Não fujam!

Posted: 2nd agosto 2012 by Vanessa Barbara in Folha de S. Paulo, Reportagens
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Um apelo aos londrinos de espírito antiolímpico

Vitrine da Primark, na New Oxford Street

Folha de S.Paulo – Turismo
2 de agosto de 2012

por Vanessa Barbara

http://www1.folha.uol.com.br/turismo/1129804-com-planejamento-londres-driblou-olimpicamente-as-intemperies.shtml

Mesmo após a abertura dos Jogos, Londres ainda não se livrou de um certo espírito catastrofista quase brasileiro. Pelas ruas, entre transeuntes com guarda-chuvas oficiais dos Jogos e camisas do Team GB – a equipe da Grã-Bretanha –, há pessoas carregando sacolas de tecido com as inscrições: “Levei três horas para chegar ao trabalho hoje” e “Aluguei meu apartamento para uma família de americanos gordos”. Outro modelo de sacola: “Todos eles usam esteroides”.

Primeiro veio o retumbante fiasco da empresa de segurança G4S, que obrigou o governo a recrutar o Exército para auxiliar no setor. A aparência de “estado de sítio” proporcionada pelos militares só fez aumentar a paranoia quanto a ataques terroristas durante a Olimpíada, que já era alta desde que foram instalados mísseis antiaéreos no telhado de prédios residenciais no leste da cidade, onde fica a Vila Olímpica.

Depois, os funcionários de uma empresa de trens ameaçaram entrar em greve, assim como os responsáveis pelo controle de passaportes nos aeroportos e estações. A superlotação no transporte público, sobretudo no metrô, é mais palpável em estações como Bank, Earl’s Court e London Bridge.

Até a inicialmente medíocre previsão do tempo colaborou para o empapado estado de espírito dos londrinos com relação à Olimpíada – felizmente, os boletins atuais são de um otimismo seco e ensolarado.

O próprio departamento de transportes de Londres, o TfL, recomendou que os londrinos trabalhassem de casa durante os Jogos, já que algumas estações só ficarão transitáveis caso 60% dos passageiros habituais mudem seu itinerário.

Anunciado por toda parte, o site www.getaheadofthegames.com [adiante-se aos jogos] recomenda que o cidadão planeje sua rota de antemão e evite as áreas de maior afluência naquele dia. É possível baixar boletins diários com os piores trajetos, consultar mapas de congestionamento e utilizar uma ferramenta para planejar a viagem.

O uso de carro não só é desaconselhável como honestamente idiota, já que não haverá estacionamento nos locais dos eventos e nem em suas proximidades. Ir a pé ou de bicicleta são as melhores opções, segundo a TfL.

Por essas e outras, muitos londrinos decidiram sair da cidade e decretar férias. Na última quinta-feira, 19 de julho, a British Airways lançou uma campanha publicitária intitulada “Don’t Fly” [não voe], conclamando os britânicos a ficar em casa e torcer pelos conterrâneos.

 

 

Como está o clima nas ruas de Londres e o que fazer durante as partidas de esgrima e equitação

A Regent Street e a letra B

Folha de S.Paulo – Turismo
2 de agosto de 2012

por Vanessa Barbara

http://www1.folha.uol.com.br/turismo/1129805-londrinos-estao-em-estado-de-graca-com-os-jogos-olimpicos.shtml

Desde o dia 19 de julho, a emblemática London Eye, roda-gigante à beira do Tâmisa, tem sido o principal termômetro do ânimo da cidade com relação aos Jogos Olímpicos de 2012. A empresa EDF Energy desenvolveu um algoritmo para captar o espírito dos britânicos durante o evento, a partir de posts no Twitter. O código promete converter emoções em movimentos e cores, num espetáculo de luzes chamado “Energy of the Nation”, exibido todas as noites às 21 horas. 

Dia após dia, aumenta a quantidade de luzes amarelas (emoções positivas) com relação às esverdeadas (neutras) ou arroxeadas (negativas). 

Nas ruas do centro, o clima é de feriado prolongado. Desde junho, a Regent Street paramentou-se com gigantescas bandeiras dos países participantes, estando o lábaro brasileiro bem localizado na esquina com a Oxford Street, ao lado de Bolívia, Bósnia Herzegovina, Botswana e Brunei (a ordem é alfabética). 

Gigantescos anéis olímpicos foram instalados na Tower Bridge e no saguão principal de St. Pancras, a principal estação de trem. Quem chega de avião pelo aeroporto de Heathrow é recebido por enormes anéis de 300 metros de largura entalhados na grama do Richmond Park, a oeste de Londres. Também as estações de metrô ganharam placas cor-de-rosa apontando os estádios e instalações do evento. 

Na Primark, a loja de departamentos mais popular de Londres, que é como uma versão perene da 25 de Março na véspera do Dia das Mães, a seção de ofertas parece ainda mais cheia. Turistas brasileiros disputam a tapa com visitantes asiáticos uma certa camiseta da Union Flag bordada em lantejoulas. Seguranças indianos tentam não ser atingidos pelo vaivém de sacolinhas de papelão pardo com a marca da rede de varejo irlandesa, que vende 575 mil peças de roupa por dia e movimenta 2,3 milhões de euros nos fins de semana. (A abertura da loja principal na Oxford Street, em 2007, atraiu uma multidão tão grande que a polícia montada teve de intervir.)

No Hyde Park e no Victoria Park foram instalados telões para as transmissões ao vivo de alguns dos principais eventos da Olimpíada. O espaço, apelidado de BT London Live, também será palco de shows diários de música, prática de esportes menos conhecidos (badminton, lacrosse, críquete, rúgbi em cadeira de rodas) e a Zona dos Fãs, onde os medalhistas britânicos se encontrarão com o público para celebrar suas conquistas. Durante a transmissão da cerimônia de abertura, houve shows especiais com as bandas Snow Patrol, Stereophonics e Duran Duran. No encerramento será a vez de Blur e New Order.

Nestas três semanas, os ingleses têm agido de forma mais desinibida, agitando bandeirinhas, aplaudindo e correndo atrás da tocha, feito crianças. Alguns até já foram vistos puxando assunto com estranhos. Segundo a Time Out, estima-se que um em cada quatro londrinos planeja faltar ao trabalho alegando algum tipo de doença, só para poder assistir aos Jogos pela tevê. 

O McDonald’s, um dos patrocinadores do evento, lançou uma campanha publicitária elencando os principais tipos de torcedores: do “chorão” ao “agitador de bandeiras”, passando pela “nervosa que espia através dos dedos”, a “abanadora lateral de braços” e a “moça do vamos-lá-vamos-lá-vamos-lá”.

Uma das principais atrações paralelas é o London 2012 Festival (festival.london2012.com), que reúne milhares de eventos nas áreas de música, teatro, cinema, dança, acrobacia, artes plásticas, exposições e performances. O festival acontece de 21 de junho a 9 de setembro, com 10 milhões de ingressos gratuitos. 

Além disso, alguns museus e monumentos da cidade terão horários estendidos durante os Jogos. 

 

MAIS INFORMAÇÕES

BT London Live
http://www.btlondonlive.com
27 de julho a 12 de agosto
Hyde Park e Victoria Park
Transmissões de partidas ao vivo, shows de música, prática de esportes e encontro com os medalhistas britânicos.

BBC Proms
http://www.bbc.co.uk/proms
13 de julho a 8 de setembro
Royal Albert Hall
Evento que se repete todos os verões desde 1895, os “proms” são concertos diários de música clássica oferecidos pela BBC no Royal Albert Hall. O termo vem de “promming”, a prática de assistir aos concertos em pé. A cada apresentação, cerca de 500 ingressos são colocados à venda por 5 libras para aqueles que não se importam com as varizes, e uma fila se forma diante do teatro nas horas que antecedem o espetáculo.

Em 17 de agosto, uma homenagem ao centenário do compositor John Cage – fitas cassete e cactos são insistentemente aguardados. No dia 31, um tributo ao guitarrista cigano Django Reinhardt.

World Shakespeare Festival
http://www.worldshakespearefestival.org.uk
Abril a novembro de 2012
Festival com apresentações da companhia teatral Royal Shakespeare Company em 25 cidades pela Inglaterra. Há projetos paralelos, como o Open Stage, que dá uma chance para as trupes amadoras que queiram se apresentar no palco em Stratford-upon-Avon. Já o Globe to Globe traz todas as 37 peças do bardo interpretadas por companhias internacionais numa maratona de seis semanas, cada qual em seu idioma. Há “Tito Andrônico” em cantonês, “Trabalhos de Amor Perdidos” em língua de sinais, “Macbeth” em polonês, “Ricardo III” em chinês e duas versões de “Romeu e Julieta”: uma ambientada em Bagdá, outra no circo. (Esta última é produzida pelo Grupo Galpão, de Belo Horizonte.) A BBC também participa do festival com uma filmagem da peça “Júlio César” e quatro filmes para a TV sobre peças históricas. 

The Genius of Hitchcock
http://www.bfi.org.uk/hitchcock
Agosto a outubro
BFI London
Exibição dos 58 filmes do diretor Alfred Hitchcock, com a eventual participação de atores como Tippi Hedren e Bruce Dern. 

Mittwoch aus Licht
http:://www.birminghamopera.org.uk
22 a 25 de agosto
Argyle Works, Birmingham
A badalada ópera eletrônica do alemão Karlheinz Stockhausen terá sua estreia mundial num galpão em Birmingham, e contará com a participação de 160 artistas e um quarteto de cordas tocando em quatro helicópteros. 

Damien Hirst
http://www.tate.org.uk/modern
4 de abril a 9 de setembro
Tate Modern
Exposição das principais obras do artista britânico. 

Playing the Games
http://www.criterion-theatre.co.uk
26 de julho a 12 de agosto
Criterion Theatre
Duas semanas de espetáculos de comédia e performance com a curadoria de Stephen Fry. 

Filme: “Carruagens de Fogo” (1981)
A partir de 13 de julho, nos cinemas
Exibições da versão remasterizada do filme baseado na história verídica dos atletas olímpicos Eric Liddell e Harold Abrahams. 

Invisible: Art about the unseen
12 de junho a 5 de agosto
Hayward Gallery
Exposição de arte invisível. Está em promoção: o ingresso de 8 libras agora custa 4. 

Magnum London
http://mymagnum.co.uk
20 de julho a 5 de setembro
Stratford
Na loja da Magnum do shopping Westfield, ao lado do Parque Olímpico, é possível montar seu próprio picolé com 18 ingredientes insuspeitos, como chili, jujubas, sal e pétalas de rosa. 

Ping!
http://pinglondon.com
Até 10 de agosto
Durante seis semanas, cerca de 700 mesas de pingue-pongue estarão disponíveis na cidade, com raquetes e bolinhas. Entre os pontos turísticos onde se pode jogar tênis de mesa estão o aeroporto de Heathrow, a Leicester Square, a British Library e a Roundhouse. Na programação há também aulas, campeonatos e a visita de promessas olímpicas. 

Visita noturna ao Zoológico de Londres
http://www.zsl.org/zsl-london-zoo
Sextas-feiras das 6 às 22h
Visitas guiadas, palestras, alimentação dos animais, pintura facial, shows de música e barracas de comida e bebida. 

Visita noturna à Catedral de St. Paul
http://www.stpauls.co.uk
Segundas e sextas das 6 às 21h
Entrada gratuita para orações e visitas, acompanhadas de música de órgão. Os padres estarão à disposição, bem como os guias da catedral. Pequena oração às 20h45. 

Pato na água

Posted: 2nd agosto 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Londres 2012
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Folha de S.Paulo – Esportes
Especial Olimpíada
2 de agosto de 2012

por Vanessa Barbara

O velocista jamaicano Usain Bolt, considerado o homem mais rápido do mundo, declarou recentemente que quer se tornar jogador de futebol do Manchester United. “Sei que começaria tarde e que é uma aspiração muito grande, mas estou falando sério. O negócio é o seguinte: vi muitos desses caras jogarem e acho que posso fazer melhor.”

Bolt jogaria de ala e aproveitaria para imprimir sua velocidade ao jogo, segundo afirmou. Dá pra imaginar o corredor levando 9,5 s para sair da pequena área, sem sombra de impedimento, e chegar saltitante ao gol rival, antes que os locutores tenham tempo de informar as horas. O maior problema seria o elemento-bola, mas, resolvido esse detalhe, Bolt já pode carimbar sua carteirinha para a Copa.

O que me leva a uma boa ideia para a próxima Olimpíada: tudo seria exatamente igual. Na cerimônia de abertura, as delegações desfilariam, confraternizariam e, no dia seguinte, haveria um eletrizante sorteio. Nele, a seleção de vôlei descobre que irá representar o Brasil na canoagem slalom, e que a equipe de pentatlo moderno foi escalada para jogar handebol.

Os atletas do levantamento de peso achariam graça em ter que encarar uma coreografia de ginástica rítmica, enquanto os meninos do basquete teriam certa dificuldade em driblar um ciclista durante partida de futebol. Times masculinos seriam convocados para esportes femininos, como o nado sincronizado, e seriam obrigados a exibir toda a sua graça e malemolência aos juízes.

Estes, aliás, seriam mantidos em seus esportes, bem como os técnicos de cada modalidade, porque, afinal, a gente não está de brincadeira. Imaginem como seria edificante ver o Bernardinho explicando regras de rodízio para um judoca, enquanto Fabiana Murer se exalta e tenta saltar por cima da rede, alegando que uma boa aterrissagem vale três pontos.

Neymar, aliás, seria uma das grandes promessas na ginástica de trampolim, com suas conhecidas habilidades na queda, enquanto Ganso e Pato se dariam muito bem na natação.

Se todas as modalidades já possuem bons campeonatos mundiais e regionais, nada mais justo que a Olimpíada seja uma celebração à multidisciplinaridade e ao atleta azarão, aquele que usa a cara para frear no salto em distância, escorrega do trampolim ou atira uma flecha nos próprios pés.

Voltaríamos, assim, à época de glória da Olimpíada, quando os amadores dominavam o cenário e havia mais exemplos como o do pedreiro de Nauru, que anteontem foi eliminado em 1min10 por um uzbeque, na categoria até 73 kg do judô.

Entre as ambições de Sled Dowabobo estão se classificar para 2016 e arrumar uma namorada.

Futebol é piada?

Posted: 31st julho 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Londres 2012
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Folha de S.Paulo – Esportes
Especial Olimpíada
31 de julho de 2012

por Vanessa Barbara

“Quer dizer que o futebol na Olimpíada é uma piada? Não diga isso aos brasileiros”, recomendava a manchete do “Evening Standard” no último dia 20.

Considerado um dos esportes menos interessantes dos Jogos, o futebol tem falhado em atrair público. Uma exceção foi o duelo de anteontem entre Brasil e Belarus, em Manchester, que reuniu 66 mil pessoas – a grande maioria, brasileiros.

O fracasso em agregar os fãs habituais da Olimpíada se deve, em parte, por não se tratar de um torneio entre as seleções principais, mas entre equipes sub-23 (ao menos na categoria masculina).

A presença de seleções obscuras como Belarus, Gabão e Honduras também não ajuda, bem como a localização dos estádios, em cidades como Glasgow e Newcastle – a centenas de quilômetros de Londres. Um espectador normal da Olimpíada dificilmente irá viajar duas horas para ver um jogo de futebol.

Na semana passada, com 1 milhão de ingressos ainda disponíveis, o comitê organizador decidiu reduzir a capacidade dos estádios, bloqueando áreas inteiras e tirando de circulação metade dos bilhetes.

No primeiro jogo da seleção, quinta-feira, contra o Egito, mais da metade do Millenium Stadium estava vazia. Foram vendidos 26 mil ingressos para um espaço que comporta 75 mil pessoas, a preços médios de 30 libras (95 reais).

“Não sei o que é mais estranho, se é isso ou o casal atrás da gente com a bandeira da Finlândia”, comentou um brasileiro ao meu lado. Os patrícios compareceram em peso, ocupando as ruas de Cardiff e acenando para as câmeras. Alguém aproveitou para brandir um cartaz: “Mãe, aqui tá maravilhoso. Manda mais dinheiro”.

Durante a partida, uma menina nas imediações falou sem parar em comida: “Queria tanto comer um hot-dog agora, com uma salsicha enorme”, confessou. Dez minutos depois, perguntou ao namorado: “Sabe aquele sanduíche alemão que a gente comeu ontem?”. Ele respondeu com um resmungo. “Queria tanto um desses agora”, ela suspirou.

Mais tarde, porém, fez um comentário técnico: “Esse bandeirinha parece um caranguejo, correndo desse jeito na linha lateral”.

Um dos destaques desses dois dias de futebol masculino foi o capitão egípcio Mohamed Aboutrika. Formado em filosofia e envolvido em questões políticas e humanitárias, o meia ficou conhecido em seu país após se recusar a ganhar um salário maior do que seu colega de equipe. Entre passes perfeitos, Aboutrika certamente pôde refletir sobre a condição humana, o niilismo da existência e a redondice da bola, confundindo o juiz nos lances mais polêmicos.

Todos os atletas querem ouro, só Aboutrika quer Platão.

Primeiro a gritar

Posted: 30th julho 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S.Paulo – Ilustrada
30 de julho de 2012

por Vanessa Barbara

Na última Copa do Mundo, muita gente fez questão de comprar, em 15 vezes sem juros, um aparelho de tevê digital Full HD com tela de cristal líquido, ângulo de visualização de 178 graus e relação de contraste dinâmico de 9.000:1, de 46 polegadas.

Tudo isso para descobrir que, nos lances mais emocionantes, o porteiro do prédio gritava gol com cinco segundos de antecedência, graças a uma Telefunken analógica instalada na guarita.

De início, o atraso na transmissão digital parecia um simples incômodo. Com o tempo, ficou irritante. Mesmo os torcedores cardíacos não sofriam mais de angústia antecipatória na hora dos pênaltis: se o vizinho pobre não gritou gol na hora da cobrança é porque a bola não entrou, então não adianta se apoquentar.

A tecnologia demoliu a expectativa. Acentuou ainda mais a desigualdade social, só que de forma inversa.

O sinal digital possui um “delay” de transmissão porque precisa primeiro converter a imagem em dados, comprimi-la e só então exibi-la. Quanto maior a definição, maior o atraso, que costuma ser de três a cinco segundos em relação à boa e velha tevê analógica.

A ordem é: primeiro a analógica, depois a digital sem alta definição e, por último, a digital com HD. O sinal digital aberto também é mais rápido do que o sinal a cabo, e o via satélite perde de todos em agilidade.

Além disso, todo aparelho LCD possui um atraso inerente no processamento da imagem, o “time lag”, que pode variar de acordo com a marca e fica em torno de cinco milésimos de segundo. Uma dica que às vezes funciona é botar a tevê na configuração “modo de jogo”, desligando rotinas de pré-processamento da imagem para acelerar ligeiramente o tempo de resposta.

Ainda assim, não há jeito de resolver de forma substancial o “delay” da transmissão – só mesmo voltando para o método analógico. Segundo o blog da revista “Superinteressante”, isso pode ser obtido desconectando o cabo branco – que vem da rua – do decodificador a cabo e conectando-o diretamente à tevê na entrada “antena” ou “RF”. Em seguida, deve-se entrar no menu de configuração do aparelho e mudar o sistema de recepção para TV ou CATV.

Outra opção é esperar até dezembro de 2016, quando o governo migrará o padrão brasileiro para digital – nesse caso, todos gritarão com solidário atraso.

Pensando bem, não faz diferença: sempre vai ter um corintiano com um radinho.

Uma carta

Posted: 29th julho 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Londres 2012
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Folha de S.Paulo – Esportes
Especial Olimpíada
29 de julho de 2012

por Vanessa Barbara

Cardiff, 26 de julho

Querido,

Hoje cedo, no trem, conheci um senhor adorável de Essex. Ele reconheceu imediatamente meu sotaque galês, embora tenha sido polido o suficiente para julgá-lo quase imperceptível. Contou que havia confundido a estação de Victoria com a de Paddington e se atrasara para chegar a esta última, de onde saem os trens para Cardiff.

É um milagre que ele tenha conseguido, com o metrô do jeito que está. Na semana passada, antes mesmo de os Jogos começarem, fiquei meia hora presa num vagão, e, naquela noite, o prefeito foi à TV dizer que os trens estavam funcionando perfeitamente. Ele repetiu isso algumas vezes –não é ridículo que alguém tenha de fazer um pronunciamento dizendo que tudo vai bem?

Mas, enfim, em todo caso, o sr. Humphrys –porque era esse o nome dele– o sr. Humphrys confessou estar espantado com a má disposição dos londrinos para esta Olimpíada. Deu risada quando contei da minha camiseta oficial dos Jogos, que costumo usar aí no Japão e que não tive coragem de ostentar nas ruas daqui. Boa parte dos londrinos nem quer saber de Olimpíada.

Aliás, quando contei onde morava, ele soltou um: “Desculpe, mas acho que não ouvi direito”. Expliquei que sou professora de inglês, casada com um japonês e formada em psicologia e literatura.

Ele arregalou os olhos azuis. Me encheu de perguntas sobre o Japão e sobre as mudanças que eu percebia na Inglaterra atual. Apesar de seus 78 anos, parecia muito lúcido e bem-humorado –lembrava da Olimpíada de 1948, quando Londres se ofereceu como sede.

Foi logo após a guerra, a Europa estava em recessão e ninguém mais se prontificou. “Os atletas ficaram hospedados em alojamentos militares”, contou o sr. Humphrys, que mais tarde serviu o Exército e virou arquiteto. “O Japão e a Alemanha não foram convidados.”

Quando ele se levantou para ir ao banheiro, reparei que tinha dificuldades de andar. Costumava correr, disse, mas teve de abandonar o esporte por questões de saúde –fui educada o suficiente para não pedir detalhes. Ele tampouco perguntou a minha idade, e eu só disse que nasci após a Segunda Guerra. “Não muito depois”, expliquei, rindo.

A certa altura, ele pareceu constrangido e perguntou se aquele era o meu pé sob a mesa –olhamos para baixo e demos de cara com Charles, um pitbull branco que estava no banco de trás e lambia vigorosamente os sapatos do sr. Humphrys.

Ele desceu em Newport e nós nos despedimos cordialmente. Ao nosso lado, uma moça brasileira (aposto) estava prestando atenção demais na nossa conversa.

Saudades,
Christine

Folha de S.Paulo – Esportes
Especial Olimpíada
27 de julho de 2012

por Vanessa Barbara

Na tradicional casa de apostas Ladbrokes, as chances são de 2.012 para um de que o Monstro do Lago Ness irá aparecer no rio Tâmisa. Na William Hill, outro estabelecimento do gênero, alguém apostou US$ 23 na certeza de que um OVNI irá pairar sobre o Estádio Olímpico hoje, durante a cerimônia de abertura.

Há sérios prognósticos de que o prefeito Boris Johnson irá tropeçar enquanto estiver carregando a tocha, ateando fogo ao próprio cabelo. Chances de chover na festa: 5 para 2. Chances de a rainha correr o último trecho com a tocha e acender a pira olímpica: 500 para um.

Dirigida por Danny Boyle, a cerimônia tem sido alvo de acaloradas especulações por parte dos súditos da coroa. De confirmados, apenas o tema – a Inglaterra rural, com um cenário similar às colinas dos Teletubbies – e a identidade dos principais convidados: 70 ovelhas, 12 cavalos, dez galinhas, três vacas, dois bodes, oito gansos, dez patos e três cães. (A sentida ausência de tartarugas não foi comentada pelo porta-voz do comitê de abertura.)

Nos dois ensaios gerais, na segunda e na quarta, os participantes e voluntários receberam instruções de guardar segredo absoluto.

Ainda assim, nesta semana, o jornal “The Sunday Times” garantiu que haverá uma sequência de ação com personagens ficcionais britânicos, quando um gigantesco lorde Voldemort (vilão da série “Harry Potter”) tentará assustar Alice, o Capitão Gancho e Cruela Cruel. Mas será detido por uma série de Mary Poppins que descerão do teto com seus guarda-chuvas.

O prognóstico é divertido. Aparentemente haverá enfermeiras dançantes, Paul McCartney, “Bohemian Rhapsody” e um lago repleto de patos com licença para voar (dificilmente serão abatidos pela bateria antiaérea do primeiro-ministro).

No cenário, um sino de 23 toneladas e uma nuvem artificial para fazer chover, caso a mãe natureza dê uma de G4S (a desastrosa empresa de segurança responsável pelos Jogos) e não dê conta de suas atribuições fenomenológicas. Não se sabe, porém, qual será o destino da nuvem, caso não seja utilizada.

Baseada em “A Tempestade”, de Shakespeare, a festa durará três horas e custará 27 milhões de libras.

*

E, por falar nisso, às 8h12 – 12 horas antes da abertura –, os principais sinos do país se juntarão a uma manifestação artística promovida pelo músico Martin Creed: “Obra nº 1197: Todos os Sinos de uma Cidade Tocam o Mais Rápido e Barulhentamente Possível por Três Minutos”.

O Big Ben confirmou sua participação. Será a primeira vez que o portentoso relógio sairá de seu cronograma habitual desde o funeral do rei Jorge 6º, em 1952, quando também tocou feito louco.

 

Olimpíada pra quem tem asma

Posted: 25th julho 2012 by Vanessa Barbara in Londres 2012
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Folha de S.Paulo – Esportes
Especial Olimpíada
25 de julho de 2012

por Vanessa Barbara

No último sábado, acompanhei a passagem da tocha em Hackney, um bairro pobre da Zona Leste de Londres, onde vivem nigerianos, turcos, indianos, míopes, asmáticos e gente que não lava o umbigo. É onde estou orgulhosamente hospedada – originária do Mandaqui, na Zona Norte de São Paulo, senti-me em casa desde o primeiro dia.

Era cedo quando os populares começaram a ocupar as calçadas à espera da tocha, na esquina da Rectory com a Armhurst Road. Alguns abriram as janelas do quarto e ficaram pescoçando. Outros desceram com cadeiras e garrafas de cerveja, junto com os vizinhos e as crianças dos vizinhos.

Nervoso, um menino de dez anos mastigava compulsivamente balas de goma no formato de ovos fritos, enquanto seu irmão mais novo consultava o relógio de cinco em cinco minutos. “Já era pra ter passado”, informou uma senhora com poucos dentes. “Vai ver que roubaram a tocha”, disse o menino, completando: “Seria bem legal”. 

Entediado, um policial brincava de levantamento de peso, erguendo duas crianças pelos braços, e um garoto de uns 13 anos passava de lá pra cá num meio de transporte notável – era um praticante de hóquei em monociclo, modalidade popular em Hackney.

Alguém, ao longe, anunciou a chegada de um carro de polícia, provavelmente o batedor da tocha. “É só um carro de sorvete”, informou um dos garotos, sempre na vanguarda da visualização da esquina.

Conforme o atraso se adensava, ele perdeu a paciência: “Onde está essa tocha estúpida?”.

Em questão de instantes, três ônibus de patrocinadores rasgaram o cruzamento, distribuindo frisbees e bandeirolas com a Union Flag. Malandros, policiais de moto passaram cumprimentando a multidão com um “toca aqui”. No fim de tudo, veio o portador da tocha, um rapaz negro que arrancou reações extasiadas do popular sentado (que se levantou), da senhora sem dentes, do garoto das jujubas, de seu irmão mais novo e de uma menina cega, que por pouco não passou a enxergar.

Num arroubo de patriotismo, o rapaz brandiu o símbolo olímpico enquanto praticava um tipo pimpão de “silly running”, modalidade inspirada no grupo cômico Monty Python, que consiste em correr de forma tola e esquisita. A multidão de Hackney correu atrás – nós, os participantes mancos, míopes e asmáticos desta Olimpíada que está só começando.

P.S.: Não fomos muito longe.

Os jovens essenciais escritores

Posted: 25th julho 2012 by Vanessa Barbara in Clipping
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A antologia de novos autores brasileiros da “Granta” evitou os clichês das décadas anteriores

Folha de S.Paulo – Ilustrada
25 de julho de 2012

por Marcelo Coelho

Saem de cena os motoqueiros atropelados, o pequeno traficante morto pela PM, o barraco, o boné e o “busão”. Também desaparecem as estratégias do choque, do surrealismo e do grotesco. Nada de anões búlgaros decapitados na fila do INSS, de contorcionistas lésbicas entaladas no vaso sanitário, de papagaios cocainômanos atuando em filmes pornô de baixo orçamento.

Outro sumiço: o das noites de muito sexo e maconha ao som de Chet Baker, das discussões godardianas no Baixo Augusta, das roupas pretas e dos tênis de cano alto.

Quanto ao antigo padrão da prosa regionalista, seus coronéis e jerimuns, nem pensar – por mais que ainda pululem, nos concursos de contos, as imitações de Guimarães Rosa.

A antologia de novos autores brasileiros da revista “Granta” evitou, o que já não era sem tempo, os clichês das décadas anteriores. Praticamente não há traços da violência urbana nos textos destes escritores, nascidos depois de 1972.

O que mais aparece nos escritores da revista “Granta” é uma vida feito de cursos em Amsterdã, trabalhos para galerias de arte na Califórnia ou viagens à Rússia. É até possível matar saudades do Brasil por uns tempos, ocupando de novo o apartamento que ficou vago durante sete anos na orla carioca.

Alguns dos escolhidos trabalham como editores na Companhia das Letras ou na Cosac; outros colaboram naFolha; vários foram traduzidos para o inglês, o espanhol, o italiano e o alemão.

Natural que, com uma antologia dessas, cresça o coro dos excluídos. Se um simples convite para a Flip pode provocar sérios ataques de inveja nos meios literários, ouvem-se de longe as manifestações de agonia e desdém das dezenas ou centenas de “off-Granta”, ecoando nas páginas do Facebook.

Tinha, e tenho ainda, minhas prevenções contra essa antologia. Deixo-as para o fim.

É que, logo no começo, aparece um excelente conto de Michel Laub -sem firulas, sem frivolidades, sem “flipices”. Ou seja, não se trata de alguém encantado com o fato de ser escritor, mas sim de quem tem algo forte para contar. E que, por isso mesmo, não precisa exagerar na brutalidade narrativa, ou resolver a ausência de narrativa com atos de violência no desfecho.

Também me impressionou a contenção de Daniel Galera ao tratar, com mais ameaça do que concretização, do mesmo tema -morte e violência na família. Vanessa Barbara, uma das poucas vozes com sotaque zona norte na antologia, parece adquirir um tom mais maduro -sem tanta apelação humorística- em “Noites de Alface”.

Não é conto, mas fragmento de romance. Mesmo assim, a vida de Ada e Otto, em sua casa amarela lá pelos lados do Mandaqui, é retratada com um senso de acabamento, de desfecho, que falta a muitas páginas da antologia. Emilio Fraia, num conto estranho, e Antonio Prata, numa delicadíssima lembrança de infância, também têm esse domínio da forma curta.

Vejo que gostei mais dos autores em que o “sentimento nacional” está mais presente do que o “sentimento de globalização”, predominante na antologia. Mas, afinal, é uma seleção da “Granta”… feita, sem dúvida, já com olhos para o consumo externo.

Daí uma das minhas prevenções. O “franchising”, que antes funcionava para lanchonetes e lojas de roupa, já entrou para o mundo das galerias e museus (há Guggenheims pelos quatro cantos do mundo) e entra firme no sistema editorial.

Exemplo disso é a associação entre a Penguin e a Companhia das Letras, que chega a ter títulos quase em inglês, como “Essencial Joaquim Nabuco” (em vez de algo como “Joaquim Nabuco – Textos Essenciais”).

Com exceção de um crítico convidado, são brasileiros os responsáveis pela seleção da “Granta” em português. O que há da “Granta” inglesa nisso, exceto a marca?

Outra coisa. Naturalmente quem escolheu achou que os escolhidos foram os melhores. Mas sou dos que implicaram com o uso do termo “Melhores” na capa da edição. É fazer da capa de um livro a sua própria propaganda. Para não falar da moda, especialmente irritante, de indicar algumas edições como “o Drummond definitivo”, “o Proust definitivo”. Logo estarão dizendo “o definitivo Drummond”.

Aí, os jovens escritores brasileiros poderão passar a fazer seus contos diretamente em inglês, e não se fala mais nisso.

 

Folha de S.Paulo – Ilustrada
23 de julho de 2012

por Vanessa Barbara

“Som e Fúria” foi uma das melhores coisas que a Rede Globo já produziu, embora tenha sido breve. Veiculada em julho de 2009, a minissérie contou com doze capítulos sob a direção geral de Fernando Meirelles.

Foi dele a ideia de adaptar a premiada série canadense “Slings And Arrows” [“Pedras e Flechas”, expressão retirada do monólogo “Ser ou Não Ser”]. A obscura comédia dramática mostra os bastidores de uma companhia de teatro especializada em Shakespeare, conforme ela tem de lidar com a morte de seu diretor, atropelado por um caminhão de presunto.

A versão brasileira é praticamente uma cópia fiel do original, sobretudo no que se refere ao ótimo roteiro, escrito por Susan Coyne (dramaturga), Bob Martin (comediante) e Mark McKinney (ex-integrante do grupo cômico The Kids in The Hall, da série de TV homônima). A belíssima trilha sonora é reaproveitada, bem como os personagens, que sofrem leves alterações.

Mas há, na remontagem global, destaques impressionantes que por vezes superam a matriz canadense: a protagonista Andréa Beltrão atua de forma excepcional, bem à altura de seu parceiro de cena, Felipe Camargo. O núcleo jovem da trama, Maria Flor e Daniel de Oliveira, também surpreende.

Outro ponto alto é a versão em samba de uma das sátiras a Shakespeare, composta por Wandi Doratiotto e interpretada numa roda de boteco. “Pega leve, Hamlet, e sai dessa deprê”, diz a letra, pedindo para o príncipe relevar os atos do tio Cláudio: “Matar seu pai, pegar sua mãe/ Não foi legal/ Mas isso não é motivo pra tamanho baixo astral.”

(O músico, vocalista do grupo Premê e apresentador do “Bem Brasil”, da TV Cultura, figura em dois dos meus filmes brasileiros favoritos, “Sábado” e “Boleiros”, ou seja, deve dar sorte.)

Cecília Homem de Melo foi outra revelação no papel da secretária, com seu tom de voz fraco, inseguro e de interjeições antiquadas. Algumas das falas do personagem de Antônio Fragoso, um diretor afetado e pernóstico que salpica expressões em inglês, são bons exemplos de um texto confiado em mãos competentes.

Ainda assim, a série alcançou uma decepcionante média de 19 pontos de audiência (menos do que “Toma Lá Dá Cá”, sua predecessora) e não foi renovada. Passava às onze da noite, com grande atraso nos dias de futebol.

Resignada, a produtora O2 anunciou, no mês passado, a volta de “Som & Fúria” – só que nos cinemas.

Fraqueza, teu nome é televisão.