagem da escritora marcam estréia literária


 

COM UMA ficção em parceria com Emilio Fraia e uma reportagem em tom de crônica, sobre o terminal de ônibus do Tietê, em São Paulo, Vanessa Barbara conseguiu fazer miniaturas de mundo com experiências localizadas no tempo e no espaço. É essa sensibilidade para o minúsculo que chama a atenção em dois livros recém-publicados.

O romance “O Verão do Chibo” foi saudado por conta da autoria a quatro mãos, mas não se percebem grandes alternâncias estilísticas. Sua qualidade é de outra ordem: reside na capacidade ímpar de incorporar o olhar de um garoto que transforma seus jogos com os amigos em aprendizado das relações afetivas e sociais.

O enredo se passa durante as férias do narrador e se desenrola quase exclusivamente num milharal em que os meninos da turma (incluindo Chibo, seu irmão mais velho) travam uma guerra de brincadeira. O intervalo de tempo (férias de verão) e o recorte geográfico (sítio interiorano) compõem um “correlato objetivo” da infância: materializam ficcionalmente o período de duração de fantasias que logo se chocam com uma realidade “adulta” pressentida apenas por seus efeitos -e que por isso permanece ameaçadora.

Aparece no livro aquilo que faz parte de um imaginário clássico da infância: a casa no tronco da árvore, a “zona proibida” e a transformação de tampas de garrafa e miolo de pão em utensílios de uma micro-sociedade com hierarquias e coordenadas próprias.

Sem cair numa linguagem infantilizada, Fraia e Barbara -que estarão na Flip- não se desviam do horizonte mental da criança que lida com o desaparecimento de Chibo ou com o surgimento de “homens barbudos de galochas” como capítulos de um enredo fantasioso.

Mas, ao longo do livro -que não deixa de ser um romance de formação em chave lúdica-, o narrador vai conectando esses seres alienígenas e acontecimentos misteriosos ao mundo de fora, aos lavradores que trabalham no milharal e ao fato de que “a gente passa pro outro lado”.

E o que encontramos do outro lado é justamente o caótico jogo adulto que Vanessa Barbara reconstitui em “O Livro Amarelo do Terminal”. Com base em reportagem sobre o terminal do Tietê, ela reuniu um caleidoscópio de histórias sobre pessoas que passam pelos corredores desse formigueiro humano, sobre as siglas e os códigos que regem um microcosmo cuja estrutura administrativa emula os meandros mais sinistros de nosso sistema político. Enfim, um outro mundo em miniatura, cujo lirismo e disparate nada ficam a dever às fantasias e traumas da infância.


O VERÃO DO CHIBO
Autor:
Emilio Fraia e Vanessa Barbara
Editora: Alfaguara
Quanto: R$ 23,90 (120 págs.)
Avaliação: bom

O LIVRO AMARELO DO TERMINAL
Autor:
Vanessa Barbara
Editora: Cosac Naify
Quanto: R$ 35 (256 págs.)
Avaliação: bom

O Verão do Chibo – Guia da Folha

Posted: 27th junho 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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Folha de S. Paulo – Guia da Folha
27/06/2008

Chibo, seus pais & o verão

Posted: 23rd junho 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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Segunda, 23 de junho de 2008, 08h22
Terra Magazine
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2965917-EI6787,00-Chibo+seus+pais+o+verao.html

Paulo Scott
De Porto Alegre (RS)

Alguns me acusam de usar as indicações de leitura deste espaço como subterfúgio para empurrar goela abaixo do leitor minhas convicções de ordem política, acadêmica, existencial etc. Não é verdade, procuro apenas mostrar o contexto que justificou minha escolha de leitura e recomendação.

Diferentemente do cinema, ou do teatro, a literatura é algo que o seu idealizador resolve sozinho, basta algumas folhas de papel e uma caneta ou, no máximo, um computador que funcione. Tem um cineasta gaúcho que, em nossas conversas, sempre enfatiza ter como principal meta ser escritor, pois quando isso acontecer não dependerá mais de ninguém, será o governante absoluto da sua criação, será o autor, autor com letra maiúscula.

Há um quê de vaidade nessa pretensão.

Um diretor de cinema, dentro dos padrões ordinários dessa sua arte, jamais poderá dizer “este resultado é 100% meu”, pelo simples fato de que jamais poderá executar todas as funções sozinho (estou simplificando?).

No fundo, é uma questão de autoria. Um escritor não precisa de equipe (os revisores não contam, sua função é o acerto gramatical), escritor gosta da noção de que tudo a ser criado na sua obra dependerá exclusivamente dele, o peso de um mau resultado será exclusividade sua também.

Daí o ângulo esdrúxulo de uma obra literária dividida a quatro, seis, oito mãos. É necessária uma generosidade (e também uma parcimônia) fora do natural da atividade. Não bastarão conselhos, dicas, sugestões.

Há perda de autonomia quando há pluralidade de julgamento: há concerto em sua plenitude. Há risco de não haver personalidade. E o leitor a quem acusará? E a marca do escritor? Conjecturas para destacar a atualidade.

Num mundo em que o rótulo da autoria perdeu sua pompa, pois tudo é rápido demais e apropriável demais – a não ser que haja uma revolução autoritária (não é minha intenção o trocadilho) que aniquile a circulação quase plena conquistada pela internet -, a tendência é o concerto (o verbo como manifestação cultural é concerto, surge do que nos foi emprestado por outros).

A internet possibilita o compartilhamento como não havia antes, e dessa dinâmica, me parece, surge uma preocupação abrandada quanto ao que de fato pertence a um, a outro. Penso que se acentua o que é mais propício ao diálogo, à troca. Mas não vamos longe.

Semana passada, ganhei de presente um exemplar da obra “O verão de Chibo” (Rio de Janeiro: Alfaguara, 2008), escrito pelas mãos de Vanessa Barbara e Emilio Fraia. Li as perto de cem páginas de textos em menos de vinte e quatro horas e gostei bastante do resultado. Deixo de lado a constatação óbvia de que tudo é uma questão de gosto – sei de amigos que detestariam a ousadia narrativa do livro -, para salientar que a história engendrada pelos co-autores está na linha do que considero o que há de mais aprazível na literatura contemporânea (não apenas a nacional).

Onde pretendo chegar?

“O verão de Chibo” é um livro feito a quatro mãos e que funciona bem. Não é original – outras parcerias notórias já ocorreram (e outras ainda ocorrerão) no curso histórico da literatura -, mas é exitoso e me fez imaginar como é possível a generosidade na criação literária. Teimo em achar que em uma criação desse tipo o seu processo jamais se justificará apenas na amizade.

Parece-me que se trata de perceber limites e desfazê-los, de outorgar ao outro a condição de destino e vivê-lo na falta de autonomia de buscar ser um só: ser o outro até quando ele esquece como é ser a parcela desse concerto.

Eis um livro maduro – muito bom de ler – saído não apenas do talento de seus condôminos, mas de uma escolha sem vaidade (tendo a acreditar) que demonstra um progresso, notável e sem retorno: uma experiência; válida, ainda que nesse terreno tão singular, e sem placa de vende-se, onde ardem as fogueiras da literatura.


Paulo Scott é autor de Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros (Sulina, 2001), sob o pseudônimo Elrodris. Também publicou o livro de contos Ainda orangotangos (Livros do Mal, 2003; Bertrand Brasil, 2007), Voláteis (Objetiva, 2005), A timidez do monstro (Objetiva, 2006) e Senhor escuridão (Bertrand Brasil, 2006).

Fale com Paulo Scott: pscott@terra.com.br

As vozes originais da Flip

Posted: 21st junho 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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O Estado de S.Paulo
21/06/2008

por Ubiratan Brasil

Grandes nomes internacionais são habitualmente o grande atrativo da Festa Literária Internacional de Paraty, cuja sexta edição começa no dia 2. E, neste ano, o leque vai do dramaturgo inglês Tom Stoppard à historiadora da

psicanálise Elizabeth Roudinesco. Um olhar mais apurado, no entanto, é capaz de detectar autores ainda não tão conhecidos mas cuja obra, se fosse um time de futebol, certamente estaria na Série A da literatura nacional.

É o caso do gaúcho Vitor Ramil e dos paulistanos Vanessa Barbara e Emilio Fraia. O primeiro, também cantor e compositor, chamou atenção quando lançou Pequod, em 1995, um instigante livro de memórias não apenas sobre fatos realizados, mas também de momentos não experimentados ou então vividos mas não lembrados. Na Flip, Ramil vai discutir sobre sua nova obra, Satolep (Cosac Naify, 288 páginas, R$ 39), uma nova incursão ao passado, dessa vez, de sua cidade natal, Pelotas.

Já Vanessa e Fraia encontraram uma rara afinidade estilística para escrever O Verão de Chibo (Alfaguara, 120 páginas, R$ 23,90), uma pequena jóia que trata dos mistérios que cercam o amadurecimento. Juntos, eles vão participar da primeira mesa da Flip, no dia 2, que vai reunir ainda Adriana Lunardi e Michel Laub. Chamado de ‘Primeiro Tempo’, o encontro deve discutir o trabalho dos autores que já podem ser incluídos entre os mais originais da nova geração nacional.

Ramil, que vai dividir o debate com o americano Nathan Englander e o argentino Martín Kohan, no dia 3, trabalhou com músicos e arranjadores como Egberto Gismonti, Wagner Tiso, Luis Avellar, Zizi Possi e Tetê Espíndola, entre outros. Graças a um estilo apurado, era inevitável sua incursão pela literatura, instrumento pelo qual cria diários de viagem em que a sensibilidade conduz a ação, em vez de se limitar a um retrato fiel do passado.

A escrita da região do Rio da Prata também influenciou Vanessa Barbara e Emilio Fraia, que miram no feliz encontro dos argentinos Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares. Estes, unindo idéias e estilos, alcançaram uma voz narrativa coesa. ‘Quando duas pessoas escrevem juntas, e não são vaidosas, o resultado é melhor do que quando trabalham separadas’, disse Casares, abrindo caminho para os jovens paulistanos.

De alunos a escritores convidados

Os caminhos de Vanessa Barbara e Emilio Fraia, apesar de muito próximos, demoraram para se cruzar. Ambos nasceram no mesmo ano de 1982, no bairro paulistano do Mandaqui. Embora vivessem a uma distância de 200 metros, demoraram para se conhecer. Mesmo assim, desfrutaram as experiências semelhantes na infância, estudaram na mesma faculdade, mas só notaram uma afinidade quando o fanzine de um começou a chamar a atenção do outro e vice-versa. ‘A idéia de escrever um livro em conjunto surgiu logo que a conheci’, conta Fraia.

O primeiro teste para verificar a possibilidade de um trabalho conjunto aconteceu em 2004, quando Vanessa e Fraia participaram de uma oficina para jovens escritores, ministradas por Milton Hatoum, na Festa Literária Internacional de Paraty – justamente a mesma Flip que agora os acolhe como autores convidados. ‘Mas nosso projeto, em 2004, não foi aceito’, diverte-se Vanessa.

Tratava-se de uma forma original de dar voz a objetos – Fraia, aliás, já havia escrito um conto sobre o sumiço de um vibrafone. Sem desanimar, a dupla não desistiu e, em 2005, iniciou o trabalho que resultou em O Verão de Chibo. O livro concentra-se nas aventuras de férias de um menino que, presume-se, tem 7 anos. Mesmo brincando em meio a um espesso milharal e cercado do amigos, o garoto percebe que se trata de um verão diferente, pois Chibo, seu irmão mais velho, some misteriosamente. Logo, o mesmo parece acontecer com os outros meninos.

A narrativa, no entanto, não é linear, como se um adulto recuperasse instantes de sua infância. Tampouco é a tentativa de recriação por meio de uma voz infantil – Vanessa e Fraia alternam sutilmente o ponto de vista do narrador, que se revela tão surpreendido como os outros personagens com o desenrolar dos fatos. Com isso, construíram uma história sobre a dificuldade de se expressar.

O ponto de partida, segundo Vanessa, foi uma frase de Stephen King, famoso criador de histórias de suspense, para quem as coisas mais difíceis são as que não se expressam. ‘Foi isso que nos guiou a definir o narrador, que sofre com a opacidade do mundo externo’, comenta Fraia. ‘Não se trata de uma narrativa realista, mas a estrutura leva a isso.’

Foi um trabalho exaustivo para unir idéias e definir estilo até alcançar uma voz narrativa coesa. Vanessa e Fraia – que, aliás, não formam um casal, apenas são bons amigos – leram diversos livros de aventura, mas com a intenção de se afastar do veloz ritmo narrativo, típico do gênero. Preferiram a aventura totalmente humana oferecida pela obra de

Gustave Flaubert. O cinema foi outra preciosa fonte de pesquisa, em filmes como Os Incompreendidos, de François Truffaut. Não à toa que a epígrafe escolhida é um diálogo de Brinquedo Proibido, longa de René Clément que mostra como duas crianças criam estruturas mentais para sobreviver ao horror dos combates da 2ª Guerra Mundial.

Também se apoiaram, claro, no trabalho conjunto dos argentinos Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, cuja parceria começou com uma inocente publicidade para um iogurte. ‘Com eles, aprendemos que é preciso ter uma admiração mútua para o trabalho vingar’, observa Vanessa que, na Flip, lança também um trabalho-solo: O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify).

Curiosamente, ao longo do ano e meio que durou o trabalho conjunto, ela e Fraia mantiveram poucos encontros – os acertos eram feitos exclusivamente pela troca de e-mails e telefonemas. Foram inúmeras viagens de texto pela rede mundial, em que a proposta de um era aprimorada pelo outro. Desavenças? ‘Bem, uma vez fiquei assustada quando ele propôs matar um personagem’, lembra Vanessa. ‘Acabei não aceitando.’

Chegaram, por fim, ao livro, que será lançado na quinta-feira, na Livraria da Vila Madalena. E a dedicatória não surpreende: ao Mandaqui, onde, afinal, tudo começou.

Um terno romance a quatro mãos

Posted: 20th junho 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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Valor Econômico
20/06/2008

O verão do Chibo – Pensar Enlouquece

Posted: 20th junho 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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Sexta, 20 de Junho de 2008

O verão do Chibo

Que outro livro é lançado com uma promoção na qual você profere a palavra “pudim” na fila de autógrafos, ganha um desconto de 10% na aquisição de 2 mil exemplares e mais um par de pantufas na forma de brotoejas gratinando picles? O prego, como bem afirmou Manoel de Barros, é uma coisa indiscutível. Da mesma maneira, sequer me passa pela cabeça a possibilidade de que existam pessoas incapazes de vislumbrar sentido nas crises de apendicite e desperdiçar a chance de conhecer pessoalmente Vanessa Barbara e Emilio Fraia, gênios bivitelinos que compartilharam as aulas da Nanami na Cásper Líbero, nasceram no ano da graça de 1982 e acabaram de lançar o livro O verão do Chibo.

O Verão do Chibo, livro de Vanessa Barbara e Emilio Fraia.Emilio e Vanessa, autores profícuos com diversas obras publicadas pela Editora Google, tiveram passagens conturbadas pelas redações da revistas como Trip e Piauí antes de sucumbirem à tentação de buscar escrever o Grande Romance de Formação Ambientado em um Campo de Milho. Isto posto, cabe a mim compartilhar a informação de que esta dupla do barulho, após aprontar altas confusões na Sessão da Tarde gravando covers das guarânias dodecafônicas de Honorio Bustos Domecq, receberá amiguinhos & inimiguinhos para a sessão de autógrafos de O verão do Chibo na quinta, dia 26 de junho, a partir das 19 horas, na Livraria da Vila. Vanessa e Emílio informam ainda que receberão amigos, familiares, penetras e hortifrutigranjeiros para um convescote na Flip 2008, dia 3 de julho, na companhia de Michel Laub e Adriana Lunardi.

Com absoluta exclusividade mundial e após sucessivas e progressivas chantagens emocionais, disponibilizarei, após os indefectíveis cinco asteriscos que dividem os posts deste blog, um trecho de O verão do Chibo, como uma espécie de acepipe caramelizado e coberto com flocos chocantes do livro escrito por Vanessa Barbara e Emilio Fraia.

* * * * *

“Lembro da primeira vez que vi a plantação. O Chibo me trouxe pela mão, me colocou sentado numa pedra. Pediu para eu não sumir de vista, nem sujar a bermuda, e foi com o Bruno para a beira do laguinho apostar corrida de besouro. O sol, alto e mole, castigava o Cabelo que tinha o nariz coberto de pomada. Ele era o juiz e me olhava desconfiado entre um grito e outro da torcida. Tão logo os cascudos cruzaram a linha de chegada (vitória do Chibo sob vaias do Bruno), o Cabelo veio e perguntou se eu sabia o que era uma bolha de sabão. Fiz que não e ele achou graça. Depois me ensinou sua careta favorita, a boca um pouco mais torta, o olho virado, assim, e em pouco tempo eu e o Cabelo tínhamos nosso próprio besouro, que era o mais rápido e desbancou todos os outros do milharal.

Vanessa Barbara, hortifrutigranjeira.“Com o Bruno foi diferente. No início ele mal falou comigo, não me queria por perto. Ou então duvidava que eu pudesse entender o que ele dizia (daí ficava quieto). Depois isso melhorou, mas não muito. Tinham coisas que ele só contava ao Chibo ou em voz alta quando saía entre os pés de milho. O Cabelo também era carta fora, mas a verdade é que ele não dava a mínima: estava ocupado demais com o nosso besouro campeão. O Cabelo era dedicado: adestrava o cascudo Bob falando enrolado. Botava o bicho na parte de cima da mão, prendia uma pata pra ele não fugir e começava a pregar a palavra: bloash-bloblo-bloarshbloblof. Aproximava o rosto para ouvir a resposta e retrucava bloarsh como se estivesse ensinando o besouro a separar as sílabas. No verão em que descobrimos o Bob cochilando debaixo de uma folha, o Cabelo passava as tardes em longos colóquios besourais, levava o mascote para conhecer o Bruno, botava o bicho perto das coisas a fim de ensinar o que eram. Um dia, enfim, parou de segurá-lo pela pata e fez dele o coleóptero mais rápido do milharal. Bob passeava pelos ombros e costas do Cabelo reclamando da vida, o Bob era nosso, o Bob era de nós dois e conquistou todo o mundo (além das competições de triatlo): lembro do Bruno deixando farelo de pão na modesta residência bobiana que ficava num vão da casa da árvore, lembro do estoque de recheios de bolacha que o Chibo e eu juntávamos pra ele, uma pilha em ziguezague de chocolate e morango. Nunca houve um besouro como o Bob. O Bruno e o Chibo viravam dias catando cascudos e testando um por um nas corridas, mas nenhum era tão bom. Além disso, o Bob brilhava no sol, era muito verde e redondo, parecia uma joaninha do submundo. O Cabelo ensinou o Bob a esfregar as patas quando queria comer, treinou o Bob em sessenta centímetros rasos com e sem obstáculos, levantamento de migalhas, natação na poça de cuspe, salto com vara. O Cabelo tornou o Bob sociável: ele ficava paradinho na mão da gente, tomava sol do lado do Bruno, vinha abanando o rabo quando abríamos o pote.

“Engraçado pensar que o Bob quase não voava. Às vezes ele planava, tranqüilo, mas não gostava muito. Preferia praticar atletismo ou apreciar (antes de dormir) a canção ‘Eu Sou um Bolinho de Arroz’, interpretada pelo Cabelo. O Bob, quando descansava direito, fazia um tempo de seis segundos e oitenta décimos, marca inédita em toda a história da plantação. Os demais concorrentes corriam em círculos, afundavam na terra, saíam voando ou chegavam anos depois, molengos e com cheiro de mofo. Bob atravessava a pista com elegância, batia em falso as asinhas e jogava pra lá e pra cá a carapaça imponente. O Cabelo esperava no fim com uma toalha, eu com cinco tipos diferentes de berros, a gente ficava pulando e gritando enquanto o Bruno e o Chibo olhavam feio para a equipe deles — um amontoado de bichos com a mesma cara de pedra, verão após verão.

Emilio Fraia, o Givago-man.“Depois que o Bob morreu de doença nas coronárias, ou problemas abdominais a esclarecer (simplesmente parou e não se mexeu mais), a gente abandonou as corridas porque perdeu a graça. Ainda tentamos cutucar o Bob com um pauzinho, sussurrar bloarsh-boblof com um tom de impaciência (os braços abertos), mas ele tinha ido dormir. Estava cansado. Assim que o Bruno confirmou o passamento do nosso cascudo, confortando o Cabelo com a mão no ombro, observamos um minuto de silêncio. O Chibo não deixou ninguém ficar triste, e o que se viu em seguida foi o funeral mais suntuoso que houve nos lados de cá da árvore toda vermelha: meu irmão fez um discurso comprido, eu virei o meu short do avesso para parecer limpo e o Cabelo cantou ‘Eu Sou um Bolinho de Arroz’, alto e sem chorar, guardando todo o respeito que só as grandes personalidades inspiram. Hasteamos a bandeira e fizemos uma inscrição ao lado da árvore onde o Bob foi enterrado, dentro de uma caixa de chocolates: ‘Aos grandes homens, a pátria reconhecida’.

“Durante o discurso o Chibo falou muitas coisas bonitas, o destino, a pátria, a dura lei das estrelas (e outras que eu não entendi também), mas foi interrompido por um barulho de gafanhotos que crescia e nos cercava. Hoje, quando meu braço ardeu e eu peguei soluço, aconteceu igual. Os gafanhotos. Não dava pra saber de onde vinha o zumbido, vinha de toda parte e de parte alguma. Pensei numa combinação de inimigos; índios, piratas, lagartixas. Ou não é nada disso também, e corri sem saber direito por quê (talvez o Chibo e o Bruno estejam no escuro, do lado de lá, rindo de mim), ou porque eu estivesse exposto e atingido pelas estrelas. Ou perseguido pelo Cara Morto, que não está sozinho, é parte de uma organização invisível; o Cara Morto que manipula as estrelas”.

O inusitado das leituras pré-Flip

Posted: 17th junho 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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O Globo – RJ
17/06/2008

por André Miranda & Télio Navega


16/06/2008
Blog da CosacNaify

“Chegou! É um bebê tão bonito e amarelo e ele pia…
Gente, ficou lindo. É o livro mais vistoso desde Manual de refrigeração e ar condicionado (ed. Fulton, 1366 pp., com diagramas de câmaras frigoríficas). O papel, o “sujinho”, tudo ficou tão bonito que dá vontade de comer.
Obrigada! Vocês são demais. Vamos comemorar na plataforma de desembarque n. 82 com bala 7Belo e maisena.
Cubram-se de icterícia.
v.”
[E-mail escrito por Vanessa Barbara à equipe Cosac Naify: reação ao receber o bebê]

 

“ELA REALMENTE SÓ VIU O LIVRO QUANDO ESTAVA PRONTO. E ADOROU (UFA!)”

Elaine Ramos e Maria Carolina Sampaio comentam a criação do projeto gráfico de O livro amarelo do Terminal, original em forma e conteúdo

Talvez não fosse de se estranhar o desenho gráfico de O livro amarelo do Terminal, reportagem literária sobre a rodoviária do Tietê escrita por Vanessa Barbara, caso nele estivessem fotos de ônibus, rostos de transeuntes, imagens da época de sua construção, em 1982. Seria normal. Mas em absoluto representaria a singularidade narrativa criada pela autora, que opera com habilidade a mescla de estilos aliada a uma incrível profusão de vozes sensivelmente captadas.

Na entrevista a seguir, a diretora de arte da Cosac Naify Elaine Ramos e a designer Maria Carolina Sampaio detalham o projeto gráfico do livro, que recria em traço o texto de Vanessa Barbara.

 

A cor do nome, o nome da cor e os papéis

“Chegou-se ao título O livro amarelo do Terminal por conta do papel escolhido, que faz referência ao tipo usado em passagens de ônibus e em livros de “páginas amarelas”, em que as pessoas buscam informações.

 

 

Internamente, o livro é composto por três tipos de material: na maior parte do miolo, temos o papel amarelo de gramatura menor (APG); em um trecho mais curto, optamos também por um bloco de páginas de papel auto-copiativo, que leva carbono em sua composição, o que recupera a idéia do papel mimeografado (com o manuseio, ficam nele algumas leves manchinhas); por último, um papel roxo (MF), de maior gramatura. Para a capa, optamos por uma cartolina amarela laminada.”

Polifonia gráfica

“Os originais do livro nos chegaram com algumas indicações de onde o texto ganha novas formas, como por exemplo, a separação em colunas; uma nota musical indicando os trechos de canções; algumas palavras escritas em negrito, ou com letra maior. Buscamos, então, criar diferenciações consistentes que atendessem às especificidades do texto.

Praticamente todas as interferências adotadas no projeto gráfico vêm do universo da rodoviária: viagens, logotipos de empresas de viação, pintura dos ônibus, sinalização etc. Usamos também minha coleção pessoal de tíquetes de viagens [por coincidência, Elaine Ramos coleciona há anos bilhetes de viagens, entradas de museus, de eventos etc] e matérias de jornal coletadas pela autora. Mas é importante dizer que todas essas referências foram traduzidas graficamente, e não mimetizadas: evitamos reproduzir simplesmente as imagens ou informações gráficas. A partir daí, procuramos criar uma linguagem própria para o livro.”

 

 

Harmonia no caos

“O grande desafio foi achar uma visualidade que traduzisse a polifonia e a estranheza encontradas na narrativa. Na diagramação das páginas, optamos por um espaçamento maior entre as linhas, de forma que a frente não coincidisse com o verso: como o papel (amarelo) é muito transparente, vêem-se as linhas do verso, num movimento de trás pra frente.

Já na divisão geral dos capítulos, ou seja, no macro da edição, há uma organização muito clara. Combinamos formas geométricas, abstratas e racionais, com a sujeira e o acaso do xerox e da transparência. A soma das duas coisas resultou num contraste parecido com o da rodoviária: o caos da movimentação das pessoas, transeuntes em um arcabouço muito claro e funcional, próprio da arquitetura e da sinalização da rodoviária. Estas características dialogam com um dos traços mais fortes do livro: a diversidade de vozes narrativas, o choque entre as diferentes perspectivas, a vitalidade deste ambiente, que é a maior rodoviária do país; esta “cidade de coisas perdidas”, como escreve Vanessa. Se criássemos um projeto gráfico apenas organizado e competente, seria como ver a rodoviária vazia, sem ninguém.”

Título do Livro

Autor: Vanessa Barbara
Livro-reportagem
Projeto gráfico: 
Elaine Ramos, Maria Carolina Sampaio
Lançamento: junho de 2008
Formato: 21 x 14
254 páginas
Preço: R$ 48,00
Editora: Cosac Naify

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A jovem escritora Vanessa Barbara faz sua estreia editorial com um surpreendente livro-reportagem sobre a rodoviária do Tietê, em São Paulo. Primeira obra jornalística no catálogo da Cosac Naify, O livro amarelo do terminal empreende uma viagem singular ao que seria uma “versão condensada do mundo”, como diz João Moreira Salles na orelha da edição. Valendo-se de recursos narrativos variados, que vão da reportagem clássica ao humor nonsense, o olhar arguto da escritora pinça, em meio ao tumulto, os tipos que passam por lá todos os dias – vendedores, crianças, velhinhas, surfistas -, e registra “uma história oral” do lugar a partir dos fragmentos de conversas colhidas ao acaso. Essa polifonia aparece também no projeto gráfico do livro. Suas páginas amarelas, de gramatura mais fina, brincam com a transparência e a sobreposição parcial das letras. Já os capítulos de cunho mais histórico são impressos em papel semelhante ao carbono, como os dos bilhetes de ônibus. O escritor Antonio Prata atesta: “Vanessa Barbara é a melhor escritora que eu conheço.” Agora, é a vez do leitor se surpreender com seu talento.

PRÊMIOS

– 51º Prêmio Jabuti 2009
Categoria: Reportagem

– APCA 2008
Categoria: Literatura/Reportagem

– AIGA 2009
Prêmio: 50 Books/50 Covers
Categoria: Projeto gráfico
Premiados: Elaine Ramos e Maria Carolina Sampaio

Entrevista: Vasto mundo num só lugar

Posted: 14th junho 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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Ilustração
O Livro Amarelo do Terminal
Lançado em: junho/2008

Entrevista: Vanessa Barbara

Vanessa Barbara apresenta um vasto mundo num só lugar
Por Lívia Deorsola

No dia em que se tornar Deus, a mais idosa das escritoras, Vanessa Barbara, 25 anos, quer transformar o Atlântico em uma sopa de letrinhas (foi o que ela disse ao amigo Antonio Prata). Enquanto isso não acontece, ela mesma escreve o que lhe dá “na telha”, como nos conta na entrevista a seguir. Os leitores agradecem: em O livro amarelo do Terminal, lançado pela Cosac Naify – estréia da autora no universo editorial -, Vanessa desvendou a rodoviária do Tietê de um jeito há muito conhecido e pouco praticado – ousou ouvir e escrever as histórias mais simples, e por isso as mais surpreendentes. Com pinçadas precisas numa massa aparentemente amorfa, o livro resulta em uma rica engenhosidade polifônica, composta por vozes que em geral ninguém ouve – nem mesmo a de Marcos, “a voz mais bonita do terminal”, que costumava pilotar a mesa de controle e anunciar criancinhas perdidas.

Habilmente costurada por meio de pesquisa histórica, saudades, humor, literatura, sonhos, manchetes de jornal, desilusões e letras de música, esta narrativa inclassificável flui de forma que podemos vê-la passar diante de nós. E ouvi-la. Este efeito cinematográfico é pontuado pela autora – às vezes uma repórter invisível; outras, a protagonista de quem os funcionários “mais graduados” da Socicam (empresa administradora do terminal) têm medo. Por causa da “imagem”, claro.

Quais os motivos que a fizeram se interessar pelo terminal rodoviário do Tietê?
A rodoviária foi escolhida por representar São Paulo quase tão bem quanto a própria rua, por trazer histórias singulares que ilustram algumas contradições da metrópole: a modernização, o movimento repetitivo das pessoas que vão-e-vêm mecanicamente, a inconstância, a idéia de massas; e, por outro lado, a sensação de não-pertencimento, a vontade de retornar ao lugar de partida, o anacronismo dos personagens, a permanência – aquilo que nunca muda. “Tietê” vem do tupi: “té é té”, um rio que se mostra “muito fundo e corrente” e corta a cidade.

Você optou por um tipo de abordagem jornalística que dá voz aos que tradicionalmente não a têm: motoristas de ônibus, faxineiras, migrantes, atendentes, vendedores, camelôs. Quando pensou em escrever sobre o Tietê, estava especialmente preocupada em ressaltar isso?
O livro amarelo foi um projeto experimental de conclusão do curso de jornalismo. De início, era pra ser um livro de crônicas – classificado como livro-reportagem por causa da ausência do campo “Outros” no formulário de inscrição. Aos poucos, foi virando outra coisa e eu fui falando com quem conversava comigo, sem distinção.

Poderia nos contar um pouco sobre as abordagens às pessoas? Como eram feitas? Você imediatamente esclarecia a que viera, ou procurava puxar conversa, e então surgia um fio a ser puxado?
Sempre me apresentava e contava o que estava fazendo – embora algumas pessoas puxassem conversa do nada, sem se importar. Em geral eu me apresentava, puxava uma cadeira e era isso: pergunta daqui, pergunta dali, e no fim elas iam falando o que queriam (sobre frango com quiabo, carrapatinhos, miçangas). No segundo ano da faculdade, fiz uma monografia sobre inclusão digital (!) e aprendi um método de sociologia chamado “história oral”, que busca entrevistas abertas sem questionários prévios e sem tempo de duração, deixando o entrevistado o mais confortável possível. O legal é que as pessoas começam a falar das coisas que lhes são realmente importantes, ou pelo menos do que eles querem, e não do que eu acho que deveriam responder.

No livro estão histórias de vida, pura fruição literária, árdua pesquisa jornalística, dados institucionais e até mesmo letras de música da época em que o terminal foi construído. Como foi orquestrar tantos recortes para que fosse montado um panorama da rodoviária do Tietê?

O mais difícil foi encontrar o material – levei semanas para ter acesso às matérias antigas dos jornais em bibliotecas municipais, arquivo do Estado, arquivos pagos, centros de documentação etc. Parece mais simples do que é. De qualquer forma, a pesquisa é a minha parte preferida, e eu adorei ler as matérias antigas. Deu pra sentir o que acontecia na época, e era uma coisa tão absurda que exigia letras de músicas à altura.

Há diversos trechos em que você apenas descreve o que vê; ou seja, a observação foi um método importante. Tem o costume de olhar muito as pessoas a sua volta? Qual é o truque para que ninguém se incomode com isso? (Durante suas visitas ao terminal, alguém teve medo de você?)
Era para ser um livro de crônicas, ou seja, só as minhas observações. Mas não seria o suficiente… Ninguém teve medo de mim porque eu tenho uma inofensiva cara de 15 anos, mas às vezes as pessoas ficavam desconfiadas e demoravam mais para falar.

Num dos episódios, você chega a acompanhar o socorro a um funcionário do terminal. Foi um dia de sorte (para você, claro)?
Não! Foi um atendimento comum, nada grave, e foi bem tranqüilo. Talvez um dos méritos do livro seja justamente o de não ter presenciado nenhum acontecimento suntuoso, embora todas as histórias ali sejam impressionantes.

Ao buscar incansavelmente informações sobre a administração do terminal, você se deparou com respostas que contrariam a lógica da “informação pública e transparente”. Esperava por tanta dificuldade em obter dados?
Pensei que seria tão fácil quanto fazer uma reportagem na rua. O engraçado é que os seguranças e os funcionários do terminal (FTs) não davam a menor bola, mas os funcionários mais graduados ficavam apavorados com essa coisa da “imagem” da empresa. Parecia que, se eu fosse de algum veículo imaginário de imprensa, eles me tratariam com um pouco mais de respeito. Aí criei A Hortaliça, que hoje é um dos periódicos mais respeitados da mídia nacional e interplanetária.

O projeto gráfico de O livro amarelo do Terminal é dos mais originais e capta exatamente o espírito polifônico presente na narrativa.
Chegou a dar algum palpite no desenho do livro? Qual foi a sensação de ver seus relatos neste formato?

É tudo mérito dos editores, especialmente da Elaine Ramos e da Maria Carolina Sampaio. Ficou lindo e perfeito para o texto, é exatamente do jeito que eu queria – o mais incrível é que eu não dei nenhum pitaco. E você pode colar seus comprovantes de bagagem na capa! [Conheça detalhes do projeto gráfico]

Se aqui cabem classificações, sua escrita está identificada com o jornalismo literário. Aqui temos Joseph Mitchell [O segredo de Joe Gould], Gay Talese [Honrados Mafiosos], chegando até o escracho do gonzo journalism, com Hunter S. Thompson. Enxerga algo destas experiências literárias no que você escreve?
Gosto muito desses autores e li todos na época de estudante (para o trabalho também li Hemingway, Orwell, Dickens, Capote, John dos Passos, João do Rio, Rubem Braga, Veríssimo e Will Eisner), mas seria muita pretensão me comparar a eles… só achei que era a oportunidade de fazer alguma coisa diferente e escrever como me desse na telha.

Ao saber de sua idade, todos se admiram: “25 anos e já autora de livros de qualidade”. A constatação te ocupa alguma reflexão?
É que eu tenho cara de 15, RG de 25 e espírito de 80. Sou a mais idosa das escritoras.

Livro editado, histórias contadas. Como se sente hoje ao passar pelo terminal rodoviário do Tietê?
Eu lembro de cada linha. Em “O narrador”, Walter Benjamin disse que todo dia recebemos as novidades do universo, mas somos pobres em histórias notáveis. O mais surpreendente de viajar dentro da rodoviária é descobrir que existem pessoas por lá – e não só estatísticas, notícias sobre a movimentação dos passageiros no feriado ou declarações de telejornal. Durante o trabalho, lembrei de um livro do Rubem Braga sobre a Segunda Guerra em que ele diz: “Encontramos no meio do caminho o general Cordeiro de Farias, que está deixando crescer um bigode, e vamos a uma central de tiro”. Ele fala de um soldado que veio de Monte Aprazível e estava terminando o liceu, de outro que é filho do proprietário das Perfumarias Carneiro, do sargento Domingos Leite que é da Rua Goitacases, 1726 e vai se casar no inverno e daquele que mandou uma carta pra casa “fazendo um enorme lero-lero sentimental do começo ao fim, disse que está morrendo de saudades, viver sem ti é uma desgraça, eu não sei como agüento esta separação, é uma agonia medonha, choro pensando em ti, e no fim de tudo isso meteu um P.S. – ‘manda me contar o resultado do jogo do Bangu'”.

Enfim, a rodoviária é feita de pessoas, todas com uma história triste, uma fala solene, uma observação absurda.