Vovós punks
Posted: 4th setembro 2004 by Vanessa Barbara in Reportagens, Revista TPMTags: Canadá, política, protestos, Raging Grannies
Juizado itinerante
Posted: 14th junho 2004 by Vanessa Barbara in Reportagens, Revista Diálogos&DebatesTags: judiciário, Juizado Itinerante, prevaricação
Cidade dos Exilados
Posted: 1st dezembro 2003 by Vanessa Barbara in Reportagens, Revista Diálogos&DebatesTags: Rodoviária, Terminal, Tietê, transportes
Excerto de O Livro Amarelo do Terminal (CosacNaify, 2008)
Publicado na revista Diálogos & Debates
Dezembro de 2003
por Vanessa Barbara
Às vésperas dos 450 anos de São Paulo, relatos e histórias de gente que veio até a cidade em busca de um sonho
Baixar: Dialogos14_Rodov.pdf
Das revoluções de quitina
Posted: 4th julho 2003 by Vanessa Barbara in TraduçõesTags: Julio Cortázar, literatura, O Livro de Manuel, protestos
Site EmCrise
4 de julho de 2003
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Contra as revoluções de quitina,nada melhor do que a incoerência.
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por Julio Cortázar*
Trad. Vanessa Barbara
(…) Desgraçadamente, as revoluções parecem tolerar uma tendência à estratificação (ou quitinosidade, para prosseguir com a metáfora). Em suas formas iniciais, essas revoluções adotaram formas dinâmicas, formas lúdicas, formas nas quais o passo adiante, o salto adiante, essa inversão de todos os valores que implica uma revolução, aconteciam num campo móvel, fluido e aberto à imaginação, à invenção e a seus desdobramentos naturais, a poesia, o teatro, o cinema e a literatura. Mas, com uma freqüência bastante desesperadora, depois dessa primeira etapa as revoluções se institucionalizam, começam a encher-se de quitina, vão passando à condição de coleópteros.
Bom, eu trato de lutar contra isso, esse é o meu compromisso com as revoluções, com a Revolução, para dizê-lo em geral. Trato de lutar por todos os meios, e sobretudo com meios lúdicos, contra o quitinoso. O Livro de Manuel foi uma tentativa de desquitinizar esses preâmbulos revolucionários que vagamente apareciam na Argentina e que não chegavam a coalhar. Esse livro foi escrito quando os grupos guerrilheiros estavam em plena ação. Eu havia conhecido pessoalmente alguns de seus protagonistas aqui em Paris, e ficara aterrado com o sentido dramático, trágico, de suas ações, nas quais não havia o menor resquício para que entrasse sequer um sorriso, e muito menos um raio de sol.
Me dei conta de que essa gente, com todos os seus méritos, com toda sua coragem e com toda a razão que tinham de levar adiante a ação, ainda que chegassem a cumpri-la e que fossem até o final, a revolução que produziriam não seria a minha Revolução. Seria uma revolução quitinizada e estratificada desde o começo. O Livro de Manuel é um desafio, mas não um desafio insolente ou negativo. É um desafio muito cordial: os personagens são vistos com toda a simpatia possível. Por exemplo: Marcos, o chefe desse grupo de guerrilha urbana, que estava um pouco de férias pela Europa no momento. Ele mesmo discute com seus amigos, se não esse problema, problemas paralelos. Eu não os agredia, muito pelo contrário. Se tivesse vontade de agredi-los, não teria escrito a novela. Não só não era um ataque, mas sim uma tentativa de colocar no bolso deles um livro que talvez os tivesse ajudado um pouco.
*[Fragmento de uma conversa entre Omar Prego e Julio Cortázar, tirada de “La fascinación de las palabras” de Omar Prego y Julio Cortázar (1985). ©1997 Alfaguara]
Creme e castigo
Posted: 4th julho 2003 by Vanessa Barbara in ReportagensTags: noel godin, protestos, torta-merengue de limão
Conheça o terrorista Noël Godin, que espalha medo na Europa com seus ataques de torta doce.
Publicado originalmente na revista Rizoma
EmCrise – 4 de julho de 2003*
Por Vanessa Barbara
“Há infinitas formas de subversão. Mas poucas se equiparam, em comodidade e eficiência, à torta de creme”. São palavras de Noël Godin, um distinto senhor de 55 anos, nascido na Bélgica. Desde 1969, ele e sua brigada internacional de entarteurs, como são chamados, melecam os rostos de personalidades poderosas com deliciosos bolos de creme e tortas, direto das melhores confeitarias. [Se o ataque fracassa ou é cancelado, eles simplesmente comem as tortas, com certa satisfação.] Algumas das 22 vítimas foram a romancista Marguerite Duras, o cineasta Jean-Luc Godard, vários políticos europeus e até mesmo Bill Gates.
Só o filósofo Bernard-Henri Levy, conhecido por sua prepotência, já foi alvejado 5 vezes. Certo dia, andava pelo aeroporto de Nice em companhia de sua terceira esposa, a atriz Arielle Dombasle, vestido impecavelmente com uma camisa da Christian Dior. Sorria para as câmeras, com doçura. Enquanto o casal se enfileirava para o check in, sombras esquivavam-se ao fundo, segurando algo intrigante feito de creme. No momento em que o casal apanhava os bilhetes de embarque, três torteadores surgiram do nada, com Noël Godin liderando a turma. O filósofo gritou: “Oh não! Oh não, de novo não” – e foi coberto de recheios, glacê e chantili.
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“a torta de creme é um acurado barômetro da natureza humana” (Godin)
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As tortadas sempre são delicadíssimas: entre os praticantes da modalidade, é proibido o lançamento à distância. Recomenda-se que o artefato seja pousado suavemente junto ao rosto da vítima — mas, em geral, a reação não é tão sutil. Levy, por exemplo, reagiu por meio de coléricos murros dirigidos a Noël Godin, no mesmo instante em que uma torteadora defendia-se com mais um bocado de creme, e uma segunda entretinha-se em despejar chocolate com cobertura de chantili na cabeça de Arielle Dombasle. “Levanta!”, ordenou o filósofo a um dos torteadores, “Ou eu chuto a tua cabeça!”.
Os membros da brigada estão proibidos de reagir fisicamente aos ataques, mesmo violentos. Na ocasião, a esposa de Bernard-Henri Levy unhou vigorosamente uma das torteadoras; já o filósofo preferiu quebrar a câmera de vídeo e socar o cameraman no nariz. Os “guerrilheiros” tampouco devem tentar fugir após os ataques: a polícia retirou Noël Godin do local apenas quando ele já estava sendo sufocado por Levy e recebia bolsadas histéricas da atriz.
“Os primeiros cinco segundos após um ataque de tortas”, postula Noël, “revelam o caráter real da vítima”. O cineasta Jean-Luc Godard, vejam só, reagiu com bom-humor: retirou o cigarro da boca, lambeu lentamente o creme e ainda declarou que aquilo era “uma verdadeira homenagem ao cinema mudo”. Depois disso, não foi mais incomodado pelos torteadores. “Bem despachada, a torta de creme é um acurado barômetro da natureza humana”, constata Noël.
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Cena do filme da diretora tailandesa cega Vivianne Pei
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:: A Flor-de-Lótus Não Voltará a Crescer Em Sua Ilha ::
“Sempre disse a mim mesmo que era necessário reagir, sustentar a subversão por meio do humor”, declara o belga, sobre o poder das tortas de creme como armas de guerrilha imaginativa (pois suscitam, ao mesmo tempo, comédia e terror). Antes de ser torteador profissional, o belga já punha em prática tais idéias: quando jovem, fora expulso da Faculdade de Direito por desrespeitar um professor. Sabia-se que o sujeito tinha ajudado a redigir a constituição do ditador Antonio Salazar, e mesmo assim todos continuavam indiferentes. Menos Noël e alguns amigos, que vestiram-se de operários, entraram na sala de conferências e, assoviando a Internacional Comunista, despejaram um tubo de cola direto na cabeça do mestre.
A expulsão da faculdade não calou Noël, que licenciou-se em história do cinema na Universidade de Lieja e logo foi contratado para trabalhar numa revista católica, resenhando filmes. “Comecei a publicar mentiras absurdas – primeiro aos poucos, depois freqüentemente”. Inventava filmes que não existiam e ilustrava-os com fotos de parentes. Escrevia dezenas de entrevistas fictícias com cineastas, sem deixar o próprio quarto. Consciente de sua alta porcentagem de leitores devotos, Noël anunciava uma conversão a cada três meses, inclusive de penitentes tão improváveis quanto Luis Buñuel e Tennessee Williams.
Os leitores da revista “Amigos do Cinema”, em pouco tempo, foram apresentados à obra de gênios inteiramente insólitos, como Sergio Rossi, Aristide Beck e Vivianne Pei, a única diretora cega da história do cinema, autora do longa-metragem “A Flor-de-Lótus Não Voltará a Crescer Em Sua Ilha”. O filme da suposta diretora tailandesa foi descrito por Noël tão vivamente que um especialista em cinema asiático chegou a viajar à Tailândia para procurá-la.
Noël pôde continuar publicando matérias desse naipe graças a um editor crédulo, e também porque a revista não era distribuída fora da Bélgica. Além disso, seus leitores não primavam por um senso crítico dos mais aguçados. Era quase um convite para prosseguir: o intrépido repórter cobriu o lançamento do filme “Vegetais de Boa Vontade” (1970, Jean Clabau), no qual Cláudia Cardinale fazia o papel de uma endívia gigante. Resenhou também o desenho animado maoísta “Germinal II”, com Jean-Louis Barrault fazendo a voz de um formão.
Nas páginas da revista, Marlene Dietrich liderou expedições para encontrar o monstro do Lago Ness, Michael Caine pilotou um carro movido a iogurte e Louis Armstrong confessou ter sido canibal (além de ter financiado, também, o filme “Vegetais de Boa Vontade”). Em entrevista exclusiva, o diretor Richard Brooks confessou que seus filmes eram uma porcaria e ainda arrematou: “Eu sou um cretino”.
:: “Quando encontro um novo tom de cinza, sinto-me extasiado” ::
Noël Godin entrou para o negócio das tortas após escrever uma excelente reportagem sobre o dia em que um de seus diretores fictícios, Georges Le Gloupier, atacou Robert Bresson com uma torta de creme. Na edição seguinte, inventou que Marguerite Duras, escritora amiga de Bresson, planejava uma revanche. “Dias depois, fiquei sabendo que Duras estava mesmo vindo para a Bélgica”; foi então que resolveu atacá-la com uma torta de verdade, no momento em que ela dissertava sobre o tema de seu segundo filme, Destroy, She Says. Redigiu uma matéria em que creditava o ataque a Le Gloupier. Em seguida, pegou gosto pelo ofício.
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Torta-merengue de limão: perfeita para ataques bruscos
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Já são mais de 20 os contemplados com suculentas tortas de creme na região facial. São escolhidas como vítimas as pessoas públicas vazias, fúteis ou simplesmente idiotas, das mais diversas nacionalidades, que compartilhem uma parte do poder. O que têm em comum? Todas se levam a sério demais, acham que são importantes e não possuem o menor senso de humor. “Acredito sinceramente que podemos acertar o Papa”, completa.
As tortas são essenciais para lembrar alguns cidadãos de que eles são apenas humanos. Bill Gates, por exemplo, foi alvejado porque escolheu trabalhar pelo status quo, sem de fato usar sua inteligência e imaginação. Quanto a Bernard-Henri Levy, uma só frase dele poderia justificar as 5 tortadas: “quando encontro um novo tom de cinza, sinto-me extasiado”.
:: Sérios e dogmáticos ::
O ato de lançar tortas na cara é uma espécie de esperanto visual e tem uma linhagem nobre, que pode ser traçada através de Jerry Lewis, Wile E. Coyote, os irmãos Marx e yippies como Abbie Hoffman — todos heróis de Noël, que ainda gosta de Júlio Verne e se considera anarquista. Para ele, o que diferencia os torteadores de muitos revolucionários é que os últimos tendem a ser sérios demais e costumam tornar-se insuportavelmente dogmáticos. Segundo o torteador, é exatamente o que falta no atual movimento “antiglobalização”: são sérios além da conta, e bolcheviques demais. “Muitos deles são escoteiros”, presume.
Desde jovem, Noël Godin disseminou práticas de sabotagem cotidiana, como obstruir fechaduras, provocar erros na contabilidade, espalhar ameaças de bomba, grudar um naco de piche nas câmeras de vigilância. “Nunca curei-me da febre de maio de 1968”, diz. Ele e os colegas entarteurs sempre vestem-se com roupas esdrúxulas (é o uniforme oficial do time): longas barbas falsas, óculos grossos e gravatas-borboleta. Quando um deles foi preso, após cobrir de creme o ministro da Cultura francês, o argumento usado no tribunal foi de que lançar tortas na cara era um velho costume belga. Ganhou a absolvição.
Noël lamenta que os intelectuais sejam tão sérios. Deveriam inspirar-se na guerrilha criativa e nos escândalos públicos de Antonin Artaud — como nas vezes em que ia a restaurantes caros de Paris e usava as mãos para comer, assustando as senhoras respeitáveis. Exemplos assim, conclui Noël, provam definitivamente que “qualquer um pode matar o poderoso através do rídiculo, tendo em mãos uma torta de nada”.
p.s.: Fontes fidedignas asseguram que tortas de creme de ovo são mais eficientes quando o alvo é móvel; já as tortas-merengue de limão resistem melhor durante ataques bruscos. Os anarquistas da brigada de São Francisco, por sua vez, preferem tortas de côco (como as que atiraram no economista Milton Friedman) e de creme de tofu (usada no ataque ao diretor da Monsanto).
701-U
Posted: 1st maio 2003 by Vanessa Barbara in CrônicasTags: 701U, Butantã-USP, Jaçanã, transportes
Site EmCrise
1 de maio de 2003
Por Vanessa Barbara
Era uma habitual tarde de inverno. Seis e meia da tarde, o sol já tinha ido embora há um bom tempo e o Jaçanã 701-U seguia, com satisfação, seu bucólico caminho, para frente e além.
Não fosse, claro, o trânsito decididamente parado, o calor terrível a entrar e sair pelas janelas e a disposição amontoada de humanos pelos corredores: se alguém erguesse o cotovelo, doze pessoas ficariam feridas ou seriam lançadas para fora das janelas, sem chances para o rebatedor. Um suspiro, e o encaixe milimétrico dos passageiros iria para os ares, resultando em gemidos e irritação nervosa. A senhora ao lado olhava para o horizonte, estática como um abajur.
Percorríamos a Avenida Tiradentes, ou algo remotamente similar – era impossível enxergar algo além de perucas, carecas, pescoços e chapéus-panamá.
De súbito, ouve-se um murmúrio abafado vindo de um homem, em meio à multidão amorfa do pessoal que ainda não passara a catraca. O moço dizia alguma coisa sobre a cidade de Santos – mas ninguém ouviu, pois o garoto esmagado entre o assento de cor cinza e o balaústre tinha um walkman suficientemente potente para anular qualquer ruído externo, no raio de uns 5 metros. Além do mais, o bebê da fileira esquerda chorava, um casal discutia sobre a hérnia da tia Marilda, e um celular insistia em repetir a mesma melodia sem fim, tentando comunicar-se com o bebê ou com os golfinhos do Pacífico.
Aparentemente, ninguém ouviu o resmungo do homem de Santos. Ninguém, exceto o cobrador. Por algum motivo que escapa à coerência das coisas, ele se levantou de seu posto e esbravejou:
– … Mas você não está em Santos, senhor!
Outro resmungo, inaudível para os humanos. Apenas os golfinhos e o cobrador entenderam. Este último, com as veias da testa saltando, pulou da cadeira, apontou o dedo para cima e berrou, mandando o ônibus parar:
– Desce já! Não vou ficar agüentando desaforo dessa gente. Desce, maldito!
Os passageiros, já moldados na forma de um ônibus como massas de risole, soltaram um gigantesco suspiro. Estavam de pé há mais de uma hora, tenham paciência, meus senhores. Deu-se uma movimentação meio sincronizada, alguns aproveitaram para coçar os narizes e atender telefones. O ônibus brecou de repente, e todos os homens, bebês e balaústres ficaram indignados. O moço do walkman dançava, como um mosquito bobo.
Alguns mandaram o homem descer pela porta da frente. Outros, engravatados, pouco se importavam qual fosse a saída do impasse, contanto que chegassem logo em casa, inferno, olha a hora, ô motorista.
O senhor de Santos, já assustado, fez que ia descer, ensaiou uma ginga marota e arrancou do ônibus uma placa de ferro, anexada na parte de dentro do pára-brisas, que dizia: “701-U – Via Armênia, Tietê, Santana”. Com a placa nas mãos, golpeou as janelas da frente munido de uma força incrível, quebrando não se sabe o quê (eu só vi cabelos), e causando um estrondo horrível.
Metade dos passageiros ficou encolhida, como cãezinhos molhados. A outra metade gritou e tentou descer, pela porta de trás. A metade restante (era gente demais, pôxa) arregalou o pescoço e pôs-se a especular sobre o saldo de feridos, a natureza do estrondo e uma hipótese corrente (veiculada pela moça de cinza) de que o senhor encrenqueiro era, na verdade, o Elvis.
O cobrador quis socar ou torturar o homem, bem aos pouquinhos, cravando longuíssimas agulhas enferrujadas no branco de sua pupila, uma a uma. O motorista, tranqüilamente, pediu calma e mandou-o descer naquele exato momento. Suspiros.
O ônibus seguiu. Dois celulares já tocavam, o bebê voltava a se espernear, a Marilda já voltara ao tópico da discussão quando a velhinha de blusa rosa gritou, no ápice do desespero:
– Ele não desceu!!! Gente, socorro: Ele não desceu!
Ressurgido das cinzas, “ELE” – elevado à categoria de monstro psicopata – pendurava-se na parte de fora da porta, como nos filmes em que o ladrão é atropelado (aparentemente), mas sempre volta a escalar o capô do carro, nos momentos mais tranqüilos, quando a música incidental sobe de repente e o pipoqueiro do cinema se assusta.
A senhora ao lado piscava sem parar e se agarrava ao meu braço, rezando uma Salve Rainha Mãe de Misericórdia. O motorista tentou realizar manobras bruscas para derrubar o homem; quem sabe esmagá-lo, dar a ré e passar por cima novamente, como nos desenhos. O moço não caiu, nem virou papel.
A vós bradamos, os degredados filhos de Eva, a vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas (ela dizia). Paramos mais uma vez e o cobrador desceu, correndo, a perseguir o homem para matá-lo a dentadas. Alguns passageiros fizeram o mesmo, e, no meio da avenida Tiradentes, entre a cavalaria da Polícia Militar e o Museu de Arte Sacra, um homem golpeava os carros, às cegas, com uma grande placa 701-U, perseguido de maneira igualmente insana por meia dúzia de homens, um cobrador e duas crianças.
Foi então que o moço do walkman decidiu tirar os fones, desconfiado de que alguma coisa anormal estava acontecendo.
O inimigo número 1 da censura
Posted: 15th abril 2003 by Vanessa Barbara in TraduçõesTags: Adolfo Bioy Casares, Bustos Domecq, EmCrise, Jorge Luis Borges, literatura
Site EmCrise
abril de 2003
Por Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares
In: Nuevos Cuentos de Bustos Domecq
Trad. Vanessa Barbara
Sobrepondo-me ao sentimento que o coração me dita, escrevo com a Remington este perfil de Ernesto Gomensoro, para fazer as vezes de prólogo à sua Antologia. Por um lado, perturba-me o desgosto de não poder executar de modo completo o desejo de um defunto; por outro, tenho a satisfação nostálgica de descrever esse homem de prestígio que os pacíficos vizinhos de Maschwitz ainda hoje recordam sob o nome de Ernesto Gomensoro. Não esquecerei facilmente daquela tarde em que me acolhera, com mate e biscoitinhos, sob a varanda de sua quinta, não longe do caminho do trem. A causa que me levou a esse fim-de-mundo foi a natural comoção de ter sido objeto de um cartão, dirigido à minha casa, convidando-me para figurar na Antologia que estava então por nascer. O fino olfato de tão notável mecenas despertou meu sempre aguçado interesse. Além do mais, quis pegar sua palavra no pulo, sem que se pudesse se arrepender, e decidi levar em mãos a colaboração, para evitar as clássicas demoras que são geralmente imputadas aos nossos Correios.
A cabeça calva, o olhar perdido no horizonte rural, as largas bochechas de pelugem cinza, a boca em geral provida de bombilla e mate, um estreito lenço de mão embaixo do queixo, o peito de touro e um leve traje de fibra amassado pela metade, constituíram meu primeiro instantâneo. Desde a cadeira de vime, o conjunto atrativo de nosso anfitrião complementou-se rapidamente com a voz afável que me indicou o banquinho da cozinha para que me sentasse. A fim de pisar em terreno firme, agitei à sua vista, vaidoso e firme, o cartão-convite.
– Sim – disse com displicência -. Mandei a circular por toda a parte.
Semelhante sinceridade me envaideceu.
Em tais casos, a melhor política é congraçar-se com o homem que tem nosso destino nas mãos. Declarei, com extrema franqueza, que eu era repórter de artes e letras da Última Hora e que meu verdadeiro propósito era o de dedicar-lhe uma reportagem. Não se fez de rogado. Cuspiu algo verde para limpar a garganta e disse, com a naturalidade que adorna as figuras eminentes:
– Avalio seu propósito de coração. Previno-lhe que não vou falar da censura, porque já mais de uma pessoa anda repetindo que sou temático e que a guerra contra a censura tornou-se minha única idéia fixa. Você me rebaterá com a objeção de que atualmente são poucos os temas apaixonantes como este. Não é pra menos.
– E como sei – suspirei -. O pornógrafo mais despreocupado observa, a cada dia, um novo impedimento em seu campo de batalha.
Sua resposta me deixou sem outro recurso senão o de abrir a boca.
– Já suspeitava que você se agarraria para esse lado. Reconheço prontamente que impôr restrições ao pornógrafo não tem muito de simpático. Mas esse caso tão repetido não é mais que, como açúcar e canela, uma faceta do assunto. Tanta saliva gastamos contra a censura moral e contra a censura política, que passamos por alto a outras variedades que são, de longe, mais ultrajantes. Minha vida, se você me permite chamá-la assim, é um exemplo instrutivo. Filho e neto de progenitores que foram invariavelmente deslocados na mesa de exames, vi-me levado desde pequeno às mais diversas tarefas. Foi assim que me arrastou o vórtice da escola primária, da corretagem de valises de couro e, em instantes roubados durante o trabalho, da composição de um ou outro verso. Este último fato, em si carente de interesse, alvoroçou a curiosidade dos espíritos inquietos de Maschwitz e não tardou em correr por aí e aumentar-se de boca em boca. Senti, como quem vê subir a maré, que o consenso do povo, sem distinção de sexo nem idade, receberia com alívio que eu começasse a publicar em jornais. Apoio semelhante impeliu-me a mandar pelo correio, a revistas especializadas, a ode “A caminho!”. Uma conspiração de silêncio foi a resposta, com a honrosa exceção de um suplemento que devolveu-me o texto sem nada dizer.
Lá ele pode ser visto, em um quadro.
Não me deixei desanimar. Minha segunda carga assumiu uma natureza massiva; remeti a não menos de quarenta órgãos simultâneos o soneto “Em Belém” e depois, continuando o bombardeio, as décimas “Eu ensino”. A “O tapete de esmeralda” e “Pão de centeio” coube, você não vai acreditar, idêntica sorte. Tão estranha aventura foi acompanhada, em suspense simpático, pelas autoridades e pelo pessoal de nosso correio, que se apressaram em divulgá-la. O resultado foi previsível; o doutor Palau nomeou-me diretor do diretor do suplemento literário das quintas-feiras do diário La Opinión.
Desempenhei essa magistratura civil durante quase um ano, quando me botaram no olho da rua. Fui, sobretudo, imparcial. Nada, admirável Bustos, vem incomodar minha consciência pela madrugada. Se uma só vez dei entrada a um filho de minha musa – o poema “Pão de Centeio”, que deu origem a uma persistente campanha de solicitadas e anônimas – o fiz sob o seguro pseudônimo de Alferes Nemo, com alusão, que nem todos captaram, a Julio Verne. Não foi só por isso que me ensinaram o caminho da rua; não havia animal vivente que não me creditasse a culpa de que a folha das quintas era antes o cesto de lixo ou, se você preferir, a pior sujeira. Aludiam, quando muito, à ínfima qualidade das colaborações expostas. A acusação, sem dúvida, era justa; não era assim que se compreendia o critério que me ministrara de bússola. Mais náusea que aos piores aristarcos me segue dando a retrospectiva leitura daqueles papéis sem ritmo nem razão, que eu, sem mesmo folheá-los, confiava ao senhor que manipulava a gráfica. Conto-lhe, como você vê, com o coração na mão: passar direto ao linotipo era tudo e eu não me dava ao trabalho de averiguar se eram em prosa ou verso. Peço-lhe que acredite em mim: meu arquivo guarda um exemplar em que se repete duas ou três vezes a mesma fábula, copiada de Iriartre e assinada de maneira contraditória. Propagandas de Chá Sol e de Erva Gato alternavam-se gratuitamente com o resto das colaborações, sem que faltasse algum desses versinhos que os desocupados deixam no banheiro. Figuravam também nomes femininos da maior popularidade, com o número de telefone.
Como já tinha farejado minha senhora, o doutor Palau acabou por montar o cavalo e disse-me na cara que a folha literária acabou-se e que não podia dizer que me agradecia os serviços prestados, porque não estava pra brincadeiras e que eu fosse embora no trote.
Sou sincero com você: para mim a demissão deve atribuir-se, por incrível que pareça, à publicação fortuita do notável poema “El malón”, que revive um episódio muito querido na região, a devastadora incursão dos índios pampas, que não deixaram nem boneco com cabeça. A veracidade do flagelo foi posta em dúvida por mais de um iconoclasta de Zárate; o indiscutível é que insuflou os elegantes versos de Lucas Palau, leiloeiro e sobrinho do nosso diretor. Quando você, jovem, estiver para tomar o trem, que faltar pouco, mostrarei o poema aludido, que tenho em um quadro. Publicara-o, segundo a minha norma, sem prestar atenção na assinatura nem no texto. O bardo, disseram-me, arremeteu com outros versos que esperaram sua vez e que não saíram, porque nunca deixei de respeitar a ordem de chegada. Despropósito por despropósito, ia postergando a publicação; o nepotismo e a impaciência transbordaram no copo e foi então que tive que encontrar a porta da saída. Retirei-me.
No decorrer deste discurso, Gomensoro falou-me sem amargura e com evidente sinceridade. No meu rosto pintava-se a concentração de quem contempla um porco voando e fui rápido em dizer:
– Serei burro, mas não capto completamente. Quero entender, quero entender.
– Todavia não lhe soou a hora – foi a resposta -. Pelo que vejo, você não é desta região penetrável de todos os meus amores, mas burro – para repetir sua opinião, não menos objetiva que severa – bem poderia sê-lo, por não haver entendido nem um “jota” do que estou reforçando. Um testemunho mais dessa incompreensão difundida foi que a Comissão de Honra dos Jogos Florais, que tanto brilho deram à nossa pujante localidade, ofereceu-me a honra de ser jurado dos mesmos. Não haviam entendido nem um “jota”! Como era meu dever, declinei. A ameaça e o suborno estilhaçaram-se contra minha decisão de homem livre.
Neste ponto, como se tivesse fornecido a chave do enigma, sugou de novo a bombilla e encastelou-se em seu foro interior.
Quando esgotou-se o conteúdo da chaleira, atrevi-me a sussurrar com voz de flauta:
– Meu senhor, ainda não consigo compreendê-lo.
– Bom, explicarei em palavras do seu nível. Aqueles que socavam com a pena as bases dos bons costumes ou do Estado não desconhecem, quero acreditar, que expõem-se a depenar o rosto ao rigor da censura. O feito é inqualificável, mas comporta certas regras de jogo e aquele que as infringe sabe o que faz. Entretanto, vejamos o que acontece quando você aparece na redação com um original que é, por onde quer que se olhe, um caos. Lêem o texto, devolvem-no e dizem para que o coloque onde quiser. Aposto que você sai com a certeza de que foi vítima da censura mais impiedosa. Suponhamos agora o inverossímil. O texto por você submetido não é uma cretinice e o editor o toma em consideração e manda-o à gráfica. Bancas e livrarias o colocarão ao alcance dos incautos. Para você, é um êxito, mas a verdade inescapável, meu estimado jovem, é que o seu original, confuso ou não, passou pelas humilhações da censura. Alguém o analisou, ao menos por cima, alguém o julgou, alguém o descartou ao cesto ou mandou-o à gráfica. Por mais infame que pareça, o acontecimento repete-se continuamente, em todo o jornal, em toda a revista. Sempre nos deparamos com um censor que elege ou descarta. Isso é o que não agüento nem agüentarei. Começa a entender meu critério quando dirigia a folha das quintas-feiras? Nada revisei nem julguei; tudo encontrou lugar no Suplemento. Nestes dias o acaso, na forma de uma súbita herança, permitiram-me finalmente a confecção da Primeira Antologia Aberta da Literatura Nacional. Assessorado pela lista telefônica e outras, dirigi-me a todo animal vivente, inclusive a você, solicitando-lhe que me mande o que der vontade. Observarei, com a maior eqüidade, a ordem alfabética. Fique tranqüilo: tudo sairá em letras de forma, por mais imundo que seja. Não quero retê-lo. Já estou ouvindo, me parece, os apitos do trem que o reintegrará à labuta diária.
Saí talvez pensando que quem diria que essa primeira visita a Gomensoro seria a última. O diálogo cordial com o amigo e mestre não se repetiria noutra ocasião, pelo menos nesta margem do lago Estige. Meses depois o arrebatou a Morte em sua quinta de Maschwitz.
Incompatível com todo ato que envolve um mínimo de escolha, Gomensoro, dizem, embaralhou num tonel os nomes dos colaboradores e nessa rifa saí-me como o agraciado. Pertenceu-me uma fortuna cujo montante superava meus mais brilhantes sonhos de cobiça, sob a única obrigação de publicar com rapidez a antologia completa. Aceitei com a aflição que era de se esperar, e transferi-me para a quinta, que outrora me acolhera, onde cansei de contar espaços cheios de manuscritos que já concluíam a letra C.
Foi como se tivesse sido atingido por um raio, quando conversei com o tipógrafo. A fortuna não bastava para ir, nem em papel de serpentina e letra de lupa, mais além de Añañ!
Já está publicado em brochura todo esse monte de volumes. Os excluídos, de Añañ em diante, têm me enlouquecido com reclamações e protestos. Meu advgoado, o doutor González Baralt, alega em vão, como prova de retidão, que eu também, que começo com B, fiquei de fora, para não dizer nada da impossibilidade material de incluir outras letras. Aconselha-me, neste ínterim, que eu busque refúgio no hotel O Novo Imparcial, com um nome falso.
Sobre pessoas
Posted: 1st abril 2003 by Vanessa Barbara in TraduçõesTags: Charles Dickens, EmCrise, literatura
Site EmCrise
1 de abril de 2003

por Charles Dickens*
Trad. Vanessa Barbara
É estranho que, com tão pouca atenção – boa, má ou indiferente -, um homem possa viver e morrer em Londres. Ele não desperta o mínimo de simpatia no coração de uma pessoa sequer; sua existência interessa a ninguém, exceto a ele mesmo; não se pode dizer que será esquecido quando morrer, pois dele ninguém se lembrava enquanto vivia. Há uma classe numerosa de pessoas nesta grande metrópole que parece não possuir um único amigo, e com quem ninguém parece se importar. Impulsionados pela necessidade imperativa, em primeiro lugar, eles recorreram a Londres à procura de emprego e de meios de subsistência. É duro, nós sabemos, quebrar os laços que nos ligam aos nossos lares e amigos, e mais duro ainda apagar as centenas de lembranças de dias felizes e velhos tempos que estiveram adormecidos em nosso peito durante anos e se precipitam à mente trazendo consigo associações relacionadas aos amigos que deixamos, às paisagens por nós contempladas provavelmente pela última vez e às esperanças que um dia cultivamos, mas que provavelmente não serão mais cogitadas. Esses homens, entretanto, felizmente para eles, esqueceram há tempos tais pensamentos. Velhos amigos da cidade natal morreram ou emigraram; antigos correspondentes perderam-se, como eles mesmos, na multidão e no caos de alguma cidade atarefada; e eles gradualmente foram se estabelecendo e transformaram-se em meras criaturas passivas de hábito e perseverança.
Certo dia, estávamos sentados nos arredores do St. James Park quando nossa atenção voltou-se para um homem que imediatamente reconhecemos como alguém dessa categoria. Era um sujeito alto, magro e pálido em um casaco preto, calças leves e cinzas, polainas ligeiramente apertadas e luvas marrons de pele de castor. Ele tinha um guarda-chuva na mão – não para utilizá-lo, pois o tempo estava firme – mas, evidentemente, porque sempre o carregava pela manhã, a caminho do escritório. Andava de lá pra cá, próximo ao pequeno trecho de grama onde as cadeiras estavam postas para alugar, não como se estivesse fazendo isso por prazer ou distração, mas como se fosse uma questão compulsiva, como se ele fosse dirigir-se ao escritório toda manhã vindo das longínquas paragens do povoado de Islington. Era segunda-feira; ele havia escapado por 24 horas da escravidão da mesa de trabalho; e estava caminhando por exercício e passatempo – talvez pela primeira vez na vida. Estávamos inclinados a pensar que nunca tinha tido uma folga antes e que não sabia o que fazer consigo mesmo. As crianças brincavam na grama; grupos de pessoas matavam o tempo, papeando e rindo; mas o homem andava no mesmo lugar, pra cima e pra baixo, distraído e ignorado, seu rosto pálido a olhar o mundo como se fosse incapaz de suportar qualquer expressão de curiosidade ou interesse.
Havia algo nas maneiras e na aparência do homem que nos revelou, segundo imaginamos, toda a sua vida, ou melhor, todo o seu dia, pois para um homem desse tipo não há variedade de dias. Julgamos que era quase possível vislumbrar seu pequeno e encardido escritório de fundos, no interior do qual ele andava a cada manhã, pendurando seu chapéu no mesmo cabide e posicionando suas pernas sob a mesma mesa: primeiro, tirando seu casaco preto que dura o ano inteiro e vestindo aquele que durou o ano anterior, e que ele usa no escritório para poupar o outro. Lá ele fica sentado até as cinco da tarde, trabalhando o dia todo, tão regularmente quanto o relógio em cima da lareira, cujo escandaloso tique-taque é tão monótono quanto toda sua existência: apenas levanta a cabeça quando alguém entra no escritório de contabilidade ou quando, no meio de algum cálculo complicado, ele olha para o teto como se buscasse inspiração na empoeirada clarabóia com um nó verde no centro de cada lado do vidro. Aproximadamente às cinco, ou meia hora antes, ele vagarosamente desmonta de seu banco costumeiro e, novamente trocando seu casaco, segue ao seu habitual local de jantar, em algum lugar perto de Bucklersbury. O garçom recita o preço da refeição de um jeito bastante reservado – pois ele é um cliente habitual – e, após perguntar: “O que há de mais suculento?” e “O que foi preparado mais recentemente?”, ele pede um pequeno prato de rosbife com salada e um copo de cerveja preta. Opta por um prato pequeno hoje porque a salada de folhas estava um penny mais cara do que as batatas e ele pedira “dois pães” ontem, com o abuso adicional de “um queijo” anteontem. Tendo esclarecido este importante assunto, ele pendura seu chapéu – havia o tirado no momento em que se sentara – e arruma o jornal de acordo com o cavalheiro sentado à sua frente. Se consegue fazê-lo enquanto está jantando, alimenta-se com deleite ainda maior; balançando o jornal contra a garrafa de água, e comendo um pedaço de bife, e lendo uma linha ou duas, alternadamente. A cinco exatos minutos de seu horário acabar, ele saca um shilling, paga a conta, deposita cuidadosamente o troco no bolso de seu colete (deduzindo, antes, um penny para o garçom) e volta ao escritório, de onde, se não é noite de postar cartas ao estrangeiro, ele sai mais uma vez, aproximadamente meia hora depois. Então volta pra casa no seu ritmo habitual, até seu quarto nos fundos em Islington, onde ele toma chá; talvez confortando-se durante a refeição com a conversa do filho pequeno da senhoria, que é geralmente gratificado com um penny por resolver problemas simples de adição. Às vezes, há uma carta ou duas para levar a seu patrão, na praça Russel; e então o saudável homem de negócios, ouvindo sua voz, chama-o da sala de jantar, – “Entre, sr. Smith”, e o sr. Smith, deixando seu chapéu aos pés de uma das cadeiras da sala, entra timidamente, e, sendo convidado com certa arrogância a sentar, dobra com cuidado as pernas sob a cadeira, senta-se a uma considerável distância da mesa onde ele bebe o copo de sherry que lhe é servido pelo filho mais velho, e após beber, ele se afasta e desliza para fora da sala, num estado de agitação nervosa do qual não se recupera perfeitamente até que se encontre novamente na estrada de Islington. Pobres, inofensivas criaturas são os homens como ele; satisfeitos mas não felizes; humildes e com almas despedaçadas, eles podem não sentir dor alguma, mas nunca conhecem o prazer.
Nota da tradutora
* Sketches by Boz é uma coletânea de artigos escritos por Charles Dickens ao Morning Chronicle e a outros periódicos, de 1833 a 1836. É considerada por Tom Wolfe uma das obras que impulsionaram o novo jornalismo, por conter descrições do dia-a-dia de figuras londrinas típicas: cocheiros, cobradores de dívidas, velhas damas, casais. O trecho acima pertence ao primeiro capítulo da parte denominada “personagens”, e faz as vezes de introdução a onze instantâneos de tipos londrinos.”Boz” era o pseudônimo então usado pelo autor.
Do sentimento de não estar de todo
Posted: 1st março 2003 by Vanessa Barbara in TraduçõesTags: EmCrise, Julio Cortázar, literatura
Site EmCrise
Março de 2003
por Julio Cortázar
Trad. Vanessa Barbara
Jamais réel et toujours vrai
(“Nunca real e sempre verdadeiro”,
num desenho de Antonin Artaud)
Sempre serei como um menino para tantas coisas, mas um desses guris que desde o começo carregam consigo o adulto, de maneira que quando o monstrinho chega verdadeiramente à idade do adulto ocorre que, por sua vez, carrega consigo o menino, e no meio do caminho se dá uma coexistência poucas vezes pacífica de pelo menos duas aberturas para o mundo.
Isto pode ser entendido metaforicamente, mas indica, em todo caso, um temperamento que não renuncia à visão pueril como preço da visão adulta, e essa justaposição que convém ao poeta e talvez ao criminoso, e também ao cronópio e ao humorista (questão de doses diferentes, de acentuação aguda ou esdrúxula, de escolhas: agora jogo, agora mato), manifesta-se no sentimento de não estar de todo em qualquer das estruturas, em quaisquer das teias que a vida arma e onde somos ao mesmo tempo aranha e mosca.
Muito do que escrevo ordena-se sob o signo da excentricidade, já que entre viver e escrever nunca admiti uma clara diferença; se vivendo consigo dissimular uma participação parcial em minha circunstância, em troca não posso negá-la no que escrevo, já que escrevo precisamente por não estar ou por estar de maneira parcial. Escrevo por falência, por “descolocação”; e como escrevo de uma fenda, estou sempre pedindo para que outros busquem as suas e espiem por dentro delas o jardim onde as árvores têm frutos que são, certamente, pedras preciosas. O monstrinho segue firme.
Esta espécie de constante lúdica explica, se não justifica, muito do que escrevo ou vivo. Reportam-se aos meus romances – este jogo na borda da sacada, este fósforo ao lado da garrafa de gasolina, este revólver carregado na mesa de luz – uma busca intelectual do próprio romance, que seria assim como um contínuo comentário da ação e, muitas vezes, a ação de um comentário.
Aborrece-me argumentar, a posteriori, que ao largo dessa dialética mágica um homem-menino está lutando para concluir o jogo de sua vida: que sim, que não, que onde está está. Porque um jogo, bem observado, não seria um processo que parte de uma descolocação para chegar a uma colocação, a um arranjo – gol, xeque-mate, pedra livre? Não é o cumprimento de um ritual que leva à fixação final que o coroa?
Realismo ingênuo
O homem do nosso tempo acredita francamente que sua informação filosófica e histórica o salva do realismo ingênuo. Em conferências universitárias e em conversas nos cafés, chega a admitir que a realidade não é o que parece, e está sempre disposto a reconhecer que seus sentidos o enganam e que sua inteligência constrói uma visão tolerável porém incompleta do mundo. Cada vez que pensa metafisicamente, sente-se “mais triste e mais sábio”, mas sua confissão é momentânea e excepcional, enquanto o contínuo da vida o instala de cheio na aparência, concretiza-a em torno dele, veste-a de definições, funções e valores.
Esse homem é um ingênuo realista, mais que um realista ingênuo. Basta observar seu comportamento frente ao excepcional, o insólito: ou o reduz a fenômeno estético ou poético (“era algo realmente surrealista, te juro”) ou desiste, em seguida, de buscar na entrevisão um sonho, um ato frustrado, uma associação verbal ou causal fora do comum, uma coincidência perturbadora, qualquer das fraturas instantâneas do contínuo.
Se o interrogam, diz que não crê plenamente na realidade cotidiana e que somente a aceita de maneira pragmática. Mas lógico que crê, é só nisso que crê. O sentido de sua vida assemelha-se ao mecanismo de seu olhar.
Às vezes tem uma efêmera consciência de que a cada tantos segundos as pálpebras interrompem a visão que sua consciência preferiu entender como permanente e contínua; mas quase de imediato o pestanejar volta a ser inconsciente, o livro ou a maçã firmam-se em sua obstinada aparência.
Há como um acordo de cavalheiros entre a circunstância e os circunstantes: você não me tira dos meus costumes e eu não fico cutucando o senhor com um palito. Mas o problema agora é que o homem-menino não é um cavalheiro, mas um cronópio que não entende bem o sistema de linhas de fuga graças às quais cria-se uma perspectiva satisfatória dessa circunstância, ou, como sucede nos collages mal feitos, sente-se em uma escala diferente com relação à da circunstância, uma formiga que não cabe num palácio ou um número quatro em que não cabem mais que três ou cinco unidades.
A mim isto ocorre claramente, às vezes sou maior que o cavalo que monto, e outros dias caio dentro de um dos meus sapatos e sofro um golpe terrível, sem contar o trabalho pra sair, as escadas fabricadas nó a nó com os cordões e a terrível descoberta, já na ponta, de que alguém guardou o sapato dentro de um armário e que estou pior que Edmundo Dantés em um castelo de If, porque nem sequer há um padre à mão nos armários da minha casa.
E eu gosto, e sou terrivelmente feliz em meu inferno, e escrevo. Vivo e escrevo ameaçado por essa lateralidade, por esse paralaxe verdadeiro, por esse estar sempre um pouco mais à esquerda ou mais ao fundo do lugar onde se deveria estar para que tudo se materializasse satisfatoriamente num dia a mais de vida sem conflitos.
Dedo no ventilador
Desde muito pequeno assumi, com os dentes cerrados, esta condição que me dividia de meus amigos e ao mesmo tempo os atraía em direção ao raro, ao diferente, ao que metia o dedo no ventilador.
Não estava privado de felicidade; a única condição era que coincidisse às vezes com a de outro (o camarada, o tio excêntrico, a velha louca) que tampouco calçava plenamente o seu número, o que naturalmente não era fácil; mas logo descobri os gatos, nos quais podia imaginar minha própria condição, e os livros, onde a encontrava de cheio. Nesses anos li os versos possivelmente apócrifos de Poe:
From childhood’s hour I have not been
As others were; I have not seen
As others saw; I could not bring
My passions from a common spring –
Mas o que para o virginiano era um estigma (luciferino, mas por isso mesmo monstruoso) que o ilhava e condenava,
And all I loved, I loved alone
isso não me apartou daqueles cujo redondo universo eu só tangencialmente partilhava. Hipócrita sutil, atitude para todos os mimetismos, ternura que ultrapassava os limites e os dissimulava; as surpresas e as aflições da primeira idade tinham para mim uma ironia amável.
Lembro-me bem: aos onze anos emprestei a um amigo O segredo de Wilhelm Storitz, no qual Julio Verne me propunha como sempre um comércio natural e íntimo com uma realidade nada diferente da cotidiana. Meu amigo devolveu-me o livro: “Não terminei de ler, é demasiadamente fantástico”. Jamais renunciarei à surpresa escandalizada desse minuto. Fantástica, a invisibilidade de um homem? Então só no futebol, no café com leite, nas primeiras confidências sexuais poderíamos nos encontrar?
Adolescente, acreditei como tantos que meu contínuo estranhamento era o símbolo anunciador do poeta, e escrevi os poemas que se escrevem então e que sempre são mais fáceis de se escrever do que a prosa, a essa altura de uma vida que repete no indivíduo as fases da literatura.
Com os anos, descobri que se todo poeta é um estranhado, nem todo estranhado é poeta, na acepção genérica do termo. Entro aqui em terreno polêmico, aceite o desafio quem quiser.
Se por poeta entendemos funcionalmente aquele que escreve poemas, a razão para que os escreva (não se discute a qualidade) deve-se ao fato de que seu estranhamento pessoal provoca um mecanismo de challenge (desafio) and response (resposta); assim, cada vez que o poeta é sensível à sua lateralidade, à sua situação extrínseca em uma realidade aparentemente intrínseca, reage poeticamente (quase diria profissionalmente, sobretudo a partir de sua maturidade técnica); dito de outra maneira, escreve poemas que são como petrificações desse estranhamento, o que o poeta vê ou sente em lugar de, ou ao lado de, ou por debaixo de, ou diante de, remetendo este “de” ao que os demais vêem tal como acreditam que é, sem deslocamento nem crítica interna.
Poemas vêm da estranheza
Duvido que exista um só grande poema que não tenha nascido dessa estranheza ou que não a traduza; mais ainda, que não a ative ou a potencialize ao suspeitar que é precisamente a zona intersticial por onde cabe ascender.
Também o filósofo se estranha e se desloca deliberadamente para descobrir as fissuras do aparente, e sua busca nasce também de um challenge and response; em ambos os casos, ainda que os fins sejam diferentes, há uma resposta instrumental, uma atitude técnica frente a um objeto definido.
Mas já se sabe que nem todos os estranhados são poetas ou filósofos profissionais. Quase sempre começam por sê-lo ou por querer sê-lo, mas chega o dia em que se dão conta de que não podem ou não estão obrigados a essa response quase fatal que é o poema ou a filosofia frente ao challenge do estranhamento.
Sua atitude se torna defensiva, egoísta se preferir, posto que se trata de preservar sobretudo a lucidez, resistir à solapada deformação que o cotidiano codificado vai montando na consciência com a ativa participação da inteligência racional, os meios de informação, o hedonismo, a arterioesclerose e o matrimônio inter alia [entre outras coisas].
Os humoristas, alguns anarquistas, não poucos criminosos e uma certa quantidade de contistas e romancistas se situam neste setor pouco definido no qual a condição de estranhado não acarreta necessariamente uma resposta de ordem poética. Estes poetas não profissionais suportam seu deslocamento com maior naturalidade e menor brilho, e até seria possível afirmar que sua noção do estranhamento é lúdica, em comparação à resposta lírica ou trágica do poeta.
Enquanto este trava sempre um combate, os estranhados simplesmente se integram à excentricidade até um ponto em que o excepcional dessa condição, que suscita o challenge para o poeta ou o filósofo, tende a tornar-se condição natural do sujeito estranhado, que assim o preferiu e que portanto ajustou sua conduta a essa aceitação paulatina.
Penso em Jarry e num lento comércio à base do humor, da ironia, da familiaridade, que acaba por inclinar a balança para o lado das exceções, por anular a diferença escandalosa entre o sólito e o insólito, e permite o progresso cotidiano, sem response concreta porque já não há challenge, a um plano que (à falta de melhor nome) seguiremos chamando realidade, mas sem que seja um flatus vocis [vocábulo sem conteúdo] ou um pior é nada.
La vuelta al día en ochenta mundos, editora Siglo XXI.
Ulrica
Posted: 10th fevereiro 2003 by Vanessa Barbara in TraduçõesTags: Jorge Luis Borges, literatura, saga, ulrica
Revista Fraude
10 de fevereiro de 2003
Jorge Luis Borges
trad. Vanessa Barbara
“Hann tekr sverthit Gram ok leggr i methal theira bert.”
[Tomou a espada Gram e estendeu-a, desembainhada, entre os dois]
Völsunga Saga, capítulo 27
Meu relato será fiel à realidade ou, em todo caso, à minha lembrança pessoal da realidade, o que dá no mesmo. Os fatos ocorreram há pouco, mas sei que o hábito literário é assim mesmo, o hábito de intercalar detalhes circunstanciais e de enfatizar os pontos altos.
Quero narrar meu encontro com Ulrica [não soube seu sobrenome e talvez não saberei nunca] na cidade de York. A crônica abarcará uma noite e uma manhã.
Nada me custaria contar que a vi pela primeira vez junto às “Cinco Irmãs de York”, estes vitrais puros de imagem que respeitaram os iconoclastas de Cromwell, mas o fato é que nos conhecemos na saída do Northern Inn, que fica do outro lado das muralhas. Éramos poucos e ela estava de costas. Alguém ofereceu-lhe uma taça e ela recusou.
– Sou feminista – disse. – Não quero imitar os homens. Desagrada-me seu tabaco e seu álcool.
A frase pretendia-se engenhosa e supus que não era a primeira vez que a pronunciava. Descobri, posteriormente, que não era do seu feitio, embora o que digamos nem sempre se pareça conosco.
Contou que havia chegado tarde ao museu, mas que a deixaram entrar quando viram que era norueguesa. Um dos presentes comentou:
– Não é a primeira vez que os noruegueses entram em York.
– É verdade – disse ela -, a Inglaterra foi nossa e a perdemos, se é que alguém pode ter algo ou algo pode perder-se.
Foi então que olhei para ela. Um verso de William Blake fala de garotas de suave prata ou furioso ouro, mas em Ulrica estavam o ouro e a suavidade. Era leve e alta, de feições afiladas e de olhos cinzas. Menos que seu rosto, impressionou-me seu ar de tranqüilo mistério. Sorria facilmente e o sorriso parecia distanciá-la. Vestia-se de preto, o que é raro em terras do Norte, que tratam de alegrar com cores o monótono das redondezas. Falava um inglês nítido e preciso, e realçava levemente os erres. Não sou observador; essas coisas fui descobrindo pouco a pouco.
Apresentaram-nos. Disse-lhe que eu era professor da Universidade dos Andes, em Bogotá. Expliquei que era colombiano. Ela perguntou, de modo pensativo:
– O que é ser colombiano?
– Não sei – respondi. – É um ato de fé.
– Como ser norueguesa – assentiu.
Nada mais posso recordar do que foi dito aquela noite. No dia seguinte, desci cedo à sala de jantar. Pela janela vi que havia nevado; os desertos desapareciam com a luz da manhã. Não havia mais ninguém. Ulrica me convidou à sua mesa. Disse-me que gostava de sair a caminhar sozinha.
Lembrei uma brincadeira de Schopenhauer e respondi:
– Também gosto. Podemos sair os dois.
Afastamo-nos da casa, sobre a neve jovem.
Não havia uma alma nos campos. Propus que fôssemos a Thorgate, que fica rio abaixo, a algumas milhas. Sei que já estava apaixonado por Ulrica; não desejava ao meu lado qualquer outra pessoa.
Imediatamente, ouvi o distante uivo de um lobo. Nunca tinha escutado uivar um lobo, mas sei que era um lobo. Ulrica não se alterou.
Após um tempo ela disse, como se pensasse em voz alta:
– As poucas e pobres espadas que vi ultimamente na Catedral de York comoveram-me mais do que os grandes navios do museu de Oslo.
Nossos caminhos se cruzavam. Ulrica, aquela tarde, seguiria viagem até Londres; eu, até Edimburgo.
– Em Oxford Street – ela disse – repetirei os passos de Quincey, que buscava sua Anna perdida entre as multidões de Londres.
– De Quincey – respondi – deixou de buscá-la. Eu, durante toda a vida, continuo buscando-a.
– Talvez – falou em voz baixa – você a tenha encontrado.
Percebi que uma coisa inesperada não me estava proibida e a beijei na boca e nos olhos.
Afastou-me com suave firmeza e logo declarou:
– Serei tua na pousada de Thorgate. Peço-te que enquanto isso não me toques. É melhor que assim seja.
Para um homem solteiro já avançado em anos, o amor oferecido é um presente que já não se espera. O milagre tem direito de impor condições. Pensei na minha mocidade em Popayán e em uma garota de Tezas, clara e esbelta como Ulrica, que me havia negado seu amor.
Não incorri no erro de perguntar-lhe se ela me amava. Compreendi que não era o primeiro e que não seria o último. Aquela aventura, talvez minha última, seria uma entre tantas para essa resplandecente e corajosa discípula de Ibsen.
Com as mãos unidas, seguimos.
– Tudo isto é como um sonho – falei -, e eu nunca sonho.
– Como aquele rei – replicou Ulrica – que não sonhou até que um feiticeiro o fez dormir numa pocilga. – Acrescentou depois:
– Escute. Um pássaro está prestes a cantar.
Em pouco tempo ouvimos o canto.
– Nestas terras – falei – dizem que quem está prestes a morrer prevê o futuro.
– E eu estou prestes a morrer – disse ela.
Encarei Ulrica, atônito.
– Cortemos pelo bosque – apressei-a. – Chegaremos mais rápido a Thorgate.
– O bosque é perigoso – replicou.
Seguimos pelo deserto.
– Queria que este momento durasse pra sempre – murmurei.
– “Sempre”é uma palavra proibida aos homens – afirmou Ulrica e, para diminuir a força daquilo, pediu-me que repetisse o meu nome, que não tinha entendido direito.
– Javier Otálora – disse-lhe.
Ela quis repeti-lo e não conseguiu. Fracassei, igualmente, com o nome Ulrikke.
– Chamarei-te Sigurd – declarou, com um sorriso.
– Se sou Sigurd – repliquei -, tu serás Brynhild.
Ela havia retardado o passo.
– Conhece a saga? – perguntei-lhe.
– Claro que sim – respondeu. – A trágica história que os alemães estragaram com seus recentes Nibelungos.
Não quis discutir e respondi:
– Brynhild, caminhas como se desejasse que entre nós dois houvesse uma espada na cama.
Paramos de repente, diante da pousada. Não me surpreendi que se chamasse, como a outra, Northern Inn. Do alto da escada, Ulrica gritou:
– Ouviste o lobo? Já não restam lobos na Inglaterra. Apressa-te.
Subindo ao andar superior, notei que as paredes estavam forradas à maneira de William Morris, um vermelho muito profundo, com desenhos entrelaçados de frutos e pássaros. Ulrica entrou primeiro. O quarto escuro era baixo, de teto inclinado. A esperada cama estava duplicada em um turvo espelho e o mogno lustroso lembrou-me o espelho da Escritura. Ulrica já tinha se despido. Chamou-me pelo meu verdadeiro nome, Javier. Senti que a neve aumentava. Já não restavam mais móveis ou espelhos. Não havia espada entre nós dois. Como a areia, ia-se embora o tempo. Profano na sombra, o amor avançou e possuí pela primeira e última vez a imagem de Ulrica.
Notas
1. Jorge Luis Borges, mestre das piadas internas obscuras, refere-se neste conto à Völsunga Saga [Epopéia dos Volsungs]. Trata-se de uma antiga lenda nórdica de autoria desconhecida, cuja origem remonta à Islândia do século XIII. O trecho citado no conto faz parte dos capítulos finais da epopéia, que narram a história de amor entre Brynhild e o herói Sigurd. De maneira resumida: Brynhild está presa em um castelo envolto por um muro de fogo, e uma maldição diz que se casará apenas com o homem que passar pelo obstáculo. Sigurd a liberta, eles se apaixonam, juram amor eterno, essas coisas. Ele sai pra comprar cigarros, digo, para resolver umas tarefas na cidade. Tempos depois, a feiticeira Grimhild e o marido decidem que o herói Sigurd seria uma boa aquisição para a família [jovem, rico, corajoso], e que a filha deles, Gudrun, seria perfeita pra desposá-lo. Rapidinho, a bruxa enfeitiça-o para que esqueça a antiga amada, e assim ele acaba se casando com Gudrun.
Enquanto isso, o outro filho da feiticeira, de nome Gunnar, também resolve que já era hora de se casar com alguém. Escolhe Brynhild, que ainda está esperando no castelo da muralha de fogo. Como Gunnar não conseguia passar pelas chamas de jeito nenhum, nem com os melhores cavalos, o herói Sigurd decide ajudá-lo e ambos trocam de feições, sabe-se lá como. Facilmente, o intrépido Sigurd entra no castelo no lugar de Gunnar, dotado da aparência deste, e corteja a pobre Brynhild. Ela vê-se obrigada a cumprir a sina e desposar aquele rapaz estranho que atravessara o fogo, apesar de ainda estar apaixonada por Sigurd. Convida-o, então, a dormir com ela. Neste momento, ocorre o incidente de que fala Borges: Sigurd [sempre sob a forma de Gunnar] desembainha a espada e coloca-a entre os dois, sobre a cama, como se fosse uma barra para separá-los. Quando ela indaga sobre o motivo daquele ato, Sigurd responde que lhe fora ordenado para apenas tocar na noiva após o casamento, sob pena de morte.
Finalmente, ela sai do castelo e se casa com Gunnar [o verdadeiro], enquanto Sigurd continua com a tal Gudrun. Trata-se de uma história trágica, senhores. Até a morte de Brynhild e Sigurd [leia a saga para descobrir o que aconteceu], sempre haveria uma espada entre eles.
2. A Völsunga Saga foi uma das fontes usadas por Richard Wagner em Der Ring des Nibelungen [O anel dos Nibelungos]. Os alemães têm suas versões para a saga, também.
3. No túmulo de Jorge Luis Borges, há a frase “…And ne forthedon nã” [“…e não tenha medo”, em inglês arcaico], tirada do poema anglo-saxão “La Bataille de Maldon”. Na outra face do túmulo, há a epígrafe de Ulrica: “Hann tekr sverthit Gram ok leggr i methal theira bert”, que conta o episódio da espada acima descrito. Na parte inferior do túmulo, há a dedicatória: “De Ulrica a Javier Otárola”, sendo Ulrica a ex-esposa de Borges, Maria Kodama.
4. O original Ulrica, em espanhol, pode ser lido aqui. Você também pode ler a Völsunga Saga na língua lá deles.















