Celeste Byers

Celeste Byers


The New York Times

March 22th, 2014

by Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

SÃO PAULO, Brazil — AMERICANS are predatory. They invade other countries, prey on native populations and exploit their resources. They are typically voracious, opportunistic and highly adaptive. It is said they are filthy; they can tolerate living in polluted areas and can carry diseases to which locals have no immunity. As we speak, they are causing global ecological damage.

We are talking, obviously, about American red-eared sliders — semiaquatic turtles originally from the southern United States. Over the last few decades, these turtles (officially Trachemys scripta elegans) have spread around the world, prompting some to label the species the reptilian Norway rat (for biologists, this is practically an obscenity). It is listed by the International Union for the Conservation of Nature as one of the 100 worst invasive species in the world. The turtles can be found on every continent but Antarctica, in more than 70 countries and several islands, and in my São Paulo neighborhood.

(There are five of them living on my block. My favorite is a sweet one named Turtle Moses; for reasons that will soon become obvious, their owners will remain anonymous.)

The importation of red-eared sliders is prohibited in Brazil, the European Union and elsewhere. In Australia, people who keep them can face fines of up to $110,000 or five years in jail.

The problem goes back to the late 1950s and ’60s, when turtle farms in the United States started selling red-eared sliders. They seem very appealing as pets: Newborns are bright green little creatures barely larger than coins, with distinctive red stripes behind their eyes. They are cute, lively and easy to handle. However, in a year they double in size, reaching up to 12 inches in diameter. And they can live for 40 years.

They’re called “sliders” for their eagerness to slip off rocks and logs into water when approached. The owner’s required paraphernalia includes a large tank with a dry area, a heater, a powerful filter (turtles make a lot of waste, and their water has to be partially changed every week), two kinds of ultraviolet lamps and many bags of food pellets. That’s more work than many people signed up for, and the pets are often released to the wild.

In 1975 the United States Food and Drug Administration banned the sale of small turtles in hopes of preventing salmonella infections in children. Turtles of all sizes can carry the bacteria, but hatchlings are much more likely to be purchased. As a result, domestic sales dropped, and farms shifted their focus to international markets.

Sales boomed in the late 1980s, after the release of the cartoon comic “Teenage Mutant Ninja Turtles,” starring four brave (and pizza-loving) red-eared sliders. From 1989 to 1997, more than 52 million of the turtles were exported from the United States to foreign markets. When they reached adulthood, the pets were often abandoned at nearby lakes and ponds, introducing American red-eared sliders into other ecosystems.

Today, Australians may be considered the red-eared slider’s biggest predators. “They are tough as old boots,” Scott O’Keeffe, a biosecurity expert, told an Australian newspaper. “They can live in poor water quality and they’ll eat just about anything.” The Department of Agriculture and Food runs a fierce eradication campaign against those the news media calls “illegal immigrants,” “menaces” and “pests.” The official policy is to kill every red-eared slider they find.

Years ago, a newspaper celebrated the capture of a turtle on Christmas Eve: “Having eluded authorities since being smuggled into Australia, the ‘large and exotic’ offender was captured by a Melbourne housewife and will be put down.” By that point, the government had spent five years setting traps for this specific individual and even hired an expert to help take it into custody. “It is believed there is another, smaller red-eared slider turtle in Blackburn Lake,” the article warned. (I’d say “slider” is a suitable name for a notorious outlaw.)

American sliders are considered environmental pests outside their natural range because they compete against native turtles for food, mates, nesting areas and basking sites. They are way smarter and more aggressive than other species, like Trachemys dorbignyi, the Brazilian sliders.

Here in Brazil, owners can face fines of around $210 and up to one year in jail, but it is possible to hand them over and avoid prosecution. In theory, these proscribed turtles would be relocated to zoos or conservationist facilities, although everybody knows they’re full — no vacancies for Americans. According to a biologist from the Brazilian Institute of Environment and Renewable Natural Resources, euthanasia is not the standard policy here, but in a broader sense, it would be preferable to kill these turtles than to let them destroy a whole ecosystem. “In matters of ecological balance, individuals aren’t important,” he said to me.

Even in most of the United States their sales are banned, and in many places, euthanasia is the rule. The standard procedure for putting turtles to sleep, devised by the American Veterinary Medical Association, is rather gruesome: First you sedate the animal, then you decapitate it. Then the humane thing to do is to scramble its still-active brains, for they’re tenacious, stubborn, slow animals to die.

Run, Turtle Moses, run. And find yourself a better P.R. agent.


Vanessa Barbara, a contributing opinion writer, is a novelist and a columnist for the newspaper Folha de São Paulo.

A version of this op-ed appears in print on March 22, 2014, on page A21 of the New York edition with the headline: Beware of Cold-Blooded Americans.

The New York Times
22 de março de 2014

por Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brasil ­­— AMERICANOS são predadores. Invadem outros países, aproveitam-se das populações locais e exploram seus recursos. São tipicamente vorazes, oportunistas e altamente adaptáveis. Dizem que são sujos; podem tolerar a vida em áreas poluídas e por vezes carregam doenças às quais os nativos não têm imunidade. Agora mesmo estão causando um grave dano ecológico ao mundo.

Estamos falando obviamente dos tigres d’água americanos, ou orelhas vermelhas – tartarugas semiaquáticas originárias do sul dos Estados Unidos. Nas últimas décadas, esses animais (Trachemys scripta elegans) espalharam-se ao redor do globo, incentivando alguns biólogos a apelidá-los de ratazanas do mundo réptil (o que é praticamente um insulto). Essas tartarugas são listadas pela União Internacional de Conservação da Natureza (IUCN) como uma das cem maiores espécies invasoras do mundo. Hoje são encontradas em todos os continentes, exceto na Antártida, em mais de 70 países e ilhas, e no meu remoto bairro paulistano.

(Há cinco delas vivendo ilegalmente no meu quarteirão. A minha favorita é a doce Tartaruga Moisés; por motivos que logo ficarão óbvios, a identidade de seus donos permanecerá anônima.)

A importação de orelhas vermelhas é proibida no Brasil, na União Europeia e por toda parte. Na Austrália, quem tem o animal em casa está sujeito a multa de até US$ 110 mil ou cinco anos de prisão.

O problema remonta ao fim dos anos 50 e começo dos anos 60, quando criadores americanos passaram a vender as tartarugas da espécie. Elas são bastante atraentes como animais de estimação: os filhotes são criaturas muito verdes do tamanho de moedinhas, com faixas vermelhas perto dos olhos. São fofas, espertas e fáceis de manejar. Contudo, dobram de tamanho no período de um ano, atingindo até 30 centímetros de diâmetro (o tamanho de uma folha de papel A4). E podem viver por 40 anos.

Em inglês, são chamadas de “sliders” (escorregadias) por causa da avidez com que mergulham do alto de pedras e troncos em direção à água quando alguém se aproxima. A parafernália obrigatória do proprietário inclui um aquário grande (mais de 100 litros) com uma área seca, um termostato, um filtro potente (tartarugas fazem uma sujeira atroz e a água tem de ser trocada parcialmente toda semana), dois tipos de lâmpadas ultravioleta e muitos pacotes de ração. É muito mais trabalhoso do que a maioria dos compradores imaginava, e por isso os animais são abandonados na natureza.

Em 1975, a FDA americana proibiu a venda de tartarugas pequenas (com menos de 10 centímetros de casco) no país, numa tentativa de evitar a contaminação por salmonela em crianças. Tartarugas de todos os tamanhos podem carregar a bactéria, mas filhotes são mais populares no mercado de animais de estimação. Como resultado, as vendas domésticas caíram e os criadores mudaram de foco para o mercado estrangeiro.

As vendas dispararam no fim dos anos 80, após o lançamento do desenho animado “Tartarugas Ninja”, cujas protagonistas são quatro orelhas vermelhas corajosas e comedoras de pizza. De 1989 a 1997, mais de 52 milhões de indivíduos foram exportados dos Estados Unidos para o mercado estrangeiro. Quando atingem a idade adulta, as tartarugas são às vezes abandonadas em lagos e rios próximos, introduzindo a espécie em outros ecossistemas.

Hoje os australianos podem ser considerados os maiores predadores das orelhas vermelhas. “Elas são tão resistentes quanto botas velhas”, disse Scott O’Keeffe, especialista em biossegurança, a um jornal local. “Podem viver em águas de péssima qualidade e comem praticamente de tudo.” O Departamento de Agricultura e Alimentação do país empreende uma feroz campanha de erradicação daquelas que a mídia chama de “imigrantes ilegais”, “ameaças”, “impostoras” e “pestes”. A política oficial é matar todas as que forem encontradas.

Anos atrás, um jornal celebrou a captura de uma tartaruga na véspera de Natal: “Tendo logrado escapar das autoridades desde que foi contrabandeada para a Austrália, a ‘grande e exótica’ criminosa foi capturada por uma dona de casa de Melbourne e será sacrificada.” Naquela altura, o governo já tinha passado cinco anos montando armadilhas para esse indivíduo específico, e chegara a contratar um especialista para ajudar a enquadrá-la. “É provável que exista outra tartaruga de orelhas vermelhas, menor, no lago Blackburn”, alertou o artigo. (Eu diria que “slider” é um nome apropriado para foragidas tão notórias.)

As orelhas vermelhas são consideradas pestes ambientais fora de seu habitat natural porque competem com as tartarugas nativas por comida, parceiros, áreas de postura de ovos e lugares ao sol. São muito mais espertas e agressivas que as demais espécies, como o tigre d’água brasileiro (Trachemys dorbignyi).

Aqui no Brasil, os donos de tartarugas ilegais estão sujeitos a multa de 500 reais e até um ano de cadeia, mas é possível entregá-las sem ônus. Em teoria, os quelônios proscritos são transferidos para zoológicos ou criadouros credenciados pelo Ibama, embora todos saibam que esses locais estão lotados – não há mais vagas para americanas. De acordo com um biólogo do Ibama, a eutanásia não é a prática oficial por aqui, mas, do ponto de vista ambiental, é preferível o animal ser abatido do que causar desequilíbrio a todo um ecossistema. “Em matéria de equilíbrio ecológico, o indivíduo não tem importância”, afirmou.

Mesmo na maior parte dos Estados Unidos é proibida a comercialização de orelhas vermelhas e, em vários estados, a eutanásia é a regra. O procedimento padrão para sacrificar tartarugas, de acordo com a Associação Veterinária Americana, é bem atroz: primeiro o animal é sedado, depois decapitado. Então, na sequência, é preciso destruir seu cérebro ainda ativo, pois as tartarugas americanas são animais obstinados, teimosos e difíceis de morrer.

Corra, Tartaruga Moisés, corra. E arrume uma assessoria de imprensa mais decente.


Este texto foi publicado em inglês no New York Times do dia 22 de março de 2014. Tradução da autora.

Síntese de paulistano

Posted: 17th março 2014 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Revista

Folha de S.Paulo – revista sãopaulo
16 de março de 2014

por Vanessa Barbara

São Paulo é muito mais do que um homem xingando da janela do carro e estacionando na vaga para deficientes só por cinco minutos para buscar o filho no judô. É mais do que motoristas levantando o vidro blindado quando aparece um vendedor de balas e boatos histéricos repassados pela internet de que bandidos jogam ácido no para-brisas dos carros e sequestram seus filhos e sua bolsa só porque você usa um óculos da Prada.

São Paulo é muito mais do que o ódio por flanelinhas, viciados e “black blocs”, é muito mais do que “bandido bom é bandido morto” e “Gostou? Leva pra casa”. É mais do que linchamento, briga de torcida e morte de ciclistas, é mais do que ônibus incendiados, criminalidade e o Datena gritando: “Onde é que estão os direitos humanos agora?”. É mais do que violência, desigualdade, injustiça.

A cidade que abriga eventos pomposos como Fashion Week, Boat Show e Salão do Automóvel é muito mais do que os 54 shoppings coalhados de seguranças e decorações de Natal que aparecem em outubro.

Também é mais do que uma noiva que gasta R$ 10 mil num vestido e R$ 500 num bolo de isopor, é mais do que um rei do camarote pedindo para trazerem a bebida que pisca. É mais do que universitárias bêbadas que passeiam pela avenida Paulista de limusine e encomendam suas monografias de conclusão de curso por quatro vezes de R$ 600; é mais do que faculdades ruins, alunos indiferentes e professores cansados. Sem contar os livros de autoajuda que prometem enriquecimento rápido e sem rugas.

São Paulo é mais do que subcelebridades do fitness, socialites, maquiagem definitiva e novas tinturas de cabelo; é mais do que Higienópolis, Jardins e Berrini.

É a cidade dos vendedores de picolé e dos carteiros que cantam, dos velhinhos que esperam o supermercado abrir de manhã e saem correndo para entrar na fila do pão; dos barbeiros antigos que cumprimentam os passantes e abrigam desconhecidos quando a chuva aperta. Onde às vezes se divide um guarda-chuva com uma senhora comendo canjica num prato de plástico. É a cidade de gente que adota animais abandonados e conta piadas no aperto do trem.

São Paulo é muito mais do que ódio e intolerância, muito mais do que rotular os outros de fascistas, comunistas, fanáticos, veados ou carolas —é uma cidade com crianças de 4 anos, vira-latas, dançarinos, equilibristas e gente que não dá as costas quando vê algo injusto acontecer.

Ou pelo menos é assim que devia ser.

Diferentes conceitos de êxito

Posted: 14th março 2014 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo
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Folha de S.Paulo – online
14 de março de 2014

por Vanessa Barbara

Há menos de três semanas, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o comando da Polícia Militar de São Paulo classificaram como um “sucesso” a operação que terminou com 20% dos manifestantes detidos num protesto contra a Copa do Mundo.

No dia 22 de fevereiro, tropas cercaram e imobilizaram uma grande parcela do ato, sob a alegação de que havia “iminente e grave probabilidade” de vandalismo. De um total de mil participantes, 262 foram para a delegacia. Outros tantos acabaram perseguidos pelas ruas do centro, e houve ao menos uma dezena de feridos. O motivo do propalado êxito? Apenas duas agências bancárias foram depredadas.

Ontem à noite, durante a terceira edição do ato “Se Não Tiver Direitos, Não Vai Ter Copa”, houve só um ferido – um rapaz com um corte na cabeça que disse ter sido agredido por policiais na rua Vergueiro. Durante mais de quatro horas, em torno de 1,5 mil pessoas (segundo estimativas da PM) caminharam pela cidade criticando os gastos com a Copa e pedindo melhorias no transporte público. No trajeto de 10 km, foram escoltados por 2,3 mil policiais, motos, helicópteros e dezenas de viaturas. Praticamente nenhum tumulto foi registrado. Agora, sim, podemos dizer: a operação policial foi um sucesso.

Quem já contabiliza mais de uma dúzia de manifestações desde junho sabe de algumas coisas: primeiro, que há sempre uma forte tensão no ar, um equilíbrio muito frágil que pode explodir a qualquer momento por conta de uma cadeira tombada ou de um sujeito que espirra com desnecessária contundência. Segundo, que o final da manifestação é em grande parte ditado pela polícia. (Os black blocs representam uma parte pequena do conjunto, eu diria que uns 5%.)

Um exemplo: em dezembro do ano passado, o comando da PM informou que o ato não poderia ir até a avenida Paulista por causa da decoração de Natal, e que todos os que descumprissem a ordem seriam “envelopados” (cercados e detidos). Alguns conseguiram ir para o local de metrô e, após o reagrupamento, foram devida (e violentamente) envelopados. Em outra ocasião, a polícia formou uma barreira e impediu a golpes de cassetete o avanço da passeata. Em fevereiro, houve o infame cerco antecipado e a dispersão dos manifestantes com gás lacrimogêneo.

Desta vez, não houve cerceamento. Por volta das 21h, a manifestação, que subia a avenida Rebouças, chegou à Paulista, numa comoção vitoriosa de quem achava que não ia durar nem três quadras. Meia hora depois, em frente ao Masp, o momento que definiu o ato: uma linha de frente formada por jovens (mascarados e não mascarados) decidiu caminhar em direção ao bloqueio da Tropa de Choque. Alguns entoavam “uh, uh, uh”, um conhecido grito dos black blocs. A carnificina já era dada como certa, mas não desta vez: por algum motivo, a barreira policial cedeu e deixou a manifestação passar.

E assim foi: uma caminhada predominantemente pacífica até a praça da Sé, com buzinadas de apoio e incidentes pontuais. O vidro de uma agência bancária foi quebrado e cinco pessoas foram detidas. A polícia também acusou o lançamento de um rojão e um sinalizador. No meio de tudo, alguém perdeu um óculos de grau.

E, pela primeira vez em nove meses, a manifestação terminou, não foi “terminada”.

Loucos de cinema

Posted: 5th março 2014 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo

Folha de S.Paulo – Guia da Folha
28 de fevereiro de 2014

por Vanessa Barbara

Tem o sujeito que pensa que está em casa e faz questão de comentar o filme inteiro em voz alta, perguntando para a pessoa ao lado: “O que foi que ele disse?”, “Mas matou de verdade?” ou “Ela é prima daquele de óculos?”.

Geralmente é o mesmo cidadão que desembrulha uma bala com extrema lentidão, oferece para toda a fileira e por fim decide comê-la, e é quando descobrimos se tratar de um caramelo toffee que passará ao menos 15 minutos sendo mascado vitoriosamente pelo meliante.

Tem o cara que come salgadinho de cebola no cinema, o que exagerou no perfume, o que está gripado e não para de tossir. Sem falar naquele que não desgruda do celular e faz questão de emitir uma luz celestial desde o início dos trailers, amigo de outro que ri pelo nariz, soltando um discreto, porém irritante, ronquinho.

Há quem chore de soluçar e por pouco não se ponha a assoar o nariz num ombro desconhecido; dentre os espectadores solitários, são muitos os que esperam o final dos créditos e o acender das luzes para caçar um olhar de cumplicidade e então comentar: “Pesado, né?”. Alguns assistem ao filme com a concentração de quem resolve um cálculo diferencial.

Quem senta na minha frente costuma ser alguém de 1,84 m com o cabelo fofo e um tique nervoso; quem senta atrás é um jogador de vôlei que cutuca as minhas costas com o joelho pontudo. Do meu lado direito, um sujeito que não compreende a cordial divisão do espaço útil do braço da cadeira —trata-se de um conceito simples que implica em dividir a área longitudinalmente, o que pode acarretar em um incômodo roçar de braços, ou impor uma linha imaginária de latitude a partir da qual eu me apoie na parte dianteira e ele encoste atrás, ou vice-versa.

À minha esquerda, sobra um sujeito que obviamente tem um bebê em casa e só está ali para dormir.

Ventinho bom

Posted: 25th fevereiro 2014 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Revista
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Folha de S.Paulo – revista sãopaulo
23 de fevereiro de 2014

por Vanessa Barbara

O pai estava postado de pé numa grade de saída de ventilação do metrô, na esquina da avenida Paulista com a Brigadeiro Luís Antônio. Em plena tarde de domingo, aquele senhor de bermuda marrom e camiseta branca – com as pernas um pouco afastadas e o corpo inclinado para a frente – cuspia para baixo.

Ao lado do gradil, a mulher e o filho pequeno observavam. “Vem, Gabriel, vem com o pai aqui”, ele chamou.

O menino parecia receoso; a esposa não dava para saber o que estava pensando, mas incentivou o filho a ir até lá. E ficaram os dois de pernas afastadas, um do lado do outro, cuspindo no vazio.

Podem-se tirar inúmeras conclusões a partir dessa história; por exemplo, é cabível censurar o cuspe em família numa instalação pública ou filosofar sobre a natureza íntima do bafo que sai dos dutos de ventilação: suspiros e espirros de milhões de passageiros do transporte subterrâneo.

Mas meu objetivo aqui é outro. E para melhor ilustrá-lo, contarei uma segunda anedota: a de uma família inteira se divertindo numa dessas saídas de ar. A menina mal sabia andar e ainda assim tropeçava em círculos, maravilhada. O cachorro simplesmente estava sentado se refrescando, de olhos fechados. A mãe gostava de ver a saia inflar, como em “O Pecado Mora ao Lado”. Nisso, uma madame passa e prende o salto numa das frestas. Mas ela consegue se desvencilhar da armadilha e segue andando.

Nos gradis da estação Faria Lima, um dos mais violentos em termos eólicos, os taxistas estão cansados de ver moças desavisadas com a saia lá pelo pescoço. “Todo dia eu vejo muita calcinha”, afirmou um deles, em entrevista a um jornal.

E mais: certa vez amarraram as pontas de um plástico grande numa dessas grades, de modo que, ao ser inflado, o volume ficava parecendo um cachorro. Nos idos de 2008, em Nova York, o artista Joshua Allen Harris utilizou sacos plásticos e fitas adesivas para inflar esculturas na tubulação do metrô – sua obra mais comentada foi um pequeno urso polar que denunciava o aquecimento global, mas eu gosto especialmente de um monstro feito de saco de lixo com mais de 4 metros de altura. E da girafa.

Quando eu era pequena, achava que no fundo do gradil vivia uma criatura misteriosa e ancestral, um Felino laranja que se alimentava de ver a cor das nossas calcinhas.

Estou contando tudo isso por motivos que nem eu poderia decifrar. Talvez porque, neste calor, meu cérebro esteja precisando de um sistema de ventilação mais eficiente.

Pity Brazil’s Military Police

Posted: 19th fevereiro 2014 by Vanessa Barbara in New York Times, Reportagens

International New York Times
February 20th, 2014

Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

SÃO PAULO, Brazil — In Brazil, police officers kill an average of five people every day. In 2012, according to a security report from the Brazilian Forum on Public Security, 1,890 Brazilians were killed by the police, 351 here in São Paulo. That was around 20 percent of all homicides in the city. At the same time, 11 police officers were killed on duty here and around 100 were executed off-duty, allegedly by organized crime. Police officers are three times more likely to be murdered than the average Brazilian.

Ilustração: David Plunkert

David Plunkert

I once complained about being a writer in Brazil, but it seems our police officers are in considerably worse shape. In São Paulo, lower ranked military police officers earn an annual salary of $15,248, including benefits and danger pay allowances. They work in 12-hour shifts, night and day, for an average of 42 hours a week. But only in theory. Officers claim the rules are often ignored, with extended overtime, short notice of scheduling changes and irregular or no lunch breaks. Some take on additional jobs to supplement their wages, not only as private security guards (which is illegal), but also in a program called “Atividade Delegada,” through which the city hires policemen in their spare time, offering the equivalent of $64 for eight extra hours patrolling the streets.

There are two main kinds of police in Brazil. The civilian police concentrate on criminal investigations, while the military police have the duty of maintaining public order and working to prevent crimes.

The military police are not part of the armed forces, and yet they operate according to military principles of rank and discipline. They cannot strike or unionize, and are subject to a military-style penal code (meaning transgressions at work can be treated as mutiny or treason, and officers are tried in a special court). They are prohibited from “revealing facts or documents that can discredit the police or disrupt hierarchy or discipline.”

They also can’t openly disapprove of the acts of civilian authorities from the executive, legislative or judicial branches of government, and are forbidden to express their personal political opinions. Last year, eight officers from Ceará, in northeastern Brazil, were discharged after taking part in a political meeting. Three others were arrested upon returning from a public meeting to discuss police demilitarization.

As if that weren’t enough, the same Brazilian Forum on Public Security report found that 70 percent of Brazilians distrusted the police. In other words, our police have lost their legitimacy.

“I love my job, I really do,” one member of the military police recently told me. “But our work goes unrecognized. Our errors are scrutinized. We have fractions of a second to decide between accelerating or braking, shooting or retreating; either way we are blamed.”

Another officer complained that the news media gave more attention to cases of police brutality than to the killings of officers. He noted that police officers were sometimes the only agents of the state stationed in poor neighborhoods dominated by organized crime. “Everything is on us.”

But their main complaint is the impunity of criminals. Many believe Brazil’s judicial institutions are too lenient and inefficient. Officers are tired of arresting the same suspects over and over.

According to Adilson Paes, a retired police lieutenant colonel who conducted a study on police brutality, some officers turn vigilante as a result. This was also the conclusion of an investigation into policing in Rio de Janeiro and São Paulo conducted by Human Rights Watch: Many deaths of civilians “resisting arrest” are in fact extrajudicial killings, the report found, and “some police officers are members of ‘death squads,”’ which are “responsible for hundreds of murders each year.”

This often leads to a cycle of retribution between the police and organized crime. Just a month ago, in Campinas, a city 60 miles from São Paulo, a policeman was killed in front of his wife during a robbery; within a few hours, 12 people were found executed — apparently by the police, as revenge. And sometimes corrupt police officers themselves are involved in organized crime.

“We are one of the most violent countries in the world, and the military police are part of that universe,” José Vicente da Silva Filho, a retired police colonel, told TV Folha. “So it would seem difficult to have a much better police force than we have now.”

In São Paulo, many attribute a recent drop in killings by the police to a new rule that forbids officers to transport wounded suspects to the hospital or offer them first aid. It turns out that police officers had been picking up people who had been wounded by the police officers themselves, and then executing them on the way to the hospital. Five months ago, a young man allegedly committed suicide in the back of a police car, after being arrested for robbery. If that’s true, he somehow managed to shoot himself in the head while his hands were cuffed behind his back.

Two years ago, the United Nations Human Rights Council recommended that Brazil abolish its military police; other international groups have criticized the force for beating and torturing detainees. But the discussion here has been polarized. Human rights organizations are often seen as apologists for criminals: “Some believe that investigating and prosecuting police abuses would weaken the hand of law enforcement, and thereby strengthen criminal gangs,” says Human Rights Watch.

But lately, more Brazilians have been taking notice, as police brutality is increasingly directed against journalists and political protesters (many from the middle class), instead of just the same old black and poor citizens who live in favelas.

As a regular attendee of the mass demonstrations that have swept the country since last June, I have witnessed acts of unnecessary violence against unarmed protesters. In that period, a student and a professional photojournalist were both blinded after being hit by flash bombs and rubber bullets. Three weeks ago, the police shot a man who was protesting against the World Cup. He allegedly threatened an officer with a box cutter.

Many officers at the protests work without identification tags and inhibit journalists from filming and taking pictures. It is wise to approach them with your hands in the air, speaking in a reassuring way. In a recent poll, 64 percent of police officers claimed to be unprepared to deal with mass demonstrations.

Now, with the World Cup fast approaching and more demonstrations on the way, there’s a lot of talk about demilitarizing the police. This would grant more labor rights to our officers, releasing them from a military code of conduct and discipline that often involves humiliation and training infused with a war mentality. It would also mean conferring on the civilian justice system the authority to judge all crimes committed by police officers.

This would be a step back from our military dictatorship years and a step toward creating a legitimate police force where officers deal with the civilians not as their enemies but as fellow citizens — even if they have broken the law.


Vanessa Barbara, a novelist, edits the literary Web site A Hortaliça and is a columnist for the newspaper Folha de São Paulo.

O drama da PM brasileira (tradução)

Posted: 19th fevereiro 2014 by Vanessa Barbara in Traduções

International New York Times
20 de fevereiro de 2014

por Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brazil – No Brasil, a polícia mata em média cinco pessoas por dia. Em 2012, de acordo com o relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.890 pessoas foram mortas pela polícia, 351 em São Paulo. Isso representa 20% de todos os homicídios na cidade. Ao mesmo tempo, 11 policiais foram mortos em serviço e aproximadamente 100 foram executados em horário de folga, provavelmente a mando do crime organizado. Os policiais brasileiros têm três vezes mais chances de serem assassinados do que o cidadão comum.

Uma vez reclamei de como é difícil ser escritor no Brasil, mas parece que nossos policiais estão em uma situação bem mais delicada. Em São Paulo, soldados da PM ganham um salário mensal de R$ 3.023,29, incluindo benefícios e adicional de insalubridade. Trabalham em turnos de doze horas, começando por um período diurno (por exemplo: das 5h45 às 18h), seguido por uma folga de 24 horas, um plantão noturno (17h45 às 6h), e por fim uma folga de 48 horas. Isso resulta numa média de 42 horas de trabalho por semana.

Mas só em teoria. Os policiais reclamam que as regras são por vezes ignoradas, com muitas horas extras, mudanças bruscas na escala e pausas irregulares (ou inexistentes) para almoço. Alguns assumem trabalhos adicionais para cobrir as despesas, não só como seguranças privados (o que é ilegal), mas também num programa chamado “Atividade Delegada”, através do qual a prefeitura contrata policiais em seu tempo livre, oferecendo R$ 156 por um período de oito horas extras patrulhando as ruas.

Há dois tipos principais de polícia no Brasil. A civil se concentra na investigação de crimes, enquanto a militar tem o dever de manter a ordem pública e trabalhar na prevenção de crimes.

A polícia militar não faz parte do Exército, mas opera de acordo com princípios militares de hierarquia e disciplina. Eles não têm direito a fazer greve e formar sindicato, e estão sujeitos a um código penal de aspecto militar (isso quer dizer que transgressões no trabalho podem ser tratadas como motim ou traição, e são julgadas por um tribunal específico). Os policiais não estão autorizados a “publicar, divulgar ou contribuir para a divulgação irrestrita de fatos e documentos que possam concorrer para o desprestígio da Polícia Militar, ferir a hierarquia ou a disciplina”.

Também não podem desconsiderar ou desrespeitar, em público ou pela imprensa, os atos ou decisões das autoridades civis ou dos órgãos dos Poderes Executivo, Legislativo, Judiciário, e estão impedidos de expressar suas opiniões políticas. Ano passado, oito policiais do Ceará foram exonerados por participar de uma reunião. Outros três foram presos ao retornar de um debate público sobre a desmilitarização da polícia.

Como se não bastasse, o mesmo relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelou que 70% dos brasileiros não confiavam na polícia. Em outras palavras, a instituição perdeu a legitimidade.

“Eu amo o meu trabalho, de verdade”, um soldado me confessou recentemente. “Mas o reconhecimento é zero. Nossos erros são esmiuçados. Temos frações de segundo para tomar a decisão de acelerar ou brecar, atirar ou recuar; em ambos os casos somos criticados.”

Outro tenente reclamou de que a mídia dá mais atenção para os casos de brutalidade do que para a morte de policiais. Ele lembrou que os policiais são muitas vezes os únicos agentes do Estado presentes nos subúrbios dominados pelo crime organizado. Às vezes se sentem acuados por todos os lados: imprensa, comandantes, políticos, juízes e cidadãos. “Tudo fica nas nossas costas.”

Mas a principal reclamação é a impunidade criminal. Muitos acreditam que o poder judiciário brasileiro é leniente e ineficaz. Os policiais estão cansados de prender os mesmos suspeitos dia após dia.

De acordo com Adilson Paes de Souza, tenente-coronel aposentado que conduziu um estudo sobre a brutalidade policial, o resultado é que alguns policiais podem decidir virar justiceiros. A mesma conclusão foi obtida num estudo sobre as práticas policiais no Rio e em São Paulo promovido pela organização de direitos humanos Human Rights Watch: segundo o relatório, muitas mortes de cidadãos que “resistiram à prisão” foram, na realidade, execuções extrajudiciais. Além disso, alguns policiais fazem parte de esquadrões de extermínio, “responsáveis por centenas de assassinatos todos os anos”.

Isso incorre, muitas vezes, num ciclo vicioso de vingança entre a polícia e o crime organizado. Mês passado, em Campinas, um policial foi morto na frente da esposa, durante um assalto; em poucas horas, doze pessoas foram executadas – aparentemente como vingança. Às vezes há casos de corrupção e envolvimento da própria polícia no crime organizado.

“Somos um dos países mais violentos do mundo, e a polícia faz parte desse conjunto descontrolado”, declarou o coronel da PM aposentado José Vicente da Silva Filho, em entrevista para a TV Folha. “Então é difícil ter uma polícia tão melhor do que nós temos”.

Em São Paulo, muitos atribuem uma queda recente nas mortes cometidas por policiais a uma lei que proíbe os agentes de transportar suspeitos feridos para o hospital e prestar serviços de primeiros socorros. Ao que parece, os policiais aproveitavam para transportar os suspeitos que eles mesmos feriram e então executá-los a caminho do hospital. Cinco meses atrás, um jovem supostamente cometeu suicídio dentro de uma viatura, após ter sido preso por roubo. Se isso é verdade, ele de algum modo conseguiu atirar na própria cabeça enquanto estava com as mãos algemadas nas costas.

Há dois anos, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas recomendou que o Brasil extinguisse sua polícia militar; outros grupos internacionais criticaram a corporação por espancar e torturar cidadãos sob sua custódia. Mas a discussão permanece polarizada. As organizações de direitos humanos são muitas vezes vistas como apologistas do crime: “Alguns acreditam que investigar e punir abusos policiais enfraqueceria o braço da lei, fortalecendo os criminosos”, declarou o Human Rights Watch.

Hoje em dia, porém, mais e mais brasileiros estão prestando atenção no assunto, conforme a brutalidade policial é dirigida contra jornalistas e manifestantes políticos (muitos da classe média), em vez de atingir os pobres e negros de sempre.

Como participante assídua das manifestações que tomaram o país desde junho, testemunhei inúmeros atos de violência desnecessária contra manifestantes desarmados. Nesse período, um estudante e um fotojornalista profissional ficaram cegos de um olho após serem atingidos por bombas de efeito moral e balas de borracha. Três semanas atrás, a polícia deu dois tiros num rapaz que estava protestando contra a realização da Copa do Mundo. Ele teria ameaçado um policial com um estilete.

Nos protestos, muitos policiais trabalham sem tarjetas de identificação e inibem os jornalistas de filmarem e fotografarem. É recomendável aproximar-se deles com as mãos para o alto, falando de modo calmo e reconfortante. Numa pesquisa recente promovida pela Fundação Getúlio Vargas, 64% dos policiais confessaram estar despreparados para agir em manifestações.

Hoje, com a Copa do Mundo se aproximando e mais manifestações a caminho, há grande discussão sobre a desmilitarização da polícia. Isso poderia garantir mais direitos trabalhistas aos nossos profissionais, libertando-os de um código militar de conduta e disciplina que muitas vezes pressupõe um treinamento humilhante e marcado pela mentalidade de guerra. Também significaria conferir ao sistema comum de justiça a autoridade para julgar os crimes cometidos pelos policiais.

Isso pode ser uma importante tomada de distância do período da ditadura militar e um passo adiante rumo à criação de uma força policial legítima em que os policiais possam lidar com os civis não como seus inimigos, mas como cidadãos iguais a eles – ainda que tenham infringido a lei.


Este texto foi publicado em inglês no International New York Times do dia 20 de fevereiro de 2014. Tradução da autora.

Deixe a direita livre

Posted: 9th fevereiro 2014 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Revista
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Folha de S.Paulo – revista sãopaulo
9 de fevereiro de 2013

por Vanessa Barbara

Uma das maneiras mais fáceis de identificar gente pobre em um shopping de luxo é analisar a conduta na escada rolante: se o sujeito encostar à direita, dando passagem para quem tem pressa, pode contar que é ralé.

Tal comportamento, praticado de forma automática por esta colunista, é indicativo do desagradável hábito de frequentar trens e metrôs (onde o procedimento é manter a esquerda livre para circulação), podendo ser tomado como um sinal de que o meliante estaria ali para participar de rolezinhos, causar tumulto e incomodar gente de bem.

Outra maneira segura de apontar desajuste social em locais chiques é postar um informante no banheiro. Quem vem da periferia pode ir direto para o reservado a fim de lavar o rosto, aliviar a bexiga, pentear o cabelo, fazer a toalete e encher a garrafa de água no bebedouro.

Gente diferenciada também costuma matutar como faz para abrir a torneira; hoje em dia, o ato de lavar as mãos exige muito insight para não passar vergonha, enquanto abanamos em desespero as mãos em busca de um sensor que ative o jato de água ou de sabonete líquido. Às vezes há dissimuladas alavancas, pedais ou botões.

Em suma, qualquer pessoa que demonstre incerteza diante da pia deve ser detida para averiguações.

(Até no âmbito mais privado pode haver armadilhas para o populacho; basta deixar registrado que, no banheiro de um hotel, em Londres, puxei uma cordinha vermelha achando que era a descarga. E disparei um alarme.)

Nas lojas, é altamente suspeito aquele que demonstra surpresa diante do preço de um produto, ou mesmo que não entende quando o vendedor diz que um vestido custa “sete quatro cinco”. (Em tempo: não é R$ 7,45, e sim R$ 745,00, mas você pode pagar em seis vezes no cartão.)

Aliás, quando o vendedor faz uma breve análise visual do cliente e começa a falar em crediário e promoção, pode apostar que alguém no balcão já apertou um botão vermelho para chamar a segurança. O fato de haver um homem de terno com walkie-talkie na mão atrás de você o tempo inteiro também não é bom sinal.

Outras atitudes suspeitas: perguntar se tem algo mais “em conta”, trazer a própria sacola de casa, rir do preço achando que é piada. Por experiência própria, não ajuda bradar: “É noventa? Pois eu pago quinze”.

Não é fino andar de mochila, usar boné de aba reta, fazer chacota das blusas na vitrine e apontar uma costura malfeita, dizendo que “isso aqui virou o Brás”.

Grande indicativo de pobreza é pedir para passar dez reais no crédito – sobretudo se, na hora de sacar o cartão, você tirar sem querer da bolsa o Bilhete Único. 

As melhores caçambas da cidade

Posted: 26th janeiro 2014 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Revista
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Folha de S.Paulo – revista sãopaulo
26 de janeiro de 2013

por Vanessa Barbara

É na alameda Lorena que se encontram as caçambas mais disputadas da cidade. Flanando pelas ruas dos Jardins, o munícipe mais atento pode topar com belíssimas cadeiras de escritório, cristaleiras, pias, colchões, estrados de madeira, carpetes, pisos, escorredores de louça, tábuas de passar e até um box para cama de casal em perfeito estado de conservação e olor.

A quantidade de bons itens descartados em caçambas é notável, sobretudo nas regiões mais chiques. Pode-se mobiliar apartamentos inteiros usando o lixo dos moradores de Pinheiros, Higienópolis e Jardins.

No bairro de Santa Cecília, um grupo de sem-teto que vive num posto de gasolina abandonado angariou mobiliário completo nas caçambas da área (mesa, poltrona, cama, armários e uma pequena oficina de marcenaria – em atividade). Na semana passada, eles mesmos abandonaram um sofá na esquina da alameda Glete com a Barão de Campinas, decerto por terem arrumado um melhor (vermelho, de três lugares).

Com a ajuda do leitor Roberto Bencz Jr., esta reportagem esquadrinhou a metrópole inventariando (e confiscando) objetos dignos de alarde, entre eles: uma estante para biblioteca dupla flex de aço, abandonada numa caçamba em Pinheiros; uma mesa de manicure na alameda Barão de Campinas; uma escada de alumínio, um armarinho e um varal de teto na rua São Carlos do Pinhal; uma caixa de som Aiwa na avenida Higienópolis; uma gigantesca letra “e” de plástico azul, na rua Camaragibe, na Barra Funda.

Duas cadeiras de vime que estavam numa caçamba da rua Frederico Abranches, em Santa Cecília, foram confiscadas pelos sem-teto da rua Sebastião Pereira e, no dia seguinte, passaram a compor uma espécie de sala de estar coberta por um toldo.

Nesta época, muitos pinheiros de Natal são casualmente descartados, como se privadas fossem. Registramos, aliás, uma ótima privada (sem tampa) na rua dr. Fernandes Coelho, e uma tampa sem privada na rua Bianchi Bertoldi, a poucos metros dali.

O leitor Eduardo Lemos recomenda as caçambas de Higienópolis, onde, certa vez, viu uma série de quadros que retratavam a mesma mulher.

Outro informante garantiu que, no Texas, existe uma espécie de “Furniture Hunting Season Around the Block”, quando, no período entre mudanças de semestres, é comum despejar e colher mobília das calçadas.

Por aqui, porteiros bem relacionados e com tino comercial negociam os melhores itens com carroceiros.

Eu, de minha parte, aposto que existe um grupo de senhoras num prédio da Peixoto Gomide que compra móveis novos na Tok&Stok só para abastecer as caçambas. “Temos as melhores da rua”, diriam, orgulhosas.