New travel requirements to Brazil

Posted: 19th junho 2014 by Vanessa Barbara in Reportagens
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Expressen

Expressen (Sweden)
June 1, 2014

Text in Swedish:
http://www.expressen.se/debatt/overlevnadsguide-till-fotbolls-vm-i-brasilien/
Translation: Ylva Dark

by Vanessa Barbara

If you want to take part on a street demonstration in Brazil, it’s wise to bring a helmet, a gas mask, a pair of protection goggles and extra boldness in your bag. You’ll also need an ID card and a lawyer’s telephone number; it is advisable to wear running shoes, a raincoat, old trousers and t-shirts – don’t wear black or you could be mistaken as a supporter of the black bloc tactic. Unless you’re indeed a black bloc: in this case, be ready to take some punches.

As a matter of fact, even if you are a pacifist heir of Mahatma Gandhi, spreading flowers around and playing mridanga, be ready to take some punches. Sometimes our protests are similar to wars: a man shouts insults at the police, they answer with a gas bomb, another man throws a stone against the troops, and they begin strike everyone around, detaining dogs and hydrants likewise. At times one hard sneeze seems enough to start a war.

Until now, in São Paulo, we’ve had six mass demonstrations against the 2014 FIFA World Cup (besides other protests for better hospitals, schools and public transport). Each one gathered an average of 1,000 people escorted by 2,000 military policemen. Their job is to maintain order at any price.

More demonstrations are expected in the next few weeks – against excessive spending on stadiums, forced evictions, police violence, corruption, and inequality. The government is on the verge of imposing a state of emergency, in a desperate step to protect tourists from scenes of violence and chaos, especially from the protesters, depicted in a recent manual from the Defense Ministry as “opposing forces”.

Demonstrators have already been arrested under the old and disused National Security Law, a rule forged during the military regime. Though some of them actually damaged bank branches, they were charged with terrorism rather than vandalism. National Congress is considering a new anti-terrorist law to impute those who “cause or spread terror and panic”, a definition broad enough to incriminate everyone at the streets.

Five months ago, in the first World Cup demonstration, police detained 128 protesters. In the next one, 230 were taken to the precincts – more than 20 percent of the whole demonstration. Brazilian law prohibits arbitrary detention, limiting arrests to those caught in the act of committing a crime or those for whom a warrant was properly issued. And yet it is common practice for our police to detain “for verification”. If the subject complains, he’s charged for disrespect or resistance.

Brazilian police forces usually prevent lawyers from monitoring the arrests. They forbid journalists from filming them, and obstruct the way for protests with persuasive arguments like: “If you insist on marching this way, we’re going to beat the hell out of you”. Some officers work without identification tags. Once a captain justified this transgression by saying: “We know everybody at the troop, if you have any problem just come to me”.

According to the police, these measures are needed in order to protect themselves and “the good citizens”, while protesters denounce frequent abuses. And so they progressively see one another as enemies. Every march begins with dozens of police cars, motorcycles and helicopters zooming around, causing people to feel already intimidated. Riot troops position themselves in front, behind and at all sides of the masses, trapping them. Security guards inspect the bags and shut off subway stations. The air itself goes belligerent as unwary people look for shelters and officers raise their shields, lowering their helmets. Black blocs also cover their faces, thus protecting their identity from the police and their lungs from the gas bombs.

Demonstrators usually agree on marching peacefully, but sometimes a glass bottle is shattered or a group starts to hammer the windows of a bank, thus prompting an indiscriminate police reaction. Rageful protesters respond by kicking or throwing more objects at the police, while others just raise their hands in a reassuring way – all of them are equally and democratically beaten, gassed and arrested, including journalists and lawyers. Those who seek shelter at subway stations or inside hotels, even with the consent of their proprietors, usually see themselves trapped and detained. All of the detainees are then put on buses and transferred to some police precinct – it’s never divulged which one exactly. There the protesters are filed and accused of vandalism, terrorism, criminal association and/or corruption of minors. Sometimes investigators inquiry about their political views and connections. People may be asked to sign a blank paper before being dismissed.

Two months ago, people filed on previous protests were summoned an hour before the newly scheduled demonstration, in an admitted attempt to disband it. Although the police is officially trying to investigate those who put fire on garbage bins or destroy public and private properties, on the other hand no officer was charged on excessive violence or abuse of authority in the past year. In this period, two protesters became blind of one eye after police repression – one 18-year-old student and one photojournalist – and another one lost four teeth. (He said the policemen were so brutal that they twisted the titanium pin inserted in one of his teeth.)

Intimidation and violence are the two main weapons to maintain discipline at the streets during the World Cup. So if you’re coming to Brazil soon, you’d better have your game tickets ready to show the officers – furthermore, besides the insect repellent, it’s also wise to bring some gas masks, goggles and helmets. Just in case.

Os turistas de Eliézer

Posted: 17th junho 2014 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo
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Folha de S.Paulo – Folha na Copa
17 de junho de 2014

por Vanessa Barbara

Ninguém trata os turistas como Eliézer, motorista do ônibus executivo que sai do aeroporto de Salvador, passa por hotéis ao longo da orla e chega à Praça da Sé, depois de aproximadamente 34 km de percurso.

Já na saída, Eliézer pergunta a cada um dos passageiros qual o destino desejado – como não fala inglês, pede ajuda a outros turistas.

No meu caso, chegou a telefonar para o hotel usando o próprio celular: “Boa noite, meu nome é Eliézer, sou motorista da empresa Transalvador, estou transportando uma hóspede de vocês e vou deixá-la no Largo da Piedade”, disse ele, com a clareza e a circunspecção de um lorde. “Gostaria de pedir um ponto de referência do hotel. É próximo ao Bradesco? Ali no Campo da Pólvora? Pronto… perfeito.”

Ele não só indica o caminho como também dá conselhos firmes, tal qual um pai postiço soteropolitano. Quando um rapaz perguntou se poderia caminhar até o hotel em vez de tomar um táxi, ele reagiu com preocupação e me explicou: “É melhor que ele não faça isso. Ali tem muito ladrão”.

Num trajeto que demorou cerca de uma hora e meia, na véspera da partida entre Alemanha e Portugal, Eliézer despachou ao conforto de seus hotéis um total de quinze turistas, entre mexicanos, ingleses e alemães, revisando de vez em quando o trajeto: “Pituba, depois Rio Vermelho… Mar Hotel, Ondina… O senhor vai ficar onde mesmo?”.

A certa altura, chegou a descer do ônibus, atravessar a rua e pedir informações sobre a localização de um albergue.

Aos estrangeiros que desceriam no Pelourinho, rogou que não pedissem indicações a estranhos, mas recorressem a policiais ou taxistas. A um turista apressado, insistiu: “Tenha paciência… Por favor, tenha paciência”.

A linha S10, que opera apenas durante o período da Copa, tem uma tarifa de 28 reais e passa de vinte em vinte minutos. É uma alternativa razoável aos táxis, que, nos quiosques localizados dentro do aeroporto, cobram 130 reais pelo trajeto.

É uma opção também ao metrô de Salvador, que, depois de catorze anos em obras, finalmente foi inaugurado. Por enquanto, o sistema possui 6,6 km de extensão e consumiu 1 bilhão de reais, entre denúncias de superfaturamento e paralisações sucessivas. Nos dias de jogos, será exclusivo para torcedores com ingresso.

Na véspera da partida de ontem, de forma irônica, Eliézer acabou trabalhando até tarde e não sabia como ele próprio voltaria para casa. Talvez precisasse chamar um táxi e pedir reembolso da firma.

Ninguém trata os turistas como Eliézer. Resta saber como ele está sendo tratado. 

Não vai ter clima

Posted: 13th junho 2014 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo
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Folha de S.Paulo – Folha na Copa
13 de junho de 2014

por Vanessa Barbara

Hoje, pela primeira vez em seis meses, deixei meus amigos na rua e fui ao estádio. Pela primeira vez, abri mão de cobrir os protestos contra o gasto excessivo de dinheiro público num evento privado, contra as remoções violentas, a repressão, os desmandos da FIFA, e fui sem meu capacete para o lado de lá – o lado de quem não apanha, o de quem tem sempre passagem livre e mais direitos do que estou acostumada a ver.

Torci moderadamente, me arrepiei na hora do hino e pedi pênalti quando alguém caiu um pouco longe da área, quase na marca central do campo. Posso ter questionado, em voz alta, a reputação ilibada do árbitro, e até envolvido a senhora mãe dele em alguma atividade de cunho duvidoso na área do entretenimento íntimo.

Mas não houve jeito: algo em mim morreu da última Copa pra cá.

Talvez porque, há sete anos, tenham nos prometido um evento “sem um centavo de dinheiro público”, e hoje o resultado é 85% do orçamento saído do erário. Talvez por causa da isenção de impostos oferecida cordialmente pelo governo à FIFA, que afinal é uma entidade sem fins lucrativos, quase filantrópica.

Talvez por ter visto a resposta oficial das autoridades a cidadãos que protestavam pacificamente, talvez por haver inalado uma quantidade excessiva de gás lacrimogêneo enquanto exercia o meu direito básico de discordar; enfim, talvez foi por isso que torci hoje com o ânimo de quem está gripado, os ombros caídos, o pensamento lá longe.

De manhã, enquanto eu comia canapés e papeava despreocupadamente com executivos de empresas, 50 dos meus amigos ficaram feridos num protesto que não pôde sequer começar, uma manifestação legítima que se uniu aos metroviários recém-demitidos e contou com a participação de um povo do contra que insiste em sair na rua para apanhar.

Sei que dei uma risada alta e com gosto quando, no início do jogo, falou-se em “um aperto de mão pela paz”, e quando três pombas foram soltas em nome da “tolerância e respeito aos direitos humanos”.

As aves alçaram voo, mas ficaram se debatendo nas paredes do estádio e dentro dos camarotes, procurando saída, a um só tempo desesperadas e cegas.

Temi pelo destino e pela integridade física daquelas três pombas, porque todos nós sabemos o tratamento dado a quem se desvia da rota ou não está mais nos planos oficiais.

Felizmente, desta vez a artilharia antiterrorista não precisou ser acionada. 

Folha de S.Paulo – Revista sãopaulo
8 de junho de 2014

por Vanessa Barbara

Já na entrada do restaurante, um garçom de avental encardido passa carregando um balde d’água, de onde um peixe vivo dá saltos vigorosos no ar. Os clientes fumam sem parar, falam alto e sugam alegremente o macarrão. No corredor há uma parede de aquários ocupados por criaturas supostamente comestíveis – de cara não dá para saber se estamos num restaurante ou num pet shop.

O nome do local é Baoluo Jiulou, um enorme estabelecimento em Xangai frequentado por expatriados e locais. Dizem que o apelido do lugar é “Tardis” (a máquina do tempo da série “Doctor Who”), porque, de fora, não dá para adivinhar a magnitude do salão, com capacidade para trezentos comensais.

Para os ignorantes que não falam xangainês, cantonês ou mandarim, um bom restaurante na China deve possuir duas características: um cardápio em inglês e um garçom bem disposto. Ajuda muito se o menu for ilustrado, mas nenhum desses atrativos pode ser suficiente para garantir que você saiba exatamente o que está comendo.

Os restaurantes costumam servir uma miríade de criaturas pertencentes a todos os reinos, filos e classes animais, vegetais e minerais, como sopa de pepino-do-mar e gônadas frescas de ouriço-do-mar.

Até hoje não sei ao certo tudo o que meu estômago teve de processar durante minhas duas temporadas na China. Lembro em específico de um banquete oferecido pelo reitor da Universidade de Nanquim, no qual foram dispostos dezenove pratos numa mesa circular, que iam desde língua de porco defumada a ovos pretos e tiras de enguia. Dizem que, nessas refeições oficiais, é preciso alternar entre amargo, azedo, picante, doce e salgado.

Eu fechava os olhos e, em nome das relações diplomáticas e da amizade entre as nações, mandava ver.

Comer longe de casa é sempre uma aventura. Na China, os cardápios são muitas vezes traduzidos para o “Chinglish”, um idioma híbrido e enigmático com toques esotéricos. Vi uma sopa chamada “Buddha saltando a muralha” e um prato de nome “O templo explode o cubo de frango”.

A foto parecia interessante, mas acabei declinando da “Cebola explodindo o senado distante”.

Há que se agir com prudência diante de um certo “macarrão avantajado”, e também diante de um “espetinho de criança frita ao molho tártaro”. Deve-se consumir com desconfiança uma tal “fatia de presunto com arteriosclerose em conserva”, uma tigela de “crack com chili” e um “pepino bivalve infectado”. Evite-se igualmente o “dumpling recheado com glândulas digestivas e ovário de crustáceo”.

Na carta de bebidas, as opções podem ser: “suco de laranja”, “suco de limão”, “suco de repolho roxo”, “suco de pepino” e “suco estranho”.

Na dúvida, peça sempre “a mesma coisa que eles estão comendo, só que sem as ventosas”.

A chinese banquet (translation)

Posted: 8th junho 2014 by Vanessa Barbara in Traduções
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Folha de São Paulo – Revista sãopaulo
8 de junho de 2014

by Vanessa Barbara

Already at the restaurant entrance, a waiter with a grubby apron goes by carrying a bucket of water from which a live fish is vigorously leaping into the air. The customers smoke continuously, talk loudly and happily suck up the noodles. In the corridor there’s a wall of aquariums containing supposedly edible creatures – at first glance it’s difficult to know whether we’re in a restaurant or a pet shop.

The place is called Baoluo Jiulou, an enormous establishment in Shanghai frequented by both expatriates and locals. People say the place is nicknamed “Tardis” (the time machine in the “Doctor Who” TV series), because from the outside, it’s impossible to guess the size of the dining room, with its capacity for three hundred dinner guests.

For those who don’t understand either Shanghai-ese. Cantonese or Mandarin, a good restaurant in China should possess two features: a menu in English and a helpful waiter. It helps a lot if the menu is illustrated, but none of these conditions may be enough to ensure that you know exactly what you’re eating.

Restaurants usually serve a myriad of creatures belonging to every kingdom, phylum and category of animal, vegetable and mineral, such as sea cucumber soup and fresh sea urchin testicles.

Even now, I’m not sure what my stomach had to process during my two stays in China. I particularly remember a banquet given by the rector of Nanking University, at which nineteen dishes were laid out on a circular table, ranging from smoked pig’s tongue to black eggs and strips of eel. They say that at these official functions, you must alternate between bitter, sour, spicy, sweet and salty.

I would shut my eyes and, in the name of diplomatic relations and friendship between nations, get stuck in.

Eating far from home is always an adventure. In China, menus are often translated into “Chinglish”, a hybrid and enigmatic language with esoteric overtones. I saw a soup called “Buddha jumps the wall” and a dish called “the temple explodes the chicken cube”. The photo looked inviting, but I ended up declining the “Onion explodes the distant senate”.

One has to proceed with caution when faced with “advantageous noodle”, and “deep-fried seasame children stick with tartar sauce”. A “preserved lean meat arteriosclerosis” should be approached gingerly, as should the bowl of “chilli crack” and the “binaural infected cucumber”. Also to be avoided is the “dumpling stuffed with the ovary digestive glands of a crad”.

On the beverage menu, the options could be: “orange juice”, “lemon juice”, “red cabbage juice”, “cucumber juice” and “strange juice”. When in doubt, always order “the same thing that they’re eating, without the tentacles”.

A farewell to democracy

Posted: 29th maio 2014 by Vanessa Barbara in Artigos, Monocle
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monocle

Monocle Magazine
N. 74 – June 2014

Brazil has been democratic for 29 years but the government risks losing everything the country has worked for if it resorts to draconian measures during the 2014 World Cup simply to placate Fifa. 

by Vanessa Barbara

It is said that although you might learn new moves and ways to behave, when the pressure comes you go back to your old habits. Maybe that’s what we’ll witness next month in Brazil during the World Cup.

Twenty-nine years ago Brazil became a democracy. Military dictatorship was finally gone, a new constitution was adopted and we elected a civilian leader for the first time in decades. Now we have a left-wing president, freedom of speech and a relatively critical press.

Last year our young democracy faced its first major test. Anger over rising bus fares and low-quality services led to mass demonstrations. The first reaction from the government was to send riot police to repress the people – as if it were the only option it knew. But when journalists were wounded, public opinion turned fiercely against the government. One million Brazilians took part in the protests across more than 100 cities and within a few weeks the government made concessions and transport fares were decreased.

More demonstrations are expected during the World Cup against excessive spending on stadiums, forced evic- tions, police violence, corruption and inequality. For the government, it might be tempting to re-enact old practices and create a state of emergency in a desperate bid to protect the tourists from scenes of violence and chaos – especially from protesters who are depicted in a recent manual from the Defence Ministry as “opposing forces”. The decision to rely on the army to ensure public security during theWorld Cup is particularly worrying.

Demonstrators have already been arrested under the old and disused National Security Law, a legacy from the military regime. Though some of them actually damaged banks, they were charged with terrorism rather than vandalism.

Congress is considering a new anti-terrorist law to arrest those who “cause or spread terror and panic”, a definition broad enough to incriminate everyone on the streets. In the democratic field we’re on the verge of losing everything we’ve gained so far, just because Fifa has requested it.

For a month this will be no country for its citizens – just for sports fans with a ticket.


Vanessa Barbara is a Brazilian journalist based in São Paulo. Read her weekly World Cup column for Monocle during the tournament at monocle.com/worldcup 

Brazil Is Tired of Being Scolded

Posted: 27th maio 2014 by Vanessa Barbara in New York Times, Reportagens
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(Flavio Morais)

Flavio Morais

The International New York Times
May 27, 2014

by Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

SÃO PAULO, Brazil — By now, Brazil should probably have been grounded for life, without video games or dessert.

Last month, a vice president of the International Olympic Committee, John Coates, said that Rio de Janeiro’s preparations for the 2016 Summer Olympics were the worst he had ever seen.

Before that, Sepp Blatter, the president of FIFA — the Federation of International Football Associations — claimed that Brazil was further behind in its preparations for this summer’s World Cup than any previous host nation, even though it had had seven full years to prepare. Then, in March, FIFA’s secretary general, Jérôme Valcke, declared we could risk being “the worst organizers” of the “worst event.” He had previously said that Brazil needed “a kick up the backside.”

Well, that was harsh. Brazilians, long treated as obedient children on the world stage, have always submitted to the superior wisdom of foreign authorities. Fifty years ago, after President João Goulart was deposed by a right-wing military coup, the American presence in our political scene was so conspicuous that a humorist announced a mock-campaign for the United States ambassador: “Enough of middlemen — Lincoln Gordon for president!”

Later, in the ’80s and ’90s, we quietly complied with the austerity and debt restructuring programs imposed by the International Monetary Fund — even if they meant the undermining of our national sovereignty and the suffering of the poor. We didn’t even complain when Rihanna came here for a concert and supposedly asked for everything yellow to be removed from her dressing room.

We’re famous for being an easygoing nation that happily gives away some of its oil field exploration rights to foreign companies. We’re friendly, acquiescent and cheerful. We like to please.

But there’s a growing feeling that FIFA and the Olympic committee are taking the demanding parent act a bit too far.

We try to behave ourselves for Mommy FIFA, especially in front of visitors. When she wanted beer served inside the stadiums, we amended our laws to allow it. When she asked for tax exemptions for herself and for her service providers, we consented. When she required that we ask her permission to host traditional street festivities like São João’s during the event, we complied.

So far we’ve spent around $12 billion to please her, of which more than 85 percent comes from public funds, including tax exemptions. We’ve evicted citizens from their homes to build stadiums and related infrastructure, and created strict security zones around the venues. We’ve diligently repressed those who protested against the mega-event, firing tear gas on unarmed people and attempting to charge them as terrorists. We’ve tried to convince ourselves that this is going to be a huge economic opportunity, despite lots of evidence to the contrary. And yet FIFA is never satisfied.

It’s no use complaining to the International Olympic Committee, since it’s playing the role of Daddy in this family drama. He also disapproves of everything we do: He complained about construction delays, criticized the pollution in Rio’s waterways and said we were even worse than Greece, before the 2004 Summer Olympics. “Your older sister had better grades,” we heard him say.

It’s as if they were both expecting a classical pianist and all they got was a punk rocker who knows only three-chord songs. Well, if they wanted punctuality, maybe they should have chosen the Germans or the Swiss to host their events. We Brazilians are slightly different.

Last month, Mário Gobbi, the president of the Corinthians soccer team (which owns Itaquera Stadium, one of the World Cup venues), claimed that delays were part of the Brazilian way of life. “I don’t know of any renovation or construction project that went on schedule,” he said in an interview.

I’ll give one example: The subway system in Salvador, a city in Bahia state, on our northeast coast, has been under construction since 1997. The government has spent more than $450 million for four miles of tracks, which will be ready to operate on June 11, one day before the World Cup opening. (Two years ago, the Federal Court of Auditors found evidence that $180 million of the project’s money had been lost to overbilling and embezzlement, but the matter is still under investigation. Bahia’s Court of Justice has also indicted a number of businessmen for illicit association, formation of cartels and bid rigging.)

Another: 22 years ago I worked on a petition to clean up the Tietê River, in São Paulo. Today, $1.6 billion and more than one million signatures later, it still stinks.

In Brazil it takes 13 bureaucratic procedures — required signatures and forms and the like — and 107.5 working days to open a business, according to a recent report from the World Bank. Construction permits take 400 days to get issued, and you need to wait 58 days more just to get electricity flowing.

It once took a man in Bahia four years to schedule a common diagnostic test called a uroflowmetry at a public hospital.

So FIFA and the I.O.C. can scold all they like: We still won’t be finished until the last minute. And when it is finally done, there will be budget overruns and even a few workplace accidents. As Mr. Gobbi warned, nonsensically, when celebrating the end of construction on the Itaquera Stadium: “Among the dead and wounded, everybody survived.”

We’ll do it our way. There’s no use giving us a time out. There’s no use calling Uncle Sam, either; he wants nothing more to do with this crazy family.


Vanessa Barbara, a novelist and columnist for the Brazilian newspaper Folha de São Paulo, edits the literary website A Hortaliça.

(Flavio Morais)

(Flavio Morais)

The International New York Times
27 de maio de 2014

por Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brasil – A essa altura, o Brasil devia provavelmente estar de castigo para a vida toda, sem videogame ou sobremesa.

No mês passado, o vice-presidente do COI (Comitê Olímpico Internacional), John Coates, disse que os preparativos do Rio de Janeiro para os Jogos Olímpicos de 2016 eram os piores que ele já viu.

Antes disso, Sepp Blatter, presidente da Federação Internacional de Futebol (FIFA), afirmou que o Brasil estava mais atrasado nas providências para a Copa do Mundo do que qualquer outro país-sede que ele já vira, ainda que tivesse tido sete anos inteiros para se preparar. Então, em março, o secretário-geral da FIFA, Jérôme Valcke, declarou que corríamos o risco de ser os “piores organizadores” do “pior evento”. Ele já havia dito anteriormente que o Brasil precisava de um “pontapé na bunda”.

Olha, isso foi cruel. Os brasileiros, tratados historicamente como crianças obedientes dentro do cenário mundial, sempre se submeteram à sabedoria superior das autoridades estrangeiras. Cinquenta anos atrás, depois que o presidente João Goulart foi deposto por um golpe militar de direita, a presença norte-americana no nosso cenário político era tão ostensiva que um humorista lançou uma campanha falsa para o embaixador dos Estados Unidos: “Chega de intermediários – Lincoln Gordon para presidente!”.

Mais tarde, nos anos 80 e 90, aderimos sem reclamar aos programas de austeridade e reestruturação da dívida impostos pelo Fundo Monetário Internacional – ainda que eles implicassem a violação da nossa soberania nacional e o sofrimento dos mais pobres. Nem chegamos a reclamar quando a Rihanna veio para um show e supostamente pediu que todos os objetos amarelos fossem removidos de seu camarim; nem quando a Lady Gaga exigiu seis lhamas em seu hotel. Até mexemos o café da Jennifer Lopez em sentido anti-horário, conforme solicitado.

Somos reconhecidos como uma nação tolerante que cede alegremente parte de seus direitos de exploração nos campos de petróleo para empresas estrangeiras. Somos amigáveis, condescendentes e cordiais. Gostamos de agradar.

Mas há uma sensação crescente de que a FIFA e o COI estão indo longe demais no papel de pais exigentes.

Tentamos nos comportar para a Mãe FIFA, sobretudo na frente das visitas. Quando ela quis que servíssemos cerveja dentro dos estádios, nós alteramos nossas leis para permiti-lo. Quando ela pediu isenções fiscais para si mesma e para seus prestadores de serviço, nós consentimos. Quando exigiu que pedíssemos sua permissão para promover eventos tradicionais de rua, como as festas juninas, durante o período da Copa, nós concordamos.

Até agora gastamos R$ 25,6 bilhões para agradá-la, 85% do total vindo dos cofres públicos, por meio de investimentos municipais e governamentais, financiamentos federais e isenções de impostos. Despejamos muitos cidadãos de suas casas para construir estádios e infraestrutura relacionada, e criamos zonas estritas de segurança no entorno das arenas oficiais. Nós reprimimos de forma diligente aqueles que protestaram contra o megaevento, jogando gás lacrimogêneo em manifestantes desarmados e tentando acusá-los de terrorismo. Procuramos até nos convencer de que a Copa irá trazer enormes benefícios para a economia local, apesar de tantas evidências em contrário. Ainda assim, a FIFA nunca parece estar satisfeita.

Não adianta reclamar para o Comitê Olímpico Internacional, já que este assumiu o papel de pai nesse drama familiar. Ele também reprova tudo o que fazemos: reclamou dos atrasos nas construções, criticou a poluição dos lagos e rios da capital fluminense, e disse que estamos piores do que a Grécia às vésperas nos Jogos Olímpicos de 2004. “Sua irmã mais velha tirou notas melhores”, foi o que o ouvimos dizer.

É como se ambos esperassem um pianista clássico virtuoso quando tudo o que conseguiram foi um amante do punk rock que só conhece músicas de três acordes. Bem, se quisessem pontualidade, deviam ter escolhido os alemães ou suíços. Nós, brasileiros, somos ligeiramente diferentes.

No mês passado, Mário Gobbi, presidente do Corinthians (que é proprietário do Itaquerão, um dos estádios da Copa), afirmou que os atrasos são parte da nossa cultura. “Não conheço nenhuma reforma e nenhuma construção que sejam entregues no prazo”, disse, em entrevista.

Vou dar um exemplo para ajudar o sr. Gobbi: o sistema de metrô de Salvador, capital da Bahia, está sendo construído desde 1997. O governo já gastou mais de R$ 1 bilhão para 6,5 km de trilhos, que começarão a funcionar no dia 11 de junho, véspera da abertura da Copa. (Dois anos atrás, o Tribunal de Contas da União levantou suspeitas de R$ 400 milhões em superfaturamento e desvio de verbas. As acusações ainda estão sendo investigadas. O Ministério Público também denunciou empresários por associação criminosa, formação de cartel e fraudes na licitação.)

Outro exemplo: 22 anos atrás, ajudei num abaixo-assinado pela despoluição do rio Tietê, em São Paulo. Hoje, após US$ 1,6 bilhão em investimentos e 1,2 milhões de assinaturas, ele ainda fede.

Para abrir uma empresa no Brasil é preciso vencer treze procedimentos burocráticos – obtenção de alvarás, preenchimento de formulários e outros – que demoram um total de 107,5 dias úteis, de acordo com um estudo recente do Banco Mundial. Alvarás de construção levam 400 dias para ser emitidos, e é necessário aguardar 58 dias só para ativar a eletricidade.

Certa vez, um homem na Bahia teve de esperar quatro anos para agendar um teste diagnóstico chamado urofluxometria num hospital público.

De modo que a FIFA e o COI podem ralhar o quanto quiserem: só iremos terminar tudo no último minuto. E quando isso finalmente ocorrer, haverá estouro de orçamento e mesmo uma porção de acidentes de trabalho. Como alertou o sr. Gobbi, numa declaração nonsense em que celebrava o fim da construção do Itaquerão: “Entre mortos e feridos, todos se salvaram”.

Desta vez, faremos do nosso jeito. Não adianta nos colocar de castigo. Tampouco adianta chamar o Tio Sam; ele não quer mais ter nada a ver com essa família maluca.


Este texto foi publicado em inglês no The International New York Times do dia 27 de maio de 2014. Tradução da autora.

Uma seleção de minicontos

Posted: 26th maio 2014 by Vanessa Barbara in Ficção
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Folha de S.Paulo – Ilustríssima
25 de maio de 2014

por Vanessa Barbara e Marcos Barbará

Destaque da seleção grega na Copa de 1986, Gofrindas Vonzondas é considerado até hoje o melhor driblador da história do futebol. Conta-se que o técnico da Bulgária chegou a escalar três zagueiros para a marcação de Gofrindas, que era vesgo. Infelizmente o jogador também não enxergava bem a bola e foi expulso após chutar um bandeirinha.

*

Em 26 de fevereiro de 2014, roubaram a marca de pênalti de um estádio em Northumberland, Inglaterra. O zelador do time inglês Blyth Spartans descobriu o furto num domingo de manhã, ao inspecionar o campo -ambas as marcas haviam sido escavadas e removidas. O crime não foi solucionado.

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Em 2007, a Federação Inglesa de Futebol baniu o aipo dos estádios. Qualquer torcedor do Chelsea que adentrasse nos jogos com o vegetal seria preso e fichado por crime contra a Coroa Britânica. Isso aconteceu após a reclamação de inúmeros atletas do Arsenal, alvejados por saladas enquanto cobravam o escanteio. Há uma linha direta para fazer denúncias de elementos portando talos suspeitos. O anonimato é garantido: +44 020 7915 1919.

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Osíris Ngunga Bolaño nasceu na Suíça e é centroavante no futebol iraniano. Filho de pai escocês e mãe australiana, foi criado pela tia paraguaia no Gabão. Tem três meios-irmãos: um norueguês, um bósnio e um pirata somali. Seu avô materno, japonês, lutou na Segunda Guerra pelos italianos, enquanto sua avó, esquimó, criou uma forma inovadora de temperar arenques. Seus bisavôs foram trapezistas russos, comerciantes libaneses, camponeses chineses e mártires da Guerra da Secessão dos EUA. Osíris Ngunga Bolaño não estará nesta Copa do Mundo.

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Nos primórdios, o futebol era jogado com uma bexiga de porco, dois times de 25 integrantes e nenhum juiz. As táticas mais utilizadas incluíam morder, socar e arrebentar a cabeça do adversário com uma tábua. Havia pontos extras para quem trouxesse suas próprias ovelhas.

O zagueiro romeno Marius Cioara foi transferido do UT Arad, um time da segunda divisão, para o Regal Hornia, da quarta divisão, por 15 quilos de salsicha. O atacante norueguês Kenneth Kristensen foi vendido pelo seu próprio peso em camarões, enquanto o lateral Hugh McLenahan aceitou jogar para o Manchester United por três freezers cheios de sorvete.

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A partida entre Flamengo e Alianza Lima, disputada em 21 de junho de 2011 e válida pela Copa Libertadores Sub-20, será para sempre lembrada pela atuação de Aparício. Nem tanto pelo futebol apresentado, mas por ser o primeiro Aparício a disputar uma partida de futebol desde Apparicyo, centerback do Ypiranga Athletic em 1908.

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Em 7 de junho de 1994, Penapolense e Ituano protagonizaram o jogo mais dramático da história. A saga começou com um gol contra de Cicinho, que bateu duas vezes na trave e entrou, para desespero do goleiro de Penápolis. Em seguida, o árbitro Juarez expulsou o lateral Delei, que, inconformado, revelou que a esposa de Juarez era infiel. Enquanto este olhava atônito para o horizonte e alguém cobrava uma falta à revelia, um dos reservas irrompeu do banco com uma adaga e aproveitou a confusão para golpear Cicinho, que expirou em campo enquanto murmurava uma frase em latim. Descobriu-se posteriormente que Cicinho era filho bastardo do técnico Pupo Martinez, que por sua vez tomou o poder do Pantera do Noroeste ao chantagear o massagista. Que era na verdade uma mulher. O jogo terminou com sete feridos, dois mortos e um pênalti roubado para o Ituano.

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A grande vantagem de ser adulto é poder ir à banca de jornais pedir 50 reais em figurinhas da Copa. Amizades já foram desfeitas e casamentos arruinados por causa do cromo autocolante do meio-de-campo Mengálvio, um dos mais cobiçados no álbum da Copa de 1962.

Conta-se que, naquele ano, o técnico da Bulgária convocou sua seleção baseando-se inteiramente na escalação do álbum, pois não queria decepcionar os fãs que já haviam adquirido o tomo. Por azar, não havia nenhuma figurinha de goleiro, motivo pelo qual Georgi Pachedzhiev teve que convocar um sujeito vestido de escudo.

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Com uma aparência de pelo menos 49 anos de idade, o centroavante nigeriano Taribo Amuleke foi um dos destaques da seleção sub-18 da Argélia em 2013, marcando três gols por partida em todos os jogos da primeira fase, antes de sofrer uma crise de gota. Procurado pela imprensa mundial, o agente de Taribo limitou-se a afirmar: “Ele teve uma infância difícil”. Na internet, foram divulgadas fotos do atleta em jornais de 1967, lutando pela Guerra de Biafra sob o codinome de general Chukwuemeka Odumegwu Ojukwu.

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No último dia da janela de transferências, o Barcelona anunciou a contratação de Gabrielzinho, de 6 meses. Gabrielzinho já passou por três clubes sem sucesso, mas conseguiu se firmar no Mini-Maternal I, onde já senta sem encosto.

O Real Madrid contra-atacou e informou estar próximo de acerto com o feto Kaiky, de 24 semanas. Segundo o presidente dos merengues, Kaiky apresenta bom desenvolvimento do tubo neural e três dedos do pé formados.


LEDA CATUNDA , 52, é artista plástica. Algumas de suas obras estão na exposição “Pintura como Meio: 30 Anos Depois”, no MAC-USP Nova Sede até 23/8.

MARCOS BARBARÁ, 33, é bancário, peladeiro e autor do livro “Anão Vestido de Palhaço Mata Oito” (Rocco).

VANESSA BARBARA, 31, jornalista, tradutora e escritora, é colunista da Folha e do “International New York Times”.

Histórias sem graça

Posted: 26th maio 2014 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Revista
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Revista sãopaulo – Folha de S.Paulo
25 de maio de 2014

por Vanessa Barbara

No romance “Garota Exemplar”, a protagonista Amy acusa a mãe de contar histórias “escandalosamente banais e intermináveis”, sem propósito nem clímax. Por muito tempo, ela e a irmã acharam que estavam sendo sacaneadas em segredo; mas não havia nenhuma moral ou entrelinha nas anedotas maternas. No fim, a brincadeira preferida das duas virou contar longas narrativas sobre o conserto de equipamentos e o preenchimento de cupons:

“Então eu precisava de uma pilha palito, que, descobri, é diferente de uma bateria, então tive que encontrar o recibo para devolver a bateria…”, dizia uma delas, engatando numa epopeia sonífera.

É este o clima do site “História Sem Graça” (historiasemgraça.tumblr.com), um dos melhores endereços de toda a internet. Trata-se de uma seleção de relatos aleatórios, absolutamente anticlimáticos — verdadeiras obras-primas do “E daí?”.

Como este, postado por um anônimo: “Sempre compro muçarela fatiada pra fazer sanduíche em casa. Outro dia comprei queijo prato. Não fez muita diferença”.

Ou esta, de teor similar: “Hoje passei condicionador antes do xampu pra ver se mudava alguma coisa, mas não mudou nada”.

O idealizador do site é o arquiteto paulistano Felipe Zene Motta, de 27 anos, que em fevereiro foi acometido por três inequívocas ocorrências sem graça e decidiu compartilhá-las. (São as três últimas do Tumblr, que envolvem incidentes na fila da padaria, na piscina e no banco.)

Hoje já são 1.500 anedotas enviadas por leitores ávidos por comungar, em minúcias, as mais opacas situações. Minhas preferidas são as mais compridas e com certo ar resignado: “Eu trabalho numa central de telemarketing e o lugar onde a gente senta pra atender é chamado de P.A. Hoje estava sentado num lugar trocando ideia com uma amiga, aí veio uma moça e me mandou sair porque a P.A. era dela. Eu disse que não ia sair e perguntei se tinha o nome dela lá, ela disse que sim, e tinha mesmo”.

Muitas das histórias são registradas em letras minúsculas e às vezes contêm deslizes gramaticais, o que lhes confere um ar ainda maior de cansaço e desinteresse do próprio narrador. Um exemplo, com a grafia original:

“esses dias lembrei de um amigo de infância, joão pedro, que mudou de cidade quando éramos bem novos, anos atrás. resolvi procurá-lo no facebook usando apenas esses dois nomes, já que não sabia a cidade em que ele mudou. encontrei vários, de várias localidades, mas nenhum se parecia com ele.”

Como se vê, é uma obra de gênio que revela de forma singular a essência da nossa vida cotidiana, esse ir e vir de ocorrências sem razão e sem rumo, de onde mal se pode tirar um sentido que não seja a perplexidade.

“Sempre que eu abro a geladeira, meu gato entra correndo lá dentro e se joga no compartimento de legumes. Eu nunca vou entender o motivo.”