Eterno retorno

Posted: 1st junho 2007 by Vanessa Barbara in Reportagens, Revista piauí
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Piauí n. 9
Junho de 2007

por Vanessa Barbara

O Campeonato Brasileiro de Ioiô reúne aspirina, salsicha, chapolim, cogumelo e prenuncia a gloriosa volta à moda do pião

O atleta entra em campo com uma blusa de moletom e a bermuda até os joelhos, mascando chicletes. A torcida prende a respiração. Ele tem espinhas no rosto e um piercing no queixo. Pendurado na gola da camiseta, um par de fones de ouvido. O esportista respira fundo, estala os dedos e se concentra. Jurados prontos? Competidor pronto? Soam os primeiros acordes de um hip hop da banda Fort Minor. Os juízes se inclinam para frente. O atleta efetua o equivalente a um mortal triplo carpado, mas com uma corda de ioiô, e leva a torcida ao delírio.

Maestria, irritação e acidentes aéreos marcaram a sexta edição do Campeonato Brasileiro de Ioiô, num fim de semana de maio, num cinema no Conjunto Nacional, em São Paulo. O certame contou com mais de 50 competidores, todos de boné. (Dois usavam chapéus e o campeão jogou de capuz.) Nenhum dos favoritos tinha mais de 21 anos, e vários não tinham idade sequer para se esponsabilizar judicialmente pelas manobras mais arriscadas. No corredor, um menino de 4 anos arrastava os destroços de um ioiô quebrado, lançando dúvidas sobre a pacatice desse esporte universal – que no idioma tagalo1 quer dizer “volte aqui”.

No Brasil, a febre surgiu em três etapas. Primeiro em 1982, depois em 1995 e finalmente em 2000, com a popularização do ioiô da Coca-Cola, fabricado pela Russell. Os integrantes da nova geração são unânimes em atribuir seu início de carreira à marca de refrigerantes, que no passado distribuiu ioiôs e imprimiu nas tampinhas diversas instruções de manobras.

Mas o ioiô existe antes disso. “Ele foi inventado no império chinês”, afirma Pedro Rosa, de 13 anos, “e era de pedra.” Na verdade, ninguém sabe onde e quando ele foi criado, embora seja considerado o brinquedo mais antigo do mundo, depois da boneca. Sua invenção é atribuída ora aos chineses, ora aos gregos. No Museu de Atenas pode-se apreciar uma cerâmica de 2 500 anos que mostra um jovem brincando com um ioiô. No século xvi, soldados filipinos chegaram a usá-lo como arma.

Hoje, os melhores jogadores são os japoneses, seguidos pelos americanos. Outras potências são a Alemanha e Cingapura. Com cerca de 2 mil filiados à Associação Brasileira de Ioiô, a abi, o Brasil vem ganhando notoriedade. Uma das estrelas nacionais é Rafael Matsunaga, que foi campeão mundial em 2004. Ele é programador de computadores, mora em São Paulo e atende pelo codinome de Red. Matsunaga é um dos únicos onze mestres mundiais de ioiô.

Quase todos os que participaram do Campeonato Brasileiro se conhecem e freqüentam o fórum online da abi. Eles aprenderam suas manobras baixando vídeos na rede, onde há toneladas de clips com as melhores performances. Só o site da Associação Brasileira hospeda 50 gb de material. “Yoyo is a small world”, concorda o americano Paul Yath, de 24 anos, o atual campeão mundial, que se apresentou pouco antes da premiação.

As duas principais categorias do concurso nacional, que valeram uma vaga para o mundial, foram a 1a e a Open. O esporte possui cinco variações, que consistem em intrincados truques com a corda, que quase terminam em um grande nó. A divisão 2a é a mais clássica, praticada com dois ioiôs e manobras de loops (voltas e voltas). A triple A exige dois ioiôs e manobras de cordas – ou seja, é uma mistura das duas primeiras. A quarta variante é conhecida como offstring, pois é praticada sem prender o ioiô à cordinha. A quinta é executada sem prender o ioiô ao dedo, colocando-se um contrapeso no lugar. No Brasil, a categoria Open foi criada para englobar todas as outras, menos a 1a.

O Brasil tem se destacado na 1a e 5a. Nas demais, a prática é ainda incipiente e perigosa. Durante o aquecimento, um ioiô desgovernado (de tamanho grande) atingiu a repórter de piauí. O agressor, Ricardo Tatebe, aka Yuki, de 21 anos, pediu desculpas e negou que praticasse um estilo ofensivo. O fato de vitimar uma assistente leiga não pesou na opinião dos jurados, que conferiram a Yuki o quinto lugar na categoria Open.

Para a trilha sonora das apresentações freestyle, cada atleta trouxe um CD – em geral, gravado por eles mesmos, a partir de músicas em formato mp3. A grande maioria das canções tocadas não saiu do universo rap/ hip hop/ música eletrônica, e poucas eram do gênero hardcore, emocore e rock (em japonês). Um dos competidores usou o tema da Pantera cor-de-rosa, o outro, da série Os Simpsons, e um terceiro, do jogo de videogame Super Mario. Apenas quatro músicas eram nacionais: duas do Planet Hemp, uma dos Raimundos e outra do Castelo Rá-Tim-Bum.

***

Durante o torneio, o americano Paul Yath aproveitou para vender dezenas de unidades de seu ioiô Milk. “It’s a funny yoyo”, justifica o fabricante. O artefato vem em uma embalagem de leite e custa 50 dólares, mas “não é uma fonte recomendável de vitaminas e minerais”, segundo o rótulo. Já o veterano Mark McBride levou seu ioiô de magnésio no valor de 400 dólares, desenvolvido pela Duncan com partes de um carro de Fórmula-1. No Brasil, o único ioiô de alumínio é fabricado artesanalmente pela Yoyojoca, e sai por 139 reais. O mais barato do mercado, feito de plástico resistente e rolamento blindado, é da marca Vulto. Custa 20 reais.

Antes de se apresentar, os atletas escolhem um ioiô e enfileiram uns dez outros na beirada do palco. Na fase preliminar, o jogador tem apenas um minuto para efetuar as manobras que quiser. Dez concorrentes se classificam para a final, com três minutos de freestyle por atleta. Entre os juízes, além de Matsunaga, presidente da abi, e o campeão Paul Yath, estavam o grafiteiro Titifreak e o veterano Hitokiri. Debaixo da mesa, eles manipulavam dois marcadores, um em cada mão, conforme o competidor acumulava pontos e penalidades. Para a comissão julgadora, o maior pecado é enrolar a corda com a mão ou largar o artefato no ar, em um zupt mortífero. Dois competidores quebraram o ioiô e arrebentaram a cordinha em plena apresentação. “Sempre rola de puxar muito forte e voltar na cara”, confessa José Lucas Dechen, de 16 anos, que veio de Santa Bárbara d’Oeste, no interior de São Paulo.

Dechen é um dos jogadores que unem a experiência do ioiô à prática do pião, atualmente apelidado de spin top. A novidade é a junção das manobras do ioiô com o equilíbrio de um pião de rolamento – semelhante ao velho pião de madeira, mas cuja ponta não gira, só o topo. Os praticantes sustentam o pião sobre a palma da mão, enrolam a corda nos braços e fazem o objeto correr. As manobras de ioiô inevitavelmente geram novas técnicas de spin top, e os ioiozeiros passam a se dedicar a ambas as modalidades, como se o pião pertencesse a uma suposta categoria 6a. Mais uma vez, centenas de moleques de 16 anos – que jogam Second Life e baixam filmes pela internet – resgatam um velho brinquedo, mais antiquado impossível. São atletas que têm apelidos como Aspirina, Salsicha, Olívia Palito, Chapolim e “Cogumelo” (“seu fungo ordinário!”, gritou alguém da platéia quando ele se apresentou). O mais respeitado deles é o “Marechal”, carioca de 26 anos apontado como favorito, mas que amargou o vice-campeonato da categoria 1a. O veterano Luiz Ricardo do Nascimento acabou errando uma manobra nos últimos segundos da apresentação e atirou o ioiô na platéia, irritado. Ficou a apenas quatro pontos do primeiro colocado.

A despeito da quantidade e da diversidade dos competidores, o vencedor de ambas as categorias foi o mesmo: Danilo Packer, jundiaiense de 19 anos, que no ano passado também levou o troféu das modalidades 1a e Open. Alto e ligeiro, adepto de correntes e calças largas, Packer estuda design gráfico e pratica ioiô há seis anos. Na modalidade Open, ele abriu quase trinta pontos de vantagem sobre o segundo colocado, mesmo depois de se apresentar com capuz e ouvir da platéia que aquilo não era boxe. Packer não precisou competir com luvas de lã e nem com um ioiô de ouro 24 quilates, ao contrário do que se viu nos bastidores do evento. Segundo ele, “o bom jogador é que faz o ioiô”.

1 Ioiô é cultura: tagalo é língua malaia, falada nas Filipinas.

Sistema de currículos Lattes

Posted: 2nd abril 2007 by Vanessa Barbara in Ficção
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Revista Pesquisa/Fapesp
ed. 134 – Abril de 2007

por Vanessa Barbara

Aos oito anos, Bruno inventou um protótipo de torradeira movida a cuspe que não funcionava. Sua irmã, Teresa, passou a usar o objeto para alisar o cabelo, mas sem a anuência do inventor. Bruno também é conhecido como o detentor das patentes do forno de madeira e do dedal de pão. Na feira de ciências da escola, testemunhas alegam que ele incendiou um batalhão de 58 soldadinhos de plástico — que derreteram lentamente enquanto as meninas da classe gritavam — e, ao ser escoltado à diretoria, garantiu que a ciência ainda descobriria a utilidade prática daquele experimento. Bruno era o campeão em combustões espontâneas e possuía uma coleção de quinze tipos de coleópteros, que ele vinha treinando para estrelar um musical de horror em stop-motion chamado “Besouros!”.

Daí se pode concluir, portanto, que Bruno nasceu para a ciência. No dia em que concluiu seu minucioso trabalho de coleta da gripe (espirrou durante meses nos potes de maionese e rotulou-os de um a vinte) e deu início à fase empírica do trabalho, Teresa foi a primeira voluntária a ser levada ao laboratório. Algum tempo se passou sem que a diretora soubesse exatamente o que tinha acontecido com a menina. Quando, na sexta-feira, a mãe de Bruno ligou para a escola justificando a ausência da filha, contaminada por um rotavírus, Bruno anotou “pneumococo!” no caderno e foi escoltado para a diretoria, provavelmente dedurado pelo bedel surdo do corredor. Além disso, a melhor amiga de Teresa apareceu na escola com piolho, mas não há indícios de envolvimento do garoto na epidemia.

Bruno gostava de fazer incursões por todos os ramos conhecidos da ciência. Aos doze anos, criou cogumelos no tapete da sala. Aos quinze, imantou a máquina de lavar e arrastou-a por três metros, até que ela caísse da escada e quebrasse o chão do quintal. No mesmo ano, construiu um pára-raios e assassinou a tartaruga, após quebrar um termômetro e misturar mercúrio à comida do animal. Seus métodos eram cada vez mais discutíveis. A classe se dividia entre apoiá-lo e dedurá-lo ao bedel, que continuava surdo, a despeito de todas as tentativas de Bruno. (É verdade que certa vez ele fez nascer um pêlo branco na orelha do bedel, mas infelizmente o pêlo não restaurou sua audição e foi arrancado para biópsia.)

Finalmente, Bruno se formou com média seis ponto dois e entrou para a faculdade de biociências. Logo no primeiro ano, seu trabalho de iniciação científica destacou-se por um inédito achado estatístico: o encontro de freqüentes casamentos entre mulheres com artrite reumatóide e homens com úlcera péptica, o que caracterizaria uma ligação neurótica entre mulheres agressivas e controladoras e homens passivos e dependentes. (Embora o tema original do trabalho fossem as abelhas.) Foi nesse ano que Bruno explodiu a porta do Instituto de Física e matou mais uma tartaruga, durante uma pesquisa com amianto. Graças à alta rotatividade de seus animais de estimação, ganhou uma pedra para cuidar quando completou 21 anos.

A trajetória acadêmica do garoto passou de boa para questionável; professores se recusavam a orientá-lo em projetos francamente anormais e rejeitavam sua inscrição nas disciplinas. Ao ser destacado como monitor das aulas de genética, convenceu um de seus pupilos a implantar duas orelhas em um besouro (ou dois besouros em uma orelha) e obteve sucesso em ambas as experiências, ao que telefonou imediatamente para o bedel surdo. Como o sujeito estava cada vez mais surdo, foi difícil transmitir a emoção que lhe traria uma nova orelha na nuca. Da longa resposta, Bruno só conseguiu entender que o pêlo branco nascera de novo e crescia todos os dias, à razão de dez centímetros por semana. E o pior: estava captando as ondas de uma rádio comunitária. Bruno desistiu da implantação auricular e prometeu passar na casa do bedel com um contador Geiger.

No último ano da faculdade, Bruno decidiu que começaria a usar um chapéu, informação que pode ou não adquirir importância no decorrer da história. Afora isso, a vida se arrastava numa mesmice: Teresa resistindo para não virar cobaia, e o bedel surdo se alarmando com as emissões de ondas infra-sônicas que escutava todas as manhãs. Um dia, porém, na aula de Zoologia de Vertebrados ii, aconteceu o improvável: ele se apaixonou pela garota da primeira fila. Bruno percebeu que a moça não dava bola para ninguém, mas que prestaria atenção (ah, se prestaria) caso ele ejetasse a si próprio da carteira e fosse audaciosamente rumo aonde nenhum acadêmico jamais esteve. Primeiro, esboçou o protótipo da almofada ejetora, que grudaria ventosas na superfície e impulsionaria o cientista para o alto, a uma distância de muitos metros em direção às nuvens. Isso tudo teoricamente, porque na prática a almofada sugou Bruno para baixo com toda força e quebrou o chão do quintal, mais uma vez. Como ele usava apenas um capacete, acabou fraturando a bacia.

Bruno se formou na universidade com média seis ponto dois, ficou três meses em repouso e acabou desistindo de cortejar a garota, que no entanto continuou sendo a musa de suas criações posteriores. Em seu período mais produtivo, aos trinta, ele confeccionou um despertador não intrusivo (que apenas acenava para o dorminhoco, sem disparar alarmes), uma maçã com gosto de mandioca e uma nova linha de post-its sabor morango, que vendeu para a Pfizer.

Aos quarenta anos, veio uma fase mais abstrata, voltada a descobrir coisas já descobertas: primeiro a Birmânia — antiga Mianmar —, depois o fogo e, em seguida, o ovo frito. Bruno já não sentia todo o potencial criativo da juventude e pensou em se aposentar. Foi um período de muitas dúvidas, em que ele chegou ao cúmulo de subestimar a real utilidade de sua pesquisa sobre pneumococos. Mesmo assim, a coleção de coleópteros do cientista alcançou a marca do milhar, com a ajuda de alguns sapos.

Mas Bruno não havia esquecido seu grande projeto de vida, a portentosa obra-prima da engenharia que agora tomaria forma: na noite em que completou cinqüenta anos, afinal, aposentou-se e retirou-se para o campo, a fim de testar a almofada ejetora, o sonho de toda uma vida. Meses se passaram.  Nunca mais se ouviu qualquer notícia do rapaz, e nem sua irmã sabe o que aconteceu durante a comprovação empírica. Anos depois, um cientista acabou lendo a obra completa de Bruno (em volumes de pano) e anunciou a cura do diabetes após estudar o episódio dos soldadinhos incinerados.

Mais tarde, um astrônomo amador descobriu que o pêlo branco conseguia captar rádios comunitárias de outros planetas.


Vanessa Barbara tem 24 anos, é jornalista e escritora, repórter da revista piauí. Desde 2002, edita o sítio A Hortaliça (hortifruti.org). Link para o artigo original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/10/11/sistema-de-curr%C3%ADculos-lattes/

Phaic Tan, terra para intestinos fortes

Posted: 1st abril 2007 by Vanessa Barbara in Traduções
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Phaic Tan, terra para intestinos fortes
O país-fetiche do turista descolado, que não se importa com movimentos peristálticos bruscos

Vanessa Barbara

Piauí n. 7
Abril de 2007

HISTÓRIA
Durante muito tempo, o nome Phaic Tan esteve associado a atrocidades, miséria e massacres, que, combinados com a péssima qualidade das freeshops, limitavam consideravelmente o número de turistas, e fez com que, na prática, o país fosse visitado apenas por funcionários de organizações humanitárias e especialistas em negociação com seqüestradores. Depois de anos de batalhas sangrentas, no entanto, Phaic Tan pode ser enfim considerada uma nação em paz. Os conflitos armados se restringem somente às províncias do norte e ao Cassino Bumpattabumpah. Por toda a ilha, cidadãos que antes militavam em células guerrilheiras clandestinas finalmente pararam de lutar entre si, e agora recebem os visitantes de braços abertos e gritos de “mãos ao alto!”.

TERRA DE CONTRASTES
O perfil dos turistas em Phaic Tan varia muito – do onipresente mochileiro, atraído pelas praias tropicais desertas e pelo serviço 24 horas de massagem nos pés, ao viajante sofisticado e exigente, que busca o conforto nos mais exclusivos resorts litorâneos do mundo, refúgios cinco estrelas tão suntuosos que os funcionários são renovados diariamente só para garantir frescor da paisagem humana.

UM OLHAR SOBRE O PASSADO
Segundo os arqueólogos, Phaic Tan foi uma parada importante na rota do homem de Neanderthal da África para a Ásia. Enquanto os membros mais desenvolvidos do clã seguiram em frente, os espécimes mais lerdos e de cérebro menor se estabeleceram em Phaic Tan e se reproduziram. Como viviam em árvores, só quando as florestas começaram a rarear eles foram obrigados a evoluir. Desceram então de seus galhos e se espalharam pelas planícies. Um grupinho dissidente tentou viver debaixo d’água e logo se extinguiu. Datadas de 4000 a.C., evidências do cultivo do arroz foram encontradas no nordeste do país, quando arqueólogos desenterraram ferramentas agrícolas primitivas e um recipiente extremamente arcaico de molho de soja.

No final do segundo milênio antes de Cristo, amostras de bronze, latão, estanho e jade foram trazidas à região por imigrantes chineses. O povo de Phaic Tan logo percebeu o potencial dos novos metais, e inaugurou o que foi provavelmente a primeira loja de quinquilharias e souvenires da Ásia.

A civilização não se instaurou em Phaic Tan até pelo menos 2000 anos atrás, quando hordas de habitantes do centro e do sul da Ásia migraram para lá, atraídos pela abundância de comida e de creches. Foi nessa época que a roda apareceu no país. Em pouco tempo, os nativos começaram a usar os números e, pouco depois, inventaram a roleta.

Por volta do século VII, mercadores e missionários começaram a chegar da Índia. Os mercadores trouxeram do Ocidente novos valores sociais e políticos, bem como estilos artísticos e arquitetônicos. Os missionários trouxeram o bingo. Nesse período, os Tubom, uma seita de budistas castrados de Burma, invadiu o país e forçou os habitantes de Phaic Tan a se tornarem pacifistas.

MIOPIARAPTOR
Restos fósseis deste dinossauro foram encontrados a leste de Nham Pong. Depois de passar mil anos trombando com árvores, a criatura, de visão limitadíssima, desenvolveu um crânio de 60 centímetros de espessura.

O POVO

Nunca encontrei um povo tão briguento e belicoso, dado a explosões de raiva diante da menor provocação.

(Jules Grenouille, antropólogo, em 1712, pouco antes de ser apunhalado até a morte por um monge noviço, que se irritou com o barulho da caneta de Grenouille ao escrever.)

Não há dúvidas de que os phaic-taneses têm um longo histórico de massacres e de violência. Há anos, tentando reprimir a propensão belicosa da população, o governo experimentou adicionar estrógeno à água potável. A iniciativa resultou num leve declínio das taxas de criminalidade, e num aumento generalizado de clubes de leitura. A experiência teve que ser abandonada quando um bombeiro de 37 anos, de Pattaponga, ganhou o primeiro lugar num concurso de beleza e foi eleito Miss Phaic Tan.

POPULAÇÃO
Phaic Tan é um verdadeiro caldeirão de etnias. Durante séculos, o povo absorveu uma quantidade enorme de influências. Nos últimos tempos, a população também absorveu, como resultado da mineração irregular, uma formidável quantidade de metais pesados. Esses fatores contribuíram para a formação de uma identidade nacional singular.

É difícil saber exatamente quantas pessoas vivem em Phaic Tan, já que, sendo um país budista, ao fornecer informações ao Censo, muitos cidadãos registram tanto a pessoa do presente quanto suas encarnações anteriores. Além disso, mais de 300 funcionários destacados para a coleta de dados demográficos continuam desaparecidos, tornando as estatísticas ainda mais imprecisas.

A superpopulação nos grandes centros continua sendo um problema, a despeito das iniciativas das autoridades locais. Em 1980, o limite de velocidade nas estradas foi aumentado para 340 km/h e a colocação de grades ao redor das piscinas foi considerada ilegal, medida que logrou êxito imediato. Os índices demográficos diminuíram ainda mais em 1992, com a reintrodução no país da gasolina com alto teor de chumbo.

Apesar das mudanças trazidas pelo turismo e pelo comércio, os phaic-taneses continuam apegados às tradições, e a distinção entre sexos é bastante rigorosa: as mulheres podem criar gado, cultivar as plantações, estocar provisões, cortar lenha, fazer artesanato e cuidar das crianças; os homens devem preparar sacrifícios aos deuses e pôr o lixo pra fora.

ETIQUETA
Os turistas ocidentais devem sempre lembrar que Phaic Tan é um país conservador, onde as mulheres andam de moto sentadas de lado. Para muitas, o casamento é consumado de maneira similar. Demonstrações de carinho ostensivas, como andar de mãos dadas, acariciar ou bolinar devem ser evitadas em público, sobretudo se você estiver sozinho.

COMO SE VESTIR
Use roupas simples e evite qualquer tipo de traje que possa ser inapropriado ou ofensivo, como tops escandalosos ou roupas de safári. Seja ainda mais prudente ao visitar mesquitas e templos. Para as mulheres, minissaias indecorosas e umbigos de fora estão proibidos. Para os homens, minissaias indecorosas e umbigos de fora são encrenca na certa.

SAPATOS
Uma dica de etiqueta importante: sempre tire os sapatos antes de entrar em uma casa. A atitude demonstra respeito aos anfitriões e também protege o carpete, em geral de péssima qualidade.

Deve-se também tirar os sapatos antes de entrar num templo, embora seja cada vez maior a incidência de roubo de calçados nas grandes cidades. Os turistas são freqüentemente convocados a comparecer a delegacias para identificar seus sapatos roubados, processo feito pelo olfato.

Na sociedade de Phaic Tan, a cabeça é considerada a parte mais sagrada do corpo, e os pés vêm por último. Portanto, não toque sem querer a cabeça de ninguém e não se sente de maneira relaxada, com os seus pés apontando para outra pessoa. Em hipótese alguma você deve tocar a cabeça com os pés.

IDIOMA
O phaic-tanês oral é uma das línguas mais rápidas do mundo – em média, 192 sílabas por minuto. Um verdadeiro pesadelo para a tradução simultânea, o falante nativo de Phaic Tan costuma cantar o hino nacional inteiro em menos de dez segundos. Para piorar, o idioma phaic-tanês é tonal, e uma palavra pode ter diferentes significados dependendo da entonação usada: “ha”, por exemplo, pode significar “cavalo”, “árvore”, “nuvem”, “paz”, “tarde” ou “você está pisando no meu pé”, dependendo da inflexão da voz e da força com que é berrada.

Devido a essas dificuldades, muitos ocidentais relutam em aprender o phaic-tanês. É uma pena, pois os nativos provavelmente apreciariam qualquer tentativa de dominar o idioma, já que em geral eles não têm muito do que rir.

QUESTÕES DE GÊNERO
Uma das maiores dificuldades para os falantes não-nativos é que as palavras não são determinadas pelo gênero do interlocutor, mas pelo gênero do falante e pela direção do seu olhar. Ainda por cima, as sentenças podem terminar com diferentes sufixos (kar, lo, phar etc.), dependendo da hora do dia. Para complicar, o idioma phaic-tanês emprega três níveis distintos, que indicam a casta ou o status do ouvinte, variando do “Alto phaic-tanês”, um estilo formal cheio de frases elaboradas e floreios retóricos, até o “Baixo” ou “Comum”, que basicamente envolve cuspir.

CULINÁRIA
Para os que não conhecem a culinária phaic-tanesa, é só imaginar os melhores ingredientes da cozinha chinesa e a sofisticação dos temperos indianos, apresentados com a elegância dos melhores restaurantes franceses. A palavra-chave é “imaginar”, já que a cozinha em Phaic Tan sofreu muito com a pobreza dos anos de guerra e com a baderna econômica. Recentemente, no entanto, a culinária phaic-tanesa tem passado por uma espécie de renascimento, e alguns ótimos prazeres aguardam os viajantes aventureiros, inconseqüentes e estomacalmente intrépidos.

QUENTE E APIMENTADA
Os phaic-taneses preferem pratos apimentados, com a presença de chillis por toda parte: nos curries e nas frituras, bem como nos cereais matinais e nos sorvetes. A versão phaic-tanesa para o “bom apetite” (mihn laum) pode ser traduzida literalmente por “Que gotas de suor escorram pela sua testa!”. Mas o afluxo de turistas contribuiu para amenizar os hábitos locais, e vão longe os dias em que, se um freguês pedisse “alguma coisa menos apimentada”, o chef irromperia da cozinha armado com um cutelo de carne e questionaria a sua masculinidade.

Além do chilli, outros ingredientes essenciais para a cozinha phaic-tanesa são os frutos do mar, frutas, vegetais, broto de feijão, broto de bambu, capim-limão (ou, nas regiões mais pobres, limão no capim), manjericão, menta e rato.

Os turistas não demorarão muito para conhecer o molho Sambal, uma mistura inflamável de cebolas, cebolinhas, cúrcuma, gengibre, alho e pimenta vermelha, usada largamente em restaurantes e residências, onde é oferecida a bebês que sofrem de cólica. Outro condimento bastante popular é o praherk, uma pasta de peixe de aroma fortíssimo, usada para disfarçar o cheiro de certas comidas. Infelizmente, nada consegue disfarçar o cheiro do praherk, e é melhor evitá-lo. O prato mais comum ao norte de Phaic Tan é o phoar, um caldo ou sopa para ser comido com palitinhos, o que pode explicar a alta incidência de desnutrição na região.

O SABOR DE PHAIC THAN…
Dica de etiqueta: nos restaurantes e residências de Phaic Tan é de bom tom deixar alguma comida no prato. Não apenas para demonstrar boas maneiras, mas também para dar algo com que trabalhar ao toxicólogo forense que, possivelmente, investigará sua morte.

Os chillis de Phaic Tan são considerados os mais picantes do mundo, tanto que, depois de comê-los, é ilegal arrotar sem a autorização dos bombeiros.

O nergak é um molho de peixe apimentado que acompanha inúmeros pratos em Phaic Tan. Ele é feito de uma planta processada em Pattaponga, uma das maiores fábricas da Ásia, provavelmente a única construção humana que pode ser cheirada da Lua.

O pu wiph é uma fruta tuberosa que dizem combinar o cheiro do queijo gorgonzola com a textura de uma esteira de palha. Quanto ao sabor, ninguém foi corajoso o suficiente para provar.

Para conhecer a comida phaic-tanesa autêntica, vá a uma tradicional barraca de feira, ou sahlmonellah.

COMPRAS
As lojas de Phaic Tan oferecem uma grande variedade de tecidos, roupas, sapatos, jóias e artesanatos. O único problema é que, em geral, esses produtos são de péssima qualidade e foram feitos em Taiwan.

Naturalmente, para obter o máximo em terapia de consumo você não pode deixar de ir a um dos novos supershoppings centers, como o de King Tralanhng, em Bumpattabumpah. Um edifício gigante – tão grande que tem três fusos horários -, o Tralanhng ostenta o maior ventilador de teto do mundo, feito das hélices de um Black Hawk aposentado.

MERCADO NEGRO
Não existe nenhuma dúvida de que Phaic Tam é um dos centros mundiais de produtos pirateados de todos os tipos. A pirataria é tão bem-sucedida por lá que já existe um mercado bem estabelecido de piratas de piratarias.

FÁBRICAS
A seda de Phaic Tan é considerada uma das mais finas do mundo, apesar de sua trama grosseira e da tendência de rasgar quando dobrada. É muito usada no país em todo tipo de roupas, dos tradicionais vestidos de noiva aos guardanapos descartáveis e vendas de pano para o fuzilamento no paredão.

MASSAGEM
A massagem tradicional, ou Sem-Saka-Ngem, costuma ser associada à indústria do sexo, mas na verdade as técnicas phaic-tanesas têm pouco a ver com o prazer sensual. A forma mais comum de terapia tátil é o que se chama de massagem “tradicional”, e não é parecida a nada do que já se experimentou antes, a menos que você tenha recentemente tropeçado numa cerca elétrica. Começa com o seu corpo sendo coberto de óleo de coco da cabeça aos pés. O mais estranho do procedimento é que você continua inteiramente vestido. A massoterapeuta, então, começa a trabalhar vigorosamente em diversos pontos de “ativação”, que têm esse nome pois, quando apertados, ativam uma enorme onda de dor. Ao contrário da massagem sueca, que procura relaxar o corpo através de movimentos suaves com as mãos e dedos, os terapeutas phaic-taneses empreendem um ataque de diversas frentes usando as mãos, os polegares, dedos, cotovelos, antebraços, joelhos e, em alguns casos, uma pistola de pregos. A massagem costuma durar meia hora, ou até o cliente desmaiar.

Atenção: Se uma massagista phaic-tanesa prometer um “final feliz”, isso significa que você sairá do local sem ter sua carteira roubada.

Dica fotográfica: Cuidado ao mandar revelar suas fotos nos bairros de vida noturna intensa, pois neles se presume que você quer ter seu rosto coberto por uma tarja preta.

COMO CHEGAR
A maioria dos turistas chega a Phaic Tan de avião, desembarcando no aeroporto de Phlat Chat. Infelizmente, as grandes companhias aéreas não voam até Phlat Chat, inconformadas com a recusa das autoridades do aeroporto em expulsar os camelôs que montaram barracas em torno da pista de aterrissagem.

A melhor maneira de conseguir um vôo é a bordo da transportadora nacional Royal Fok Tok Airlines. Batizada com esse nome em homenagem a uma ave não-voadora, a Fok Tok tem como uma de suas marcas o procedimento de aterrissagem espontâneo, no qual os pilotos desligam os motores dez minutos antes do pouso, para economizar combustível.

A Fok Tok não apenas permite fumar a bordo, como inclusive encoraja a prática, especialmente à noite, quando uma grande quantidade de cigarros acesos compensa a falta de iluminação na cabine.

Se você prefere optar por outro tipo de transporte, há uma ferrovia expressa ligando Phaic Tan a países vizinhos. A linha mais popular é a do Trem-Bala, que funciona duas vezes por semana, e tem esse nome pois é freqüentemente atingida por tiros de rajadas ao cruzar a fronteira.

Você vai dormir, dormir…

Posted: 1st abril 2007 by Vanessa Barbara in Reportagens, Revista piauí
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Piauí n. 7
Abril de 2007

por Vanessa Barbara

Em 1986, a ajudante de enfermagem Nadean Cool procurou um psiquiatra para tratar de um trauma sofrido pela filha. O médico decidiu que a própria enfermeira deveria ser tratada, e a submeteu a hipnose e outras técnicas sugestivas. O objetivo era resgatar lembranças de abuso que a própria enfermeira teria, supostamente, sofrido. Nas sessões, ela foi convencida de que reprimia memórias de ter participado um culto satânico, de comer bebês, de ser estuprada, de fazer sexo com animais e de ser forçada a assistir o assassinato de uma amiga de 8 anos. Chegou a acreditar que tinha mais de 120 personalidades – crianças, adultos, anjos e até um pato. Quem conta o caso é a psicóloga Elizabeth Loftus, da Universidade de Washington, em um artigo na revista Scientific American. Dez anos depois, Nadean processou o psiquiatra, acusando-o de inoculá-la com falsas memórias. Ganhou e recebeu uma indenização de 2,4 milhões de dólares.

Elizabeth Loftus enumera casos de pessoas que acreditavam ter sofrido abusos na infância e, mais tarde, descobriram que as memórias foram plantadas pelo terapeuta quando estavam hipnotizadas. A recorrência dos casos, segundo a pesquisadora, mostra que a hipnose é indissociável da teoria da sugestão. Os fenômenos hipnóticos, diz ela, provocam efeitos psíquicos – produtos de sugestões que, intencionalmente ou não, são provocadas na pessoa em transe. Para Sigmund Freud, o conceito de hipnotismo equivale ao conceito de sugestão.

Numa sala do Museu Alfredo Andersen, em Curitiba, cerca de vinte alunos se estiram em colchonetes azuis e aprendem a hipnotizar. São psicólogos, médicos, enfermeiros, padres, filósofos, publicitários e até um piloto de avião, que optaram por conhecer uma nova linha de terapia: a hipnose condicionativa que, segundo seu criador, Luiz Carlos Crozera, revolucionará a medicina e as ciências humanas. Nascido em Jaú, no interior de São Paulo, ele não é médico ou psicólogo. Mas fundou e dirige o Instituto Brasileiro de Hipnologia.

Crozera é gordinho, usa óculos, tem bastos bigodes e fala sem parar. Segundo ele, já existem mais de 400 hipnólogos clínicos – condicionativos – formados no Brasil, Angola e Portugal. Ele conta que a Universidade Estadual de Londrina está pesquisando a comprovação científica das técnicas que inventou. O seu curso é intensivo. Começa na sexta-feira e termina no domingo. São dez horas de aulas por dia. Ele diz ter ministrado cursos em Manaus e Fortaleza, em Vassouras e João Pessoa, em Lisboa e Sintra, mas as cidades onde sempre esgota as vagas são Curitiba e Campinas.

Os três dias são mais do que suficientes para uma apresentação aos princípios básicos da hipnose condicionativa. Os inscritos vêm do Paraná, do Mato Grosso, de Santa Catarina ou de Minas Gerais, e se hospedam em hotéis próximos. Alguns moram em Curitiba e estão fazendo o curso pela segunda vez. Na sala, dezenas de cadeiras escolares e uma tela para exibir 200 slides em Power Point (que começam com os dizeres “o início da vida: aí estão as bases biológicas do ser humano”). Em cima da mesa, há suco, chá, água, bolinhos e biscoitos de chocolate. São dois intervalos de dez minutos para lanche e uma pausa de uma hora para almoçar, cada um por si. A quantidade de biscoitos por pessoa não foi estipulada, o que faz com que alguns alunos se encham de doces e, talvez, embotem o cérebro. Fica difícil de pensar, comentam os mais céticos.

A hipnose condicionativa trabalha com o bloqueio dos registros mentais negativos. Ela opera em quatro vertentes: o condicionamento interno (ligado à mente e à fisiologia), o condicionamento externo (meio ambiente), o descondicionamento, e o recondicionamento de registros mentais. A principal diferença da hipnose condicionativa para as outras linhas de hipnoterapia é que a nova técnica pretende resolver as dificuldades psíquicas do paciente sem perscrutar, longa e penosamente, os abismos da psique. Ela chegaria às causas dos problemas sem retomar traumas ou revivenciar os abalos emocionais (o que Crozera chama de “sofrologia”). Com isso, abreviaria o tratamento. Ele sustenta que é possível resolver um caso de depressão em três sessões.

***

O segredo do método é encontrar um meio rápido para chegar às causas e bloquear os traumas. O hipnólogo descobre a origem do problema fazendo uma espécie de rastreamento na mente, indo da vida intra-uterina até o presente num curto espaço de tempo. Trabalha-se sempre o lado positivo das coisas. “Cognitivamente, o fato fica intacto, mas fazemos um bloqueio das sensações negativas”, explica, diante da alegação de que sua técnica “apagaria” as memórias indesejáveis (tal como faz a empresa Lacuna Inc. no filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças). “O abalo emocional é que vai embora.”

No primeiro dia de aula, Crozera distribui uma pedrinha para cada aluno, estende colchonetes na sala e dá início a uma sessão coletiva de hipnose para mostrar como a técnica funciona. Apagam-se as luzes e o sistema de som toca uma música calma. Como não há colchonetes para todos, alguns se deitam no chão, espremidos entre os pés das cadeiras. Aos poucos, todos param de se mexer. Ele começa a repetir, com a voz mole: “Quero que você deixe os seus problemas lá fora… concentre-se na música”. A primeira etapa do processo se destina a reduzir a ansiedade e fixar o controle de voz. Crozera comanda um vagaroso exercício de respiração para relaxar os músculos, e vai descrevendo o relaxamento da cabeça, da nuca, dos ombros e da barriga, beeeeeeem devagar. Devagar, mesmo. Devagar para burro. Muito devag…

Em seguida, começa a falar da pedrinha. “Quero que sua atenção e concentração fiquem na pedrinha que está nas suas mãos… e não na minha voz”, ele diz, pausadamente. “Sinta a textura… a forma. Enquanto sente a pedrinha, permita-se sentir uma agradável sensação de paz interior, muita paz e tranqüilidade, envolvendo o seu corpo.” Cada frase que o hipnólogo repete é seguida por segundos de silêncio, que reforçam as ordens de liberar a mente dos pensamentos e deixá-la totalmente vazia, focando apenas na referida pedrinha. Algumas tosses são ouvidas na sala. Depois de dez minutos de preliminares, tem início o relaxamento propriamente dito: “Sinta seus pés pesados… muito pesados… pesados e moles, moles e relaxados. Sinta uma agradável sensação de calor envolvendo seus pés. Relaaaaaxe”.

A frase demora vinte segundos para terminar. É uma etapa de sugestionamento, que serve para que o paciente entre no transe. “Quanto mais você relaxa, uma sensação mais profunda de paz… paz e calma… calma e tranqüilidade vai envolvendo cada parte do seu corpo.” O silêncio na sala é total. Um dos alunos aproveita para coçar o pé. “Onde você ouve apenas a minha voz… E faz somente aquilo que eu lhe disser. Relaaaaaaxe”.

Os órgãos internos da barriga, o tórax, o coração, braços, queixo, bochechas e a testa são mencionados na etapa de relaxamento, bem como as sobrancelhas, as pálpebras e até partes do corpo menos ortodoxas. “Sinta seus pulmões calmos e tranqüilos… tranqüilos e relaxados.” Essa etapa dura um tempão: de trinta a cinqüenta minutos. Aí vem uma lenta contagem de vinte-dezenove-dezoito-dezessete que tem o objetivo de baixar a freqüência mental do paciente. Ao chegar ao número um, espera-se que ele tenha alcançado o relaxamento profundo. Para fixar o nível do sono, Crozera diz a palavra “agora” (alguns alunos entendem “amora”).

***

Desta forma, em teoria, o sensor crítico (racional) do paciente é afastado e a voz do terapeuta tem acesso ao seu universo de registros mentais, captados de forma involuntária e não percebidos pela memória consciente. A terceira fase da sessão consiste nos condicionamentos em si, já que o paciente se encontra em transe hipnótico e está pronto para receber sugestões. (A essa altura, vários alunos estão roncando.) Crozera desenvolveu inúmeras técnicas de condicionamento mental, que ele apelidou de “espelho”, “porta”, “chuveiro”, “travesseiro”, “maçaneta” e “cofre”. São sugestões positivas que se dá ao paciente para aumentar a auto-estima, por exemplo: “Todas as manhãs, quando você se olhar no espelho, sentirá muita disposição e alegria”. Já a técnica do cofre é utilizada para bloquear os registros mentais negativos: pede-se que a pessoa mentalize um cofre sólido, com portas de aço puro, no qual irá colocar todos os sentimentos que a incomodaram, ano a ano, desde a vida intra-uterina. Depois o cofre é fechado e a chave fica com o terapeuta. Segundo Crozera, é assim que se curam os problemas que têm origem em traumas: “O cofre é um inconsciente dentro do inconsciente, onde a pessoa vai pôr o lixão dela”.

Uma etapa opcional é a “energização” – fórmula que consiste em imaginar “uma luz branca entrando pelo seu dedão do pé”, trazendo saúde para todas as células do corpo, removendo as impurezas e fortalecendo as artérias. Pode-se também energizar a pedrinha, ou qualquer outro objeto que o paciente tenha nas mãos. Concluída essa fase, o hipnólogo empreende a saída do sono terapêutico, contando (len-ta-men-te) de 1 a 10 até que os batimentos cardíacos do paciente voltem ao normal.

Nesse momento, após uma hora e meia de sessão, alguns alunos continuavam dormindo. Para Crozera, eles não estavam dormindo, e sim em transe profundo. “Você quase não sente a respiração dele”, explica, apontando para o aluno Darcy Nichetti, filósofo clínico (não se trata de erro: o curso atrai “filósofos clínicos”, aqueles que aplicam o conhecimento filosófico à psicoterapia). Todos trocam olhares, desconfiados, e alguém protesta: “Mas ele está roncando!”. O professor ressalta que o ronco é uma manifestação fisiológica, que não tem necessariamente a ver com o sono. São 11 horas da noite; a sessão termina com as luzes se acendendo e o pessoal se espreguiçando. Uma das alunas se levanta e vai correndo para o banheiro, pois está apertada. “Provavelmente ela não sabe, mas tinha uma doença que acabou de ser curada”, declara o professor. “Uma vez, quando acabou a sessão, uma aluna minha foi correndo para o banheiro fazer xixi. Ela tinha câncer no ovário, e depois da sessão estava curada.”

Sonolentos, os alunos vão embora, com a promessa de que na manhã seguinte olharão para o espelho e sentirão muita disposição e alegria.

***

Nas aulas, Luiz Carlos Crozera garante que a hipnose condicionativa é diferente de todos os tipos anteriores de hipnoterapia. Ele cita a hipnose clássica e a ericksoniana como pontos de partida da nova vertente, mas lembra também do pioneiro Franz Anton Mesmer, médico alemão formado pela Universidade de Viena que, no século XVIII, publicou uma tese de doutorado sobre a influência dos planetas na saúde das pessoas. Mesmer acreditava que havia um fluido universal conectando cada elemento do universo, e que as doenças surgiam quando havia um desequilíbrio dessa energia dentro do corpo. Influenciado pelas curas com ímãs do jesuíta Maximilian Hell, lançou a teoria do “magnetismo animal”, capacidade de um indivíduo em causar efeitos similares ao magnetismo mineral e promover a cura em outra pessoa. Suas técnicas consistiam em efetuar passes com as mãos e olhar fixamente para o paciente, conduzindo-o ao transe. Em 1784, as curas pelo mesmerismo ganharam o mundo e chamaram a atenção da Academia de Ciências de Paris, que nomeou uma comissão para investigar o método.

Em pouco tempo, os cientistas concluíram que o magnetismo animal não passava de charlatanice, pois não possuía validação científica e se sustentava em teorias astrológicas. A comissão anunciou que o fluido universal não existia e que as curas dependiam da auto-sugestão dos pacientes (ou do poder de sugestão do hipnotizador), não sendo, portanto, confiáveis. Mais tarde, também Freud retomou o assunto e o descartou, ao perceber que Mesmer acreditava em um fluido magnético que passaria do hipnotizador ao hipnotizado. Crozera alega que a importância histórica de Mesmer é indiscutível, apesar de tudo.

O termo “hipnotismo” surgiu apenas em 1843, em Manchester, e foi cunhado pelo cirurgião escocês James Braid, para designar o procedimento de indução ao estado hipnótico. Uma vez que hipno significa sono, a palavra em si não é adequada, já que a hipnose coloca a pessoa num estado especial do cérebro que se assemelha ao sono, mas que não é o sono. Depois veio o médico parisiense Jean-Martin Charcot, já em 1882. Ele percebeu que, por meio do hipnotismo, conseguia inculcar sintomas de histeria nos pacientes, ou seja, uma pessoa sadia passava a sentir tremores, paralisia, insensibilidade à dor e outros sintomas físicos da doença. Era possível, portanto, fazer o caminho inverso e curar os sintomas dos pacientes histéricos. A visão de Charcot era puramente somática, pois a considerava um estado fisiológico modificado do sistema nervoso, causado por estímulos externos (o toque da mão, o efeito de ímãs).

Apesar de ter sido seu discípulo, Freud discordava de Charcot em favor de uma terceira teoria da hipnose, a teoria da sugestão, de Ambroise Liébeault. O grande mérito dessa teoria foi despojar o hipnotismo de seu mistério, correlacionando-o com fenômenos conhecidos da vida psicológica normal e do sono. Com isso, o problema da hipnose foi inteiramente transposto para a esfera da psicologia, e a sugestão foi erigida como núcleo do hipnotismo e chave para sua compreensão.

Freud valeu-se da técnica durante dez anos, no máximo: entre 1886 e 1896. Mais tarde, aderiu ao método catártico, criado com Josef Breuer, que usava o transe para perguntar a origem dos sintomas a um paciente que, em seu estado de vigília, podia descrevê-los só muito imperfeitamente, ou de modo algum. Com o método de Breuer, o paciente hipnotizado era levado a expressar em palavras a fantasia emotiva pela qual se achava dominado.

***

Com o tempo, a experiência deu lugar a dúvidas mais graves quanto ao emprego da hipnose, mesmo como um meio para a catarse. A principal foi que até mesmo os resultados mais brilhantes estavam sujeitos a ser de súbito eliminados, se a relação pessoal do terapeuta com o paciente viesse a ser perturbada. Ou seja, a relação emocional entre médico e paciente era, afinal de contas, mais forte do que todo o processo catártico, e a sugestão acabava sendo um instrumento que comprometia a origem e a significação do sintoma.

Assim, Freud decidiu abandonar a hipnose como método, embora continuasse tirando proveito de suas descobertas: em primeiro lugar, o hipnotismo era uma prova convincente de que notáveis mudanças somáticas podiam ser ocasionadas unicamente por influências mentais. Em segundo, mostrava que, na consciência dos homens, existiam poderosos processos mentais escondidos – que só se poderiam descrever como inconscientes. O inconsciente, aliás, estivera muito tempo sob discussão entre os filósofos como conceito teórico, mas naquele momento, pela primeira vez, ele se tornava algo concreto, tangível e sujeito a experimentação.

***

Enquanto isso, na capital paranaense – 100 anos depois de Freud e 200 após o “magnetismo animal” de Mesmer -, Crozera declara que a energia psíquica de cada um de nós está ligada à energia das outras pessoas. “Quando pensamos, projetamos nossas energias positivas ou negativas aos outros; por isso, depois de encontrar alguém cheio de problemas, é preciso fazer um descarrego”, diz. Ele ensina a importância de tirar os sapatos para descarregar as energias no solo e acusa o calçado de ser a própria fonte do stress, ao que alguns alunos decidem terminar a aula de meias. O que obriga o professor a sacar um desodorizador de ar, de tempos em tempos.

Diante de uma platéia na qual havia um neurocirurgião e uma dermatologista, ele afirmou que a maioria dos medicamentos tem efeito placebo, que o alcoolismo não é doença e que o câncer não é genético, pois é a mente que o desenvolve. Para Crozera, 90% dos casos de câncer são emocionais. “Quem não tem nenhum mecanismo de fuga tem grande tendência a ter câncer. Porque a pessoa se fecha dentro dela e absorve tudo”, explica. Segundo ele, o câncer se desenvolve na região do organismo onde houve abalo emocional. Do universo inteiro das doenças, 90% também surgiriam da mente humana, bem como a obesidade, que teria um fundo quase inteiramente emocional. É por isso, também, que ele se declara contrário à propaganda antitabagista impressa atrás dos maços de cigarro – pois não é o cigarro que mata, e sim a foto. Crozera sai para fumar durante o intervalo, enquanto confessa que acha difícil haver técnica mais eficaz para tratar problemas psíquicos.

Ele avalia que, desde 1927, não havia surgido nenhuma novidade no campo da hipnose, e que sua invenção pode ser considerada a medicina do futuro. “Com a hipnose condicionativa, podemos fazer a pessoa adorar cebola”, diz. Mesmo sob a resistência dos médicos, ele sustenta que a única maneira de bloquear os registros negativos é por meio da hipnose, que trabalha de forma direta na mente. Para ele, nenhum remédio tem eficácia no tratamento de abalos emocionais: eles apenas burlam a mente e não chegam às causas. “A medicina trabalha com o efeito placebo”, garante.

***

Até então, o neurocirurgião Silvio Feitosa, de 40 anos, permanecia calado. A partir desse instante, começou a suspeitar que Crozera não acreditasse naquela história de neurotransmissores, e perguntou se ele não achava que a mente era química. O professor respondeu que “mente” é diferente de “cérebro”, pois a mente estaria acima de tudo: é o seu próprio espírito. Desafiado, Crozera se considera pronto para provar sua teoria, que apresenta sem medo para todos os tipos de profissionais. “Falei alguma coisa de mais?”, pergunta, olhando para Silvio Feitosa. “Falei o que a medicina não tem coragem de falar, só isso.”

Ele acentua que a hipnose condicionativa tem a vantagem de não fazer a pessoa sofrer, como nas outras terapias. Na hipnose clássica, é preciso reviver para poder entender o trauma e se livrar dele. Já na condicionativa, logo que o paciente começa a sofrer, o terapeuta isola o sentimento e manda trancá-lo no cofre. Ao contrário da hipnose clássica, a nova técnica não é narrativa e nem investigativa, já que apenas 20% das pessoas conseguem falar durante o estado de transe (ao passo que todas são hipnotizáveis, segundo Crozera). O hipnólogo condicionativo não tem a necessidade de saber o que está acontecendo enquanto repassa um determinado ano na vida do paciente – apenas lê as reações em seu rosto calado, e manda trancar tudo o que o incomoda no cofre. Às vezes eles sabem o que aconteceu durante a sessão porque o próprio paciente lhes conta depois. Crozera narra o caso de uma mulher que tinha aversão a creolina e, em estado hipnótico, teria descoberto que o pai dera um copo do produto para que a mãe abortasse, quando estava grávida.

Na hipnose condicionativa, portanto, é possível fazer regressões até a vida intra-uterina, repassando os sentimentos negativos de forma direcionada (em uma determinada época), ano a ano ou por frações de períodos. Também é possível fazer progressões e ver o futuro – o que vai de encontro a todas as teorias do inconsciente já conhecidas. Ele narra que hipnotizou uma paciente com câncer e curou a doença, mas que ela continuava com medo de que o câncer voltasse. Crozera ressaltou que o processo era perigoso, pois podia revelar coisas que ela não queria saber. A paciente insistiu, e ele fez uma progressão até o ano de 2010. No futuro, a mulher estava saudável, descansando num sítio, cercada de netos. Muitos alunos contestaram. “Mas e se ela estivesse morta, o que iria acontecer?” Outros simplesmente descartaram aquilo como uma grande bobagem. “Algumas coisas você aproveita, outras você ignora”, disse o estudante de psicologia Francisco Benhur, de 44 anos, de Caxias do Sul, um dos mais contestadores da turma.

Crozera acrescentou que é possível fazer projeções, ou seja, projetar a mente do paciente à distância, de modo que ela entre na mente de outra pessoa. Por exemplo: se uma mãe deseja hipnotizar o filho, mas ele não está presente, ela pode pedir para o hipnólogo fazer a sessão com ela, e assim hipnotizar o filho por tabela. “A gente é racional e até ouve, mas tem coisas que não dá pra engolir”, admite a aluna Karen Beatriz Silva, psiquiatra forense de Curitiba.

***

Luiz Carlos Crozera conta que é formado em engenharia civil. Trabalhava como analista de sistemas e era professor de linguagem de programação antes de se interessar pela hipnose. Por influência do pai, começou a estudar o fenômeno, sem nunca ter realizado um curso sobre o assunto. A criação das técnicas, iniciada na década de 1980, demorou muitos anos, até que ele pudesse entender o funcionamento do mecanismo mental. “Numas férias com minha família no Guarujá, vendo pelo menos uma dezena de obesos malhando na academia do Spa Med, resolvi levar a proposta da hipnoterapia ao doutor Augusto Santomauro, que na época era diretor clínico do spa.” Crozera fez uma demonstração. Ele diz que não lembra o nome das pessoas que acompanharam a experiência, mas que havia uma psicóloga, o diretor de UTI do Hospital das Clínicas de São Paulo, um cardiologista e mais um quarto médico de cuja especialidade, lamentavelmente, ele também não lembra.

O hipnólogo colocou um paciente em situação de risco, fazendo-o acreditar que estava amarrado em uma linha de trem. Com apenas uma palavra: “relaxe”, teria conseguido diminuir a freqüência cardíaca da pessoa de 130 bpm a 23 bpm. “Naquele final de tarde de 1993, os médicos chegaram à conclusão de que estávamos perto da descoberta de um mecanismo de controle da hipertensão”, relata entusiasmado. “Restava descobrir uma forma para que o paciente não ficasse na dependência psicológica do terapeuta, muito menos de medicamentos.” Foi assim que surgiu a técnica da pedrinha. E a hipnose condicionativa.

Segundo o método, basta que o hipnólogo estabeleça uma série de rotinas para aplicar, em voz monocórdia, de acordo com a queixa do paciente. Se a pessoa tem medo de sapos, o terapeuta trabalha “o espelho, o travesseiro e o chuveiro” para aumentar a auto-estima, e depois faz “o cofre”, em que o paciente irá localizar o acontecimento traumático e trancá-lo lá dentro. Energizando a pedrinha, ele garante que o paciente tenha uma espécie de talismã para ajudá-lo nos momentos difíceis, um objeto com potencial curativo que pode ser tanto uma pedra quanto um terço. “Estou até agora com uma dor de cabeça terrível”, reclama uma das alunas, depois da sessão. “Passou a pedrinha?”, pergunta o professor. “Passei, mas não adiantou”, ela responde.

Crozera alerta que a hipnose condicionativa só é eficaz quando considera o componente externo do condicionamento. O terapeuta deve conversar com as pessoas que possam exercer pressão na vida do paciente, para que não haja reincidência. Ele lembra do caso de um alcoólatra que parou de beber durante vários meses, mas retomou o vício quando, em uma festa, a filha duvidou que ele estivesse sóbrio. “Se a gente condiciona uma criança para ir bem nos estudos, mas vem o pai e diz: ‘seu burro’, ele acabou de destruir tudo!”, sustenta. O professor recomenda que os condicionamentos sejam reforçados na mente durante o máximo de tempo possível e que o hipnólogo oriente a família. “Você trabalha o paciente, sugere e ele sai zeradinho”, garante. “Mas aí qualquer coisinha vem e destrói.” (Ele também ensina que há palavras proibidas durante a sessão, como “não”, “medo”, “dor”, “pavor”, “barata” e “dentista”, para aqueles que têm fobia de ir ao dentista. Nesses casos, pode-se usar a palavra “profissional dentário”.)

Estas seriam algumas das falhas da hipnose. O psicanalista Renato Mezan, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, explica que, desde a época de Freud, “a sugestão não resolvia o conflito, como não resolve até hoje: simplesmente o silenciava, o recobria com a influência do hipnotizador. Cessada a sugestão, o conflito retornava tal e qual, às vezes agravado”. Ele explica que bloquear o acesso aos traumas é, na verdade, trabalhar a favor do recalque: é como empurrar a sujeira para baixo do tapete. Nem por isso o cheiro vai deixar de se espalhar. “É como se eu dissesse que, se não olhar para a coisa que dói, ela vai parar de doer”, resume o autor de Freud, Pensador da Cultura. Além disso, ele aponta que o sofrimento psíquico nem sempre tem causa linear, ou seja, não é porque alguém apanhou do pai aos 5 anos de idade que essa pessoa vai fazer xixi na cama quando adulta. É como se não existisse o deslocamento, a metáfora, o recalque. Ou como se todas as crianças que apanhassem aos 5 anos de idade futuramente tivessem problemas de enurese. “Nesta área, não dá pra dizer que A produz B. Não é uma causalidade linear simples”, avisa. Como numa equação física, existem diversas variáveis possíveis, pois muitos elementos concorrem para formar um comportamento.

Mezan lembra que uma das maiores conquistas no campo da psicoterapia foi reconhecer que o paciente se cura por sua própria atividade, por meio de uma reeducação ativa. A terapia pressupõe o diálogo. Por isso, resgatar a hipnose para curar transtornos psíquicos, nos dias de hoje, é ir na contramão do conhecimento – já que o elemento ativo, nesse caso, é o terapeuta. O paciente permanece quieto, quase como um objeto de que não se exige nenhuma participação.

***

Atualmente, muitos profissionais de saúde consideram a hipnose um procedimento sério e eficaz, cientificamente comprovado, que pode ter inúmeras aplicações terapêuticas. Mas observam que é também uma ferramenta perigosa nas mãos erradas, principalmente por utilizar a sugestão – por introduzir uma idéia consciente no cérebro da pessoa hipnotizada, e essa idéia ser aceita como se tivesse surgido de forma espontânea. Afastado o sensor crítico do paciente, o hipnólogo tem um poder bastante grande sobre suas crenças. Em tempos de gnomos, florais e unicórnios, não é preciso muito para acreditar que uma de suas personalidades é um pato.

O curso de hipnose condicionativa de Luiz Carlos Crozera dura três dias, é aberto para profissionais de todas as áreas e custa 900 reais. O psiquiatra Kenneth Olson, por sua vez, cobrou 300 mil dólares do plano de saúde de Nadean Cool, que posteriormente o processou. Era o preço da terapia em grupo para cada uma das 120 personalidades que ela apresentava.

Os Silva

Posted: 1st abril 2007 by Vanessa Barbara in esquinas, Reportagens, Revista piauí
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Piauí n. 4
Abril de 2007

por Vanessa Barbara

Douglas e Claudia vivem brigando por assuntos banais. “Coisas pequeníssimas!”, ela diz, chacoalhando os pés do alto de seu banquinho. Eles estão juntos há oito anos. São o menor casal do mundo, atestado pelo Guinness Book.Claudia Pereira Rocha da Silva tem 34 anos e 92,5 centímetros de altura, o tamanho de uma criança de três anos. Ela nasceu em Gravataí, região metropolitana de Porto Alegre, e aos oito anos conheceu o futuro marido, que é menor do que ela: tem 89,5 cm. Na época, Douglas Maister Breger da Silva se mudou para Curitiba e perdeu o contato com a amiga. Décadas depois, voltaram a se encontrar.

Após dois anos de namoro, casaram-se na televisão, ao vivo, numa cerimônia no Programa do Gugu. Distribuíram bloquinhos e ímãs de geladeira com a foto dos dois, e cada lembrancinha recebeu um toque de Douglas, que é artista gráfico. “Na verdade, sou pau pra toda obra. Cozinho, passo e lavo”, afirma o maridão, triunfante, ao que a esposa concorda. “É verdade! O feijão dele é muito bom.”

O casal mora nos fundos de uma casa simples em Capão Raso, na periferia de Curitiba. O imóvel é pequeno e pertence ao chefe de Douglas. “Há algumas semanas, eles pediram a casa. Estamos pensando em voltar pro Rio Grande”, diz, contrariado. Eles gostam de Curitiba. Os ônibus ali não têm degraus tão altos como em Porto Alegre. “Quantas vezes eu não ficava com os nervos esticados porque tinha que fazer ginástica pra subir”, protesta Claudia. “Como nós temos bem menos de 1 metro, dificulta.”

Alguém bate palma no portão. Douglas sai correndo, sobe num banquinho e olha pela janela, esticando o pescoço. “Ah, é a Josi e a Salete!”. Salete Fernandes Alves, de 38 anos, é de longe a mais alta da turma: mede 1,24. Trabalha no departamento financeiro de uma empresa onde começou há cinco anos, como telefonista. Joseane Maria do Nascimento, a Josi, de 26 anos, é mais tímida. Está desempregada e vive da pensão que recebe do pai.

Em estatura, Douglas e Claudia batem no ombro das duas amigas. Para eles é ainda mais difícil arrumar roupas e sapatos do tamanho certo. “Comprei uma vez um sapatinho maravilhoso”, conta Claudia, que calça 25/26. Depois de anos, quando o sapato enfim furou, ela não descobriu mais nada parecido. Hoje, quando acha alguma coisa que lhe agrada, já vai comprando duas ou três peças, e ainda avisa as amigas. É ela quem costura as roupas básicas do casal, feitas de malha. “Aprendi com minha mãe, que era costureira.”

O casal vai se adaptando como pode nesta terra de gigantes. Para eles, é difícil alcançar os telefones públicos e caixas eletrônicos. “Os elevadores modernos estão mais acessíveis”, segundo Claudia, mas Salete protesta: “É, mas às vezes você tem que levar um objeto comprido na bolsa para alcançar o botão”. As prateleiras de supermercados quase chegam ao céu. Os balcões dos estabelecimentos comerciais – de padarias a lojas de roupas – exigem que eles pulem para chamar atenção. Muitos os confundem com crianças. “Às vezes, você está na fila, chegam outras pessoas atrás, fingem que não vêem e passam na frente. Você só é atendido quando se esforça um pouquinho mais”, diz Salete.

Na casa de Douglas e Claudia muitos móveis têm o tamanho regular, outros são adaptados. Na sala, duas mesinhas de centro fazem as vezes de mesa de jantar. A televisão também é pequena. Na cozinha, uma pia baixa de banheiro foi adaptada para lavar a louça. A geladeira é um frigobar. O balcão principal é fixo e, por isso, quando eles querem cortar legumes, por exemplo, usam uma escada de dois degraus com rodinhas. “A gente leva essa escada para todo lugar, até para o fogão. Mandamos fazer sob medida”, conta Douglas. Para o quarto, eles conseguiram módulos baixos que servem como guarda-roupas. Claudia fez de um banquinho a sua cômoda de maquiagem. “Ela é maquiadora, costureira, dançarina.”, diz Douglas. E, como muitos anões, chegou a trabalhar no teatro. “Adivinhe a peça”, desafia Claudia. Vem o silêncio, ela abre os braços e responde: “A Branca de Neve!”.

Os quatro concordam que o país está mais atento para os deficientes, mas, ainda assim, eles sofrem com o preconceito. Segundo Claudia, é normal as crianças perguntarem: “Pai, por que é que ele não cresceu?”. E o pai responde: “Porque ele não come feijão, não come verdura”.

Mas os quatro dizem que há vantagens em ser pequeno. Na opinião de Douglas, só depende do ponto de vista. Assim como os cegos desenvolvem melhor o tato ou a audição e os surdos aprendem a ler os lábios, os anões adquirem maior agilidade. Para Douglas, isso acontece porque eles precisam de um banquinho para tudo. “Então, no ato de subir e descer para fazer as coisas, a gente se torna mais rápido. Na rua, no centro da cidade, no meio da multidão, se a gente pára ou anda no nosso ritmo, o povo passa em cima. Nós temos então que andar no ritmo deles. E, para nós, esse ritmo é mais rápido.” Claudia acha que eles também têm mais equilíbrio. Nos ônibus, por exemplo, não precisam segurar nas traves. “Quanto mais alto você é, mais difícil”, diz Douglas. Na hora de tropeçar e cair, ser pequeno também é vantagem, pois o tombo é menor.

***

No início de fevereiro, Douglas deu um grande passo. Concluiu as aulas práticas para tirar a carteira de motorista. Ele mostra na câmera digital os vídeos de seus passeios com o instrutor da auto-escola. Em geral, os anões dirigem automóveis adaptados. Os pedais recebem extensões. No carro de Douglas e Claudia – que são muito menores do que a maioria dos anões -, todos os comandos ficam na direção. O carro tem de ser automático; o motorista controla o acelerador e o freio com a mão. “A Salete usa os pedais porque tem mais agilidade e é mais comprida. No meu caso, mesmo com o alongador, os pés não alcançam, e eu uso então o pé aqui em cima, na alavanca. Facilita para usar as duas mãos e ainda posso apoiar os pés aqui do lado, no volante, para ajudar.” Josi observa que é quase como se ele dirigisse com quatro mãos.

Como já está ficando tarde, Salete se levanta, pega as chaves do carro e chama todos para dar uma volta no shopping. No caminho, voltam a reclamar dos pais que assustam os filhos com histórias de anões. Espremido no banco de trás com Claudia e Josi, Douglas exemplifica o absurdo: “Eles chegam a dizer que os anões comem criancinha, você acredita?”.

A São Silvestre do ziriguidum

Posted: 1st janeiro 2007 by Vanessa Barbara in Reportagens, Revista piauí
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Piauí n. 4
Janeiro de 2007

Em São Paulo, dez horas seguidas de samba e pisões no pé para ganhar mil reais

por Vanessa Barbara

Não se sabe se, lá fora, chovia ou ventava, se era dia ou noite, Páscoa ou Carnaval, se os Quatro Cavaleiros tinham descido à Terra para trazer a peste ou a fome. Lá dentro, no salão de dança, a única certeza compartilhada por treze casais era a de que quando acabasse a 30ª música – e, com fé, isso iria acontecer – viria outra, e depois do pé esquerdo o direito, e depois do direito mais um rodopio e um passo para trás. Os giros já são automáticos, os casais se olham pensando em sofás, os pares parecem robôs.

A 1ª Maratona de Samba da Cidade de São Paulo teve início num domingo abafado de dezembro, às duas da tarde. Estava prevista para terminar dez horas depois, com o recolhimento dos corpos e o anúncio dos vencedores. Era pouco mais de meio-dia quando os primeiros concorrentes chegaram ao local – o Consulado Music, casa de shows na Zona Norte – para fazer exames de pressão arterial e assinar termos de compromisso. Dois bombeiros, William e Ricardo, foram chamados para medir os batimentos cardíacos e a respiração dos casais antes da largada. Eles também ficariam de plantão para agir em caso de síncope: “Há dez anos, as maratonas de lambada derrubavam bastante gente”, relembra Ricardo. “Quando você ia ver, o pessoal estava caindo no salão.”

Na concentração, os participantes não parecem nervosos. Discutem o que fazer com as camisetas oficiais, que deveriam ser usadas durante a maratona. Eram muito vermelhas e excessivamente quentes. Um dos dançarinos decide rasgar as mangas com uma faca, e o organizador anuncia: “Está chegando a tesoura!”. Prontamente, as meninas confeccionam miniblusas e inventam nós para amarrar a camiseta acima do umbigo.

Enquanto recorta a roupa, Juliana Marques, de 22 anos, confessa que havia almoçado dois pratos grandes de macarrão e um pão com bife, notícia que abala o moral de seu parceiro, Osíris da Silva, 19 anos. Alguém afirma que comeu um pastel e recebe olhares de reprovação. A mais empolgada das dançarinas, Claudia Chaves, 24 anos, professora da escola Algazarra’s, aparece para dizer que “bombou” no teste da pressão arterial. “Estão tentando me derrubar”, desconfia. Depois de um lanche leve e uns passinhos de samba, a pressão de Claudia voltaria ao normal. Às 13h30 chega o capitão da PM Silvio Sciacca, dançarino de fôlego e de longas distâncias, e faz uma aposta: se a sua pressão não der 11 por 7 ou 12 por 8 irá trocar de nome. O resultado é 12 por 7. Ele protesta. Diz que não é reprovado “nem em exame de fezes”.

Dos concorrentes, muitos são professores de dança, como Claudia Chaves, e alguns já participaram de maratonas de salsa e samba-rock. Sciacca, o capitão da PM, com seus 40 anos e 1,95m de altura, foi um dos finalistas da histórica competição de tango de 2003 no Avenida Club. A maratona durou 24 horas e apenas dois casais chegaram ao fim. “Nunca mais”, garante o capitão. “As duas últimas horas foram as mais difíceis, só continuei por questão de foro íntimo.” Ele chegou disposto a enfrentar o desafio de samba, embora preferisse ritmos mais condizentes com as tradições da dança de salão, como a valsa inglesa, a valsa vienense, o slow fox e o quick step, além do tango. Há três anos, ele fez par com a própria professora. “Tive a aula particular mais extensa do mundo”, diz.

Os casais são mandados ao vestiário. As mulheres vestem calças confortáveis e tênis de dança. Os homens escolhem sapatos com bico de camurça e solado de borracha. Pheliphe Britto, de 22 anos, entra no quartinho cheio e pergunta o que houve com o camarim particular que prometeram para ele: “Com licença, onde fica o camarim do Netinho?”. Ele é professor de dança na Algazarra’s e seu par é uma aluna, a jornalista Danielle Marques, de 27 anos.

Às 14h05, os treze casais são reunidos pelo organizador do concurso, Clovis Pereira Jurado, que (até pelo sobrenome) fará parte do júri. Jurado é diretor da Cia. La Luna, uma das escolas responsáveis pela maratona, em parceria com a rival Algazarra’s e com a Consulado Music. A despeito de ser organizada por academias locais, a prova consta no calendário oficial de eventos da Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Recreação. Clovis anuncia as regras: os casais devem dançar, ininterruptamente, até a meia-noite, com pausas de cinco minutos a cada duas horas para ir ao banheiro, e uma parada de quinze minutos na quinta hora para uma refeição. Não serão permitidas trocas de roupas ou de calçados. As duplas podem se servir à vontade das frutas e biscoitos dispostos nas mesas, contanto que não parem de dançar. A partir das 23h, a equipe de jurados avaliará a técnica, a simpatia e a harmonia dos sobreviventes, a fim de eleger um vencedor. Na última hora, houve competidor que reclamou: “Ih, só agora eu lembrei que precisava ir ao banheiro”.

Ainda antes da primeira música, durante o alongamento, o capitão Sciacca conta que não dançará até o fim porque terá de trabalhar. Mesmo assim, ele espera que as primeiras duas horas sejam bem pesadas, para eliminar metade dos concorrentes: “Toca só Paulo Moura”, ele pede, olhando para a cabine da DJ Drica. Ao seu lado, com o número 12 colado nas costas, Pheliphe Britto diz que não se importa, pois já começou na pegada: dançou com Danielle Marques até as 3h30 do dia anterior, deu aula das 9h ao meio-dia e foi direto para a competição. “E amanhã eu volto para a Segunda Absoluta do Netinho!”, completa. O cantor é sócio do Consulado Music, e bate ponto na casa às segundas.

***

Às 14h13 tem início a maratona, com “Meu samba pede passagem”, da música de Claudio Jorge “O Samba Melhor do Brasil”. Os casais começam com os passos básicos: um pra frente, um pra trás, um pra frente, um pra trás – bem juntinhos, porque ninguém é pingüim, ensina Rafael Martins, 21 anos, parceiro de Claudia. Pheliphe está mascando chicletes e Lacyle Emerson Terezinha, 29 anos, traz uma toalhinha no bolso de trás, que se mostraria muito útil no decorrer da maratona. Sua parceira, Elis, usa uma sandália de salto alto, assim como Elizangela Alves Gomes, 20 anos, e Aline Batista Cleto, 18. Das mulheres, apenas elas usam salto, e só Aline dança de saia. Três dos homens vestem calças brancas. Um dos organizadores aponta para Lacyle e para Claudinho Ferreira, 29 anos, e observa: “Aqueles dois são nêgo véio, é tudo malandro”.

14h19 – Pheliphe anuncia: “Troca de damas!”, mas ninguém dá bola.

14h26 – Claudia e Rafael, o casal no 1, não poupa energias. “Ela é assim: sai na escola de samba e dança a avenida inteira, depois ainda vai para a bagunça”, informa o bombeiro Ricardo, que também é dançarino.

14h32 – Sem parar de sambar, Pheliphe diz para uma garçonete: “Me vê uma Brahma!”.

14h44 – Elizangela diz que dança é diversão e Claudinho, seu parceiro, completa: “Estamos só aquecendo”.

14h52 – Rafael amarra na cabeça o que sobrou da manga da camisa.

15h10 – O capitão Silvio Sciacca abandona a prova para ir trabalhar. Agora são doze casais na pista.

15h25 – Chega um repórter de TV e um cinegrafista, que se põem a filmar os pés das pessoas.

15h38 – Pheliphe, com a voz séria: “Bem, amigos da Rede Globo, estamos aqui em mais uma maratona…”.

15h57 – O repórter de TV se mata de comer bananas.

16h10 – Pausa para ir ao banheiro. As mulheres saem correndo e uma funcionária é enviada para controlar o tempo. “E se o xixi for comprido?”, pergunta uma das concorrentes. “Três minutos!”, responde a moça do cronômetro. De dentro da cabine, alguém protesta: “Mas número dois é cinco minutos! Número dois é cinco!”. A dançarina Elis Cristina de Souza, 22 anos, reclama que levou um pisão no pé que quase arrancou a sua unha fora. “O esmalte já foi”, ela mostra. O tempo se esgota e as dançarinas lamentam: “Aqui os minutos passam tão rápido”.

16h15 – “Te segura/ que a vida está dura”, diz a letra do samba.

16h17 – Danielle dança com um pedaço de melancia na mão. Pheliphe continua a mascar chicletes.

16h21 – “Crioula/ eu quero é mocotó”.

16h26 – Um dos organizadores grampeia de volta o número 20 nas costas de Hércules Silva.

16h37 – Osíris faz uma pausa para amarrar o cadarço, sob supervisão.

16h52 – O casal no 2 pergunta as horas.

17h14 – Clovis Jurado avisa que alguns participantes estão dançando fora do ritmo.

17h32 – “Deixa o meu cabelo em paz/ Deixa o meu cabelo em paz”.

17h42 – Os dançarinos estão dispersos, sambando de qualquer jeito e conversando entre si.

17h48 – O no 4 arruma as calças.

17h58 – “É um lugar especial/ Para quem é sentimental/ E aprecia um gostoso bacalhau”.

18h10 – Outra pausa para o banheiro. A organizadora avisa: “Nada de número dois, hein?”. Uma das participantes se desespera: “Gente, a calça não sobe”. Elis continua a reclamar: “Nada-nada, já levei cinco pisões”. Alguém diz que ela devia conversar com o parceiro, porque assim não vai dar. “Não foi o meu parceiro, não, eu levo pisão dos outros!”.

18h21 – Pheliphe dedura um casal que estava quase parado.

18h26 – Mariana Anduta, 16 anos, dança segurando o rabo-de-cavalo para o alto, incomodada com o calor.

18h32 – Fora da pista, bombeiro tira uma moça para dançar.

18h36 – Os jurados se reúnem para deliberar sobre os números que se esfarelam nas costas, principalmente das mulheres, já que os homens dançam com as mãos nas costas de suas parceiras.

18h38 – Elizangela e Claudinho, casal no 14, dão uma demonstração de extrema habilidade no samba-rock, que envolve giros consecutivos.

18h42 – “Provei do famoso feijão da Vicentina/ Só quem é da Portela sabe que a coisa é divina”.

19h02 – Alguns casais dançam coladinho.

19h04 – Substituição dos sucos de laranja.

19h12 – Osíris grita: “Vamos lá! Faltam só cinco!”.

19h15 – Brito comanda alguns casais na dança: “Cinco, seis, sete, oito, gira”.

19h20 – Pausa de quinze minutos para comer macarrão ao alho e óleo. Sentados, Pheliphe e Danielle continuam dançando. A maioria tirou os sapatos e reclama dos calos. Brito declara: “Nunca quinze minutos foram tão importantes na minha vida”. Danielle estima que aproximadamente três casais estão “só a alma”. Alguns fazem alongamento, e antes de retornar ela se levanta e diz: “Agora é só o espírito!”.

19h35 – “Olha nós outra vez no ar/ O show tem que continuar”.

19h43 – Casal no 5 quase colide com a mesa de frutas.

19h47 – Pheliphe faz esforço para abrir mais um chiclete enquanto dança. Com a mão esquerda, Danielle tenta ajudar.

20h32 – Casal no 11 desiste. “Sei que estou quase morrendo”, afirma Vitor Albani, de 15 anos.

20h35 – Casal no 13 é tirado da pista por estar fora do ritmo. Marinês Capanema, de 46 anos, reclama e diz que não está cansada: “Eu me canso de lavar roupa, de limpar a casa. De dançar eu não canso”.

20h42 – Claudinho esnoba os outros competidores: “Mais dez horinhas? Tranqüilo, tranqüilo”.

20h55 – Mariana olha feio para a música animada que a DJ colocou.

21h02 – Casal no 8 desiste.

21h04 – Começa o show de uma banda de pagode, ao vivo. A casa enche.

21h15 – “Estrela, ilumina meu céu/ Me tira desse fel/ Adoça o meu vi-veer”.

21h22 – O vocalista articula as palavras felicidade, liberdade e sofrer na mesma estrofe.

21h32 – Adolescentes se enfileiram em frente à pista e gritam os refrões das músicas, sobretudo os finais: a-mô-or, fe-e-li-i-z.

21h37 – O mau humor atinge índices jamais auferidos.

21h42 – Avós, tios e primos acenam para o casal no 1.

21h47 – Começa a carnificina: casais no 4 (Mariana e Gerson) e no 1 (Claudia e Rafael) são tirados da pista. Na seqüência, no 2 (Osíris e Juliana) e no 12 (Pheliphe Britto e Danielle) também recebem o bilhete-azul dos jurados: “Você está muito cansado, sai daí”. A revolta é geral. Danielle afirma que o organizador encostou em seu ombro e disse apenas: “Tocou o seu celular”.

21h52 – Justificativa de Clovis Jurado: “Eles não estavam na pegada, estavam só enrolando”.

22h01 – Pheliphe Britto, já fora da pista, continua a dançar. Uma das eliminadas chora.

22h10 – Casal no 5 recebe o aviso: “Chegou a hora de vocês”, e entende que era hora de ir ao banheiro. Eles fazem uma pausa e ficam esperando o momento de retornar, mas descobrem que haviam sido eliminados.

22h36 – Um dos organizadores confessa: “O pessoal ainda está bravo comigo”.

22h56 – “Blablablablá/ Eu nasci pra te amar”.

23h05 – Uma repórter é convidada para ser jurada da competição. Ela argumenta que entende tanto de dança quanto de jardinagem.

23h12 – Jurados saem com as fichas de avaliação.

23h18 – O vocalista da banda faz uma piada e ninguém dá bola.

23h20 – A maioria dos eliminados vai embora, bem como parte do público. A casa está quase vazia.

23h26 – A música pára por alguns segundos e os quatro casais finalistas continuam dançando, sem perceber.

23h27 – “Vamos continuar com o pagode!”, diz o vocalista. Silêncio na platéia.

23h38 – Comentário de um espectador: “Está todo mundo triste”.

23h42 – Claudinho corta o pé e continua dançando.

23h46 – “Eu quero voar bem mais alto que o condor/ Lê leleô/ Chega de tanto sofrer e de tanta dor”.

23h54 – Ivan Carlos Gonçalves, no 6 nas costas, começa a bater na perna direita. Diz que está com cãibra há horas, mas continua a dançar.

0h08 – A maratona termina com “Brasileirinho” e “Tá a Fim de Sambar”, do grupo Os Morenos. Os participantes se jogam no chão e ficam por lá, paralisados. Alguns colocam gelo nos pés e pedem água.

***

Depois de dez horas ininterruptas de samba, os jurados chegaram ao veredicto: em terceiro lugar, o casal Hércules e Andréia Silva, professores da Algazarra’s, que levaram como prêmio uma coletânea de CDs para dança de salão. Em segundo lugar, com apenas dois pontos de diferença, Elizangela Gomes, 20, e Luiz Cláudio Ferreira Silva, 29, o Claudinho, também da Algazarra’s. Eles ganharam um kit de roupas e sapatos, além da coletânea de CDs. Ao casal número 7, Elis Cristina de Souza e Lacyle Emerson Terezinha, coube a glória do primeiro lugar, e um prêmio de mil reais. “É, mas eu vou aparecer na TV e eles, não”, pondera Pheliphe Britto, eliminado após sete horas de maratona.

***

Elis tem 22 anos de idade, 1,68m de altura e é babá. Ela joga a cabeça pra trás e dá uma risada gostosa quando lhe perguntam se é dançarina profissional. “Não sou, não! Eu danço por esporte”, responde. Mas acrescenta que está se profissionalizando, e para isso freqüenta as aulas do CPD, o Centro Profissional de Dança, ao lado da estação Carandiru do Metrô, também na Zona Norte. Seus ritmos preferidos são o black e o samba-rock. Foi ela quem insistiu junto ao professor, Lacyle, para se inscreverem na competição.

Lacyle tem 29 anos e é professor de dança de salão e técnicas de samba-rock. Começou a dançar aos 16 anos com “um ritmo que ninguém acredita: o hip-hop”. Da dança de rua passou para o samba, e hoje dá aulas em escolas de Santana, Guarulhos, ABC paulista e Alto da Lapa. Seu sonho é abrir uma academia só de samba, para valorizar os ritmos locais, divulgar a cultura negra e dar ao samba o mesmo valor das danças consideradas, como diz, “mais clássicas”, caso do balé.

Lacyle confessa que passou mal de ansiedade na noite de sábado, e no domingo de manhã tomou apenas “sucos e sucos”. Só foi comer na hora do macarrão ao alho e óleo, quando ganhou novo ânimo. Após dez horas de samba, com o fim da maratona, foi para casa tomar um banho e comer. Logo seu corpo começou a apresentar cãibras sucessivas: nas pernas, nos braços, no abdômen. Sua irmã virou a noite cuidando das dores de Lacyle e fazendo curativos, até que o pacote de Salonpas acabou e tiveram que sair para comprar mais. Como foi a segunda-feira? “Passei o dia todo com Salonpas, e dei aulas de dança à noite.”

Quando lhe perguntam o que mais ele gosta de fazer, além de sambar, Lacyle faz uma pausa, dá risada e responde: “Olha… eu não consigo ver outra atividade que me agrada: se vou assistir alguma coisa, é sobre dança, se vou ler uma coisa, é sobre dança. Eu gosto de conversar sobre dança, discutir sobre dança… na verdade, para mim tudo é dança”.

O inventor da caixinha de CD chega ao inferno

Posted: 1st janeiro 2007 by Vanessa Barbara in Traduções
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O inventor da caixinha de CD chega ao inferno
por Steve Martin
tradução Vanessa Barbara

Piauí n. 4
Janeiro de 2007

As portas flamejantes do Inferno se abriram de par em par e o inventor da embalagem do cd se integrou à diabólica fanfarronada.

– Queríamos que tivesse vindo antes – comentou o Puro Mal Encarnado com seus lacaios demoníacos -, mas decidimos adiar um pouco. Afinal, ele estava fazendo um bom trabalho lá em cima. Empenhou-se com afinco em embrulhar os cds com celofane e com aquela fita pegajosa que não desgruda de jeito nenhum. Chamem-no para o jantar. E não se esqueçam de convidar também o pessoal dos manuais de computador.

O Diabo desapareceu no ar, perdendo assim a calorosa demonstração de afeto oferecida ao inventor.

– O próprio Belzebu tirou uma lasquinha de pele do polegar quando foi abrir uma coletânea da Barbra Streisand – cochichou um diabrete. Uma serpente grossa rastejou para perto e se aninhou em torno da perna do inventor.

– Antes, ele adorava a turma do controle remoto e aqueles minúsculos botõezinhos espremidos um contra o outro – disse a cobra. – E, ainda por cima, com todas aquelas abreviações enigmáticas. Mas agora ele só fala em você, porque você isso, você aquilo… Bem, mas vamos indo, está na hora de se arrumar para o jantar. Podemos conversar mais tarde sobre as suas atribuições.

Enquanto indicava o caminho para os alojamentos satânicos, a serpente lançou- lhe um olhar ávido e inquiridor.

– Como conseguiu? – perguntou ela, fixando-o cara a cara. – Quer dizer, como é que inventou a embalagem? Todo mundo quer saber!

O inventor, sentindo o conforto dos pés em brasa e lisonjeado pelo reconhecimento, relaxou imediatamente.

– A maldita caixinha original do cd era um troço fácil demais de abrir – explicou. – Porque cá entre nós… Se for para dificultar o acesso do consumidor, pelo amor de Deus, vamos fazer a coisa direito! O que eu quis foi criar uma embalagem que obrigasse o comprador a ir na cozinha buscar uma faca, porque assim pelo menos teríamos uma chance de ele decepar a própria mão.

– Foi aí que surgiu a idéia daquele plástico do tipo termoencolhível? – perguntou a serpente.

– O plástico termoencolhível funcionou durante um tempo. Eu adorava a idéia de que não havia ali nem uma brechinha para ninguém enfiar a unha e rasgar, mas eu sabia que podia ir mais longe. Foi aí que descobri o celofane. O celofane e a fita que dá a ilusão perfeita de que existe, sim, um caminho para abrir a embalagem, só que na verdade nem a própria fita existe.

Naquela noite, no jantar comemorativo realizado a cada éon para homenagear os recém-chegados, o inventor da caixinha de cd sentou-se à direita do Diabo. À esquerda, sentou-se Cérbero, o cão de guarda do Hades e notório criador do abacaxi. O Diabo papeou a noite toda com o inventor e, a certa altura, pediu-lhe que abrisse outra garrafa de vinho, desta vez com um saca-rolhas de lâminas paralelas, aquele dispositivo semelhante a uma pinça, dotado de duas hastes finas e perfurantes que têm porque têm que entrar entre as paredes da garrafa e a rolha, sem machucá-la. O inventor suou, mas uma hora depois a rolha estava separada de sua garrafa.

A princípio, ninguém notou o ruído abafado que vinha de cima, e que logo se tornou um clamor incontido. Pouco a pouco, os comensais começaram a olhar para o teto e, por fim, o próprio Diabo percebeu que a atenção de seus convidados fora desviada. Ele ergueu os olhos.

Três anjos planavam no éter, cada qual segurando um objeto. O inventor sabia exatamente que objetos eram aqueles: a caixa de leite, o saco zip e a banana – três embalagens de desenho impecável. Lembrou que costumava admirálas antes de sucumbir ao mal. Os três anjos deslizaram em direção ao parlatório. Um deles ergueu o saco zip sobre os asseclas do frasco de aspirina e lhes deu um banho de luz sobrenatural. O brilho amarelo da banana inundou o peçonhento Cérbero, projetista do abacaxi, e a caixa de leite derramou sua branca luminosidade em cima do inventor da embalagem do cd. O Diabo, nessa hora, se levantou abruptamente, urrou qualquer coisa em latim enquanto súcubos lhe escorriam da boca, desculpou-se a si mesmo e se retirou, irritado.

Depois do fiasco, o inventor voltou a seus aposentos e se ocupou com os cinco controles remotos necessários para operar o aparelho de dvd. Frustrado, fechou os olhos e contemplou a perspectiva da eternidade no vazio do Inferno, percebendo que provavelmente nunca mais veria um floco de neve ou um Chicabon. Em seguida, porém, pensando naquele belo jantar e em seus novos amigos, decidiu que flocos de neve e Chicabons não tinham tanta importância assim. Imaginou que, afinal de contas, a eternidade poderia não ser tão ruim. Aí ele ouviu uma batida na porta e a serpente entrou.

– O Diabo me pediu que lhe comunicasse qual será a sua incumbência – disse ela. – Às vezes ele tem enxaquecas fortíssimas. Ele quer que você fique do lado dele para abrir o frasco de aspirina.

– Acho que consigo – respondeu o inventor.

– Ah, e você já viu – esclareceu a serpente -, ele faz questão de aspirinas frescas. E então toda vez você vai ter que remover o resistente aro inviolável, a tampa de segurança à prova de crianças e o lacre de alumínio.

O inventor suspirou aliviado:

– OK. Sem problema.

– Ótimo – disse a serpente, dandolhe as costas para ir embora.

Nesse instante, uma onda de pavor sacolejou o corpo do inventor:

– Mas espera aí, espera aí… – sua voz tremia de nervoso. – Quem é que vai tirar aquela bolota de algodão da boca do frasco?

A serpente se voltou lentamente. Seu rosto, num repuxão, havia se transformado na máscara de Belzebu:

– Por quê? – ela perguntou, agora com uma voz cavernosa que parecia brotar das profundezas do Inferno. – E você pensou que fosse quem?… uhahahahaha!

Picasso divulga “Dama com leque”

Posted: 1st dezembro 2006 by Vanessa Barbara in Traduções
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Picasso divulga “Dama com leque”
Espero que meus fãs entendam essa nova fase

por Steve Martin
tradução Vanessa Barbara

Piauí n. 3
Dezembro de 2006

The entertainment channel: Antes de mais nada, nós gostamos muito de “Dama com leque”.
Picasso:
Obrigado. As pessoas parecem ter se empolgado com o quadro, e a crítica foi positiva.
EC:
Como foi a sensação de pintar “Dama com leque”?
Picasso:
Muito, muito empolgante. Me empolguei com a idéia de pintá-lo e de trabalhar com pessoas tão empolgantes, o pessoal das tintas, o cara das telas.
EC:
Puxa, então foi um projeto empolgante.
Picasso:
Foi, eu fiquei realmente empolgado. Às vezes mais, às vezes menos.
EC:
Mas você passou o tempo todo empolgado?
Picasso:
Com certeza, o tempo todo. Você acertou na lata.
EC:
E a modelo?
Picasso:
É mesmo, eu quase esqueci. Que hilário! Admiro as poses dela há anos e finalmente tive a chance de trabalhar com ela. Foi maravilhoso ir pro ateliê todos os dias.
EC:
Conte para os telespectadores como ela é.
Picasso:
Ah, ela é simples, sem afetação. Podia ter o rei na barriga, mas não tem.
EC:
E rolou um clima?
Picasso:
Rapaz, que entrevista difícil! (risos) Na verdade, somos bons amigos, mas não passa disso. Eu tenho regras claras sobre namorar minhas modelos.
EC:
Em entrevista ao nosso programa, ela disse: “Adorei trabalhar com Picasso. Nós demos muitas risadas”. Sobre o que vocês riam? Algum incidente engraçado?
Picasso:
Deixa eu ver. Hmm. Ah, sim. Um dia, eu disse que queria pintá-la nua. Nossa, você precisava ter visto a cara dela. É claro que logo em seguida eu disse que tava só brincando.
EC:
Mas que hilário!
Picasso:
Foi muito, muito engraçado.
EC:
Dama com leque é muito diferente dos seus trabalhos anteriores. Você acha que os seus fãs irão aprovar?
Picasso:
Bom, eu realmente quis expandir meus horizontes, espero que meus fãs entendam esta nova fase.
EC:
Muitos outros quadros foram lançados recentemente. Matisse apresentou o “Retrato com risca verde”, e Vlaminck pintou uma boa natureza morta. Você se preocupa com a concorrência?
Picasso:
Olha, tenho certeza de que o quadro de Matisse deve ser muito, mas muito fofo. Quanto a Vlaminck, ele é um idiota.
EC:
Uau! Vamos, não esconda nada – diga ao espectador tudo o que você pensa!
(risos)
EC:
Pablo?
Picasso:
Diga.
EC:
Por que um leque?
Picasso:
Puxa, todo mundo me faz essa pergunta. Acho que é porque eu não quis chamar o quadro de “Dama com banana”. Brincadeira.
EC:
Puxa, mas que hilário!
Picasso:
Falando sério, o leque foi escolhido por ser uma alegoria da feminilidade, porque ele equilibra a composição do quadro e porque eu arranjei a mão da modelo na clássica posição religiosa de “A virgem das rochas”, de Leonardo, com a diferença de que eu queria vê-la segurando um objeto profano.
EC:
Entendi. (Pausa) Quais são os seus próximos projetos?
Picasso:
Bom, gostaria de fazer pinturas menos sérias. “Dama com leque” é, na verdade, uma obra profunda, e eu gostaria de ampliar um pouco mais e mostrar que não sou um pintor de um quadro só.
EC:
Muito obrigado, Pablo Picasso. (Virando para a câmera) ‘Dama com leque’ ficará exposto na National Gallery pelos próximos mil anos, não perca. Pablo, por favor, você pode olhar para a câmera e dizer: “Oi, eu sou Pablo Picasso, você está assistindo o Entertainment Channel!”?
Picasso:
Claro. Posso mandar um beijo para a Gertrude Stein?

O brasileiro Juan Manuel

Posted: 1st dezembro 2006 by Vanessa Barbara in Reportagens, Revista piauí
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Piauí n. 03
Dezembro de 2006

texto e fotos por Vanessa Barbara

Agora serão sete no apartamento de Beatriz Apaza, no bairro do Pari, centro de São Paulo. “Seis e meio”, ela corrige, olhando para um pequeno embrulho de bebê e cobertores na cama da maternidade. Juan Manuel não é maior do que esta revista, está deitado bem no centro da cama, e a mãe se senta na ponta, com cautela. “Ele não chora, fica dormindo o tempo todo”, diz Beatriz, ainda sem tirar os olhos da criança. O bebê tomou as vacinas sem reclamar, fez o teste do pezinho, mamou durante meia hora e dormiu.

Tudo indica que Juan Manuel não quer dar trabalho nem chamar a atenção – assim como a mãe. Quando começaram as contrações, na manhã de 13 de novembro, Beatriz preferiu ficar em casa, esperando a dor aumentar. A jovem boliviana caminhou pela rua, tomou água, respirou fundo. Só foi para o hospital no fim da tarde, quando as contrações redobraram. “No Brasil, as mulheres fazem muita cesárea, e eu queria parto normal”, diz. Por isso, decidiu chegar quando a dilatação já estivesse boa. O parto foi rápido, e às 7 da noite Juan Manuel nasceu, depois de nove meses e uma semana na barriga da mãe.

Receosa, Beatriz não aceita tirar fotos ao lado do bebê. Ela e a irmã Deysi conversam aos sussurros, em espanhol. O Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros, no Belenzinho, é referência no atendimento de gestantes bolivianas, pois pertence à rede pública e se encontra próximo aos bairros do Bom Retiro, Pari e Brás, onde se concentra a colônia. Segundo Zuleika Olivieri, presidente do voluntariado do hospital, cerca de 25% das parturientes têm origem boliviana. Como se encontram em situação irregular no Brasil, algumas delas são arredias. Mesmo assim, são atendidas pelo hospital, que ganhou uma placa de agradecimento do Consulado Geral da Bolívia.

Max e Beatriz, os pais do bebê, vieram de La Paz há três anos. Eles decidiram emigrar para o Brasil no dia em que perderam a filha de três meses de idade, Fabiana. Segundo Beatriz, a menina morreu de “febre, gripe e tosse”. Na época, só faltava a tese de conclusão do curso para Max se formar em engenharia mecânica, mas, ainda assim, eles resolveram partir. Metade da família de Beatriz já vivia no Brasil (ao todo, nove irmãos: três mulheres e seis homens).

Hoje, aos 23 anos, ela mora em um apartamento com o marido e mais quatro de seus oito irmãos. A família trabalha na oficina de costura do irmão Rodolpho, para firmas brasileiras e coreanas. O pagamento é feito por prenda (peça de roupa). “Nós costuramos bastante por pouco dinheiro”, afirma. A idéia do casal era passar somente um ano no Brasil e voltar para casa, mas a situação piorou e eles foram ficando. Aí veio a gravidez, e os planos tiveram de ser adiados de novo.

É difícil saber exatamente quantos bolivianos vivem em São Paulo. Os números podem chegar a 200 mil, segundo o relatório de 2004 da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. A Maternidade Leonor Mendes de Barros atende muitos deles, além de moradoras de rua, presidiárias e grávidas de alto risco. Segundo as voluntárias, não são poucas as bolivianas que já chegam com tuberculose, devido ao ambiente insalubre de moradia e trabalho. “A grande maioria vem do trabalho escravo em confecções”, diz Zuleika. “Vivem em casas sem janela, tipo porão.” Algumas entram no hospital gritando, mas não é de dor, é de medo. Têm medo de serem denunciadas e medo do desconhecido, daí a importância das voluntárias, que vestem um avental rosa e servem de acompanhantes para as pacientes que não têm ninguém por perto.

“Tivemos uma boliviana de dez anos de idade que teve nenê, vítima de abuso sexual do tio, mas somente conseguimos descobrir isso depois de muita conversa”, conta Zuleika. Algumas pacientes só aceitam falar com “as de avental rosa”, e não com os médicos ou psicólogos. São mais de cem voluntárias no hospital, em sua maioria donas-de-casa ou aposentadas, que auxiliam as enfermeiras, conversam com as pacientes, organizam bazares e recebem doações para os enxovais. Curiosamente, as bolivianas são as parturientes que menos se interessam por receber esses enxovais – cobiçadas caixas de papelão grátis, contendo pijaminhas de flanela com fitinhas e tudo o mais.

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Durante a conversa, Beatriz e Deysi não param de trocar olhares e sorrisos encabulados. Quando uma voluntária pergunta a Beatriz se ela gosta do Brasil, a moça responde: “é… Eu gosto”, e olha para a irmã. “Não foi muito convincente, hein?”, brinca a funcionária. Beatriz explica que Juan Manuel será educado em espanhol, pois é o idioma que eles falam em casa, e também porque a família pretende retornar à Bolívia quando as coisas melhorarem.

Enquanto isso não acontece, eles se distraem encontrando os amigos e participando dos eventos da colônia boliviana na região. Todos os sábados, na Rua Coimbra, no Brás, e todos os domingos, na Praça Kantuta, no Canindé, milhares de imigrantes se reúnem em uma feira de produtos típicos, comida, dança e artesanato. Na Kantuta pode-se comprar saltenhas (um salgado boliviano), flautas, potes de barro, malhas de lã de lhama e dvds com discursos do presidente Evo Morales. Pode-se cortar o cabelo, jogar futebol e procurar subempregos em anúncios expostos em painéis. Beatriz costuma freqüentar a praça em busca de seu prato preferido, o chicharrón, espécie de torresmo servido com chuño (batata desidratada) e mote (milho branco cozido). Também gosta de comprar o queijo branco boliviano, que é “parecido com o brasileiro, mas estica”.

Rodeada de senhoras de avental rosa, a mãe de Juan Manuel dá indicações de como chegar à Praça Kantuta, já que ninguém sabe ao certo onde fica. Uma das voluntárias confessa: “Eu fui uma vez, mas não saberia voltar”. E Beatriz, indignada: “Mas como?! Está en su país…”. No quarto coletivo da maternidade, que ela divide com mais três gestantes, a boliviana conta que sua festa preferida é a de Alasitas (“compre-me”, no idioma aimara), que começa em 24 de janeiro e é oferecida a Ekeko, o deus da abundância. Nesse dia, na praça paulistana, há venda e exposição de miniaturas que simbolizam o que se deseja alcançar: casas, automóveis, sacos de arroz e de açúcar. No ano que vem, Beatriz promete levar o diminuto Juan Manuel à Alasitas – sem falta -, pois é uma festa de miniaturas e ele vai se sentir “muito à vontade”.

Nanoesquina

Posted: 1st dezembro 2006 by Vanessa Barbara in esquinas, Reportagens, Revista piauí
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Nanoesquina
Uma esquina experimental

por Vanessa Barbara

Piauí n. 3
Dezembro de 2006

Em 6 de novembro, o Rio de Janeiro recebeu o chinês Xi Shun, o homem mais alto do mundo. Enquanto isso, a cidade de São Paulo abrigava a Nanotec Expo 2006, onde foram exibidas calcinhas fabricadas com tecido nanomodificado, bolas de golfe com polímeros nanoestruturados e outros produtos fabricados com manipulação da matéria na escala dos átomos. XI Shun tem 2,36 m de altura. O nanômetro equivale a um milionésimo de milímetro. Depois do Rio, Xi Shun veio a São Paulo. Foi ao Jô Soares, à avenida Paulista e deu autógrafos. Não visitou a Nanotec Expo 2006. Talvez por falta de espaço.