O inventor da caixinha de CD chega ao inferno

Posted: 1st janeiro 2007 by Vanessa Barbara in Traduções
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O inventor da caixinha de CD chega ao inferno
por Steve Martin
tradução Vanessa Barbara

Piauí n. 4
Janeiro de 2007

As portas flamejantes do Inferno se abriram de par em par e o inventor da embalagem do cd se integrou à diabólica fanfarronada.

– Queríamos que tivesse vindo antes – comentou o Puro Mal Encarnado com seus lacaios demoníacos -, mas decidimos adiar um pouco. Afinal, ele estava fazendo um bom trabalho lá em cima. Empenhou-se com afinco em embrulhar os cds com celofane e com aquela fita pegajosa que não desgruda de jeito nenhum. Chamem-no para o jantar. E não se esqueçam de convidar também o pessoal dos manuais de computador.

O Diabo desapareceu no ar, perdendo assim a calorosa demonstração de afeto oferecida ao inventor.

– O próprio Belzebu tirou uma lasquinha de pele do polegar quando foi abrir uma coletânea da Barbra Streisand – cochichou um diabrete. Uma serpente grossa rastejou para perto e se aninhou em torno da perna do inventor.

– Antes, ele adorava a turma do controle remoto e aqueles minúsculos botõezinhos espremidos um contra o outro – disse a cobra. – E, ainda por cima, com todas aquelas abreviações enigmáticas. Mas agora ele só fala em você, porque você isso, você aquilo… Bem, mas vamos indo, está na hora de se arrumar para o jantar. Podemos conversar mais tarde sobre as suas atribuições.

Enquanto indicava o caminho para os alojamentos satânicos, a serpente lançou- lhe um olhar ávido e inquiridor.

– Como conseguiu? – perguntou ela, fixando-o cara a cara. – Quer dizer, como é que inventou a embalagem? Todo mundo quer saber!

O inventor, sentindo o conforto dos pés em brasa e lisonjeado pelo reconhecimento, relaxou imediatamente.

– A maldita caixinha original do cd era um troço fácil demais de abrir – explicou. – Porque cá entre nós… Se for para dificultar o acesso do consumidor, pelo amor de Deus, vamos fazer a coisa direito! O que eu quis foi criar uma embalagem que obrigasse o comprador a ir na cozinha buscar uma faca, porque assim pelo menos teríamos uma chance de ele decepar a própria mão.

– Foi aí que surgiu a idéia daquele plástico do tipo termoencolhível? – perguntou a serpente.

– O plástico termoencolhível funcionou durante um tempo. Eu adorava a idéia de que não havia ali nem uma brechinha para ninguém enfiar a unha e rasgar, mas eu sabia que podia ir mais longe. Foi aí que descobri o celofane. O celofane e a fita que dá a ilusão perfeita de que existe, sim, um caminho para abrir a embalagem, só que na verdade nem a própria fita existe.

Naquela noite, no jantar comemorativo realizado a cada éon para homenagear os recém-chegados, o inventor da caixinha de cd sentou-se à direita do Diabo. À esquerda, sentou-se Cérbero, o cão de guarda do Hades e notório criador do abacaxi. O Diabo papeou a noite toda com o inventor e, a certa altura, pediu-lhe que abrisse outra garrafa de vinho, desta vez com um saca-rolhas de lâminas paralelas, aquele dispositivo semelhante a uma pinça, dotado de duas hastes finas e perfurantes que têm porque têm que entrar entre as paredes da garrafa e a rolha, sem machucá-la. O inventor suou, mas uma hora depois a rolha estava separada de sua garrafa.

A princípio, ninguém notou o ruído abafado que vinha de cima, e que logo se tornou um clamor incontido. Pouco a pouco, os comensais começaram a olhar para o teto e, por fim, o próprio Diabo percebeu que a atenção de seus convidados fora desviada. Ele ergueu os olhos.

Três anjos planavam no éter, cada qual segurando um objeto. O inventor sabia exatamente que objetos eram aqueles: a caixa de leite, o saco zip e a banana – três embalagens de desenho impecável. Lembrou que costumava admirálas antes de sucumbir ao mal. Os três anjos deslizaram em direção ao parlatório. Um deles ergueu o saco zip sobre os asseclas do frasco de aspirina e lhes deu um banho de luz sobrenatural. O brilho amarelo da banana inundou o peçonhento Cérbero, projetista do abacaxi, e a caixa de leite derramou sua branca luminosidade em cima do inventor da embalagem do cd. O Diabo, nessa hora, se levantou abruptamente, urrou qualquer coisa em latim enquanto súcubos lhe escorriam da boca, desculpou-se a si mesmo e se retirou, irritado.

Depois do fiasco, o inventor voltou a seus aposentos e se ocupou com os cinco controles remotos necessários para operar o aparelho de dvd. Frustrado, fechou os olhos e contemplou a perspectiva da eternidade no vazio do Inferno, percebendo que provavelmente nunca mais veria um floco de neve ou um Chicabon. Em seguida, porém, pensando naquele belo jantar e em seus novos amigos, decidiu que flocos de neve e Chicabons não tinham tanta importância assim. Imaginou que, afinal de contas, a eternidade poderia não ser tão ruim. Aí ele ouviu uma batida na porta e a serpente entrou.

– O Diabo me pediu que lhe comunicasse qual será a sua incumbência – disse ela. – Às vezes ele tem enxaquecas fortíssimas. Ele quer que você fique do lado dele para abrir o frasco de aspirina.

– Acho que consigo – respondeu o inventor.

– Ah, e você já viu – esclareceu a serpente -, ele faz questão de aspirinas frescas. E então toda vez você vai ter que remover o resistente aro inviolável, a tampa de segurança à prova de crianças e o lacre de alumínio.

O inventor suspirou aliviado:

– OK. Sem problema.

– Ótimo – disse a serpente, dandolhe as costas para ir embora.

Nesse instante, uma onda de pavor sacolejou o corpo do inventor:

– Mas espera aí, espera aí… – sua voz tremia de nervoso. – Quem é que vai tirar aquela bolota de algodão da boca do frasco?

A serpente se voltou lentamente. Seu rosto, num repuxão, havia se transformado na máscara de Belzebu:

– Por quê? – ela perguntou, agora com uma voz cavernosa que parecia brotar das profundezas do Inferno. – E você pensou que fosse quem?… uhahahahaha!

Picasso divulga “Dama com leque”

Posted: 1st dezembro 2006 by Vanessa Barbara in Traduções
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Picasso divulga “Dama com leque”
Espero que meus fãs entendam essa nova fase

por Steve Martin
tradução Vanessa Barbara

Piauí n. 3
Dezembro de 2006

The entertainment channel: Antes de mais nada, nós gostamos muito de “Dama com leque”.
Picasso:
Obrigado. As pessoas parecem ter se empolgado com o quadro, e a crítica foi positiva.
EC:
Como foi a sensação de pintar “Dama com leque”?
Picasso:
Muito, muito empolgante. Me empolguei com a idéia de pintá-lo e de trabalhar com pessoas tão empolgantes, o pessoal das tintas, o cara das telas.
EC:
Puxa, então foi um projeto empolgante.
Picasso:
Foi, eu fiquei realmente empolgado. Às vezes mais, às vezes menos.
EC:
Mas você passou o tempo todo empolgado?
Picasso:
Com certeza, o tempo todo. Você acertou na lata.
EC:
E a modelo?
Picasso:
É mesmo, eu quase esqueci. Que hilário! Admiro as poses dela há anos e finalmente tive a chance de trabalhar com ela. Foi maravilhoso ir pro ateliê todos os dias.
EC:
Conte para os telespectadores como ela é.
Picasso:
Ah, ela é simples, sem afetação. Podia ter o rei na barriga, mas não tem.
EC:
E rolou um clima?
Picasso:
Rapaz, que entrevista difícil! (risos) Na verdade, somos bons amigos, mas não passa disso. Eu tenho regras claras sobre namorar minhas modelos.
EC:
Em entrevista ao nosso programa, ela disse: “Adorei trabalhar com Picasso. Nós demos muitas risadas”. Sobre o que vocês riam? Algum incidente engraçado?
Picasso:
Deixa eu ver. Hmm. Ah, sim. Um dia, eu disse que queria pintá-la nua. Nossa, você precisava ter visto a cara dela. É claro que logo em seguida eu disse que tava só brincando.
EC:
Mas que hilário!
Picasso:
Foi muito, muito engraçado.
EC:
Dama com leque é muito diferente dos seus trabalhos anteriores. Você acha que os seus fãs irão aprovar?
Picasso:
Bom, eu realmente quis expandir meus horizontes, espero que meus fãs entendam esta nova fase.
EC:
Muitos outros quadros foram lançados recentemente. Matisse apresentou o “Retrato com risca verde”, e Vlaminck pintou uma boa natureza morta. Você se preocupa com a concorrência?
Picasso:
Olha, tenho certeza de que o quadro de Matisse deve ser muito, mas muito fofo. Quanto a Vlaminck, ele é um idiota.
EC:
Uau! Vamos, não esconda nada – diga ao espectador tudo o que você pensa!
(risos)
EC:
Pablo?
Picasso:
Diga.
EC:
Por que um leque?
Picasso:
Puxa, todo mundo me faz essa pergunta. Acho que é porque eu não quis chamar o quadro de “Dama com banana”. Brincadeira.
EC:
Puxa, mas que hilário!
Picasso:
Falando sério, o leque foi escolhido por ser uma alegoria da feminilidade, porque ele equilibra a composição do quadro e porque eu arranjei a mão da modelo na clássica posição religiosa de “A virgem das rochas”, de Leonardo, com a diferença de que eu queria vê-la segurando um objeto profano.
EC:
Entendi. (Pausa) Quais são os seus próximos projetos?
Picasso:
Bom, gostaria de fazer pinturas menos sérias. “Dama com leque” é, na verdade, uma obra profunda, e eu gostaria de ampliar um pouco mais e mostrar que não sou um pintor de um quadro só.
EC:
Muito obrigado, Pablo Picasso. (Virando para a câmera) ‘Dama com leque’ ficará exposto na National Gallery pelos próximos mil anos, não perca. Pablo, por favor, você pode olhar para a câmera e dizer: “Oi, eu sou Pablo Picasso, você está assistindo o Entertainment Channel!”?
Picasso:
Claro. Posso mandar um beijo para a Gertrude Stein?

O brasileiro Juan Manuel

Posted: 1st dezembro 2006 by Vanessa Barbara in Reportagens, Revista piauí
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Piauí n. 03
Dezembro de 2006

texto e fotos por Vanessa Barbara

Agora serão sete no apartamento de Beatriz Apaza, no bairro do Pari, centro de São Paulo. “Seis e meio”, ela corrige, olhando para um pequeno embrulho de bebê e cobertores na cama da maternidade. Juan Manuel não é maior do que esta revista, está deitado bem no centro da cama, e a mãe se senta na ponta, com cautela. “Ele não chora, fica dormindo o tempo todo”, diz Beatriz, ainda sem tirar os olhos da criança. O bebê tomou as vacinas sem reclamar, fez o teste do pezinho, mamou durante meia hora e dormiu.

Tudo indica que Juan Manuel não quer dar trabalho nem chamar a atenção – assim como a mãe. Quando começaram as contrações, na manhã de 13 de novembro, Beatriz preferiu ficar em casa, esperando a dor aumentar. A jovem boliviana caminhou pela rua, tomou água, respirou fundo. Só foi para o hospital no fim da tarde, quando as contrações redobraram. “No Brasil, as mulheres fazem muita cesárea, e eu queria parto normal”, diz. Por isso, decidiu chegar quando a dilatação já estivesse boa. O parto foi rápido, e às 7 da noite Juan Manuel nasceu, depois de nove meses e uma semana na barriga da mãe.

Receosa, Beatriz não aceita tirar fotos ao lado do bebê. Ela e a irmã Deysi conversam aos sussurros, em espanhol. O Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros, no Belenzinho, é referência no atendimento de gestantes bolivianas, pois pertence à rede pública e se encontra próximo aos bairros do Bom Retiro, Pari e Brás, onde se concentra a colônia. Segundo Zuleika Olivieri, presidente do voluntariado do hospital, cerca de 25% das parturientes têm origem boliviana. Como se encontram em situação irregular no Brasil, algumas delas são arredias. Mesmo assim, são atendidas pelo hospital, que ganhou uma placa de agradecimento do Consulado Geral da Bolívia.

Max e Beatriz, os pais do bebê, vieram de La Paz há três anos. Eles decidiram emigrar para o Brasil no dia em que perderam a filha de três meses de idade, Fabiana. Segundo Beatriz, a menina morreu de “febre, gripe e tosse”. Na época, só faltava a tese de conclusão do curso para Max se formar em engenharia mecânica, mas, ainda assim, eles resolveram partir. Metade da família de Beatriz já vivia no Brasil (ao todo, nove irmãos: três mulheres e seis homens).

Hoje, aos 23 anos, ela mora em um apartamento com o marido e mais quatro de seus oito irmãos. A família trabalha na oficina de costura do irmão Rodolpho, para firmas brasileiras e coreanas. O pagamento é feito por prenda (peça de roupa). “Nós costuramos bastante por pouco dinheiro”, afirma. A idéia do casal era passar somente um ano no Brasil e voltar para casa, mas a situação piorou e eles foram ficando. Aí veio a gravidez, e os planos tiveram de ser adiados de novo.

É difícil saber exatamente quantos bolivianos vivem em São Paulo. Os números podem chegar a 200 mil, segundo o relatório de 2004 da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. A Maternidade Leonor Mendes de Barros atende muitos deles, além de moradoras de rua, presidiárias e grávidas de alto risco. Segundo as voluntárias, não são poucas as bolivianas que já chegam com tuberculose, devido ao ambiente insalubre de moradia e trabalho. “A grande maioria vem do trabalho escravo em confecções”, diz Zuleika. “Vivem em casas sem janela, tipo porão.” Algumas entram no hospital gritando, mas não é de dor, é de medo. Têm medo de serem denunciadas e medo do desconhecido, daí a importância das voluntárias, que vestem um avental rosa e servem de acompanhantes para as pacientes que não têm ninguém por perto.

“Tivemos uma boliviana de dez anos de idade que teve nenê, vítima de abuso sexual do tio, mas somente conseguimos descobrir isso depois de muita conversa”, conta Zuleika. Algumas pacientes só aceitam falar com “as de avental rosa”, e não com os médicos ou psicólogos. São mais de cem voluntárias no hospital, em sua maioria donas-de-casa ou aposentadas, que auxiliam as enfermeiras, conversam com as pacientes, organizam bazares e recebem doações para os enxovais. Curiosamente, as bolivianas são as parturientes que menos se interessam por receber esses enxovais – cobiçadas caixas de papelão grátis, contendo pijaminhas de flanela com fitinhas e tudo o mais.

***

Durante a conversa, Beatriz e Deysi não param de trocar olhares e sorrisos encabulados. Quando uma voluntária pergunta a Beatriz se ela gosta do Brasil, a moça responde: “é… Eu gosto”, e olha para a irmã. “Não foi muito convincente, hein?”, brinca a funcionária. Beatriz explica que Juan Manuel será educado em espanhol, pois é o idioma que eles falam em casa, e também porque a família pretende retornar à Bolívia quando as coisas melhorarem.

Enquanto isso não acontece, eles se distraem encontrando os amigos e participando dos eventos da colônia boliviana na região. Todos os sábados, na Rua Coimbra, no Brás, e todos os domingos, na Praça Kantuta, no Canindé, milhares de imigrantes se reúnem em uma feira de produtos típicos, comida, dança e artesanato. Na Kantuta pode-se comprar saltenhas (um salgado boliviano), flautas, potes de barro, malhas de lã de lhama e dvds com discursos do presidente Evo Morales. Pode-se cortar o cabelo, jogar futebol e procurar subempregos em anúncios expostos em painéis. Beatriz costuma freqüentar a praça em busca de seu prato preferido, o chicharrón, espécie de torresmo servido com chuño (batata desidratada) e mote (milho branco cozido). Também gosta de comprar o queijo branco boliviano, que é “parecido com o brasileiro, mas estica”.

Rodeada de senhoras de avental rosa, a mãe de Juan Manuel dá indicações de como chegar à Praça Kantuta, já que ninguém sabe ao certo onde fica. Uma das voluntárias confessa: “Eu fui uma vez, mas não saberia voltar”. E Beatriz, indignada: “Mas como?! Está en su país…”. No quarto coletivo da maternidade, que ela divide com mais três gestantes, a boliviana conta que sua festa preferida é a de Alasitas (“compre-me”, no idioma aimara), que começa em 24 de janeiro e é oferecida a Ekeko, o deus da abundância. Nesse dia, na praça paulistana, há venda e exposição de miniaturas que simbolizam o que se deseja alcançar: casas, automóveis, sacos de arroz e de açúcar. No ano que vem, Beatriz promete levar o diminuto Juan Manuel à Alasitas – sem falta -, pois é uma festa de miniaturas e ele vai se sentir “muito à vontade”.

Nanoesquina

Posted: 1st dezembro 2006 by Vanessa Barbara in esquinas, Reportagens, Revista piauí
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Nanoesquina
Uma esquina experimental

por Vanessa Barbara

Piauí n. 3
Dezembro de 2006

Em 6 de novembro, o Rio de Janeiro recebeu o chinês Xi Shun, o homem mais alto do mundo. Enquanto isso, a cidade de São Paulo abrigava a Nanotec Expo 2006, onde foram exibidas calcinhas fabricadas com tecido nanomodificado, bolas de golfe com polímeros nanoestruturados e outros produtos fabricados com manipulação da matéria na escala dos átomos. XI Shun tem 2,36 m de altura. O nanômetro equivale a um milionésimo de milímetro. Depois do Rio, Xi Shun veio a São Paulo. Foi ao Jô Soares, à avenida Paulista e deu autógrafos. Não visitou a Nanotec Expo 2006. Talvez por falta de espaço.

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Piauí n. 2
Novembro de 2006

por Vanessa Barbara

Splash: elegância de um pato a um custo de cinco Ferraris

A história dos carros-anfíbios tem capítulos surpreendentes. Um deles se desenrolou às 7 da noite do dia 2 de fevereiro de 2004, quando um Buick 1959, verde-abacate, zarpou de uma praia a leste de Havana com onze cubanos a bordo. O objetivo era atravessar os 140 quilômetros que separam Cuba da costa dos Estados Unidos. Chegando ao destino, o veículo aportaria na areia, engataria a segunda e, presumivelmente, entraria à direita na Sombrero Boulevard. Um dia depois da partida, contudo, a Guarda Costeira o interceptou a 16 quilômetros de Marathon, na Flórida. Quando as autoridades mandaram o Buick encostar, seus tripulantes e passageiros – seis adultos e cinco crianças – desceram do capô, onde tomavam sol, pularam para dentro do carro e fecharam os vidros. Ficaram ali, olhando para a frente, fingindo que não era com eles. Não deu certo. Foram presos na hora.

A Guarda Costeira pediu aos tripulantes que ajudassem a afundar o Buick. Tarefa aparentemente impossível. “Nós embutimos isopor em todos os compartimentos do carro. Se ele fosse jogado no mar de uma altura de três andares, mesmo assim boiaria”, explicou o engenheiro mecânico Luis Grass Rodriguez a uma revista americana de automóveis. Se tivessem concluído a travessia, os cubanos ganhariam o direito de permanecer nos Estados Unidos. Como isso não aconteceu, iniciaram-se os procedimentos de repatriação. Com medo de voltar a Cuba, Luis Grass e sua família conseguiram asilo na Costa Rica. Os outros foram devolvidos à ilha.

***

Para adaptar o Buick à navegação em alto-mar, o engenheiro e seu amigo Marciel Basanta Lopez gastaram 4 mil dólares. As portas do carro foram vedadas e a parte da frente ganhou uma legítima proa de aço, que os construtores tiveram o capricho de pintar do mesmo tom verde-abacate do automóvel. Propulsores ligados ao motor original do Buick, um v-8, fizeram as vezes de hélice. Os pneus foram mantidos. O leme foi controlado por cabos conectados ao volante. O anfíbio verde-abacate singrou os mares a uma velocidade de 10 quilômetros por hora.

Um mês depois, enquanto alguns dos cubanos repatriados retomavam as tentativas de boiar até a Flórida – desta vez num táxi azul, um Mercury 1948 -, a empresa suíça Rinspeed lançava Splash, o carro-anfíbio mais veloz do mundo. Com as feições de uma Ferrari, muito baixo e repleto de logomarcas, o veículo amarelo-ouro custou cerca de 2 milhões de dólares. Splash funciona à base de hidrofólios, mecanismo que eleva a carroceria a alguns centímetros da água e o faz deslizar com menos resistência e boa velocidade. No mês passado, Splash fez uma demonstração na represa de Guarapiranga, na região sul de São Paulo. O próprio inventor, o suíço Frank Rinderknecht, vestiu uma roupa de neoprene e assumiu o volante. “É um sonhador”, declarou uma assessora.

Na hora marcada para a exibição, o carro não pegou. Estacionado numa plataforma no Yacht Club Santo Amaro, Splash foi rapidamente cercado por suíços aflitos, que gesticulavam e discutiam em alemão. A tampa do capô foi aberta. Em estilo cubano, os suíços tentavam consertar a bomba a golpes de martelo. Chaves de fenda foram freneticamente manuseadas. Um membro da equipe enrolou cabos em fita silver tape, provavelmente para tapar algum buraquinho. “Parece o meu carro”, disse um fotógrafo. Márcio Dottori, consultor técnico da revista Náutica, e um dos organizadores do evento, tratou de acalmar os jornalistas. Tinha havido um problema com a bomba de gasolina, mas em menos de quinze minutos Splash estaria na água. Aproveitou para dar mais detalhes sobre o veículo: ele pesa 825 quilos, aparentemente pouco, pois é feito de fibra de carbono (“Não queríamos um submarino”), e alcança 200 km/h em terra e 80 km/h na água. Em contraste com o Buick, onde se acomodam onze cubanos, no cockpit de Splash cabem apenas duas pessoas. Em julho, o veículo bateu o recorde mundial da categoria ao atravessar em 3 horas e 14 minutos os 36 quilômetros do canal da Mancha, entre Dover (Inglaterra) e Sangatte (França). Venceu ondas de até 7 metros de altura. O mar brabo o forçou a manter uma média de 10 quilômetros por hora.

“Para um carro que vale cinco Ferraris.”, desdenhou um popular. “Joga logo na água pra ver se flutua!”, desafiou aos gritos. O problema foi finalmente resolvido. Rinderknecht entrou no automóvel, girou a chave de ignição e sugeriu aos jornalistas que tomassem um bote para acompanhar o passeio. Splash veio descendo a rampa e entrou na água com a naturalidade de um pato. Inicialmente, não fez mais do que boiar. “Ih, afogou!”, comentou um observador. “Vai ter que empurrar”, avisou um repórter mais cético. Nesse momento os hidrofólios entraram em ação: foi como se Splash tivesse aberto os braços. O carroanfíbio empinou as rodas da frente e acelerou, a 60 centímetros da água. Parecia voar. Deixou um rastro não de fumaça, mas de espuma. “Que coisa. pitoresca”, comentou o repórter de uma revista automobilística, tentando não molhar o bloquinho. Depois de inúmeras voltas pela represa, Splash estacionou no asfalto. Como um pato ou um nadador sem toalha, pingava sem parar.

O próximo projeto da Rinspeed é desenvolver um carro-anfíbio ainda mais potente. Sonhador e pragmático, Rinderknecht construirá seu novo bólido aproveitando todas as lições deixadas por Splash. É a mesma estratégia de Luis Grass Rodriguez, que planejou seu Buick a partir de um protótipo anterior, um caminhão Chevrolet 1951, de lataria também verde, caçamba coberta por uma lona amarela e dezenas de tambores de óleo vazios no papel de flutuadores. Sete meses antes do Buick verdeabacate e oito meses antes de Splash, o caminhão flutuante chegou a 65 quilômetros de Key West, onde foi interceptado pela Guarda Costeira. Foi preciso muita artilharia para afundá-lo. O anfíbio submergia e boiava, submergia e boiava, para alegria dos cubanos, que assistiam de longe e aplaudiam cada vez que ele voltava à tona.

Aí é luta, patuléia

Posted: 1st novembro 2006 by Vanessa Barbara in Reportagens, Revista piauí
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Novembro de 2006

por Vanessa Barbara

Uma desavença fonética opõe a jovem guarda aos palindromistas tradicionais – seria “Acena, Vanessa!” aceitável?

Há uma frase em latim que cura mordida de cobra e facilita o parto. É “Sator Arepo Tenet Opera Rotas” (o semeador Arepo mantém o curso com atenção), que ao ser lida da direita para a esquerda é literalmente igual. Ou seja, é um palíndromo. Segundo Otto Lara Resende, uma senhora mineira escrevia cada palavra dessa oração num pedaço de papel, enfiava num bentinho e amarrava no pescoço dos doentes, dizendo que, para coqueluche e asma, era tiro e queda. A frase é considerada o palíndromo mais antigo do mundo, e além disso, se as palavras forem dispostas em pilha, uma embaixo da outra, o sentido é preservado em todas as direções. Há inúmeras traduções possíveis, como “Deus, Criador, mantém com cuidado o mundo em sua rota”, mas ninguém sabe ao certo o que ela quer dizer. O escritor pernambucano Osman Lins baseou seu romance Avalovara nessas cinco palavrinhas enigmáticas.

Existem palíndromos atribuídos ao demônio. Alguns trazem azar. O gramático Napoleão Mendes de Almeida, autor de Questões vernáculas, diz que uma das provas de soberania entre os incas era que seus reis tinham nomes palindrômicos, como Capac. Na década de 70, um casal de Ohio, nos Estados Unidos, batizou seus filhos como Noel Leon, Lledo Odell, Lura Arul, Loneya Ayenol, Norwood Doowron, Lebanna Annabel e Leah Hael. A certa altura, alguém criou a palavra “aibofobia” para designar o medo mórbido e irracional de palíndromos. O termo não tem raiz grega ou latina, mas funciona de trás pra frente.

Junto a restos de churrasco, em uma mesa na calçada, um rapaz de camiseta amarela olha intrigado para a palavra “gnus” escrita em um papel. Ao lado dele, outro jovem rabisca nomes de ditadores numa folha: Hitler, Stálin, Mussolini. De repente, Paulo Werneck descobre que “a gnus” ao contrário dá “sunga”, e se põe a construir uma frase. Chico Mattoso desiste dos totalitários e passa para a palavra “pires”. Naquela tarde de outubro, na mesa de uma churrascaria em Santa Cecília, na região central de São Paulo, a jovem guarda palindrômica trabalha com afinco. Há quem diga que estamos vivendo os tempos áureos dos palíndromos. Nunca se produziu tanto desde um certo período na década de 90, quando um palindromista veterano sofreu um acidente de automóvel e passou três meses de cama, ditando frases invertidas para a esposa.

Por fim, uma garota sentada na outra ponta da mesa quebra o silêncio e mostra um palíndromo: “. E amamos só mamãe.”, na linha terno-familiar. Aos 25 anos, a moça de vestido longo, cabelos castanhos e voz suave é um dos grandes nomes da jovem guarda de palindromistas. O garçom vai buscar mais cerveja. Marina Wisnik diz que o segredo é não teimar por muito tempo. Se em quinze minutos não deu palíndromo, é melhor desistir e tentar outra palavra.

***

Representante da velha guarda palindômica, Rômulo Marinho, 74 anos, concorda com Marina: o importante é seguir tentando. Rômulo se intitula rei do palíndromo. Nascido em Guaçuí, no Espírito Santo, o advogado aposentado já compôs mais de 2002 frases. São de sua autoria expressões como “A droga do dote é todo da gorda”, “O rio é de oiro”, “Seco de raiva, coloco no colo caviar e doces” e “E até o papa poeta é” (nos palíndromos, acentos não são levados em conta), além de um poema de 123 letras chamado “Palíndromo do amor total”. Em 1998, publicou o livro Tucano na CUT?, com 202 frases. “Quase todo dia, vendo televisão, faço um palíndromo”, diz ele, “mas já não os anoto mais.” Nos três meses em que ficou de cama, ditando frases para a esposa, chegou a produzir cinco por dia.

Rômulo nasceu em 1932. Demorou mais de sessenta anos para fazer seu primeiro versus cancrinus (em latim: aquele que se comporta como caranguejo). Ele conta que, desde a infância, tinha a mania de ler palavras ao contrário, esperando encontrar algum sentido. Foi quando descobriu os bustrofédons, ou parapalíndromos, palavras que, lidas da direita para a esquerda, formam vocábulos diversos, como amor (Roma), após (sopa), assim (missa) e ar (rã). Pode-se dizer que o bustrofédon é um ponto de partida para o palíndromo. Mesmo assim, Marinho não parou por aí: continuou sem saber que existiam sentenças inteiras em espelho, embora já conhecesse a famosa frase “Roma me tem amor”. Aos 25 anos, tornou-se telegrafista, mais tarde engajou-se na militância sindical e política, foi eleito deputado federal e exerceu inúmeros cargos públicos. Aos 40 anos, formou-se em direito e, aos 59, ganhou o posto de juiz classista em Taguatinga, nos arredores de Brasília. A essa altura, um cardiologista obrigou-o a fazer longas caminhadas matinais. “Para esquecer a distância e o tempo, tentei fazer palíndromos”, lembra. “Passaram-se meses, até que um dia nasceu o primeiro: ‘A base do teto desaba’.” A vantagem desse hábito foi que Rômulo Marinho nunca precisou de papel para criar suas frases.

O palíndromo é uma arte sem planejamento, ou, nas palavras de Millôr Fernandes, uma arte neurótica e maravilhosa, capaz de envergonhar qualquer concretismo. Para começar uma frase (ou terminá-la, no caso), não se deve ter um tema prévio, ou uma intenção a comunicar. “Pegue uma palavra na qual duas consoantes não se encontrem e coloque no meio de uma frase imaginária”, ensina Marinho. “A partir daí, da esquerda para a direita ou vice-versa, vá construindo seu palíndromo.” É a abordagem centrista, utilizada pela maioria dos criadores de palíndromos, em que a frase vai abrindo para as pontas até ganhar sentido. Devem-se evitar advérbios terminados em ente, gerúndios e tritongos, além de letras mudas e a palavra “Volkswagen”.

Apesar da limitação imposta pelo método, os palíndromos não são necessariamente aleatórios e desprovidos de sentido. Rômulo Marinho os divide em “explicitus”, “interpretabiles” e “insensatus”, sendo que os insensatus cuidam apenas de juntar letras ou palavras sem se preocupar com o sentido, como: “Olé! Maracujá, caju, caramelo.” Os interpretabiles têm coerência, mas requerem esforço intelectual do leitor para entendêlos: “A Rita, sobre vovô, verbos atira.” Já os explicitus, mais valiosos, trazem sempre uma mensagem direta, clara e inteligível, como : “A diva em Argel alegra-me a vida.” Marinho se empenha para que os seus tenham significado óbvio. De fato, poucos dos seus versos exigem do leitor um esforço de interpretação. Além disso, segundo ele, “à exceção de certos palindromistas americanos, que vivem em permanente excitação atrás do recorde palindrômico, desprezando, na maioria das vezes, o nexo, todos os palíndromos que se cristalizaram são perfeitamente inteligíveis”. Em português, o mais famoso deve ser “Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos”, de autoria anônima.

No Brasil, os azes da palindromia incluem Pedro Nava, Malba Tahan, Afonso Arinos de Mello Franco, Eno Teodoro Wanke (autor de O livro dos palíndromos, onde registra mais de 3 mil) e Millôr Fernandes, autor de “Assim a aia ia à missa”, “A mala nada na lama” e “Olá, galo”. O cartunista Laerte é outro que faz suas incursões. Numa de suas tirinhas, uma família de cavalos está jantando e o potrinho diz: “Rir, o breve verbo rir”, e o pai retruca: “Eu já te disse para não dizer palíndromos à mesa!” Chico Buarque, por sua vez, demorou cinco horas para inventar o seu, durante uma noite de insônia: “Até Reagan sibarita tira bisnaga ereta”, que foi publicado em 1986, com ilustração de Chico Caruso. Nenhuma dessas personalidades supera Rômulo Marinho em dedicação.

***

O veterano palindromista, que chegou a receber o grau de Comendador na Ordem do Mérito de Brasília – mas não por causa de seus palíndromos -, acredita que existe um bocado de gente devotada ao ofício e atribui a si mesmo o crédito por boa parte dessa expansão. Todos os anos, na Feira de Livros de Brasília, ele é escalado pelo Sindicato dos Escritores para fazer uma palestra sobre o assunto. Pela internet, vende de quatro a cinco livros por mês. Recebe, quase que diariamente, a correspondência de novos palindromistas que encaminham seus trabalhos para sua apreciação.

Um desses novos talentos é Marina Wisnik, a jovem da churrascaria. Há seis anos, ela teve alguns de seus palíndromos musicados em uma canção do pai, José Miguel Wisnik. Em “Relp”, a atriz colabora com os versos: “Oi, rato otário”, “Eco: vejo hoje você”, “Ser cor e ser ocres”, “Ó mãe, tu era réu. Te amo”, “Mima a mina e anima a mim”, “Só dote dádiva é a vida de todos” e, o mais conhecido, “Lá vou eu em meu eu oval”, que abre a canção. Marina começou a fazer palíndromos aos doze anos, durante as aulas. A adolescência foi sua época mais produtiva, quando compôs quase todos os palíndromos utilizados na música.

Seus versos seguem uma linha mais poética e filosófica, embora ela tenha frases de diversas tendências, como a coloquial “.Ô Piauí! Viu? Aí, pô.”, que ela criou em poucos segundos, sob encomenda. “É interessante perceber que os palíndromos têm estilo”, afirma. “Quer dizer, se eles partem de uma regra, supostamente eram para ser todos iguais, mas não são: cada autor tem um jeito.” Como exemplo, Marina Wisnik mostra os versos de Sofia Mariutti, 19 anos, estudante de letras na USP e especialista em palíndromos coloquiais. Sofia é autora de “Ô padre, meu, que merda, pô!”, “É pesado? Foda-se, pé!” e “Olé! Bacon no cabelo!”.

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A jovem guarda palindrômica abriga representantes de todos os tipos- do culto ao coloquial, do comportado ao sacana, todos com uma característica em comum: palindromia desenfreada. No encontro da churrascaria, foram criados em poucas horas dezenas de versos, na modalidade engajada, como “Aí é luta, patuléia!”, de Paulo Werneck, “A luta: tu lá”, de Marina, e na modalidade líricoembevecida, como “Ah, larga gralha!” e “Ah, livre ervilha”, de Werneck. A pedidos, produziram uma seqüência sobre cavalos. Paulo fez “Só lava cavalos” e “Seo Zala só lava cavalos alazões”, embora a legitimidade do senhor Zala tenha sido contestada, e o escritor Chico Mattoso veio com o coloquial “Ó lá! Vaca a cavalo!”.

Mattoso, de 28 anos, formado em letras, é craque em palíndromos eróticos, como “Alzira no colo: coloco nariz lá”, “O soro louco do cu oloroso” e “Ó: meto anal, miss? Sim, lá não temo.” É também notável seu poema lírico-terrorista Barab:

“Osama ama só
E, no nada, mama danone.”

Alguns de seus palíndromos coloquiais procuram captar o espírito da época. É o caso de “A Ju, cara, mó maracujá” e “Lã, mina: animal!”, em que um rapaz tenta cortejar uma moça exibindo o nobre material de suas vestes.

Já o editor Paulo Werneck, também de 28 anos, possui um estilo mais experimental, marcado pelos palíndromos insensatus: “É mala, salame!”, “Só furado podar ufos”, “E volátil a palita: love”, “Os nós de Edson só” e “Ela fede a gnus, a sunga, Ed! É, fale!”. No papel, ficaram inconclusas as suas tentativas com as palavras “pinel”, “árvore”, “Fidel”, “pulôver”, “Pol Pot”, “Churchill”, “pâncreas”, “apócrifo”, “diarréia”, “Abraão” e “couve”.

Werneck é um dos pioneiros do controverso palíndromo fonético, nova modalidade de frases que se pautam pela regra da oralidade. Os maiores exemplos são: “Acena, Vanessa!”, em que de trás para frente os dois ss substituem o cê, “Soluço sob os óculos”, em que o cê e o cê cedilha se confundem, e “Osaka girava a Varig: acaso”, que além de fonético não faz nenhum sentido.

“Jamais me passou pela cabeça que alguém iria, um dia, fazer um palíndromo assim, só sonoramente palindrômico”, confessa, desgostoso, Rômulo Marinho, um defensor da palindromia ortodoxa. “Para mim, que a considero uma arte idiomática, não vale.” Ele acredita que fazer palíndromos é uma distração destinada ao cultivo do idioma, e portanto a transgressão é de mau gosto. “É simplista demais. De qualquer forma, da mesma maneira que alguns fazem versos caipiras, com erros crassos da nossa língua, fica a juízo e critério de seu produtor e de seus ouvintes o julgamento. Eu, simplesmente, não vejo qualquer graça nisso. Quem sabe o ‘seu Creysson’ gostaria”, ataca. Em sua defesa, Paulo Werneck bate na mesa e observa que “a palindromia precisa se abrir para a oralidade. O palíndromo fonético é uma realidade!” A discussão corre o risco de terminar com o palíndromo “É a mãe! É a mãe!”.

Outra inovação trazida pela mocidade palindromista, e dessa vez aclamada pelos veteranos, é o Palíndromo Plus 2002, do engenheiro Pedro Mindlin, de 32 anos (http://www. larc.usp.br/ ~pmindlin/ palindromo.html). O programa serve para auxiliar na criação das sentenças, pois possui os campos “Contrário”, em que a palavra escolhida aparece às avessas, e “Espelho”, que ajuda a visualizar uma frase, já que todo palíndromo é, sempre, espelhado, isto é, a primeira letra da frase é igual à última, a segunda igual à penúltima e assim por diante, até chegar à letra central, caso o número total de letras seja ímpar, ou letras centrais, caso o número seja par. O Palíndromo Plus foi baseado na obra do médico Manu Lafer, que lançou ano passado o CD Grandeza, com duas músicas em palíndromo: “A cara rajada da jararaca” e “Bustrofédon”. O próprio criador da ferramenta, Pedro Mindlin, possui palíndromos de sua autoria, entre eles “O Pedro morde pó” e “O Pedro me morde, pô!”. E também recebe, por email, frases de usuários do programa – como Elizene Cássia, da cidade de Taió, Santa Catarina, que enviou recentemente um palíndromo singelo: “Oi a todo Taió.”

Bom dia, meu nome é Sheila

Posted: 1st outubro 2006 by Vanessa Barbara in Reportagens, Revista piauí
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Piauí n. 01
Outubro de 2006

por Vanessa Barbara

Como trabalhar em telemarketing e ganhar um vale-coxinha

Fagner vendia planos de saúde pela lista telefônica. Boné na cabeça, mascando chiclete, ele abria a letra A e começava a discar. “Bom-dia, meu nome é Fagner, com quem eu falo, por gentileza?” Às vezes preferia trabalhar com prefixos. Butantã é 3735 e Mandaqui é 6979. Começava discando o 0001, 0002, 0003. Ou tentava qualquer combinação a esmo. Fagner vendeu dezenas de planos usando a Lista de Assinantes Residenciais de São Paulo, capital, e distribuindo panfletos com seu nome e telefone.

O trabalho se estendia das nove da manhã às seis da tarde, sem direito a valetransporte ou salário fixo. Depois de três meses, pediu demissão. Há poucas semanas, estava sentado na sala de aula de um prédio na rua Sete de Abril, no Centro de São Paulo, e juntava bombons ao lado de seu boné.

“Bom-dia, meus guerreiros!”, ataca o professor Isaac Martins. Ele não admite alunos sonolentos. “Para ser grande profissionalmente, você precisa estar na tomada. Toda vez que eu disser ‘todo mundo ligado’, é pra bater uma palma e dizer: Hai! Como os samurais”. A turma inteira responde: Hai! É o primeiro dia do curso Operação de Telemarketing. Pela participação, Fagner já ganhou quatro bombons. “Vou sair daqui e vender”, diz. “Pelo telefone”, completa um colega.

O primeiro exercício de um curso de telemarketing é praticar o bom-dia. Há pelo menos quatro tipos de bom-dia: o tradicional, o belicoso, o sorridente e o de quem ganhou na loteria. Operadores de SAC – Serviço de Atendimento ao Cliente – costumam adotar uma saudação mais sóbria, a fim de evitar um bom-dia belicoso do outro lado da linha. Já os operadores de vendas devem usar a versão sorridente do cumprimento. Para esses, o entusiasmo é obrigatório em todas as etapas da abordagem, embora alguns especialistas argumentem que o sorriso exigido do profissional é, na verdade, um sorriso interior, e não físico. “Manter as comissuras labiais eternamente esticadas, em forma de sorriso, com certeza seria de grande prejuízo para o teleoperador e para a emissão da palavra”, sustenta a fonoaudióloga Eudosia Acuña Quinteiro, autora de O poder da voz e da fala no telemarketing. Segundo ela, a necessidade de sorrir no telefone é uma importação equivocada de teorias de telemarketing dos Estados Unidos, país onde o smile (cheese!) e o yes são muito diferentes do nosso “sim”. A articulação da palavra no Brasil corresponde a uma forma ligeiramente “bicuda” de falar, fruto da influência francesa. “É só pensar na atriz Marieta Severo”, recomenda a fonoaudióloga. “Ela não tem um baita bico? E você não perde nada do que ela diz, tamanha a articulação das palavras.”

Ignorando as advertências de Eudosia Quinteiro, que prevê danos irreparáveis nas comissuras labiais, os cursos de preparação para teleoperadores ensinam a potencializar o tom de voz conversante e a manter a entonação de quem está empolgado. “Escolha o bom humor e não o mau humor”, ensina a professora Tamires Siqueira, assistente d0 mestre Isaac Martins, dirigindo-se a uma platéia de dezoito alunos. Fagner é o primeiro a bater palmas e o único a se oferecer como voluntário para fazer uma simulação de venda de canetas. Também tira o boné prontamente e se livra do chiclete assim que o professor lhe chama a atenção.

***

Fagner, cujo sobrenome é Queiroz Rocha, tem 21 anos. Ele fez cursos de datilógrafo e padeiro antes de se inscrever nas aulas de telemarketing. “Tenho que ganhar dinheiro”, explica. Foi feirante, frentista, forneiro, garçom e recepcionista. Conhece o ambiente profissional dos frigoríficos, já fechou caixa, trabalhou em padaria e efetuou, como diz, “auxílio e apoio a força de vendas”. Tradução: panfletagem em cruzamentos. Sua mais recente experiência no mundo do trabalho foi como lavador de carros num centro automotivo, onde conseguiu ser promovido a frentista depois de três dias de trabalho. Fagner, que pretende terminar o supletivo em meados do próximo ano, inscreveu-se no curso do professor Isaac Martins porque sentia dificuldade em vender pelo telefone. Realista, também sabe que a escola indica alunos para empresas.

Fagner está numa situação parecida com a de Gabriela, de 21 anos. Ela passou três meses no telemarketing de uma escola de informática, oferecendo prêmios e descontos ilusórios. “Eu ligava e dizia: ‘Parabéns, você foi sorteado para ganhar um curso de informática’, e precisava inventar quem é que promovia o concurso”, conta. “Aí a pessoa respondia: ‘Mas eu não escuto essa rádio’, e eu ficava sem ter o que dizer.” É uma situação semelhante à de Roseli, de 23 anos, que chora até em inauguração de supermercado e se inscreveu no curso por iniciativa de um amigo. Ou de Elizabeth, de 28, que é balconista de uma cafeteria e tem como objetivo de vida fazer faculdade. Ou de Aretuza, 29 anos, ex-técnica de raio-x, e Daniele, de 22, que compartilham o mesmo sonho (e até a mesma frase para resumi-lo): “Progredir junto com a empresa”.

Com 630 mil operadores empregados, o telemarketing é o setor da economia que mais contrata hoje no Brasil. Ele surge como a única saída para Daniele, Elizabeth, Fagner e Gabriela, jovens com pouca formação escolar cujos filhos provavelmente “já vão nascer devendo”, nas palavras de um deles. Segundo um relatório do Global Call Center Industry Project 2005, pesquisa internacional que no Brasil ficou a cargo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e da Associação Brasileira de Telesserviços, 74% dos atendentes brasileiros cursaram o ensino médio e 4% têm apenas o ensino fundamental. Do total de teleoperadores, 76% são mulheres.

No curso da rua Sete de Abril, além de gritar Hai! para ganhar bombons, os alunos passam por dinâmicas de grupo. Levam a mão à cabeça e ao joelho, acompanhando determinada seqüência de números para aprender a reagir de forma instantânea. Fazem um círculo, recebem uma palma do colega da esquerda e a repassam para o da direita sem hesitar, o que supostamente mimetiza o trabalho em equipe. Os alunos ouvem também histórias motivacionais. Como a do cavalo que caiu em um poço-mas não se deixou enterrar-, que termina com a seguinte lição: “Muitos jogam sobre você a terra da incompreensão; levante e cresça com as dificuldades”. Durante o curso, eles são colocados à prova e pagam seus erros com polichinelos. “Quando você é novo, tem que pagar uns pauzinhos, trabalhar até de graça”, justifica o professor Martins. Segundo ele, o desempregado típico já chega meio corcunda no local da entrevista, carregando a pasta de papelão azul da época do prezinho com o currículo dentro. “Não basta ter conhecimento, experiência, você tem que ter sangue nos olhos”, garante. Como todos ali desejam ter sangue nos olhos e arrumar emprego, a saída é pagar R$90 por dezoito horas de aulas teóricas e práticas que lhes permitirão, no futuro, falar no telefone como se fossem uma fita cassete.

***

Durante os exercícios de simulação, os alunos escrevem scripts, ou roteiros de atendimento telefônico, para telemarketing “ativo” e “receptivo”. No ativo, a iniciativa das ligações sempre parte da empresa. Nessa modalidade, os alunos começam por telefonar para oferecer de tudo um pouco-produtos para emagrecer, fraldas descartáveis, bicicletas, apartamentos de luxo, latas de tinta, helicópteros, kit-festa com piscina de bolinha e pula-pula. Um aluno faz as vezes do cliente; o outro, do operador. Há também a opção de usar o script de vendas do livro SuperMotivado, de autoria do próprio professor Isaac Martins. Os alunos que fazem o papel de vendedor tentam seguir os preceitos básicos do telemarketing-nunca dizer “não”, trocar “gasto” por “investimento” e manter, durante toda a ligação, o tom formal de fita gravada-, enquanto os que desempenham o papel de cliente falam o que bem entendem:

Operador: Bom-dia, meu nome é Sheila, sou da Motivação Total, com quem eu falo, por gentileza?
Cliente: Faaaaala!
Operador: Qual é o seu nome, porgentileza?
Cliente: É Gabriela!
Operador: Senhora Gabriela, o motivo do meu contato é estar oferecendo uma maneira da senhora estar tendo motivação e aumento da sua auto-estima. [pausa] A senhora já deve ter notado que, diante das dificuldades do dia-a- dia, está cada vez mais difícil manter a sua auto-estima, não é mesmo? [pausa] Então, pensando nisso, estou ligando para um seleto número de pessoas para convidá-las a fazer parte do clube da Motivação Total! Não é excelente, senhora Gabriela?
Cliente: Não.
Operador [ignorando a reação e seguindo o script]: Para isso, a senhora receberá o livro SuperMotivado, com um cd duplo em áudio contendo dezenas de histórias motivacionais e frases quefazem com que a senhora extraia o máximo de si. O investimento será de apenas R$ 39, com boleto para o próximo dia 10. A senhora extraia o máximo de si. O investimento será de apenas R$ 39, com boleto para o próximo dia 10. A senhora poderia confirmar o seu endereço? É rua ou avenida?
Cliente: [desliga].

Nova tentativa:
Operador: Bom-dia, meu nome é Sheila, sou da Motivação Total, comquem eu falo, por gentileza?
Cliente: Marcelo.
Operador: Senhor Marcelo, o motivo do meu contato é oferecer uma maneira do senhor ter motivação e aumento da sua auto-estima. [pausa] O senhor já deve ter nota…
Cliente: [interrompendo]: Olha, eu não estou interessado.
Operador: Então, pensando nisso, estou ligando para um seleto número de pessoas para convidá-lo a fazer parte do clube da Motivação Total…
Cliente: Eu não quero!
Operador: Por apenas R$39,90 o senhor receberá o livro SuperMotivado, com um cd duplo em áudio, contendo dezenas de histórias mo…
Cliente [interrompendo]: Eu sei, mas não estou interessado mesmo. Tenha um
bom-dia.
Operador: [largando o script e abrindo os braços]: Ahhh, senhor Marcelo. Ah, não, senhor Marcelo, não faz isso!
Cliente: Bom-dia.
Operador: Não, você tem que falar “alô”!
Cliente: Alô.
Operador: O motivo do meu contato é oferecer uma maneira da senhora ter motivação e aumento da sua auto-estima! Por apenas duas vezes de R$19,95 a senhora receberá em sua casa o livro SuperMotivado, com um cd duplo em áudio, contendo dezenas de histórias motivadoras que…
Cliente [interrompendo]: Não quero. A minha mãe faleceu.
Operador [com entonação penalizada]: Tudo bem. [pausa] E o que a senhora acha de dar o livro de presente para alguém? Para o seu pai, por exemplo?

Nos Estados Unidos e na Europa, existem organizações para repelir as ligações de telemarketing. Elas têm como armas perguntas bizarras e até as mesmas técnicas usadas pelos operadores. O egbg (www.egbg.nl), um grupo de ativistas de Amsterdã, preparou um roteiro em que o cliente toma as rédeas da ligação e pede ao vendedor que soletre o próprio nome, que diga o quanto ganha por mês, se tem tempo de ir ao dentista, qual a sua pasta de dente favorita etc. O contra-roteiro termina com uma frase padronizada, na qual a vítima de telemarketing agradece as informações fornecidas e solicita o número do telefone do operador para o caso de precisar de dados adicionais. Tudo isso sem usar gerúndios.

Já no sítio www.sorrygottago.com, podem-se obter dezenas de sons que simulam pretextos para desligar, como interferências no telefone, barulhos de helicóptero, buzinas de carro, alarmes de incêndio, vacas que passam mugindo, crises de espirro, problemas com moscas e o som de uma carruagem estacionando. Há também um minuto inteiro de gravações com comentários como este: “Ahn-hã… sei…muito interessante. Como? Repete. Ah… Ahn-hã. Estou ouvindo”. Ou um arquivo de áudio que começa assim: “Você disse que trabalha em qual empresa mesmo? [pausa] Não, não acredito… Eu trabalhei lá também! Aquele maluco do Bill continua na área?”.

***

A Federal Trade Commission, organismo de defesa do consumidor dos Estados Unidos, instituiu um cadastro nacional para pessoas que não desejam receber ligações de telemarketing, o chamado Do Not Call Registry. Toda empresa que ligar para um número que conste da lista é multada. Só no primeiro dia de inscrições, em junho de 2003, 7 milhões de números telefônicos foram cadastrados. Hoje são 125 milhões.

Numa das maiores centrais de atendimento telefônico do Brasil, a operadora Flávia segue a lógica da fita cassete. Sentada na sua “posição de atendimento”, ou P.A. (também chamada de “cubículo” ou “cercadinho”), ela põe a mão na cabeça e começa a pensar em outras coisas logo que a Sra. Eunides atende do outro lado da linha. O tom de voz do teleoperador é sempre baixo, o ritmo de Flávia faz crer que ela está conversando sobre o assunto pela primeira vez: “Boa-tarde, senhora Eunides, meu nome é Flávia, tudo bem? O motivo do meu contato é para informar que, mediante a sua confirmação, encontra-se disponível na sua linha telefônica o superseguro premiado, com uma cobertura de até R$50 mil em dinheiro. A senhora é casada? Mora perto de uma casa lotérica?” Flávia não desiste nem quando a Sra. Eunides diz que não entendeu (“Mas eu fui premiada?”); repete todas as informações e acrescenta que “o primeiro mês é gratuito, e depois o investimento é de apenas R$0,53 ao dia, ou seja, R$ 15,90 por mês na sua conta telefônica. Podemos confirmar os seus dados?”.

Flávia faz de 150 a 180 ligações por dia, a média entre os operadores da seguradora para a qual trabalha. Logo que a Sra. Eunides desliga o telefone, contrariada, o computador já disca o próximo número. Flávia volta a colocar a mão na cabeça, respira fundo e recomeça. “Hoje está difícil”, diz, e emenda: “Boa-tarde, meu nome é Flávia, o motivo do meu contato é informar que…”. A meta da corretora é alcançar cem vendas mensais por funcionário. Os seguros são oferecidos para potenciais compradores de diversos estados. Na maioria das ligações, no início os interlocutores não entendem o que se passa. Em seguida, alguns acreditam que ganharam um prêmio. Às vezes, Flávia consegue chegar à frase em que pede a confirmação dos dados, para que o seguro possa ser efetivado “a partir da meia-noite de hoje”. A maioria das pessoas consegue interromper o procedimento antes que ele seja completado. “Até porque, depois que comprou, é muito difícil cancelar qualquer coisa”, diz Isaac Martins, o professor.

Nenhum dos cercadinhos tem isolamento acústico. Eles servem apenas para evitar que um operador fale com o outro. Quem entra na sala se depara com muito barulho, risadas e operadores em pé, com a mão erguida, esperando a chegada do supervisor. É impossível prestar atenção numa conversa só, ainda que todos os atendentes pareçam absortos no trabalho. Cada um tem um headset, o apetrecho formado por fone de ouvido e microfone, acoplado a um dispositivo de discagem com a tecla mute. Essa tecla, que emudece o áudio, é de enorme importância, sobretudo durante crises de tosse ou de riso, como costuma ocorrer quando o cliente diz que esqueceu “o longuinho” (o login) ou que a marca de seu aparelho celular é Pomarola (Motorola). As ligações são direcionadas para os operadores automaticamente, pelo sistema, que também exibe dados sobre o cliente na tela de cada um. Antes de começar a falar, a primeira providência de todo operador, sem exceção, é abrir o bloco de notas no computador, para registrar o nome do interlocutor e, em seguida, localizar informações nas telas.

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Operadores de telemarketing completam, em média, 74 chamadas por dia. Segundo o relatório local do Global Call Center Industry, o tempo de cada ligação é de 3 minutos e 27 segundos. Os dados do relatório informam que os profissionais têm capacidade reduzida de determinar seus horários de almoço e descanso. A grande maioria das empresas (87%) contrata empregados em tempo integral (36 horas semanais), e, embora na jornada diária de seis horas esteja prevista uma pausa de quinze minutos para o almoço (chamada de pausa “lanche” ou “café”), em muitas empresas a jornada é de seis horas e quinze minutos, para descontar o intervalo. “Normalmente, somando as pausas para ir ao banheiro dá um total de dez minutos”, diz Estefânia de Andrade, 34 anos, que trabalha há seis anos numa multinacional de atendimento telefônico. Se o operador ultrapassa o tempo de intervalo, perde pontos e corre o risco de ser demitido. Segundo ela, tudo é monitorado por meio de acompanhamento direto, escutas e câmeras, inclusive as ligações e a conduta dos empregados. Todos os computadores estão ligados em rede.

Estefânia começou a trabalhar como operadora em 1989. Na época não se usava o headset. Eram maiores, assim, os riscos de desenvolver tendinite, lordose e outros problemas na coluna. Pelo menos em teoria. Com o passar dos anos, ficou claro que a popularização dos novos equipamentos de telefonia e informática não resultou na melhoria das condições de trabalho. “O operador passou a ser mais sacrificado”, diz Estefânia. Se antes a meta de um operador de telemarketing era atender cinqüenta ligações, agora a meta mínima é 150, às vezes quinhentas. Há um tempo médio de atendimento exigido, muitas vezes restrito a trinta segundos por chamada. Perde pontos o operador que gastar com o cliente mais tempo do que o estipulado pela empresa.

Antes o funcionário podia decorar sua P.A. com vasos de plantas, móbiles nada no local, pois outros funcionários ocuparão o cercadinho em seguida. Como é comum que os objetos pessoais do operador fiquem amontoados do lado do computador, em pilhas prestes a desmoronar, há empresas em que é proibido levar garrafas d’água para a P.A. Também é proibido abrir as janelas da sala de operação, devido ao ar-condicionado polar. Muitas empresas ignoram os atestados médicos apresentados pelos funcionários. Foi o caso de Estefânia, que levou uma solicitação médica de pausa maior para o almoço. Não foi atendida. Se fosse feita a concessão, argumentou um funcionário graduado, os demais empregados também passariam a querer um intervalo de almoço superior a quinze minutos. Por conta disso, era comum Estefânia sair para o trabalho às seis da manhã e almoçar apenas às quatro da tarde, já em casa. Mesmo que a pausa fosse maior, ela não teria condições de comer em restaurante, pois, pela convenção coletiva da categoria, as empresas de telemarketing não são obrigadas a pagar tíquete-refeição aos empregados. Quando pagam, o valor médio é de R$3. Na multinacional onde Estefânia trabalha, os operadores costumam perguntar ao chefe, referindo-se ao tíquete, se já veio “o vale-coxinha”. Uma de suas colegas, grávida, chegou a receber orientação especial do ginecologista, cansado de lidar com as negativas da empresa e com as más condições de trabalho: “Amanhã você vai levar uma muda de roupa e vai fazer xixi na p.a.”. A moça fez exatamente o que o médico mandou. Só assim conseguiu mais pausas para ir ao banheiro.

O médico Airton Marinho da Silva, mestre em saúde pública pela Universidade Federal de Minas Gerais e ex-auditor fiscal do Trabalho, identificou vários tipos de problemas de saúde entre os que trabalham em teleatendimento. Eles estão ligados a patologias osteomusculares, a distúrbios mentais e a alterações do aparelho de fonação. “As empresas se apresentam como benfeitoras e formadoras de jovens, dizem que são uma solução contra o desemprego e que mantêm ambientes de trabalho saudáveis, mas o fato é que os trabalhadores manifestam uma série de queixas”, diz o médico. “O que ocorre é o adoecimento dessa mão-de-obra jovem, num trabalho sem características de formação e sem chance de crescimento profissional. As reclamações constantes de estresse, o alto absenteísmo, a alta rotatividade de funcionários e as dificuldades de gerenciamento são evidências do desgaste físico e psíquico dos operadores de telemarketing.”

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Em sua tese, intitulada A regulamentação das condições de trabalho no setor de teleatendimento no Brasil, Marinho sustenta que a pressão temporal exercida sobre os operadores é o principal fator de sobrecargas emocionais e físicas. A insuficiência de pausas no trabalho e de intervalos entre as ligações vem agravar o quadro, ao qual se soma a imposição de scripts que restringem o diálogo do operador com os clientes. O monitoramento ostensivo, os baixos salários e as duras exigências de produtividade tornam a atividade potencialmente lesiva. Em São Paulo, o piso determinado pelo sindicato da categoria é de R$510. Diversas organizações sindicais do exterior denominam os centros de atendimento telefônico de “senzalas da era eletrônica”.

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Faz meio século que cinco pesquisadores, liderados pelo psiquiatra francês Louis Le Guillant, identificaram a chamada “neurose das telefonistas”, uma sensação de lassidão profunda, de verdadeiro aniquilamento ao final da jornada de trabalho. Segundo Le Guillant, o problema afetaria pelo menos um terço das profissionais da área. Encerrado o dia, muitas delas se dizem com a “cabeça vazia”, não conseguem estabelecer conversações, não suportam que ninguém fale com elas. Queixam-se de uma queda significativa das faculdades intelectuais, têm alterações de memória e de atenção, dificuldade em conversar e não encontram argumentos nas discussões. À semelhança dos operadores de telemarketing, cerca de 20% das telefonistas estudadas por Le Guillant admitiram empregar, por engano, expressões profissionais no dia-a-dia. A mais comum é “Alô, aguarde um instante”, que escapa em diversas ocasiões-por exemplo, quando alguém lhe dirige a palavra repentinamente. Irritação, agressividade e nervosismo também são comuns a mais da metade das telefonistas pesquisadas. Para Le Guillant, o controle da produtividade, do comportamento e das pausas cria uma atmosfera que, se não chega a ser de medo, é de apreensão contínua. “Você nunca pode nada, não tem autonomia para resolver o problema”, concorda a operadora de telemarketing Estefânia de Andrade, cinqüenta anos depois.

Estefânia perdeu a voz em 27 de dezembro de 2003, às 10h45, quando falava no telefone com o Sr. Lauro. “Eu estava com o cliente na linha e a minha voz começou a sumir. Tossi um pouco e disse: ‘Acho que estou ficando rouca, seu Lauro, é resfriado, ou então estou muito nervosa com o senhor’.” Ela encerrou a conversa, indicou no computador que faria uma pausa e procurou o médico da empresa, que a encaminhou a um otorrino. Naquela mesma tarde, Estefânia descobriu que estava com laringite e obteve uma licença de duas semanas. “No dia seguinte, quando acordei, minha mãe perguntou as horas e eu não consegui dizer. Passei trinta dias sem poder falar nada. Eu andava com um bloquinho e uma caneta e escrevia, por exemplo, ‘5 pãezinhos’, e mostrava para o moço da padaria.” Desde então, Estefânia enfrenta uma disfonia funcional-provocada por uso excessivo da fala-que lhe tirou 75% do timbre vocal. “As pessoas não reconhecem a minha voz no telefone”, diz. “Quando alguém perde o timbre da voz, perde a identidade. Foi o meu caso.”

Estefânia ficou quatro meses afastada, até maio de 2004, recebendo auxílio-doença do Instituto Nacional do Seguro Social, o inss. Quatro dias depois de retornar ao serviço, foi despedida. No “exame demissional” o médico contestou a dispensa, com o argumento de que, se ela começara a trabalhar com boa saúde, falando e ouvindo perfeitamente, deveria sair do emprego nas mesmas condições. Encaminhou Estefânia para o sindicato, que a orientou na abertura de uma ação trabalhista contra a empresa. Ela foi reincorporada ao quadro de funcionários. O processo continua na Justiça.

Se Estefânia de Andrade tivesse passado pelo curso de telemarketing, teria aprendido que, para evitar problemas com a voz, basta comer muitas fibras e mastigar maçã, fruta com “poder impermeabilizante na garganta”. Se tivesse lido o livro da fonoaudióloga Eudosia Quinteiro, teria ficado alerta contra a ingestão de chocolate, inimigo poderoso da mucosa orofaríngea. O vilão, segundo a autora, é o excesso de parafina usado na confecção da guloseima, que derrete e gruda na mucosa, comprometendo a ressonância natural da fala. Outros grandes inimigos da voz são as balas à base de menta: “Seus vapores gelados conseguem anestesiar as cordas vocais”, explica Eudosia. Nos últimos dois anos e meio, Estefânia se submeteu a videolaringoestroboscopias e gastou R$4 mil num tratamento fonoaudiológico que não surtiu efeito. “Eu pagava R$120 por sessão pra ficar na frente do espelho falando ‘aaaaa, eeee, iiiii, o rato roeu a roupa do rei de Roma’, mas a fonoaudióloga já tinha me dito que não ia adiantar.”

***

O professor Isaac Martins prefere recorrer a um método que batizou de “baleês” (a língua das baleias), em homenagem à personagem Dory, do desenho animado Procurando Nemo. Noseu curso da Rua Sete de Abril os alunos repetem os principais exercícios para articulação em baleês, ou seja, bem devagar “Deeebaixxooo deee uuumaaa maaataaa seeecaaa haviiiaaa uuumaaa caaataaatreeepa com seeeete caaataaatreeepitoooos…”. A seleção de frases para treinamento é singular: “O prato de prata premiado é precioso e sem preço. Foi presente da princesa primogênita,irmã do procurador da Prússia”. Ou: “Sou um original que não se desoriginalizará senão quando os originais estiverem desoriginalizados”. Ou ainda: “Sófocles soluçante ciciou no Senado suaves censuras sobre a insensatez de seus filhos insensíveis”.

Quem repete as frases mais alto, naturalmente, é sempre Fagner. No último dia de curso, ele tinha feito amizade com todos os colegas. Também aprendera os fundamentos e macetes da profissão, como trocar o headset de hora em hora. “Desse jeito, em vez de ficar surdo de um ouvido só, você fica dos dois”, explica. Assim como Estefânia, Fagner está pronto para ser insultado pelas pessoas para as quais telefona. Pronto para perder parte da personalidade, ou da voz, ou da sanidade, em troca de um salário anual médio de R$10 mil e de um vale coxinha de R$3.

Revista Diálogos&Debates
ed. 24 – Junho de 2006

por Vanessa Barbara

Único show de calouros de música erudita da televisão, o Prelúdio, da TV Cultura, retoma uma longa tradição de descoberta de novos talentos

Revista Diálogos&Debates
ed. 23 – Março de 2006

por Vanessa Barbara

Há uma rica discussão sobre reformas no Centro de São Paulo, patrimônio histórico da cidade. Revitalizar é elitizar? O que falta e o que não deve haver no Centro?

 

De olho neles: Vanessa & Emilio

Posted: 16th maio 2005 by Vanessa Barbara in Clipping
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De olho neles | Vanessa Barbara & Emilio Fraia

Portal Literal
16/05/05

por Marcelino Freire

Isso mesmo. Hoje, dois escritores de uma vez. Faz tempo estou de olho neles. Aqui, de uma teclada só: os dois. Overdose dupla, pois.

Vou explicar: queria escrever sobre o Emilio Fraia. E escrever sobre a Vanessa Barbara. Separadamente. Mas eis que de repente fiquei sabendo que a dupla paulistana está escrevendo um livro só. Obra a quatro mãos. Sozinhos não. Estrearão em dueto, eta danado!

Uma versão brasileira – creio que pioneira – da experiência feita pelos argentinos Jorge Luís Borges e Bioy Casares – que juntos dividiram “Seis Problemas para Don Isidro Parodi”, entre outros parágrafos.

Quis saber mais desse projeto e fui tomar uma cerveja, num boteco, com a Vanessa e o Emílio. Esperavam-me, uníssonos.

– Éramos vizinhos e não sabíamos.

Eles se falavam via Internet até que descobriram estarem ali, pertinho, morando no mesmo bairro de Santana. E tantas afinidades tantas. Nasceram no mesmo dia 14, ela de junho, ele de abril do mesmo ano, 1982.

E também que gostavam de alguns escritores semelhantes. E da mesma diversão. Dizem: “escrever é uma curtição”. Eu digo que é um jogo. Os dois concordam. Estão montando um quebra-cabeça. Era uma vez uma partida de xadrez.

A coisa funciona assim: um manda uma linha, uma frase. O outro lê e enfia ali novas frases, costura, corta e reescreve. Até acontece de um inventar um personagem e o outro o matar, sem pestanejar.

– É o jogo ou não é, Vanessa?

– Pô, Emilio, nada de espernear!

Hoje é até difícil saber quem escreveu o quê. Tão misturados que estão. Feito amigos siameses, pode ser. Colados por uma mesma linguagem. O resultado é lírico, bem bonito. Um romance passado numa plantação de milho. Ainda sem editora e sem título.

– Já estão perto do ponto final? Ou dos dois pontos?, pergunto.

Quase. De quando em quando, mostram para alguém um trecho e voltam para consertar, no texto, algumas “incongruências metereólogicas”, por exemplo.

– Foi a mãe de Vanessa quem nos disse que não pode haver poeira onde acabou de chover.

Ou que lagartixa não escorre quando morre. Cai da parede e pronto.

E antes que você, caro leitor, proteste: o que tanto esses dois estão falando? Resolvi eu entrar no jogo e aumentar a confusão. Pedi que um apresentasse o outro. E que, depois, Vanessa e Emílio respondessem, juntos, às perguntas que vão adiante. Você nunca viu nada igual. Pelo menos aqui no Portal.

Vejamos:

ELE POR ELA
[Aqui, Vanessa Barbara apresenta Emilio Fraia]

Emilio Fraia nasceu em 1982 numa folha de papel. Como todos sabem, ele não passa de um cartum pintado a guache num cenário de casinhas tortas. Foi meu vizinho no bairro do Mandaqui até 2002 [se abrisse demais os braços, corria o risco de me acertar a testa], mas rumou para o exílio e hoje mora na Vila Mariana. Desde os 17 anos, Emilio edita um zine chamado Givago, que no começo era de papel e circulava nos corredores da escola. O apelo das massas fez com que o zine fosse para a internet [www.givago.com], onde teve 91 edições e mais de mil assinantes. Ele escreve mensalmente na revista Trip, costuma assistir futebol de palhaços, tem um fígado assaz argentino e é obsessivo com as questões sintáticas. Tivemos uma professora de português que se chamava Nanami; ela ensinou o Emilio a buscar [mesmo aos domingos e nas listas de supermercado] a mais perfeita disposição dos elementos frasais. Hoje ele revisa tudo o que escreve até o olho cair e é parcimonioso na utilização de advérbios de modo. Vez ou outra, o Emilio é soterrado por abóboras.

ELA POR ELE
[Aqui, Emílio Fraia apresenta Vanessa Barbara]

Vanessa Barbara compra paçocas no bar do Seu Firmo. Se não tivesse nascido no ano da graça de 1982, ela estaria hoje com 80 anos pregando para os pássaros e peixes, conversando com os gravetos e culpando o avanço comunista. É dona de um canteiro de almeirão: o zine A Hortaliça [www.damnzine.hpg.ig.com.br] que existe há três outonos e 58 edições. Em abril, a Vanessa me deu um disco de tango de presente de aniversário. Jornalista e preparadora de originais para a Companhia das Letras, ela trabalha quando não está ocupada e cultiva filmes do Billy Wilder, Hitchcock, Truffaut, além de coisas velhas, mudas e com figurantes que abrem os braços para sapatear. Tem medo de palhaços, é exímia jogadora de vôlei, conhece todas as linhas de ônibus de São Paulo e gosta quando a Anna Karina canta que tem uma “p’tit ligne de chance”. Quando éramos vizinhos, chegamos a construir uma ponte de madeira para ligar as nossas cozinhas. A Vanessa tinha uma gata chamada Gata. Nas idas e vindas perdemos um vibrafone, que procuramos até hoje.


EU & ELES
[Leia aqui uma conversa entre mim e os dois]

EU – Contem um pouco como surgiu a idéia do projeto, então. Que projeto de livro é esse? Por que a quatro mãos?

ELES – Escrevemos juntos, a Vanessa e o Emilio, há dois anos. Eles têm uma porção de contos a dois, alguns projetos, uma vasta correspondência não-autorizada e rascunham jogos a troco de nada – criamos personagens, teorizam enredos, inventamos lugares. O livro é resultado de uma dessas piadas internas [“além do mais, somos cinco e não queremos ser seis”], uma história ambientada em um campo de milho, cruel, colorida, noturna. Funciona assim: não discutimos o texto, é proibido falar. Escrevem, apenas. Aos domingos, na hora da missa, um de nós rabisca uma frase, um parágrafo e manda para o outro, que muda, sapateia, acrescenta e devolve – com o cuidado de apagar sempre os limites entre o que é do Emilio e o que é da Vanessa. Agora o ritmo aumentou: trocamos trechos a cada três dias. É, ao mesmo tempo, um jogo e um convite para dançar. Às vezes a Vanessa pisa no meu pé, outras vezes o Emilio inventa um passo esquisito. Mudam as regras também e, a todo instante, trocamos os móveis de lugar. Quando chego na sala que deixei em ordem, o Emilio arrastou o sofá, a Vanessa colocou o armário na frente da porta.

EU – Há uma inspiração nos livros em dupla que fizeram Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares? O que vocês acham dos dois, me digam.

ELES – Quando começamos a escrever a quatro mãos, e a perceber que se tratava de um quebra-cabeças divertido, o Emilio e a Vanessa, que já gostávamos de Borges, lembraram do Bustos Domecq. Em 1942, o Borges e o Bioy publicaram, juntos, “Seis Problemas Para Don Isidro Parodi”. O livro era assinado por um personagem criado pelos dois, Bustos Domecq [Bustos era um bisavô de Borges; Domecq, um bisavô de Casares]. Borges o descrevia assim: “É um personagem que nos impõe sua estética e nos faz escrever contos e crônicas de que não gostamos, mas cujo ditado devemos obedecer”. Para Bioy, “Domecq era a celebração da ausência de vaidade. Com ele, a literatura era o que deve ser: um prazer gratuito”. Sem tradução no Brasil [a editora Dantes foi a única a publicar algo da dupla, parece], o Emilio trouxe de Buenos Aires todos os livros “escritos” pelo Bustos Domecq [quatro ao todo]. Mas o importante mesmo é lembrar que a parceria entre o Borges e o Bioy começou com um iogurte. Foi em 1935, quando eles trabalharam em folhetos publicitários para um iogurte búlgaro que estava sendo lançado na Argentina. Para valorizar as qualidades longevas do produto, inventaram uma família búlgara cuja filha mais jovem tinha 90 anos. Do Borges, a Vanessa gosta do “História Universal da Infâmia”, o Emílio mantém o “Livro de Areia” por perto, mas nosso preferido é mesmo o “Ficções”. Bioy puro a gente leu muito pouco: além de “A Invenção de Morel”, a Vanessa traduziu um conto sobre velhinhos que voam. Foi o Bioy quem nos ensinou que todos os planos, por mais bem elaborados, são inúteis na hora de escrever: “Esboço toda a trama. Só assim, com a estrutura pronta, posso me sentar para escrever com a certeza de que não serei enganado pela história. O problema é que quando começo a rabiscar, todas as minhas soluções falham. Esse preparo mental só serve para que eu me engane e assim fique menos tenso para escrever. Na hora, minhas soluções maravilhosas não funcionarão e então serei obrigado a partir do zero”, disse o Adolfito.

EU – Quais escritores vocês lêem? O que pensam da nova literatura brasileira? E do mercado editorial etc. e tal. Eta!

ELES – Em jogral, alternando canto e recitativo, ária e coral. Emilio e Vanessa: Cortázar, Borges, Carroll. Emilio: Perec. Vanessa: Sterne. Emilio e Vanessa: Fitzgerald, Kafka, Drummond. Emilio: Piglia. Vanessa: aquele livro com fotos de macacos. Emilio: Valêncio Xavier, Clarice, Chico Alvim, Pirandello. Vanessa: Campos de Carvalho, Poe, Voltaire, Flaubert, Beckett. Da literatura feita hoje, eles leram bem pouco, mas gostamos do Joca Reiners Terron, do Mirisola, do Pellizzari, do Antonio Prata. Do mercado editorial não sabemos muito também, parece que foi comprar cigarros e não voltou.

EU – E dá, agora, para vocês se desgrudarem e responderem individualmente quais projetos solos vocês têm?

ELES – A Vanessa tem um livro-reportagem sobre a rodoviária Tietê, recusado por setecentas e quinze editoras e duas máquinas de mimeógrafo. Ela também acumulou 400 páginas de Hortaliças [zine que edita], colocou-as em uma cestinha de vime e despachou-as, com fome, para o Paulo Werneck, que tem experiência no ramo [ele faz compras no supermercado Alto do Mandaqui e edita a revista Ácaro, entre outras coisas]. O Emilio está terminando um livro só de orações subordinadas adjetivas e substantivas em que os protagonistas são patos – uma editora do condado de Uruguaiana já está de olho. E tem muitos contos e inícios de livros escritos à espera de um mecenas. Além disso, a “Obra Reunida” da Vanessa e do Emilio foi publicada recentemente pelo Google.

EU – O que esperam da literatura que vocês fazem? Do livro em dueto? Posso perguntar sobre o futudo da dupla? É cedo?

ELES – Escrever tem que divertir quem escreve, ponto e vírgula. Parafraseando o Quiroga, a gente tenta escrever como se a história não interessasse a mais ninguém senão ao mundo do Bruno, do Cabelo, do narrador e do Chibo. O futuro da dupla é o pior possível: daqui a um tempo estaremos na sarjeta, andando em círculos com uma bolsa vazia, depois de tomar uma surra dos nossos personagens.

ELES E O TEXTO DELES
[Leia um trecho do romance, ainda sem título e sem editora, escrito por Vanessa Barbara & Emilio Fraia]

Lá estão os meninos no corredor de milho onde o tiroteio começa; o Bruno escapa na dianteira com a barriga mole de tanto dar risada, atrás vem o Cabelo que cai sempre nos mesmos buracos e abre fogo com munição colorida — posso jurar, mesmo de longe, que o tiroteio de balas de goma tomou o campinho e o ar encheu-se de iguarias em forma de verme, legume e vibrafone. Meu irmão, o Chibo, ia no banco de trás. Eu estava no do passageiro, de joelhos e com a cabeça pra fora.

Pela janela, avistei o Cabelo que nunca conseguia alcançar ninguém, ainda mais entre os pés de milho, e novamente o espião búlgaro chegaria à fronteira do país neutro sob um tiroteio de masca-masca sabor banana, talvez ferido nas costas por um asquelminto, um rabanete ou um dó maior, subiria a escada de sisal da casa da árvore e gritaria mulherzinha mulherzinha. O Cabelo diria que não valeu porquessim, porque a brincadeira já perdeu a graça e os planos de Sua Majestade estavam criptografados ou a Bulgária não existia de todo (no que decerto teria razão). Seria acometido da mais gorda e suntuosa birra desde os tempos do prezinho e iria bater nos meninos mais novos. No Chibo não, claro. De todos, o meu irmão era o mais velho, tinha acabado de fazer doze anos (pelo retrovisor as palavras dele escapavam como uma estação fora do ar), e ele era forte e sempre me defendia e… Quando o carro parou, eu saltei com um pé só mas o Chibo, cheio de relâmpagos, nem se mexeu. Ele olhava para um ponto que eu não sabia onde era. Na plantação, o Cabelo veio para cima do Bruno, de banda, como desgovernado. O Bruno continuou correndo, disparou uns tocos de planta por cima do ombro — a essa altura eu também corria sem saber direito por quê — e nos cruzamos no ponto médio entre a casa da árvore e a estrada.

Ainda virei o rosto (cada vez menor, o carro sumia), mas o Bruno era rápido demais. Levou poeira e um vento sul de mormaço. O chão estava quente, a plantação começava a queimar e ficaria ainda pior, mas naquele primeiro dia choveu. Sem parar, o Bruno olhava pra cima com a boca aberta, tentando engolir o temporal, e não percebeu que a terra já escorregava: patinou durante uns bons metros e perdeu um sapato. “Maldição.” O Cabelo apanhou o artefato e classificou-o como prova A da Promotoria — mas nem chegou a pedir autorização do juiz para girar o tênis pelo cadarço e arremessá-lo à distância. Plof: uma artilharia de palmilha e cano alto bem na mira do espião búlgaro.

Apesar do ferimento de calibre 35/36 nas costas, o Bruno continuou correndo. Arrastava-se aos tropeços, imaginando sua consagração como herói nacional. A perseguição passaria na tevê em câmera lenta, depois o povo o aclamaria em carro aberto. Ele mostraria aos tataranetos a marca da sola durante um churrasco da família e contaria longas histórias de guerra, talvez até participasse de encontros de veteranos e coisa e tal.

O Bruno chegaria à casa na árvore, de fato, não fosse a intervenção divina da Grande Poça, a mãe de todas as lamas, que aconteceu de repente bem quando ele olhava para trás. O menino pisou em cheio no piscinão e caiu de cara. Emergiu daquela massa de chuva um Bruno caramelado e viu que era inútil continuar fugindo. A dois passos, a silhueta do Cabelo já lembrava seu direito de permanecer calado, citava a primeira emenda de cabeça e mostrava as algemas (que sequer existiam). A dois centímetros, um aro de metal sujo o encarava, talvez um anel. Bruno deu um jeito de guardar o objeto sem que o Cabelo percebesse, em seguida foi detido pelas autoridades e preso na casa da árvore.

2.

O Chibo também não estava quando, no dia seguinte, o Cabelo falou do homem morto — um corpo junto ao laguinho, em um lugar da plantação que, contado daquele jeito, parecia muito distante. Não demorou: no meio do milharal, um furacão vivo de círculos secretos, entradas e saídas, o Bruno propôs um jogo. Ajoelhou-se e distribuiu as folhas do caderno espiral, toda sua cartografia, pelo chão de terra. Calculou distâncias e provisões, pediu pra todo mundo girar em torno do próprio eixo a fim de despistar o inimigo e, finalmente, baseado em estudos preliminares sobre a geografia local e o posicionamento das nuvens, apontou o caminho mais estreito onde as folhas pareciam manchadas de ferrugem. Por ali, disse. Suas orientações vagas e intensas (o oeste correspondia invariavelmente ao norte e o centro estava junto à fronteira leste) passavam ao lado de uma árvore sozinha e muito vermelha, por trás de alguns velhos pés de caqui, entre uma pequena elevação, onde o caminho se bifurcava em um, dois, três outros. O Cabelo apressou-se em ir na frente sem maiores perguntas, abrindo caminho com o braço direito, “vira à direita aqui ou segue em frente porque dá na mesma”, e protegendo o rosto com a outra mão.

[…]

O Bruno estava de cócoras, tragado por um sol imenso, remexendo a palha que cobria o chão. Ele me viu, levantou rápido, despistando. “Cabelo!”, chamou. Com as mãos cheias de pedras, o Cabelo apareceu. A gente brincava de acertar pedras nas lagartixas da árvore. Por medo, nojo ou piedade, o Cabelo só ajudava e assistia ensaiando caretas a cada tiro. Não demorou para que um golpe (o Cabelo apertou os olhos, virou o rosto) dividisse ao meio uma das lagartixas.

As duas partes do bichinho despencaram tronco abaixo. Fiquei observando o vazio que separava a cabeça — os olhos estavam muito vivos ainda — e o rabo. “Será que um homem demora assim pra morrer?”, disse o Bruno.

Pensei no Chibo e que sim, alguém pode começar a morrer muito cedo. E levar dias, horas ou anos para não existir mais. Um vento atravessou o Bruno e rangeu, puxando o corpo dele para baixo. Sentou-se. “Deve ser difícil ver um pedaço nosso fora da gente”, ele cutucou fascinado as patas dianteiras da lagartixa com um pauzinho.

[…]

Não adiantava insistir como o Cabelo fez, gritando que a rainha da Bulgária tinha acabado de chegar e trazia um informe ultrasecreto porque, com porta ou sem porta, o Bruno passou a tarde trancado na casa da árvore e não receberia visitas. Cansado, o Cabelo morreu também, mas na sombra, porque ele era daqueles que ficam cor-de-rosa no verão. Psiu! Abri um pouquinho o olho direito: era impressionante como o Bruno parecia ter todas as coordenadas na cabeça, os próximos passos na forma de gráficos, tintin por tintin, e nada é pior do que quando já está tudo pronto e só falta atacar (a ansiedade). Psiu! O Cabelo, ele gesticulava para mim. Onde o Cabelo estava, bem debaixo da casa da árvore, o Bruno não podia vê-lo. Desenhou um telefone num pedaço de papel e mostrou pra mim. Precisava falar comigo, era isso. Rabiscou uma fruta vermelha, dois bonecos de pauzinho e um relógio marcando quinze para as quatro. Levantou em silêncio, picou os desenhos em pedaços muito pequenos (não queria deixar provas, explicaria depois) e sumiu.

[…]

O Cabelo, mão suada e cara vermelha, tinha colocado a camiseta ao contrário. As roupas dele viviam cheias de bolinhas, o Cabelo cortava a gola porque se sentia sufocado e ninguém nunca reclamou; com o tempo, ele começou a rasgar também a manga. O Cabelo, eu acho, queria mesmo era ganhar uma regata de time de basquete, daquelas furadas tipo coador de café. O sonho dele era dar olé no Bruno, driblar todo mundo no garrafão e autografar a testa dos meninos mais novos, mas de pensar ele se atrapalhava todo, enfiava a cabeça na manga, errava o lado direito da roupa — então eu olhei bem pra ele: “tua camisa tá do avesso”. Atrás de mim, o Chibo respirava forte.

Meu irmão não conseguia falar (as palavras desistiam), suas rodas giravam no vazio, os cabos interrompidos, as asas se soltariam da fuselagem e cairíamos os dois. Disse a ele que havíamos perdido o contato com a base, mas não avisei o Cabelo, queria poupá-lo. Àquela altura, mais de quatro mil pés, o Cabelo enfiou as três cápsulas dentro do bolso, no pacote das balas de goma. Fez aquilo para se salvar, acho. Eu escutava, com interferências, o Bruno repetir: “ninguém fala com ninguém. Quem for capturado deve”, e foi cortado por um ruído, um chiado, uma respiração forte. Então caminhamos eu e o Cabelo, e era um dia ímpar, até nos separar. Ele acenou de volta, seguiu. Cantarolava baixinho: “O braço não é o braço, o braço é a cabeça”, eu continuei na direção oposta, a da árvore toda vermelha, “a boca não é a boca, a boca é o umbigo”, e ouvia cada vez menos.